segunda-feira, 19 de novembro de 2018

visões da serra

1
ela vai sempre adiante
abre o caminho a passo de desejo
e curiosidade          a cada volta
o mesmo é novo porque há
a miríade do outro

como se eu fôra cego
abriu-me os olhos ao rato
esquivo que joga às escondidas
a toupeira cega pequena Dédalo
cujas patas são mãos e dá
vontade de cumprimentar num aperto
afável         o esquilo onda de fogo
vermelho que abrasa a vista
o coelho medroso célere fodilhão
produtor de chocapic natural
que aprecia         o veado de nádegas brancas
em saltos elásticos como molas de
carne e pelugem à procura de deus
o javali que lhe enche o coração
e os sonhos de uma caça infinita

se a soltasse           por instantes
                   desta corda que a mim me prende
a ela          vê-la-ia de arpão em baleeiro batel
e para rimar chamar-me-ia Ismael

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

nada nunca é dito

poucas coisas são puras
no mundo          certos cristais
a vida           indefinida e impessoal
          para lá de toda a religião e ciência
e raros instantes
em que os dois            mergulhados
no que se diria a mais total porcaria
suor          saliva          fluidos sexuais
eliminando o atrito separatista da carne
                        se suspendem num aperto sufocante
os olhos dentro dos olhos
afirmando a absoluta presença
de um do outro
oh haecce haecce
és tu-és tu
e lágrimas escorrem pelos rostos
como por máscaras fúnebres
lentas gotas de cera de uma vela acesa
e nada nunca é dito para este
mútuo entendimento
o sentido não tem necessidade
deste poema          apenas a memória
como certeza da existência de ti
e de ti e da pureza da mais pura
mistura          que é o amor

Nils Frahm & Woodkid - Winter morning II (featuring Robert De Niro)

sábado, 3 de novembro de 2018

Informação - Revista três três número 8, lançamento



"No próximo dia 17 de novembro, sábado, pelas 16h, a revista três três lança o seu oitavo número, sob o tema "Autor". Será no bar Toca da Onça, em Caldas da Rainha. Temos a honra de contar com João Bonifácio Serra a apresentar esta edição.

Contamos com todos!

Um abraço 

-- Os Coordenadores editoriais --"

(participo com um poema)

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

lua nova

abatemos como animais moribundos
tantas possibilidades          sabotamos
cada porta aberta e em esperança
deixamos uma frincha de janela
em ensejo           para um outro
se queixar da corrente de ar

olha          quanta beleza se reserva
na parte mais obscura da noite
se sobre ela permitires a queda de um
pouco da tua luz

sábado, 20 de outubro de 2018

Galway Kinnell - O chamamento através do vale do não saber (fim)


5

Desse tempo numa prisão do Sul,
quando o xerife, enquanto me injuriava
e cuspia, tomou a minha mão na sua, balançou
as espirais a partir das polpas
e as arcadas em tenda num reino tornado tabu, essa subvida
onde os canários do sangue cantam, esmagou
as flores-de-carne
no livro sujo do
registo policial, depois do que me lembro mais
foi a atenção, a quase amorosa
gentileza animal da sua mão na minha.

Melhor que qualquer um de nós, ele conhece
a severidade desse cubículo
no inferno para onde te lançam
com todos os teus desejos não reduzidos, e sem qualquer corpo para os aplacar.

E quando ele próprio flutua dali para fora
num mar que quase começa a se lembrar,
flutua rumo a umas trevas que já conheceu;
quando o gemido do vento
e o arfar dos pulmões se chamam um ao outro por entre as ondas
e o desejo de flutuar
acaba por não interessar nada à medida que ele se afunda,

será assim tão impossível pensar
que ele sonhará de volta com todas as mãos pretas e brancas
que tomou nas suas
tal como a criação
lhe toca uma última vez em todo o seu corpo?


6

Supõe que fiquei
com essa mulher de Waterloo, supõe
que nos encontrámos numa colina chamada de Safa, no nosso próprio país,
que nos deitámos na relva
e olhámos para a cegueira de cada um, e sombras-de-folhas
balanceando sobre os nossos corpos nas derivas do sol,
os nossos rostos
inclinados para o do outro, como galinhas
inclinam as suas faces
quando o calor aflui do ovo aquecido
de volta ao próprio ser, e a lua de prata
suspendeu-se para nós no meio do paraíso –

creio que teria fechado os olhos, e mover-me-ia
daí em diante como o nascituro cego,
os seus rostos
já idos para o paraíso.


