quarta-feira, 12 de setembro de 2018

o sorriso aos pés da escada (10-09-1979 - (...))

aos 39 digo hop lá! estamos vivos!
não sem alguma surpresa          pensei que ficasse
pelo caminho lá nos idos 25 ou 28

olho as melenas brancas
da minha mãe e sei         uma ou outra
tocaram a prata pela via das preocupações
que eu dei         só de vez em quando lágrimas
agora que me ausentei pela linha do horizonte
da europa         no olhar alheado do meu pai
pergunto-me por onde pairo
em que loop nos labirintos de pedra
do seu cérebro aguardo a sua visita
e se aos 39 serei uma criança

estou vivo e atento à vida
por exemplo         lá fora escuto uma mulher
que geme de prazer pela penetração
a respiração lenta da serra enovelada
em mantas         os gritos de noitibós
e o tilintar teimoso do mosquito na janela
em busca de uma saída deste inferno do homem
que a há um pouco adiante por uma frincha
nessa abertura inclinada da realidade

este prazer não nega a imensa dor que me gela
o coração a cada dia entrando pelos olhos
a dentro         tenho uma sombra no pensamento
percebem isso         o prazer que me enleva é assim
como o sorriso esgarçado de Maldoror
estou vivo e amo e celebraria a vida
mesmo se o meu amor e paixão fossem só por
isso que é a vida         até à última 21ª grama
serei um palhaço subindo lentamente
a escada do tempo e do sentido

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Nick Cave and the Bad Seeds - Little empty boat (bom fim de semana)



You found me at some party
You thought I'd understand
You barreled over to me
With a drink in each hand
I respect your beliefs, girl,
And I consider you a friend,
But I've already been born once,
I don't wanna to be born again.

Your knowledge is impressive
And your argument is good
But I am the resurrection, babe,
And you're standing on my foot!

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
(Row!)

Your tiny little face
Keeps yapping in the gloom
Seven steps behind me
With your dustpan and broom.
I couldn't help but imagine you
All postured and prone
But there's a little guy on my shoulder
Says I should go home alone.
You keep leaning in on me
And you're looking pretty pissed
That grave you've dug between your legs
Is hard to resist.

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row

Give to God what belongs to God
And give the rest to me
Tell our gracious host to fuck himself
It's time for us to leave.

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
Row...row...row...row...

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

o poema às cinco da manhã

ainda a manhã era indefinida
estagnada entre o fim
da noite e o tímido surgir
da estrela que nos dá vida e queima
a floresta abria-se para o passo
e o canto das aves emudecido
pela névoa de agosto era tudo
o que a realidade oferecia
estou tranquilo com a certeza de um pé
na morte e outro na erva molhada

a esta hora apaixono-me pelo silêncio
e a quietude à medida que cessam as últimas
ondas cada vez mais espaçadas
de um momento demasiado intenso
para os sentidos do corpo
mergulho um pouco mais nesse espaço
até imergir por completo como no mar
deixa-te-aí ficar digo até que despertes
como em água o pulmão te traz ao ar

mas eis que chega a roda-viva –
percebo isso chico e como porta
tudo o que importa para lá –
com razões e obrigações que vêm
de outros há anos como máscaras
e fatiotas que antes fossem de arlequim
abrem ao invés fossas por onde escoa
o elo agrilhoado do impessoal
reanimado às cinco da manhã deste poema
enquanto os meus olhos encontram os d' «a minha» cadela

vem na aurora a estafa a pedra pela montanha
acima o mundo às costas e um acre gosto
sobe à boca à semelhança de um sono
breve e me visto de tristeza e solidão
esqueço a língua portuguesa menos
no pensamento           abraço esse silêncio
recupero-o com japa e o coração endereçado
a ti como um único botão num ramo calcinado
caído entre cinzas          um gesto
talvez comum para um português no verão

mas que sei eu de essências às cinco
da manhã à chuva do fim de agosto

sábado, 1 de setembro de 2018

how can i recognize my home

o cobre e o latão assentam a paleta de Cézanne
o ganso aponta a sua bússola para o sul e despede-se
como poderei reconhecer a minha casa
a bétula oferece as suas páginas às últimas luzes do verão
mas não é o bucolismo que aí se escreve
de novo uma sombra cresce no coração da europa
permanecemos cegos nos nossos lagos de Narciso
como poderei reconhecer a minha casa
se só de um cristal há pureza e esta terra de
quem se crê fora da natureza não vê do que é feito
o sangue
escuta          tu         ao mais fundo da minha direita
desde a primeira relação cada eu é nós

