segunda-feira, 29 de maio de 2017

Jean-Luc Nancy - Noli me tangere (cont.)

Em parceria

Um episódio do evangelho de João é particularmente apropriado para dar o exemplo mesmo dessa emergência na qual se joga um desaparecimento. Não é uma parábola pronunciada por Jesus, é uma cena da parábola geral que forma a sua vida e a sua vida. Nessa cena ele fala, ele dirige-se, e ele parte. Ele fala para dizer que se encontra lá e que se vai embora em breve. Ele fala para dizer ao outro que ele não está onde eles pensam, que ele já está noutro lugar, estando então bem presente: aqui, mas não mesmo aqui. O outro que compreenda. O outro que veja e entenda.
Esse episódio é conhecido segundo o título Noli me tangere, particularmente na pintura, onde foi tratado bastantes vezes – muito menos contudo, obviamente, que os grandes episódios canónicos da Anunciação ou da Crucificação, e mesmo menos que o episódio de Emaús, ao qual se aparenta.1 É sem dúvida a única «tábua» que se intitula assim por uma palavra dita (por vezes, é verdade, mas raramente, um pintor escolheu intitular, como Rembrandt, Cristo e Maria Madalena no túmulo, situando algures o instante dessa cena muito ligeiramente antes da palavra «noli»: querendo talvez evitar ou deslocar o motivo do toque).2 Outras palavras de Jesus (ou de qualquer outras personagens), embora tenham acedido elas também ao estatuto de citação exemplar e de sintagma fixo (como «Desce, Zacarias!» ou bem «Ergue-te, Lázaro!»), não se tornaram todavia títulos de cenas mas de motivos picturais. Noli me tangere, ao contrário, é tão bem recebido que é possível dizer-se «um Noli me tangere» como se diz «uma Ressurreição» ou «uma Ceia de Emaús». Melhor ainda, a fórmula (como designá-la? ela é mais que uma palavra, sem ser um veredicto…) conheceu a fortuna de ser por vezes tomada a modo de título para obras sem relação manifesta com a cena evangélica,3 tal como uma planta tem a honra de ser chamada.4
Não procuremos logo de imediato dar razão a esse destino tão favorável, que aliás é sem dúvida um dos menos religiosos para ser uma palavra dos Evangelhos: Noli me tangere – «Não me toques» – evoca uma interdição de contacto, que se trata de uma sensualidade ou de violência, uma queda, uma fuga amedrontada ou púdica, mas nada que em primeiro lugar ofereça um carácter propriamente religioso ou sagrado, embora menos teológico ou espiritual, contanto que a menção dessas palavras não são acompanhadas da sua referência expressa ao contexto no qual João as escreveu. Tudo se passa um tanto, nesse caso, como se não tratasse primeiramente de uma palavra tirada do Evangelho, mas bem mais de uma palavra que o Evangelho mesmo teria tomado algures, da língua comum – um pouco à maneira como ele toma as histórias comuns (um enólogo, um jovem jogador, um viajante atacado) para fazer parábolas.
«Não me toques» não constitui uma formação linguística notável, nem releva qualquer tipo de dialecto. Mas é uma frase que só por si vale como indicação de um contexto pelo menos difuso. Assim que uma frase homóloga como «não me fales» permanece suspensa na espera de um contexto («preciso de silêncio», ou «eu não quero ouvir», ou bem ao contrário «já te entendi»), «não me toques» encontra-se ao menos necessariamente num registo de aviso antes de um perigo («vais magoar-me» ou bem «vou magoar-te», «tu pões em jogo a minha integridade» ou então «defender-me-ei»). Para dizer palavra por palavra – difícil de evitar –, «não me toques» é uma frase que toca, que não pode não tocar, mesmo isolada de todo o contexto. Ela enuncia qualquer coisa do toque em geral ou ela toca no ponto sensível do tocar: nesse ponto sensível que o constitui por excelência (ele é em suma «o» ponto do sensível) e ao que nele forma o ponto sensível. Ora esse ponto é precisamente o ponto onde o tocar não toca, não deve tocar para exercer o seu toque (a sua arte, o seu tacto, a sua graça): o ponto em que o espaço sem dimensão que separa aquilo que o tocar junta, a linha que dista (écarte) o tocar do tocado e portanto a tocada (la touche) dela mesma.5
Se a cultura e a arte se apreendem nesta frase, é porque sem dúvida, ao retomar do Evangelho qualquer coisa que este último tinha procurado fora dele, nesse espaçamento (écartement) intrínseco da tocada (de la touche), nessa fronteira (bord-à-bord) intransponível que igualmente fez do toque, tal como a relevou Freud,6 o maior desafio do tabu enquanto estrutura constitutiva da sacralidade. O intocável7 – na qual a figura do pária8 hindu carrega para os nossos olhos Ocidentais a carga mais marcante – encontra-se presente em toda a parte onde existe o sagrado, isto é, o retiro, da distância, da distinção e do incomensurável, com a emoção que os acompanha (ou que os constitui).
É notável que Édipo – outra figura inaugural, com Jesus, da nossa (des)sacralidade ocidental, senão a sua outra figura, o seu duplo, por excelência –, assim que se afasta por entre o bosque perto de Colona onde irá desaparecer, diz aos que o seguem: «Venham, sem me tocar…».9
Ora num certo sentido nada nem ninguém é intocável no cristianismo, quando o próprio corpo de Deus é dado a comer e a beber. Que diversos rituais, sobretudo católicos e ortodoxos, têm participado nas ordens religiosas mais comuns com proibições do tocar, ou tocar sem as devidas precauções purificadoras, não impede que o seu pensamento ou o seu movimento essencial não releve esse fim. De um certo modo, pelo contrário, o cristianismo foi a invenção da religião do toque, do sensível, da presença imediata do corpo e do coração. A esse título, a cena do Noli me tangere será uma excepção, um hapax teológico. Ou bem que seria necessário pensar em conjunto, de um modo oximórico ou paradoxal, as duas frase «Hoc est corpus meum» e «Noli me tangere»: e é talvez com efeito exactamente desse paradoxo que se trata.
Ora o que é propriamente excepcional nessa cena, considerada no interior da narração evangélica, é a seguinte característica: aqui, o Cristo afasta (écarte) expressamente o tocar do seu corpo ressuscitado. Em nenhum outro momento Jesus interditou ou recusou que se lhe tocasse. Aqui, na manhã de Páscoa, e logo da sua primeira aparição, ele retém ou previne o gesto de Maria Madalena. Aquilo que não deve ser tocado, é o corpo ressuscitado. Nós podemos igualmente compreender que ele não deve ser tocado porque ele não pode ser: ele não é para ser tocado (il n’est pas à toucher). Isso não significa, portanto, que se trata de um corpo aéreo ou imaterial, espectral ou fantasmagórico. O que segue no texto, sobre o qual retornaremos mais tarde, mostrará bem que esse corpo é tangível. Mas aqui não é enquanto tal que se apresenta. Ou melhor, ele escapa-se a um contacto ao qual se podia prestar. O seu ser e a sua verdade de ressuscitado estão nesse recuo, nesse retraimento que somente dá a medida da tocada (de la touche) do que deve ser: não tocando esse corpo, tocar a sua eternidade. Não chegar ao contacto da sua presença manifesta, aceder à sua presença real, que consiste na sua partida.
No original grego de João, a frase de Jesus se diz: «Mè mou haptou.» Num emprego semelhante, o verbo haptein – «tocar» – pode igualmente tomar o sentido de «reter, parar» (retenir, arrêter). O Cristo não pode ser retido, pois ele parte: ele diz imediatamente, ainda não se juntou ao Pai, e ele parte em sua direcção. O tocar, o reter, isso será a aderência à presença imediata, bem como será crer no toque (crer na presença do presente), será faltar a partida segundo a qual a tocada e a presença vêm a nós. A «ressurreição» encontra assim somente o seu sentido não religioso. Aquilo que para a religião é recomeço de uma presença, portanto a segurança fantasmática de uma imortalidade, revela-se aqui como não sendo outra coisa senão a partida na qual a presença se ergue a verdade, portanto o seu sentido segundo essa partida. Como ela vem, ela parte: ou seja, ela não é no sentido em que qualquer coisa é colocada na presença, imóvel, idêntica a si, disponível a um uso ou a um conceito. A «ressurreição» é a surreição, o surgimento do indisponível, do outro e do desaparecer no corpo mesmo e como o corpo.10 Não é um passo de magia, é completamente o contrário: o corpo morto permanece morto e é ele que faz o «vazio» do túmulo, mas o corpo que mais tarde a teologia nomeará de «glorioso» (quer se dizer, brilhando do brilho (l’éclat) do invisível) revela que esse vazio é bem evidentemente o da presença. Não, nada se encontra disponível aqui: não procures apoderar-te de um sentido dessa vida finita, não procures tocar nem reter o que essencialmente se afasta e afastando-se te toca da sua própria distância (nos dois sentidos da expressão: toca-te depois e com a sua distância), como o que, decepcionando definitivamente as tuas expectativas, faz surgir diante de ti, para ti, aquilo mesmo que não surge, aquilo que na surreição ou na insurreição é uma glória que se empenha a enganar e a afastar a tua mão estendida a ela. Pois o seu brilho (éclat) não é outra coisa senão o vazio do túmulo. O «ressuscitado» não mediatiza um pelo outro: ele expõe (ele «revela») como eles são o mesmo ausentamento (absentement), o mesmo brilho (éclatement) que não podemos sonhar em tocar, porque é ele, e só ele, que nos toca no mais vivo: no ponto da morte.
A morte não está «derrotada», aqui, no sentido em que a religião quer apressadamente dar a esta palavra. Ela é desmesuradamente ampliada, ela é subtraída à limitação do falecimento isolado. O túmulo vazio ilimita a morte na partida do morto. Esse não se encontra «morto» de uma vez por todas: ele morre indefinidamente, ele é aquele que não cessa de partir. Aquele que diz: «Não me toques» pois a sua presença é aquela de um desaparecimento indefinidamente renovado ou prolongado. Não me toques, não me retenhas, não penses nem em apreender-me nem em alcançar-me, pois eu parto em direcção ao Pai, ou seja agora e sempre em direcção à própria potência da morte e me distancio nela, mergulho no seu nocturno brilho nesta manhã de primavera. Estou já de partida, eu estou nessa partida, o meu ser consiste nisso e a minha palavra é esta: «Eu, a verdade, parto.»11

