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quinta-feira, 28 de setembro de 2023
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
O mal de Quixote - uma leitura em torno de "O homem que matou D.Quixote" de Terry Gilliam
Como muitos outros filmes de Terry Gilliam o realizador explora o fantástico da literatura, misturando-o com a realidade cinematográfica, ela própria uma ficção paralela à realidade exterior da película. Desta vez, a figura que Gilliam recupera é o cavaleiro do séc.xvii D. Quixote de la Mancha, personagem da obra-prima de Miguel de Cervantes. A linha sobre a qual Gilliam assenta a sua «narrativa» é a do jovem criador em luta consigo próprio enquanto busca a excitante extravagância da sua primeira obra, que lhe granjeia a fama. Toby é um jovem realizador considerado, pelo mundo cinematográfico e pela companhia que o rodeia, como um génio, com fama adquirida após ter rodado o seu primeiro filme, um projecto final universitário, intitulado "o Homem qu matou D. Quixote", criado uns dez anos antes da nova produção, justamente aquela que assistimos estar ele a criar enquanto espectadores. A nova criação não é senão uma recriação do romance "D. Quixote".
Dez anos separa as duas criações e, ao longo do filme que assistimos, podemos dar conta o que distancia o criador no seu carácter de um e outro Quixote: de um lado, o jovem realizador, sonhador, inventivo com o pouco que tem, atento aos acasos que o rodeiam, aventureiro; do outro lado, um realizador como que inflamado pela fama, cínico, afectado no seu comportamento, arrogante, desesperançado e vazio de ideias. Outrora rodeado de amigos, ligado pelo amor à arte cinematográfica, agora por aduladores e manipuladores guiados pelo dinheiro. O realizador está, podemos ver, em crise, descrente da sua visão, pressionado pelos investidores, encurralado, mas prossegue, estando já ele corrompido pelo seu caminho cínico. Uma luz surge, porém, que desperta nele a chama dos sonhos da juventude, quando, angustiado no seu vazio e asfixiado pelas pressões, o director da produtora do novo filme, uma recriação de D. Quixote, lhe sugere, por mero acaso, ou escrutínio dos deuses, que assista ao seu primeiro filme, ao seu primeiro Quixote. Oferece-lhe o DVD dessa versão comprando-o a um cigano que, ao longo da película que assistimos, intervém sempre em momentos cruciais - críticos no seu sentido etimológico, de decisão vital, de escolha - exactamente como o dessa reunião com os investidores e a equipa (NOTA: seria interessante questionar o papel desse cigano ao lado de outras personagens similares da obra de Gilliam, tal como o Diabo Tom Waits, o Anjo da Morte em Barão Münchausen, ente outros).
Não falarei da aventura que antecede o visionamento do DVD, um momento cómico entre vários desta comédia «filosófica», mas o que nos é sugerido quando Toby visiona o seu primeiro filme: ele é confrontado com a «inocência criativa», a inocência que é capaz de derrubar as convenções. Ele é tomado pela nostalgia e no dia seguinte da rodagem, num contratempo, vai de visita à aldeia onde foi filmado o seu primeiro projecto, em busca das personagens reais que viveram na sua película, Angélica/Dulcineia (num belo trabalho da actriz portuguesa Joana Ribeiro), Javier/Quixote, apenas para descobrir que a sua estadia dez anos atrás provocou um mal acerbo à pequena aldeia e seus habitantes, perdidos e estagnados no tempo do cenário - não na vida ou na dor que cada um carrega. Angélica, enlevada pelo sonho do cinema e pelas palavras sedutoras de Toby procurou a sua sorte em Madrid e Barcelona para, no fim, sem sorte nesse trilho, acabas nas mãos de um magnata do vodka, um russo caprichoso que a maltrata; Javier, um simples sapateiro, pacífico e oco de violência, que levava Toby ao desespero porque não «encarnava» o D. Quixote, afinal, crê-se ser o próprio, o verdadeiro D. Quixote nascido no ano de 1600 e incapaz de morrer, preso por um feitiço de Malandrino - o momento de encarnar a personagem é-nos oferecido como o instante em que Javier relembra a sua verdadeira vida, ele é D. Quixote, ele não está a representar; aqui temos um momento de reencarnação, ou metempsicose: Javier é a personagem que Quixote representa no século xx e tão bem que se esqueceu ser Quixote, ou tendo nascido no século xx e vivido enquanto Javier, a releitura das suas aventuras, o forçar da sua revivência provoca o desvanecimento da consciência-Javier para revelar a verdadeira essência-Quixote.