 

neiukesed noorukesed
kus me lähme vastu ööda
vastu ööda vastu põhja
vastu helgasta ehada
vastu koitu keerulista
meie kodu kauge’ella
viisi verstada vaheta
kuusi kuivada jõgeda
seitse sooda sitke’eda
kaheksa kalamereda
üheksa hüva ojada
kümme külma allikada
meie meel teeb teele minna
teele minna maale saada
osata oma koduje
märgata oma majaje
kust ma tunnen oma kodu
millest märken oma maja
küla kümmene seasta
talu seitseme taganta
meil on kuu korstenalla
meil on agu akenassa
päeva lävepaku päälla
meil on kojas kullasseppa
tares taalrite taguja
saunas sangavitsutaja
kojast tõuseb kulda suitsu
tareharjast haljast suitsu
saunast sangavitsa suitsu
sest ma tunnen oma kodu
sellest märken oma maja
küla kümmene seasta
talu seitseme taganta

dear girls dear young ones
where shall we stay as night falls
as night falls to the north from the brilliant twilight
to the bright dawn
our home is far away
how many landmarks from here
six dry rivers
seven bubbling swamps
eight seas of fish
nine lovely streams
ten cool springs
we want to start on our way
set out on the road straight away
to go towards my home
to find my house
how can I recognize my home
how can I find my house
amidst ten others in the village
behind seven farms
we have a chimney beneath the moon
we have dawn on the window
the sun on the threshold
we have a goldsmith in the house
a silversmith on the farm
a carpenter in the bath-house
golden smoke rises from the chimney
silvery smoke rises from the farm
alder smoke rises from the bath-house
that is how I recognize my home
that is how I find my house
amidst ten others in the village
behind seven farms

queridas meninas queridas jovens
onde ficaremos enquanto anoitece
enquanto anoitece para o norte desde o brilhante crepúsculo
à aurora
a nossa casa está longe
quantos marcos desde aqui
seis rios secos
setes pântanos borbulhando
oito mares de peixes
nove ribeiros encantadores
dez fontes frescas
queremos ir já de partida
seguir viagem já de seguida
em direcção à minha terra
para encontrar a minha casa
como poderei reconhecer a minha terra
como poderei encontrar a minha casa
entre dez outras vilas
atrás de sete quintas
temos uma chaminé sob a lua
o sol ao limiar
temos um joalheiro na casa
temos um ourives na quinta
um carpinteiro no banho
fumo dourado sobe da chaminé
fumo prateado sobe da quinta
fumo de amieiro sobe do banho
é assim que reconheço a minha terra
é assim que encontro a minha casa
entre dez outras vilas
atrás de sete quintas

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

sermão segundo B-C. H.

dobra o jornal
fecha a janela
enrola a revista
retira-te do campo
do hype e do hiper-

estamos até ao pescoço
atolados em dados
impelidos a pôr-nos falsamente a nu
encurtando a distância
até aniquilarmos a proximidade
da profundidade do eu e do outro

cheios de soberba
                            meus irmãos e minhas irmãs
cremo-nos sapientes e pomos o dedo
opinativo com urgência e pela boca
cegos proliferamos disparates

um pensamento
                        essa coisa preciosa
                                                     como o começo de um livro ou poema
e raro como a comunicação
tem a lentidão que leva do calcário
ao mármore e deste ao torso que nos emudece

tenhamos por favor cautela
a liberdade de expressão não garante
necessariamente
uma expressão de liberdade

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Galway Kinnell - A CABELEIRA RALA À LUA DA PEQUENA DORMINHOCA (fim)


