terça-feira, 27 de setembro de 2016

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Casa Escura



Esta é uma casa escura, muito grande.
Fi-la eu própria,
Cela a cela de um canto silencioso,
Mastigando o papel cinzento,
Exsudando as gotas de cola,
Soprando, serpeando os meus ouvidos,
Pensando noutra coisa qualquer.

Tem tantas caves,
Tantas cavidades de enguia!
Sou rotunda como uma coruja,
Vejo pela minha própria luz.
Mais dia menos dia paro cachorros
Ou dou à luz um cavalo. A minha barriga move-se.
Tenho de fazer mais mapas.

Estes túneis medulares!
De espada em punho, como o meu caminho.
O tagarela lambe os arbustos
E as panelas de carne.
Ele vive num velho poço,
Um buraco empedrado. É dele a culpa.
Ele é um tipo gordo.

Cheiros de seixo, quartos de nabo.
Respiram pequenas narinas.
Humildes pequenos amores!
Frívolos, desossados como narizes,
É morno e tolerável
No intestino da raiz.
Eis uma mãe de peluche.


in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

domingo, 25 de setembro de 2016

Peter Wolf Crier - Hard as Nails




Hard smiles Softest voice
Toes they touch the carpet steps
Out the door into the breasts
of you
Vagrant Queen...
Show my hands to warmest touch
Whispering as you dress me up a new bride
to be
Down the isle our side walk calls
A clergy of empty cars
Cold night
Silent priest

Clearing cracks walking tall
Promise you the moon and stars
climbing rooftops of shopping malls
Big you Little me
Sharing tricks and secret trades through the fields
Where shadows play their games
A toast to youth upon the school unto the halls
Write our names upon the walls

Our flag flying free
Our land not to keep

Bare feet, maroon soles leading us back to my room
Behind the shed I offer you my name but you refuse

Kindly watch over me mary mother saint to be

Kindly watch over me mary mother saint to be

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Cartas de Hamburgo IV

a proibição tinha lugar pelo jardim
abriam-se porém adendas ao fechar dos olhos
mão enrodilhada na certeza e o tempo
afundando os arroios do rosto
aí espelhou-se o lamento rangente de árvores
um timbre harmonizado com o tambor do corpo

de entre a lama e erva azul de gelo pespontava
a brutalidade do amarelo e branco de narcisos
a nervosa segurança de coelhos e esquilos julgando
os teus passos o fungar o aroma do batôn
cerzidor da fenda do inverno nos lábios
moldados para o beijo o silêncio o chamamento

também outros animais te observam
e vigiam os gestos com medo e desagrado
são como tu mas não retribuis a interrogação
buscas a familiaridade e segues sereno de olhar
perdido em aterragens de patos nos esforços da galinhola preta
mergulhada nas águas desses falsos lagos de superfície vidrada

o mofante riso das cotovias e o saltitar dos destemidos
corvos alegram-te o passeio pelo parque
estes momentos são-te importantes dizem-te
ser este o caminho do desnudamento começando
por te livrares do peso do julgamento do outro
até que a trama da mão se alargue a todo o corpo

ao saíres és confrontado com a suja rudeza
do alcatrão cintilante de vidro e beatas cuspo e vómito
o patético fausto das luzes da dome as buzinas a vozearia
os encontrões e os ainda mais inquisidores olhares ensurdecedores
forçando-te a esquecer e desistir dos alvitres do amor e do futuro
ao longo das ruas de Sainkt Pauli até à montanha de Hamburgo

passas pela efémera ainda presa no seu instante
com ranho a escorrer numa pose de estátua de Gomorra
sobes os degraus de madeira e linóleo vibrando sob o peso da música
interminável e nessa casa de empréstimo aguardas a sua chegada
e do embate da rua o seu olhar e o mundo que és nasce uma resiliência
aderindo e cercando o nó enrodilhado da certeza na mão

domingo, 7 de agosto de 2016

Quem


O mês da floração terminou. O fruto está plantado,
Comido ou apodrecido. Eu sou só boca.
Outubro o mês do armazenamento.

Esta cabana é bolorenta como o estômago da mamã:
Velhas ferramentas, pegas e presas ferrugentas.
Estou em casa aqui entre cabeças mortas.

