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sexta-feira, 22 de maio de 2015

poema de Auxilio Lacouture

eu perdi os meus dentes no altar dos sacrifícios humanos
e agora por esta boca sopra o vento nocturno que sobra à noite
o eco das suas palavras ressalta contra os mosaicos raiados pelo luar
e todas as coisas são velhas todas as coisas levam uma mão à boca
como eu para sufocar um grito de espanto ou uma confidência inoportuna

naquela noite vi-me a caminhar na direcção da casa
impelida pelo mistério que às vezes se parece com o vento
e na felicidade possível que se escondia sob as crostas da sujidade daquela casa
soube então o que soube e uma alegria frágil trémula instalou-se nos meus dias
e desde aquele dia dormir converteu-se num vício

depois acordei pensei eu sou a recordação
por isso baptizei a minha perna direita com o nome de vontade
e a minha perna esquerda com o nome de necessidade
e aguentei
parei no alto do vale e sentei-me no chão
não sabia o que ia ser da minha vida

respirei

entardecia

vi um pardal num ramo
vi um quetzal
os dois pássaros empoleirados sobre o mesmo ramo
só então me apercebi do enorme silêncio que se abatia sobre o vale
depois olhei para o abismo

o ramo estava vazio

a partir de Amuleto de Roberto Bolaño

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

ainda uma elegia a cronos



Quando, pela primeira vez, desceu
e nesse abandono estrito
da alegria que o instante gera
e entregamos o corpo ao dia, ao sol
julgamos impossível, o dilema
de olhar pela janela a réplica
e pensarmos em quantos como nós
dia por dia, um dia a seguir a outro
são apenas memória
a branquejar na terra.

Porém, estar aqui
sobre a terra sem ter para onde ir
e não há quem entenda o que dizemos
aqueles de quem nunca ouvira dizer nada

Mas o tempo guardou-me aqui
junto do seu Inferno
lucubrando em imagens literárias
entre o lilás e as rosas na janela
por onde conseguimos escapar
ao fulgor das cidades e às terras proibidas.

Resta hoje carregar o peso urbano
e o ruído que chega da distância
com o seu hálito
no calor deste outono
sem que as sombras expulsem o amor.

Por certo o desconforto de saber
o existir e morrer
em constrição contínua
em movimento célere
não se sabe para onde
na terra de ninguém, cheia de gente
e milhares de corpos que se cruzam
que tiveram, mentindo tanto que
o cemitério brilha
de repente numa arca.

A vida é de lembranças,
matéria-prima,
que me traz o conforto de a vida ser só isso:
clamores de luz, tropos de universo
palavras e palavras
para se ter o sol
e as mulheres que dançam
e deixarmos apenas cascas.
e no fim ao deitar-me
com medo que aí virá  não tarda
impossível de paz e paraíso
como a noite sucede ao dia.

Hoje encerro em palavras
salvo o peso da minha sombra
um sonho: ainda penso
de não pensar em nada nosso,
somos inteligentes cegos
um recanto de esterco e paz.

como é belo o teu rosto

cansado como estou
da minha condição horizontal
a morte afinal
seria um sacrifício inútil
sem pontos cardiais, e hoje não há
onde os mortos esquecem a alegria

E quando te perdi, fiquei sem nada
por mim, desisto, fico por aqui
o pior é que os mortos como eu
cobrem-se de amarelo e não vês.


a partir de Elegias de Cronos de Nuno Dempster, Lisboa, Edições Artefacto, 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sobre as colagens

um grande amigo, de quem prezo a sua opinião e ajuda, tem medo que eu seja mal percebido relativamente às minhas colagens, pelo que sinto em dívida um esclarecimento. porém, para começar devo esclarecer, ou melhor, colocar uma questão: por que  é que uma colagem, no campo das artes plásticas, pode ser tida como obra de arte e pela escrita não? por que é que um verso se apega tanto a um autor e um traço, uma linha, uma mancha de cor, uma figura já pode ser destacada, tirada do seu contexto e valer por si distante do seu criador?

como expliquei antes, a técnica tem a sua ascendência em dada, por um lado e, por outro, no cut-up desenvolvido por burroughs e gysin. contudo, ao contrário destes e de muitos artistas plásticos, acrescento sempre a fonte, ou a origem, o material de origem, bem como pretendo explorar um conceito apresentado por josé gil no seu livro sobre a dança, o de "atmosfera". não faço colagens de todos os poetas que li e muitos livros de poesia que me marcaram nem sequer passaram para colagens. o que me leva, então, a realizar uma colagem? não saberei dizer com toda a certeza, mas nem tudo se deve ao livro ou ao poeta; talvez mais a uma vontade de escrever, de manter a mão activa, de exercício. assim, a colagem, aqui, terá mais o valor de experimentação, puro exercício com fim artístico, uma "obra de experimentação", que tudo deve, antes de mais, ao meu fascínio adolescente - surgido nessa altura - pelas vanguardas artísticas do século xx. que não se entenda, portanto, como elogio à obra de origem; nesse sentido creio só ter realizado, com sinceridade, uma meia dúzia de colagens e o elogio, esse, não é necessário para os autores, a obra deles está aí e deve ser lida: só esse é o seu elogio, bem como o que decorre desse estranho afecto que passa e nos "obriga" a escrever por nosso lado - nesse sentido, uma colagem não provém desse tipo de afecto.

