leguei-te a dor do mundo
o lamento em cada
olhar de animal
espoliado da sua vida
sempre tivemos o suficiente
mas por mais
lendas e mitos frutos fogo
asas coladas a cera
move-nos um desejo insaciável
de tocar o impossível uma sede
de sermos amados vistos como obras
de arte únicos indeléveis
no tempo para além da morte
duas criações que também a ti deixámos
dói-me esta língua de gritos
choro e silêncio e é o que me resta
de mais delicado
com ela chego a ti antes de nasceres
endereço-te poemas
para que atravesses o imperdoável
donne moi ma chance
textos, poemas, ensaios e gostos de fernando machado silva
sábado, 20 de junho de 2020
sexta-feira, 29 de maio de 2020
para um eloquente silêncio
poema publicado no Jornal Mapa, nº 27, Maio-Julho de 2020
tudo é o mesmo dito de outro modo
e ainda os pés pela boca
em busca de avessos
a revirar os bolso
despi-la
e nua
escandalize o sentido
de uma noite sem ninguém
dizer olhos nos olhos peixe é estrela
e todas as tuas palavras são minhas
como toda a ruína da pequena felicidade
arreda a paixão do rosto
na linha a respiração rouca
aguarda o desaguamento
no mesmo mar
na mesma fenda
o tragar de toda a separação
e nada jamais seja preciso dizer
para um eloquente
silêncio
quarta-feira, 27 de maio de 2020
tudo se enche de si
poema publicado no Jornal Mapa, nº 27, Maio-Julho de 2020
a tristeza abriu a sua navalha
junto ao meu pescoço e arrepanhando
o barroco dos meus cabelos
encostou o meu rosto à janela
olha como chove sem parar há dois dias
pendendo um pouco mais a desequilibrada
partilha das coisas nesta terra
o magnetismo do mais e do menos foi
a excepção que se impôs como regra
a atracção dos opostos é uma canção
romântica de embalar
são os iguais que se unem
uns aos outros
o excesso vai-se excedendo
o insuficiente por igual se acresce
a raridade depara-se com o ainda mais raro
em torno o ódio clama por mais e quando falta
o amor mingua como a uva na parra
o deserto alastra as suas areias
pelas planícies esquecidas de árvores
e a água engole os campos incapazes
de a sorver tanto que os vermes se desenterram
em pânico para se afogarem
sob a bátega e arroios de lama
há uma lei que aqui se oculta como a beleza
sob a podridão das coisas tudo
se enche de si justo ao limiar
depois como uma criança nos seus primeiros
passos transportando um prato cheio de papas
vira-se o mundo do avesso ou noutras
palavras para os cinéfilos
quando Uma e Lucy se defrontam no pequeno
jardim nevado nas traseiras do clube
a tensão como sabes cresce quando
o silêncio é ri-tmi-ca-men-te cortado
pelo som de madeira a bater em madeira
e água a cair
é esse improvisado balde de bambu
que se enche e se esvazia
uma e outra vez
a lei que rege esta criação
sim disse-lhe mas não sejas tão dramática
guarda a navalha
deixa que te embale a fatalidade
e te mostre que há sol ainda
quando a minha língua abrir a escuridão
quarta-feira, 22 de abril de 2020
terça-feira, 21 de abril de 2020
para habitar este mundo
a luz declina com suavidade
no dorso do vento
(leva-te como às folhas
das bétulas e faias abraçadas
à sua secura pela melancolia
das autoestradas nas tardes de verão
como saltando entre duas margens de um ribeiro
vais de sala em sala perdes-te
entre memória e pensamento eriges)