***

1 É igualmente aparentada àquela de Tomás tocando as chagas de Jesus: mas não me é possível avaliar o número de quadros consagrados a cada episódio. A diferença das quantidades reenvia tanto à importância teológica ou espiritual das cenas como ao seu impacto na ordem figurativa – ou ao que elas apelam ou interpelam da pintura. Mas no caso preciso do Noli me tangere pode jogar igualmente uma ambiguidade sensível, e que falaremos aqui, tocando a conotação sensual da cena e da personagem de Maria Madalena.
2 Em itálico no original (N.T.).
3 É o caso, por exemplo, duma peça de teatro célebre de Philippin José Rizal, igualmente transposta para o ecrã e tornada «musical», bem como de numerosas instalações de artistas contemporâneos (Arman, Seyed Alavi ou Sam Taylor Wood, entre outros), de um livro de narrativas de abusos sexuais (Marie L.), de um filme de Jacques Rivette (Out 1: Noli me tangere), ou então de coreografias (Ch. Vincent), de um poema de Wyatt para Ana Bolena e até divisas de armas ou bem uma bandeira secessionista em 1860, e mesmo a um nome de gato de pedigree. Na medicina por vezes, foi o nome para certos tumores que seria melhor não tocar se se pudesse efectuar a sua remoção total, com medo de excitar a sua actividade. Poucas frases do Evangelho estão desta forma disseminadas. Podemos mesmo encontrar esta, num conto de Villiers de l’Isle-Adam, Maryelle, no qual a heroína é uma mulher galante e que começa assim: «O seu desaparecimento de Mabille, o seu novo visual, a discreta elegância das suas roupas escuras, os seus ares, enfim, de noli me tangere…» (Quanto à música, ver a nota 78)
4 Impatiens noli tangere, uma variedade da família das impacientes (balsâmicas), plantas que reagem ao contacto. A Impatiens noli tangere perde as suas sementes mal é tocada.
5 Toda esta problemática do tocar está evidentemente em dívida quanto ao trabalho de Jacques Derrida no Le Toucher, Jean-Luc Nancy (Galilée, 2001); nesse livro, a propósito, o episódio do Noli me tangere é mencionado ao longo de uma evocação do papel do tocar em geral na lenda crística, evocação ela mesma inscrita numa relação com a questão que outrora nomeei «desconstrução do cristianismo», questão à qual Derrida entende tocar com uma distância céptica ou rabínica que eu não desespero de reduzir um pouco.
6 Cf. Totem e Tabu, II, 2
7 Em itálico no original (N.T.).
8 Em itálico no original (N.T.).
9 Sófocles, Édipo em Colona, v.1544 (Sófocles emprega o verbo psauô, mais raro e menos usado em prosa que haptô do qual falamos; o significado do segundo situa-se mais no registo do «anexar», enquanto o primeiro no registo de «friccionar».
10 Em itálico no original (N.T.).
11 Em itálico no original (N.T.).