A possessão ou encarnação deu-se, aliás, durante a rodagem, vemos isso à medida que Toby relembra o passado. Toby encontra Javier/Quixote encerrado numa carruagem, como se fosse uma atracção de um circo de curiosidades - o «freak» da língua anglo-saxónica - libertando-o por acidente, provocando na sua fuga um incêndio na aldeia. Mais tarde, a Guardia Civil aparece no local das rodagens tendo como prisioneiro o cigano que lhe vendeu o DVD, falsamente acusado de roubo por Toby e a mulher do presidente da produtora, para se ilibarem do adultério que iriam realizar, impedido pela chegada imprevista do marido. Toby é levado prisioneiro como suspeito do incêndio e partilha o jipe com este «espírito aventureiro»; e eis quando a aventura finalmente começa.
D. Quixote intervém e salva o seu escudeiro Sancho Pança/Toby. É também aqui, quando Toby veste as roupas de Sancho Pança trazidas por D. Quixote, que a grande questão deste filme arranca. Toby acede a ser Snacho Pança; um Sancho Pança com os pés fixos na realidade e não na ilusão Quixotesca, mas o continuado confronto entre real/ilusão acaba por ceder e Toby principia a «ver» e a aceitar o modo de existência quixotesco. (NOTA: o confronto real/ilusão-ficção salta igualmente para fora da tela, desta vez entre realidade/ficção, ou realidade não-cinematográfica vs. realidade cinematográfica, quando Toby se encontra na tasca do pai de Angélica. Ambos falam em castelhano, porém de modo a facilitar o diálogo, ou o preguiçoso espectador, Toby arreda com a mão, literalmente, as legendas traduzindo o diálogo, dizendo «nós não precisamos disto para nos entendermos», ambos desencadenado o diálogo em inglês, como se, talvez na verdade, cada um falasse a sua língua e se entendessem, como é já corrente em certos filmes e séries em que as personagens falam e conversam nas suas línguas maternas e diferentes e se entendem, por exemplo, Ocean's Eleven com o chinês acrobata).
O filme termina, na verdade, com a morte de D.Quixote. Melhor dito, com a morte do homem que encarnava o «espírito», ou a «alma», ou a «consciência-Quixote», Javier. As suas últimas palavras, como uma confissão de um moribundo, afirmam a sua identidade anterior, um simples sapateiro «com um daqueles rostos capazes de vender apólices de seguro». Despede-se do espírito ficcional retornando à sua identidade real. Mas o espirito não se perdeu; Toby, que lentamente veio a ser infectado pelo «mal de Quixote» - expressão que pisca o olho a Vila-Matas - encarna Quixote. Num instante de desespero livre de todos os constrangimentos, o choque do real - a morte de D.Quixote, a afirmação de uma identidad real que ele já não queria aceitar acreditando já, plenamente, na ilusão-Quixote, enfim, o choque numa crença a que se doou todo o seu coração, falamos desse choque atroz - é a sua consciência que por fim cinde, colapsa. Levando o cadáver de Javier jazendo no dorso de Rocinante, Toby desaparece e é Quixote que renasce para cumprir a sua promessa e viver para sempre, acompanhado de Angélica que, por amor, compromete a sua identidade e devém Sacho Pança, dando um novo sentido à frase «este é o início de uma estranha relação».
Este novo filme de Terry Gilliam tem decerto muitas leituras/interpretações. O que o filme me deu a pensar, naquilo que tem de ensaio filosófico-cinematográfico em torno da identidade e da criação de uma obra de arte - questão que me acode, talvez, porque me perturba, me alicia - é a seguinte e resumidamente (os pontos não têm qualquer relação hierárquica):
1 - O nascimento e morte da ficção vem do real.
2 - A vida da ficção vem da força na sua crença, vivendo-a plenamente
3 - Após a iluminação, a efulgência da primeira criação, o criador vive assombrado, ou seja, à sombra dessa criação e incapaz da sobrepôr, perseguido por esse acontecimento.
4 - Seduzido peal efulgência, o criador trabalha com o intuito de produzir um brilho maior e que apague ou desvaneça a sombra que o angustia.
5 - A assombração remete o criador para a repetição. Ele repete diferentemente a primeira efulgência como recuperação e como forma de sobreposição.
6 - Estando assombrado, o criador é incapaz de viver fora da criação, ao ponto de se despedir do real e abraçar completa e plenamente a obra e a ficção (da obra).
7 - Como caindo num Mäelstrom, o criador arrasta tudo consigo, como que dizendo «se me amas vens comigo até ao fim».