o espaço da ficção para habitar
este mundo
no dorso do vento
(leva-te como às folhas
das bétulas e faias abraçadas
à sua secura pela melancolia
das autoestradas nas tardes de verão
como saltando entre duas margens de um ribeiro
vais de sala em sala perdes-te
entre memória e pensamento eriges)
o espaço da ficção para habitar
este mundo
quarta-feira, 8 de abril de 2020
segunda-feira, 6 de abril de 2020
estar à superfície
é possível que a memória me evada na corrente
de ar entre dois pensamentos
as noites brancas da cidade incendiaram
demasiadas páginas escritas uma e outra vez
no corpo de uma vida permite
peço-te permaneça intacta a paixão do olhar
o teu rosto à luz de cabeceira
onde o poema faz sombra à máquina
quando era criança amedrontava-me
com o mundo invisível sob os pés
o infinito das paredes do quarto engolido pelo escuro
conhecido pelas pontas dos dedos e
os olhos muito abertos para o nada
ou o vazio pesado das respirações
cheias do sono tranquilo dos irmãos
e de uma lonjura tão próxima que arrepilava
o rugido cavernoso do pai enquanto monstro
das trevas absolutas e a solidão de ser
o único desperto para o medo
depois conheci o fundo exalava
deixava-me imergir até à areia enrugada
e o pulmão arder de azul
e tudo gritar que voltasse por mais
pacifico fosse o encosto no útero do mar
reconheço a lição do corpo
numa estética como um rizoma de nervos
mais pregnante que a razão tatuada
tenho ainda o olhar aberto e o medo
é hoje como um cotão ao canto do quarto
iluminado pelo seio solar da noite
tudo subiu à pele nesse dia dedicado
à intimidade da carne exposta
ao terror da criança
a morte avança como nós pela água adentro
e as tuas mãos relembram-me a fragilidade
de estar à superfície
de ar entre dois pensamentos
as noites brancas da cidade incendiaram
demasiadas páginas escritas uma e outra vez
no corpo de uma vida permite
peço-te permaneça intacta a paixão do olhar
o teu rosto à luz de cabeceira
onde o poema faz sombra à máquina
quando era criança amedrontava-me
com o mundo invisível sob os pés
o infinito das paredes do quarto engolido pelo escuro
conhecido pelas pontas dos dedos e
os olhos muito abertos para o nada
ou o vazio pesado das respirações
cheias do sono tranquilo dos irmãos
e de uma lonjura tão próxima que arrepilava
o rugido cavernoso do pai enquanto monstro
das trevas absolutas e a solidão de ser
o único desperto para o medo
depois conheci o fundo exalava
deixava-me imergir até à areia enrugada
e o pulmão arder de azul
e tudo gritar que voltasse por mais
pacifico fosse o encosto no útero do mar
reconheço a lição do corpo
numa estética como um rizoma de nervos
mais pregnante que a razão tatuada
tenho ainda o olhar aberto e o medo
é hoje como um cotão ao canto do quarto
iluminado pelo seio solar da noite
tudo subiu à pele nesse dia dedicado
à intimidade da carne exposta
ao terror da criança
a morte avança como nós pela água adentro
e as tuas mãos relembram-me a fragilidade
de estar à superfície
domingo, 5 de abril de 2020
Dança de Domingo (Sunday Dance) - Here goes Magic: how do i know
começa hoje - vamos lá ver por quanto tempo tenho paciência para continuar - o post semanal Dança de Domingo/Sunday Dance. Basta ouvir e dançar para animar o corpo contra a letargia.