7

Nós que vivemos as nossas simples vidas, que pomos
a nossa mão na mão do que quer que amemos
enquanto desaparece,
como nós desaparecemos,
e tropeçamos em direcção ao que virá, apenas porque chega,
uma espécie de destino,

um campo, talvez, de pedras lascadas
espalhadas à luz das estrelas
em que a carne
enfaixa o seu esqueleto uma última vez
antes que os ossos sigam o seu caminho sem nós,

não ouviríamos, mesmo assim,
o chamamento do urso
desde a sua colina – um chamamento, como o nosso, ansiando
por ser respondido – e o urso-da-represa
chamando de volta através das trevas
do vale do não-saber
a única palavra as línguas formam sem intercessão,

sim...sim...?


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 59-61

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Galway Kinnell - O chamamento através do vale do não saber (cont.)

3

E no entanto penso
deve ser a ferida, a própria ferida,
que nos permite saber e amar,
que nos força a alcançar o nosso desajuste
e por uma espécie
de poesia da alma, aperfeiçoar,
por um momento, a completude o Grego bêbado
extrapolou da sua coxa
ou flagelou de um coração esvaziado,

essa concumbência,
mais pura e trágica, estranhos
abraçados num só, um momento, do seu momento na terra


4

Ela que se deita meio
a meu lado – ela e eu uma vez
vimos as abelhas, ainda não sonhadores
mergulhados nos ácidos
da ânsia por qualquer coisa, ainda não queimados a moscas, sugando
o pó-desabrochado
da pereira em flor,
os dois
deitados juntos
debaixo da árvore, na terra, ao lado das nossas roupas vazias,
os nossos corpos abertos para o céu,
e as flores cintilando no céu,
boiaram até ao chão
e as abelhas cintilaram nos botões
e os corpos dos nossos corações
abriram-se
sob o conhecimento
de árvore, na relva do conhecimento
de campas, e entre as flores de flores.

E o cérebro continuou a florescer
através de todo o corpo, até que os ossos podiam pensar,
e os genitais emanaram onda atrás de onda de desejo sagrado
que até mesmo as células cerebrais mortas
se ergueram e se sentiram fantasias andróginas, quase divinas –
e compreendi
o falo do unicórnio poder-se-ia ter levantado, afinal,
directamente saído do próprio pensamento.


inn Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 58-59.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Informação - "Para um outro dia Lázaro" já disponível

o novo volume de poemas "para um outro dia lázaro", encontra-se já disponível. para adquiri-lo basta clicar aqui ou na imagem aí ao lado e seguir as instruções da enfermaria 6.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Galway Kinnell - VIII. O Chamamento através do vale do não saber


1

Na casa vermelha afundando-se
no chão apodrecido, uma lanterna
numa janela, as cinzas ajuntadas deixavam
uma única chama livre,
um sapato de um ferro sonhado pregado à parede,
duas metades incompatíveis deitadas lado a lado nas trevas,
eu posso sentir com a minha mão
o feto despertando-se
com um enorme zurzido de peixe, e assentando-se nas suas trevas.

O seu cabelo brilhando à luz da fogueira,
os seus seios cheios,
a sua barriga inchada,
um pôr-de-sol de fogo
oscilando tudo para um lado, a minha esposa dorme ainda,
feliz,
ao longe, num qualquer
recentemente aberto quarto do mundo.


2

Suor caindo das suas têmporas
Aristófanes fugiu
perante a boca – inventou tudo, pesadelizou tudo
no calor
desse momento que nos esfaqueou desde então:
que cada um de nós
é uma metade despedaçada
de cuja parte perdida procuramos através do tempo
até que morremos, ou desistimos –
ou a encontramos de facto:

tal como eu, num DC-6
das Linhas Aéreas Ozark zumbindo sobre
vilas feitas de encruzilhadas, dirigido
a Waterloo, Iowa, a encontrei de facto,
segurando o seu rosto por algumas horas
nas minhas mãos; e por razões – covardia,
lealdades, tudo isso que vai pelo nome «necessidade» –
a deixei...


