sexta-feira, 22 de maio de 2015
poema de Auxilio Lacouture
e agora por esta boca sopra o vento nocturno que sobra à noite
o eco das suas palavras ressalta contra os mosaicos raiados pelo luar
e todas as coisas são velhas todas as coisas levam uma mão à boca
como eu para sufocar um grito de espanto ou uma confidência inoportuna
naquela noite vi-me a caminhar na direcção da casa
impelida pelo mistério que às vezes se parece com o vento
e na felicidade possível que se escondia sob as crostas da sujidade daquela casa
soube então o que soube e uma alegria frágil trémula instalou-se nos meus dias
e desde aquele dia dormir converteu-se num vício
depois acordei pensei eu sou a recordação
por isso baptizei a minha perna direita com o nome de vontade
e a minha perna esquerda com o nome de necessidade
e aguentei
parei no alto do vale e sentei-me no chão
não sabia o que ia ser da minha vida
respirei
entardecia
vi um pardal num ramo
vi um quetzal
os dois pássaros empoleirados sobre o mesmo ramo
só então me apercebi do enorme silêncio que se abatia sobre o vale
depois olhei para o abismo
o ramo estava vazio
a partir de Amuleto de Roberto Bolaño
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
ainda uma elegia a cronos
Quando, pela primeira vez, desceu
e nesse abandono estrito
da alegria que o instante gera
e entregamos o corpo ao dia, ao sol
julgamos impossível, o dilema
de olhar pela janela a réplica
e pensarmos em quantos como nós
dia por dia, um dia a seguir a outro
são apenas memória
a branquejar na terra.
Porém, estar aqui
sobre a terra sem ter para onde ir
e não há quem entenda o que dizemos
aqueles de quem nunca ouvira dizer nada
Mas o tempo guardou-me aqui
junto do seu Inferno
lucubrando em imagens literárias
entre o lilás e as rosas na janela
por onde conseguimos escapar
ao fulgor das cidades e às terras proibidas.
Resta hoje carregar o peso urbano
e o ruído que chega da distância
com o seu hálito
no calor deste outono
sem que as sombras expulsem o amor.
Por certo o desconforto de saber
o existir e morrer
em constrição contínua
em movimento célere
não se sabe para onde
na terra de ninguém, cheia de gente
e milhares de corpos que se cruzam
que tiveram, mentindo tanto que
o cemitério brilha
de repente numa arca.
A vida é de lembranças,
matéria-prima,
que me traz o conforto de a vida ser só isso:
clamores de luz, tropos de universo
palavras e palavras
para se ter o sol
e as mulheres que dançam
e deixarmos apenas cascas.
e no fim ao deitar-me
com medo que aí virá não tarda
impossível de paz e paraíso
como a noite sucede ao dia.
Hoje encerro em palavras
salvo o peso da minha sombra
um sonho: ainda penso
de não pensar em nada nosso,
somos inteligentes cegos
um recanto de esterco e paz.
como é belo o teu rosto
cansado como estou
da minha condição horizontal
a morte afinal
seria um sacrifício inútil
sem pontos cardiais, e hoje não há
onde os mortos esquecem a alegria
E quando te perdi, fiquei sem nada
por mim, desisto, fico por aqui
o pior é que os mortos como eu
cobrem-se de amarelo e não vês.
a partir de Elegias de Cronos de Nuno Dempster, Lisboa, Edições Artefacto, 2012
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
sobre as colagens
domingo, 26 de fevereiro de 2012
fonte de mil cadernos
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
fábula
assim como o tempo passa
amassei o solo escuro
por trás de muros compactos
escarnecido, culpado
em ausência permanente
nome corpo rosto e acto
ó instrumento imperfeito
aí à beira do mundo
noite e dia escavo e corto
só uma flauta, um caminho
a marca da minha mão
para não morrer no mar
que me demora o desembarque
do teu rosto contra o meu
o meu saber de coisas e de mundo
o tosco esboço só de uma armadilha
enganado por todos e ninguém:
e quem aqui não cabe não existe
como um verso vulgar, um tanto obsceno,
onde a luz cai como uma neve fina;
sentado à mesa chã do esquecimento.