Alguma coisa estará a faltar neste pensamento não amadurecido, mas foi isto que Terry Gilliam me deu a pensar. Toby recria, uma vez mais, D.Quixote após o sucesso do passado, porém, nada lhe satisfaz; Javier vive na ficção que o abraçou e ele a ela, num momento de enorme tensão, livrando-se da ficção quando o real, o mais duro real, a morte, choca e destrói a ficcção; pelo desejo de criar uma obra de arte que se sobreponha à sua obra-prima da junventude, Toby vai cedendo à força da obra, da ficção, substituindo o real pela ficção até ser possuído pela ficção; Angélia, que não queria cair, uma vez mais, enamorada de Toby, aos poucos e poucos cede, culminando a cedência mergulhando-se na espiral, no remoinho em que o próprio Toby caiu, encarnando Sancho Pança, para poder acompanhar e tomar conta do «louco» Quixote, tendo sido, assim, por amor, infectada, também ela, pelo «mal de Quixote». Um mal que me parece o próprio Terry Gilliam sofrer, sendo este filme, em certos aspectos, uma repetição diferente de obras anteriores, tal como o Dr.Parnassos, o Barão de Münchausen, Brazil, desta contínua mistura de ficção e real. D. Quixote cumpre a sua promessa de viver para sempre, não só nos pacientes do «mal de Quixote», como a cada vez que alguém lê ou relê as suas aventuras.
Não falarei da aventura que antecede o visionamento do DVD, um momento cómico entre vários desta comédia «filosófica», mas o que nos é sugerido quando Toby visiona o seu primeiro filme: ele é confrontado com a «inocência criativa», a inocência que é capaz de derrubar as convenções. Ele é tomado pela nostalgia e no dia seguinte da rodagem, num contratempo, vai de visita à aldeia onde foi filmado o seu primeiro projecto, em busca das personagens reais que viveram na sua película, Angélica/Dulcineia (num belo trabalho da actriz portuguesa Joana Ribeiro), Javier/Quixote, apenas para descobrir que a sua estadia dez anos atrás provocou um mal acerbo à pequena aldeia e seus habitantes, perdidos e estagnados no tempo do cenário - não na vida ou na dor que cada um carrega. Angélica, enlevada pelo sonho do cinema e pelas palavras sedutoras de Toby procurou a sua sorte em Madrid e Barcelona para, no fim, sem sorte nesse trilho, acabas nas mãos de um magnata do vodka, um russo caprichoso que a maltrata; Javier, um simples sapateiro, pacífico e oco de violência, que levava Toby ao desespero porque não «encarnava» o D. Quixote, afinal, crê-se ser o próprio, o verdadeiro D. Quixote nascido no ano de 1600 e incapaz de morrer, preso por um feitiço de Malandrino - o momento de encarnar a personagem é-nos oferecido como o instante em que Javier relembra a sua verdadeira vida, ele é D. Quixote, ele não está a representar; aqui temos um momento de reencarnação, ou metempsicose: Javier é a personagem que Quixote representa no século xx e tão bem que se esqueceu ser Quixote, ou tendo nascido no século xx e vivido enquanto Javier, a releitura das suas aventuras, o forçar da sua revivência provoca o desvanecimento da consciência-Javier para revelar a verdadeira essência-Quixote.
A possessão ou encarnação deu-se, aliás, durante a rodagem, vemos isso à medida que Toby relembra o passado. Toby encontra Javier/Quixote encerrado numa carruagem, como se fosse uma atracção de um circo de curiosidades - o «freak» da língua anglo-saxónica - libertando-o por acidente, provocando na sua fuga um incêndio na aldeia. Mais tarde, a Guardia Civil aparece no local das rodagens tendo como prisioneiro o cigano que lhe vendeu o DVD, falsamente acusado de roubo por Toby e a mulher do presidente da produtora, para se ilibarem do adultério que iriam realizar, impedido pela chegada imprevista do marido. Toby é levado prisioneiro como suspeito do incêndio e partilha o jipe com este «espírito aventureiro»; e eis quando a aventura finalmente começa.
D. Quixote intervém e salva o seu escudeiro Sancho Pança/Toby. É também aqui, quando Toby veste as roupas de Sancho Pança trazidas por D. Quixote, que a grande questão deste filme arranca. Toby acede a ser Snacho Pança; um Sancho Pança com os pés fixos na realidade e não na ilusão Quixotesca, mas o continuado confronto entre real/ilusão acaba por ceder e Toby principia a «ver» e a aceitar o modo de existência quixotesco. (NOTA: o confronto real/ilusão-ficção salta igualmente para fora da tela, desta vez entre realidade/ficção, ou realidade não-cinematográfica vs. realidade cinematográfica, quando Toby se encontra na tasca do pai de Angélica. Ambos falam em castelhano, porém de modo a facilitar o diálogo, ou o preguiçoso espectador, Toby arreda com a mão, literalmente, as legendas traduzindo o diálogo, dizendo «nós não precisamos disto para nos entendermos», ambos desencadenado o diálogo em inglês, como se, talvez na verdade, cada um falasse a sua língua e se entendessem, como é já corrente em certos filmes e séries em que as personagens falam e conversam nas suas línguas maternas e diferentes e se entendem, por exemplo, Ocean's Eleven com o chinês acrobata).
