quinta-feira, 18 de agosto de 2011

fábula




assim como o tempo passa
amassei o solo escuro
por trás de muros compactos
escarnecido, culpado
em ausência permanente
nome corpo rosto e acto

ó instrumento imperfeito
aí à beira do mundo
noite e dia escavo e corto
só uma flauta, um caminho
a marca da minha mão

ao mundo imundo o seu fim
para não morrer no mar
que me demora o desembarque

do primeiro pesadelo?
eu estou onde não vês
do teu rosto contra o meu

*

o meu saber de coisas e de mundo
o tosco esboço só de uma armadilha

fui viajar, conhecer terras, gente; um
enganado por todos e ninguém:
e quem aqui não cabe não existe
como um verso vulgar, um tanto obsceno,
onde a luz cai como uma neve fina;

talhar a noite, sombra do teu corpo
sentado à mesa chã do esquecimento.
é na pele dos dias que deslizo.
que me desata a língua mal talhada;
de boca em boca um só nome, deixado
eu que traço destinos e fronteiras
um mundo azul e negro, onde navegam
constelações, figuras improváveis,

enfim me perco em ti, voz verdadeira.

*

sempre nos separavam as circunstâncias, e a essência
rilhava os dentes prontos, e aguçava a serra.
Era mais fácil beijar-te, por falta de palavras. Tão profundo
partir de noite, em barcos clandestinos, sem deixar recado.

Nunca te parecias, nem nunca aparecias
quando já tinha tido juízo e perdido juízo,
e a voz mudando nos deixava mudos.

Desde esse dia desde esse primeiro e completo dia
as marcas distintivas de um ser humano rosto, e depois
ser ouvido pelo ouvido humano da tua boca
os dias do futuro em que serei, talvez, imagem
que está na gota mínima de orvalho
ou talvez junto ao rio, no improvável jardim

rimas triviais; já não sei o nome
que és tu e o incêndio deste campo

*

sonhei que dormias, tu, no quarto da minha infância,
com a ponta dos dedos um ombro, vá-se lá imaginar.
chamamos a isto um «privilégio», um delicado

o corpo imaginado em que dormi.

Esta noite, outra noite
em cada pensamento, em cada gesto,
vivos e completos, serenos, mortais.


A partir de Uma fábula de António Franco Alexandre
2011

4 comentários:

T disse...

Bom ver-te de volta e em forma. Muito bom.

benjamim machado disse...

obrigado t., embora não saiba se continuarei a postar todos os dias ou com certa regularidade. não tenho tido grande vontade de escrever e a minha única e actual preocupação é a tese - o que não quer dizer que escreva nela todos os dias, infelizmente.

um grande abraço e, aviso-te já, muito em princípio talvez nos vejamos em évora dia 23 e 24 de setembro, no festival da s.h.e. nos celeiros.

T disse...

Gosto do "aviso-te já" como se fosse uma ameaça.

Cá vos esperamos =)

cristina disse...

pois eu também já tinha pensado em "avisar-te já"...! depois pensei "não... vou só dizer-lhe, mas o benjamim antecipou-se... até breve