quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Still Corners - The trip



Time has come to go
Pack your bags, hit the open road
Our hearts just won’t die

It’s the trip, keeps us alive

So many miles
So many miles
So many miles
Away
They’re following some dance of light
Tearing into the night
Watching you fall asleep
The sweetest dove in a dream
So many miles
So many miles
So many miles
Away

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

trazer a dor à luz

tantas mãos entre as minhas
fazem a cama de aranha

outras legam-me a pá
para          camada a camada          soterrar

a dor          sem livro ou morada          deus
caminha a sua solidão nas minhas unhas
gastas de esgaravatar a terra

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

visões da serra (iii)

3

A minha cultura não te arrebatou
por completo          o teu traço
abre ainda o olho à presa
e tomas-me na tua matilha
como eu a ti na minha morada

distraído não vi o ataque
fechei os olhos quando dei conta
da vida na tua mandíbula

como a um cego o quebrar dos ossos
narraram-me a tua violenta dança

agora calma caminhavas a meu lado
olhando por vezes para mim
com o esquilo pendendo
na tua boca          um olhar
que hoje traduzo e dizia

vi como esse súcubo te deixava
sentado com as suas melancólicas
mãos sobre os teus ombros
e na janela jazia o teu olhar de afogado
sabia o que tinha de fazer
convido-te
o jantar é por minha conta

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - O trilho por entre as pedras (fim)



5

E no entanto, não,
talvez não nada. Talvez
nem sempre nada. Em roupas
tecidas de cuspo azul
de cobras, rastejo: encontro-me vivo
nas espiraladas
arcadas das impressões digitais de todas as coisas,
o esqueleto a gemer,
fios de sangue lamentando o lamento de todas as coisas.


6

As árvores-testemunha saram
as suas cicatrizes no fogo de carne,
a chama
ergue-se dos ossos,
a fome
de se ser novo descola
a minha alma, uma estranha luz azul reluz
em todas as cristas do mundo. Algures
nas lendas dos sacrifícios de sangue
o destinado bezerro
toma a fogueira nos seus braços, e ele
queima-a.


7

Tanto em cima: as últimas estrelas espalhadas
ajoelham-se na forma celeste da idade do Aquário:
um salpico
no topo da cabeça,
na relva deste terra que até as estrelas amam, salpicos das águas sagradas...

Como em baixo: no cemitério
as lanternas acendem-se, uma para cada um de nós,
em todas as janelas
de pedra.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 67-68.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - O trilho por entre as pedras (cont.)


3

Saí de mim,
por entre as pedras do campo,
cada uma enviando a sua frescura-fantasma
às luzes das estrelas, para flutuar
por sobre as árvores, à procura de me unir
aos fogos sobrenaturais ascendendo e morrendo

no espaço – e recuando, sabendo
da tristeza do desejo
para descer
de volta ao brilho de um chão magoado,
as pedras amparando entre pasto e campo
o imenso núcleo de granito,
cintilando, mesmo elas, de antigos pressentimentos de loucura e guerra.


4

Um caminho abre-se
a meus pés. Desço
a passo de mula à luz da noite para a terra,
as pegadas atrás de mim
enchendo-se já de trilhos pré-sacrificiais
de canários, desço
para o aterro irrespirável
de tudo que alguma vez almejei e perdi.

Um velho, uma lamparina
de pedra na sua testa, de cócoras
junto às suas chamas infernais, agita
a sua caçarola
de cabeça de corvo
decepada, fios de luz branca,
cauda aberta de pavão, corpo
vestido de canário, peito de pisco
arrastado pelos enlameados campos de batalha, torcido
botão de flor caput mortuum – tudo
salga com areia
roubada das campânulas de cima de ampulhetas...

Nada.
Sempre nada. Sangue ordinário
a ferver no brilho da lamparina da testa.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 58-59.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - IX, O trilho por entre as pedras



1

No trilho sinuoso
a subir, a caminho do alto vale
das quedas-de-água e prados primaveris
submersos e partidos por cascos,
onde as raízes-de-peixe fervem
nos últimos graais de luz sobre a água,
e víboras salpicadas de ânsias de voar
panejam as pedras negras sibilam pês! pês! – terra
de penas
e tinteiros de caveiras cheios de águas negras –

chego a um campo
luzindo de mil peles escamadas
de pontas de flechas, pedras
que estremecem e saltam
para se doarem aos corações partidos
dos vivos,
que de retorno se dão, quebrados, às pedras.