5

Se num dia acontecer
tu te encontres com alguém que amas
num café num dos fins
da Pont Mirabeau, no bar de zinco
onde o vinho branco fica em copos de abertura para cima,

e se cometeres, como nós o fizemos, o erro
de pensar,
um dia tudo isto será apenas uma memória,

aprende,
enquanto permaneces,
nesse fim da ponte que se arqueia,
do amor, tu pensas, para um duradouro amor,
aprende a chegar mais fundo
até às mágoas
a vir – a tocar
os ossos quase imaginários
sob a face, a ouvir sob o riso
o grito do vento ao longo das pedras negras. Beija
a boca
que te diz, aqui,
aqui é o mundo. Esta boca. Este riso. Estes ossos temporais.

A cadência ainda não dançada do desaparecimento.


6

Na luz a lua
reenvia, vejo-o nos teus olhos

a mão que uma vez acenou
nos olhos do meu pai, um pequeno papagaio
oscilando nas alturas no crepúsculo do seu último olhar:

e o anjo
de todas as coisas mortais larga o fio.


7

Volta agora, para o teu berço.

O último melro ilumina as suas asas douradas: adeus.
Os teus olhos fecham-se dentro da tua cabeça,
em sono. Já
as horas começam a cantar nos teus sonhos.

Cabeleira rala à luz da lua da pequena dorminhoca,
quando voltar
sairemos juntos,
caminharemos juntos por entre
as dez mil coisas,
cada uma rabiscada demasiado tarde com tanta sabedoria, o tributo
de morrer é o amor.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 51-53.

sábado, 11 de agosto de 2018

diz-me afinal o que é a poesia

atravessei os séculos na poeira dos livros
fiz da leitura uma prática respiratória
deitei-me com as formas até ao amanhecer
e juntar a minha voz ao canto
make it new make it new
porque o rei vai nu
e escavo o cérebro e abro o coração
dou e tiro o meu rosto como a luz
aos turistas frente à mona lisa
e ao fim do dia
nada sei da poesia

há quem escreva como quem pisca o olho
ao vizinho pelo belo achado o dito jocoso
opinando sobre a sua e alheia vida
mas fechando o computador ao fim do dia
olha pela janela e não sabe ainda o que é a poesia

há também aqueles que se enchem de álcool e tabaco
e por trás de uma névoa de cenho cerrado
delapidam a página com a justa palavra
ou uma antiga ou já morta
dando pareceres de sua lavra
e fechando o caderno esborratado
atentam o calo da caneta ao fim do dia
murmurando para si afinal o que é a poesia

há quem não a faça desistiu pelo caminho
mas subiu a longa escada do saber
e do alto onde moram as águias
tem a vista larga abarca os meandros do rio
da criação e escreve par et contre
como vanguarda e guardião
porém quando de novo tenta para dar a prova
(as paixões são carraças tramadas de arrancar)
e o cesto se enche de papéis
o seu pessoal grilo ajuíza-o ao fim do dia
também tu não sabes o que é a poesia

há quem reúna grupos à direita e à esquerda
iluminados pelo oráculo ou atraídos pela musa
sentada ao balcão de um bar comportando-se como um
macho cabrão graças ao feminismo pop
se auto-publicam na sua editora e revista
como quem separa o joio do trigo
e quando destronarem os e as grandes
e igualmente o seu nome se escrever
nas mudas páginas da esquecida história
da literatura enfim podes dizer o verso hipócrita
leitor para bom entendedor duas palavras bastam
__ ___ __ dia
___ __ ____ _ poesia

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Khruangbin - August 10

Galway Kinnell - A cabeleira rala à lua da pequena dorminhoca (cont.)



3

Uma vez num restaurante, todos
comendo silenciosamente, tu escalaste
para o meu colo: a todos
os bocados que subiam para
todas as bocas, do topo da tua voz
exclamaste
a tua única palavra, caca! caca! caca!
cada colher cheia
parou, um momento, suspensa, no seu vapor
secando.

