olá a todos.
ando à procura de casa em lisboa - voltei, é verdade - e queria saber se me podem ajudar. procuro uma casa pequena mas confortável, barata (máximo 400€ ou 450 com tudo incluído), mobilada (ou não), como um t1 (dois quartos, cozinha ou kitchnet e casa de banho), que dê para ter um animal de estimação (se houver quintal tanto melhor) - acho que foi a única altura que reconsiderei o facebook, mas não irei ceder.
podem perguntar a amigos, familiares, podem ajudar-me? isto é a sério, não estou a brincar.
a quem me ajudar preparo um jantar fantástico.
obrigado
Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
alguém me pode ajudar?
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coisas
Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
Informação - oficinas de encadernação
Oficinas de encadernação na BOESG:
2º e 3º sábado de cada mês
Oficinas deste mês: 11 e 18 de Fevereiro, entre as 10h30 e as 17h00.
mais informações:
http://boesg.blogspot.com/
2º e 3º sábado de cada mês
Oficinas deste mês: 11 e 18 de Fevereiro, entre as 10h30 e as 17h00.
http://boesg.blogspot.com/
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coisas
W. G. Sebald
Autor: W. G. Sebald
Título: O caminhante solitário
Editora: Teorema
Tradução: Telma Costa
Disse um dos meus bisavôs – não sei se o será, mas é uma piada de família pela partilha do apelido e ter parentes para lá da raia – num verso que correu mundo, que o caminho se faz caminhando. Sim, por entre a terra ainda por desbravar, onde nenhum trilho há, o passo marca o caminho que só o é repetindo-o, uma e outra vez. Porém, fazemo-lo sempre sozinhos, solitariamente. Caminhamos a par de outros, lado a lado, mas cada caminho será o rasto do peso da nossa vida, de cada uma; e esse será o segredo de todos os caminhos: uma vida e uma morte que se farão nossos como os caminhos. Caminhando as vidas tocam-se, comungam passos, pensamentos, afectos, podemos até pisar as pegadas do outro, mas não será nunca o mesmo caminho. Parece-nos ser isso que se lê nesta bela obra de W. G. Sebald, “O caminhante solitário”.
Escritor alemão, nascido a 1942, morre tragicamente em 2001, Norwich, no curso de uma viagem com a sua filha, que lhe sobreviveu. Tendo sido professor universitário de literatura e fundado o British Centre for Literary Translation, o seu nome foi sendo conhecido pela sua interessante – no mínimo – escrita, onde conflui ensaio com ficção, facto com imaginação, numa linguagem sóbria e límpida, mas, porém, num estilo quase tortuoso, com extensos parágrafos, em que ideias se sobrepõem a ideias. Não posso apresentá-lo melhor e mais extensamente, uma vez que esta obra foi a primeira que li do autor.
Aqui, Sebald persegue as pisadas de autores afectivamente próximos a si. Podemos, talvez, dizer que ao longo do livro se cruzam vários caminhos, que Sebald percorre, traçados sobre dois maiores: um, toda a paisagem pré-alpina, próxima do autor quando jovem, entre a Alemanha e a Suíça; outro, o da história cultural, literária, europeia, bem como o de cada criador chamado à presença na obra, todos eles, ou suíços, ou alemães, tendo vivido e percorrido essa fria, rochosa, campestre paisagem. Dividindo o livro em seis partes, Sebald discorre sobre Keller, Hebel, Mörike, Rousseau, Walser – todos eles escritores como Sebald – e o pintor, seu amigo, Jan Peter Tripp, analisando as suas vidas, os seus tempos. Por momentos até cria encontrar-me a ler Stefan Zweig, pelo menos esse brilhante tríptico biográfico, “A combate com o demónio”, sobre Hölderlin, Kleist e Nietzsche.
Solitário, Sebald repete os caminhos da vida dos escritores e do pintor, tão solitários quanto o próprio autor pelo seu caminho. Relata os seus passeio pela paisagem enquanto divaga entre as suas memórias e a memória que a história arquivou; traça novos trilhos, ata e desata nós, encruzilhadas do sentido das obras dos seus antepassados – no fundo, pressentimos que são invulgares retratos de família; isto porque o escritor alemão insere ao longo da obra fotografias, imagens, reproduções fac-símiles de textos dos autores e seus, que mais do que ilustrar ou aprofundar o contexto, lançam pontes que nos intimam a criar os mesmos laços que o autor estreitou pelo seu amor à literatura – de tal modo que já não são estes personagens da História, mas da sua vida, das suas ficções reais, mais ainda que da História. Serão agora também da minha, junto a Sebald.
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canto literário
Domingo, 29 de Janeiro de 2012
De Jena a Nerval: o "romântico"
para quem se interessar podem encontrar, seguindo o link em baixo, um artigo que saiu na revista "Acta Scientiarium, Language and Culture". deixo aqui o resumo e as palavras-chave.
Resumo
Este breve ensaio introdutório e crítico, embora dedicado ao poeta romântico Gérard de Nerval, tem por princípio e estrutura base o questionamento sobre o Romantismo. A nossa preocupação foi problematizar a revolução proposta pelo primeiro romantismo, a conhecida ‘escola’ de Jena, analisando, assim, os seus dois manifestos mais importantes, bem como certos conceitos poiéticos que nos pareciam determinantes no seu projecto ético, estético e político, ou seja, a ‘nova mitologia’, o ‘sublime’, o ‘gênio’ e o ‘símbolo’. De seguida, a jeito de consideração final, tomamos como exemplo o referido poeta francês como um verdadeiro emblema vivo dos mesmos conceitos, desenvolvemos uma leitura que procura promover no leitor uma abertura da interpretação da sua mais conhecida obra, As Quimeras.
Palavras-chave
romantismo; ética-estética; poesia, loucura
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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
scherzo
já aqui apresentei duas versões musicais de "donne moi ma chance". ora, a ana fez chegar-me esta pérola. espero que gostem.
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (fim)
O
Corpo inglorioso
Não nos enganemos, os zombies deverão ser incluídos no pensamento
em torno dos renascidos e é de acordo com o que acima foi exposto
que deveremos questionar a pertinência da sua figura. Vimos
anteriormente, com Agamben, o que se cumpre pensar e dizer sobre os
redivivos: não é uma «essência» que retorna ao seio de Deus,
antes um corpo elevado à sua máxima potência pela própria razão
de uma radical aderência à sua imagem, à sua species,
devindo assim um ser especial, um corpo glorioso. Este corpo,
que é a sua imagem, compõe-se pelas características da
impassibilidade, da agilidade, da subtileza e da claridade, bem como
uma inoperância das funções e dos órgãos, uma suspensão
ostensiva e ociosa das finalidades que revela, pois, a glória do
redivivo. Temos nele, então, nas palavras do filósofo italiano, um
arquétipo da natureza humana, um retorno do corpo adâmico não
corrompido ao Éden. Ora, os zombies romerianos estranhamento
partilham alguns destes elementos, conquanto se coloquem, talvez, no
outro extremo do espectro, ou se apresentem como a espelhada imagem
pervertida do corpo glorioso; chamemos-lhe, assim, de corpo
inglorioso, já que se o primeiro se diz incorrupto, se alia a
toda uma tradição teo-filosófica da espiritualidade e do Bem
Supremo, na qual a imagem forçosamente refere a «essência», o
segundo projecta-se num discurso político-filosófico materialista,
totalmente abandonado por Deus, só no mundo desesperançado dos
homens, na qual a imagem se prende à decadência do corpo material –
quase como se confrontássemos, directamente e de modo tangível, a
Leib e o Körper, o corpo vivo e o corpo morto, da
fenomenologia.
O corpo inglorioso é, certamente, impassível, despojado de paixões,
auto-regulado, auto-governado, conquanto não se guie por uma
qualquer alma racional, pois está desprovido desta, cumpre somente
as funções da alma vegetativa. Não é, porém, nem subtil, nem
ágil; como referimos, é bastamente lento, trôpego, desajeitado. Se
em tudo a subtileza e a agilidade indicavam a plena potência do
corpo como máximo limite, já os zombies na sua decadência
representam o limite mínimo prévio à total imobilidade, a rigidez,
a inflexibilidade própria de um corpo, ou de uma máquina se se
quiser, há muito tempo inactiva, inoperada, disfuncional. Contudo,
parecem igualmente partilhar a claritas, ou talvez melhor uma
obscuritas; são simultaneamente densos e transparentes,
desconcertam o olhar com a sua fulgência nefanda, como, outrossim,
foscam o reconhecimento, porque o corpo humano que se vê já não se
pode dizer e reconhecer como tal. E bem como os corpos gloriosos
prosseguem com os seus festins, na mais radical gula e ociosidade,
embora reconduzidos, no entender de Paffenroth, à personificação
dos pecados capitais1.