2

Fecho os meus olhos:
nas praias onduladas pelo calor
onde as colinas descem aos mares,
a luminosa
poeira da praia triturada do funeral de conchas,
posso vê-las
a viver sem mim, morrendo
sem mim, as pedras
com a forma
de asa e ovo, partidas
cascas-de-guerra de conchas guerreiras mortas,
cascas de imortalidade de orelhas-de-cão
onde enormes constelações de limo, à lua cheia,
contorcem mais um
manto de invisibilidade num cisco de areal,

e as ágatas caídas
de círculos arranhadas até ao pó
com o clique
de um osso-de-desejo a quebrar-se, globos
que rodopiam para dentro e que nunca mais se abrirão biopsiados de pôres-de-sol,

e essa pedra abolachada
que saltou dez vezes sobre
a água, subitamente começando a correr à medida que se afundava,
e os zeros que deixou,
que se cruzaram
e passaram uns pelos outros, eles próprios
suavizando-se a partir da água...


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 65-66.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Agalloch - white ep

agalloch foram uma banda de heavy metal que incluíam várias influências nos seus álbuns, desde black metal, folk metal, doom metal, drone e post-rock. aqui, neste ep, encontro melodias à calexico e godspeed you! black emperor.




quarta-feira, 21 de novembro de 2018

visões da serra II

2
quando me encontrava
na funda cova de mim
escavaste um túnel
desde um buraco onde te estendias

à noite           a princípio           só
uma pata e uma mão
palma com palma se tocavam
para           palmo a palmo
       me ensinares a trepar
                                       para fora de um pensamento

a ti          cadela         meu sol negro
minha sombra canina
     devo mais que um poema

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

visões da serra

1
ela vai sempre adiante
abre o caminho a passo de desejo
e curiosidade          a cada volta
o mesmo é novo porque há
a miríade do outro

como se eu fôra cego
abriu-me os olhos ao rato
esquivo que joga às escondidas
a toupeira cega pequena Dédalo
cujas patas são mãos e dá
vontade de cumprimentar num aperto
afável         o esquilo onda de fogo
vermelho que abrasa a vista
o coelho medroso célere fodilhão
produtor de chocapic natural
que aprecia         o veado de nádegas brancas
em saltos elásticos como molas de
carne e pelugem à procura de deus
o javali que lhe enche o coração
e os sonhos de uma caça infinita

se a soltasse           por instantes
                   desta corda que a mim me prende
a ela          vê-la-ia de arpão em baleeiro batel
e para rimar chamar-me-ia Ismael

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

nada nunca é dito

poucas coisas são puras
no mundo          certos cristais
a vida           indefinida e impessoal
          para lá de toda a religião e ciência
e raros instantes
em que os dois            mergulhados
no que se diria a mais total porcaria
suor          saliva          fluidos sexuais
eliminando o atrito separatista da carne
                        se suspendem num aperto sufocante
os olhos dentro dos olhos
afirmando a absoluta presença
de um do outro
oh haecce haecce
és tu-és tu
e lágrimas escorrem pelos rostos
como por máscaras fúnebres
lentas gotas de cera de uma vela acesa
e nada nunca é dito para este
mútuo entendimento
o sentido não tem necessidade
deste poema          apenas a memória
como certeza da existência de ti
e de ti e da pureza da mais pura
mistura          que é o amor

Nils Frahm & Woodkid - Winter morning II (featuring Robert De Niro)

sábado, 3 de novembro de 2018

Informação - Revista três três número 8, lançamento



"No próximo dia 17 de novembro, sábado, pelas 16h, a revista três três lança o seu oitavo número, sob o tema "Autor". Será no bar Toca da Onça, em Caldas da Rainha. Temos a honra de contar com João Bonifácio Serra a apresentar esta edição.

Contamos com todos!