Sim,
tu abraçaste porque
eu, como tu, mas mais cedo
do que tu, irei
pelo trilho dos alfabetos sumidos,
o sentido de nenhuma estrada
para o outro lado das trevas,
os teus braços
como os sapatos deixados para trás,
como os adjectivos nos discursos hesitantes
de homens velhos,
que um dia souberam os substantivos perdidos.


4

E tu própria,
numa qualquer Terça-feira impossível
do ano Dois Mil e Nove, sairás
por entre as pedras negras
do campo, sob a chuva,

e as pedras a dizer
na sua única palavra, ci-gît, ci-gît, ci-gît,

e as gotas de chuva
batendo-te na fontanela
uma e outra vez, e tu aí de pé
incapaz de as deixar entrar.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflinn, 1971: 50-51

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Galway Kinnel - A CABELEIRA RALA À LUA DA PEQUENA DORMINHOCA


1

Tu gritas, acordando de um pesadelo.

Quando sonambulo
até ao teu quarto, e te pego ao colo,
e ergo-te à luz da lua, tu abraças-me
com força,
como se o abraçar nos pudesse salvar. Eu penso
que tu pensas
eu nunca irei morrer, eu penso que exsudo
para ti a permanência do fumo ou de estrelas,
mesmo quando
os meus braços partidos se saram em torno de ti.


2

Escutei-te a dizer
ao sol, não desças, permaneci
enquanto dizias à flor, não envelheças,
não morras. Pequena Maud,

Eu apagaria a chama da tua chávena de prata,
Eu sugaria a podridão da tua unha,
Eu escovaria a luz moribunda da tua cabeleira rala,
Eu rasparia a ferrugem dos teus ossos de marfim,
Eu ajudaria a morte a escapar-se pelas pequenas costelas do teu corpo,
Eu alquemizaria as cinzas do teu berço de novo em madeira,
Eu nunca deixaria nada de ti desaparecer, nunca,
até que lavadeiras
sintam as roupas adormecer nas suas mãos,
e galinhas arranhem o seu feitiço ao longo das lâminas de machadinhas,
e ratazanas fujam das culturas da peste,
e ferro torça as armas em direcção do verdadeiro norte,
e unto se recuse a deslizar na maquinaria do progresso,
e homens se sintam tão livres na terra como pulgas nos corpos de homens,
e amantes cessem de sussurrar à presença a seu lado no escuro, Oh cadáver-a-ser...

E no entanto é talvez esta a razão por que choras,
este o pesadelo do qual acordas a gritar:
permanecer para sempre
no pré-tremor de uma casa que cai.


in Galway Kinnel, The Book of Nightmares, Boston and New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 49-50

domingo, 29 de julho de 2018

jennylee - Never



I say never, I say never
Never, never
Not for you, not for them
Not for all the things
Not for all the things that make me feel bad

I say never, never, never...
Not for you, not for them
Not for all the things
Not for all the things that make me, make me
That make me, make me
That make me, make me feel bad

That make me, make me
That make me, make me
That make me, make me say never
I say never, never, never...

sexta-feira, 27 de julho de 2018

hagiografia

não me tomem por anjo fui uma criança
cerzi o espaço entre o bem e o mal outrora
aberto a papel e tinta e assinatura de um corpo maior

arredei gavetas cheias de notas esparsas
roupa em campos de alfazema eucalipto naftalina
um segredo nesse tempo era uma semente
num fruto que se comia todo até a ela chegar
e depois deitada fora sem pudor
cuspida para acertar no horizonte

desvendei a luz por fechaduras e estores
mal corridos         o mundo por entre os dedos           os meus
espeleólogos dos buracos e covas
da carne lentamente tornada própria

aos nove apaixonei-me pela pequena morte
numa orgia entre as mãos e a imaginação
mergulhado numa piscina           aprendi a celebrar
a vida aguardando a chegada do feminino
e a sua arte de tornar-me caça num olhar
breve perseguido até hoje pelos cães
do desejo e do inferno

também o álcool se verteu na garganta
no seu baptismo de fogo líquido
                                                          abriu as portas do riso e da paranoia
e do sono esquecido de sonhos