O filme termina, na verdade, com a morte de D.Quixote. Melhor dito, com a morte do homem que encarnava o «espírito», ou a «alma», ou a «consciência-Quixote», Javier. As suas últimas palavras, como uma confissão de um moribundo, afirmam a sua identidade anterior, um simples sapateiro «com um daqueles rostos capazes de vender apólices de seguro». Despede-se do espírito ficcional retornando à sua identidade real. Mas o espirito não se perdeu; Toby, que lentamente veio a ser infectado pelo «mal de Quixote» - expressão que pisca o olho a Vila-Matas - encarna Quixote. Num instante de desespero livre de todos os constrangimentos, o choque do real - a morte de D.Quixote, a afirmação de uma identidad real que ele já não queria aceitar acreditando já, plenamente, na ilusão-Quixote, enfim, o choque numa crença a que se doou todo o seu coração, falamos desse choque atroz - é a sua consciência que por fim cinde, colapsa. Levando o cadáver de Javier jazendo no dorso de Rocinante, Toby desaparece e é Quixote que renasce para cumprir a sua promessa e viver para sempre, acompanhado de Angélica que, por amor, compromete a sua identidade e devém Sacho Pança, dando um novo sentido à frase «este é o início de uma estranha relação».
Este novo filme de Terry Gilliam tem decerto muitas leituras/interpretações. O que o filme me deu a pensar, naquilo que tem de ensaio filosófico-cinematográfico em torno da identidade e da criação de uma obra de arte - questão que me acode, talvez, porque me perturba, me alicia - é a seguinte e resumidamente (os pontos não têm qualquer relação hierárquica):
1 - O nascimento e morte da ficção vem do real.
2 - A vida da ficção vem da força na sua crença, vivendo-a plenamente
3 - Após a iluminação, a efulgência da primeira criação, o criador vive assombrado, ou seja, à sombra dessa criação e incapaz da sobrepôr, perseguido por esse acontecimento.
4 - Seduzido peal efulgência, o criador trabalha com o intuito de produzir um brilho maior e que apague ou desvaneça a sombra que o angustia.
5 - A assombração remete o criador para a repetição. Ele repete diferentemente a primeira efulgência como recuperação e como forma de sobreposição.
6 - Estando assombrado, o criador é incapaz de viver fora da criação, ao ponto de se despedir do real e abraçar completa e plenamente a obra e a ficção (da obra).
7 - Como caindo num Mäelstrom, o criador arrasta tudo consigo, como que dizendo «se me amas vens comigo até ao fim».
Alguma coisa estará a faltar neste pensamento não amadurecido, mas foi isto que Terry Gilliam me deu a pensar. Toby recria, uma vez mais, D.Quixote após o sucesso do passado, porém, nada lhe satisfaz; Javier vive na ficção que o abraçou e ele a ela, num momento de enorme tensão, livrando-se da ficção quando o real, o mais duro real, a morte, choca e destrói a ficcção; pelo desejo de criar uma obra de arte que se sobreponha à sua obra-prima da junventude, Toby vai cedendo à força da obra, da ficção, substituindo o real pela ficção até ser possuído pela ficção; Angélia, que não queria cair, uma vez mais, enamorada de Toby, aos poucos e poucos cede, culminando a cedência mergulhando-se na espiral, no remoinho em que o próprio Toby caiu, encarnando Sancho Pança, para poder acompanhar e tomar conta do «louco» Quixote, tendo sido, assim, por amor, infectada, também ela, pelo «mal de Quixote». Um mal que me parece o próprio Terry Gilliam sofrer, sendo este filme, em certos aspectos, uma repetição diferente de obras anteriores, tal como o Dr.Parnassos, o Barão de Münchausen, Brazil, desta contínua mistura de ficção e real. D. Quixote cumpre a sua promessa de viver para sempre, não só nos pacientes do «mal de Quixote», como a cada vez que alguém lê ou relê as suas aventuras.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
jean genet - un chant d'amour
para quem não conhece o único filme realizado pelo poeta dos ladrões - espero não estar em erro em dizer o único filme de sua mão - e por causa da troca de comentários com a rita moura, aqui fica:
sábado, 28 de abril de 2012
mesmo por entre a chuva...
(esta veio pela mão do t para me animar. obrigado)
Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse.
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best...
And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...
If life seems jolly rotten
There's something you've forgotten
And that's to laugh and smile and dance and sing.
When you're feeling in the dumps
Don't be silly chumps
Just purse your lips and whistle - that's the thing.
And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...
For life is quite absurd
And death's the final word
You must always face the curtain with a bow.