Um abraço 

-- Os Coordenadores editoriais --"

(participo com um poema)

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

lua nova

abatemos como animais moribundos
tantas possibilidades          sabotamos
cada porta aberta e em esperança
deixamos uma frincha de janela
em ensejo           para um outro
se queixar da corrente de ar

olha          quanta beleza se reserva
na parte mais obscura da noite
se sobre ela permitires a queda de um
pouco da tua luz

sábado, 20 de outubro de 2018

Galway Kinnell - O chamamento através do vale do não saber (fim)


5

Desse tempo numa prisão do Sul,
quando o xerife, enquanto me injuriava
e cuspia, tomou a minha mão na sua, balançou
as espirais a partir das polpas
e as arcadas em tenda num reino tornado tabu, essa subvida
onde os canários do sangue cantam, esmagou
as flores-de-carne
no livro sujo do
registo policial, depois do que me lembro mais
foi a atenção, a quase amorosa
gentileza animal da sua mão na minha.

Melhor que qualquer um de nós, ele conhece
a severidade desse cubículo
no inferno para onde te lançam
com todos os teus desejos não reduzidos, e sem qualquer corpo para os aplacar.

E quando ele próprio flutua dali para fora
num mar que quase começa a se lembrar,
flutua rumo a umas trevas que já conheceu;
quando o gemido do vento
e o arfar dos pulmões se chamam um ao outro por entre as ondas
e o desejo de flutuar
acaba por não interessar nada à medida que ele se afunda,

será assim tão impossível pensar
que ele sonhará de volta com todas as mãos pretas e brancas
que tomou nas suas
tal como a criação
lhe toca uma última vez em todo o seu corpo?


6

Supõe que fiquei
com essa mulher de Waterloo, supõe
que nos encontrámos numa colina chamada de Safa, no nosso próprio país,
que nos deitámos na relva
e olhámos para a cegueira de cada um, e sombras-de-folhas
balanceando sobre os nossos corpos nas derivas do sol,
os nossos rostos
inclinados para o do outro, como galinhas
inclinam as suas faces
quando o calor aflui do ovo aquecido
de volta ao próprio ser, e a lua de prata
suspendeu-se para nós no meio do paraíso –

creio que teria fechado os olhos, e mover-me-ia
daí em diante como o nascituro cego,
os seus rostos
já idos para o paraíso.


7

Nós que vivemos as nossas simples vidas, que pomos
a nossa mão na mão do que quer que amemos
enquanto desaparece,
como nós desaparecemos,
e tropeçamos em direcção ao que virá, apenas porque chega,
uma espécie de destino,

um campo, talvez, de pedras lascadas
espalhadas à luz das estrelas
em que a carne
enfaixa o seu esqueleto uma última vez
antes que os ossos sigam o seu caminho sem nós,

não ouviríamos, mesmo assim,
o chamamento do urso
desde a sua colina – um chamamento, como o nosso, ansiando
por ser respondido – e o urso-da-represa
chamando de volta através das trevas
do vale do não-saber
a única palavra as línguas formam sem intercessão,

sim...sim...?


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 59-61

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Galway Kinnell - O chamamento através do vale do não saber (cont.)

3

E no entanto penso
deve ser a ferida, a própria ferida,
que nos permite saber e amar,
que nos força a alcançar o nosso desajuste
e por uma espécie
de poesia da alma, aperfeiçoar,
por um momento, a completude o Grego bêbado
extrapolou da sua coxa
ou flagelou de um coração esvaziado,

essa concumbência,
mais pura e trágica, estranhos
abraçados num só, um momento, do seu momento na terra


4

Ela que se deita meio
a meu lado – ela e eu uma vez
vimos as abelhas, ainda não sonhadores
mergulhados nos ácidos
da ânsia por qualquer coisa, ainda não queimados a moscas, sugando
o pó-desabrochado
da pereira em flor,
os dois
deitados juntos
debaixo da árvore, na terra, ao lado das nossas roupas vazias,
os nossos corpos abertos para o céu,
e as flores cintilando no céu,
boiaram até ao chão
e as abelhas cintilaram nos botões
e os corpos dos nossos corações
abriram-se
sob o conhecimento
de árvore, na relva do conhecimento
de campas, e entre as flores de flores.