a graça era dita à mesa ou nos corredores
no jogo de escondidas às claras
como a leitura pornográfica
em revistas nas casas de banho

introduzi-me no sexo ouvindo
as parábolas de cristo nas aulas
de religião e moral          assombrado
na escuridão da sala os olhos nos slides
daquela vida         um prego pespontava dos jeans
agarrado como um ramalhete
pelas mãos das raparigas em flor
e a minha nas suas bocas
venusianas babadas que à luz
me renegaram por dez anos

fui um esmerado atleta da ruína
acrobata da vida tantas vezes no limiar
de uma dependência         um coro babilónico
no pensamento ou um silêncio atroador
fizeram-me crer na possibilidade
da escrita como ponte ou Virgílio
alumiando esta subida invertida
até percorrer meio a vida que me coube

hoje dos escombros de desilusões
o anjo da história toma-me a mão
também o seu vento me leva
distancia-me das coisas e de mim
como uma árvore do seu fruto
e da natural podridão se alimenta
                                              erguendo-se como obra imensa e alheada
de olhares que passam (a)traídos
pelos mais pessoais abismos

e ainda admiro o espectáculo dos escombros
a sempre prometida mão que dá uma volta à matéria da terra

esses anos ensinaram-me a saber perder-me
e o contentamento de escutar o mar
sorver a plenos pulmões a aridez do litoral
de pinheiros giestas         interpretar
o poema do teu rosto que nenhum livro
entende          enfim que a queda
é uma paralaxe um passo
entre duas tomadas de decisão
levando-me até ti e este poema

terça-feira, 24 de julho de 2018

Warpaint - Elephants



I'll break your heart
To keep you far from where all dangers start
And atmosphere
Gets crazy life
Where every breath transpires
And to a star
Space of calm about you
They call me a thief
They call me a thief
Call me a thief
Call me a thief
Common thief
Common thief
Common thief
Call me
Call me
So I know
That you're not that you're not here
Sort of lost without you
I hope
That you burn all there is that
You want is inside you now
I'll break your heart
To keep you far from where
All dangers start
I'm on my way
I'm on my way down
I know
That you're not that you're not here
Sort of lost without you
I hope
That you find all there is that
You want is inside you now
I know that
You're not here
I wonder where you are
In the dark we are waiting for you
We are waiting for you
With your dying need for
Their attention hold on right now
We won't let you fall
We are waiting for you
With your dying need for
Their attention hold on right now
We won't let you fall

segunda-feira, 23 de julho de 2018

a escrita entre estações

no ar destas estações escorre álcool
e óleo         em teu redor riem
                                              aborrecidos os espectadores do mundo
virtual
há sempre alguém diz o suspiro de alívio
em pior situação         eis o progresso
no séc.xxi        bancos cheios
excepto aquele do casal homossexual
em terna adoração
falando e cofiando o cabelo
em limitada privacidade pelo canto
do olho vigiada e depois agredidos ao juntarem-se
à turba-multa que retorna aos lares periféricos

como passa lento para os passageiros o tempo
afundados em lixo de comida rápida
beatas garrafas e latas            sós
e tão próximos pela imagem
da mesmidade dos cabelos
aos pés e os comboios seguem
ronronando dentro do horário
agora que a plataforma se esvaziou do aglomerado

bêbedo         o vagão de transporte chega
de arrasto chiando um grito de desespero
como se a própria terra abri-se a sua goela
exclamando já chega sou já pouca terra
até os mares se enchem de nenhuma vida
e num pacífico se forma um continente
de plástico         o pulmão aperta-se

na mão         seguro um exemplar desse
novo mundo de polímero
escrevo sobranceiro         talvez
seja pior que toda esta multidão
junta            repara             o teu polegar
é ainda pré-histórico os teus olhos
por trás dos óculos de míope são já
digitais embora igualmente preso
ao acontecimento deste instante