sábado, 4 de abril de 2020
sobretudo o corpo (viii)
VIII
sobretudo o corpo
entre dom e declínio
lugar e árvore
pendendo sob o vento
no socalco
de terra rossa
entregando os ainda
frágeis botões à geada
sopro despedindo-se no tempo
sobretudo o corpo
entre dom e declínio
lugar e árvore
pendendo sob o vento
no socalco
de terra rossa
entregando os ainda
frágeis botões à geada
sopro despedindo-se no tempo
sexta-feira, 3 de abril de 2020
sobretudo o corpo (vii)
VII
o inverno veio com a primavera
neve em lufadas como cinza
dos mortos largada aos ventos
o exílio da doença conhece agora o frio
ajusta o famoso azul sobretudo ao corpo
o inverno veio com a primavera
neve em lufadas como cinza
dos mortos largada aos ventos
o exílio da doença conhece agora o frio
ajusta o famoso azul sobretudo ao corpo
quinta-feira, 2 de abril de 2020
sobretudo o corpo (vi)
VI
sobretudo o corpo da terra
do animal
da criança
da mulher
(diz-me não estás cansado
no segundo fora do tempo
interrogando o teu reflexo escorrendo
baba de hortelã
de seres criança perene
mijando na cama
e acusando o outro
sobretudo o seu corpo)
sobretudo o corpo da terra
do animal
da criança
da mulher
(diz-me não estás cansado
no segundo fora do tempo
interrogando o teu reflexo escorrendo
baba de hortelã
de seres criança perene
mijando na cama
e acusando o outro
sobretudo o seu corpo)
quarta-feira, 1 de abril de 2020
sobretudo o corpo
I
sobretudo o corpo lembras-te o olhar
atrapado pelo desejo e todo o silêncio
de uma conversa com a tempestade
a mesa posta a vela a dar valor
às sombras nascidas no teu rosto
o intruso veio pelos suaves corredores
interiores do ar leva
a vida para o exílio a dois
com a morte à porta
cada segundo mulher é o paraíso
roubado à perdição
sobretudo o corpo lembras-te o olhar
atrapado pelo desejo e todo o silêncio
de uma conversa com a tempestade
a mesa posta a vela a dar valor
às sombras nascidas no teu rosto
o intruso veio pelos suaves corredores
interiores do ar leva
a vida para o exílio a dois
com a morte à porta
cada segundo mulher é o paraíso
roubado à perdição
sobretudo o corpo (v)
sobretudo o corpo e a ignomínia
da imagem rendido à tua palma
como a fera à ostentação do olhar
para a tortura do belo
da imagem rendido à tua palma
como a fera à ostentação do olhar
para a tortura do belo
terça-feira, 31 de março de 2020
sobretudo o corpo (iv)
IV
sobretudo o corpo e a pertença
aos sentidos o olhar dado aos relevos
da carne e tu na varanda preparando
o metal onde a lavanda acentuará
no seu verde esmaecido o dilúvio
do um aroma nas noites de verão
sobretudo o corpo e a pertença
aos sentidos o olhar dado aos relevos
da carne e tu na varanda preparando
o metal onde a lavanda acentuará
no seu verde esmaecido o dilúvio
do um aroma nas noites de verão
segunda-feira, 30 de março de 2020
domingo, 29 de março de 2020
sobretudo o corpo (ii)
II
sobretudo o corpo disseste os olhos
tremendamente abertos para o fascínio
da vida um rochedo frente à maré
da ruína que avança no baldio dos dias
nas paredes os rostos do passado caem em favor
de horários na ilusão da passagem das calendas
para que a solidão não morra de tédio
sobretudo o corpo disseste os olhos
tremendamente abertos para o fascínio
da vida um rochedo frente à maré
da ruína que avança no baldio dos dias
nas paredes os rostos do passado caem em favor
de horários na ilusão da passagem das calendas
para que a solidão não morra de tédio
sexta-feira, 27 de março de 2020
quarta-feira, 18 de março de 2020
la folie d'óphelie
há um ribeiro nesse prado
onde poderia ter afogado
a minha loucura bebi-a da taça
de um rapaz visitado pela memória
de um deus eu que fui
guiada pelas lições do servilismo
conheci o meu lugar nessa arena
da política interna emudeci a voz
na presença das figuras da lei que encontraram
a morte atrás do pano
talvez esse rapaz me quisesse
dar a liberdade
era ainda um homem que ma oferecia
com as suas palavras doces de poeta
que a meio do caminho percorrido juntos
me transformaria de corça em cabra
das suas frustrações quando a carne cedesse
à gravidade do tempo e do cansaço
após o espaçamento do ossos
para que uma vida o habitasse e atravessasse
tudo tem o seu limite percebi-o
quando o ribeiro engoliu as margens