E o cérebro continuou a florescer
através de todo o corpo, até que os ossos podiam pensar,
e os genitais emanaram onda atrás de onda de desejo sagrado
que até mesmo as células cerebrais mortas
se ergueram e se sentiram fantasias andróginas, quase divinas –
e compreendi
o falo do unicórnio poder-se-ia ter levantado, afinal,
directamente saído do próprio pensamento.


inn Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 58-59.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Informação - "Para um outro dia Lázaro" já disponível

o novo volume de poemas "para um outro dia lázaro", encontra-se já disponível. para adquiri-lo basta clicar aqui ou na imagem aí ao lado e seguir as instruções da enfermaria 6.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Galway Kinnell - VIII. O Chamamento através do vale do não saber


1

Na casa vermelha afundando-se
no chão apodrecido, uma lanterna
numa janela, as cinzas ajuntadas deixavam
uma única chama livre,
um sapato de um ferro sonhado pregado à parede,
duas metades incompatíveis deitadas lado a lado nas trevas,
eu posso sentir com a minha mão
o feto despertando-se
com um enorme zurzido de peixe, e assentando-se nas suas trevas.

O seu cabelo brilhando à luz da fogueira,
os seus seios cheios,
a sua barriga inchada,
um pôr-de-sol de fogo
oscilando tudo para um lado, a minha esposa dorme ainda,
feliz,
ao longe, num qualquer
recentemente aberto quarto do mundo.


2

Suor caindo das suas têmporas
Aristófanes fugiu
perante a boca – inventou tudo, pesadelizou tudo
no calor
desse momento que nos esfaqueou desde então:
que cada um de nós
é uma metade despedaçada
de cuja parte perdida procuramos através do tempo
até que morremos, ou desistimos –
ou a encontramos de facto:

tal como eu, num DC-6
das Linhas Aéreas Ozark zumbindo sobre
vilas feitas de encruzilhadas, dirigido
a Waterloo, Iowa, a encontrei de facto,
segurando o seu rosto por algumas horas
nas minhas mãos; e por razões – covardia,
lealdades, tudo isso que vai pelo nome «necessidade» –
a deixei...


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares. Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 57-58

domingo, 7 de outubro de 2018

palavras de um estilita antes de partir

cansei-me de levar        como a luz
de um farol os barcos pelas fragas e
rotas do naufrágio          o meu nome
aos teus lábios       visto-me
de castanho e verde         deixo este sol
secar os meus caracóis
enfrentando os raios
da manhã depois de entrar no mar

com cautela apanho umas quantas folhas
anónimas rubras e ainda frescas
relíquias desdenhadas
e numa praça onde um dia passarás
aí estou de braços ao alto e corpo torcido

russel edson disse que corri
para casa e entrando de rompante
como só os mensageiros o sabiam
fazer antes da sua morte
disse a meus pais ser uma árvore
enquanto eles só viram o outono da minha desilusão
na sua miopia imaginativa

dirão        talvez         foi um estilita
rir-se-ão de mim como outrora
riram dos acrobatas da vida
tão em fama hoje
entre os desolados e fatigados
do moderno e pós

quando um dia o que me deram
de nome         enfim         cruzar a tua memória
ou como destroço dar à tua boca
estarei ainda na praça entre animal e planta
imperceptível         ver-me-ás tanto
quanto a destruição
já lambendo os teus pés
e tarde
demais            como todas as desculpas

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O mal de Quixote - uma leitura em torno de "O homem que matou D.Quixote" de Terry Gilliam



Como muitos outros filmes de Terry Gilliam o realizador explora o fantástico da literatura, misturando-o com a realidade cinematográfica, ela própria uma ficção paralela à realidade exterior da película. Desta vez, a figura que Gilliam recupera é o cavaleiro do séc.xvii D. Quixote de la Mancha, personagem da obra-prima de Miguel de Cervantes. A linha sobre a qual Gilliam assenta a sua «narrativa» é a do jovem criador em luta consigo próprio enquanto busca a excitante extravagância da sua primeira obra, que lhe granjeia a fama. Toby é um jovem realizador considerado, pelo mundo cinematográfico e pela companhia que o rodeia, como um génio, com fama adquirida após ter rodado o seu primeiro filme, um projecto final universitário, intitulado "o Homem qu matou D. Quixote", criado uns dez anos antes da nova produção, justamente aquela que assistimos estar ele a criar enquanto espectadores. A nova criação não é senão uma recriação do romance "D. Quixote".

