quarta-feira, 20 de junho de 2018

um melro abre-te os olhos

foi no princípio
                       da primavera
                                            um melro raiado de sol
vangloriava-se da sua negridão

o meu olhar caiu
                         atraído
                                    à sombra do seu encanto

prendemos a eternidade
                                     nesse momento
                                                             nunca antes tido

sob o peso da sua mercê
                                       e cego pela sua beleza
                                                                          retornei à devoção
uma vida alia sem porquê

domingo, 17 de junho de 2018

Uma tarde em Merschsee

ao entrarmos por essas águas esqueçamos
os nomes dados e demais
atributos das páginas
finais de jornais e revistas
da boca do mundo – quão longe
estamos de uma vida como exemplo
a qual ditava o passo estóico
enchendo-nos hoje com a desgraça
alheia a par do riso acre como um gesto
ilusionista levando a nossa atenção
para longe do que está por trás do pano

há muito que a solidão nos deu a mão
esvaziou as ruas da cidade e nos guia
às escuras pelos vasos comunicantes
da química metafórica

entrámos por essas águas – proibidas
disse-nos um marinheiro de entardecer
manobrando o seu veleiro
telecomandado – nus agora que vemos
de olhos bem abertos o que foi feito
e a duplicidade do abandono
que tardiamente nos aproximou

basta um terceiro qualquer e a armadura
cobre-nos o corpo e a língua
à partida         enxutos             queimados
                                                               ficou nos lábios um desejo
entrem essas águas pelas nossas vidas adentro
derrubem os diques           que nos alaguem
se somos uma ilha
                           num arquipélago de dor


Bad Meinberg

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Agnes Obel - Familiar



Can you walk on the water if I, you and I?
Because your blood’s running cold outside the familiar true to life
Can you walk on the water if I, you and I?
Or keep your eyes on the road and live in the familiar without you and I
It glows with gates of gold to true life
For our love is a ghost that the others can’t see
It’s a danger
Every shade of us you fade down to keep
them in the dark on who we are
(Oh what you do to me)
This love is gonna be the death of me
It’s a danger
'Cause our love is a ghost that the others can’t see
We took a walk to the summit at night, you and I
To burn a hole in the old grip of the familiar true to life
And the dark was opening wide, do or die
Under a mask of vermillion ruling eyes
And our love is a ghost that the others can’t see
It’s a danger
Every shade of us you fade down to keep
them in the dark on who we are
(Oh what you do to me)
Gonna be the death of me
It’s a danger
'Cause our love is a ghost that the others can’t see

terça-feira, 12 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os mortos erguer-se-ão incorruptíveis (fim)


5
Na vala
cobras rastejam frios trilhos
ao longo da coxa apodrecida, os ossos dos dedos do pé
estremecem no cheiro de borracha queimada,
a barriga
abre-se como uma flor nocturna venenosa,
a língua evaporou-se,
os pêlos
da narina aspergem-se com um pó branco amarelado,
as cinco chamas no fim
de cada mão apagaram-se, um mosquito
beberica uma última refeição deste prato de serenidade.

E a mosca,
o derradeiro pesadelo, desova-se a si mesma.


6
Corri
de pescoço partido corri
amparando a minha cabeça com ambas as mãos corri
pensando as chamas
as chamas poderão queimar o oboé
mas escuta amigo elas não podem tocar nas notas!


7
Alguns ossos
jazem entre o fumo de ossos.

Membranas,
efígies prensadas na relva,
meandros mumificados,
descamações,
colchões flácidos incinerados dão-se ao mundo,
memórias deixadas em espelhos nos tectos de bordéis,
asas de anjos
marcadas nas neves de antanho,

ajoelha-te
na terra queimada
nos contornos de homens e animais:

não deixeis que esta hora passe,
não retireis este último copo de veneno dos nossos lábios.

E um vento suspendendo
o gritos de sexo de todas as nossas noites e dias
move-se por entre as pedras, à caça
de dois esqueletos entrelaçados para soprar neles o seu grito final.

Tenente!
Este cadáver não parará de arder!


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 44-45

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os mortos erguer-se-ão incorruptíveis (cont.)


3
No ecrã da televisão:

Tem um corpo que sua?
Suor que tem odor?
Dentes falsos agarrando-se ao seu pequeno-almoço?
Tem receios?
Uma dor de cabeça tão perpétua que lhe sobreviverá?
Sovacos plenos de pêlos?
Hemorroidas tão grandes que não precisa de uma cadeira para se sentar à mesa?