é na pele dos dias que deslizo.
que me desata a língua mal talhada;
de boca em boca um só nome, deixado
eu que traço destinos e fronteiras
um mundo azul e negro, onde navegam
constelações, figuras improváveis,
sempre nos separavam as circunstâncias, e a essência
rilhava os dentes prontos, e aguçava a serra.
Era mais fácil beijar-te, por falta de palavras. Tão profundo
partir de noite, em barcos clandestinos, sem deixar recado.
quando já tinha tido juízo e perdido juízo,
e a voz mudando nos deixava mudos.
as marcas distintivas de um ser humano rosto, e depois
ser ouvido pelo ouvido humano da tua boca
os dias do futuro em que serei, talvez, imagem
que está na gota mínima de orvalho
ou talvez junto ao rio, no improvável jardim
que és tu e o incêndio deste campo
sonhei que dormias, tu, no quarto da minha infância,
com a ponta dos dedos um ombro, vá-se lá imaginar.
chamamos a isto um «privilégio», um delicado
em cada pensamento, em cada gesto,
vivos e completos, serenos, mortais.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
a ferida dança?
Se eu soubesse dançar
à medida do tronco do tempo
se a casa tremer
palpita na mesma o coração
ao beijo, ao corpo comparecendo ao corpo
e nem tu imaginas quanto me arde
o nervo nómada, a desmesura de quem parte
sem direcção, corri para onde me levasse
e a vida não era este andar pela terra
ao longo dos séculos e mais séculos de angústia,
de previsibilidade dos dias.
podia propor-te que fugíssemos
e fugir cada um de nós para o ombro do outro
a reclamar amor,
de tanto esbarrar contra as grades.
mas a verdade é que faz parte de amar ser traído
por isso contrabandeamos paixões,
fantasiando o absurdo do dia,
pois tenho-te a ti
para oferecer à minha flor
suspirar todos os dilemas
ruborescendo a carne
petrificado, imóvel, ardente
onde de um lado eu possa sentir
um do outro, como é que explicarias
o teu caminho de regresso.
dedilho os nervos e procuro
ouço sem esmero nem glória a música do teu corpo.
dissolve-se o rastro
língua, lábios, pénis, orifício
com os dedos desastrados para os arames,
um toque ao arrepio das normas
como se fosse o elixir de qualquer coisa podre
desde então somos um só corpo
com o corpo todo a disparar desejos,
braço a braço
disposto a não estar disposto,
esplendorosamente impenetráveis
as geometrias cintilantes
pela coluna acima
morrendo para dentro de um poema.
caberá ao destino saber quem somos nós.
com a suavidade dos lírios
em cada canto da casa
até chegar ao ponto
para lá de todas as coisas definíveis
a raiva contida de todas as bestas amordaçadas.
com que me mundo nos olhos vagos dos ideais
não há direcção alguma neste olhar
volto-me para trás
com o meu sorriso de borboleta
a falar do que não importa
isso mesmo: o amor
que se cola ao perto do peito
à procura de estrelas
como o ouvido bem junto
aos teus nervos.
como se houvesse explicação
da liberdade. para sempre.
que ficou por acontecer.
como pode tão pequeno corpo
arrepiar o caminho dos meus dedos
esses olhos fantasmagóricos
mais íntimo segredo
e dizer-me ao perto a distância do teu corpo
que tudo o mais se esqueça na presença
depois do silêncio,
inscrevi-te o sangue na pele
e sinto frio. assim tão frio
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve
os músculos no interior da carne,
sujos e poluídos e corrompidos
estou-me pela terra em toda a parte
à medida que cresço para dentro de ti
parecendo-te uma coisa tão bela quanto aterradora,
todas as preocupações e todos os desafios
com todos os nossos dias contados
a voz, o corpo e a alma. por amor
todas as horas, a eternidade,
a miséria, o medo, a chama
despedida. basta-me sentir
as elegias inofensivas de uma fé
isolados do mundo, de nós próprios
corpos de água fresca, bem longe desta cidade.
em praias agasalhadas de neblina,
sobre o qual singram marinheiros
onde a alegria de viver é apenas e tão-só
beijar na boca
este mundo que não nos serve para nada,
verás que trago à boca a sede dos limites,
tenho uma flor à tua espera, uma ferida
uma casa com um jardim que pulsa
talvez conseguiremos uma muralha de pétalas
só para cheirar, amor. só para cheirar a morte.