Dez anos separa as duas criações e, ao longo do filme que assistimos, podemos dar conta o que distancia o criador no seu carácter de um e outro Quixote: de um lado, o jovem realizador, sonhador, inventivo com o pouco que tem, atento aos acasos que o rodeiam, aventureiro; do outro lado, um realizador como que inflamado pela fama, cínico, afectado no seu comportamento, arrogante, desesperançado e vazio de ideias. Outrora rodeado de amigos, ligado pelo amor à arte cinematográfica, agora por aduladores e manipuladores guiados pelo dinheiro. O realizador está, podemos ver, em crise, descrente da sua visão, pressionado pelos investidores, encurralado, mas prossegue, estando já ele corrompido pelo seu caminho cínico. Uma luz surge, porém, que desperta nele a chama dos sonhos da juventude, quando, angustiado no seu vazio e asfixiado pelas pressões, o director da produtora do novo filme, uma recriação de D. Quixote, lhe sugere, por mero acaso, ou escrutínio dos deuses, que assista ao seu primeiro filme, ao seu primeiro Quixote. Oferece-lhe o DVD dessa versão comprando-o a um cigano que, ao longo da película que assistimos, intervém sempre em momentos cruciais - críticos no seu sentido etimológico, de decisão vital, de escolha - exactamente como o dessa reunião com os investidores e a equipa (NOTA: seria interessante questionar o papel desse cigano ao lado de outras personagens similares da obra de Gilliam, tal como o Diabo Tom Waits, o Anjo da Morte em Barão Münchausen, ente outros).

Não falarei da aventura que antecede o visionamento do DVD, um momento cómico entre vários desta comédia «filosófica», mas o que nos é sugerido quando Toby visiona o seu primeiro filme: ele é confrontado com a «inocência criativa», a inocência que é capaz de derrubar as convenções. Ele é tomado pela nostalgia e no dia seguinte da rodagem, num contratempo, vai de visita à aldeia onde foi filmado o seu primeiro projecto, em busca das personagens reais que viveram na sua película, Angélica/Dulcineia (num belo trabalho da actriz portuguesa Joana Ribeiro), Javier/Quixote, apenas para descobrir que a sua estadia dez anos atrás provocou um mal acerbo à pequena aldeia e seus habitantes, perdidos e estagnados no tempo do cenário - não na vida ou na dor que cada um carrega. Angélica, enlevada pelo sonho do cinema e pelas palavras sedutoras de Toby procurou a sua sorte em Madrid e Barcelona para, no fim, sem sorte nesse trilho, acabas nas mãos de um magnata do vodka, um russo caprichoso que a maltrata; Javier, um simples sapateiro, pacífico e oco de violência, que levava Toby ao desespero porque não «encarnava» o D. Quixote, afinal, crê-se ser o próprio, o verdadeiro D. Quixote nascido no ano de 1600 e incapaz de morrer, preso por um feitiço de Malandrino - o momento de encarnar a personagem é-nos oferecido como o instante em que Javier relembra a sua verdadeira vida, ele é D. Quixote, ele não está a representar; aqui temos um momento de reencarnação, ou metempsicose: Javier é a personagem que Quixote representa no século xx e tão bem que se esqueceu ser Quixote, ou tendo nascido no século xx e vivido enquanto Javier, a releitura das suas aventuras, o forçar da sua revivência provoca o desvanecimento da consciência-Javier para revelar a verdadeira essência-Quixote.

A possessão ou encarnação deu-se, aliás, durante a rodagem, vemos isso à medida que Toby relembra o passado. Toby encontra Javier/Quixote encerrado numa carruagem, como se fosse uma atracção de um circo de curiosidades - o «freak» da língua anglo-saxónica - libertando-o por acidente, provocando na sua fuga um incêndio na aldeia. Mais tarde, a Guardia Civil aparece no local das rodagens tendo como prisioneiro o cigano que lhe vendeu o DVD, falsamente acusado de roubo por Toby e a mulher do presidente da produtora, para se ilibarem do adultério que iriam realizar, impedido pela chegada imprevista do marido. Toby é levado prisioneiro como suspeito do incêndio e partilha o jipe com este «espírito aventureiro»; e eis quando a aventura finalmente começa.