O seu corpo encontra-se, pois então, desglorificado, desgraciado,
despotenciado, de acordo com a directriz teológica: um corpo
inglorioso; e é-o pela simples razão de que aderiu totalmente à
sua imagem na sua forma mais torpe e decadente, a mais baixa
potência, tal como eles são entendidos por George Romero enquanto a
classe mais pobre dos monstros.
A sua inglória está patente na fixação e aderência à sua
imagem. Enquanto o corpo glorioso congela a beleza e perfeição
dos trinta anos crísticos, a par das capacidades corpóreas,
reconduzidos à inoperância e ao limite da potência, o zombie
permanece preso à perene imagem de decadência, de podridão,
do estado de decomposição do instante do seu renascimento, do seu
retorno, ou da sua morte. Mas eis que, de acordo com o que acima foi
exposto, ao que respeita a sua simbolização – símbolo da
corrupção da natureza humana, dos gestos baixos, dos pecados, da
maldade inerente ao homem, etc. – e à crítica romeriana da
sociedade norte-americana, o sentido da sua imagem associa-se
ao sentido apresentado pelo corpo glorioso. O zombie será, assim,
tal como o redivivo glorioso, um arquétipo; o arquétipo da natureza
humana no seu estado mais primitivo e selvagem, um corpo nada afeito
à téchné, no seu sentido mais lato, uma existência nada
cartesiana e rousseauísta, desprovidos de linguagem, de memória
(embora nas sequelas Romero desenvolve cada vez mais uma possível
evolução do zombie, conquistando a técnica, um pensamento
rudimentar e a linguagem). E é este ponto preciso que nos parece de
maior importância, pois o que, na verdade, diferencia o redivivo
glorioso do inglorioso afirma-se, justamente, no entre-dois que
separa duas posições filosóficas quanto ao homem. De um lado, o
teo-filosófico, espiritualista, encontramos a expressão de uma
esperança no homem fundada no conceito de «essência», que nos diz
não só que há uma essência unida ao divino – repetindo, por
exemplo, a idade do divino na terra – que conglomera as boas
qualidades do corpo e da alma, como aguarda, pelo seu retorno, a
afirmação de um bem inerente ao homem (porém, esta salvação é
uma falsa esperança pois só renasce o bem-aventurado, aquele que
passa inocentemente no tribunal, enquanto que no caso do zombie, no
retorno inglório, não há qualquer selecção, o reino é de todos
e para todos); do outro lado, materialista, político-filosófico,
caímos num olhar pessimista do homem, sem possibilidade de salvação,
que todos são corruptos ou corruptíveis e se essência há é a que
se vê no retrato de Dorian Gray, toda ela marcada pelas repetidas
quedas de Adão e volta, adere ao corpo renascido. Assim, pode-se
adiantar uma hipótese, a qual afere que, colocando lado a lado o
corpo glorioso e o corpo inglorioso, sabendo o que os aproxima e o
que os separa, Romero solicita uma reavaliação da humanidade
oferecendo à vista e ao pensamento o símbolo, ou metáfora, da
«essência» do homem se ele permanecer no seu trilho de
(auto-)destruição, ou seja, se ele não se transformar eticamente,
se o seu ethos, se o seu modo de existência não for revisto
de modo radical, não haverá salvação possível, nunca o homem
cumprirá a promessa, inscrita no seu corpo, de elevação a corpo
glorioso, mas retornará, uma e outra vez, em permanente queda até
ao mais baixo grau do seu corpo, deambulando numa terra devastada,
ociosamente, com o seu corpo inglorioso.
BIBLIOGRAFIA
AGAMBEN,
Giorgio
1993 A comunidade que vem, Lisboa, Editorial Presença, col.
Hipóteses Actuais.
2006 Profanações, Lisboa, Edições Cotovia, col. Ensaios.
2010 Nudez, Lisboa, Relógio d’Água Editores, col.
Filosofia.
2011 O Aberto, Lisboa, Edições 70, col. Biblioteca de
filosofia contemporânea.
DERRIDA,
Jean
2010 La Naissance du
corps, Paris, Galilée, col. La
philosophie en effet.
HERVEY, Ben
2008 Night of the
Living Dead, New York, Palgrave
Macmillan.
PAFFENROTH, Kim
2006 Gospel of the Living Dead. George Romero's Visions of Hell on
Earth, Texas, Baylor University Press.
WILLIAMS, Tony
2011 George A. Romero, interviews, Jackson, University Press of
Mississippi, (Tony Williams ed.).
ŽIŽEK, Slavoj
1992 Looking Awry. An
introduction to Jacques Lacan through Popular Culture,Massachusetts,
Massachusetts Institute of Technology, October Books (ed. Joan
Copjec, Rosalind Krauss and Annette Michelson).
1PAFFENROTH,
2006: 23, “Zombies are the nadir of gluttony, eating
whenever they can and as much as they can, (…). They are overcome
with uncontrollable rage (…) zombies are just likely to
lapse into complete sloth (…). More than any other movie
monster or mythological creature, zombies vividly show the state of
damnation, of human life without the divine gift of reason, and
without any hope of change or improvement”. Traduzimos e
sublinhamos: “Os zombies são o nadir da gula, comendo
quando podem e tanto quanto podem, (…). Eles são tomados por uma
raiva incontrolável (…) podem facilmente cair na mais
completa preguiça (…). Mais do que em qualquer outro filme
de monstros ou de criaturas mitológicas, os zombies apresentam
vividamente o estado de danação, de uma vida humana sem o dom
divino da razão, sem qualquer esperança de mudança ou
melhoramento”.
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (pt. 4)
O
negro da luz: considerações sobre o zombie.
Estes corpos tornam-se enigmáticos e inquietantes; e se perpetuam as
funções da vida vegetativa, se se alimentam, é somente por uma
“espécie de acto gratuito ou de snobismo sublime”1.
Será possível, agora, aproximarmos este corpo glorioso, que nada
mais será que “uma restauração do corpo edénico, arquétipo da
natureza humana não corrompida”2,
ao corpo do morto-vivo, do zombie? Será possível arriscar a
afirmação de que o zombie, embora não sendo glorioso, revela bem a
corrompida e, porventura, verdadeira imagem do homem?
Recomecemos, portanto e uma vez mais, por demonstrar resumidamente
como Romero destrói a micro-estrutura do horror com a recuperação
do zombie. A personagem não é nova, outros filmes houve em que o
monstro zombie já deambulava; mas, se anteriormente era tido por um
escravo às ordens de uma outra personagem – essa sim simbolizando
o mal, ou o Outro –, Romero lança-o para o ecrã como um Prometeu
desagrilhoado, vingativo, desafecto de desejo e movido por uma única
pulsão, tragar a vida, abismá-la na sua morte-viva. Na verdade nem
monstros são, não pertencem a qualquer uma das classes, a
teratológica ou fabulosa; porém, tomando-os como tal, encontram-se
no mais baixo grau, a classe baixa, pobre, longe da nobreza e do
romantismo (no sentido mais popular e lacrimal do termo) dos
vampiros, dos lobisomens, dos criados experimentalmente, como o
Frankenstein, por exemplo, conquanto partilhem alguns traços, tal
como o contágio vampiresco, embora isento de paixão ou erotismo do
beijo canino. São seres brutos, mancos de inteligência, de
movimento, agilidade, isentos de qualquer poder sobrenatural ou traço
de humanidade, à excepção da sua imagem, ou melhor, exactamente
por serem demasiado humanos são mais aterradores que qualquer outro.