Deixem-me sentar num vaso,
As aranhas não darão conta.
O meu coração é um gerânio impedido.

Se ao menos o vento deixasse os meus pulmões em paz.
O pau-para-toda-a-obra cheira as pétalas. Elas florescem de cabeça para baixo.
Chocalham como arbustos de hidrângeas.

Consolam-me cabeças moldadas,
Pregadas ontem às vigas:
Cativos que não hibernam.

Cabeças de couve: púrpura bichento, brilho prateado,
Uma indumentária de orelhas de burro, couro bafiento, mas de âmago verde,
As suas veias brancas como gordura de porco.

Oh a beleza do uso!
As abóboras laranjas não têm olhos.
Estes corredores estão cheios de mulheres que se julgam pássaros.

Esta é uma escola aborrecida.
Sou uma raiz, uma pedra, um vómito de coruja
Sem sonhos de qualquer tipo.

Mãe, tu és a única boca
Da qual eu seria a língua. Mãe da outridade
Come-me. Bocejo de caixote do lixo, sombra de vão de portas.

Eu disse: devo lembrar-me disto, ser pequena.
Havia tão grandes flores,
Púrpura e rubras bocas, completamente amorosas.

Os aros das hastes das amoras fizeram-me chorar.
Agora iluminam-me como uma lâmpada.
Durante semanas lembro nada de nada.


in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

domingo, 31 de julho de 2016

Cartas de Hamburgo (III)

considerai as efémeras e sua loquacidade
a emergência vital por sobre as águas
bailado de instante em sua potência
de olhos distorcidos posso dizer é isto
esta enchente de corpos seguindo
a prédica de Sankt Pauli
a vida tem dois momentos
o entardecer e a aurora entre sexta e domingo

deixo-me ficar sentada no patamar povoo
o público e o privado ou o meu e o vosso mundo
atento aos passos moendo dentes
sendo senão garrafas estilhaçadas sob os pés
estrelas irradiantes à luz passageira
o babelismo da rua acode-me emudecem-me
as seduções e o asco de quem me observa
na oscilação do longe ao perto

nunca estou tão por dentro
como quando a química me enleva
numa homeostasia de pequenas percepções
leio cada mínima variação dos poros
a temperatura as dilatações da menina-do-olho
todos os signos de um outro alfabeto
desenrolando-se em silêncio e no escandecer
dos corpos pela minha vista de muybridge

sou o arco sobre o qual assenta a ponte
da realidade o frio a tremura conhecem-me
a pouco e pouco toda e agora mais sou o sentido
dos sentidos da história da vida do pensamento
estou além escutem considerai
as efémeras à medida que o coração descobre
a linha tendendo para o zero e a manhã
chega no canto da sereia

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cartas de Hamburgo (cont.)

II

desafiei a verticalidade inerente ao género
ergui braços para envolver o mundo dar sombra
ao caminhante atear a chama dos sonhos do cérebro
de uma criança ser morada do rato pardo
do esquilo do corvo respigador

os meus séculos anelares suportam-se de tanto
desejo com hastes de aço mártires e amantes
inscreveram com estilete ou chama as suas promessas
muitas delas hoje estão junto do meu coração
ou calam-se esperando o vento como mensageiro

vi impávida pacífica neutra
a ascensão e queda do terror
e permaneço ainda atenta ao que perdura
disfarçado como o outono pelos lábios
das folhas no entardecer do verão

tenho o dever de preservar a dinâmica dos pulmões
e tantas de mim se deram ao milagre da escrita pública
persisto no parque da cidade menos esquecida
por esta mão falando por mim enquanto de si
anseio as minhas raízes se ponham a andar

Informação - Lançamento de "Narrativa" de Paulo da Costa Domingos


sábado, 2 de julho de 2016

Informação - Alberto Pimenta nas Leituras do Gato Vadio, 2 de Julho, 17h00

O quinto ciclo das Leituras do Gato Vadio termina com Alberto Pimenta.

No próximo sábado, 2 de Julho, pelas 17h00, chega ao fim o quinto ciclo das Leituras do Gato Vadio, com uma sessão dedicada a Alberto Pimenta.

A convidada é a Leonor Figueiredo e a imagem da leitura é de Luís Nobre, dos Lina&Nando.