sábado, 27 de maio de 2017

Jean-Luc Nancy - Noli me tangere

Prólogo


Sem dúvida não há um único episódio da história ou lenda de Jesus de Nazaré que não tenha sido representado na iconografia cristã ou pós-cristã, oriental e ocidental. Ambas eram, no tempo dessas imagens, uma sociedade e uma cultura inteiras que se reconheciam como «cristianismo». Do anúncio da sua concepção até à sua partida deste mundo, os pintores, os escultores e numa menor medida os músicos tomaram por motivo cada um dos momentos da narrativa exemplar.
Essa narrativa, além disso, apresenta-se como uma sucessão de cenas e quadros: o fio propriamente narrativo é demasiado fino e os episódios são menos momentos de uma progressão do que paragens frente a representações exemplares ou lições espirituais, umas o mais das vezes misturadas às outras como é o caso na forma da parábola, ela mesma expressamente designada nos textos evangélicos enquanto modo próprio do ensinamento de Jesus, ao menos na sua pregação pública.1 Mas não é impossível dizer que a narração evangélica por inteiro se apresenta como parábola: se esta última constitui um modo de figurar através de uma narrativa encarregada de representar um conteúdo moral, a vida de Jesus é por inteiro uma representação da verdade que ele próprio diz ser. Mas isso significa que essa vida não ilustra apenas uma verdade invisível: ela é identicamente a verdade que se apresenta representando-se.2 Tal é pelo menos a proposição da fé cristã: não se acredita somente em verdades significadas, traduzidas ou exprimidas por um profeta, crê-se também ou crê-se primeiro, e talvez por definitivo exclusivamente, na apresentação efectiva da verdade enquanto vida ou existência singular.
Nessa medida, a verdade faz-se por si só parabólica: o logos não é distinto da figura ou da imagem, pois o seu conteúdo essencial é precisamente aquilo em que o logos se figura, se apresenta e se representa, se anuncia como uma pessoa que ocorre, que se mostra e mostrando-se mostra o original da figura. «Quem me viu, viu o Pai. Como dizes: Mostrai-nos o Pai»:3 não há nada nem ninguém a mostrar, nada nem ninguém a desvelar ou a revelar. O pensamento da revelação como descoberta de uma realidade escondida ou bem como decifração de um mistério não é mais do que a modalidade religiosa ou crente (no sentido de uma forma de representação ou de saber subjectivo) do cristianismo ou do monoteísmo em geral. Mas na sua estrutura profunda, não religiosa (ou como a auto-desconstrução, que se põe em jogo, da religião)4 e não crente, a «revelação» constitui a identidade do revelável e do revelado, do «divino» e do «humano» ou melhor do «mundano». Ela carrega igualmente consigo, desse modo, a identidade da imagem e do original, até porque envolve, de maneira perfeitamente consequente, a identidade do invisível e do visível.
Segue-se que a narrativa evangélica considerada como uma parábola de parábolas se propõe simultaneamente como um texto a interpretar e como uma história verdadeira, a verdade e a interpretação fazendo-se idênticas uma à outra e uma pela outra. Não ainda dessa maneira em que a verdade aparece em última instância da interpretação, nem dessa outra maneira segundo a qual a verdade seria igualmente infinita e múltipla como são as interpretações sempre recomeçadas. A identidade da verdade e das suas figuras deve ser entendida de outro modo, num sentido que manifesta precisamente o pensamento da parábola. Quando Jesus é requisitado pelos seus discípulos a explicar o seu uso das parábolas, ele declara-lhes que elas são destinadas àqueles a quem não foi «dado a conhecer os mistérios do reino dos Céus»5 (aqueles a quem esse conhecimento foi dado são os discípulos). Àqueles que «olham sem olhar e entendem sem entender nem compreender»,6 poder-se-ia esperar que a parábola lhes abrisse os olhos, instruindo por um sentido próprio pela sua fórmula figurada. Ora Jesus não diz tal coisa. Ele declara ao contrário que as parábolas realizam aos seus auditores as palavras de Isaías: «Vós entendeis o que entendeis, mas não compreendem; vós olham o que olham, mas não vêem.»7 E é exactamente nesse contexto que ele pronuncia uma das suas sentenças mais conhecidas e mais paradoxais: «ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.»8 O fim da parábola é pois primeiramente manter na cegueira quem não vê. Ela não provém de uma pedagogia da figuração (da alegoria, da ilustração), mas bem ao contrário de uma recusa ou de uma negação da pedagogia.
Deve-se sublinhar outra também que «aqueles que olham sem olhar» são muito exactamente os termos que, noutros textos do Antigo e do Novo Testamento, designam igualmente os ídolos e os seus adoradores.9 O culto dos «ídolos» não é condenado enquanto relação às imagens, mas enquanto esses deuses e os olhos que lhes rendem culto não acolheram primeiramente neles a vista anterior a todo o visível pela qual somente pode haver divindade e adoração. Razão pela qual ele já deve ter recebido: ele deve ter, precisamente, a disposição receptiva. E esta última não pode senão ter sido desde logo recebida: não é um mistério religioso, é a condição mesma da receptividade, da sensibilidade e do sentido em geral. As palavras «divino» ou «sagrado» podem muito bem nunca ter designado outra coisa que não essa passividade ou essa paixão iniciadora de toda a espécie de sentido (sens), sensatez (sensé), sensível (sensitif) ou sensual.

A parábola não vai da imagem ao sentido: ela vai da imagem a uma vista já dada ou não. «Bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem!» diz Jesus aos discípulos,10 ou bem esta outra fórmula tantas vezes repetida: “Quem tem ouvidos, ouça!»11 A parábola fala apenas àquele que já a entendeu, ela mostra àqueles que já viram. Aos outros, ela esconde, ao contrário, o que há a ver e o facto do que há a ver. A interpretação mais estreita e a mais tristemente religiosa desse pensamento seria essa segundo a qual a verdade seria reservada aos eleitos, os quais seriam, ademais, segundo o texto, sempre o pequeno número. A interpretação religiosa média equivale a dizer que a parábola oferece uma visão atenuada e provisória, incitando a procurar mais longe: mas é muito manifestamente aquilo que o texto interdita a pensar (mesmo se essa interpretação seja frequente). Mas o texto obriga, pelo contrário, a pensar que a parábola e a presença ou ausência da vista «espiritual» são directamente e imediatamente correlativas. Não há mais graus de figuração ou de literalidade do sentido/significado; há uma só «imagem» e face a ela uma visão ou uma cegueira. Sem dúvida, mais de uma vez tem Jesus de traduzir para os seus discípulos uma das suas parábolas. Fazendo-o, pois, não faz mais do que restituir a vista que já tinham. Uma vez mais, a parábola restitui a vista ou a cegueira. Ela torna a dar o dom ou a privação da vista em verdade (la vue en vérité).12