A sua morte, também ela, exclui-se de qualquer magia, truque, gesto
sobrenatural; bem pelo contrário, é violenta, guiada talvez pelo
nojo, pelo ódio, a desrazão. O par que daqui decorre, a morte por
eles cometida – o canibalismo – e a morte a eles infligida, tem
certa implicação moral, de acordo com a leitura de Paffenroth. Por
um lado, diz-nos o intérprete, “haverá” para o canibalismo do
zombie “um pormenor simbólico sobre a natureza humana” de certa
ambiguidade:
“ou os humanos somente são irónica e
auto-destrutivamente violentos uns para os outros e de todo em
relação a outros animais, praticamente em contraposição às
outras espécies 'naturais', cuja violência assassina é geralmente
reprimida quanto aos membros da sua própria espécie, enquanto a
violência humana deflagra virulentamente em torno de outros humanos;
ou os humanos são tão violentos que a sua violência se derrama
indiscriminadamente sobre todas as espécies, mesmo se a sua louca
preferência seja devorar outros humanos”3
enquanto, por outro lado, o modo pelo qual o zombie tem de ser morto
potencia o comum gesto da «natureza» humana – matar o seu
estranho/estrangeiro próximo –, pela própria razão da sua
semelhança, da sua mesmidade, por assim dizer, pelo que a luta pela
sobrevivência da vida humana passa, obrigatoriamente, pelo
cancelamento da razão e da humanidade do homem, ou seja e ainda
seguindo Paffenroth, “a perturbante implicação de que mesmo que
sejamos conscientes e os zombies não o são, a nossa consciência
pouco faz para nos tornar 'melhores', mesmo se nos torne
epistemicamente diferentes ou mais complexos”4.
No seu geral, o zombie, proposto por Romero, é um exagero do ser
humano, um retorno de uma forma-homem no seu estado mais selvagem e
primitiva, desumanizada, desarrazoada, incontrolável, violenta,
capaz, mesmo antes do contágio e à distância, de revelar, o mais
das vezes, o pior do ser humano; será, assim bem, uma imagem
perversa do homem. E para terminar a infecção romeriana, há que
referir que o zombie não é o Outro como tal, o Outro perturbador da
ordem que o monstro recorrentemente tomava o lugar no terror. É
certo que ainda aqui o zombie viola a «ordem natural das coisas»,
particularmente no aspecto de negar ao vivo qualquer trabalho de luto
– se um dos seus familiares é mordido ou morto por um morto-vivo,
por questão de sobrevivência; ou por ser um morto andando no espaço
dos vivos, ou mesmo por não poder, ao contrário de todos os outros
organismo vivos, se reproduzir; porém, parece Romero afirmar,
segundo a ideia original da sua alegoria, que o Outro, afinal, não
vem de fora, encontra-se presente mesmo antes do nascimento de
qualquer morto-vivo, o Outro perturbador é a normalidade instalada,
o sistema, o Establishment, toda a estrutura sob a qual
assenta a sociedade humana, o american way of life.
Perguntemo-nos, como Slavoj Žižek, porque voltam os mortos? Eles
retornam não para desordenar o natural, pelo contrário, voltam
porque já um dos processos de ordenação do natural foi perturbado;
o seu regresso, afirma o filósofo apoiando-se em Lacan, “é um
signo de uma perturbação no ritual simbólico [o enterro, o luto],
no processo de simbolização ; os mortos voltam como cobradores de
uma qualquer dívida simbólica por pagar. (…) materializa uma
certa dívida simbólica que persiste para lá da expiração
física”5.
Razão pela qual o zombie pode tomar lugar na questão política
criticada por Romero: o morto-vivo não é, de todo, a maioria
silenciosa que apoiou Nixon – essa é ainda a velha sociedade –
mas a personificação de uma massa revolucionária radical que vem
cobrar a promessa não cumprida de liberdade, os corpos de uma
revolução macabra (explorada ainda mais em Land of the Dead),
cujo propósito parece ser nada mais que o fim do rosto humano como
até então se conheceu – se os mortos-vivos, tal como têm sido
apresentados por Romero e outros realizadores, alguma vez
conseguissem cumprir a sua promessa revolucionária, teríamos um
estranho mundo de deambulantes corpos mergulhados, ou suspensos, num
eterno ócio.
1Ibid.
22011:
32.
3PAFFENROTH,
2006: 6. Traduzimos: “(...) there may be a symbolic point about
human nature (…): either humans are ironically and
self-destructively only violent to one another and not towards other
animals, in contradistinction to praticcally every other 'natural'
species, whose murderous violence is usually curbed around members
of their own kind, while human violence flares up most virulently
around other humans; or humans are so violent that their violence
indiscriminately spills over onto all species, even if their mad
preference is to devour other humans”. Nesta ambiguidade o autor
explora, também, um dos motivos do zombie nunca atacar outros
animais ou membros da sua legião, ao contrário, obviamente, do
homem, elucidando, pois, que o canibalismo funciona bem como símbolo
da própria crueldade humana contra si própria, mais do que a
estrita forma do zombie matar.
4Ibid.:
11. Traduzimos: “(...) the disturbing implication that even if we
are conscious and the zombies are not, our consciousness does little
to make us 'better', even if it makes us epistemically different or
more complex”.
5ŽIŽEK,
1992: 23. Traduzimos: “(...) is a sign of a disturbance in the
symbolic rite, in the process of symbolization; the dead return as
collectors of some unpaid symbolic debt. (…) materializes a
certain symbolic debt persisting beyond physical expiration”.
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (pt.3)
A
luz do Corpo glorioso.
Nos seus últimos livros editados em Portugal1,
o filósofo italiano, Giorgio Agamben, tem dado conta, quer
isoladamente, quer no seio de uma deambulação teórica das suas
investigações, do problema dos redivivos posto à prova nas
questões teológicas e ontológicas do homem. Por outras palavras,
Agamben questiona as dificuldades dos teólogos que se repercutem na
teoria do Corpo Glorioso, do renascido, por um lado e, por
outro, no que respeita a fronteira entre o animal e o homem.
Abordemos o primeiro conceito, o qual nos dará pistas para a leitura
do filme Night of the Living Dead do cineasta norte-americano
George Romero.
Embora o tema do corpo glorioso esteja intimamente ligado à
teologia, à escatologia, ao fine ultimo e à ressurreição,
Agamben chama-nos a atenção de que o assunto, conquanto “congelado”
desde a entrada na modernidade, releva uma enorme importância para
se pensar o “estatuto ético e político da vida corpórea (o corpo
dos ressurrectos é numérica e materialmente o mesmo que tinham
durante a sua existência eterna)” e o mesmo se presta para pensar
“as figuras e os usos possíveis do corpo humano enquanto tal”
2.
(Há que referir que o conceito de ressurreição, aqui, no seio da
teologia cristã, é bastante diferente do que se expressa, por
exemplo, no “mito de Er” apresentado por Platão na República
e repensado pelos neo-platónicos. A esse respeito e de modo a dar a
entender a diferença com a metempsicose pitagórica, Jean
Derrida sugere o termo plotiniano de metensomatose
(métensomatose), ou seja e à letra “troca de corpo” e
não de alma. Todavia, esta “troca de corpo”, ao contrário da
metempsicose (e da ressurreição) e indo para lá da própria
questão de uma simples passagem através dos corpos (do mais simples
ao mais complexo), conjuga-se com uma ideia de “comunidade
radical do humano e dos outros seres vivos”3
assente no que Plotino nomeia de “própria vida” ou “vida
mesma” (autozôè), que, como alma, se vê intimamente
ligada e separada quer do corpo, quer do Um e do Bem. Não existe,
neste entendimento da alma, qualquer atributo próprio ao humano4,
podendo ela no seu ressurrecto movimento ser tomada por um corpo
qualquer a partir do próprio desejo do corpo em se animar)5.
Afirma Agamben, logo de seguida, que o primeiro problema colocado ao
teólogo que enfrenta o corpo glorioso – diremos mesmo a qualquer
um que busque meditar sobre esta questão – é o da identidade.
Haveria de acordo com esse discurso, o de Tomás de Aquino, uma idade
ideal (cerca de trinta anos) e o corpo se manteria sem defeitos
naturais, num “equilíbrio invariável entre o crescimento e a
decadência”6
e conservadas as suas diferenças particulares e distintas, mesmo as
sexuais. Mas todo esse discurso do equilíbrio e da indiferenciação
se reporta à vida paradisíaca, do Éden reencontrado; outro
problema relativo à identidade se descobre em relação à
materialidade vivida na Terra, porque o ressurrecto redivive um corpo
terráqueo, aquele que terá sido o seu. A questão não fica
totalmente respondida pela pena aquinina7;
certo é que Agamben se apoiará em Orígenes cuja solução parece
mais “elegante e menos confusa”8.
Segundo o filósofo alexandrino o que permanece é um outro corpo,
uma imagem (eidos)9
ou figura desse corpo, uma duração imperturbavelmente idêntica
alheia às mudanças e transformações materiais. Ora, não de todo
imutável pois que no mundo por vir o corpo seria “melhor e mais
glorioso”10.