Gato Vadio fica na Rua do Rosário, 281, no Porto.
entrada é livre.

terça-feira, 21 de junho de 2016

António Osório - passagem subterrânea



Admirável quem perante o relâmpago não diz: a vida foge.

Bashô


          Aqui tens,
cedo-te a minha alma.
          Não digas: a vida foi efémera.

          Tenta escrever em mim,
papiro aninhando em água
          suas raízes.

          Falarei por ti
de trezentos anos, menos de insecto
          rastejante, sob a terra.

          Entra, ouve,
aquece a tua esteira,
          produza cada palavra um deus.

          Escondamo-nos neste espantalho:
apossa-te do mendigo cego,
          do crânio desafiado pelos pássaros.

          Bom que não temam,
poisem sobre nós, saibam
          que vivemos entre fantasmas.

          O espantalho: máscara
de ambos, possessa
          de um, dois crucificados.

          E analfabetos da noite,
depauperados por ventos, névoas,
          a sombria irradiação lunar.

          Olha em redor:
vinhas por abelhas pungidas,
          deixemo-las saciar.

          E um caracol suba por nós dois,
percorrer-nos-ia a sua pele
          íntima, feminina.

          Agora utiliza esta passagem subterrânea
aqui em Paris sob o Arco do Triunfo
          onde desejei ouvisses um jovem cantando.

          No torso da viola,
colete de salvação, transporta a sua, a minha,
          a tua incomunicável melancolia.

          Traz a tua esteira
e ouve este jovem, longe dos canhões de Austerlitz
          a sua voz digna de teus versos.

          Ele não diz: o deus está ausente,
as folhas mortas amontoam-se
          e tudo está deserto.

          Canta ainda procurando
o impossível, a fenda luminosa.
          Sai e segue o seu caminho.


in Décima Aurora, parte: Outra face


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Duas irmãs de Perséfone


Duas raparigas há: dentro da casa
Uma senta-se; a outra, fora e sem.
Ao longo do dia um dueto de sombra e luz
Joga-se entre estas.

No seu quarto de lambril
A primeira resolve problemas numa
Máquina matemática.
Secos estalidos marcam o tempo

Enquanto ela calcula cada soma.
Nesta estéril empresa
Um ar de rato astuto corre pelo seu estrabismo,
Um tom de raíz empalidece a sua escassa moldura.

Bronzeada como a terra, a segunda descansa,
Ouvindo estalidos soprando ouro
Como pólen no ar claro. Embalada
Junto a uma cama de papoilas,

Ela vê como as suas sedas rubras fulguram
De pétalas sanguíneas
Abrindo-se à queimadura das lâminas do sol.
Nesse altar verde

Livremente se torna a noiva do sol, a outra
Cresce rapidamente com sementes.
Deitada em relva no seu ofício orgulhoso,
Ela porta um rei. Tornada amarga

E pálida como qualquer limão,
A outra, retorcida virgem até ao fim,
Segue em direcção à tumba com carne ao dependuro,
Verme-matrimoniado, mas não uma mulher.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

domingo, 5 de junho de 2016

cartas de hamburgo

I

 nada aqui falta excepto um encordoamento
 de afinidades
 a casa leva o seu tempo
 ergue-se da secura de lágrimas
 um lago de sal vertido
 enche-se de empréstimos
 doações objectos indesejados e a barca
 que nela aporta sobe e desce o canal
 sôb bátega vento ou tímida estrela
 atravessou já países em cada a desilusão
 se plantou no casco fungo em árvore
 alastrando as suas fibrilas até estrangular
 com paciência a via da vida

 voga e vai vazia nas vagas
 nenhuma amarra a sustém
 caronte não pesa nas suas tábuas
 ficou na margem guiando barcos de papel em poças
 em cada inscreve um nome que se dilui
 amigo pai mãe irmão irmã mortos
 nomes como deus ar no oco do corpo
 ou batida da língua nos dentes com sopro sibilado
 tanto a carregar no porão e vai cheio de nada
 e o poema que se escreve é uma onda que recorda
 as falsas despedidas prolongando as declarações
 com a duração do momento
 fósforo para a noite da esperança

sexta-feira, 20 de maio de 2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A escrita do amor por entre quartos e corredores (fim)