Forget about your sin - give the audience a grin
Enjoy it - it's your last chance anyhow.
So always look on the bright side of death
Just before you draw your terminal breath
Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke, it's true.
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you.
And always look on the bright side of life...
Always look on the right side of life...
(Come on guys, cheer up!)
Always look on the bright side of life...
Always look on the bright side of life...
(Worse things happen at sea, you know.)
Always look on the bright side of life...
(I mean - what have you got to lose?)
(You know, you come from nothing - you're going back to nothing.
What have you lost? Nothing!)
Always look on the right side of life...
Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse.
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best...
And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...
If life seems jolly rotten
There's something you've forgotten
And that's to laugh and smile and dance and sing.
When you're feeling in the dumps
Don't be silly chumps
Just purse your lips and whistle - that's the thing.
And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...
For life is quite absurd
And death's the final word
You must always face the curtain with a bow.
Forget about your sin - give the audience a grin
Enjoy it - it's your last chance anyhow.
So always look on the bright side of death
Just before you draw your terminal breath
Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke, it's true.
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you.
And always look on the bright side of life...
Always look on the right side of life...
(Come on guys, cheer up!)
Always look on the bright side of life...
Always look on the bright side of life...
(Worse things happen at sea, you know.)
Always look on the bright side of life...
(I mean - what have you got to lose?)
(You know, you come from nothing - you're going back to nothing.
What have you lost? Nothing!)
Always look on the right side of life...
sexta-feira, 9 de março de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (fim)
O
Corpo inglorioso
Não nos enganemos, os zombies deverão ser incluídos no pensamento
em torno dos renascidos e é de acordo com o que acima foi exposto
que deveremos questionar a pertinência da sua figura. Vimos
anteriormente, com Agamben, o que se cumpre pensar e dizer sobre os
redivivos: não é uma «essência» que retorna ao seio de Deus,
antes um corpo elevado à sua máxima potência pela própria razão
de uma radical aderência à sua imagem, à sua species,
devindo assim um ser especial, um corpo glorioso. Este corpo,
que é a sua imagem, compõe-se pelas características da
impassibilidade, da agilidade, da subtileza e da claridade, bem como
uma inoperância das funções e dos órgãos, uma suspensão
ostensiva e ociosa das finalidades que revela, pois, a glória do
redivivo. Temos nele, então, nas palavras do filósofo italiano, um
arquétipo da natureza humana, um retorno do corpo adâmico não
corrompido ao Éden. Ora, os zombies romerianos estranhamento
partilham alguns destes elementos, conquanto se coloquem, talvez, no
outro extremo do espectro, ou se apresentem como a espelhada imagem
pervertida do corpo glorioso; chamemos-lhe, assim, de corpo
inglorioso, já que se o primeiro se diz incorrupto, se alia a
toda uma tradição teo-filosófica da espiritualidade e do Bem
Supremo, na qual a imagem forçosamente refere a «essência», o
segundo projecta-se num discurso político-filosófico materialista,
totalmente abandonado por Deus, só no mundo desesperançado dos
homens, na qual a imagem se prende à decadência do corpo material –
quase como se confrontássemos, directamente e de modo tangível, a
Leib e o Körper, o corpo vivo e o corpo morto, da
fenomenologia.
O corpo inglorioso é, certamente, impassível, despojado de paixões,
auto-regulado, auto-governado, conquanto não se guie por uma
qualquer alma racional, pois está desprovido desta, cumpre somente
as funções da alma vegetativa. Não é, porém, nem subtil, nem
ágil; como referimos, é bastamente lento, trôpego, desajeitado. Se
em tudo a subtileza e a agilidade indicavam a plena potência do
corpo como máximo limite, já os zombies na sua decadência
representam o limite mínimo prévio à total imobilidade, a rigidez,
a inflexibilidade própria de um corpo, ou de uma máquina se se
quiser, há muito tempo inactiva, inoperada, disfuncional. Contudo,
parecem igualmente partilhar a claritas, ou talvez melhor uma
obscuritas; são simultaneamente densos e transparentes,
desconcertam o olhar com a sua fulgência nefanda, como, outrossim,
foscam o reconhecimento, porque o corpo humano que se vê já não se
pode dizer e reconhecer como tal. E bem como os corpos gloriosos
prosseguem com os seus festins, na mais radical gula e ociosidade,
embora reconduzidos, no entender de Paffenroth, à personificação
dos pecados capitais1.
O seu corpo encontra-se, pois então, desglorificado, desgraciado,
despotenciado, de acordo com a directriz teológica: um corpo
inglorioso; e é-o pela simples razão de que aderiu totalmente à
sua imagem na sua forma mais torpe e decadente, a mais baixa
potência, tal como eles são entendidos por George Romero enquanto a
classe mais pobre dos monstros.