O que salta à vista, aqui, será um problema que diz respeito à
essência, uma vez que havendo decadência, alteração da
matéria, necessário é que alguma coisa perdure no devir. Cremos
que há, neste recurso a Orígenes e à imagem, uma incorrecção no
uso que Agamben realiza. Embora a imagem se busque como o que perdura
de um corpo, essa duração encontra-se sujeita às melhorias do
Paraíso, não dura, portanto; e assim sendo, como pode a imagem
proporcionar a “semelhança do corpo consigo próprio”, de acordo
com o filósofo italiano, se não afirmarmos que mesmo a
materialidade em toda a sua decadência, ou o corpo material, não
seja já gloriosa? E é ainda forçoso perguntar, que imagem é essa
que é vista e por quem, quem é que olha e determina a imagem a
perdurar? Poderemos alguma vez reconhecer a nossa imagem, será o
nosso eidos o conjunto das nossas qualidades envolvida por uma
forma? Ou será antes um decalque, um somatório de todas as imagens
que os outros projectam, colam ao nosso corpo? Ou todos verão,
então, a mesma imagem? E quando um cego toca no corpo, no rosto,
para vê-lo, toca no corpo, no rosto, na imagem? Cremos mesmo que
exposição agambeneana da imagem em Profanações, no
capítulo O ser especial11,
também ela em parte sustentada na teoria de Orígenes, choca em
certos pontos com a do corpo glorioso, ao qual voltaremos já de
seguida.
A imagem, estando no sujeito, é de natureza insubstancial e traz
consigo duas características: 1) não possui uma realidade contínua
mas decorre antes de uma geração contínua e a cada instante, é
ser de geração, ser de criação e descriação instantânea
(servindo-se Agamben, para ilustrar, da “imagem poética” dos
anjos no Talmude que “cantam os louvores de Deus e, de repente,
mergulham no nada”12);
e 2) não é determinável como quantidade, a imagem não é
“propriamente uma forma ou uma imagem mas, antes, a «espécie de
uma imagem ou de uma forma» (species imaginis et formae) ”13,
ou seja, a imagem não é, nem pode ser, mensurável, mas somente
dita como espécie de, ou modo de ser, “nunca é coisa, mas, sempre
e apenas, uma «espécie de coisa» ”14.
Já aqui nos deparamos com uma chocante diferença no que concerne a
não permanência, ou a não durabilidade da imagem, uma vez que ela
se cria a cada instante. A imagem não permanece, mas bem acompanha
as transformações corpóreas, a imagem acompanha o corpo, a imagem
decai com o corpo a cada instante. Na fantástica deambulação
etimológica – que sempre, pessoalmente, nos surpreende e ensina,
sendo para nós de um imenso prazer – da rede ligada a species
deparamo-nos com uma tautologia, já que serve para traduzir o eidos
grego. Assim a imagem – que nunca é uma imagem mas sempre e apenas
uma espécie de coisa – é uma imagem, uma imagem de uma imagem de
coisa – não sairemos de um certo platonismo e dessa triangulação
entre a Ideia, a Cópia e o Simulacro. Todavia, dessa repetição,
sobressai o sintagma ser especial que reaproxima a imagem ao
corpo glorioso. O ser especial, como a imagem, é insubstancial, sem
lugar próprio mas dando-se no sujeito; e especial “é o ser cuja
essência coincide com o seu dar-se a ver, com a sua espécie [a sua
imagem]”15,
ou seja, o ser especial, como o corpo glorioso, é aquele que
coincide com a sua visibilidade, com a imagem que se revela a cada
vez. Se a imagem está no sujeito como um “habitus ou um
modo de estar, como a imagem está no espelho”16
– e dever-se-ia adir um modo de ser, tendo em conta essa enorme
característica contemporânea de cada sujeito produzir uma imagem
idêntica à sua “essência”, à sua “subjectividade”, que dê
a ver a sua única, singular, individual pessoa, passível de ser
reconhecida por todos, como se todo o processo de revelação da
imagem se invertesse, não sendo já a sua espécie que se
revela, que vai aflorando e habitando o seu corpo como um fantasma, a
tal que seria glorificada no Paraíso, mas, pelo contrário, uma que
se impõe de fora para “dentro”, dada como a “verdadeira” –
o que o mesmo espelho revela é a não pertença da imagem, da imago,
a nós, abre-se um intervalo reconhecido, pelos poetas medievais e
reafirmado por Agamben, como amor.
A imagem ou a espécie seguirá outro caminho nas mãos do filósofo
italiano, na esteira ainda dos medievais. Espécie significa também
intenção (intentio), uma tensão interna (intus tensio)
que força a imagem a comunicar-se. Há assim na imagem uma força
que a impele a comunicar-se, forçando igualmente cada ser à criação
de imagens. Mas o que quer a imagem, ou o que há na imagem, o que
entra em jogo colidindo entre si de modo a ser uma tensão? Agamben
explica:
Neste sentido, a espécie não é senão a tensão, o
amor com que cada um se deseja a si mesmo, com que deseja perseverar
no próprio ser, comunicar-se a si próprio. Na imagem, ser e
desejar, existência e tentativa coincidem perfeitamente. Amar um
outro ser significa: desejar a sua espécie, isto é, o desejo com
que esse outro deseja perseverar no seu ser. O ser especial é, neste
sentido, o ser comum ou genérico
e isto é algo semelhante à imagem ou ao rosto da humanidade.17
É importante reter aqui o sentido do especial como comum ou
genérico, porque vai ao encontro da problemática da identidade,
desestabilizando-a. O ser especial, como comum ou genérico, diz-se
um ser qualquer (esse que habita nas páginas da Comunidade
que vem18,
o qual é preciso questionar se não fornecerá esclarecimentos
quanto ao devir-imperceptível deleuzo-guattariano) alheio às suas
qualidades, sendo todas, mas com nenhuma se identificando, sem a elas
aderir pessoalmente. A tensão interna aumenta embatendo na tensão
que do exterior se faz. O especial não é pessoal mas pode e deve
fixar-se numa substância para constituir uma identidade,
forçosamente devém pessoa, persona, máscara, por pressões
já não internas, mas bem externas:
O especial deve, pois, ser reduzido ao pessoal e este ao
substancial. A transformação da espécie num princípio de
identidade e classificação é o pecado original da nossa cultura, o
seu dispositivo mais implacável. Personaliza-se qualquer coisa – o
que se refere a uma identidade – na condição de sacrificar a sua
especialidade. Especial é, de facto, um ser, – um rosto, um gesto,
um acontecimento – que, não se assemelhando a algum,
se assemelha a todos
os outros.19
O ser especial é, ou será, pois, uma impessoalidade que de fora se
personaliza, tal qual a promessa messiânica que se inscreve, pelo
desejo dos outros, no recém-nascido. De acordo com Agamben, ele não
é nem comum nem poderá ser objecto de propriedade e, todavia,
fazendo-se pessoa, dá-se como e ao ciúme e à propriedade,
transforma-se em espectáculo (spectaculum) – aqui,
julgamos, sujeito à crítica debordiana. O ser especial, por outro
lado, terá uma expressão ligeiramente diferente se o aproximarmos
do corpo glorioso, em especial dando atenção às quatro
características tratadas por Agamben.
(Haverá, então, um caminho a ser feito por cada um, um trabalho, um
“cuidar de si” até ser “ser especial”, começando, cremos
nós, por um trabalho do Corpo. Um trabalho, não no sentido de
produção de imagem motivada pelas tensões exteriores, como cedendo
às modas de “subjectivação”, mas um outro centrado no Corpo e
que se encontra num entre-dois. O que esse trabalho implica,
através do recurso a um uso diverso do Corpo, é um esbatimento da
profundidade, ou melhor, um desvanecimento das diferenças,
levando-nos a esclarecer a afirmação de que todos os corpos são
corpos gloriosos e não somente os redivivos, os ressurrectos.)
Um corpo glorificado distingue-se pelo seguinte: “impassibilidade,
agilidade, subtileza, claridade”20.
A primeira característica refere-se a um domínio do corpo, a um
reconhecimento das tensões e a um modo de com elas lidar, não se
deixando submeter a influências, às paixões, tornando-se capaz de
gerir, governar-se21.