a partir de A dança das feridas de Henrique Manuel Bento Fialho
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
a água segue
o mar não conhece as profundidades
em poemas barcos no horizonte
aqui nada tinha a encontrar
uma solução do enigma
passámos o dia em discórdia
junto à janela aberta
para onde quer que vá
por detrás assomam as palavras
recordo que me esqueci
presentes ausentes
no teu jardim
como se não sonhasse
deito os pedaços para trás de mim
na margem do outro lado
não entendo os sinais nas pedras
e as andorinhas passam alto e baixo
uma vez por outra
enquanto as horas deslizam certas
e nenhuns animais dão companhia
a madeira paciência
os clamores dia após dia
quero ficar imóvel
sei que estás presente
mas o teu rosto é tão claro
e procuro-te nas raízes das árvores
desde que partiste
viras a cabeça
se por fim digo
deixa-me sair
a partir de Sigo a água de Eva Christina Zeller
sábado, 30 de outubro de 2010
luminoso instante

quem fala
teve um fim. destruo lentamente, aos poucos,
o que nos forma.
não tinha nada para dizer.
no parapeito
apoiando as costas
começou, a tua permanência
na cabeça
meu amor, uma chama imensa,
como quem nunca chega a ver
e não perturba.
sonhos
só nas prisões existe sossego,
às vezes ainda me irrita
a trama inútil dos meus gestos.
não tenhas medo. o olhar que sobe é hesitante.
como uma relíquia com os farrapos e os cabelos grisalhos assobiando
e esse cansaço
faz nós na minha carne,
que lentamente se fecham -
por isso passeamos pouco
-pergunto,
atravessaríamos a cidade nocturna,
foram estas as palavras que me vieram ao espírito adormecido, e
nus na cama, sobre a qual batia com força o sol
como feridas luminosas
quando o nosso rosto e os nossos olhos
os sinais do teu corpo
para que eu olhe - talvez seja aí a tua morada.
a partir de Péter Zirkuli, o Instante Luminoso
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
música & cidade

terça-feira, 8 de junho de 2010
poema vertical

segunda-feira, 24 de maio de 2010
dizer isto não é certo

era imperdoável que não vissem a luz
a natureza tão justamente esquecida: o
tempo distante em que tudo era novo
nesse triste fluir a que se chama memória,
erros que sobre si deixam dobrar.
esse mundo de sombras a que também pertenço
vejo a parede branca da extensa casa,
preguiçosa imagem do segredo: porque
además, los animales irracionales afirman
as suas próprias canções
sem nenhum porquê, sem hora de razão, assim
emudecem a íntima traição
para dizer, somente, um último, um primeiro adeus.
viu tudo o que tinha feito até então:
e demorou-se com sombras no diário
demasiado pobre para
triunfo, nem uma pena nem uma penugem
me contara nada de nada, tudo estava dito, quando se
era tão novo
eu sou um bom ouvinte
mas com todos os meus bens perdidos
fui-me através dos campos
outros não
de um poeta para outro e
suspendem a ilusão da vida
nas casas acendem-se luzes. a obscuridade e
vê como ele se move na distância das janelas, nome
rosto
luz de nenhum outro mundo
quase uma rocha que desaparece
sombra que sustenta uma luz vazia
estreito charco do amor
verão
rosto: mais do que o espelho
carregado de humildade, amargura, fadiga
e vem o outono e vem o inverno. e
do lado do inverno
o nevoeiro arrefece
de natureza secreta
asa turvada de oiro que perturba os lábios
fome
sentado como quem ouve e já não escuta a
pátria
um corpo escuro
o teu deserto: esta noite,
esta noite não, velhas chamas são os fósforos
uma das coisas de que mais gosto no mundo dos vivos
cabelos do destino
ontem
a água
um fio de água, límpido, profundo
o teu corpo dentro do outro corpo
a luz da sua morte. eu sei
as penas, o depenado amor, carta após carta
ninguém se despede e todos seguem por caminhos
estou a explicar isto tudo muito mal. o deus músico
palavras. mas
quem receia escrever o findar do dia
a uma chama: as marcas do fogo, a coluna do fogo a fonte
este homem existiu, existe ainda. não lhe queria
um negro cabelo - de que perdido amante?