4.
há o tempo que passa pelo corpo
da raiz afectuosa ao mapa das escoriações
e outro pelo pensamento sussurrando-nos
uma falsa idade tão verdadeira
quanto é a justa palavra dizendo a imprecisa emoção

por dentro dos nossos olhos nessa treva a íntima
e inacessível diáfana imagem de cada um
está na sua plena juventude
e eu tenho-te assim de duas maneiras
e tu três idades: a que eu vejo sendo
a tua natividade expandindo-se
aquela que te vês sentindo-te
e essa intermédia névoa cobrindo-te
resultado de estranha alquimia do coração
e te veste com a perdida glória
revelando que a decadência do corpo
é a frágil atractiva natureza das coisas
a beleza sem artifícios e o contínuo toque do homem

e vamos pela corrente impossibilitados de suspender
a passagem da vida que tudo atravessa
e olhando-nos o espanto pelos rostos envelhecendo
toma o meu e o teu se houver tal coisa como o amor

hoje sou mais do que aquele que outrora conheceste
não olhes pois para trás para esse caminho pisado
vão-se aluindo as casas a história
aperta-se na sua trama
não haverá nunca recomeço só o que pesa
se sente mais suportável menos desgostoso
as máscaras bem ajustadas o futuro despido

sei que haverá um instante em que todos os corpos
e tempos e imagens por fim se reconhecem
virá por um brilho de miragem como por um
sopro fremindo as superfícies nivelando água
e terra num mesmo horizonte ondeado
como as praias ao fim da tarde e o vento arruma a vista
para o violeta medeando noite e dia

a vida começa aí numa variação de ritmos e síncopes
ondulações sovando estes corpos do estômago à garganta
e o pensamento faz-se limite aéreo de uma morada
escura e selvagem atormentada pelo fundo feminil
de teus olhos e faz-se igualmente anjo de duplo traço a néon
pirilampo que me guiará após a tua morte
através da memória onde jazes num banho a ouro
sombreando o tranquilo argênteo mar

tu
esse instante que foi uma singularidade irrepetível
e se unindo a mim o gesto de quem se tocou tocando
de quem se escolheu a ser escolhido
para tornar outra a vida
partilhando tudo o que se queria até a rotina
o enquadramento de uma coreografia dos corpos
em que a dança procura o encontro para a grafia da pupila
por onde o mundo presta vassalagem para se arquivar em nós

e eu
ser-te-ei ainda um mistério
como quando tu me surges ao despertar
ou serei frio fogo e pálido céu de descontentamento
anúncio indício do fim
lançarás ainda a fateixa dos teus braços
ancorando este bote à deriva neste mar

e não respondendo sair-te-á ainda a fúria
pelos teus olhos fulminando-me com o silêncio
guiando e ditando-me os meandros do medo
enrolar-te-ás numa concha afundando-te noutra
dimensão como revirado olho de furacão
aspirando a que fique desaparecendo e ascenda
à ausente presença dos anjos e deus
e perdido por estes corredores e quartos
grave o amor escrito noutras páginas
quando a tua mão se apertar noutra

e após a tua partida definitiva se eu permanecer
diz-me como farás chegar a resposta a
quem te ama e não acredita noutro mundo
e tempo senão o da partilha
quanto dura um coração no escuro
de nenhum porto uma despedida
quantos dias faz
quanto mais de vida é preciso perder
no luto
e o acontecimento de tu ou eu
qual a sua palavra ou escrita quando
somente se pode fechar o espaço pelo toque

Fridenand Axt Brombeerstrauch

terça-feira, 22 de março de 2016

A escrita do amor por entre quartos e corredores III

se a linguagem é um dom sabes não ter nada a dizer
(escreve-se pelo silêncio e ao lado de todas as palavras)
mas como percorrer o labirinto do teu pensamento
avolumando-se sem que te percas para sempre entre letras
sons imagens palavras brotando imprevistamente
onde também tu habitas como signo de amor
revelando-me vias ou sendo o farol que me guia

o sentido é um fio de ariana a caminho e escuto
o fluxo na cadência do sangue correndo no cavername
de olhos iluminados busco o contorno ileso
do que se está a formar dentro de mim
e tantas vezes a porta aberta aos fantasmas
onde valsas entre eles tu a única mulher real