aguardo passagem pela europa
apenas permitida por ser um mediano
homem-branco-heterossexual-de-estatura-média
mas já olhado de soslaio como o casal
pela indefinição de nenhum traço contemporâneo
a pele livre às cicatrizes acidentais
os buracos para os sentidos             estrangeiro
ao tempo ancorado no passado como um veleiro à doca

dando lustre à história de perna cruzada
onde assentam um livro as páginas
pautadas da direcção e estrutura deste
poema         a pena de tinta e as dores suspensas
no ar de olhar perdido no vazio das três
da manhã numa estação de comboio alemã

sexta-feira, 13 de julho de 2018

bêbedo de memórias

aqui trila ainda a cigarra o seu violino
como nas pinturas infantis
na história com a formiga
                                                        quando o calor se liberta da terra e o vento
silva o trigo e a cevada abrasadas
                                                   pela luz poente

as horas de rotação trazem-te
o lusco-fusco que se alumia
                                          de pirilampos renascidos
                                                                                aos anos de silêncio em jarros
talvez haja ainda esperança
para o homem que perdeu a sua meninez
à primeira notícia da existência da morte

sentado na cozinha para o lanche de manteiga
e pão e os pés balançando sobre o abismo
desse chão que só num salto em queda se chegava
o mensageiro foi o primo que te acompanhou
no soluçar de um choro descoroçoado

dias antes a família pasmava na indecisão do insecto
no candeeiro de betão                                             se ter metamorfoseado
iludindo a ave predadora
                                                                                                                   mostrando-se bicéfalo
ou se duas borboletas se entregavam
ao instinto da permanência
era a vida afinal
não desistindo   que se deu a reconhecer
quando o cartão de visita do hospital
das forças-a(r)madas as apartou
por breves momentos tão tão breves
quanto os espaços entre soçobros
nesse diálogo na cozinha de benfica

e hoje o mesmo espanto que te incendiava
o rosto e o estômago
arde num sorriso
                          na noite acesa a fósforo enquanto lágrimas
te dão a beber a memória
                                       o único álcool para os teus lábios

domingo, 8 de julho de 2018

soneto dos anos alemães

escrevo ao tempo que se apresse
há 120 horas que não a vejo
num velho postal que se esquece
como nuns lençóis um percevejo

estivemos apartados dias e noites
por batalhas e males de coração
a loucura e a tristeza davam-nos açoites
e a dúvida vinha lamber-nos a mão

digo-lhe ainda o que lá foi passou
era só a amizade que nos faltava
nestas cabeças cheias de vinho

a minha sede porém secou
a fonte sequiosa que me afogava
diz-me tempo o segredo do carinho

quarta-feira, 20 de junho de 2018

um melro abre-te os olhos

foi no princípio
                       da primavera
                                            um melro raiado de sol
vangloriava-se da sua negridão

o meu olhar caiu
                         atraído
                                    à sombra do seu encanto

prendemos a eternidade
                                     nesse momento
                                                             nunca antes tido

sob o peso da sua mercê
                                       e cego pela sua beleza
                                                                          retornei à devoção
uma vida alia sem porquê

domingo, 17 de junho de 2018

Uma tarde em Merschsee

ao entrarmos por essas águas esqueçamos
os nomes dados e demais
atributos das páginas
finais de jornais e revistas
da boca do mundo – quão longe
estamos de uma vida como exemplo
a qual ditava o passo estóico
enchendo-nos hoje com a desgraça
alheia a par do riso acre como um gesto
ilusionista levando a nossa atenção
para longe do que está por trás do pano

há muito que a solidão nos deu a mão
esvaziou as ruas da cidade e nos guia
às escuras pelos vasos comunicantes
da química metafórica

entrámos por essas águas – proibidas
disse-nos um marinheiro de entardecer
manobrando o seu veleiro
telecomandado – nus agora que vemos
de olhos bem abertos o que foi feito
e a duplicidade do abandono
que tardiamente nos aproximou

basta um terceiro qualquer e a armadura
cobre-nos o corpo e a língua
à partida         enxutos             queimados
                                                               ficou nos lábios um desejo
entrem essas águas pelas nossas vidas adentro
derrubem os diques           que nos alaguem
se somos uma ilha
                           num arquipélago de dor