A parábola não se encontra na relação da «figura» com o «próprio», nem na relação da «aparência» com a «realidade», ou na relação mimética; ela está na relação da imagem com a vista. A imagem é vista se ela for vista, e ela é vista mal a visão se fizer nela e por ela, tal como a visão só vê quando é dada com a imagem e nela. Entre imagem e vista, não é imitação, é participação e penetração. É participação da vista no visível e do visível, pelo seu lado, com o invisível que não é outra senão a própria vista. (A methexis na mimesis, é sem dúvida um dos enunciados do quiasma greco-judeu onde se compõe a invenção cristã).
Desse facto, a parábola está longe de se deixar atrofiar na fórmula de uma alegoria. Ela própria participa do dom da vista e desse «mais» assegurado a esses que já a têm. Na parábola, há mais de uma «figura», mas há igualmente – como em sentido inverso – mais do que um sentido primeiro ou final. Há um aumento de visibilidade, ou mais precisamente, um duplo aumento de visibilidade e de invisibilidade.
É dessa forma que as parábolas perpetuaram a sua eficácia muito para lá da religião. Nos nomes ou nas expressões do «joio», do «bom Samaritano», do «filho pródigo» ou dos «obreiros da décima primeira hora», cintila um brilho singular, ressoa um suplemento de significância absolutamente irredutível, não só à religião cristã, mas igualmente à moral secularizada que um europeu cultivado sabe ainda associar a estas figuras. Certamente, enquanto depósitos culturais, eles não são muito diferentes das figuras mitológicas tais como «Hércules no cruzamento dos caminhos» ou bem «as Ninfas dos bosques e das fontes». Mas uma diferença salta à vista: aí onde Hércules e as Ninfas, saídos de um contexto mítico e ritual, são imediatamente alegorias que se apresentam como tal, as parábolas permanecem obstinadamente, de qualquer modo, «tautegóricas», quer-se dizer, anunciando-se a si mesmas e não outra coisa, segundo o termo forjado por Schelling para caracterizar, precisamente, o mito na sua própria força. Aplicam-se, a este respeito, como fábulas: n’ «a formiga e a cigarra», há mais do que a oposição da imprudência e da previdência necessária. Existem figuras, silhuetas, nomes e sonoridades que relançam sem fim os recursos de sentido que os conceitos não podem deixar de arrojar (jaillir). No fim, a verdade da fábula está continuamente em excesso em relação ao sentido de que a «moralidade» fornece. Para lá do sentido: invisível no belo meio da figuralidade visível. Ora, as fábulas – de Phèdre a La Fontaine – não são mais do que verdades tipicamente desencantadas. A fábula é o inverso do mito, a lição sem grandiosidade sagrada (aí onde o mito era a grandiosidade imortal sem outra lição para além do derribamento (terrasement) trágico dos mortais).
Mas a parábola cristã desova uma outra via, com a qual é bem possível que toda a literatura moderna tenha uma relação essencial (ou talvez igualmente toda a arte moderna: num sentido, este pequeno livro presta-se a aclarar um pouco essa hipótese). O excesso da sua verdade não tem o carácter indeterminado de uma lição geral de qualquer modo sobredimensionada por qualquer caso particular, e propondo um princípio regulador. Mas o seu excesso é sempre primeiro o da sua proveniência ou o do seu endereçamento (adresse): «Escute quem tem orelhas!» Não há «mensagem» sem que haja primeiro – ou, mais subtilmente, sem que haja também na própria mensagem – um endereçar a uma capacidade ou a uma disposição de escutar. Não é uma exortação (do género «tenham atenção! abram os ouvidos!»), é um aviso: se vós não compreenderdes, não procureis a razão nalguma obscuridade do texto, mas somente em vós, na obscuridade de vosso coração. Mais que o conteúdo pormenorizado da mensagem, prevalece isto: há aí uma mensagem para quem a quer e a sabe receber, para quem quer e sabe ser interpelado. A mensagem nada diz a orelhas moucas, mas à orelha aberta diz mais que uma lição. Mais ou menos do que o sentido/significado: nenhuma ou toda a verdade, de um golpe presente e cada vez singular.
Assim o texto – ou a palavra (parole) – exige antes de tudo, antes do seu próprio sentido/significado (ou infinitamente para lá dele) o seu auditor, aquele que desde logo já entrou na própria escuta desse texto, no seu mais íntimo movimento de sentido ou de ultrapassagem do sentido e na sua désoeuvrement. Essa exigência significa igualmente que a parábola espera a orelha que a sabe entender, e que é ela própria, a parábola, que pode sozinha abrir a orelha para a sua capacidade de escutar. Da mesma forma, ter-se-á dito bem mais tarde, um autor deve procurar os seus leitores, ou melhor, e é a mesma coisa, é o autor que cria os seus próprios leitores. Trata-se sempre do aparecimento do sentido ou do contra-senso (outre-sens): de um eco singular no seio do qual eu me ouço falar e responder com a voz do outro à orelha do outro como à minha própria orelha.
Não será isso o que separa, sem conciliação possível, a fé da crença? Pois a crença põe ou supõe no outro uma mesmidade (mêmeté) na qual se identifica e se reconforta (ele é bom, ele salva-me), enquanto a fé se permite dirigir por um outro apelo desconcertante, lançada numa escuta que eu próprio desconheço. Mas o que separa assim a crença da fé é identicamente o que separa a religião da literatura e da arte, sob a condição de ouvir os termos em toda a sua verdade. Trata-se de ouvir, com efeito: ouvir a nossa própria orelha escutar, ver o nosso olho olhar isso mesmo que os abre e que se eclipsa nessa abertura.

1 Mt 12, 34-35; Mc 4, 33-34.
2 A parábola distingue-se assim claramente da alegoria. Nesse ponto de vista, partilho a convicção de Jean-Pierre Sarrazac, ele próprio retomando a tese exegética de Charles Harold Dodd, em La parabole ou l’enfance du théâtre, Belfort, Circé. 2000. Cf. p. 50 a 65.
3 João 14,9 (em regra geral, sigo a tradução de Jean Grosjean, La Bible. Noveau Testament, Paris, Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, 1971). Quero com efeito restar retirado das discussões em volta das tentativas para renovar a tradução desses textos: os artistas cujas obras acompanham e aconselham de qualquer modo este ensaio não tinham conhecimento de tais discussões.
4 Por «desconstrução do cristianismo» procuro designar um movimento que será à vez de análise do cristianismo – a partir de uma posição supostamente capaz de o ultrapassar – e de próprio deslocamento, com transformação, do próprio cristianismo se ultrapassando, acumulando tudo enquanto dando acesso a recursos que esconde e encerra à vez. Para o essencial, trata-se disto: não só o cristianismo se separa e se exceptua do religioso, mas designa ocamente, para lá dele, o lugar daquilo que deverá acabar por escapar à alternativa primária do teísmo e do ateísmo. Na realidade, esta desconstrução trabalha, sobre modos diferentes, o conjunto do monoteísmo das «religiões do Livro». Esse trabalho responde sempre a isto: o deus «Um» não é precisamente mais «um deus». Voltarei aqui mais tarde de modo temático. O pequeno ensaio que se vai ler encontra-se na obediência deste tema, mas alimenta-se de modo lateral.
5 Mt 13,11.
6 Ibid., 13.
7 Ibid., 14.
8 Ibid., 12.
9 Sobre esta questão, permito-me o reenvio do meu estudo «A representação interdita» em Au fond des images, Paris, Galilée, 2003.
10 Ibid., 16.
11 Ibid., 9.
12 Como pensar a contingência desse dom ou dessa privação? É necessário abrir aqui a questão da eleição ou da graça, a qual excede o nosso propósito. Digamos, simplesmente, no nosso contexto imediato, que os discípulos – sempre designados ou escolhidos sem razão probatória, mesmo a contra-motivo – não são escolhidos porque já têm a «vista», mas pelo contrário recebem-na porque são escolhidos.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

nós de seda

árvore de puída
seda       onde em magote
lagartas deslaçam a passada
vida      algumas solitárias
deslidam um sentido de
nó a nó      aliam-se a
caminho da mudança

desteço o nós que
somos com a apatia de
uma fenda aberta antes de ti
pago assim o preço
junto à oliveira
com um laço atado
para me lembrar

terça-feira, 2 de maio de 2017

a caminho

à medida do teu suspiro um rochedo
levanta-se       um mar
ruge e faz o seu caminho
pedra a pedra

vira o rosto       olha o que
com vagar vem
uma avalanche
uma depressão

e
também
ir e vir da paixão
do pensamento e do corpo
e tu e eu

domingo, 30 de abril de 2017

Sylvia Plath - Uma Vida


Toca-lhe: não vai encolher como um olho,
Este bailio oval, claro como uma lágrima.
Aqui é amanhã, o ano passado –
Distinta lança de palmeira e lilás como flora na vasta
Fechada trama de uma tapeçaria.