inseguro penso peso evoco emudeço
quando estás pequenas coisas duram a eternidade
por isso sustenho as lembranças
guardo-as para habitar a casa plena de tua ausência
cogito a decisão de reviver esta ou aquela cena
o dia corre lento como qualquer outro dia e tão (e)terno
passa por ti juntando-se a todas as horas
por fim sentas-te (vê onde pões os pés
há demasiada fragilidade no mundo e
na memória) escolhe-te inesperadamente
a da janela à qual retornas e onde os dois
se conheceram intimamente pela primeira vez
selando os rostos num beijo de lenta aproximação
intumescendo todos os teus lábios e o sangue
bombeou na jugular e em todos os meus canais

acontecimento de já outrora tentada inscrição na eternidade
e que poucos lerão mas retorno
aí inevitavelmente como sempre volto
ao teu corpo mal te apresentas num vaivém mareado
surtindo um efeito doppler nos sentimentos
em que todo eu na tua aproximação sinto
a voluptuosidade de uma atracção grave
quando nem ainda carne na carne
encontrando as suas covas depressões montes
restando uma mínima distância que se agudiza
nas tuas partidas aí se esboça a dissonância
do tempo do coração e suas variantes batidas

e é verão talvez fazendo frio por tudo
o que é interior
e de nenhures ouço um grilo
junta o seu corpo ao caos
eis a dádiva de um ritmo
acompanha na passada a infância
que vai cingindo-te um nervoso nó
e os dentes gravilham impacientes
(tens tempo não tens tempo)
enquanto sobe aos lábios a melopeia
de terras morenas e azinheiras
passo a passo (de um ao outro
promessas e gestos a con(tra)dizer
como ruminando falhas
ou o que foi dito mais do que fôra devido)

esta ruína move-se por entre corredores
e quartos arrastando os pés
enlodando-se em infatigáveis predações
Actéon viciado na vingança de Artémis
voltando não para mudar a memória
persistindo para o nosso riso e tristeza
mas para lentamente crendo ainda no tempo
pelas suas mãos e gestos levar a mulher
a amá-lo pela escrita digam-me que mais pode
fazer um homem na sua maturidade

domingo, 20 de março de 2016

Ouija



É um deus frio, um deus de sombras,
Sobe até ao copo vindo da sua negra profundidade.
À janela, esses não-nascidos, esses inacabados
Agregam com a débil palidez das traças,
Uma fosforescência invejosa nas suas asas.
Cinábrios, bronzes, cores do sol
No carvão o fogo não os irá consolar completamente.
Imaginem a sua funda fome, funda como as trevas
Pelo calor sanguíneo que os marcaria ou reclamaria.
A boca do copo chupa o calor sanguíneo das ponta dos meus dedos.
O velho deus baba, em resposta, as suas palavras.

O velho deus, também ele, escreve poesia áurea
Em modos baços, vagueando pelos restos,
Franco cronista de cada imunda decadência.
A idade, e anos de prosa, desenrolou
A sua conversa de redemoinho, mitigou o seu excessivo temperamento
Quando palavras, como gafanhotos, martelaram o ar a enegrecer
E deixaram as espigas a chocalhar, limpas até ao tutano.
Céus que uma vez vestiram um azul, de altura divinal
Desfiam sobre nós, descida enevoada,
Engrossando com pó, até a um casamento com a lama.

Ele louva a rainha carunchosa de cabelo de açafrão
Que tem afrodisíacos mais salgados
Que lágrimas de virgens. Essa devassa rainha da morte,
Os seus mensageiros vermiformes estão aos seus ossos.
Todavia ele louva sumos dela, fervente nectarina.
Eu vejo-o, de pele dura e resistente, traduzir
Seixos impiedosos que o arado revira
Como ponderáveis provas do seu amor.
Ele, como um deus, tremendo, soletra
Não sucinto como Gabriel destas cartas
Mas floreadamente, as suas nostalgias amorosas.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