e não sei porque me disse ao ouvido aquela
sou eu sempre quem o vê
ouvi uma das noites deste outono
sem parar
viviam no mesmo apartamento ao ...
havia um frasco de comprimidos, tomou-os. sobre a cama esperou
mas hoje os seus nomes estão de mãos vazias.
esse homem, quem quer que fosse, vi-o
ele era a negra sombra que tanto se parece ao solitário
frágil voz,
ferrugem que maculou a juventude de sangue
e dos lábios saídos da infância
transparece a vida
de nenhuma fadiga, fome, sede
um nome sobre outro nome
um modo nítido e fugidio
sem sequer uma imagem apagada que se tenha refugiado
ainda estou vivo, apesar de enterrado
olhos não muito inteligentes, mas sensíveis, como convém
em luz, em tonalidade múltipla pelo fim da hora da
pele sobre a mais profunda água. as palavras são
relíquias tecnológicas; desenha sobre o desenho.
o incompreensível canto ficou por decifrar "não tenhas medo
espera, como se estivesse sentado, em solidão errante, entre
um charco de água afundada. voa, rápido
acesa ao favor do vento
não longe, uma velha cama de ferro
as lâminas do mar.
a partir de Não é certo este dizer de João Miguel Fernandes Jorge
quinta-feira, 15 de abril de 2010
uma canção da jukebox

não pude estar lá, confesso.
sinto-me agora ultrapassado
- tudo, enfim, falece -
túmulo de pureza, ou surda festa de enganos.
de ter ganho tudo aquilo que perdi
que devagar fomos perdendo
mas eram estas as veias
aquele sorriso enforcado
depois, e só por difícil acaso
uma certa violência
o rosto, o corpo que não foi nosso,
assim, e amante regular
a música que se afasta do teu corpo:
quando o desastre chega
ainda há quem chame a isso «juventude».
esta noite, porém, trocava a minha vida
com a exacta representaçaõ do mal
que confundi com o amor - e onde
nunca me pareceu tão tristes
os passos tidos que não demos
para o horror de estarmos vivos
enfim, sorrir. mas as lágrimas, de
óculos de escuro contorno,
de chamarmos alma ao que não existe
demolido rosto que quiseste tanto
tão urgente e impronunciável
que consiga prolongar a noite
sujando uma alegria que até na dor
- como eu diria se escrevesse fados
- nos perseguirá outra vez a vida inteira
não comprei bilhete
por estes dias sobre a terra
a morte sabe onde fica
make it rain, disse ele
foi disso que não falámos toda a noite:
há um ano, no tempo em que estávamos vivos.
a partir de Jukebox 1 e 2 de Manuel de Freitas
sexta-feira, 26 de março de 2010
última acostagem

abrir os olhos, já depois da noite
e, esquecido de todos, contemplo o plaino, em baixo,
e tudo ali vivia: o mundo descoberto
do corpo nasceu a sombra.
aqui os meus olhos esperavam que fosse brasa o céu
e não certifiquei,
que juntos hoje o mundo e eu
também sem esperança
podes tu abandonar-me.
como se eu, ao fitá-lo, o pudesse salvar.
o tempo é um mau ladrão: somente rouba ao homem
um desolado azul iluminado
que o olha e nada vê
resta-me um tempo breve
o espaço defunto de um presente
e não sei se há consolo
ou, acaso, de tão só, em mim só há surdez?
devo roubar palavras, ou inventá-las, e conceder
antes que me atirem para onde tudo está anulado,
e o corpo é só um vulto. com vida ainda nos olhos
e ali, disseram-me e eu nunca acreditei,
e sei somente
desejo de uma carne, e a alegria
de uma paixão que me transtornou.
para afirmar a vida
sai de ti e olha-te:
que é experiência e intimidade ao mesmo tempo,
e agora respiram juntos
e olha-te, com ela, na desgraça
agora que os nossos olhos sabem o que ignoravam,
a duração do mundo tão amado.
o sol, o guincho dos pássaros, os ventos
a sombra dessa noite
somente amor, sem pensamento algum,
e minha mão não queima
e estou aqui, cheios de amor os olhos
umas águas tristíssimas, hostis
irá cegar-me os olhos, e assim será
nas mãos do acaso.
o ar azul em volta da casa
e tive a experiência da felicidade
e depois de acabar, voltar ao mundo
onde o amor se acaba ainda
naquela viagem de todos para a névoa.