Bad Meinberg

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Agnes Obel - Familiar



Can you walk on the water if I, you and I?
Because your blood’s running cold outside the familiar true to life
Can you walk on the water if I, you and I?
Or keep your eyes on the road and live in the familiar without you and I
It glows with gates of gold to true life
For our love is a ghost that the others can’t see
It’s a danger
Every shade of us you fade down to keep
them in the dark on who we are
(Oh what you do to me)
This love is gonna be the death of me
It’s a danger
'Cause our love is a ghost that the others can’t see
We took a walk to the summit at night, you and I
To burn a hole in the old grip of the familiar true to life
And the dark was opening wide, do or die
Under a mask of vermillion ruling eyes
And our love is a ghost that the others can’t see
It’s a danger
Every shade of us you fade down to keep
them in the dark on who we are
(Oh what you do to me)
Gonna be the death of me
It’s a danger
'Cause our love is a ghost that the others can’t see

terça-feira, 12 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os mortos erguer-se-ão incorruptíveis (fim)


5
Na vala
cobras rastejam frios trilhos
ao longo da coxa apodrecida, os ossos dos dedos do pé
estremecem no cheiro de borracha queimada,
a barriga
abre-se como uma flor nocturna venenosa,
a língua evaporou-se,
os pêlos
da narina aspergem-se com um pó branco amarelado,
as cinco chamas no fim
de cada mão apagaram-se, um mosquito
beberica uma última refeição deste prato de serenidade.

E a mosca,
o derradeiro pesadelo, desova-se a si mesma.


6
Corri
de pescoço partido corri
amparando a minha cabeça com ambas as mãos corri
pensando as chamas
as chamas poderão queimar o oboé
mas escuta amigo elas não podem tocar nas notas!


7
Alguns ossos
jazem entre o fumo de ossos.

Membranas,
efígies prensadas na relva,
meandros mumificados,
descamações,
colchões flácidos incinerados dão-se ao mundo,
memórias deixadas em espelhos nos tectos de bordéis,
asas de anjos
marcadas nas neves de antanho,

ajoelha-te
na terra queimada
nos contornos de homens e animais:

não deixeis que esta hora passe,
não retireis este último copo de veneno dos nossos lábios.

E um vento suspendendo
o gritos de sexo de todas as nossas noites e dias
move-se por entre as pedras, à caça
de dois esqueletos entrelaçados para soprar neles o seu grito final.

Tenente!
Este cadáver não parará de arder!


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 44-45

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os mortos erguer-se-ão incorruptíveis (cont.)


3
No ecrã da televisão:

Tem um corpo que sua?
Suor que tem odor?
Dentes falsos agarrando-se ao seu pequeno-almoço?
Tem receios?
Uma dor de cabeça tão perpétua que lhe sobreviverá?
Sovacos plenos de pêlos?
Hemorroidas tão grandes que não precisa de uma cadeira para se sentar à mesa?

Poderemos nem todos dormir, mas todos seremos transformados...


4
No Vigésimo Século do meu trespasse na terra,
tendo exterminado um bilião de pagãos,
heréticos, Judeus, Muçulmanos, bruxas, aventureiros místicos,
homens pretos, Asiáticos, e irmãos Cristãos,
cada um deles para o seu próprio bem,

todo um continente de homens vermelhos por viverem numa comunidade antinatural
e ao mesmo tempo tendo relações com a terra,
um bilião de espécies de animais por serem sub-humanas,
e pronto a acometer nas criaturas sanguinárias dos outros planetas,
Eu, homem Cristão, gemo este testamento da minha última vontade.

Eu dou do meu sangue cinquenta partes poliestireno,
vinte e cinco partes benzeno, vinte e cinco partes da boa velha gasolina,
ao último piloto de bombardeiro lá no alto, para que haja um acre
no mundo enfadonho onde possa florir uma flor-do-beijo,
que te beija tão longamente os teus ossos explodem nos seus lábios.