há uns anos atrás um artista plástico fez com que um computador gerasse poemas a partir, se bem me lembro e se não estou enganado, de um programa que procedia por um processo criativo aleatório segundo a poesia de herberto helder. nos dias que vivemos esse processo de colagem tem mais importância que aquele que se processa pelo "computador" que eu sou, que qualquer um é. sim é interessante, o artista e o seu computador, mas e a vida de uma pessoa, as suas experimentações e experiências longe da tecnologia mais sofisticada? que não me entendam mal, é bom que haja mais desses computadores, dessas experiências artísticas e científicas; há sempre qualquer coisa a aprender disso e, por ventura mais importante ainda, saber como pegar nessa "linha de fuga" e explorar novos territórios a fim de cumprir a promessa do homem, que nunca foi cumprida, ou somente engrandecer uma vida.

eu compreendo o meu amigo, dos poucos que, com muito acerto crítico e coragem, me diz tudo o que tem a dizer sabendo até que me magoará; ele prefere que eu me dedique "à minha poesia", que trabalhe na "minha escrita" que perder tempo com as colagens, acima de tudo porque podem ser mal interpretadas, ou seja, entendidas como um pedido, o pedido que intitula este blog - grande erro, esse título de amor a antónio gancho (vejam, é a epígrafe que abre o "ar da manhã"), este blog que não será outra coisa, por ser público, que um pedido de atenção (mas quantos amigos amigos já fiz com este blog!).

(nota: talvez fosse altura de deixar de nomear a fonte das colagens)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

fonte de mil cadernos






como será limpar o rosto depois de agosto?

em cada sopro iluminando
a cadência do mar
para construir um nome
a fazer esquecer tudo
de desviar os olhos do outro rosto
onde nada repete outro tempo,
entre a espera e o cerco
e o sorriso se abre
na demora que concentra.

a paciência conhece o tempo da espera,
a mais felina indiferença
que é o perdão
sem pressa
e a comoção sustenta
no incómodo do esforço.
a permanência das mãos

é aqui, sempre aqui
até tudo ficar esquecido
as pequenas mãos que ignoram
que as noites sejam tensas,
que aqui perdura
o que um dia será impossível
a criar memória

depois de cada agosto?


A partir de Caderno de Milfontes de Rui Almeida
2012

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

fábula




assim como o tempo passa
amassei o solo escuro
por trás de muros compactos
escarnecido, culpado
em ausência permanente
nome corpo rosto e acto

ó instrumento imperfeito
aí à beira do mundo
noite e dia escavo e corto
só uma flauta, um caminho
a marca da minha mão

ao mundo imundo o seu fim
para não morrer no mar
que me demora o desembarque

do primeiro pesadelo?
eu estou onde não vês
do teu rosto contra o meu

*

o meu saber de coisas e de mundo
o tosco esboço só de uma armadilha

fui viajar, conhecer terras, gente; um
enganado por todos e ninguém:
e quem aqui não cabe não existe
como um verso vulgar, um tanto obsceno,
onde a luz cai como uma neve fina;

talhar a noite, sombra do teu corpo
sentado à mesa chã do esquecimento.
é na pele dos dias que deslizo.
que me desata a língua mal talhada;
de boca em boca um só nome, deixado
eu que traço destinos e fronteiras
um mundo azul e negro, onde navegam
constelações, figuras improváveis,

enfim me perco em ti, voz verdadeira.

*

sempre nos separavam as circunstâncias, e a essência
rilhava os dentes prontos, e aguçava a serra.
Era mais fácil beijar-te, por falta de palavras. Tão profundo
partir de noite, em barcos clandestinos, sem deixar recado.

Nunca te parecias, nem nunca aparecias
quando já tinha tido juízo e perdido juízo,
e a voz mudando nos deixava mudos.

Desde esse dia desde esse primeiro e completo dia
as marcas distintivas de um ser humano rosto, e depois
ser ouvido pelo ouvido humano da tua boca
os dias do futuro em que serei, talvez, imagem
que está na gota mínima de orvalho
ou talvez junto ao rio, no improvável jardim

rimas triviais; já não sei o nome
que és tu e o incêndio deste campo

*

sonhei que dormias, tu, no quarto da minha infância,
com a ponta dos dedos um ombro, vá-se lá imaginar.
chamamos a isto um «privilégio», um delicado

o corpo imaginado em que dormi.

Esta noite, outra noite
em cada pensamento, em cada gesto,
vivos e completos, serenos, mortais.