a partir de A Última Costa de Francisco Brines
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
último quarteto

distraídos da distracção pela distracção
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
quartas cinzas

porque estas asas já não são asas para voar
que a brancura dos ossos se reconcilie com o esquecimento
onde todo o amor finda
mas dizei uma palavra
redime o tempo, redime o sonho
na terra firme, no deserto ou nas regiões pluviosas
este é o tempo de tensão entre agonia e nascimento
não consintas que eu me aparte
a partir de Quarta-feira de cinzas de T.S. Eliot
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
a suprema ficção: última nota

e ver de novo o sol com olhos ignorantes
como a manhã atira fora o puído sono e o luar.
pulsando no coração como sangue recém vindo,
disto emerge o poema: de vivermos num lugar
o canto da almofada. torces-te e um gemido
talvez só imaginado, mas bem imaginado
como um homem e uma mulher que se encontram e amam.
podemos nós construir um castelo-fortaleza-casa,
clarões. mas a apoteose não é
o inanimado, difícil rosto. quem é isso?
isto muda, aquilo muda. assim, as constantes
as cortinas com metafísica minúcia
de uma suspensão, de uma permanência, tão rígida
e então o que é próprio do êxtase acontece.
se bem visto, mas talvez, também, encarnado.
um único rosto como fotografia da sorte,
possuir no coração, ocultar e ser em nada conhecido.
a esposa, para além de esmeraldas ou ametistas,
de uma fala, feita um pouco só de língua?
os adequados amores. o tempo os escreverá.
onde a luz cai de um modo mais que sensual.
invade o quarto, adormece e é a noite.
o gasto sentimento que nada de si deixa,
cada um deve o outro tomar como sinal, curto sinal
como pinta um pintor com cor empobrecida
sob, profundamente sob, a superfície do
ser possível. deve ser possível que, com o tempo,
há um mês, um ano, há um tempo
uma coisa final por si mesma e por isso boa:
inclinada sobre o trabalho, ansiosa, contente, sozinha,
se tem que morrer, ou vive do pão da palavra que confia.
A partir de Notas para uma ficção suprema de Wallace Stevens
2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Um charco num pequeno dia
onde nos sentámos rosto a rosto
onde vogava no céu da tarde
esse vento morto da janela
o meu corpo descobre no teu corpo
o torvo silêncio do outono.
ninguém mais nos vê
povoado de presságios o olhar
pousamos a boca contra a boca
dou-te uma luz de azeite para te perderes.
a sombra azul chamada céu.
a lua de verão numa polaróide.
salto da janela para o fundo:
conto os quadrados carmesim
defendem os lugares sem rumo:
abrem as portas exiladas.
da janela vê ao pôr-do-sol
um antigo rio, as últimas névoas da manhã
e a densa distância das águas
onde ele corre para se ocultar.
a neblina prestes a partir
o desejo é o limite da exclusão, uma janela.
dado a crepúsculos.
a luz separa a madrugada da manhã
fugiram de mim as criaturas
que não tinham onde ir dançar
e não haver nada, nem uma cantiga.
que sentido houve para o que aprendeste?
alguns minutos no corredor
escreve SEM SAIDA
a viscosa luz da madrugada
a manhã do dia leva a noite num fino fumo.
acordei de mãos embaraçadas nos lençóis
sobrevivem aos sonhos infantis
incerto o tempo, o lugar incerto,
adiam a morte acabando por chegar.
nesta luz urbana, coitados de nós os dois.
uma coisa de prisão saindo da penumbra.
esperas que me debruce para me empurrares
ao anoitecer o friso das roseiras
não sei de quê nem donde
canta baixinho junto da vidraça,
no reprodutivo vazio dessas aulas
a perspectiva assujeitada do lugar
o inóspito esgar do mundo não me vê.
faz de ti um estrangeiro.
não consigo, ao fim, imaginar-me morto
uma paz duradoura as paredes húmidas
livros e no fim da tarde
vou dos meus lábios para os teus,
onde o olhar escolhe como ver
e voa e canta e perde-se
«eu gosto muito de falar contigo»
a amar, a cobrirem-se de pó,
para sempre, para outro lado qualquer
escritos na parede
em flores azuis, nas outras dos cardos,
adormeces tão perto dos meus dedos
à flor do vento
e sem sentido que temi acordar-me.
