sábado, 15 de junho de 2019

Narciso e Eco

quem me fala                                                     fala
que eu                                                               eu
me fala e escuto                                                 escuto
quem me olha                                                    olha
se não sei quem me vê                                       vê
quem                                                                quem
diz que te ama                                                   te ama
e fica                                                                 fica
para                                                                  para
te deixar                                                           deixar
a sós com o teu ser                                           ser
esse amor                                                         amor
que sempre existiu em ti                                    em ti

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Ishvara e Maya

falando da pele soubeste
Valéry        o mais profundo é
o que mais está à vista
de fronte e entrando
em ti sendo nada senão
somente tanto quanto tu
e
eu


terça-feira, 23 de abril de 2019

Visões da Serra

5
és um pedaço de carvão que respira
nessa cama algodoada          uma lasca
de grafite a cortar os campos
sempre verdes das terras alemãs
a sombra de uma sombra ou uma alma
a suspirar quando te sentas
ao meu colo pedindo atenção e com prazer
concedo as mãos no teu dorso
pelo queixo massajando
os teus triângulos de veludo que cobrem
o vasto mundo de barulhos sons e gentis
ares alheios ao meu sentido e
a tua barriga tracejada a branco
onde o bisturi te raspou a nada
o que ao futuro darias

dormes numa espiral de número d'ouro
numa perfeita paz que me desperta a inveja e
a curiosidade          quem te faz ganir
e uivar e ladrar e correr
no vazio         quem te habita
o sonho         será o meu          o de olho
a olho e entendimento estendido
por cima da areia de diferenças
a imergir no mar da tranquilidade
em que tu e eu nos sabemos iguais
ou a rainha da floresta teutónica
protegendo as suas crias da tua manha

se lesses este poema saberias que te respeito
te levo ao peito e memorizo o teu corpo
e movimentos e apenas procuro livrar-me
desta doença da interpretação humana
demasiado humana impedindo-te de seres
um simples animal intocado e colonizando-
te com a minha linguagem quando sou eu
quem é surdo cego e analfabeto
ao que dizes com a tua vida vivida a meu lado

sexta-feira, 12 de abril de 2019

queres por aqui ficar

quando apareceste o amor tinha ido
dar uma volta ao cabo Espichel
debruçava-se na falésia e da sua voz
fazia o rebate choroso das ondas

pedia ao tempo que se alentasse
como o barco caído na linha
da separação dos dois
azuis

viu quanto dura a rotação e a luz
a esquivar-se da opacidade da memória
dos corpos e da espuma desses dias

toda a despedida é um até já
até que a morte quebre qualquer laço

do que virá depois só posso guardar
silêncio          lancei-o por fim ao mar
essa coisa seca
em que se tornou o coração               como uma pedra
para chapinhar nas ondas
ou uma estrela de retorno a casa

lavou-se da conta dos fados
do canto das fodas
das palavras ébrias
foi dar às rochas
esmurchecido
como um cão sob o peso da bátega

agora bate com a precisão
e atrasos dos comboios
faz pontes e ecoa
as juras e mentiras da paixão

talvez vás ainda
a tempo          estas purgas
duram         toma-lhe o peso do sal
aproxima o teu ouvido e escuta
às vezes acordo do longo sono e volto-me
com docilidade para o delicado
abismo da desordem*

queres por aqui ficar


*Clarice Lispector

terça-feira, 9 de abril de 2019

Despertai

Precisei que Deus me abandonasse para que eu sentisse a sua presença
Clarice Lispector

só àquele que desistiu
pela renúncia à pertença
isso lhe surge dentro de si

quarta-feira, 3 de abril de 2019

se te esquecesses de morrer

para o meu pai


conheci-te com um grande silêncio          sentavas-te
no sofá da sala o olhar preso
nas letras e em redor
uma névoa          acreditava que guardavas
como a terra os cristais longamente
crescidos sob estrondosas pressões      
                                                                 segredos            amordaçados por vinho e whisky
maços de gigante          o que havia
a dizer não era nada
que eu já não soubesse e aos poucos
vindo à flor do cérebro ou à boca
dos dedos mordendo a caneta

sei do dia          a morte sentar-se-á
a teu lado como eu em visita
não reconhecerás qualquer rosto
e ela          de quem ninguém olvida
                                                     oh tu náufrago do rio Letes
                                                                                              no teu escritório do pensamento
       guiar-te-á lentamente num jogo
de vingança depois de ter arrancado os cabelos
e te injuriado do alto de penhascos
como Dido
porque te esqueceste de ir morrendo

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Galway Kinnell - X. Ultimidade (fim)


5

Esse concerto de Bach a que assisti há muito tempo atrás –
a sala lustrada
de madames e senhores que nunca morreriam...
as vozes desvanecem-se,
a sala aquieta-se,
o violinista
põe o seu irreversível rosto sofrido
na palma aberta
da madeira, a música começa:

um chuveiro de resina,
os cabelos dos arcos escutando em todo o seu comprimento
ao lamento,
o lamento sexual
dos becos e os fios de sangue que vivemos
ainda choram,
ainda cantam, do intestino cortado
do gato.