Poderemos nem todos dormir, mas todos seremos transformados...


4
No Vigésimo Século do meu trespasse na terra,
tendo exterminado um bilião de pagãos,
heréticos, Judeus, Muçulmanos, bruxas, aventureiros místicos,
homens pretos, Asiáticos, e irmãos Cristãos,
cada um deles para o seu próprio bem,

todo um continente de homens vermelhos por viverem numa comunidade antinatural
e ao mesmo tempo tendo relações com a terra,
um bilião de espécies de animais por serem sub-humanas,
e pronto a acometer nas criaturas sanguinárias dos outros planetas,
Eu, homem Cristão, gemo este testamento da minha última vontade.

Eu dou do meu sangue cinquenta partes poliestireno,
vinte e cinco partes benzeno, vinte e cinco partes da boa velha gasolina,
ao último piloto de bombardeiro lá no alto, para que haja um acre
no mundo enfadonho onde possa florir uma flor-do-beijo,
que te beija tão longamente os teus ossos explodem nos seus lábios.

A minha língua vai para o Secretário dos Mortos
para dizer aos cadáveres, “As minhas desculpas, companheiros,
a matança foi uma daquelas coisas
difíceis de pré-visualizar – como a vaca,
digamos, ser atingida por um relâmpago.”

O meu estômago, que digeriu
quatrocentos tratados dando aos Índios
um direito eterno à sua terra, eu dou aos Índios,
também os meus pulmões que passaram quatrocentos anos
sugando em boa-fé por cachimbos da paz.

A minha alma deixo-a à abelha
que a possa picar e morrer, o meu cérebro
à mosca, as suas costas a histérica cor verde do limo,
que o possa sugar e morrer, a minha carne ao publicista,
o anti-prostituta, que por dinheiro abomina a carne humana.

Atribuo a minha espinha tortuosa
ao fazedor de dados, que dela faça dados,
por ter lançado a sorte a quem verá o seu próprio sangue
na frente da camisola e quem será seu irmão,
porque a corrida não é para o veloz mas para o desonesto.

Para o último sobrevivente na terra
eu dou as minhas pestanas usadas pelo medo, use-as nas
longas noites de radiação e silêncio,
para que os seus olhos não se fechem, porque o remorso
é como lágrimas infiltrando-se pelas pálpebras fechadas.

Dou ao vazio a minha mão: o mindinho não mais esgaravata narizes,
a escória prende-se à negra vara do anelar,
um pouco de chama inflama-se na ponta do dedo de vai-te-foder,
o indicador acusa o coração, que desapareceu,
no toco do meu polegar um fogacho pede boleia para o vazio.

No Vigésimo Século do meu pesadelo
na terra, juro pelos meus testículos de crómio
neste testamento
e última vontade
da minha vontade de ferro, o meu medo de amor, a minha comichão por dinheiro, e a minha loucura.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 42-44.

sábado, 9 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os Mortos Erguer-se-ão Incorruptíveis


1
Um pedaço de carne emite
fumo no campo –

carniça,
caput mortuum,
restos,
lucros,
óleos,
incrustações,
miudezas despejadas de caixotes de lixo de hospitais.

Tenente!
Este cadáver não parará de arder!


2
“É você Capitão? Claro,
claro que me lembro – ainda o ouço
a dar-me uma lição no intercomunicador, Mantenha as suas armas ao alto, Burnsie!
e depois a gritar, Pare de disparar, por amor de deus, Burnsie,
esses são amistosos! Mas por amor de deus, Capitão,
eu já tinha começado, rajada
atrás de rajada, pequenos pijamas negros a saltar
e a cair... e lembra-se daquele piloto
que se pisgou para o Norte,
como o desfiz a categute nas suas próprias cordas?
um dos seus olhos tortos, um pedaço
do seu sorriso, vogava por mim
todas as noites logo após o comprimido para dormir...

“Era só
porque adorava o som
delas, acho que apenas adorava
a sensação de faiscarem nas minhas mãos...”