A sua inglória está patente na fixação e aderência à sua
imagem. Enquanto o corpo glorioso congela a beleza e perfeição
dos trinta anos crísticos, a par das capacidades corpóreas,
reconduzidos à inoperância e ao limite da potência, o zombie
permanece preso à perene imagem de decadência, de podridão,
do estado de decomposição do instante do seu renascimento, do seu
retorno, ou da sua morte. Mas eis que, de acordo com o que acima foi
exposto, ao que respeita a sua simbolização – símbolo da
corrupção da natureza humana, dos gestos baixos, dos pecados, da
maldade inerente ao homem, etc. – e à crítica romeriana da
sociedade norte-americana, o sentido da sua imagem associa-se
ao sentido apresentado pelo corpo glorioso. O zombie será, assim,
tal como o redivivo glorioso, um arquétipo; o arquétipo da natureza
humana no seu estado mais primitivo e selvagem, um corpo nada afeito
à téchné, no seu sentido mais lato, uma existência nada
cartesiana e rousseauísta, desprovidos de linguagem, de memória
(embora nas sequelas Romero desenvolve cada vez mais uma possível
evolução do zombie, conquistando a técnica, um pensamento
rudimentar e a linguagem). E é este ponto preciso que nos parece de
maior importância, pois o que, na verdade, diferencia o redivivo
glorioso do inglorioso afirma-se, justamente, no entre-dois que
separa duas posições filosóficas quanto ao homem. De um lado, o
teo-filosófico, espiritualista, encontramos a expressão de uma
esperança no homem fundada no conceito de «essência», que nos diz
não só que há uma essência unida ao divino – repetindo, por
exemplo, a idade do divino na terra – que conglomera as boas
qualidades do corpo e da alma, como aguarda, pelo seu retorno, a
afirmação de um bem inerente ao homem (porém, esta salvação é
uma falsa esperança pois só renasce o bem-aventurado, aquele que
passa inocentemente no tribunal, enquanto que no caso do zombie, no
retorno inglório, não há qualquer selecção, o reino é de todos
e para todos); do outro lado, materialista, político-filosófico,
caímos num olhar pessimista do homem, sem possibilidade de salvação,
que todos são corruptos ou corruptíveis e se essência há é a que
se vê no retrato de Dorian Gray, toda ela marcada pelas repetidas
quedas de Adão e volta, adere ao corpo renascido. Assim, pode-se
adiantar uma hipótese, a qual afere que, colocando lado a lado o
corpo glorioso e o corpo inglorioso, sabendo o que os aproxima e o
que os separa, Romero solicita uma reavaliação da humanidade
oferecendo à vista e ao pensamento o símbolo, ou metáfora, da
«essência» do homem se ele permanecer no seu trilho de
(auto-)destruição, ou seja, se ele não se transformar eticamente,
se o seu ethos, se o seu modo de existência não for revisto
de modo radical, não haverá salvação possível, nunca o homem
cumprirá a promessa, inscrita no seu corpo, de elevação a corpo
glorioso, mas retornará, uma e outra vez, em permanente queda até
ao mais baixo grau do seu corpo, deambulando numa terra devastada,
ociosamente, com o seu corpo inglorioso.
BIBLIOGRAFIA
AGAMBEN,
Giorgio
1993 A comunidade que vem, Lisboa, Editorial Presença, col.
Hipóteses Actuais.
2006 Profanações, Lisboa, Edições Cotovia, col. Ensaios.
2010 Nudez, Lisboa, Relógio d’Água Editores, col.
Filosofia.
2011 O Aberto, Lisboa, Edições 70, col. Biblioteca de
filosofia contemporânea.
DERRIDA,
Jean
2010 La Naissance du
corps, Paris, Galilée, col. La
philosophie en effet.
HERVEY, Ben
2008 Night of the
Living Dead, New York, Palgrave
Macmillan.
PAFFENROTH, Kim
2006 Gospel of the Living Dead. George Romero's Visions of Hell on
Earth, Texas, Baylor University Press.
WILLIAMS, Tony
2011 George A. Romero, interviews, Jackson, University Press of
Mississippi, (Tony Williams ed.).
ŽIŽEK, Slavoj
1992 Looking Awry. An
introduction to Jacques Lacan through Popular Culture,Massachusetts,
Massachusetts Institute of Technology, October Books (ed. Joan
Copjec, Rosalind Krauss and Annette Michelson).