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares. Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 57-58

domingo, 7 de outubro de 2018

palavras de um estilita antes de partir

cansei-me de levar        como a luz
de um farol os barcos pelas fragas e
rotas do naufrágio          o meu nome
aos teus lábios       visto-me
de castanho e verde         deixo este sol
secar os meus caracóis
enfrentando os raios
da manhã depois de entrar no mar

com cautela apanho umas quantas folhas
anónimas rubras e ainda frescas
relíquias desdenhadas
e numa praça onde um dia passarás
aí estou de braços ao alto e corpo torcido

russel edson disse que corri
para casa e entrando de rompante
como só os mensageiros o sabiam
fazer antes da sua morte
disse a meus pais ser uma árvore
enquanto eles só viram o outono da minha desilusão
na sua miopia imaginativa

dirão        talvez         foi um estilita
rir-se-ão de mim como outrora
riram dos acrobatas da vida
tão em fama hoje
entre os desolados e fatigados
do moderno e pós

quando um dia o que me deram
de nome         enfim         cruzar a tua memória
ou como destroço dar à tua boca
estarei ainda na praça entre animal e planta
imperceptível         ver-me-ás tanto
quanto a destruição
já lambendo os teus pés
e tarde
demais            como todas as desculpas

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O mal de Quixote - uma leitura em torno de "O homem que matou D.Quixote" de Terry Gilliam



Como muitos outros filmes de Terry Gilliam o realizador explora o fantástico da literatura, misturando-o com a realidade cinematográfica, ela própria uma ficção paralela à realidade exterior da película. Desta vez, a figura que Gilliam recupera é o cavaleiro do séc.xvii D. Quixote de la Mancha, personagem da obra-prima de Miguel de Cervantes. A linha sobre a qual Gilliam assenta a sua «narrativa» é a do jovem criador em luta consigo próprio enquanto busca a excitante extravagância da sua primeira obra, que lhe granjeia a fama. Toby é um jovem realizador considerado, pelo mundo cinematográfico e pela companhia que o rodeia, como um génio, com fama adquirida após ter rodado o seu primeiro filme, um projecto final universitário, intitulado "o Homem qu matou D. Quixote", criado uns dez anos antes da nova produção, justamente aquela que assistimos estar ele a criar enquanto espectadores. A nova criação não é senão uma recriação do romance "D. Quixote".

Dez anos separa as duas criações e, ao longo do filme que assistimos, podemos dar conta o que distancia o criador no seu carácter de um e outro Quixote: de um lado, o jovem realizador, sonhador, inventivo com o pouco que tem, atento aos acasos que o rodeiam, aventureiro; do outro lado, um realizador como que inflamado pela fama, cínico, afectado no seu comportamento, arrogante, desesperançado e vazio de ideias. Outrora rodeado de amigos, ligado pelo amor à arte cinematográfica, agora por aduladores e manipuladores guiados pelo dinheiro. O realizador está, podemos ver, em crise, descrente da sua visão, pressionado pelos investidores, encurralado, mas prossegue, estando já ele corrompido pelo seu caminho cínico. Uma luz surge, porém, que desperta nele a chama dos sonhos da juventude, quando, angustiado no seu vazio e asfixiado pelas pressões, o director da produtora do novo filme, uma recriação de D. Quixote, lhe sugere, por mero acaso, ou escrutínio dos deuses, que assista ao seu primeiro filme, ao seu primeiro Quixote. Oferece-lhe o DVD dessa versão comprando-o a um cigano que, ao longo da película que assistimos, intervém sempre em momentos cruciais - críticos no seu sentido etimológico, de decisão vital, de escolha - exactamente como o dessa reunião com os investidores e a equipa (NOTA: seria interessante questionar o papel desse cigano ao lado de outras personagens similares da obra de Gilliam, tal como o Diabo Tom Waits, o Anjo da Morte em Barão Münchausen, ente outros).