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 41-42

terça-feira, 5 de junho de 2018

[havia aí por esse campo]

havia aí por esse campo
uma árvore que pelo vento foi
quebrada como a tua vontade
anos antes por palavras
ébrias de frustração e equívoco
numa noite que parecia não ter fim
como um olhar num espelho prisioneiro
do reflexo de um outro espelho noutro

aí estava          um elogio ao tempo        erigida
lembrando aos fortes
que a resistência está na maleabilidade

houve quem decidisse que a sua presença desfeava
o bucolismo dos futuros veraneantes
levaram-na e as ervas crescidas
esconderam os últimos traços

quando por lá passo o olhar
prende-se ao vazio que outrora dava frutos
e adocicava o ar como a sua voz
e as mãos reconfortando a criança
após a terrível queda que provocou

                                                       uma e outra agora
são revisitadas pela memória
as dores arquivadas para poemas e
conversas noutras noites sem fim

entro assim adentro no reino
vegetal
           perdoo sem esquecer
agradecendo com a flor dos olhos
com amor sombra e o abrigo
do peito quando a si
a noite parece a última

Bad Meinberg

terça-feira, 29 de maio de 2018

Fernando Machado Silva - "Um espelho para reproduzir as mutações da vida", novo livro


o livro pode ser adquirido na companhia das ilhas, na fnac, na wook e na TFM

Nuno Bragança - o pensamento nas solidão dos quartos

"Estendido sobre a cama, contemplei esse quarto que tanto me sorrira, sentindo os próprios móveis transformados num olhar que me observava e não sabia quem eu era."

*

"Às vezes o mundo é como uma grande sala de ecos: dá-se um passo e vem logo o som de outro, escondido lá no fundo das dobras da distância"


in Nuno Bragança, Estação, Lisboa, Assírio & Alvim, col. A Phala, 1984: 44 e 88

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Max Richter - The Twins


Nuno Bragança - sobre dor, escrita e vida

"«Jed, cada pessoa humana sofre que nem se imagina. Cada pessoa, não falo em manequins ou bonecos de corda. E é preciso que um sofrimento dê às vezes ocasião a que quem sofreu despeje toda a dor de muita gente num livro ou quadro ou sinfonia ou no raio que parta. É a partir desse dar forma ao que nos angustia que nasce a esperança e pode reencontrar-se a pista da grande alegria perdida, a alegria com que cada pessoa vem ao mundo. É o riso do puto contra as brutalidades que os adultos praticam e deixam praticar. Lembra-te daquelas fotos do Picasso, em shorts e a rir-se em cada ruga funda. Por detrás do riso do Picasso há toda a tanta treva que os humanos atravessam. O bombardeamento de Guernica e a raiva do Picasso conseguiram uma profecia. Toda a criação é profética. É preciso conseguir juntar a febre de escrever à aprendizagem da maneira de trabalhar na escrita. Tu não podes estar simultaneamente apaixonado e escreveres dessa paixão. Quanto ao resto, todo o escritor só conta sempre uma só história: a do que ele viveu e morreu, viu viver e viu morrer. Falo de quem escreve com sangue e não a tira-linhas e compasso.» Calei-me, sem fôlego. Falara sem nenhuma reflexão."


in Nuno Bragança, Square Tolstoi, Lisboa, Assírio & Alvim, 1981: 108-109

terça-feira, 8 de maio de 2018

M80 alternativa - Spain 2x



Walked away
Released from all my crimes
Walked away
Released from all my crimes

But I could never hide
What I kept inside

Walked away
Released from all my sins
Walked away
Released from all my sins

But the cruelest thing
Was all my suffering
When I held you that night
I knew it felt so right
I knew it felt so right

Walked away
Released from all my crimes
Walked away
Released from all my crimes

But I could never hide
What I kept inside




Nobody has to know
Girl we've fallen so in love
It was just a year ago
And you've kept it to yourself

Nobody has to know
Nobody has to know

Nobody has to know
Girl our love has grown so strong
Close the shades unplug the phone
How can our love be so wrong

Nobody has to know
Nobody has to know

Nobody has to know
Girl we've fallen so in love
It was just a year ago
And you've kept it to yourself

Nobody has to know
Nobody has to know

Sesimbra anos 80-90 hoje

o estio sustinha-se no canto das cigarras
e abrasava a pele como um cigarro
abandonado num diálogo de vida
ou morte sobre uma toalha de mesa
cegando os olhos de amarelo
da areia e das ervas secas

a tarde equilibrava-se entre o ócio e o tédio
da digestão e das aventuras de Tom Sawyer
sempre descalço como tu
nesses pés sempre puros e brancos da ficção
e não como os teus          puto           manchados de resina
desses pinheiros prenhes de sombras e carochas

havia o chão axadrezado onde dispúnhamos
as estratégias da infância e adolescência
em toques de bola e imaginárias
pistas de corrida de bmx          aí o mármore
fervia logo nas manhãs mais quentes e sem ninguém
saber testavas os limites da dor pela planta desses pés