D. Quixote intervém e salva o seu escudeiro Sancho Pança/Toby. É também aqui, quando Toby veste as roupas de Sancho Pança trazidas por D. Quixote, que a grande questão deste filme arranca. Toby acede a ser Snacho Pança; um Sancho Pança com os pés fixos na realidade e não na ilusão Quixotesca, mas o continuado confronto entre real/ilusão acaba por ceder e Toby principia a «ver» e a aceitar o modo de existência quixotesco. (NOTA: o confronto real/ilusão-ficção salta igualmente para fora da tela, desta vez entre realidade/ficção, ou realidade não-cinematográfica vs. realidade cinematográfica, quando Toby se encontra na tasca do pai de Angélica. Ambos falam em castelhano, porém de modo a facilitar o diálogo, ou o preguiçoso espectador, Toby arreda com a mão, literalmente, as legendas traduzindo o diálogo, dizendo «nós não precisamos disto para nos entendermos», ambos desencadenado o diálogo em inglês, como se, talvez na verdade, cada um falasse a sua língua e se entendessem, como é já corrente em certos filmes e séries em que as personagens falam e conversam nas suas línguas maternas e diferentes e se entendem, por exemplo, Ocean's Eleven com o chinês acrobata).

O filme termina, na verdade, com a morte de D.Quixote. Melhor dito, com a morte do homem que encarnava o «espírito», ou a «alma», ou a «consciência-Quixote», Javier. As suas últimas palavras, como uma confissão de um moribundo, afirmam a sua identidade anterior, um simples sapateiro «com um daqueles rostos capazes de vender apólices de seguro». Despede-se do espírito ficcional retornando à sua identidade real. Mas o espirito não se perdeu; Toby, que lentamente veio a ser infectado pelo «mal de Quixote» - expressão que pisca o olho a Vila-Matas - encarna Quixote. Num instante de desespero livre de todos os constrangimentos, o choque do real - a morte de D.Quixote, a afirmação de uma identidad real que ele já não queria aceitar acreditando já, plenamente, na ilusão-Quixote, enfim, o choque numa crença a que se doou todo o seu coração, falamos desse choque atroz - é a sua consciência que por fim cinde, colapsa. Levando o cadáver de Javier jazendo no dorso de Rocinante, Toby desaparece e é Quixote que renasce para cumprir a sua promessa e viver para sempre, acompanhado de Angélica que, por amor, compromete a sua identidade e devém Sacho Pança, dando um novo sentido à frase «este é o início de uma estranha relação».

Este novo filme de Terry Gilliam tem decerto muitas leituras/interpretações. O que o filme me deu a pensar, naquilo que tem de ensaio filosófico-cinematográfico em torno da identidade e da criação de uma obra de arte - questão que me acode, talvez, porque me perturba, me alicia - é a seguinte e resumidamente (os pontos não têm qualquer relação hierárquica):

1 - O nascimento e morte da ficção vem do real.
2 - A vida da ficção vem da força na sua crença, vivendo-a plenamente
3 - Após a iluminação, a efulgência da primeira criação, o criador vive assombrado, ou seja, à sombra dessa criação e incapaz da sobrepôr, perseguido por esse acontecimento.
4 - Seduzido peal efulgência, o criador trabalha com o intuito de produzir um brilho maior e que apague ou desvaneça a sombra que o angustia.
5 - A assombração remete o criador para a repetição. Ele repete diferentemente a primeira efulgência como recuperação e como forma de sobreposição.
6 - Estando assombrado, o criador é incapaz de viver fora da criação, ao ponto de se despedir do real e abraçar completa e plenamente a obra e a ficção (da obra).
7 - Como caindo num Mäelstrom, o criador arrasta tudo consigo, como que dizendo «se me amas vens comigo até ao fim».