só de alegria e desconhecimento
para a claridade que ninguém ainda conhecia.
era a meio da tarde, a meio
para dizermos quem éramos.
entre os meus dedos e alguns botões.
essa urgência de voltar à mesma
igual aos outros dias de noticiário.
uma gente balofa sem sobre que dizer
os impropérios antigos
com um sorriso de confeitaria
versos sofoclesianos
se não foi bem assim, foram bem assim
a terra destas árvores nocturnas
mas o ritmo dos gritos desta noite
perdem-se na água sem fim.
a seriedade voltava a fogo brando.
as horas que julgava certas.
ensacam-se na linha da aldeia e mar.
no chão, debicando restos, alguns pardais,
dia atrás de dia
inumeráveis. de quê, não sei.
tão pouco tempo, meu amor, és o meu amor.
de cada vez dizemos «já passou».
A partir de Os dias, pequenos charcos, de Joaquim Manuel Magalhães
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
poema

o escuro consolida-se do azul, e apaga as janelas:
ele apreciava os acidentes, por serem governados por leis,
como bitola adequada, quer da paixão
seu próprio sustento. a sua graça
primeira dúvida entre as sombras
fronteira das nossas confluências, aparências,
apenas, mas a expressão na face: a dádiva
sob a luz crua
vai escorregando
para o outro, mas em direcção
das mescladas redundâncias de um fim de manhã
e ossos trabalham para a consumação da vontade
num abandono dos seus poderes à ilusão,
que primeiro o atravessa, depois nele se prolonga,
para aprender mais coisas
e nós já tinhamos passado por situações parecidas
para além do que é forma e identidade. fui para dentro.
entre um sonho de medo e o seu objecto.
em que tudo acabava no desabamento:
que nos surpreende os ouvidos com o mesmo tom
pelo que invejo o jeito dos seus corpos.
vivemos à superfície dos nossos corpos
ganhando o ritmo do pesadelo recorrente
ou assim parece. mas não foi colhido o aviso
a cintilante palavra de dois gumes
contudo, por que nunca o levou o céu a divagar,
e agora um nada aberto
da sua solidão
uma hesitação à entrada
é verdade: as curvas não são traços desta vista,
contudo, não devemos
apenas pelo modo como anda.
fazer falar os mortos. e os mortos falavam
a saudar a chegada da ajuda que o condenou,
que inventámos os anjos, mas não as aves,
a partir de Poemas de Charles Tomlinson
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
ponte

vimos a noite erguida nos teus braços.
aqui as ondas entram no crepúsculo sobre a cota reluzente;
funde o vento ao ritmo das ondas
as algas gelatinosas que se arrastam pela costa, – talvez
o teu desígnio – ainda uma praia para além do desejo!
insistente durante o sono, uma maré de vozes
– serenamente agora, antes do dia reclamar os nossos olhos
que se agitavam, dia após dia, debaixo do monte
ou é o nosso sorriso sabático e inconsciente
de ficar sem fôlego – a teu gosto… eh?
agarrando-se à infância como um jogo sem fim
(oh! noites que me levaram até ao seu corpo despido!)
que és tu, perdido no interior deste encanto sem marés?
nenhum abraço se entreabre a não ser o pungente mar,
e flancos e olhos nupciais que escondiam um orgulho dourado.
até que imortal sangrasse na madrugada.
e vi-te mergulhar para beijar aquele destino
e fizemos as nossas juras nas cercas desertas de cobalto…
mas nós – demasiado tarde ou demasiado cedo, não importa…
regressámos pelo longo trilho! escolhido na sombra
(serás um vagabundo até ao fim?)
com os olhos carregado de erva verde
rocha ameaçadora – verde – que ressoa – que afoga
e selvagens filhas do mar
(a última viagem foi uma tragédia) – onde estás
de novo caindo no silêncio, enquanto o tempo limpa
e temos o riso, ou mais lágrimas inesperadas.
novas realidades, novas ideias vagas no murmúrio aveludado
detectives terrestres do vento em patrulha de madrugada.
as estrelas raiaram os nossos olhos com antigas certezas
e isto, a tua outra mão, sobre o meu peito
sempre capaz de tudo dar até ao fim dos meus últimos dias.