A subtileza, por outro lado, é essa “espécie de rarefacção
extrema” que torna o corpo “semelhante ao ar e ao vento, e
portanto penetráveis por outros corpos. Ou tão impalpáveis que se
tornarão indiscerníveis de um sopro ou de um espírito”22,
identifica-se com a fluidez, essa capacidade de adaptação às
forças, aos ritmos, aos meios, aos objectos, aos corpos em jogo. O
conceito de fluidez conjuga-se igualmente com o de agilidade
dos corpos gloriosos. O Corpo na sua plena potência, aberto a todas
as potências de que um Corpo é capaz. O próprio Agamben não se
escusa de exemplificar com o bailarino23.
A agilidade como plena potência do Corpo será um dos limites
do corpo. E, por fim, a claridade (claritas) que,
segundo Agamben, entende-se de dois modos: uma “densidade”, uma
refulgência aurífica, uma opacidade desconcertante que atrai o
olhar; e uma “transparência” cristalina, um desvanecimento como
se o olhar atravessasse o corpo, já não o pudesse reconhecer,
vendo-o sem o ver. O que estas características pretendem sublinhar,
na verdade, é uma perdurabilidade de um corpo semelhante ao terreno,
conquanto potenciado. Mas sendo semelhante, mesmo nas suas funções
vitais e fisiológicas, como afinal se processam?
Os redivivos comem e bebem, respiram, suam, mictam, defecam, mantêm
os seus órgãos, coração, estômago, pulmões, intestinos, sexo? E
se já não haverá reprodução, nem necessidade de se alimentar,
porque os teólogos sustêm a sua permanência? Se, por um lado, os
órgãos permanecem no corpo renascido por mera importação orgânica
da imagem terrena, por assim dizer, já os cabelos e as unhas
concernem estritamente à ideia da imagem gloriosa, a qual, como já
vimos, se congela aos trinta anos, pelo que tudo perdurará pela
eternidade inalterado. Os humores mais escatológicos, o suor, a
urina, as fezes, mesmo o leite materno e o esperma, tudo isso se
encontra ausente no renascimento e estranhos à perfeição do corpo.
Já os humores descritos por Galeno, o sangue, a bílis negra e
amarela, uma vez que já na terra se reportavam à perfeição
possível, terão no redivivo o seu lugar. Ora, o que Agamben realça,
através de Tomás de Aquino, é a diferença que se instala na
própria função dos órgãos, a sua pura inoperância, que se
tornará uma função de ostensiva suspensão. Toda a operação dos
órgãos paira na pura ociosidade, na sua completa mostração e
somente nela, mostração da sua potência.
Portanto, corpo glorioso “é um corpo ostensivo, cujas funções
não são executadas, mas mostradas; a glória é, neste sentido,
solidária da ociosidade”24.
Esta ostensão e ociosidade propõem um diferente uso do corpo.
Parece quase uma generalidade considerar-se qualquer trabalho sobre o
corpo isolado de um fim e de um quadro cultural, seja ele religioso,
desportista ou artístico, uma ociosidade, um prazer evitável, um
valor improdutivo, puro dispêndio de energia Porém, a glorificação
do corpo promove um novo uso possível deste, um gesto de suspensão
e aliança:
Um novo uso do corpo só é por isso possível se se
arrancar a função ociosa à sua separação, e só se se lograr
fazer coincidir num único lugar e num único gesto o exercício e a
ociosidade, o corpo económico e o corpo glorioso, a função e a sua
suspensão. A função fisiológica, a ociosidade e o novo uso
insistem no campo de tensão único do corpo e não se deixam separar
dele. Porque a ociosidade não é inerte, mas, no acto, faz aparecer
a mesma potência que nele se manifestou. Na ociosidade, não é a
potência que é desactivada, mas somente os propósitos e as
modalidades nos quais o seu exercício fora inscrito e separado. E é
esta potência que se torna o órgão de um novo uso possível – o
órgão de um corpo cuja organicidade se tornou ociosa e foi
suspensa.25
1Falamos,
especificamente aqui, de Nudez (2010) e de O Aberto
(2011).
22010:
107.
3DERRIDA,
2010: 62. Sublinhamos.
4Ibid.:
61-62. “A possibilidade de uma alma humana passar no corpo de um
ser vivo não humano não se vem adicionar como um atributo
suplementar a uma alma humana cuja ideia já tenha sido afirmada; a
alma surge pelo contrário nessa possibilidade, a partir do que nela
precede e excede a humanidade. Tal como a indeterminação que
precede a escolha de uma vida, no mito, é também a possibilidade
de tornar-se humana, é nela que a humanidade é como que antecipada
e projectada; e é à vez a não-humanidade e a humanidade os ganhos
da metensomatose”. (La
possibilité pour l'âme d'un humain de passer dans le corps d'un
vivant non humain ne vient pas s'ajouter comme un attribut
supplémentaire à une âme humaine dont l'idée aurait déjà été
posée, l'âme se pose au contraire dans cette possibilité, à
partir de ce qui en elle-même précède le choix d'une vie, dans le
mythe, est aussi la possibilité de devenir humain, c'est en elle
que l'humanité est comme anticipé et projetée; et c'est à la
fois la non-humanité et l'humanité qui sont l'enjeu de la
métensomatose.). Traduzimos.
5Ibid.:
25-26. “A alma é infalível pelo que, nela, se assemelha
ao um. É nisso – no
que é imóvel – que o corpo deseja tomar parte no
processo de animação. A vida corporal sob todos os seus aspectos,
dos mais elementares (a vida vegetativa) aos mais complicados (a
percepção ou a memória), é a forma que toma um desejo implicado
no desejo do um pelo qual a alma se ergue. Isso impede de afirmar
que a alma está no corpo sem afirmar primeiro o contrário: é o
corpo que está na alma e a alma não entra nele, mas antes ele
nela” (L’âme est infaillible par ce qui,
en elle, ressemble à l’un. C’est
à cela – à ce qui est immobile – que le corps désire prendre
part dans le procès de l’animation. La vie corporelle sous tous
ses aspects, des plus élémentaires (la vie végétative) aux plus
compliqués (la perception ou la mémoire), est la forme que prend
un désir impliqué dans le désir de l’un par lequel l’âme se
pose elle-même. Ceci empêche d’affirmer que l’âme est dans le
corps sans affirmer d’abord le contraire: c’est le corps qui est
dans l’âme et l’âme n’entre pas en lui, mais surtout lui en
elle). Traduzimos.
6AGAMBEN,
2010: 108.
7Vd.
ibid.: 108-109.
8Ibid.:
109.
9É
de referir que Agamben se serve deste argumento para apontar como
“[a] fotografia é, neste sentido, uma profecia do corpo
glorioso”, 2006: 37.
10Orígenes
cit. in. ibid.
112006:
75-82.
12Ibid.:
77.
13Ibid.:
78.
14Ibid.
15Ibid.
16Ibid.
17Ibid.:
79-80. Sublinhamos.
18AGAMBEN,
1993.
19AGAMBEN,
2006: 81-82. Sublinhado do autor.
20Id.,
2010: 110.
21Ibid.
“Significa antes que o corpo não estará sujeito a essas paixões
desordenadas que, pelo contrário, o despojariam da sua perfeição.
O corpo glorioso estará, com efeito, submetido em todas as suas
partes ao domínio da alma racional, por sua vez perfeitamente
submetida à vontade divina”.
22Ibid.:
111.
23Ibid.:
112. “Como bailarinos, que se deslocam no espaço sem propósito
nem necessidade, os bem-aventurados movem-se nos céus somente a fim
de exibirem a sua agilidade”.
24AGAMBEN,
2010: 115.
25Ibid.:
118-119.
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (pt.2)
A
noite revoltada: o mal está no coração do homem.