1PAFFENROTH,
2006: 23, “Zombies are the nadir of gluttony, eating
whenever they can and as much as they can, (…). They are overcome
with uncontrollable rage (…) zombies are just likely to
lapse into complete sloth (…). More than any other movie
monster or mythological creature, zombies vividly show the state of
damnation, of human life without the divine gift of reason, and
without any hope of change or improvement”. Traduzimos e
sublinhamos: “Os zombies são o nadir da gula, comendo
quando podem e tanto quanto podem, (…). Eles são tomados por uma
raiva incontrolável (…) podem facilmente cair na mais
completa preguiça (…). Mais do que em qualquer outro filme
de monstros ou de criaturas mitológicas, os zombies apresentam
vividamente o estado de danação, de uma vida humana sem o dom
divino da razão, sem qualquer esperança de mudança ou
melhoramento”.
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (pt. 4)
O
negro da luz: considerações sobre o zombie.
Estes corpos tornam-se enigmáticos e inquietantes; e se perpetuam as
funções da vida vegetativa, se se alimentam, é somente por uma
“espécie de acto gratuito ou de snobismo sublime”1.
Será possível, agora, aproximarmos este corpo glorioso, que nada
mais será que “uma restauração do corpo edénico, arquétipo da
natureza humana não corrompida”2,
ao corpo do morto-vivo, do zombie? Será possível arriscar a
afirmação de que o zombie, embora não sendo glorioso, revela bem a
corrompida e, porventura, verdadeira imagem do homem?
Recomecemos, portanto e uma vez mais, por demonstrar resumidamente
como Romero destrói a micro-estrutura do horror com a recuperação
do zombie. A personagem não é nova, outros filmes houve em que o
monstro zombie já deambulava; mas, se anteriormente era tido por um
escravo às ordens de uma outra personagem – essa sim simbolizando
o mal, ou o Outro –, Romero lança-o para o ecrã como um Prometeu
desagrilhoado, vingativo, desafecto de desejo e movido por uma única
pulsão, tragar a vida, abismá-la na sua morte-viva. Na verdade nem
monstros são, não pertencem a qualquer uma das classes, a
teratológica ou fabulosa; porém, tomando-os como tal, encontram-se
no mais baixo grau, a classe baixa, pobre, longe da nobreza e do
romantismo (no sentido mais popular e lacrimal do termo) dos
vampiros, dos lobisomens, dos criados experimentalmente, como o
Frankenstein, por exemplo, conquanto partilhem alguns traços, tal
como o contágio vampiresco, embora isento de paixão ou erotismo do
beijo canino. São seres brutos, mancos de inteligência, de
movimento, agilidade, isentos de qualquer poder sobrenatural ou traço
de humanidade, à excepção da sua imagem, ou melhor, exactamente
por serem demasiado humanos são mais aterradores que qualquer outro.
A sua morte, também ela, exclui-se de qualquer magia, truque, gesto
sobrenatural; bem pelo contrário, é violenta, guiada talvez pelo
nojo, pelo ódio, a desrazão. O par que daqui decorre, a morte por
eles cometida – o canibalismo – e a morte a eles infligida, tem
certa implicação moral, de acordo com a leitura de Paffenroth. Por
um lado, diz-nos o intérprete, “haverá” para o canibalismo do
zombie “um pormenor simbólico sobre a natureza humana” de certa
ambiguidade:
“ou os humanos somente são irónica e
auto-destrutivamente violentos uns para os outros e de todo em
relação a outros animais, praticamente em contraposição às
outras espécies 'naturais', cuja violência assassina é geralmente
reprimida quanto aos membros da sua própria espécie, enquanto a
violência humana deflagra virulentamente em torno de outros humanos;
ou os humanos são tão violentos que a sua violência se derrama
indiscriminadamente sobre todas as espécies, mesmo se a sua louca
preferência seja devorar outros humanos”3
enquanto, por outro lado, o modo pelo qual o zombie tem de ser morto
potencia o comum gesto da «natureza» humana – matar o seu
estranho/estrangeiro próximo –, pela própria razão da sua
semelhança, da sua mesmidade, por assim dizer, pelo que a luta pela
sobrevivência da vida humana passa, obrigatoriamente, pelo
cancelamento da razão e da humanidade do homem, ou seja e ainda
seguindo Paffenroth, “a perturbante implicação de que mesmo que
sejamos conscientes e os zombies não o são, a nossa consciência
pouco faz para nos tornar 'melhores', mesmo se nos torne
epistemicamente diferentes ou mais complexos”4.