Risca o vidro com a tua unha:
Irá sibilar como um carrilhão chinês à mais leve agitação do ar
Embora ninguém aí olhe para cima ou se preocupe em responder.
Os habitantes são leves como cortiça,
Cada um deles permanentemente ocupado.

A seus pés, as ondas do mar curvam-se numa única fileira.
Nunca entrando em mau humor:
Suspendendo a meio do ar,
Rédea-curta, empinando como cavalos de parada.
No alto, as nuvens assentam franjeadas e extravagantes

Como almofadas Vitorianas. Esta família
De rostos enamorados poderão agradar um colecionador:
Soam a verdadeiros, como boa porcelana.

Noutros lados a paisagem é mais sincera.
A luz cai sem pausas, cegando.

Uma mulher arrasta a sua sombra num circulo
Em torno de um pires calvo de hospital.
Faz lembrar a lua, ou uma folha em branco
E parece ter sofrido um espécie de ataque relâmpago privado.
Ela vive em calmamente.

Sem ligações, como um feto numa garrafa,
A casa obsoleta, o mar, aplanado a uma imagem
Ela tem demasiadas dimensões onde entrar.
Mágoa e raiva, exorcizadas,
Deixem-na em paz agora.

O futuro é uma gaivota cinzenta
Palrando na sua voz de gato de partida, de partida.
Idade e terror, como enfermeiras, tomam conta dela,
E um afogado, queixando-se do grande frio,
Rasteja para fora do mar.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

sábado, 29 de abril de 2017

Wendy René (a.k.a. Mary Frierson) - after laughter (comes tears)



After laughter comes tears
After your laughter there will be tears
When you're in love, you're happy
When your in a arm, you gaze
This doesn't last always
After your laughter there will be tears
My friends all say, don't try to hold it in
But i can't let that guy know how i feel
I'll try to hold back my, my, my tears
But they keep say
After your laughter oh, oh, oh
I'll try to hide, hide my sorrows
I wonder can i hold them till tomorrow
Maybe ill hold them for a year
But they keep say
After your laughter
Now you will see those wet little tears
After your laughter
A little biddy tear will look climb into your eye

terça-feira, 25 de abril de 2017

para um outro dia lázaro

o dia       todo o dia       é um
peso       primeiro sob as asas
depenadas       mortalha de inverno
cobrindo-te durante a tua ausência
de corpo presente

depois enquanto langor
lenta travessia pelo lamaçal
sobre pedra e alcatrão

até a angústia de agrilhoar à cadeira
e só os olhos
                    entregues à balística
tocam o mundo

por fim enrodilha-se o frio
e cansaço ou morfeu impõem-se
como a gravidade pende a luz
para um outro dia lázaro

segunda-feira, 24 de abril de 2017

de mão suspensa

com a escrita adio a morte

quando a mão se suspende
no ar       falcão ao alto de olhar
vertical no ataque
a cada palavra       a morte instala-se
no intervalo da escolha
no pensamento

adia a escrita

quarta-feira, 19 de abril de 2017

versão

na ardósia, pendurada na parede exterior do restaurante, lia-se o seguinte:

April, April der
macht was er will
bald ist's vorbei,
dann ist endlich Mai!

esta é a minha versão:

Abril, Abril,
Abril de águas mil
em breve passarás
e vem Maio de jacarandás

sexta-feira, 14 de abril de 2017

aurora, crepúsculo

os lábios
atam a aurora ao corpo
magnólias*
sob as águas de abril

todavia o crepúsculo
já te tolda os olhos
rarifica
os beijos


* pedimos desculpa, era de facto a flor de magnólia que aqui deveria estar e não do rododendro, sem qualquer reenvio a poemas de LNJ ou HH.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sankt Peter-Ording

um deserto para máquinas a vento
do carro à vela ao coração tornado
papagaio       também aqui repetimos
a semelhança da paisagem ao fim
do mundo       essa ideia dada
pelas imagens paradas ou em movimento
a revelação inatendida

ela

a mulher recolhida
caminhando pelo areal a teu lado

faz tudo para a criação

e tu

homem cabisbaixo
enegrecendo a pérola

tudo destróis

sexta-feira, 24 de março de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (conclusão)




50) A denegação dos tipos, tanto individuais como colectivos, é uma consequência do imperativo do anti-racismo que se nos tornou necessária assumir. Pobre necessidade, embora, que nos obriga a apagar esses ares de família, essas semelhanças vagas mas persistentes, essas misturas comoventes ou graciosas de efeitos da genética, da moda, das divisões sociais, das idades, e no meio das quais emerge com um maior relevo o incomparável de cada um(a).

51) Grão de beleza: a língua francesa chama assim essas partículas castanhas ou negras, ligeiramente salientes, que fazendo por vezes (e sobre alguns tantas vezes) um ponto, marca ou mancha sobre a pele. No lugar de colorirem a pele, fazem sobressair a brancura, é, pelo menos, como gostamos de dizer no tempo em que a neve ou o leite servem de comparativo, por excelência, para a pele das mulheres. Elas surgem então, necessariamente, como “moscas” de veludo sobre as bochechas ou sobre a garganta. Hoje em dia, apreciam-se mais as peles morenas, douradas ou bronzeadas, mas o grão de beleza mantém o seu atractivo: assinala a pele, baliza o seu lugar e configura-a, conduz o olho e age sobre ele como uma nota de desejo. Por um momento, gostar-se-ia de dizer que o grão de beleza é uma semente de desejo, uma minúscula elevação de intensidade, um corpúsculo no qual o tom mais escuro concentra uma energia do corpo inteiro, como igualmente faz a ponta do seio.

52) O corpo segue por espasmos, contracções e relaxamentos, dobras, desdobramentos, enodoamentos e desvinculações, torções, sobressaltos, soluços, descargas eléctricas, relaxamentos, contracções, tremores, choques, arrepios, erecções, súbitos saltos, começos. Corpo que se eleva, se abisma, se atormenta, se despele e se esburaca, se dispersa, pulula, esguicha quer pus ou sangre, humedece ou seca ou supura, ronca, geme, murmura, estoura e suspira.

53) O corpo produz a auto-imunidade da alma, no sentido técnico desse termo médico: ele defende a alma contra si mesma, impede que ela seja completamente absorvida pela íntima espiritualidade. Ele provoca uma rejeição da alma pela própria alma.

54) O corpo, a pele: tudo o resto é literatura anatómica, fisiológica e médica. Músculos, tendões, nervos e ossos, humores, glândulas e órgãos são ficções cognitivas. São formalismos funcionalistas. Mas a verdade é a pele. Está na pele, é feita pele: autêntico campo exposto, toda virada para o exterior enquanto, simultaneamente, envolve o interior, um saco repleto de borborismos e fetidez. A pele toca e faz-se tocar. A pele acaricia e afaga, magoa-se, arranha-se, comicha. É irritável e excitável. Ela apanha o sol, o frio e o calor, o vento, a chuva, ela inscreve marcas no interior – rugas, manchas, verrugas, escoriações – e marcas no exterior, por vezes as mesmas ou então fendas, cicatrizes, queimaduras, cortes.