mais tarde tudo te era um sinal de qualquer outra coisa
não só as palavras te falavam o mundo interior
havia a luz os silêncios e aquela pomba morta
entre os ramos de um limoeiro que te disse
antes de se aproximar o fim do teu primeiro amor

no pinhal anzóis e velhos marinheiros teciam as suas redes
como as suas mulheres de negro durante o inverno
as teias do coração e da memória e depositando
à noite os lábios nos pés
de santos de olhar de pedra no êxtase do vazio

na vila o transparente verde desse mar
sobre a sereia e por baixo vogando
anjos marinhos véus adejando pelas corrente
a quem nunca te aproximaste temendo
a queimadura

tudo hoje é a mesma coisa sendo outra
por trás do cimento da época
já nem de pátina se cobre o velho cronos
e é tanto o medo das trevas que como crianças
deixamos a luz permanentemente acesa
cegando-nos para os pirilampos

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Galway Kinnell - No hotel da luz perdida


5
Hematomas violetas surgem
por toda a sua pele, à medida
que punhos invisíveis lhe sovam um última vez; o lamento
do sangue de ónfalos recomeça, o umbigo
inchado explode, o pesadelo
carnal eleva-se de volta para o princípio.

6
Quanto aos ossos a serem lançados
no aceldama atrás da loja de cerâmica, entre
fragmentos e caroços
que apanharam o vórtice e caíram
na lama, ou rastejaram para fora do fogo
alucinados ou explodidos, eles reerguer-se-ão
na pereira, na primavera, para iluminarem
em dois apertos o que sonharam ser um e o outro.

Quanto a estas palavras dispersadas no futuro –
posteridade
é uma inventada tão no seu passado
sequer se ouvem.

7
O que precede foi traçado
em Março, do ano Setenta,
na minha décima sexta milionésima noite de guerra e loucura,
no Hotel da Luz Perdida, debaixo da autoestrada
que ruma para as trevas
da lua, no absoluto encanto
da partida, e pela luz
dos hemisférios unidos dos olhos da aranha.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 37-38.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Pink Floyd - keep talking



For millions of years mankind lived just like the animals
Then something happened which unleashed the power of our imagination
We learned to talk

There's a silence surrounding me
I can't seem to think straight
I'll sit in the corner
And no one can bother me
I think I should speak now (Why won't you talk to me)
I can't seem to speak now (You never talk to me)
My words won't come out right (What are you thinking)
I feel like I'm drowning (What are you feeling)
I'm feeling weak now (Why won't you talk to me)
But I can't show my weakness (You never talk to me)
I sometimes wonder (What are you thinking)
Where do we go from here (What are you feeling)

It doesn't have to be like this
All we need to do is make sure we keep talking

(Why won't you talk to me) I feel like I'm drowning
(You never talk to me) You know I can't breathe now
(What are you thinking) We're going nowhere
(What are you feeling) We're going nowhere
(Why won't you talk to me)
(You never talk to me)
(What are you thinking)
(Where do we go from here)

It doesn't have to be like this
All we need to do is make sure we keep talking



(sempre que penso no meu pai é esta a música que me vem à cabeça. quando vivíamos juntos, enquanto crescia até ao último tempo que passei com ele,foi  o seu silêncio que mais conheci. depois,, mais tarde, a má comunicação adicionando-se ,a cada vez mais e de forma galopante, o baralhar, o desaparecer, a petrificação de toda a sua memória. agora, imagino não ser esta outra a canção que lhe cabe)




Beyond the horizon of the place we lived when we were young
In a world of magnets and miracles
Our thoughts strayed constantly and without boundary
The ringing of the division bell had begun

Along the Long Road and on down the Causeway
Do they still meet there by the Cut

There was a ragged band that followed in our footsteps
Running before time took our dreams away
Leaving the myriad small creatures trying to tie us to the ground
To a life consumed by slow decay

The grass was greener
The light was brighter
With friends surrounded
The nights of wonder

Looking beyond the embers of bridges glowing behind us
To a glimpse of how green it was on the other side
Steps taken forwards but sleepwalking back again
Dragged by the force of some inner tide

At a higher altitude with flag unfurled
We reached the dizzy heights of that dreamed of world

Encumbered forever by desire and ambition
There's a hunger still unsatisfied
Our weary eyes still stray to the horizon
Though down this road we've been so many times

The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river
Forever and ever

terça-feira, 17 de abril de 2018

Galway Kinnell - No Hotel da Luz Perdida



3
Carne
da sua desaterrada carne,
cheia do seu vazio,
pós-amanuence da sua pós-vida,
eu escrevo
por ele neste definhado alfabeto
de vermes, estas suas últimas
palavras, envio por ele
o seu derradeiro postal para a posteridade.