Não falarei da aventura que antecede o visionamento do DVD, um momento cómico entre vários desta comédia «filosófica», mas o que nos é sugerido quando Toby visiona o seu primeiro filme: ele é confrontado com a «inocência criativa», a inocência que é capaz de derrubar as convenções. Ele é tomado pela nostalgia e no dia seguinte da rodagem, num contratempo, vai de visita à aldeia onde foi filmado o seu primeiro projecto, em busca das personagens reais que viveram na sua película, Angélica/Dulcineia (num belo trabalho da actriz portuguesa Joana Ribeiro), Javier/Quixote, apenas para descobrir que a sua estadia dez anos atrás provocou um mal acerbo à pequena aldeia e seus habitantes, perdidos e estagnados no tempo do cenário - não na vida ou na dor que cada um carrega. Angélica, enlevada pelo sonho do cinema e pelas palavras sedutoras de Toby procurou a sua sorte em Madrid e Barcelona para, no fim, sem sorte nesse trilho, acabas nas mãos de um magnata do vodka, um russo caprichoso que a maltrata; Javier, um simples sapateiro, pacífico e oco de violência, que levava Toby ao desespero porque não «encarnava» o D. Quixote, afinal, crê-se ser o próprio, o verdadeiro D. Quixote nascido no ano de 1600 e incapaz de morrer, preso por um feitiço de Malandrino - o momento de encarnar a personagem é-nos oferecido como o instante em que Javier relembra a sua verdadeira vida, ele é D. Quixote, ele não está a representar; aqui temos um momento de reencarnação, ou metempsicose: Javier é a personagem que Quixote representa no século xx e tão bem que se esqueceu ser Quixote, ou tendo nascido no século xx e vivido enquanto Javier, a releitura das suas aventuras, o forçar da sua revivência provoca o desvanecimento da consciência-Javier para revelar a verdadeira essência-Quixote.

A possessão ou encarnação deu-se, aliás, durante a rodagem, vemos isso à medida que Toby relembra o passado. Toby encontra Javier/Quixote encerrado numa carruagem, como se fosse uma atracção de um circo de curiosidades - o «freak» da língua anglo-saxónica - libertando-o por acidente, provocando na sua fuga um incêndio na aldeia. Mais tarde, a Guardia Civil aparece no local das rodagens tendo como prisioneiro o cigano que lhe vendeu o DVD, falsamente acusado de roubo por Toby e a mulher do presidente da produtora, para se ilibarem do adultério que iriam realizar, impedido pela chegada imprevista do marido. Toby é levado prisioneiro como suspeito do incêndio e partilha o jipe com este «espírito aventureiro»; e eis quando a aventura finalmente começa.

D. Quixote intervém e salva o seu escudeiro Sancho Pança/Toby. É também aqui, quando Toby veste as roupas de Sancho Pança trazidas por D. Quixote, que a grande questão deste filme arranca. Toby acede a ser Snacho Pança; um Sancho Pança com os pés fixos na realidade e não na ilusão Quixotesca, mas o continuado confronto entre real/ilusão acaba por ceder e Toby principia a «ver» e a aceitar o modo de existência quixotesco. (NOTA: o confronto real/ilusão-ficção salta igualmente para fora da tela, desta vez entre realidade/ficção, ou realidade não-cinematográfica vs. realidade cinematográfica, quando Toby se encontra na tasca do pai de Angélica. Ambos falam em castelhano, porém de modo a facilitar o diálogo, ou o preguiçoso espectador, Toby arreda com a mão, literalmente, as legendas traduzindo o diálogo, dizendo «nós não precisamos disto para nos entendermos», ambos desencadenado o diálogo em inglês, como se, talvez na verdade, cada um falasse a sua língua e se entendessem, como é já corrente em certos filmes e séries em que as personagens falam e conversam nas suas línguas maternas e diferentes e se entendem, por exemplo, Ocean's Eleven com o chinês acrobata).