55) Corpo oxímoro polimorfo: dentro/fora, matéria/forma, homo/heterológico, auto/alónimo, crescer/excrescer, meu/nada1.

56) Corpo indexado: há alguém, há alguém que se esconde, que mostra o fim da orelha, alguém ou alguma, qualquer coisa ou qualquer signo, qualquer causa ou qualquer efeito, há aí uma qualquer maneira de “aí”, de “lá”, tão próximo, assaz longe…

57) Corpo tocado, tocante, frágil, vulnerável, sempre mudando, fugitivo, esquivo, evanescente sob a carícia ou a batida, corpo sem casca, pobre pele estendida sobre uma caverna onde flutua a nossa sombra…

58) Porquê 58 indícios? Porque 5 + 8 = aos membros do corpo, braços, pernas e cabeça e as 8 regiões do corpo: as costas, o ventre, o crânio, o rosto, as nádegas, o sexo, o ânus, a garganta. Ou então porque 5 + 8 = 13 e 13 = 1&3, 1 valendo pela unidade (um corpo) e 3 valendo pela incessante agitação e transformação que circula, se divisa e se excita entre a matéria do corpo, sua alma e seu espírito… Ou melhor ainda: o arcano XIII do tarôt designa a morte, e a morte incorpora o corpo no indestrutível corpo universal das lamas ou dos ciclos químicos, dos aquecimentos e das explosões estelares…

59) Surge, por consequência, o quinquagésimo nono índice, o supranumerário, o excedentário – o sexual: os corpos são sexuados. Não existe corpo unissexo, como hoje em dia se diz de certas roupas. Um corpo é, pelo contrário, de parte a parte, também um sexo: também seios, uma verga, uma vulva, testículos, ovários, características ósseas, morfológicas, fisiológicas, um tipo de cromossoma. O corpo é sexuado por essência. Essa essência determina-se como a essência de uma relação de uma a outra essência. O corpo determina-se assim como essencialmente relação, ou em relação. O corpo relaciona-se com o ou ao corpo do outro sexo. Nessa relação, haverá uma sua corporeidade pois afecta o sexo no limite: ela goza, ou seja o corpo é sacudido em todo o seu redor. Cada uma das suas zonas, gozando por si, emite para o exterior a mesma vivacidade. A isso chama-se alma. Mas o mais das vezes isso deixa-se ficar preso pelo espasmo, no soluço ou no suspiro. O finito e o infinito cruzam-se, trocam-se num instante. Cada um dos sexos pode ocupar a posição do finito ou do infinito.

1 Impossível de manter, aqui, o jogo proposto por Nancy entre mien e rien.

Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

segunda-feira, 13 de março de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)



40) O corpo é o em si do para si. Na relação a si, ele é o momento sem relação. É impenetrável, impenetrado, silencioso, surdo, cego e privado de tacto. É maciço, grosso, insensível, não afectado. Ele é também o em si do para os outros, virado para eles mas sem qualquer por eles. Ele é somente efectivo – mas é-o absolutamente.

41) O corpo guarda o seu segredo, esse nada, esse espírito que não habita nele mas está disseminado, dispersado, expandido ao longo e tanto que o segredo nada esconde, nenhum retiro íntimo onde, um dia, seria possível ir descobri-lo. O corpo nada guarda: guarda-se como segredo. Porque o corpo morre e leva o segredo para o túmulo. E só a custo temos alguns indícios da sua passagem.

42) O corpo é o inconsciente: as sementes dos seus antepassados sequenciadas nas suas células, e os sais minerais ingeridos, e os moluscos acariciados, pedaços de madeira quebrados e os vermes que consomem o cadáver debaixo da terra, ou então a chama que o incinera e a cinza que se deduz e o resume num impalpável pó, e as pessoas, plantas e animais que ele cruza e passa rente, e as lendas das amas de antanho, e os monumentos arruinados cobertos de líquenes, e as turbinas enormes das fábricas que produzem ligas inéditas das quais fará próteses, e os fonemas rudes ou chiados cujo ruído fala a sua língua, e as leis gravadas nas estelas e os secretos desejos de morte ou imortalidade. O corpo toca em tudo do fundo secreto dos seus dedos ossudos. E tudo acaba por fazer corpo, até mesmo o corpus da poeira que se aglomera e dança um vibrante baile no mais fino raio de luz onde termina o último dia do mundo.

43) Porquê indícios mais do que caracteres, signos, marcas distintivas? Porque o corpo escapa, nunca está assegurado, deixa-se suspeitar mas não identificar. Ele pode sempre ser nada mais que uma parte de um corpo maior, que se leva para casa, no seu carro ou no seu cavalo, burro, colchão. Ele pode ser nada mais que um duplo desse outro corpo, tão pequeno e vaporoso, que chamamos de alma e que sai da sua boca mal morre. Possuímos, somente, indícios, traços, impressões, vestígios.

44) A alma, o corpo, o espírito: a primeira é a forma do segundo e o terceiro a força que produz a primeira. O segundo é, pois, a forma expressiva do terceiro. O corpo exprime o espírito, ou seja o meio de se jorrar para fora, de apertar a seiva, puxar o suor, arrancar a faísca e lançar tudo para o espaço. Um corpo é uma deflagração.

45) O corpo é nosso e é-nos próprio na exacta medida em que ele não nos pertence e se furta à intimidade do nosso próprio ser, se alguma vez esse aí existir, pelo qual, precisamente, o corpo nos faz seriamente duvidar. Mas nessa medida, que não sofre qualquer limitação, o nosso corpo é não somente nosso mas nós, nós mesmos, o mesmo será dizer até à sua morte e sua decomposição, na qual podemos e somos decompostos identicamente.

46) Porquê indícios? Porque não existe a totalidade do corpo, nenhuma unidade sintética. Há peças, zonas, fragmentos. Há um fim depois outro, um estômago, uma sobrancelha, uma minúscula unha, um ombro, um seio, um nariz, um intestino delgado, um canal do colédoco, um pâncreas: a anatomia é interminável, sustentada pela enumeração exaustiva das células. Mas esta última não faz a totalidade. É preciso, pelo contrário, recomeçar, o quanto antes, toda a nomenclatura por descobrir, se se puder, o traço da alma impressa sobre cada bocado. Mas os bocados, as células, mudam enquanto a contagem enumera em vão.

47) A exterioridade e a alteridade atingem o insuportável: a dejecção, a porcaria, o ignóbil desperdício, que ainda faz parte dele, que é ainda sua substância e sobretudo sua actividade, uma vez que é preciso que a expulse e que não é um dos seus menores serviços. Do excremento ao crescimento das unhas, dos pêlos ou de toda a espécie de verrugas ou malignidades purulentas, é preciso que ele os mande fora e separe de si o resíduo ou o excesso desses processos de assimilação, o excesso da sua própria vida. Disso, não se quer nem falar, nem ver, nem sentir. Sente-se vergonha e todos os tipos de desconfortos e constrangimentos quotidianos. A alma impõe o silêncio sobre toda uma parte do corpo, da qual ela é a própria forma.