A partir de Uma fábula de António Franco Alexandre
2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

a ferida dança?




Se eu soubesse dançar
à medida do tronco do tempo
se a casa tremer
palpita na mesma o coração
ao beijo, ao corpo comparecendo ao corpo
e nem tu imaginas quanto me arde
o nervo nómada, a desmesura de quem parte

sem direcção, corri para onde me levasse
e a vida não era este andar pela terra
ao longo dos séculos e mais séculos de angústia,
de previsibilidade dos dias.

podia propor-te que fugíssemos
e fugir cada um de nós para o ombro do outro
a reclamar amor,
de tanto esbarrar contra as grades.

mas a verdade é que faz parte de amar ser traído
por isso contrabandeamos paixões,
fantasiando o absurdo do dia,
pois tenho-te a ti
para oferecer à minha flor
suspirar todos os dilemas
ruborescendo a carne
petrificado, imóvel, ardente
onde de um lado eu possa sentir

um do outro, como é que explicarias
o teu caminho de regresso.

dedilho os nervos e procuro
ouço sem esmero nem glória a música do teu corpo.
dissolve-se o rastro
língua, lábios, pénis, orifício
com os dedos desastrados para os arames,
um toque ao arrepio das normas
como se fosse o elixir de qualquer coisa podre

desde então somos um só corpo
com o corpo todo a disparar desejos,
braço a braço
disposto a não estar disposto,
esplendorosamente impenetráveis
as geometrias cintilantes
pela coluna acima
morrendo para dentro de um poema.

caberá ao destino saber quem somos nós.
com a suavidade dos lírios
em cada canto da casa
até chegar ao ponto
para lá de todas as coisas definíveis
a raiva contida de todas as bestas amordaçadas.
com que me mundo nos olhos vagos dos ideais

não há direcção alguma neste olhar
volto-me para trás
com o meu sorriso de borboleta
a falar do que não importa
isso mesmo: o amor
que se cola ao perto do peito
à procura de estrelas
como o ouvido bem junto
aos teus nervos.
como se houvesse explicação
da liberdade. para sempre.
que ficou por acontecer.

como pode tão pequeno corpo
arrepiar o caminho dos meus dedos
esses olhos fantasmagóricos
mais íntimo segredo
e dizer-me ao perto a distância do teu corpo

que tudo o mais se esqueça na presença

depois do silêncio,
inscrevi-te o sangue na pele
e sinto frio. assim tão frio
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve
os músculos no interior da carne,
sujos e poluídos e corrompidos
estou-me pela terra em toda a parte
à medida que cresço para dentro de ti
parecendo-te uma coisa tão bela quanto aterradora,
todas as preocupações e todos os desafios
com todos os nossos dias contados
a voz, o corpo e a alma. por amor
todas as horas, a eternidade,
a miséria, o medo, a chama

despedida. basta-me sentir
as elegias inofensivas de uma fé
isolados do mundo, de nós próprios
corpos de água fresca, bem longe desta cidade.
em praias agasalhadas de neblina,
sobre o qual singram marinheiros
onde a alegria de viver é apenas e tão-só
beijar na boca
este mundo que não nos serve para nada,

verás que trago à boca a sede dos limites,
tenho uma flor à tua espera, uma ferida
uma casa com um jardim que pulsa
talvez conseguiremos uma muralha de pétalas
só para cheirar, amor. só para cheirar a morte.

a partir de A dança das feridas de Henrique Manuel Bento Fialho

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

a água segue




o mar não conhece as profundidades
em poemas barcos no horizonte
aqui nada tinha a encontrar
uma solução do enigma

passámos o dia em discórdia
junto à janela aberta
para onde quer que vá
por detrás assomam as palavras
recordo que me esqueci
presentes ausentes
no teu jardim

como se não sonhasse
deito os pedaços para trás de mim
na margem do outro lado
não entendo os sinais nas pedras
e as andorinhas passam alto e baixo
uma vez por outra
enquanto as horas deslizam certas
e nenhuns animais dão companhia
a madeira paciência
os clamores dia após dia

quero ficar imóvel
sei que estás presente
mas o teu rosto é tão claro
e procuro-te nas raízes das árvores
desde que partiste

viras a cabeça
se por fim digo
deixa-me sair

a partir de Sigo a água de Eva Christina Zeller

sábado, 30 de outubro de 2010

luminoso instante



quem fala
teve um fim. destruo lentamente, aos poucos,
o que nos forma.
não tinha nada para dizer.

no parapeito
apoiando as costas
começou, a tua permanência
na cabeça
meu amor, uma chama imensa,
como quem nunca chega a ver
e não perturba.