6

Este poema,
se o podemos assim chamar,
ou concerto de um
dividido entre si,
este gesto dirigido à terra
do paraquedista, os vermes
nas suas costas ainda rodopiam em diante
e já roendo
as sedas dos seus amores, que poderiam tê-lo salvo,
esta queda livre de alguém
abrindo os seus braços na atitude
de vôo, à medida que obedece à necessidade e cai...


7

Sancho Fergus! Não chores!

Ou melhor, chora.

No corpo,
na carne azulada, quando é
deposta, vê se consegues descobrir
a única pulga que se está a rir.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 74-75


(este foi o último poema do Livro de Pesadelos)

sexta-feira, 29 de março de 2019

Galway Kinnell - X. Ultimidade (cont.)



3

Andando em direcção à ravina sobre
o rio, eu chamo pela pedra,
e a pedra
chama de volta, a sua voz caçando por entre os seixos
pelos meus ouvidos.

Pára.
À medida que te aproximas de uma ravina
ecoante, pressentes a linha
na qual a voz chamando a pedra
não responde mais,
torna-se pedra, e nada retorna.

Aqui, entre resposta
e nada, estou, nos velhos sapatos
que fluíram sobre arco-íris de óleo de galinha,
cada sapato amparando os ossos
que se enrugam juntos em comunhão
com o passo,
e que abrem
à frente em dedos, todo o pé buscando
dissolver-se no futuro.

O barulho de cascos de alces.
Enquanto a esfera superior
se esvaziava a si mesma? Será verdade
que a terra é tudo o que há, e que a terra não dura?

No rio o mundo flutua segurando-se num cadáver.
Pára.
Pára aqui.
A vida leva-te à morte, não há outra estrada.


4

Este é o décimo poema
e é o último. Está certo
no fim, esse um
e zero
saindo juntos,
caminhando para o fim destas páginas juntos,
uma criatura
partindo lado a lado com o vazio.

Ultimidade
é claridade. É a claridade
reunida de tudo o que veio antes. Perdura.
E quando de facto acaba
não há nada, nada
fica,

na ferrugem de carros velhos,
no buraco aberto no corpo do Arqueiro,
na névoa de rios cheirando a fadiga das pedras,
os mortos deitam-se,
esvaziados, enchidos, no princípio,

e a primeira
voz vem de novo ansiando das suas bocas para fora.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 72-74.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Galway Kinnell - X. Ultimidade


1
As magras cataratas, atalhos
vagando do céu, batem
na ravina, saltam, e arrepiam-se.

Algures atrás de mim
um pequeno fogo permanece aceso à chuva, nas cinzas desoladoras.
Não interessa, agora, para quem foi feito,
mantém as suas chamas,
aquece
quem se atreve a caminhar até à sua radiância,
uma árvore, um animal, as pedras,

porque no mundo moribundo foi acendido.


2
Um urso negro senta-se sozinho
no crepúsculo, balançando a cabeça de um lado
para o outro, dando lentamente voltas e voltas
sobre si, esfregando o círculo
quadrúpede na terra. Ele cheira o suor
na brisa, ele concebe
uma criatura, uma criatura-mortífera
observa do limiar das árvores,
finalmente ele percebe
eu não estou mais aqui, ele próprio
do limiar das árvores observa
um urso negro
levantar-se, a comer algumas flores, afastando-se,
todo o seu pêlo cintilando
à chuva.

E que cintilar! Sancho Fergus,
meu rapazola, tinha uns belos ombros,
quando nasceu a sua cabeça
saiu primeiro, o resto ficou preso. E ele abriu
os seus olhos: a sua cabeça ali sozinha
no quarto, semicerrou os olhos com dor,
ao fim de nove meses mal tinha os olhos descolados
o sangue chapinhando debaixo dele
no chão. E quase
sorriu, pensei, quase perdoou tudo antecipadamente.