O filme termina, na verdade, com a morte de D.Quixote. Melhor dito, com a morte do homem que encarnava o «espírito», ou a «alma», ou a «consciência-Quixote», Javier. As suas últimas palavras, como uma confissão de um moribundo, afirmam a sua identidade anterior, um simples sapateiro «com um daqueles rostos capazes de vender apólices de seguro». Despede-se do espírito ficcional retornando à sua identidade real. Mas o espirito não se perdeu; Toby, que lentamente veio a ser infectado pelo «mal de Quixote» - expressão que pisca o olho a Vila-Matas - encarna Quixote. Num instante de desespero livre de todos os constrangimentos, o choque do real - a morte de D.Quixote, a afirmação de uma identidad real que ele já não queria aceitar acreditando já, plenamente, na ilusão-Quixote, enfim, o choque numa crença a que se doou todo o seu coração, falamos desse choque atroz - é a sua consciência que por fim cinde, colapsa. Levando o cadáver de Javier jazendo no dorso de Rocinante, Toby desaparece e é Quixote que renasce para cumprir a sua promessa e viver para sempre, acompanhado de Angélica que, por amor, compromete a sua identidade e devém Sacho Pança, dando um novo sentido à frase «este é o início de uma estranha relação».

Este novo filme de Terry Gilliam tem decerto muitas leituras/interpretações. O que o filme me deu a pensar, naquilo que tem de ensaio filosófico-cinematográfico em torno da identidade e da criação de uma obra de arte - questão que me acode, talvez, porque me perturba, me alicia - é a seguinte e resumidamente (os pontos não têm qualquer relação hierárquica):

1 - O nascimento e morte da ficção vem do real.
2 - A vida da ficção vem da força na sua crença, vivendo-a plenamente
3 - Após a iluminação, a efulgência da primeira criação, o criador vive assombrado, ou seja, à sombra dessa criação e incapaz da sobrepôr, perseguido por esse acontecimento.
4 - Seduzido peal efulgência, o criador trabalha com o intuito de produzir um brilho maior e que apague ou desvaneça a sombra que o angustia.
5 - A assombração remete o criador para a repetição. Ele repete diferentemente a primeira efulgência como recuperação e como forma de sobreposição.
6 - Estando assombrado, o criador é incapaz de viver fora da criação, ao ponto de se despedir do real e abraçar completa e plenamente a obra e a ficção (da obra).
7 - Como caindo num Mäelstrom, o criador arrasta tudo consigo, como que dizendo «se me amas vens comigo até ao fim».

Alguma coisa estará a faltar neste pensamento não amadurecido, mas foi isto que Terry Gilliam me deu a pensar. Toby recria, uma vez mais, D.Quixote após o sucesso do passado, porém, nada lhe satisfaz; Javier vive na ficção que o abraçou e ele a ela, num momento de enorme tensão, livrando-se da ficção quando o real, o mais duro real, a morte, choca e destrói a ficcção; pelo desejo de criar uma obra de arte que se sobreponha à sua obra-prima da junventude, Toby vai cedendo à força da obra, da ficção, substituindo o real pela ficção até ser possuído pela ficção; Angélia, que não queria cair, uma vez mais, enamorada de Toby, aos poucos e poucos cede, culminando a cedência mergulhando-se na espiral, no remoinho em que o próprio Toby caiu, encarnando Sancho Pança, para poder acompanhar e tomar conta do «louco» Quixote, tendo sido, assim, por amor, infectada, também ela, pelo «mal de Quixote». Um mal que me parece o próprio Terry Gilliam sofrer, sendo este filme, em certos aspectos, uma repetição diferente de obras anteriores, tal como o Dr.Parnassos, o Barão de Münchausen, Brazil, desta contínua mistura de ficção e real. D. Quixote cumpre a sua promessa de viver para sempre, não só nos pacientes do «mal de Quixote», como a cada vez que alguém lê ou relê as suas aventuras.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

nessa noite ouvi-me envelhecer

nessa noite ouvi-me envelhecer
como um toro a arder ruindo
na lareira         nada passou
de sério para além das horas e eu
envelheci entre os olhos e as palavras

tu foste lentamente adoecendo
com um frio irradiando no estômago
queimaram-se já demasiadas pontes
alguém disse          contra o maquinismo
demos greve aos sexos         a paixão é ainda
uma bandeira a ser hasteada

o luto prevaleceu sobre as pálpebras
pesadas como duas pombas
em finos ramos         depois de cuspido todo o veneno
adormeceste com a gravidade de uma estátua
e eu velei-te como imagino Rodin
com as mãos no mármore desta página

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

o sorriso aos pés da escada (10-09-1979 - (...))