à medida que as minhas lágrimas sublinhavam
um MAIS NÃO a esgarçar o véu
dos meus dias submissos
enraizei o resto da minha vontade
como essas árvores no leito lodoso
a corrente levou a conta desta breve vida
para longe para longe
onde poderia ter afogado
a minha loucura bebi-a da taça
de um rapaz visitado pela memória
de um deus eu que fui
guiada pelas lições do servilismo
conheci o meu lugar nessa arena
da política interna emudeci a voz
na presença das figuras da lei que encontraram
a morte atrás do pano
talvez esse rapaz me quisesse
dar a liberdade
era ainda um homem que ma oferecia
com as suas palavras doces de poeta
que a meio do caminho percorrido juntos
me transformaria de corça em cabra
das suas frustrações quando a carne cedesse
à gravidade do tempo e do cansaço
após o espaçamento do ossos
para que uma vida o habitasse e atravessasse
tudo tem o seu limite percebi-o
quando o ribeiro engoliu as margens
à medida que as minhas lágrimas sublinhavam
um MAIS NÃO a esgarçar o véu
dos meus dias submissos
enraizei o resto da minha vontade
como essas árvores no leito lodoso
a corrente levou a conta desta breve vida
para longe para longe
quinta-feira, 12 de março de 2020
que palavra passou além da barreira dos teus dentes? (conclusão)
V
conheço bem essas duas estações
na via de uma vida e não mais te quero
fazer sofrer a minha intenção é somente
encontrar-te a meio caminho
aí erigir uma casa livre de
desejos sonhos tentações todos esses pretendentes
que sempre nos apartem e nos arredam do rumo
a essa felicidade que se abre no fim do conhecimento
Mulher mais bela que todas as deusas
não digas nada não penses agora não faças perguntas
vem comigo ofereço a minha própria vida em testemunho
conheço bem essas duas estações
na via de uma vida e não mais te quero
fazer sofrer a minha intenção é somente
encontrar-te a meio caminho
aí erigir uma casa livre de
desejos sonhos tentações todos esses pretendentes
que sempre nos apartem e nos arredam do rumo
a essa felicidade que se abre no fim do conhecimento
Mulher mais bela que todas as deusas
não digas nada não penses agora não faças perguntas
vem comigo ofereço a minha própria vida em testemunho
Dezembro 2019-Janeiro 2020
escrito com versos, ligeiramente modificados aqui e ali, da Odisseia na tradução de Frederico Lourenço.
quarta-feira, 11 de março de 2020
que palavra passou além da barreira dos teus dentes? (cont.)
IV
(beijando-o repetidamente como alguém que à morte escapara
e falando dirige-lhe palavras apetrechadas de asas)
Homem já não roda ao longe
como disse o aedo outrora
o outono está nas dobradiças das nossas vidas
a água do rio passa por ti
lava a tua carne e ossos
e quando enfim a decisão tomar conta
porque já tudo pesa do teu coração
ou do teu cérebro nenhum olhar
reconhecerá o teu rosto deixa que te apraze
a cama o lar a brasa nas cinzas
a minha voz o meu silêncio permite que eu escute
porque sei Homem
no teu peito está sempre um pensamento
senta-te à mesa com o cão aos teus pés
pega na linha que o aedo te deixou livre
e canta a vida que foste e és ainda a ser
e outra coisa te direi e tu põe-na no teu coração
detesto repetir aquilo que já foi contado com clareza
não leves demasiado tempo a solidão e a espera
queimam sem rasto a candeia do amor
(beijando-o repetidamente como alguém que à morte escapara
e falando dirige-lhe palavras apetrechadas de asas)
Homem já não roda ao longe
como disse o aedo outrora
o outono está nas dobradiças das nossas vidas
a água do rio passa por ti
lava a tua carne e ossos
e quando enfim a decisão tomar conta
porque já tudo pesa do teu coração
ou do teu cérebro nenhum olhar
reconhecerá o teu rosto deixa que te apraze
a cama o lar a brasa nas cinzas
a minha voz o meu silêncio permite que eu escute
porque sei Homem
no teu peito está sempre um pensamento
senta-te à mesa com o cão aos teus pés
pega na linha que o aedo te deixou livre
e canta a vida que foste e és ainda a ser
e outra coisa te direi e tu põe-na no teu coração
detesto repetir aquilo que já foi contado com clareza
não leves demasiado tempo a solidão e a espera
queimam sem rasto a candeia do amor
terça-feira, 10 de março de 2020
que palavra passou além da barreira dos teus dentes? (cont.)