Quando todo ele saiu
tomei-o nos meus braços e dobrei-
o e cheirei
a penugem negra e cintilante
da sua cabeça, tal como o espaço vazio
deve-se ter dobrado
perante o planeta nascituro
e cheirou as pastagens e samambaias.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Houghton Mifflin Company, Boston & New York, 1971: 71-72

sábado, 23 de março de 2019

curta-metragem

para o meu pai

(voz off)

um rosto não abre a pedra a novas memórias
dever-te-ia ter dito antes que se te descessem
os cenários das mil e uma
noites da tua vida sobre nós

(fade in)

olhar de criança e um corpo que se arrasta
como uma rede farta de peixes a sufocar
boca aberta repetindo
o que já quase ninguém ouve
num mesmo sufoco essas histórias
batidas uma e outra vez à exaustão
                                                               sentou-se e este ouvido atravessou
a teu lado o teu rio

são também já quase meus os relatos
de tanto te escutar ocupam
parte do meu coração e num ouriço
para aqui vêm          por exemplo         de Angola
e a liberdade dos pés bola e calções
à prisão da flanela e da pedra quente
enrolada em jornal e trazida ao peito por Lisboa

viajo na tua odisseia enquanto filho
e sendo todos os fantasmas que te habitam saltando
de vida para vida e sou teu irmão
e algum amigo entretanto morto
e um companheiro de revelia
para de novo voltar o meu rosto
ao meu rosto num piscar de olhos

(slowly fade in to black)

um dia nenhuma máscara me servirá
qualquer filia apagar-se-á          o ecrã
encher-se-á de sombras brancas
a luz de luz como a noite
de noite           o que te direi serão ecos
a caminho de mais esquecimento

(fade out)

quarta-feira, 20 de março de 2019

Visões da Serra

4
que importância tem          redobra o olhar
é uma cadela num mundo-
cão

com menos de um ano mal conhecendo
o cheiro que exalava forçou-a
a natureza à ferocidade de uma matilha

os homens que anteriormente cuidavam
de si não se dignaram
a procurá-la de qualquer modo já o interesse
da novidade se tinha retirado dos olhos das crianças

quando nos vimos          a alta noite         só pele
e osso e medo da pedrada
ou pontapé-de-sai-daqui
vi a rainha de pêlo de ébano que é
esse porte que porta em minha companhia
perna cruzada a observar o animal que escreve
o quarto poema das visões que lhe dá

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Still Corners - The trip



Time has come to go
Pack your bags, hit the open road
Our hearts just won’t die

It’s the trip, keeps us alive

So many miles
So many miles
So many miles
Away
They’re following some dance of light
Tearing into the night
Watching you fall asleep
The sweetest dove in a dream
So many miles
So many miles
So many miles
Away

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

trazer a dor à luz

tantas mãos entre as minhas
fazem a cama de aranha

outras legam-me a pá
para          camada a camada          soterrar

a dor          sem livro ou morada          deus
caminha a sua solidão nas minhas unhas
gastas de esgaravatar a terra

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

visões da serra (iii)

3

A minha cultura não te arrebatou
por completo          o teu traço
abre ainda o olho à presa
e tomas-me na tua matilha
como eu a ti na minha morada

distraído não vi o ataque
fechei os olhos quando dei conta
da vida na tua mandíbula

como a um cego o quebrar dos ossos
narraram-me a tua violenta dança

agora calma caminhavas a meu lado
olhando por vezes para mim
com o esquilo pendendo
na tua boca          um olhar
que hoje traduzo e dizia

vi como esse súcubo te deixava
sentado com as suas melancólicas
mãos sobre os teus ombros
e na janela jazia o teu olhar de afogado
sabia o que tinha de fazer
convido-te
o jantar é por minha conta

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - O trilho por entre as pedras (fim)



5

E no entanto, não,
talvez não nada. Talvez
nem sempre nada. Em roupas
tecidas de cuspo azul
de cobras, rastejo: encontro-me vivo
nas espiraladas
arcadas das impressões digitais de todas as coisas,
o esqueleto a gemer,
fios de sangue lamentando o lamento de todas as coisas.


6

As árvores-testemunha saram
as suas cicatrizes no fogo de carne,
a chama
ergue-se dos ossos,
a fome
de se ser novo descola
a minha alma, uma estranha luz azul reluz
em todas as cristas do mundo. Algures
nas lendas dos sacrifícios de sangue
o destinado bezerro
toma a fogueira nos seus braços, e ele
queima-a.


7

Tanto em cima: as últimas estrelas espalhadas
ajoelham-se na forma celeste da idade do Aquário:
um salpico
no topo da cabeça,
na relva deste terra que até as estrelas amam, salpicos das águas sagradas...

Como em baixo: no cemitério
as lanternas acendem-se, uma para cada um de nós,
em todas as janelas
de pedra.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 67-68.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - O trilho por entre as pedras (cont.)


3

Saí de mim,
por entre as pedras do campo,
cada uma enviando a sua frescura-fantasma
às luzes das estrelas, para flutuar
por sobre as árvores, à procura de me unir
aos fogos sobrenaturais ascendendo e morrendo

no espaço – e recuando, sabendo
da tristeza do desejo
para descer
de volta ao brilho de um chão magoado,
as pedras amparando entre pasto e campo
o imenso núcleo de granito,
cintilando, mesmo elas, de antigos pressentimentos de loucura e guerra.