aos 39 digo hop lá! estamos vivos!
não sem alguma surpresa          pensei que ficasse
pelo caminho lá nos idos 25 ou 28

olho as melenas brancas
da minha mãe e sei         uma ou outra
tocaram a prata pela via das preocupações
que eu dei         só de vez em quando lágrimas
agora que me ausentei pela linha do horizonte
da europa         no olhar alheado do meu pai
pergunto-me por onde pairo
em que loop nos labirintos de pedra
do seu cérebro aguardo a sua visita
e se aos 39 serei uma criança

estou vivo e atento à vida
por exemplo         lá fora escuto uma mulher
que geme de prazer pela penetração
a respiração lenta da serra enovelada
em mantas         os gritos de noitibós
e o tilintar teimoso do mosquito na janela
em busca de uma saída deste inferno do homem
que a há um pouco adiante por uma frincha
nessa abertura inclinada da realidade

este prazer não nega a imensa dor que me gela
o coração a cada dia entrando pelos olhos
a dentro         tenho uma sombra no pensamento
percebem isso         o prazer que me enleva é assim
como o sorriso esgarçado de Maldoror
estou vivo e amo e celebraria a vida
mesmo se o meu amor e paixão fossem só por
isso que é a vida         até à última 21ª grama
serei um palhaço subindo lentamente
a escada do tempo e do sentido

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Nick Cave and the Bad Seeds - Little empty boat (bom fim de semana)



You found me at some party
You thought I'd understand
You barreled over to me
With a drink in each hand
I respect your beliefs, girl,
And I consider you a friend,
But I've already been born once,
I don't wanna to be born again.

Your knowledge is impressive
And your argument is good
But I am the resurrection, babe,
And you're standing on my foot!

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
(Row!)

Your tiny little face
Keeps yapping in the gloom
Seven steps behind me
With your dustpan and broom.
I couldn't help but imagine you
All postured and prone
But there's a little guy on my shoulder
Says I should go home alone.
You keep leaning in on me
And you're looking pretty pissed
That grave you've dug between your legs
Is hard to resist.

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row

Give to God what belongs to God
And give the rest to me
Tell our gracious host to fuck himself
It's time for us to leave.

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
Row...row...row...row...

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

o poema às cinco da manhã

ainda a manhã era indefinida
estagnada entre o fim
da noite e o tímido surgir
da estrela que nos dá vida e queima
a floresta abria-se para o passo
e o canto das aves emudecido
pela névoa de agosto era tudo
o que a realidade oferecia
estou tranquilo com a certeza de um pé
na morte e outro na erva molhada

a esta hora apaixono-me pelo silêncio
e a quietude à medida que cessam as últimas
ondas cada vez mais espaçadas
de um momento demasiado intenso
para os sentidos do corpo
mergulho um pouco mais nesse espaço
até imergir por completo como no mar
deixa-te-aí ficar digo até que despertes
como em água o pulmão te traz ao ar

mas eis que chega a roda-viva –
percebo isso chico e como porta
tudo o que importa para lá –
com razões e obrigações que vêm
de outros há anos como máscaras
e fatiotas que antes fossem de arlequim
abrem ao invés fossas por onde escoa
o elo agrilhoado do impessoal
reanimado às cinco da manhã deste poema
enquanto os meus olhos encontram os d' «a minha» cadela

vem na aurora a estafa a pedra pela montanha
acima o mundo às costas e um acre gosto
sobe à boca à semelhança de um sono
breve e me visto de tristeza e solidão
esqueço a língua portuguesa menos
no pensamento           abraço esse silêncio
recupero-o com japa e o coração endereçado
a ti como um único botão num ramo calcinado
caído entre cinzas          um gesto
talvez comum para um português no verão

mas que sei eu de essências às cinco
da manhã à chuva do fim de agosto

sábado, 1 de setembro de 2018

how can i recognize my home

o cobre e o latão assentam a paleta de Cézanne
o ganso aponta a sua bússola para o sul e despede-se
como poderei reconhecer a minha casa
a bétula oferece as suas páginas às últimas luzes do verão
mas não é o bucolismo que aí se escreve
de novo uma sombra cresce no coração da europa
permanecemos cegos nos nossos lagos de Narciso
como poderei reconhecer a minha casa
se só de um cristal há pureza e esta terra de
quem se crê fora da natureza não vê do que é feito
o sangue
escuta          tu         ao mais fundo da minha direita
desde a primeira relação cada eu é nós