III
se foi proferida alguma palavra
terrível que agora a levem os ventos da tempestade
a dor que te causo ainda me morde
o corpo traz-me corvos à soleira dos olhos
antes voltar ao estreito entre Cila e Caríbdis
ser lançado entre uma e outra engolido e cuspido
mil vezes até nivelar a balança
e fazê-la pender então para o lado
do amor o que o vento sopra outramente traz
e nessa mão cheia de nenhuma promessa
que ao meu rosto abres te entrego eu
o meu coração e tal como
no campo um homem que não tem vizinhos esconde
uma brasa ardente na negra cinza salvaguardando desse modo
a semente do fogo a ti te guardo
a ti volto
retorno e entrega sabe-lo bem que só a morte
mo impedirá de uma vez não cumprir
se foi proferida alguma palavra
terrível que agora a levem os ventos da tempestade
a dor que te causo ainda me morde
o corpo traz-me corvos à soleira dos olhos
antes voltar ao estreito entre Cila e Caríbdis
ser lançado entre uma e outra engolido e cuspido
mil vezes até nivelar a balança
e fazê-la pender então para o lado
do amor o que o vento sopra outramente traz
e nessa mão cheia de nenhuma promessa
que ao meu rosto abres te entrego eu
o meu coração e tal como
no campo um homem que não tem vizinhos esconde
uma brasa ardente na negra cinza salvaguardando desse modo
a semente do fogo a ti te guardo
a ti volto
retorno e entrega sabe-lo bem que só a morte
mo impedirá de uma vez não cumprir
segunda-feira, 9 de março de 2020
Que palavra passou além da barreira dos teus dentes? (cont.)
II
eu tenho os meus caprichos e quero decidir
quando a distância separa as águas
em vez destas vontades terceiras que se intrometem
saberás quantas noites me sentava à mesa
e tecia planos para nós correndo ambos por este mundo
para logo os ruir porque tardavas? e de braços
em torno do cão segredava ao ouvido de certo
a vida abandonou-lhe os ossos
e um deus lhe retirou o regresso a casa
fiquei para trás na cidade ocupei-me
do lar para além da minha vida
privada preparei o teu regresso
até que a velhice te abrisse a porta
ao decaimento do corpo
mas as tuas promessas são como cabeças de dentes-
de-leão sopradas pelo vento e assim fico
a vê-las brotar da tua boca
e a se dissiparem como a espuma aos meus pés
quando pelas margens me perco em choros
e sei que és sincero e recebo-te todas as vezes
porque é de Zeus que vêm todos os estrangeiros e mendigos
e qualquer dádiva embora pequena é bem-vinda
mas tal como terra e água
se misturam e se limitam duas vidas
para se entenderem deveriam conhecer o caroço
dessa relação saber quando construir e erguer
com a lentidão das pedras e montanhas
e saber quando fluir e correr por todos
os caminhos e mesmo se uma ausência
se faz presente ao trazê-la uma e outra
vez à boca ao pensamento
quando surge a que cedo desponta, a Aurora dos róseos dedos
até à noite escura como pez para uma vida
a dois dois corpos têm de estar presentes
para estar só não preciso do casamento
(e foi sentar-se na lareira no meio das cinzas
junto ao fogo e permaneceram em silêncio)
eu tenho os meus caprichos e quero decidir
quando a distância separa as águas
em vez destas vontades terceiras que se intrometem
saberás quantas noites me sentava à mesa
e tecia planos para nós correndo ambos por este mundo
para logo os ruir porque tardavas? e de braços
em torno do cão segredava ao ouvido de certo
a vida abandonou-lhe os ossos
e um deus lhe retirou o regresso a casa
fiquei para trás na cidade ocupei-me
do lar para além da minha vida
privada preparei o teu regresso