48) Precisão do corpo: aqui, em nenhum outro lugar. É no fim do dedo gordo do pé, é na base do esterno, é no mamilo do seio, à direita, à esquerda, ao alto, em baixo, em profundidade ou na superfície, é difuso ou pontual. É dor ou prazer, ou antes, simples transmissão mecânica como esses toques do piano na polpa dos meus dedos. Mesmo o que é descrito de uma sensação qualquer como difusa observa a precisão do “difuso”, que irradia a cada vez de uma maneira bem precisa. A precisão do espírito é matemática, a da alma é física: ela expõe-se em gramas e milímetros, numa facção de ejecção ou rapidez de sedimentação, em coeficiente respiratório. A anatomia nada tem de redutor, contrariamente ao que pensam os espiritualistas: é, pelo contrário, a extrema precisão da alma.

49) Imprecisão do corpo: eis um homem por volta dos quarenta, muito seco e olhar nervoso, ar preocupado, talvez um pouco fugidio. Caminha com uma certa rigidez, poderá ser um professor ou médico, ou talvez ainda juiz ou administrador. Não é muito cuidadoso com a sua roupa. Tem as maçãs do rosto altas e a tez ligeiramente bronzeada: é, sem dúvida, mais de ascendência mediterrânica, em qualquer caso de todo nórdico. Além disso, é de estatura média. Presumimo-lo desajeitado, perguntamo-nos se terá autoridade ou decisão. Duvidamos do seu amor-próprio. É possível continuar neste registo, já que há tantos indícios dispersados num só e único corpo. Certamente, enganar-nos-emos em muitos pontos, talvez sobre todos. Mas não nos saberíamos absolutamente perdidos, a menos que um disfarce concebido com uma arte consumada nos possa enganar. Esse disfarce terá de pedir emprestado os seus traços a um qualquer fundo típico, esquemático, de espécie ou de género. Porque existem tipos humanos (há-os igualmente entre os animais). São, de forma indemne, biológicos ou zoológicos, fisiológicos, psicológicos, sociais e culturais, têm constantes de nutrição ou educação, de diferenciação sexual e de trabalho, a condição, a história: mas imprimem a sua tipologia, seja ao custo ou no seio de uma infinita diferenciação individual. Nunca poderemos dizer onde começa o singular e onde acaba o tipo.



Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

Informação - Performance na esfera pública


quarta-feira, 8 de março de 2017

Evangelist - Whirlwind Of Rubbish




When, when, when will we meet? When I'm outside the station A whirlwind of rubbish round my feet When, when, when will you come? With an army around you Will I turn on my toes, will I run? Will you strip the branches from the trees? For me... for me... for me The old life is over The old life is over When, when, when will we meet? Will you turn round and face me? The ship fallen far from it's fleet When, when, when will you come? With a handful of sky, paper thin moon on your tongue. Will you strip, the branches from the trees? For me... for me... for me The old life is over The old life is over

Queima das Bruxas





No mercado estão a empilhar paus secos.
Um matagal de sombras é um pobre agasalho. Eu habito
A imagem de cera de mim própria, um corpo de boneca.
A doença começa aqui: sou um alvo para bruxas.
Só o diabo pode comer o diabo para fora.
No mês das folhas rubras eu subo para uma cama de fogo.

É fácil culpar o escuro: a boca de uma porta,
A barriga da cave. Eles explodiram o meu atiçador.
Uma obscura mulher fragmentada tem-me encerrada numa gaiola de papagaio.
Que olhos tão grandes têm os mortos!
Sou íntima com um espírito peludo.
Fumo revoluta da boca deste jarro vazio.

Se eu sou pequena, eu não posso fazer qualquer mal.
Se não andar por aí, nada derrubarei. Assim disse,
Sentada debaixo de tampa de panela, pequena e inerte como um grão de arroz.
Eles estão a erguer as tochas, anel após anel.
Estamos repletas de goma, as minhas pequenas companheiras brancas. Crescemos.
Dói ao início. As línguas vermelhas irão ensinar a verdade.

Mãe de carochas, descerra apenas a tua mão:
Eu voarei pela boca da candeia como uma traça complicada.
Dá-me a minha forma de volta. Estou pronta a construir os dias
Eu copulo com o pó na sombra de uma pedra.
Os meus tornozelos clareiam. A claridade sobe pelas minhas ancas.
Estou perdida, estou perdida, na túnica de toda esta luz.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

terça-feira, 7 de março de 2017

do maior silêncio a mais longa fala

só existe tu e eu
quando falamos ou se
instala o silêncio entre os olhos

raro o encontro de realidades
estrelas introvertidas       o longo pouso de uma
borboleta na mão esquecida
sobre o joelho       destemida aranha
confundindo o teu cabelo molhado pelo seu
templo após o dilúvio

raro       mais ainda       do maior silêncio
a mais longa fala
diálogo a cinzel       abraço adiado a meio da
cozinha como no fim de uma peregrinação

só tu e eu existe e a devastação
de sonhos
a torrente imparável da vida em catadupa
essa cadeira empenada
lançada por outra mão em desequilíbrio
a cada novo soerguer do chão

só tu e eu
teimosamente
sem desistir

segunda-feira, 6 de março de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)



30) Corpo próprio: para ser próprio o corpo deve ser estrangeiro e assim descobrir-se apropriado. A criança olha a sua mão, o seu pé, o seu umbigo. O corpo é o intruso que só pela efracção pode penetrar no ponto presente a si que é o espírito. Este último é, além disso, tão pontual e apertado sobre o seu ser-a-si-em-si que o corpo somente consegue penetrar por exorbitância ou exogastrulando a sua massa como uma bossa, como um tumor fora do espírito. Tumor maligno, do qual o espírito não recupera.

31) Corpo cósmico: pouco a pouco o meu corpo toca tudo. O meu traseiro na minha cadeira, os meus dedos no teclado, cadeira e teclado na mesa, mesa no chão, o chão nas fundações, as fundações no magma central da terra e nas deslocações das placas tectónicas. Se sigo noutro sentido, pela atmosfera chego às galáxias e, enfim, aos limites sem bordo do universo. Corpo místico, substância universal e marioneta puxada por mil fios.

32) Comer não é incorporar, mas abrir o corpo ao que se engole, exalar o dentro com sabor de peixe ou figo. Correr é desdobrar esse mesmo interior em passadas, em ar vivo sobre a pele, em respiração apressada. Pensar bascula os tendões e as várias nascentes em jactos de vapor e em marchas forçadas sobre grandes lagos salgados sem horizonte discernível. Nunca há incorporação, mas sempre saídas, torções, evasões, recortes ou transbordos, cruzamentos, oscilações. A intussuscepção é uma quimera metafísica.