4
“Eu sentei-me junto do fogacho que se iluminava com a gordura derramando-se dos membros borbulhentos da galinha,
Eu desmaiei no esquecimento junto àquela fenda na curva onde os malmequeres nascem,
Eu vi a roda gigante escrevendo os seus zeros enormes e desolados a néon nos céus nocturnos,
Eu pintei as solas dos meus pés de púrpura para esse dia em que a bela cor se mostraria,
Eu titubeei sentenças de morte ao longo de ruas vazias, as calçadas asseguraram-me, assim será.
Escutei os meus próprios choros já bramidos para dentro de garrafas que as ondas naufragam nas praias,
Eu escrevi como outro as minhas próprias preces no corpo-árabe dos pesadelos.

“Se o porteiro bater, queixando-se de novo
acerca do cheiro doce, excrementício de cadáver aberto rastejando
por debaixo da porta, diz-lhe, 'Amigo, Para Viver
tem um primo pobre,
que chega hoje à noite, que pronuncia o nome de família
Parta, ela
muda a cada visita os trapos de carne nos seus ossos.'”


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 36-37

sábado, 14 de abril de 2018

Galway Kinnell - NO HOTEL DA LUZ PERDIDA


1
Na cova
da minha mão esquerda morreu o cheiro bêbado
de autópsias, o meu corpo desabou
para a sua forma, observo, tal como
ele deve ter observado, uma mosca
enleada no adesivo, chorando as suas asas,
completamente concentrado no
tempo, tempo, perdendo o seu norte pior
descendo a escadaria em caracol, as suas asas
chorando por vida enquanto se paralisa
no olhar contemplativo
do abraço do prosencéfalo da aranha, o abstracto arregalar
no qual até mesmo o pesadelo cospe os seus horrores
e morre.

Agora a mosca
cessa de lutar, as suas asas
alvoroçam a música nascendo com o falhanço
de alguém que se prepara para morrer, como o olifante de Rolando, resumando
lá dos Pirinéus, salvou os seus flancos escuros e cheios
para o fim.


2
Na luz
esquecida pelas pequenas
aranhas de sangue que deturparam
as suas memórias ao longo dos seus ombros
e peito, o quarto
ecoa com os mínimos batuques
de pêlos púbicos arrancando-se
dos seus lugares; na pele despida
os apaixonados piolhos
lutam por se descolarem e fugirem da posição condenada –

e param,
cabeças enterradas
para um último trago da amada-carne.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Houghton Mifflin Company, Boston & New York, 1971: 35-36

domingo, 8 de abril de 2018

cinzas sobre raízes

quem atravessa o mundo esquece-se
de si         os olhos correm
predadores pela floresta
pairam nos campos
respigando o voo das aves
deslizam na corrente de ribeiros
vão como folhas
a caminho da lenta podridão

e o assassino que estripa
ou abre a fenda
na obra – de Jack ou Fontana
o golpe diferencia
tão pouco – leva-te
por esses cortes negros
sob o choro de anjos
a caspa de deus
e o enregelamento de gaia

um dia também ele restará
em paz
abandonado numa berma
incendiado ou tornado morada
de novíssima fauna e flora
em simbiose com a ferrugem e a borracha

e tu          esquecido                estarás
noutro lado
espalhado num jardim
cinzas sobre raízes

quinta-feira, 5 de abril de 2018

As horas para um poema - 7 (fim)

7
descansa agora
do que vives
eu escrevo


(NOTA: a estrutura do poema e a sua dobra, o livro do Génesis, surgiu-me, sem saber bem que ligação ocorreu no meu cérebro despoletando a sua escrita, quando assistia, com a minha companheira, ao filme "Three billboards outside Ebbing Missouri". A «matéria» deste poema trata, justamente, da matéria de um poema, a matéria bruta - afectos e perceptos - que encontram uma formalização na linguagem - no sentido de tomarem uma forma linguística - sem terem, necessariamente, um sentido específico determinado. Por outras palavras, à medida que o poema vai sendo escrito há um sentido que vai surgindo simultaneamente, o sentido é produzido com a produção do poema e não lhe está pré-determinado; ele é, o mais das vezes, uma nebulosa pressentida que se vai materializando com a ligação constelar de pontos vibráteis, nervosos e a matéria bruta envolvida por essa nebulosa refina-se. Assim, eu, enquanto vou experienciando a vida, sou escrito por afectos e perceptos que se mantém desconectados até que, atraídos por tensões potenciais, chocam, conectam-se e do caosmos da minha vida - corpo e mente e não só corpo, ou só mente - forçam a sua criação, a sua escrita, o seu génesis, a sua génese; mas quem escreve é já outro «eu» e quem, ainda depois, reescreve e cinzela, risca e corta, é ainda outro, daí o uso da segunda pessoa do singular no poema e, agora, o uso da primeira pessoa para falar do poema e do sujeito do poema. Isto não é uma teoria do poema e da poesia senão do meu processo.)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