sonhos
só nas prisões existe sossego,
às vezes ainda me irrita
a trama inútil dos meus gestos.
não tenhas medo. o olhar que sobe é hesitante.
como uma relíquia com os farrapos e os cabelos grisalhos assobiando
e esse cansaço
faz nós na minha carne,
que lentamente se fecham -

por isso passeamos pouco
-pergunto,

atravessaríamos a cidade nocturna,
foram estas as palavras que me vieram ao espírito adormecido, e
nus na cama, sobre a qual batia com força o sol
como feridas luminosas
quando o nosso rosto e os nossos olhos
os sinais do teu corpo
para que eu olhe - talvez seja aí a tua morada.

a partir de Péter Zirkuli, o Instante Luminoso

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

música & cidade




a manhã com as suas proibições
para o esquecimento. um ano inteiro não será suficiente
já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em tristeza. este é o meu endereço, um lugar composto
sem luz, os quadros inacabados, a cama húmida
a dizer: nenhum futuro neste sofrimento.

parece que nunca tiveste um princípio.

nós fomos prometidos ao amor pela terna mistificação
ignorando o apelo desabrido que esbarrava
entre o logro da linguagem e as visões
por trás dos teus olhos. parecia que não bastava
medir uma distância dentro de mim próprio
para lugar nenhum. mas eu só posso fazer
entre nós
espaço que chegasse para os dois.

uma casa foi inventada para sustentar o espaço
uma coisa tão rara
ao teu lado. generosamente pousaste a mão.

uma nuvem, dois cães nas ondas de erva

devia ter sido um princípio
quando a luz veio
nos cantos da tua boca, em julho
e descompassado, viam-se algumas flores
um bom lugar para o sono. e contra isso, tu também não tens muitas hipóteses
se pudesses ver como isso às vezes me magoa.
que havíamos de ser sempre assim, como sabíamos
nos despenhadeiros da terra

no fim de tudo caminhávamos abraçados
a rotina dos subúrbios, tinham herdado a consciência
é um silêncio tão grande entre os campos de milho, quase
assustadora
a sua lenta função
que nos serve tão bem esta jornada

para ti, certamente o tempo poderia ser
o que ainda nos sobrava, o que haveria de ser
na memória, lastram por dentro os olhos, no poço
mas as ondas recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
às fundações do vale. e como parece branco o nítido inverno.

a partir de música antológica & onze cidades de rui pires cabral

terça-feira, 8 de junho de 2010

poema vertical




não sei se tudo é deus
a palavra que se diz fora do mundo,
como um amor secreto
e algo começa a contar tudo de novo a partir dessa diferença.
ou talvez o que se segue
e o ruído que sela os amores
com os olhos fechados.

um resto de olhar
o mais solto silêncio
ou talvez tão-só
o jogo fica fora de nós
essa incisão de dupla face
sonho que sonho
o resumo do ser.
o nascimento, a morte e uma flor
da solidão e da companhia
para me provar que não existe o olvido

mas a realidade já não oferece garantias
duas palavras fazem-na desaparecer.

mas para quê calar?
lembranças que não sabemos de quê, mas lembranças,
as que nunca o foram
dizer um nome de outro modo.

há que pôr o pensamento no lugar do ar
o que há entre um e um
e avançar como um deus contra as sombras
porque também os deuses
com a sensação irreprimível
até na morte
é tão-só a sua sombra

para ganhar um rosto de palavras
todas as coisas são também as primeiras
não estão em lugar nenhum
no entanto
de onde vêm estas imagens?
que não parecem erguidas
possíveis e impossíveis
de criar um lugar
lá onde ela não está.

deixa-me falar
só deus não me dói hoje.
e nesse pátio brinca um menino
também dorme
como a água descansa da água

que fique no seu repouso de texto
a espera desinteressada de toda a forma de espera
de nós mesmos

só chega ao solo
o sopro que ajudei a nascer.

a partir de Poesia Vertical de Roberto Juarroz

segunda-feira, 24 de maio de 2010

dizer isto não é certo




era imperdoável que não vissem a luz

a natureza tão justamente esquecida: o

tempo distante em que tudo era novo

nesse triste fluir a que se chama memória,

erros que sobre si deixam dobrar.


esse mundo de sombras a que também pertenço

vejo a parede branca da extensa casa,

preguiçosa imagem do segredo: porque

además, los animales irracionales afirman

as suas próprias canções

sem nenhum porquê, sem hora de razão, assim

emudecem a íntima traição

para dizer, somente, um último, um primeiro adeus.