terça-feira, 15 de março de 2016

A escrita do amor por entre quartos e corredores II



recomeço (tendo-te perdido com as palavras)
sou uma pequena máscara expandida ao corpo
começando pelo osso já longe do mundo vai o mundo
e eu com ele como em brisa recomeço sempre
uma e outra vez sem que me reconheça porque
sempre alguma coisa escapa (sempre me escapou) e seguindo
procuro redimir o furto de gestos gastos gozos
persigo um mistério que pressinto sem nunca saber
as palavras para o dilucidar sei no entanto ser
minha a culpa (esse odioso sentimento religioso)
a impossibilidade de o dizer (ainda não começaste
a escrever para ti) ou escutar-te profundamente
porque também tu fazes parte dele devo aprender a
deixar à sombra de nada o que sou e me inibe
de me ligar indefeso ao desejo que demora a sobrevir
à ilha que és tu tal como eu sou sabendo
estarmos unidos por um istmo que almejo
se torne um continente terra onde te encontras
antes e depois e já nela sem o saberes
estreito adensando-se com a deposição de palavras e poemas
mas escrevendo este e outros a página permanece em plena secura

(e por que lado o mundo se inunda tornando a distância abarcável
para toda a vez até cingir ao peito o fumo e o fogo e a nova rosa 
do desastre os avanços incontrolados do tempo e das atitudes do homem
mas repara como há basto mistério no estar vivo neste afogado inferno que nos aparte)

ergues a tua mão e numa carícia derriscas do meu rosto
os rastos do que vivi e desconheces esbatendo a fronteira
e enfim o teu entra na morada que sou e deixando-te percorrer-me
sei-te estratega de um lar habitando uma casa vagabundeando
o olhar por este corpo que à noite quase te sufoca
haverá um dia que nem o teu olhar se tornará para o meu
a felicidade vergar-se-á ao tempo
as mãos segurarão outras ou os artefactos do dia-a-dia
perdendo-se nos gestos fechando-te a boca

faz a promessa verdadeira a única que não se cruza
sobre o coração e dele arreda a mentira
e ainda segurando-me o rosto dizes –
não permitas do entre-nós um conhecimento entediante
bem-estar de nenhuma palavra
encontra para cada dia um desassossego
coloca o mundo em gonzos chiantes
para reconhecermos a sua aproximação
e faz do ofício mal-amado a oficina que do futuro te dá uma certeza

domingo, 6 de março de 2016

A escrita do amor por entre quartos e corredores

1.
é sempre um retorno à memória que aqui me traz
o debater de uma imagem vibrando de afectos
soltando-se da sua rede até tomar conta do espaço
em que habitas dentro do meu peito

lá fora trovejava como as despedidas nos corações
e segurando entre mãos o teu rosto pelos teus lábios
rodava a língua – são estas ou outras
palavras perdidas que me visitam no empoado espelho
onde te refletes e nada foi nada terá sido e amarrado
pelo ouvido Ulisses se ilude e somente sofro uma recaída

neste vício da escrita – a cama revolta e olhos
fechando-se para o dia antes da partida de Abril
lembro ainda como as mãos enovelando-se
desteciam dedo a dedo a tremura
do teu corpo – por ele subia
uma onda rebatendo pelas falésias que são as gargantas
emudecidas e era o teu nome com raiz de estrela que soçobrava
todos os outros nomes que tornaram o meu rosto uma espera
e a pele uma escrita oferecida à vida e ao toque do teu corpo

e assim crava-se fundo a tua imagem
como a adaga de um terrível amor
no anonimato antropófago dos lençóis
e escrevo tarde e a tinto a letra para encurtar
a distância entre o oeste onde o mar
murmura justo à cama ao centro da planície onde
avanças como uma vanguarda abrindo caminho ao futuro
(o meu o teu por vir) enquanto me alapo às tuas costas
seguindo as tuas pegadas que se afastam

a vida que tento numa escrita permanece
desconhecida é só mais um tijolo na muralha
de papel um nome no barro onde os dedos mergulham
misturando memória imagens o gosto
(escreve escreve) de cifrar um mundo
ligando palavras ou vidas como tu por exemplo
tu e a cicatriz na palma da mão os desgostos aluados
sob o olho e tu a ruga ao canto da boca e tu de novo
e tu (sendo agora eu a mim que falo) jazerás na fronteira
anónimo onde nunca teu nome na muralha de papel terra de pó

quinta-feira, 3 de março de 2016

Informação - Javier Tomeo nas Leituras do Gato Vadio, sábado, 5 de Março

"Histórias Mínimas", de Javier Tomeo, nas Leituras do Gato Vadio, 5 de Março, 17h00.