A minha língua vai para o Secretário dos Mortos
para dizer aos cadáveres, “As minhas desculpas, companheiros,
a matança foi uma daquelas coisas
difíceis de pré-visualizar – como a vaca,
digamos, ser atingida por um relâmpago.”

O meu estômago, que digeriu
quatrocentos tratados dando aos Índios
um direito eterno à sua terra, eu dou aos Índios,
também os meus pulmões que passaram quatrocentos anos
sugando em boa-fé por cachimbos da paz.

A minha alma deixo-a à abelha
que a possa picar e morrer, o meu cérebro
à mosca, as suas costas a histérica cor verde do limo,
que o possa sugar e morrer, a minha carne ao publicista,
o anti-prostituta, que por dinheiro abomina a carne humana.

Atribuo a minha espinha tortuosa
ao fazedor de dados, que dela faça dados,
por ter lançado a sorte a quem verá o seu próprio sangue
na frente da camisola e quem será seu irmão,
porque a corrida não é para o veloz mas para o desonesto.

Para o último sobrevivente na terra
eu dou as minhas pestanas usadas pelo medo, use-as nas
longas noites de radiação e silêncio,
para que os seus olhos não se fechem, porque o remorso
é como lágrimas infiltrando-se pelas pálpebras fechadas.

Dou ao vazio a minha mão: o mindinho não mais esgaravata narizes,
a escória prende-se à negra vara do anelar,
um pouco de chama inflama-se na ponta do dedo de vai-te-foder,
o indicador acusa o coração, que desapareceu,
no toco do meu polegar um fogacho pede boleia para o vazio.

No Vigésimo Século do meu pesadelo
na terra, juro pelos meus testículos de crómio
neste testamento
e última vontade
da minha vontade de ferro, o meu medo de amor, a minha comichão por dinheiro, e a minha loucura.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 42-44.

sábado, 9 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os Mortos Erguer-se-ão Incorruptíveis


1
Um pedaço de carne emite
fumo no campo –

carniça,
caput mortuum,
restos,
lucros,
óleos,
incrustações,
miudezas despejadas de caixotes de lixo de hospitais.

Tenente!
Este cadáver não parará de arder!


2
“É você Capitão? Claro,
claro que me lembro – ainda o ouço
a dar-me uma lição no intercomunicador, Mantenha as suas armas ao alto, Burnsie!
e depois a gritar, Pare de disparar, por amor de deus, Burnsie,
esses são amistosos! Mas por amor de deus, Capitão,
eu já tinha começado, rajada
atrás de rajada, pequenos pijamas negros a saltar
e a cair... e lembra-se daquele piloto
que se pisgou para o Norte,
como o desfiz a categute nas suas próprias cordas?
um dos seus olhos tortos, um pedaço
do seu sorriso, vogava por mim
todas as noites logo após o comprimido para dormir...

“Era só
porque adorava o som
delas, acho que apenas adorava
a sensação de faiscarem nas minhas mãos...”


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 41-42

terça-feira, 5 de junho de 2018

[havia aí por esse campo]

havia aí por esse campo
uma árvore que pelo vento foi
quebrada como a tua vontade
anos antes por palavras
ébrias de frustração e equívoco
numa noite que parecia não ter fim
como um olhar num espelho prisioneiro
do reflexo de um outro espelho noutro

aí estava          um elogio ao tempo        erigida
lembrando aos fortes
que a resistência está na maleabilidade

houve quem decidisse que a sua presença desfeava
o bucolismo dos futuros veraneantes
levaram-na e as ervas crescidas
esconderam os últimos traços

quando por lá passo o olhar
prende-se ao vazio que outrora dava frutos
e adocicava o ar como a sua voz
e as mãos reconfortando a criança
após a terrível queda que provocou

                                                       uma e outra agora
são revisitadas pela memória
as dores arquivadas para poemas e
conversas noutras noites sem fim

entro assim adentro no reino
vegetal
           perdoo sem esquecer
agradecendo com a flor dos olhos
com amor sombra e o abrigo
do peito quando a si
a noite parece a última

Bad Meinberg