Comecemos pela micro-estrutura, a qual alimenta, de certa forma, a
macro. Um dos seus signos de corte com o passado com Hollywood
apresenta-se pela introdução de uma certa ironia e humor negro que
provêm da forte influência de uma banda desenhada popular nos anos
50, a Tales from the Crypt da DC comics, de onde Romero
recolheu “muitos dos mesmos ingredientes para os seus jovens
espectadores: gore, cinismo, ironia, wit, relevância”1,
disseminada ao longo do filme e maioritariamente concentrada na
figura do zombie – embora o primeiro sinal de recusa surja ainda
nos primeiros minutos do filme, quando John, o irmão da suposta
heroína Barbara, mimetiza comicamente o Frankenstein de Boris
Karloff, enquanto ridiculariza as crenças religiosas da irmã,
acabando por ser morto por um morto-vivo. Igualmente de relevar a
exploração da lógica do pesadelo, presente na fuga de Barbara do
primeiro zombie – uma fuga do perigo infinita, impossível,
estranha, já que o sujeito corre desenfreadamente, a uma velocidade
estonteante, enquanto o seu opositor no seu andar lento e
desajeitado, francamente incapaz de alguma vez alcançar o fugitivo,
mantém a distância, ou
incrivelmente chega a tocar a quem quer mal – ou os recorrentes
paradoxos temporais e climáticos – ora estamos na Primavera como,
logo a seguir, é Outono, ou, mais flagrantemente, dia na entrevista
em directo na televisão e, pela janela, o breu da noite. Não nos
podemos esquecer dos heróis, tão importantes para o género. Ben é
negro, franco, directo, protector, razoável, forte, tem todas as
qualidades para a sua elevação a herói, porém, nem tem a
possibilidade de criar uma relação amorosa com a protagonista, nem
as suas acções e intenções são completamente “puras”, nem a
sua heroicidade o isenta do fatal fim, o da sua morte, que a todos,
sem excepção, cabe (veremos mais à frente estes dois pontos mais
pormenorizadamente); também à figura feminina passível de se
tornar heroína lhe é cortada cerce a passagem, primeiro é
acometida pela histeria, de seguida uma crescente catatonia, até
que, quando desperta, pronta a vestir o seu papel de heroína tão
esperado pelo espectador, é ironicamente morta pelo seu próprio
irmão. Ora, como antes dissemos, a família e o amor igualmente são
desvirtuados. Não se trata somente da morte de Barbara pelas mãos
do seu morto irmão, mas também a implosão do núcleo Cooper pela
boca do único rebento, Karen, comendo Pai e Mãe, completa inversão
da imagem de Saturno. Se a família implode, se auto-fagia, também o
amor segue a par. O jovem casal de corajosos enamorados, devotos um
ao outro, morre acidentalmente precisamente pelo que os unia, a
(e)terna devoção. Concomitante com estas falências encontra-se
também a criminalização e a fraqueza das forças de poder, do
Estado, do exército, da polícia (não tão cabal em Night of the
Living Dead como nos filmes seguintes;
contudo, neste filme, apoiada pela população, formando um
heteróclito pelotão composto somente de homens brancos, ponto a
que voltaremos mais adiante), ou da ciência, incapaz de
responder ao flagelo nacional – há que sublinhar que mais do que
uma crítica ao mundo, Romero pretende afectar a América. Portanto,
família, amor, devoção, o papel do herói, as forças
normalizadoras, tudo aquilo que competia a Hollywood defender se vê
destruído. E o que, da micro-estrutura do terror e da indústria, é
pervertido, indica, por seu lado, o que da macro-estrutura deve ser
criticado. Assim, antes de abordarmos a desconcertante figura do
zombie, outro elemento da micro-estrutura, o monstro, passemos rápida
e brevemente ao plano geral.
O filme não pode ser desligado do seu tempo, os anos 60. As radicais
transformações pela qual a América passava, elas próprias
reflectindo essa batalha de um presente com um passado, o da cultura
alimentada a medo pela Guerra Fria, a invasão comunista e a
radioactividade da Bomba Atómica, são um motor desencadeante da
vontade de realizar Night of the Living Dead. Não basta
referir que, nascido em 1940, Romero atravessou a sua infância e
adolescência mergulhado numa atmosfera de Apocalipse suspenso, mas
bem que o marcou indelevelmente; disso são exemplo a importância
das janelas barricadas e a louca discussão em torno da cave, ambas
símbolo de perigo e da segurança contra a ameaça nuclear. A cave,
particularmente, “com a sua arrumação aprumada de comida, TV e
outras semelhantes facilidades” afirmava e impulsionava os valores
familiares, uma vez que “o abrigo familiar era simultaneamente a
apoteose dos ideais suburbanos de 1950 –
conveniência, funcionalidade, auto-suficiência, proximidade
familiar – e a destilação do pesadelo suburbano: claustrofobia,
falta de privacidade, solidão, isolamento”2.
Todavia, como se pode observar no filme, tornou-se não só motivo de
acesa discussão, de inimizade, de distúrbio no seio da comunidade
humana, como, também, o centro de uma das cenas mais chocantes, até
então, da história do cinema, a destruição do conceito de
família, da célula, do núcleo, por um lado e, por outro,
ironicamente, o refúgio de Ben, aquele que tão fervorosamente
defendia o rés do chão como espaço de luta.
A cultura dos anos 50 é um dos elementos do
“passado bárbaro” revisitado por Romero, igualmente no modo como
o realizador desconstrói a responsabilidade e o dever de reposição
da normalidade das instituições de poder. O governo, o exército e
o grande dispositivo de saber da ciência – outros elementos da
micro-estrutura, bem como espinha dorsal da segurança e da ordem da
cultura desse tempo pré-apocalíptico em suspensão – vêem-se
incapazes de justificar e resolver a causa de terror, incapazes de
identificar o mal, pelo que a sua ineficácia segue, aqui, as linhas
revolucionárias dos anos 60, que reconheciam nessas instituições,
não só os formadores de uma normalidade, os criadores de um medo e
de uma sensação de entorpecimento generalizado, como também os
encobridores e controladores de informação relevante, aqueles que
mascaram a realidade furtando-a ao resto da população, entendidos,
por isso mesmo, como perigosos (pelas suas acções) e a desconfiar.
Mas se a cultura do medo é retratada pela ineficácia e a
irresponsabilidade dos poderes (no sentido de impossibilidade de dar
resposta, bem como, de acordo com a justificação da origem do
aparecimento dos zombies por Romero, o de uma sonda vinda de Vénus
caída na Terra e cuja radiação faz
reviver os mortos, ou seja, o tema de
«uma experiência que deu para o torto» – que, no nosso entender,
retira força à ideia de um acontecimento sem razão própria à
lógica do pesadelo, «o zombie é sem porquê» – ou seja ainda, a
causa é motivada pela transgressão dos poderes institucionais), já
os anos 60 são confrontados pelo modo como os media divulgam
a informação – espécie de peões do governo, bonecos de
ventríloquos por cuja boca passa o que deve ser dito oficialmente –
ou como perseguem a notícia e o pelotão da morte, semelhante, no
filme, às coberturas durante a Guerra do Vietname. Esse é um dos
aspectos fílmicos inseparável do seu tempo, realizado com um
propósito político intencional. Por um lado, o «pelotão da
morte», uma mescla de forças da ordem e população, é todo ele
constituído por homens brancos, o que de imediato nos faz recordar
as associações de linchamento ocasionais3
ou organizadas, tais como o Ku Klux Klan, violentamente retratado na
película com a morte de Ben, o herói negro, tomado ou não por
zombie (embora nos pareça que não) e tratado como tal, repetindo os
gestos reconhecidos dos linchamentos; por outro lado, tal como Hervey
evidencia (e pedimos, desde já, as nossas desculpas pela extensão
da citação que se segue), este pelotão e a sua cobertura
mimetizam, de certo modo, quer as acções dos soldados na frente
asiática, quer as «reacções» dos conservadores na rectaguarda
nacional, os que ficaram para trás:
“É significativo que observemos duas vezes o pelotão,
primeiro no interior do distractivo plano-dentro-do-plano, e depois
off the record. A
primeira sequência considera especificamente a televisão, e mais
especificamente à luz da cobertura televisiva da Guerra do Vietname.
A fórmula insiste na conexão: 'Search and Destroy', ou 'S&D',
foi uma estratégia famosamente cunhada pelo General Westmoreland,
correspondendo a uma inserção de forças terrestres numa área
hostil para a 'limpar' e rapidamente se retirar. Ao longo de 1967,
enquanto Night era
feito, estas operações foram massivamente televisionadas,
geralmente em montagens pré-gravadas como esta, seguindo uma equipa
durante um dia de trabalho. Por vezes os repórteres entrevistavam o
líder do pelotão; outras vezes os próprios líderes narravam: de
um ou de outro modo, normalmente os segmentos reproduziam
acriticamente as linhas de comando de campo. Cenas angustiantes eram
minimizadas, e o padrão focava-se desapaixonadamente no
profissionalismo das tropas e na perícia dos equipamentos, a
logística de 'limpeza' da área. Até as aldeias a arder faziam
parte do trabalho, nenhuma vingança. A linguagem eufemística dos
jornalistas purgava-se de implicações morais; alguma era relaxada o
suficiente para vestir as roupas do pelotão do Night:
'melhor caça hoje' (…).