nem agora ou repentinamente, – não deixes nunca que
qualquer apelo – cai inútil entre as ondas.
toda a noite a água alinhou os teus cabelos com negras
pérolas fustigam-lhe as ancas, uma chuva de fios em turbilhão.
oh chuva às sete
que confunde Março com os céus Antárcticos de Agosto
ao pôr-do-sol com uma paciência silenciosa de teias de aranha…
que revelam um novo destino a reencontrar…
passarás os dedos pelos joelhos – e desejarás estar na cama
e assim
calma
e um pouco mais vazio que antes
aqui na orla da água os ponteiros deixam cair a memória;
lançam uma resposta como se todos os barcos do mar
como saudações, despedidas – nas alturas dos planetas cintilantes
tantos casais numa única crisálida, –
murmúrios como antífonas oscilam no azul celeste
A partir de A Ponte de Hart Crane
2009
terça-feira, 18 de agosto de 2009
uma colher no rio

aqui jazo eu junto à campa
um homem cabisbaixo e de rosto cadavérico
quem me conheceu sorri
em vida eu fui o bêbado da vila
de nuvens na tempestade
no dealbar da vida eu conheci a esperança e pressenti a glória
pedaços dessa coisa medíocre
os vinhos, as mulheres, uma vida de prazeres
em muitas horas de vigília nocturna
e quem é que pode dizer
procurar os meus poemas para reuni-los em livro
todos os doentes, os feridos, os incautos
depois de assentar a cabeça e voltar à igreja
desejei ter ficado em casa e ter ido preso
pelo roubo dos porcos
a morte aos vinte e cinco
hoje o cheiro a fumo do Outono
à espera que ele saísse, mostrando primeiro
por entre a poeira levantada e os uivos de dor
quando temos essas nobres decisões
mas assim que surgiram os primeiros cabelos brancos
foi então que percebi que eu era um dos bobos da vida
por mais de vinte e quatro horas
e já não falo em adquirir mais
mas torturei esse amor, envenenei-o
é isto o que a vida tem de triste
o desgosto bateu-me à porta, mas eu tive medo
mas eu aprendi também alguma coisa acerca da vida
entre tantas outras cruzadas para purgar os pecados do povo
certa noite, morreu-me nos braços; por assim dizer
e agora, deixai-me que vos pergunte
grande é quem escreve um verso como este
e eu não sabia o que fazer. já não era capaz
se pudesse ter vivido mais um ano
quando pensam nessa coisa tão cómica a que chamam vida?
tivesse apenas descarrilado, talvez eu escapasse com vida
tragédia e comédia, verdade e valentia
podem servir-vos para algo na vida
quão difícil é, no final
a melhor fotografia que alguma vez tirei
se eu chorei ao pensar o que iria ser de mim
a eles devo tudo aquilo que fui
a puxar pela corda para sair do circulo
pela corda da pobreza
reservando os fios do amor e da amizade
por causa de uma veia rebentada no meu cérebro
mas imagina-te de cabelos brancos, curvado
de modo a conseguir chegar a casa
que eu haveria de voltar. e eu voltei.
mas uma promessa é uma promessa
e são substituídas por outras, ou então não o são
exemplos de uma tradição gloriosa
agora estou aqui para honrar
às voltas na taberna, como se a liberdade
sempre a pensar, a pensar, a pensar
com as contas, as rendas e as letras
acabou por não ter utilidade nenhuma
o que eu tinha em mente
a minha alma poderia ter sido tão serena
quando o meu pai se encontrava no leito de morte
e o que eu digo é o seguinte: se no homem existe alguma coisa
ignorando por completo a verdade
junto aos pés do velho
tu, que não foste capaz de lutar até ao fim
e por que razão nunca matei um homem
um livro
e correr campo fora
limitei-me a abanar a cabeça
que outra coisa senão o amor de deus poderia ter feito
foi isso o que secou a minha alma
e dias de tédio, e noites de terror
(coisas materiais, assim como a cultura e a sabedoria)
e porque brilham tanto esses teus olhos?
só tens uma maneira de sair deste terreiro:
um caminho, e que toda a minha errância
deixou-me sozinho, como sempre fizera.
2008
A partir de Spoon River de Edgar Lee Masters