viu tudo o que tinha feito até então:

e demorou-se com sombras no diário

demasiado pobre para

triunfo, nem uma pena nem uma penugem

me contara nada de nada, tudo estava dito, quando se

era tão novo


eu sou um bom ouvinte

mas com todos os meus bens perdidos

fui-me através dos campos

outros não

de um poeta para outro e

suspendem a ilusão da vida

nas casas acendem-se luzes. a obscuridade e

vê como ele se move na distância das janelas, nome

rosto

luz de nenhum outro mundo

quase uma rocha que desaparece

sombra que sustenta uma luz vazia

estreito charco do amor

verão

rosto: mais do que o espelho

carregado de humildade, amargura, fadiga

e vem o outono e vem o inverno. e

do lado do inverno

o nevoeiro arrefece

de natureza secreta

asa turvada de oiro que perturba os lábios

fome

sentado como quem ouve e já não escuta a

pátria

um corpo escuro

o teu deserto: esta noite,

esta noite não, velhas chamas são os fósforos

uma das coisas de que mais gosto no mundo dos vivos

cabelos do destino


ontem

a água

um fio de água, límpido, profundo

o teu corpo dentro do outro corpo

a luz da sua morte. eu sei

as penas, o depenado amor, carta após carta

ninguém se despede e todos seguem por caminhos


estou a explicar isto tudo muito mal. o deus músico

palavras. mas

quem receia escrever o findar do dia

a uma chama: as marcas do fogo, a coluna do fogo a fonte


este homem existiu, existe ainda. não lhe queria

um negro cabelo - de que perdido amante?

e não sei porque me disse ao ouvido aquela

sou eu sempre quem o vê

ouvi uma das noites deste outono

sem parar

viviam no mesmo apartamento ao ...

havia um frasco de comprimidos, tomou-os. sobre a cama esperou

mas hoje os seus nomes estão de mãos vazias.

esse homem, quem quer que fosse, vi-o

ele era a negra sombra que tanto se parece ao solitário

frágil voz,

ferrugem que maculou a juventude de sangue

e dos lábios saídos da infância

transparece a vida

de nenhuma fadiga, fome, sede

um nome sobre outro nome

um modo nítido e fugidio

sem sequer uma imagem apagada que se tenha refugiado


ainda estou vivo, apesar de enterrado

olhos não muito inteligentes, mas sensíveis, como convém

em luz, em tonalidade múltipla pelo fim da hora da

pele sobre a mais profunda água. as palavras são

relíquias tecnológicas; desenha sobre o desenho.

o incompreensível canto ficou por decifrar "não tenhas medo

espera, como se estivesse sentado, em solidão errante, entre

um charco de água afundada. voa, rápido

acesa ao favor do vento

não longe, uma velha cama de ferro

as lâminas do mar.


a partir de Não é certo este dizer de João Miguel Fernandes Jorge

quinta-feira, 15 de abril de 2010

uma canção da jukebox




não pude estar lá, confesso.
sinto-me agora ultrapassado
- tudo, enfim, falece -
túmulo de pureza, ou surda festa de enganos.
de ter ganho tudo aquilo que perdi
que devagar fomos perdendo

mas eram estas as veias
aquele sorriso enforcado
depois, e só por difícil acaso
uma certa violência
o rosto, o corpo que não foi nosso,
assim, e amante regular
a música que se afasta do teu corpo:
quando o desastre chega
ainda há quem chame a isso «juventude».

esta noite, porém, trocava a minha vida
com a exacta representaçaõ do mal
que confundi com o amor - e onde
nunca me pareceu tão tristes
os passos tidos que não demos
para o horror de estarmos vivos

enfim, sorrir. mas as lágrimas, de
óculos de escuro contorno,
de chamarmos alma ao que não existe
demolido rosto que quiseste tanto
tão urgente e impronunciável
que consiga prolongar a noite
sujando uma alegria que até na dor
- como eu diria se escrevesse fados
- nos perseguirá outra vez a vida inteira

não comprei bilhete
por estes dias sobre a terra
a morte sabe onde fica

make it rain, disse ele

foi disso que não falámos toda a noite:
há um ano, no tempo em que estávamos vivos.

a partir de Jukebox 1 e 2 de Manuel de Freitas

sexta-feira, 26 de março de 2010

última acostagem




abrir os olhos, já depois da noite
e, esquecido de todos, contemplo o plaino, em baixo,
e tudo ali vivia: o mundo descoberto
do corpo nasceu a sombra.

aqui os meus olhos esperavam que fosse brasa o céu
e não certifiquei,
que juntos hoje o mundo e eu
também sem esperança
podes tu abandonar-me.

como se eu, ao fitá-lo, o pudesse salvar.

o tempo é um mau ladrão: somente rouba ao homem
um desolado azul iluminado
que o olha e nada vê

resta-me um tempo breve
o espaço defunto de um presente
e não sei se há consolo
ou, acaso, de tão só, em mim só há surdez?
devo roubar palavras, ou inventá-las, e conceder
antes que me atirem para onde tudo está anulado,
e o corpo é só um vulto. com vida ainda nos olhos

e ali, disseram-me e eu nunca acreditei,
e sei somente
desejo de uma carne, e a alegria
de uma paixão que me transtornou.

para afirmar a vida
sai de ti e olha-te:
que é experiência e intimidade ao mesmo tempo,
e agora respiram juntos
e olha-te, com ela, na desgraça
agora que os nossos olhos sabem o que ignoravam,
a duração do mundo tão amado.