até que a velhice te abrisse a porta
ao decaimento do corpo
mas as tuas promessas são como cabeças de dentes-
de-leão sopradas pelo vento e assim fico
a vê-las brotar da tua boca
e a se dissiparem como a espuma aos meus pés
quando pelas margens me perco em choros
e sei que és sincero e recebo-te todas as vezes
porque é de Zeus que vêm todos os estrangeiros e mendigos
e qualquer dádiva embora pequena é bem-vinda
mas tal como terra e água
se misturam e se limitam duas vidas
para se entenderem deveriam conhecer o caroço
dessa relação saber quando construir e erguer
com a lentidão das pedras e montanhas
e saber quando fluir e correr por todos
os caminhos e mesmo se uma ausência
se faz presente ao trazê-la uma e outra
vez à boca ao pensamento
quando surge a que cedo desponta, a Aurora dos róseos dedos
até à noite escura como pez para uma vida
a dois dois corpos têm de estar presentes
para estar só não preciso do casamento
(e foi sentar-se na lareira no meio das cinzas
junto ao fogo e permaneceram em silêncio)
domingo, 8 de março de 2020
que palavra passou além da barreira dos teus dentes?
Mas depois que Ulisses e Penélope satisfizeram o seu desejo
de amor, deleitaram-se com palavras, contando tudo um ao outro.
Homero, Odisseia, canto xviii, vv 300-301
I
que coisa te direi primeiro? que coisa no fim?
que o medo como a sombra te persegue até dentro da noite?
que os sonhos te dão a mão só até meio do caminho?
a lâmina da verdade é fria e não faz amigos
lança os teus olhos em mim sou
um homem cujos brancos ossos apodrecem à chuva
numa ilha rodeada por ondas no umbigo do mar
mas cessei todos os lamentos
e cogitações que me mirravam como um veneno
o faz às ervas silvestres nas esquadrias dos jardins
o mais íntimo e pertinente foi para mim
a aventura e a independência como um animal
selvagem por fora e por dentro
ora partindo de terra em terra ora
o mais frequente uma queda
de cabeça boca e olhos
no vazio Mulher nessas alturas
o dia jorrava as suas cores às coisas
enquanto me sentava nos cantos entre árvores e flores
que da cidade fica à distância de um grito
até que os anjos e as musas
sobre os meus olhos derramavam o sono
nunca um único dia me vi
livre de desejos mas esse cavalo galopa hoje
no peito com mais precisão e rédea mais curta
perdendo as estribeiras domado pelo frenesi
somente quando os meus olhos se prendem em ti
Mulher incompreensível, mais do que qualquer outra mulher
precisaram o sol e a lua revolucionarem por esta terra
as estações pelo meu corpo para a ti chegar
foi preciso como uma lição a aprender
esmiuçar os bandos de aves de passagem
o teu silêncio na companhia do teu cão
e enfim dizer-te esta noite
Mulher, já tivemos ambos a nossa conta de sofrimento
olhando sabendo de tua boca e
ao ouvir-te sinto qualquer coisa a devorar-me o coração
como pode a vida jogar com dados tão viciados?
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
The Clementines - Calm down
Hey Mister, Mister Man
Sure things are getting out of hand
There are no more rooms left to fill the gloom
Caring is an heirloom we can't afford to lose
Calm down
Calm down
Mister Man
No more pointing fingers
Calm down
Oh, calm down
Hey Madam, Madamoiselle
Don't mean to sound like a sudden greyhound
Not saying I'm a saint, but the world has gone insane
Excuse is a luxury we can't buy every day
Calm down
Calm down
Madamoiselle
There's a place for anger
Not here (now calm down)
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