Sábado, 5 de Março, pelas 17h00, as Leituras do Gato Vadio recebem Isaque Ferreira para ler e conversar sobre "Histórias Mínimas", de Javier Tomeo.

A imagem da leitura é da autoria de Luís Nobre, dos Lina&Nando.

Agradecemos a sua presença e apoio na divulgação desta sessão.

O Gato Vadio fica na Rua do Rosário, 281, no Porto.
A entrada é livre.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

De Berlim a Lisboa XII

Lisboa, Sesimbra

tanto foi o desejo e a espera para chegar
a esse lugar que em nós foi a idade do ouro
e o romance que nos enlevou nos nossos primeiros dias
nesta cidade e depois a vila e casa e aqui chegados
o frio e o cinzento que fundam a solidão do inverno
acobardaram o sol que nos ardia e a memória ainda vibrante
esse vírus que nos consome sempre um pouco mais os restos
de uma sacralidade que nem o cínico escapa de procurar proteger

estávamos ambos desgastados desta dupla viagem
foi afinal meia europa cruzada para oeste por terras
montes planícies e rios e várzeas e pântanos e terrenos
florestas e campos silvestres entre o lado da montanha
e o lado do mar e tantas variações de cores vidas línguas
chuva vária grossa miúda pontuada vaporosa
sol abrasivo ou oculto apanhado nos olhos que se fechavam
ou no dorso onde as mãos aconchegavam as vértebras

céu aberto ou nubladamente coberto ou rasgado por milagres
enquanto por dentro tudo se aprofundava e se fazia mais longínquo
vinte e poucos dias dobrados no tempo duro vertiginoso de uma queda
tendo também nós as nossas paragens em lugares diferentes
numa outra europa noutras cidades do mundo
continentes da nossa mais interna geografia
espaços que eram o sentido da proximidade gravítica do outro
ou cavando uma distância que a mão tocando a do outro não encurtava

outras vezes ainda esbatendo o corpo num território como só a dança
de estrelas ou buracos negros com suas poeirentas extremidades
seus limites estelares aliados num abraço numa nova entidade no imenso
universo poderia dar uma imagem que ainda falha a sua representação
mas aqui conheci a breve loucura amámo-nos e odiámo-nos com a subtil brutalidade
das palavras pedras imateriais provando a real porosidade da pele
fomos estranhos e estrangeiros a familiares e amigos mais presentes
quando aqui não estávamos e nos cobravam a ausência em gramas de saudade

tudo ou quase se eclipsou e fez-se silêncio nas nossas bocas e cegaram-se os olhos
ao choro pela exaustão da fala e da escuta deprimida pela desilusão
tornando-nos ainda mais impacientes aos gestos amorosos às solicitações e apelos
para arredar o estupor ensombrecendo-nos experimentámos caminhar para escapar
ao isolamento de uma estância balnear empobrecida e irrecuperável e só acolhendo
as ondas ao longo das dunas da lagoa de albufeira ou do meco e um castelo que aguarda
o nosso casamento para quando todos em melhores dias a par dos nossos sonhos
porque por aqui tudo se perdeu e nos ocámos com a frustração desfigurando-nos

e exaustos pela aventura corrida ao gosto do vento sem plano e guia
perdidos ao tempo e durações embatendo contra a realidade e o carro noutro
fomos tomados por um turbilhão de sentimentos e caímos desamparados
cada vez mais dentro e ninguém viu ou vê ainda nem um ao outro até já estarmos
cada um próximo do ponto sem retorno mas que nos resta senão uma louca
crença de que o amor e com ele o futuro nos dará com que rir
quando tudo relembrarmos um ao outro coincidindo finalmente os mapas
e as vias dos encontros e desencontros desta vadiagem marcados nos nossos rostos

nunca é tarde afinal para uma decisão e o tempo sabemo-lo é volúvel e dúctil
a temer só temos o que é interno isolando-se até ser intransponível e calado
não é o momento que vale a pena antes a provocação em cada agora
para o acontecimento de um e do outro e do que nos une e vai para além de nós
ainda aqui estamos e ainda tentamos para lá de todas as distâncias que nunca faltarão
e os lugares que nos prendem de si não escapam só pela imaginação mudam
eu e tu e tu somos nódulos de linhas cruzadas ligando uns e outros e tempos e espaços
até ao adeus o silêncio ou de tal forma enrodilhados que só resta esperar o beijo da aranha