o sol, o guincho dos pássaros, os ventos
a sombra dessa noite
somente amor, sem pensamento algum,
e minha mão não queima
e estou aqui, cheios de amor os olhos
umas águas tristíssimas, hostis
irá cegar-me os olhos, e assim será
nas mãos do acaso.

o ar azul em volta da casa
e tive a experiência da felicidade
e depois de acabar, voltar ao mundo
onde o amor se acaba ainda
naquela viagem de todos para a névoa.


a partir de A Última Costa de Francisco Brines

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

último quarteto





o tempo presente e o tempo passado
apontam para um só fim, sempre presente

só posso dizer, estivemos ali: mas não sei dizer onde.
distraídos da distracção pela distracção
e abandono de todas as posses,
e tudo é sempre agora. as palavras contraem-se,
são mudadas, destruídas, restauradas, ou onde estavam
a marcar o ritmo na sua dança
com palavras e sentidos. a poesia não importa.

oh escuro escuro escuro. todos vão para o escuro
algo que disse antes. vou dizê-lo de novo.
o arrepio sobe dos pés até aos joelhos,
apesar disso gostamos de pensar
aqui ou acolá não importa
não percebo muito de deuses; mas penso que o rio
o bramido do mar
onde está o fim deles, os pescadores navegam
parece, à medida que envelhecemos,
as pessoas mudam e sorriem: mas a agonia fica.

há uma voz que entoa (embora não ao ouvido
das mulheres que viram os filhos ou maridos
a biografia pelos vincos das palmas da mão
do passado e também do futuro.

se viesses até aqui,
o pó em suspensão no ar
na hora incerta antes do amanhecer
sem resistir, pelo vento da alvorada citadina
assim encontro palavras que nunca pensei dizer
se penso, de novo, neste lugar,

quem planeou o tormento? o amor.
de momentos sem tempo. assim, enquanto a luz se extingue
e o fogo e a rosa forem um.


a partir de Quatro quartetos de T.S. Eliot

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

quartas cinzas





porque eu não espero voltar de novo
porque estas asas já não são asas para voar
que a brancura dos ossos se reconcilie com o esquecimento
onde todo o amor finda

mas dizei uma palavra
redime o tempo, redime o sonho
na terra firme, no deserto ou nas regiões pluviosas

este é o tempo de tensão entre agonia e nascimento
não consintas que eu me aparte


a partir de Quarta-feira de cinzas de T.S. Eliot

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

a suprema ficção: última nota




e por quê, senão por ti, sinto eu amor?
e ver de novo o sol com olhos ignorantes
como a manhã atira fora o puído sono e o luar.
pulsando no coração como sangue recém vindo,
disto emerge o poema: de vivermos num lugar
o canto da almofada. torces-te e um gemido
talvez só imaginado, mas bem imaginado
como um homem e uma mulher que se encontram e amam.

podemos nós construir um castelo-fortaleza-casa,
clarões. mas a apoteose não é
o inanimado, difícil rosto. quem é isso?
isto muda, aquilo muda. assim, as constantes
as cortinas com metafísica minúcia
de uma suspensão, de uma permanência, tão rígida
e então o que é próprio do êxtase acontece.
se bem visto, mas talvez, também, encarnado.
um único rosto como fotografia da sorte,
possuir no coração, ocultar e ser em nada conhecido.

a esposa, para além de esmeraldas ou ametistas,
de uma fala, feita um pouco só de língua?
os adequados amores. o tempo os escreverá.
onde a luz cai de um modo mais que sensual.
invade o quarto, adormece e é a noite.
o gasto sentimento que nada de si deixa,

cada um deve o outro tomar como sinal, curto sinal
como pinta um pintor com cor empobrecida
sob, profundamente sob, a superfície do
ser possível. deve ser possível que, com o tempo,
há um mês, um ano, há um tempo
uma coisa final por si mesma e por isso boa:
inclinada sobre o trabalho, ansiosa, contente, sozinha,
se tem que morrer, ou vive do pão da palavra que confia.


A partir de Notas para uma ficção suprema de Wallace Stevens
2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Um charco num pequeno dia




No meio de frases destruídas
onde nos sentámos rosto a rosto
onde vogava no céu da tarde
esse vento morto da janela
o meu corpo descobre no teu corpo
o torvo silêncio do outono.
ninguém mais nos vê
povoado de presságios o olhar
pousamos a boca contra a boca

dou-te uma luz de azeite para te perderes.
a sombra azul chamada céu.
a lua de verão numa polaróide.

salto da janela para o fundo:
conto os quadrados carmesim
defendem os lugares sem rumo:
abrem as portas exiladas.

da janela vê ao pôr-do-sol
um antigo rio, as últimas névoas da manhã
e a densa distância das águas
onde ele corre para se ocultar.
a neblina prestes a partir
o desejo é o limite da exclusão, uma janela.
dado a crepúsculos.