Mas esta cena
liga-se tanto mais poderosamente com a
guerra em casa. Esses voluntários de espingarda em punho parecem-se
com o estereótipo do conservador retirado, os naturais aliados da
polícia. Com os seus uniformes, carrinhas coléricas, cães de
rastro, espingardas, parolos e a Guarda Nacional à esquina, o
pelotão é o Porco, o braço armado do Establishment.
A cavalaria americana está a chegar, tal como fizeram na
Universidade de Columbia, na Convenção Democrática, Kent State, My
Lai”.4
Assim, Romero procurou tocar criticamente não só uma certa
mentalidade, ou comportamento típico, bastamente enraizado na
cultura americana – talvez mais da América profunda –,
peremptoriamente associado ao racismo, como retratar as acções
macabras, insensíveis dos massacres em tempo de guerra, como também
a encapuzada parcialidade dos media, cujas verdades são
manipuladas pelo próprio Establishment. Pelo que devemos
perguntar, finalmente, na linha do tema do presente face a um passado
bárbaro, quem representa o quê em Night of the Living Dead?
Qual é o verdadeiro mal presente no filme? Parece-nos, neste
dualismo, que o passado deve ser tomado, exactamente, pelo
Establishment, a cultura americana,
o caminho que estava a tomar, a sua normalização e ordem, enquanto
o presente é senão outro que o zombie. Eis que Romero introduz uma
nova inversão, o de um horrífico «mal» destruindo o «bem» da
ordem e que proporcionará a renovação do mundo; porque o mal,
afinal, já está instalado no coração de cada homem e o bem está
tão encoberto quanto a verdade emitida pelos media, o mal
apresenta-se, justamente, na impossibilidade de qualquer comunicação
entre os humanos, na sua impossibilidade de cooperação para um bem
comum minada pelo ego de cada um. O mal encontra-se, também, nessa
malograda solidão intransponível no seio da comunidade, parece
Romero dizer, uma pervertida imagem do célebre poema de John Donne,
No man is an island, enquanto a massa zombie é toda ela um
continente em movimento. Porém, paradoxalmente, o zombie – na
realidade, enquanto morto que volta – é um passado que retorna
fazendo-se presente com o seu retorno, empurrando, consequentemente,
o presente estabelecido para o passado, tornando-o o bloco barbárico
a ser derruído; um passado positivamente futuro lançado para o
presente (as sequelas mostram bem que o fim dos zombies no Night
foi um falso fim), que engolfa, come, enterra o presente tornado mal.
Talvez esse retorno nada mais proponha
que a suspensão do tempo, que a mudança só poderá ser possível
por essa suspensão, pela completa destruição do tempo presente
introduzindo todo um tempo outro, o do morto-vivo, o da comunidade
rediviva, renascida; um tempo fora do tempo, porque já não é nem
pode ser passado – está aqui, no tempo dos vivos – e que,
contudo, pode ser morto (basta destruir, por qualquer processo, o
cérebro, embora, estranhamente, a decomposição do seu corpo pareça
igualmente suspensa), desaparecer, desvanecer-se; um estranho e
enigmático tempo movido pela gula e o ócio. Por nos parecer ser
essa a proposta romeriana, o surgimento de uma comunidade de
renascidos que suspende o tempo, faremos também nós uma suspensão.
Passaremos a uma análise do zombie via os gloriosos renascidos no
seio de Deus e, de seguida, recuperamos a tempo de terminar o estudo
por uma leitura comparatista desses dois redivivos.
1Vd.
ibid., 2008: 34-37. Traduzimos: “(...) many of the same
ingredients for its young viewers: gore, cynicism, irony, wit,
relevance”. Não traduzimos os termos gore e wit,
uma vez que, por um lado, o primeiro é, de certa forma,
intraduzível e bastamente conhecido do público do terror (há já
um subgénero) e, por outro, wit, (um conceito que surge do
primeiro romantismo, a escola de Jena; e por eles problematizado,
bem como pelos seus “filhos” e filósofos da estética), embora
podendo ser mudado para português como perspicácia, inteligência,
humor, é, bem na verdade, todas essas opções de tradução, pelo
que igualmente intraduzível.
2Ibid.:
70-71. Traduzimos: “With its neatly rowed packaged food, TV and
other reational (sic), the family shelter was both the
apotheosis of 1950s suburban ideals – convenience, functionality,
self-containment, familial closeness – and the distillation of the
suburban nightmare: claustrophobia, lack of privacy, loneliness,
isolation”.
3Vd.
imagem do linchamento do negro Will Brown in ibid.:
115.
4Ibid.:
97 e 109. Traduzimos: “It's significant that we observe the posse
twice, first within the television's distracting
frame-within-a-frame, and later off the record. This first sequence
bears consideration specifically as television, and more
specifically in the light of televised Vietnam War coverage. The
wording insists on the connection: 'Search and Destroy', or 'S&D',
was famously coined for General Westmoreland's Vietnam strategy,
whereby ground forces were inserted to 'clear' a hostile area and
then immediately withdrawn. Through 1967, as Night
was made, these operations were heavily covered on television,
usually in pre-recorded montages like this one, following a team
though a day's work. Sometimes reporters interviewed squad leaders;
sometimes the leaders themselves narrated: either way, the segments
usually reproduced field command's party line uncritically.
Distressing footage was minimised, and the patter focused
dispassionately on the troop's professionalism and the hardware
expertise, the logistics of 'mopping up' the area. Even burning
villages was just part of the job, nothing vindictive. The
reporter's euphemistic language was purged of moral implications;
some was sporty enough to suit the clothes of Night's
posse: 'better hunting today'. (…) But this scene connects just as
powerfully with the war at home. Those rifle-toting volunteers look
like stereotypical backwater conservatives, the police's natural
allies. With their uniforms, paddy wagons, sniffer dogs, rifles,
billies and the National Guard waiting in the wings, the posse is
the Pigs, the Establishment's strong-arm men. The American cavalry
is riding in, like they did at Columbia University, the Democratic
Convention, Kent State, My Lai”.
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (pt.1)
“I
was afraid I'd eat your brain, 'Cause I'm evil”
The
National
A
inovação de uma noite: de uma alegoria política ao prazer do
terror.
Para muitos críticos do cinema a primeira longa-metragem, no
circuito comercial, de George Romero, Night of the Living Dead,
abre o género do terror a uma nova época, da sua modernidade, ou
mesmo da sua pós-modernidade1.
Tendo sido, inicialmente, pensada pelo realizador como uma alegoria,
centrada exclusivamente nos Estados Unidos da América, Romero
procurava traçar o diorama ou o quadro geral de um mal endémico,
apresentando um “paralelismo entre aquilo em
que o homem se está a tornar e a ideia de que as pessoas operam
segundo vários níveis de insanidade apenas visíveis a si mesmo”2.
Contudo, o filme rapidamente foi-se modificando aquando e durante a
sua gravação; e é hoje entendido pelo seu criador como um
divertimento, mantendo embora a transgressão, reconhecida ainda pelo
mesmo, inscrevendo-os, de imediato, na história do cinema. Mas o que
introduziu Romero, o que transformou
ele?
Até à data da sua projecção, no circuito americano de drive-in
– motivado, acima de tudo, pela descrença da distribuidora no
filme, mais do que pela qualidade
inerente ao mesmo –, o género de terror cinematográfico volteava
em torno da estrutura já clássica estabelecida pelas novelas e
romances góticos e de horror. As características principais,
celebradas pela indústria
de Hollywood, concernem, maioritariamente, o seguinte: a presença de
um Outro (normalmente um monstro) que corrompe a ordem natural e/ou
da normalidade; a edificação da figura de um herói por acidente (é
a desestabilização da normalidade que conduz ao surgimento da
heroicidade, ou instala o sentimento de heroicidade da e na
personagem); a criação de um conjunto ou equipa unidos em prol de
um sentido; o contributo de uma força (a ciência, o exército, o
governo, a razão) em defesa do herói para derrotar a força
desequilibrante; e, duas das suas linhas mais afirmadas, o elogio do
amor (o herói e a princesa) e da família (salvar os seus membros,
vingar a morte de outros, honrar a memória de alguém, etc.). Todas
essas características são corrompidas por Romero, principalmente
com a reabilitação do zombie. Todavia, antes de abordarmos a
figura, vejamos rapidamente outros aspectos da película que a
inscreveram nos arquivos cinematográficos.