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Choramingas



Deitada em colchão de lama sob o signo da bruxa
Num aperto de sangue, a virgem faladora-adormecida
Enforca com a sua maldição o homem da lua,
Manel porta-feixe no seu ovo intacto:

Chocado com um barril de tinto para despejar
Ele tudo reina, entretecido pelo umbigo a nenhum gemido,
Mas ao preço de uma pele cerzida
Raparigas de ancas pendulares compram cada perna branca.


in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

domingo, 14 de fevereiro de 2016

De Berlim a Lisboa XI

Bragança, Porto

ficava suspensa e'spelhada
a planura de chuva e língua
onde nós não quiséramos medrar
havia um projecto a cumprir
traçando entre realidade
e desejo um território
fomos nómadas pelas estradas
do granito órfão entregue ao
esquecimento e retornando
lentamente à língua usada
quando só a voz no pensamento
ou para refregar o coração

tu denodavas o desânimo
ártico e pelos passos sob o
sol vi o teu corpo enlevar-se
e o sorriso ostracizado
abrir-se doando as pérolas
assisti um novo nascimento
esperança fora da mortalha
onde este amor se acercou
como testemunha amparando
a mão moribunda ou prestes a
abandonar-se a seu lado em
exaustão decidida mas nunca

lancei a toalha ao chão senão
para me desnudar a teus olhos
eis dois lázaros solevantados
sacudindo os trapos mórbidos
da tristeza e do fastio para
conquistar a invicta ao chegar
buscámos valhacouto no monte
cativo um menor paraíso
tornado aos poucos um inferno
roubando-nos a privacidade
suspendendo a intimidade
pedida pelos corpos sedentos

primeiro e depois com o comum
mal-entendido que prevalece
sendo o oposto um acaso
porém entre tormentas vogámos
pelas colinas de casas baixas
palacetes e ruelas onde
estava o lar de uma outra
vida que teremos noutro mundo
entre o rio e eléctricos
bebemos ao que virá e passou
preparámos a ceia sabendo
próxima a última etapa

domingo, 7 de fevereiro de 2016

De Berlim a Lisboa X

Valladolid, Burgos

o tempo deixou aqui a sua pátina
uma terra infértil onde caminham corvos
gralhas debicando altivos os restos da revolução
do arado exumando restos de ossos palha
cascas de sementes ou carochas
necrófagas pelo lixo de plástico
sacos garrafas latas as armas
da nossa arrogância e ódio à natureza

do céu uma morrinha incansável livrando burgos
aos seus e a nós esfomeados e com o dever
para com as nossas sombras igualmente necessitadas
de pisar o chão ou dar à terra com que criar nova vida
tal como em château-thierry subimos para junto das águias
e do alto sobrevoámos pelo miradouro a vista
até sermos tomados pela vertigem do feio
que o tempo dirá de outro modo

não havendo mais que a vontade sustivesse ou a paciência nos pedisse
seguimos o embalo de uma pressa que nos tomava conta e com subtileza
ditava as novas regras do jogo estendendo-se por esse território que é
o corpo cansado pelas expectativas goradas nos percursos tortuosos
percorridos lentamente perfazendo uma lonjura interminável
ainda hoje palmilhada e iniciada antes desta viagem
impondo os nossos encontros e desencontros
os mesmos e outros silêncios

como os de nenhuma resposta e esperar a chegada do sol
uma chave uma hora enfim permitindo que nos dispamos destas
roupas e espinhos e encontremos por momentos nessa casa
de catálogo uma bonança quando tantos quilómetros ainda
nos separam do destino e esta ansiedade dobra o mundo mal
nos deixa respirar ou imergir por inteiro nessa estranha luz
envolvendo valladolid ou o parque junto ao rio onde nos saiu a multa
por ocuparmos demasiado espaço no pouco tempo que ficámos