a luz separa a madrugada da manhã
fugiram de mim as criaturas
que não tinham onde ir dançar
e não haver nada, nem uma cantiga.

que sentido houve para o que aprendeste?
alguns minutos no corredor
escreve SEM SAIDA

a viscosa luz da madrugada
a manhã do dia leva a noite num fino fumo.
acordei de mãos embaraçadas nos lençóis
sobrevivem aos sonhos infantis
incerto o tempo, o lugar incerto,
adiam a morte acabando por chegar.
nesta luz urbana, coitados de nós os dois.
uma coisa de prisão saindo da penumbra.
esperas que me debruce para me empurrares
ao anoitecer o friso das roseiras
não sei de quê nem donde
canta baixinho junto da vidraça,
no reprodutivo vazio dessas aulas
a perspectiva assujeitada do lugar

o inóspito esgar do mundo não me vê.
faz de ti um estrangeiro.
não consigo, ao fim, imaginar-me morto
uma paz duradoura as paredes húmidas
livros e no fim da tarde
vou dos meus lábios para os teus,
onde o olhar escolhe como ver
e voa e canta e perde-se
«eu gosto muito de falar contigo»
a amar, a cobrirem-se de pó,
para sempre, para outro lado qualquer
escritos na parede
em flores azuis, nas outras dos cardos,

adormeces tão perto dos meus dedos
à flor do vento
e sem sentido que temi acordar-me.
só de alegria e desconhecimento
para a claridade que ninguém ainda conhecia.

era a meio da tarde, a meio
para dizermos quem éramos.
entre os meus dedos e alguns botões.
essa urgência de voltar à mesma
igual aos outros dias de noticiário.
uma gente balofa sem sobre que dizer
os impropérios antigos
com um sorriso de confeitaria
versos sofoclesianos
se não foi bem assim, foram bem assim
a terra destas árvores nocturnas

mas o ritmo dos gritos desta noite
perdem-se na água sem fim.
a seriedade voltava a fogo brando.
as horas que julgava certas.
ensacam-se na linha da aldeia e mar.
no chão, debicando restos, alguns pardais,
dia atrás de dia
inumeráveis. de quê, não sei.
tão pouco tempo, meu amor, és o meu amor.
de cada vez dizemos «já passou».


A partir de Os dias, pequenos charcos, de Joaquim Manuel Magalhães

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

poema





a princípio a mente sente-se contundida
o escuro consolida-se do azul, e apaga as janelas:

ele apreciava os acidentes, por serem governados por leis,
como bitola adequada, quer da paixão
seu próprio sustento. a sua graça
primeira dúvida entre as sombras
fronteira das nossas confluências, aparências,
apenas, mas a expressão na face: a dádiva

sob a luz crua
vai escorregando
para o outro, mas em direcção
das mescladas redundâncias de um fim de manhã
e ossos trabalham para a consumação da vontade
num abandono dos seus poderes à ilusão,
que primeiro o atravessa, depois nele se prolonga,
para aprender mais coisas
e nós já tinhamos passado por situações parecidas
para além do que é forma e identidade. fui para dentro.

entre um sonho de medo e o seu objecto.
em que tudo acabava no desabamento:
que nos surpreende os ouvidos com o mesmo tom
pelo que invejo o jeito dos seus corpos.

vivemos à superfície dos nossos corpos
ganhando o ritmo do pesadelo recorrente
ou assim parece. mas não foi colhido o aviso
a cintilante palavra de dois gumes
contudo, por que nunca o levou o céu a divagar,

e agora um nada aberto
da sua solidão
uma hesitação à entrada
é verdade: as curvas não são traços desta vista,

contudo, não devemos
apenas pelo modo como anda.
fazer falar os mortos. e os mortos falavam
a saudar a chegada da ajuda que o condenou,
que inventámos os anjos, mas não as aves,

a partir de Poemas de Charles Tomlinson

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ponte





em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
vimos a noite erguida nos teus braços.
aqui as ondas entram no crepúsculo sobre a cota reluzente;
funde o vento ao ritmo das ondas
as algas gelatinosas que se arrastam pela costa, – talvez
o teu desígnio – ainda uma praia para além do desejo!

insistente durante o sono, uma maré de vozes
– serenamente agora, antes do dia reclamar os nossos olhos
que se agitavam, dia após dia, debaixo do monte
ou é o nosso sorriso sabático e inconsciente
de ficar sem fôlego – a teu gosto… eh?

agarrando-se à infância como um jogo sem fim
(oh! noites que me levaram até ao seu corpo despido!)
que és tu, perdido no interior deste encanto sem marés?
nenhum abraço se entreabre a não ser o pungente mar,
e flancos e olhos nupciais que escondiam um orgulho dourado.
até que imortal sangrasse na madrugada.
e vi-te mergulhar para beijar aquele destino
e fizemos as nossas juras nas cercas desertas de cobalto…
mas nós – demasiado tarde ou demasiado cedo, não importa…
regressámos pelo longo trilho! escolhido na sombra
(serás um vagabundo até ao fim?)
com os olhos carregado de erva verde
rocha ameaçadora – verde – que ressoa – que afoga
e selvagens filhas do mar
(a última viagem foi uma tragédia) – onde estás
de novo caindo no silêncio, enquanto o tempo limpa
e temos o riso, ou mais lágrimas inesperadas.
novas realidades, novas ideias vagas no murmúrio aveludado
detectives terrestres do vento em patrulha de madrugada.