A história da criação de Night of the Living Dead está,
toda ela, envolta numa bruma de acasos que proporcionaram o seu
consequente elogio. Os indícios da sua originalidade e do seu
reconhecimento como filme de arte, ao invés de estritamente
comercial, deveram-se tão-somente ao reduzido orçamento. Esse
aspecto, em tudo fundamental, conduziu, quer o realizador, quer toda
a equipa da Image Ten, a um trabalho artesanal e a escolhas de
produção que fizeram as delícias dos críticos, dos amadores e dos
espectadores:
a) selecção da película em preto e branco e com algum grão – o
que, nos anos sessenta, foi entendido como uma decisão de uma séria
intenção do criador em dotar o filme com uma aparência documental,
de naturalidade, de real projectado na tela;
b) uma filmagem sequencial acompanhada por um crescendo de texto –
de modo a obterem mais dinheiro os seus criadores tinham de
prosseguir com os seus contratos de realização de anúncios
televisivos estabelecidos entre a Image Ten e o sector
industrial de Pittsburgh, pelo que a realização foi intermitente,
obrigando assim a ser gravado tal como surge ao espectador; bem como,
à medida do tempo disponível, mais texto foi sendo acrescentado,
razão pela qual diálogos e monólogos aumentam e intensificam no
desenrolar da acção;
c) a selecção dos locais e do elenco – tudo filmado na região,
com pessoas da cidade de Pittsburgh, especialmente o pelotão de caça
aos zombies e os próprios monstros, alguns jornalistas (é de
relevar que o texto do locutor das notícias foi escrito pelo
próprio, finalizando com o seu nome próprio como terminava as suas
emissões noticiosas, bem como certas imagens foram mesmo captadas
por um canal televisivo local, cedidas a George Romero e inseridas na
película), polícias, membros da equipa de rodagem e de produção a
integrarem o elenco;
d) a escolha do “herói” – puro acaso, para Romero, já que
nenhuma vez o texto refere qualquer etnia e o casting ter
decorrido com critérios de “cegueira”, um blind casting,
ou seja, Duane Jones (Ben) foi seleccionado pela sua qualidade
representativa e por ser amigo da equipa da Image Ten.
Mas nem tudo foi motivado pelo orçamento. Certas opções de
realização foram meditadas e premeditadas, especialmente a
destruição da estrutura hollywodesca do género do terror. Tendo
trabalhado de perto com Alfred Hitchcock3,
desgostando do seu método de realização fechado a qualquer
improvisação da parte dos actores, Romero permite no seu plateau
o surgimento do acaso permeado pela liberdade de acção de toda a
equipa, actores e cameramen – não só a rodagem principiava
minutos depois dos actores se porem em movimento, a estabelecer
relações, a executarem acções por sua própria decisão,
igualmente Romero recorre a um processo cubista, no seu entender, de
captação de cenas e de edição de imagens (mais desenvolvido nas
suas criações posteriores, quer as sequelas, quer nas suas outras
obras) – o que lhe possibilitou, para além da cor e do grão da
imagem, alcançar essa mesma sugestão de “naturalidade”, de real
ou aparência documental, ou seja, perturbar a ficção dos filmes de
terror. Porém, mais relevantes são os próprios vírus que
infectaram o género afastando-o do passado. De facto, a questão
colocada por Ben Hervey, na sua profunda análise a Night of the
Living Dead, é de enorme importância: se a película se
inscreve na tradição gótica novelística e fílmica, pela
recuperação da temática de uma “iluminada luta de um presente
face a um passado barbárico”4,
o que é, pois, o passado? Os redivivos ou a estrutura
política, económica e social dos Estados Unidos da América
criticada por George Romero (e, conjuntamente a esta macro-estrutura,
a micro alicerçada em Hollywood)?
1Não
entraremos aqui na discussão mais geral que separa o moderno do
pós-moderno, somente apontamos este seu possível passo no ainda
problemático entre-dois do pensamento e da cultura ocidental.
2WILLIAMS,
2011: 10-11. Traduzimos: “a parallel between what people are
becoming and the idea that people are operating on many levels of
insanity that are only clear to themselves”.
3Vd.
HERVEY, 2008: 49-50. É de referir que muito deste texto deve à
leitura desta obra, pelo que recomendamos fervorosamente o leitor,
que deseje ter uma visão mais cuidada, quer da história, quer dos
temas por nós aqui apontados, a adquirir o livro, bem como o
interessantíssimo estudo de Kim Paffenroth, Gospel of the livind
Dead. George Romero's Visions of Hell on Earth, 2006, ambos
gentilmente cedidos pelo Professor José Manuel Martins.
4Ibid.:
29. Traduzimos: “enlightened present's struggle to overcome a
barbarous past”.
Sábado, 7 de Janeiro de 2012
trocas de natal
pela altura do natal enviei a amigos e conhecidos uma música que me toca muito, bem como em casa. de volta recebi estas prendas. espero que gostem de ver e ouvir como eu gostei:
Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Ernesto Sabato
Título: O Túnel
Autor: Ernesto Sabato
Editora: Relógio d'Água
Tradução: Francisco Vale
Sempre disseram e se ouviu dizer, ao ponto de ser hoje um enorme cliché, da especificidade dos olhos, essa estranha máquina de captação da luz e do mundo, que olhá-los é ver a alma, que são eles o espelho da alma. Sobre isso nada posso dizer. Olhar directamente nos olhos da Medusa, na sua alma, pois, transformar-nos-ia em pedra, num mudo e estático mineral para todo o mundo. Por outro lado, olhar o abismo, o sem-fundo, que também nos olha em resposta, igualmente nos pode conduzir a uma mortal vertigem sem retorno. Que não se olhe demasiado, então. Deixemo-nos estar no jogo de captar e ser capturados, no mítico jogo de Diana e Actéon, sem que qualquer um dos dois se torne caça do outro. O olho vê; e vendo que guarde o que o ligou ao mundo para depois se devolver o visto passado pelo nosso crivo, mudando o mundo com uma oferta a ser ligada e captada por outro. Passando pelo crivo alguma coisa se recupera, é trazida clandestinamente, talvez a própria alma. Talvez tenha sido isso que “María Iribarne” viu na pequena janela, que mais ninguém reparou, nesse quadro desenhado por “Juan Pablo Castel”, da primeira obra de Ernesto Sabato: “O Túnel”.
Tendo passado pelo seu nome várias vezes, adiando a sua leitura, motivou-me a triste notícia da sua morte no passado mês de Abril de 2011 e uma belíssima crónica de António Cabrita. Contudo, toda a tristeza que senti foi, desculpem a frieza e franqueza, o adiamento de tantos anos e só o ter lido no passado mês de Novembro. Nasceu na Argentina em 1911, formou-se em Física, fez investigação na área das radiações atómicas e foi, durante alguns anos, professor, até se dedicar completamente à escrita e pintura em 1943. O seu primeiro livro, em 1945, foi um conjunto de ensaios filosóficos e científicos, porém “O Túnel”, seu primeiro romance, saído em 1948, de imediato o inscreveu na História da Literatura do século XX e de lá o seu nome não mais sairá – pelo menos no da minha história.
A estrutura deste romance sustém-se nas intrincadas malhas dos policiais. Escrito na primeira pessoa, “O Túnel” é o relato confessional, inquiridor, do pintor Castel, de dentro da prisão. Não há entradas laterais pelos ramos de famílias, deambulações descritivas de paisagens. O autor guia-nos ao núcleo da consciência do pintor, por um excesso de lucidez, de razão, de pensamento reflexivo, isento de qualquer labirinto. Caminhamos como o marido cego de María Iribarne, a mulher fatal, ao longo de todo o percurso obsessivo a cada passo mais estreito, no qual a negra luz ao fundo será senão outra coisa que a abertura da pupila do olho de Castel. A mulher é fatal, sem dúvida; não no sentido do romance negro, antes pelo que leva Castel à fatalidade, pelo que ela sabe, do que viu na janelinha pintada – o que mais profundo o pintor trouxe de si a uma superfície – e não consegue reproduzir por palavras. Ela entende aquele homem, essa Diana caçou o Actéon-Castel que a observou durante a exposição a deleitar-se com o pormenor; porém e por isso mesmo está impossibilitada de o revelar, revelar Castel a Castel, que da janela da sua cela se vê, revê o processo da sua paixão e do seu crime.
E que mais poderei dizer sem que cometa o crime de impedir de ler Ernesto Sabato? Que os vossos olhos percorram “O Túnel”.
Etiquetas:
canto literário
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