As horas para um poema - 6

6 (1:24-1:31)

imbuído de ânimo
abres caminho até ao corpo
ainda molemente adormecido

o calor que emana e os cheiros que exala
entregue assim na sua nudez
erigem em ti a bússola do desejo

fingindo dormir recebe-te
com água e fogo
segurando-te pela raiz
lavra os lábios como um arado
até uma flébil fonte deixar correr o seu fio
amolece uma pérola justo uma vogal
se formar nas duas bocas
e no sulco leva a raiz ao fundo
e dança e poesia suspendem a sexta hora

as cadelas suspiram ansiosas
a salamandra apaga-se a noite despede-se
a luz vem da estrela que adoramos
e a coreografia cessa entre suor e ofegar
ela parte nas pontas dos pés depois de
beijar os animais que nos (a)guardam
e enrolando o cabelo num nó
deixa-nos para penetrar nas águas do dia

preparas comida e líquidos vegetais
diante de ti um caderno de par em par
oferece as suas páginas brancas
(sem pauta é certo escrever torto)
fechas os olhos e deixas o mundo
destas seis horas soçobrar a tua mão

domingo, 1 de abril de 2018

As horas para um poema - 5

5 (1:20-1:23)

mas não podes permitir que se instale
por absoluto o frio no teu coração
nas tuas costas dois corpos negros
contorcem-se raspam no chão
as suas garras           estendem
as suas línguas impertinentes
para limparem as suas peles aveludadas

festejam a tua chegada
enquanto mimas os seus movimentos
despertam as suas caudas para o compasso da alegria
lavam do teu rosto os cheiros
para saberem por onde andaste nos teus sonhos

excitadas acordam para o seu instinto
guerreiam incentivam jogam
fazem do quarto o mundo animal
deliciam-se com a vida afirmando
nesta quinta hora                         como o mundo
                                                                          está pleno e nos aguarda

sábado, 31 de março de 2018

As horas para um poema - 4

4 (1:14-1:19)

entorpecido pelas horas escutas
a vida que te clama
puxas os lençóis ensopados de pesadelos
e esquecimento

os pulmões agora habituados à ausência
de tabaco queixam-se como um reformado
num diálogo com o arrulhar de pombos

a cinza sedimenta-se em todo o teu redor
e nos reinos interiores              abres a janela e o ar
de frio negativo bate como uma onda
faz notar a presença dos ossos
diz que tens um rosto sem metáforas

e nesta hora do lusco-fusco
a quarta hora           a de todas as possibilidades
a hora de Janus
olhada com paixão por Magritte
a abóbada celebra o casamento dos astros

à tua direita o éter e o ozono azuleiam
a terra queima de laranja a anos-luz
à tua esquerda a noite e a lua
guiam os sobreviventes aos seus lares
cambaleando de álcool e cansaço
cantando por mais uma
vitória sobre o relógio da sociedade
e este noivado é bom

sexta-feira, 30 de março de 2018

As horas para um poema - 3

3 (1:9-1:13)

nesse campo agora aberto o vazio
esvazia-se à medida do corte
das formas nas pontes verticais
unindo céu e a terra

este é um possível mundo
oferece-te a intranquila segurança
de onde tudo pode começar:

a cama uma cadeira uma mesa
uma estante com livros e roupa
uma salamandra ardendo pelo inverno fora
um caderno uma caneta
uma mesa de cabeceira e o candeeiro
fonte luminosa para que tudo entre
pelos olhos          um computador para a distracção
e parte da partilha de uma vida
aqui e ali algumas imagens com a sua magia
e quase tudo cinzelado na tua memória
onde a cada forma vista         sentida         dás
profundidade e assim cresce para lá do real
a sua falsa materialidade e rompendo pela escrita
e é agora a terceira hora e da janela vem a claridade