Alguma coisa estará a faltar neste pensamento não amadurecido, mas foi isto que Terry Gilliam me deu a pensar. Toby recria, uma vez mais, D.Quixote após o sucesso do passado, porém, nada lhe satisfaz; Javier vive na ficção que o abraçou e ele a ela, num momento de enorme tensão, livrando-se da ficção quando o real, o mais duro real, a morte, choca e destrói a ficcção; pelo desejo de criar uma obra de arte que se sobreponha à sua obra-prima da junventude, Toby vai cedendo à força da obra, da ficção, substituindo o real pela ficção até ser possuído pela ficção; Angélia, que não queria cair, uma vez mais, enamorada de Toby, aos poucos e poucos cede, culminando a cedência mergulhando-se na espiral, no remoinho em que o próprio Toby caiu, encarnando Sancho Pança, para poder acompanhar e tomar conta do «louco» Quixote, tendo sido, assim, por amor, infectada, também ela, pelo «mal de Quixote». Um mal que me parece o próprio Terry Gilliam sofrer, sendo este filme, em certos aspectos, uma repetição diferente de obras anteriores, tal como o Dr.Parnassos, o Barão de Münchausen, Brazil, desta contínua mistura de ficção e real. D. Quixote cumpre a sua promessa de viver para sempre, não só nos pacientes do «mal de Quixote», como a cada vez que alguém lê ou relê as suas aventuras.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

nessa noite ouvi-me envelhecer

nessa noite ouvi-me envelhecer
como um toro a arder ruindo
na lareira         nada passou
de sério para além das horas e eu
envelheci entre os olhos e as palavras

tu foste lentamente adoecendo
com um frio irradiando no estômago
queimaram-se já demasiadas pontes
alguém disse          contra o maquinismo
demos greve aos sexos         a paixão é ainda
uma bandeira a ser hasteada

o luto prevaleceu sobre as pálpebras
pesadas como duas pombas
em finos ramos         depois de cuspido todo o veneno
adormeceste com a gravidade de uma estátua
e eu velei-te como imagino Rodin
com as mãos no mármore desta página

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

o sorriso aos pés da escada (10-09-1979 - (...))

aos 39 digo hop lá! estamos vivos!
não sem alguma surpresa          pensei que ficasse
pelo caminho lá nos idos 25 ou 28

olho as melenas brancas
da minha mãe e sei         uma ou outra
tocaram a prata pela via das preocupações
que eu dei         só de vez em quando lágrimas
agora que me ausentei pela linha do horizonte
da europa         no olhar alheado do meu pai
pergunto-me por onde pairo
em que loop nos labirintos de pedra
do seu cérebro aguardo a sua visita
e se aos 39 serei uma criança

estou vivo e atento à vida
por exemplo         lá fora escuto uma mulher
que geme de prazer pela penetração
a respiração lenta da serra enovelada
em mantas         os gritos de noitibós
e o tilintar teimoso do mosquito na janela
em busca de uma saída deste inferno do homem
que a há um pouco adiante por uma frincha
nessa abertura inclinada da realidade

este prazer não nega a imensa dor que me gela
o coração a cada dia entrando pelos olhos
a dentro         tenho uma sombra no pensamento
percebem isso         o prazer que me enleva é assim
como o sorriso esgarçado de Maldoror
estou vivo e amo e celebraria a vida
mesmo se o meu amor e paixão fossem só por
isso que é a vida         até à última 21ª grama
serei um palhaço subindo lentamente
a escada do tempo e do sentido

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Nick Cave and the Bad Seeds - Little empty boat (bom fim de semana)



You found me at some party
You thought I'd understand
You barreled over to me
With a drink in each hand
I respect your beliefs, girl,
And I consider you a friend,
But I've already been born once,
I don't wanna to be born again.

Your knowledge is impressive
And your argument is good
But I am the resurrection, babe,
And you're standing on my foot!

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
(Row!)

Your tiny little face
Keeps yapping in the gloom
Seven steps behind me
With your dustpan and broom.
I couldn't help but imagine you
All postured and prone
But there's a little guy on my shoulder
Says I should go home alone.
You keep leaning in on me
And you're looking pretty pissed
That grave you've dug between your legs
Is hard to resist.

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row

Give to God what belongs to God
And give the rest to me
Tell our gracious host to fuck himself
It's time for us to leave.

But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
But my little boat is empty
It don't go
And my oar is broken
It don't row, row, row
Row...row...row...row...