4

Um caminho abre-se
a meus pés. Desço
a passo de mula à luz da noite para a terra,
as pegadas atrás de mim
enchendo-se já de trilhos pré-sacrificiais
de canários, desço
para o aterro irrespirável
de tudo que alguma vez almejei e perdi.

Um velho, uma lamparina
de pedra na sua testa, de cócoras
junto às suas chamas infernais, agita
a sua caçarola
de cabeça de corvo
decepada, fios de luz branca,
cauda aberta de pavão, corpo
vestido de canário, peito de pisco
arrastado pelos enlameados campos de batalha, torcido
botão de flor caput mortuum – tudo
salga com areia
roubada das campânulas de cima de ampulhetas...

Nada.
Sempre nada. Sangue ordinário
a ferver no brilho da lamparina da testa.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 58-59.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - IX, O trilho por entre as pedras



1

No trilho sinuoso
a subir, a caminho do alto vale
das quedas-de-água e prados primaveris
submersos e partidos por cascos,
onde as raízes-de-peixe fervem
nos últimos graais de luz sobre a água,
e víboras salpicadas de ânsias de voar
panejam as pedras negras sibilam pês! pês! – terra
de penas
e tinteiros de caveiras cheios de águas negras –

chego a um campo
luzindo de mil peles escamadas
de pontas de flechas, pedras
que estremecem e saltam
para se doarem aos corações partidos
dos vivos,
que de retorno se dão, quebrados, às pedras.


2

Fecho os meus olhos:
nas praias onduladas pelo calor
onde as colinas descem aos mares,
a luminosa
poeira da praia triturada do funeral de conchas,
posso vê-las
a viver sem mim, morrendo
sem mim, as pedras
com a forma
de asa e ovo, partidas
cascas-de-guerra de conchas guerreiras mortas,
cascas de imortalidade de orelhas-de-cão
onde enormes constelações de limo, à lua cheia,
contorcem mais um
manto de invisibilidade num cisco de areal,

e as ágatas caídas
de círculos arranhadas até ao pó
com o clique
de um osso-de-desejo a quebrar-se, globos
que rodopiam para dentro e que nunca mais se abrirão biopsiados de pôres-de-sol,

e essa pedra abolachada
que saltou dez vezes sobre
a água, subitamente começando a correr à medida que se afundava,
e os zeros que deixou,
que se cruzaram
e passaram uns pelos outros, eles próprios
suavizando-se a partir da água...


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 65-66.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Agalloch - white ep

agalloch foram uma banda de heavy metal que incluíam várias influências nos seus álbuns, desde black metal, folk metal, doom metal, drone e post-rock. aqui, neste ep, encontro melodias à calexico e godspeed you! black emperor.




quarta-feira, 21 de novembro de 2018

visões da serra II

2
quando me encontrava
na funda cova de mim
escavaste um túnel
desde um buraco onde te estendias

à noite           a princípio           só
uma pata e uma mão
palma com palma se tocavam
para           palmo a palmo
       me ensinares a trepar
                                       para fora de um pensamento

a ti          cadela         meu sol negro
minha sombra canina
     devo mais que um poema

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

visões da serra

1
ela vai sempre adiante
abre o caminho a passo de desejo
e curiosidade          a cada volta
o mesmo é novo porque há
a miríade do outro

como se eu fôra cego
abriu-me os olhos ao rato
esquivo que joga às escondidas
a toupeira cega pequena Dédalo
cujas patas são mãos e dá
vontade de cumprimentar num aperto
afável         o esquilo onda de fogo
vermelho que abrasa a vista
o coelho medroso célere fodilhão
produtor de chocapic natural
que aprecia         o veado de nádegas brancas
em saltos elásticos como molas de
carne e pelugem à procura de deus
o javali que lhe enche o coração
e os sonhos de uma caça infinita

se a soltasse           por instantes
                   desta corda que a mim me prende
a ela          vê-la-ia de arpão em baleeiro batel
e para rimar chamar-me-ia Ismael

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

nada nunca é dito

poucas coisas são puras
no mundo          certos cristais
a vida           indefinida e impessoal
          para lá de toda a religião e ciência
e raros instantes
em que os dois            mergulhados
no que se diria a mais total porcaria
suor          saliva          fluidos sexuais
eliminando o atrito separatista da carne
                        se suspendem num aperto sufocante
os olhos dentro dos olhos
afirmando a absoluta presença
de um do outro
oh haecce haecce
és tu-és tu
e lágrimas escorrem pelos rostos
como por máscaras fúnebres
lentas gotas de cera de uma vela acesa
e nada nunca é dito para este
mútuo entendimento
o sentido não tem necessidade
deste poema          apenas a memória
como certeza da existência de ti
e de ti e da pureza da mais pura
mistura          que é o amor

Nils Frahm & Woodkid - Winter morning II (featuring Robert De Niro)