 

neiukesed noorukesed
kus me lähme vastu ööda
vastu ööda vastu põhja
vastu helgasta ehada
vastu koitu keerulista
meie kodu kauge’ella
viisi verstada vaheta
kuusi kuivada jõgeda
seitse sooda sitke’eda
kaheksa kalamereda
üheksa hüva ojada
kümme külma allikada
meie meel teeb teele minna
teele minna maale saada
osata oma koduje
märgata oma majaje
kust ma tunnen oma kodu
millest märken oma maja
küla kümmene seasta
talu seitseme taganta
meil on kuu korstenalla
meil on agu akenassa
päeva lävepaku päälla
meil on kojas kullasseppa
tares taalrite taguja
saunas sangavitsutaja
kojast tõuseb kulda suitsu
tareharjast haljast suitsu
saunast sangavitsa suitsu
sest ma tunnen oma kodu
sellest märken oma maja
küla kümmene seasta
talu seitseme taganta

dear girls dear young ones
where shall we stay as night falls
as night falls to the north from the brilliant twilight
to the bright dawn
our home is far away
how many landmarks from here
six dry rivers
seven bubbling swamps
eight seas of fish
nine lovely streams
ten cool springs
we want to start on our way
set out on the road straight away
to go towards my home
to find my house
how can I recognize my home
how can I find my house
amidst ten others in the village
behind seven farms
we have a chimney beneath the moon
we have dawn on the window
the sun on the threshold
we have a goldsmith in the house
a silversmith on the farm
a carpenter in the bath-house
golden smoke rises from the chimney
silvery smoke rises from the farm
alder smoke rises from the bath-house
that is how I recognize my home
that is how I find my house
amidst ten others in the village
behind seven farms

queridas meninas queridas jovens
onde ficaremos enquanto anoitece
enquanto anoitece para o norte desde o brilhante crepúsculo
à aurora
a nossa casa está longe
quantos marcos desde aqui
seis rios secos
setes pântanos borbulhando
oito mares de peixes
nove ribeiros encantadores
dez fontes frescas
queremos ir já de partida
seguir viagem já de seguida
em direcção à minha terra
para encontrar a minha casa
como poderei reconhecer a minha terra
como poderei encontrar a minha casa
entre dez outras vilas
atrás de sete quintas
temos uma chaminé sob a lua
o sol ao limiar
temos um joalheiro na casa
temos um ourives na quinta
um carpinteiro no banho
fumo dourado sobe da chaminé
fumo prateado sobe da quinta
fumo de amieiro sobe do banho
é assim que reconheço a minha terra
é assim que encontro a minha casa
entre dez outras vilas
atrás de sete quintas

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

sermão segundo B-C. H.

dobra o jornal
fecha a janela
enrola a revista
retira-te do campo
do hype e do hiper-

estamos até ao pescoço
atolados em dados
impelidos a pôr-nos falsamente a nu
encurtando a distância
até aniquilarmos a proximidade
da profundidade do eu e do outro

cheios de soberba
                            meus irmãos e minhas irmãs
cremo-nos sapientes e pomos o dedo
opinativo com urgência e pela boca
cegos proliferamos disparates

um pensamento
                        essa coisa preciosa
                                                     como o começo de um livro ou poema
e raro como a comunicação
tem a lentidão que leva do calcário
ao mármore e deste ao torso que nos emudece

tenhamos por favor cautela
a liberdade de expressão não garante
necessariamente
uma expressão de liberdade

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Galway Kinnell - A CABELEIRA RALA À LUA DA PEQUENA DORMINHOCA (fim)


5

Se num dia acontecer
tu te encontres com alguém que amas
num café num dos fins
da Pont Mirabeau, no bar de zinco
onde o vinho branco fica em copos de abertura para cima,

e se cometeres, como nós o fizemos, o erro
de pensar,
um dia tudo isto será apenas uma memória,

aprende,
enquanto permaneces,
nesse fim da ponte que se arqueia,
do amor, tu pensas, para um duradouro amor,
aprende a chegar mais fundo
até às mágoas
a vir – a tocar
os ossos quase imaginários
sob a face, a ouvir sob o riso
o grito do vento ao longo das pedras negras. Beija
a boca
que te diz, aqui,
aqui é o mundo. Esta boca. Este riso. Estes ossos temporais.