33) “Este é o meu corpo” = asserção muda e constante da minha única presença. Ela implica uma distância: “este”, eis aquilo que ponho à vossa frente. É “o meu corpo”. Duas questões se envolvem imediatamente: a quem envio esse “meu”? e se o “meu” marca a propriedade, qual a sua natureza? – Quem é, pois, o proprietário e qual a legitimidade da sua propriedade? Não há uma resposta para o “quem”, uma vez que esse é tanto o corpo como o proprietário do corpo, e não há “propriedade” já que é tanto direito natural como direito do trabalho ou conquista (assim eu cultivo e trato o meu corpo). “Meu corpo” envia, portanto, à inassinabilidade dos dois termos da expressão. (Quem te deu o teu corpo? Ninguém mais senão tu, porque não haveria qualquer programa suficiente, nem genético, nem demiúrgico. Mas então, tu antes de ti? Tu por trás do teu nascimento? E porque não? Não estou eu sempre nas minhas próprias costas e na proximidade de alcançar o “meu corpo”?)

34) Na verdade, “meu corpo” indica uma possessão, não uma propriedade. Melhor, uma apropriação sem legitimação. Eu possuo o meu corpo, eu trato-o como quero, tenho sobre ele o jus uti et abutendi. Mas, por sua vez, ele possui-me: ele puxa-me ou incomoda-me, ofusca-me, pára-me, impele-me, repele-me. Nós somos um par de possuídos, um casal de dançarinos demoníacos.

35) A etimologia de “possuir” estaria na significação de “estar/ser sentado sobre”. Eu estou sentado sobre o meu corpo, criança ou anão às cavalitas de um cego. O meu corpo está sentado sobre mim, esmagando-me com o seu peso.

36) Corpus: um corpo é uma colecção de peças, de bocados, de membros, de zonas, de estados, de funções. Cabeças, mãos e cartilagens, queimaduras, suavidades, jorros, sono, digestão, horripilação, excitação, respirar, digerir, reproduzir-se, reparar-se, saliva, sinóvia, torções, cólicas e grãos de beleza. É uma colecção de colecções, corpus corporum, cuja unidade é uma questão para si mesma. Mesmo a título de corpo sem órgãos, existem, quando mesmo, cem órgãos, cada qual atraindo para si e desorganizando o todo que nunca mais chega a se totalizar.

37) “Este vinho tem corpo”: põe-se na boca uma espessura, uma consistência que se acrescenta ao sabor; ele deixa-se tocar, acariciar e rolar pela língua entre as bochechas e contra o palato. Não se satisfará deslizando-o para o estômago, ele deixará a boca atapetada com uma película, uma fina membrana ou um sedimento do seu gosto e do seu tónus. Poder-se-á dizer: “este corpo tem vinho”: ele sobe à cabeça, solta vapores que entontecem e entorpecem o espírito, ele excita, incita ao toque para electrizar o seu contacto.

38) Nada é tão singular como a descarga sensível, erótica, afectiva que certos corpos produzem sobre nós (ou então, inversamente, a indiferença em que nos deixam certos outros). Tal conformação, tal tipo de magreza, tal cor de cabelos, um olhar, um espaçamento dos olhos, um movimento ou um desenho do ombro, do queixo, dos dedos, quase nada, mas um acento, uma dobra, um traço insubstituível… Não é a alma, mas o espírito de um corpo: o seu pico, a sua assinatura, o seu odor.


39) “Corpo” distingue-se de “cabeça” como de “membros” ou, pelo menos, de “extremidades”. Tendo isso em conta, o corpo é o tronco, o portador, a coluna, o pilar, o fundo da fundação. A cabeça reduz-se a um ponto; ela não tem, na verdade, uma superfície, é feita de buracos, orifícios e aberturas por onde saem e entram espécies diversas de mensagens. As extremidades, de modo semelhante, informam-se pelo meio ambiente e, por aí, executam certas operações (andar, alcançar, agarrar). O corpo permanece estranho a tudo isso. Ele está colocado sobre si, em si: não decapitado, mas a sua cabeça atrofiada e presa a ele como um alfinete.


Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)



20) Os corpos são diferenças. São, portanto, forças. Os espíritos não são forças: são identidades. Um corpo é uma força diferente de muitas outras. Um homem contra uma árvore, um cão em frente de um lagarto. Uma baleia e uma lula. Uma montanha e um glaciar. Tu e eu.

21) O corpo é uma diferença. Como é uma diferença com todos os outros corpos – uma vez que os espíritos são idênticos – ele nunca pára de se diferenciar. Ele difere igualmente de si. Como pensar, junto a um e a outro, o bebé e o velho?

22) Diferentes, os corpos são, de qualquer modo, disformes. Um corpo perfeitamente formado é um corpo enfadonho, indiscreto no mundo dos corpos, inaceitável. É um projecto, não é um corpo.

23) Do corpo destaca-se a cabeça, sem que seja necessário decapitá-la. A cabeça está, por si mesma, destacada, deduzida. O corpo é um conjunto, ele articula-se e compõe-se, organiza-se. A cabeça é feita de buracos, na qual o centro vazio representa muito bem o espírito, o ponto, a infinita concentração em si. Pupilas, narinas, boca, orelhas, são buracos, evasões cavadas fora do corpo. Pondo de parte os outros buracos, esses de debaixo, esta concentração de orifícios depende do corpo por um fino e frágil canal, o pescoço cruzado pela medula e vários vasos prontos a inchar ou a se romper. Uma fina ligação que conecta, numa dobra, o corpo complexo à cabeça simples. Nenhuns músculos nela, nada senão tendões e ossos de substância mole e cinzenta, circuitos, sinapses.

24) O corpo sem cabeça está fechado sobre si mesmo. Conecta os músculos entre eles, aperta os órgãos uns contra os outros. A cabeça é simples, combinação de alvéolos e de líquidos dentro de uma tripla envolvência (enveloppe).

25) Se o homem foi feito à imagem de Deus, então Deus tem um corpo. Talvez seja ele mesmo um corpo, ou o corpo eminente entre todos. O corpo de pensamento dos corpos.

26) Prisão ou Deus, não há meio: envolvente selado ou envolvente aberto. Cadáver ou glória, dobra ou desdobra.

27) Os corpos cruzam-se, raspam, pressionam, enlaçam-se ou chocam: tantos signos que se fazem, tantos sinais, endereçamentos, avisos que nenhum sentido definido alguma vez pode saturar. Os corpos fazem do sentido em todo o sentido. É por isso que o corpo parece tomar o seu sentido somente quando morre, congela. E daí, talvez, que interpretemos o corpo como tumba da alma. Na realidade, o corpo não pára de se mover. A morte congela o movimento que se deixa ir e renuncia a moção. O corpo é a moção da alma.

28) Um corpo: uma alma lisa ou enrugada, gorda ou magra, calva ou peluda, uma alma com inchaços ou feridas, uma alma que dança ou que mergulha, uma alma calosa, húmida, caída por terra…

29) Um corpo, uns corpos: não pode haver um só corpo, os corpos carregam a diferença. São forças postas e tensionadas umas contra as outras. O “contra” (ao encontro, de encontro, “tudo contra”) é a categoria maior do corpo. Ou seja, o jogo das diferenças, os contrastes, as resistências, as tomadas, as penetrações, as repulsões, as densidades, os pesos e medidas. O meu corpo existe contra o tecido das minhas roupas, os vapores do ar que ele respira, o brilho das luzes ou os afloramentos1 das trevas.


1 Optámos traduzir “frôlements”, que significa um toque rápido, ligeiro e superficial, por “afloramento” para manter o sentido de toque, como também para acrescentar o sentido de alguma coisa que brota, neste caso da/na escuridão.

Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).