as estrelas raiaram os nossos olhos com antigas certezas
e isto, a tua outra mão, sobre o meu peito
sempre capaz de tudo dar até ao fim dos meus últimos dias.
nem agora ou repentinamente, – não deixes nunca que
qualquer apelo – cai inútil entre as ondas.
toda a noite a água alinhou os teus cabelos com negras
pérolas fustigam-lhe as ancas, uma chuva de fios em turbilhão.

oh chuva às sete
que confunde Março com os céus Antárcticos de Agosto
ao pôr-do-sol com uma paciência silenciosa de teias de aranha…
que revelam um novo destino a reencontrar…
passarás os dedos pelos joelhos – e desejarás estar na cama
e assim
calma

e um pouco mais vazio que antes
aqui na orla da água os ponteiros deixam cair a memória;
lançam uma resposta como se todos os barcos do mar
como saudações, despedidas – nas alturas dos planetas cintilantes
tantos casais numa única crisálida, –
murmúrios como antífonas oscilam no azul celeste


A partir de A Ponte de Hart Crane
2009

terça-feira, 18 de agosto de 2009

uma colher no rio





para mim


aqui jazo eu junto à campa
um homem cabisbaixo e de rosto cadavérico
quem me conheceu sorri
em vida eu fui o bêbado da vila
de nuvens na tempestade

no dealbar da vida eu conheci a esperança e pressenti a glória
pedaços dessa coisa medíocre
os vinhos, as mulheres, uma vida de prazeres
em muitas horas de vigília nocturna
e quem é que pode dizer
procurar os meus poemas para reuni-los em livro
todos os doentes, os feridos, os incautos
depois de assentar a cabeça e voltar à igreja
desejei ter ficado em casa e ter ido preso
pelo roubo dos porcos
a morte aos vinte e cinco

hoje o cheiro a fumo do Outono
à espera que ele saísse, mostrando primeiro
por entre a poeira levantada e os uivos de dor
quando temos essas nobres decisões
mas assim que surgiram os primeiros cabelos brancos
foi então que percebi que eu era um dos bobos da vida
por mais de vinte e quatro horas
e já não falo em adquirir mais
mas torturei esse amor, envenenei-o
é isto o que a vida tem de triste

o desgosto bateu-me à porta, mas eu tive medo
mas eu aprendi também alguma coisa acerca da vida
entre tantas outras cruzadas para purgar os pecados do povo
certa noite, morreu-me nos braços; por assim dizer
e agora, deixai-me que vos pergunte
grande é quem escreve um verso como este

e eu não sabia o que fazer. já não era capaz
se pudesse ter vivido mais um ano
quando pensam nessa coisa tão cómica a que chamam vida?
tivesse apenas descarrilado, talvez eu escapasse com vida
tragédia e comédia, verdade e valentia
podem servir-vos para algo na vida
quão difícil é, no final
a melhor fotografia que alguma vez tirei

se eu chorei ao pensar o que iria ser de mim
a eles devo tudo aquilo que fui
a puxar pela corda para sair do circulo
pela corda da pobreza
reservando os fios do amor e da amizade
por causa de uma veia rebentada no meu cérebro

mas imagina-te de cabelos brancos, curvado
de modo a conseguir chegar a casa
que eu haveria de voltar. e eu voltei.
mas uma promessa é uma promessa
e são substituídas por outras, ou então não o são
exemplos de uma tradição gloriosa
agora estou aqui para honrar
às voltas na taberna, como se a liberdade
sempre a pensar, a pensar, a pensar
com as contas, as rendas e as letras
acabou por não ter utilidade nenhuma
o que eu tinha em mente

a minha alma poderia ter sido tão serena
quando o meu pai se encontrava no leito de morte
e o que eu digo é o seguinte: se no homem existe alguma coisa
ignorando por completo a verdade
junto aos pés do velho
tu, que não foste capaz de lutar até ao fim
e por que razão nunca matei um homem
um livro
e correr campo fora
limitei-me a abanar a cabeça
que outra coisa senão o amor de deus poderia ter feito

foi isso o que secou a minha alma
e dias de tédio, e noites de terror
(coisas materiais, assim como a cultura e a sabedoria)
e porque brilham tanto esses teus olhos?
só tens uma maneira de sair deste terreiro:
um caminho, e que toda a minha errância
deixou-me sozinho, como sempre fizera.

2008
A partir de Spoon River de Edgar Lee Masters