A cadência ainda não dançada do desaparecimento.


6

Na luz a lua
reenvia, vejo-o nos teus olhos

a mão que uma vez acenou
nos olhos do meu pai, um pequeno papagaio
oscilando nas alturas no crepúsculo do seu último olhar:

e o anjo
de todas as coisas mortais larga o fio.


7

Volta agora, para o teu berço.

O último melro ilumina as suas asas douradas: adeus.
Os teus olhos fecham-se dentro da tua cabeça,
em sono. Já
as horas começam a cantar nos teus sonhos.

Cabeleira rala à luz da lua da pequena dorminhoca,
quando voltar
sairemos juntos,
caminharemos juntos por entre
as dez mil coisas,
cada uma rabiscada demasiado tarde com tanta sabedoria, o tributo
de morrer é o amor.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 51-53.

sábado, 11 de agosto de 2018

diz-me afinal o que é a poesia

atravessei os séculos na poeira dos livros
fiz da leitura uma prática respiratória
deitei-me com as formas até ao amanhecer
e juntar a minha voz ao canto
make it new make it new
porque o rei vai nu
e escavo o cérebro e abro o coração
dou e tiro o meu rosto como a luz
aos turistas frente à mona lisa
e ao fim do dia
nada sei da poesia

há quem escreva como quem pisca o olho
ao vizinho pelo belo achado o dito jocoso
opinando sobre a sua e alheia vida
mas fechando o computador ao fim do dia
olha pela janela e não sabe ainda o que é a poesia

há também aqueles que se enchem de álcool e tabaco
e por trás de uma névoa de cenho cerrado
delapidam a página com a justa palavra
ou uma antiga ou já morta
dando pareceres de sua lavra
e fechando o caderno esborratado
atentam o calo da caneta ao fim do dia
murmurando para si afinal o que é a poesia

há quem não a faça desistiu pelo caminho
mas subiu a longa escada do saber
e do alto onde moram as águias
tem a vista larga abarca os meandros do rio
da criação e escreve par et contre
como vanguarda e guardião
porém quando de novo tenta para dar a prova
(as paixões são carraças tramadas de arrancar)
e o cesto se enche de papéis
o seu pessoal grilo ajuíza-o ao fim do dia
também tu não sabes o que é a poesia

há quem reúna grupos à direita e à esquerda
iluminados pelo oráculo ou atraídos pela musa
sentada ao balcão de um bar comportando-se como um
macho cabrão graças ao feminismo pop
se auto-publicam na sua editora e revista
como quem separa o joio do trigo
e quando destronarem os e as grandes
e igualmente o seu nome se escrever
nas mudas páginas da esquecida história
da literatura enfim podes dizer o verso hipócrita
leitor para bom entendedor duas palavras bastam
__ ___ __ dia
___ __ ____ _ poesia

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Khruangbin - August 10

Galway Kinnell - A cabeleira rala à lua da pequena dorminhoca (cont.)



3

Uma vez num restaurante, todos
comendo silenciosamente, tu escalaste
para o meu colo: a todos
os bocados que subiam para
todas as bocas, do topo da tua voz
exclamaste
a tua única palavra, caca! caca! caca!
cada colher cheia
parou, um momento, suspensa, no seu vapor
secando.

Sim,
tu abraçaste porque
eu, como tu, mas mais cedo
do que tu, irei
pelo trilho dos alfabetos sumidos,
o sentido de nenhuma estrada
para o outro lado das trevas,
os teus braços
como os sapatos deixados para trás,
como os adjectivos nos discursos hesitantes
de homens velhos,
que um dia souberam os substantivos perdidos.


4

E tu própria,
numa qualquer Terça-feira impossível
do ano Dois Mil e Nove, sairás
por entre as pedras negras
do campo, sob a chuva,

e as pedras a dizer
na sua única palavra, ci-gît, ci-gît, ci-gît,

e as gotas de chuva
batendo-te na fontanela
uma e outra vez, e tu aí de pé
incapaz de as deixar entrar.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflinn, 1971: 50-51