No seu geral, o zombie, proposto por Romero, é um exagero do ser
humano, um retorno de uma forma-homem no seu estado mais selvagem e
primitiva, desumanizada, desarrazoada, incontrolável, violenta,
capaz, mesmo antes do contágio e à distância, de revelar, o mais
das vezes, o pior do ser humano; será, assim bem, uma imagem
perversa do homem. E para terminar a infecção romeriana, há que
referir que o zombie não é o Outro como tal, o Outro perturbador da
ordem que o monstro recorrentemente tomava o lugar no terror. É
certo que ainda aqui o zombie viola a «ordem natural das coisas»,
particularmente no aspecto de negar ao vivo qualquer trabalho de luto
– se um dos seus familiares é mordido ou morto por um morto-vivo,
por questão de sobrevivência; ou por ser um morto andando no espaço
dos vivos, ou mesmo por não poder, ao contrário de todos os outros
organismo vivos, se reproduzir; porém, parece Romero afirmar,
segundo a ideia original da sua alegoria, que o Outro, afinal, não
vem de fora, encontra-se presente mesmo antes do nascimento de
qualquer morto-vivo, o Outro perturbador é a normalidade instalada,
o sistema, o Establishment, toda a estrutura sob a qual
assenta a sociedade humana, o american way of life.
Perguntemo-nos, como Slavoj Žižek, porque voltam os mortos? Eles
retornam não para desordenar o natural, pelo contrário, voltam
porque já um dos processos de ordenação do natural foi perturbado;
o seu regresso, afirma o filósofo apoiando-se em Lacan, “é um
signo de uma perturbação no ritual simbólico [o enterro, o luto],
no processo de simbolização ; os mortos voltam como cobradores de
uma qualquer dívida simbólica por pagar. (…) materializa uma
certa dívida simbólica que persiste para lá da expiração
física”5.
Razão pela qual o zombie pode tomar lugar na questão política
criticada por Romero: o morto-vivo não é, de todo, a maioria
silenciosa que apoiou Nixon – essa é ainda a velha sociedade –
mas a personificação de uma massa revolucionária radical que vem
cobrar a promessa não cumprida de liberdade, os corpos de uma
revolução macabra (explorada ainda mais em Land of the Dead),
cujo propósito parece ser nada mais que o fim do rosto humano como
até então se conheceu – se os mortos-vivos, tal como têm sido
apresentados por Romero e outros realizadores, alguma vez
conseguissem cumprir a sua promessa revolucionária, teríamos um
estranho mundo de deambulantes corpos mergulhados, ou suspensos, num
eterno ócio.
1Ibid.
22011:
32.
3PAFFENROTH,
2006: 6. Traduzimos: “(...) there may be a symbolic point about
human nature (…): either humans are ironically and
self-destructively only violent to one another and not towards other
animals, in contradistinction to praticcally every other 'natural'
species, whose murderous violence is usually curbed around members
of their own kind, while human violence flares up most virulently
around other humans; or humans are so violent that their violence
indiscriminately spills over onto all species, even if their mad
preference is to devour other humans”. Nesta ambiguidade o autor
explora, também, um dos motivos do zombie nunca atacar outros
animais ou membros da sua legião, ao contrário, obviamente, do
homem, elucidando, pois, que o canibalismo funciona bem como símbolo
da própria crueldade humana contra si própria, mais do que a
estrita forma do zombie matar.
4Ibid.:
11. Traduzimos: “(...) the disturbing implication that even if we
are conscious and the zombies are not, our consciousness does little
to make us 'better', even if it makes us epistemically different or
more complex”.
5ŽIŽEK,
1992: 23. Traduzimos: “(...) is a sign of a disturbance in the
symbolic rite, in the process of symbolization; the dead return as
collectors of some unpaid symbolic debt. (…) materializes a
certain symbolic debt persisting beyond physical expiration”.
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (pt.3)
A
luz do Corpo glorioso.
Nos seus últimos livros editados em Portugal1,
o filósofo italiano, Giorgio Agamben, tem dado conta, quer
isoladamente, quer no seio de uma deambulação teórica das suas
investigações, do problema dos redivivos posto à prova nas
questões teológicas e ontológicas do homem. Por outras palavras,
Agamben questiona as dificuldades dos teólogos que se repercutem na
teoria do Corpo Glorioso, do renascido, por um lado e, por
outro, no que respeita a fronteira entre o animal e o homem.
Abordemos o primeiro conceito, o qual nos dará pistas para a leitura
do filme Night of the Living Dead do cineasta norte-americano
George Romero.
Embora o tema do corpo glorioso esteja intimamente ligado à
teologia, à escatologia, ao fine ultimo e à ressurreição,
Agamben chama-nos a atenção de que o assunto, conquanto “congelado”
desde a entrada na modernidade, releva uma enorme importância para
se pensar o “estatuto ético e político da vida corpórea (o corpo
dos ressurrectos é numérica e materialmente o mesmo que tinham
durante a sua existência eterna)” e o mesmo se presta para pensar
“as figuras e os usos possíveis do corpo humano enquanto tal”
2.
(Há que referir que o conceito de ressurreição, aqui, no seio da
teologia cristã, é bastante diferente do que se expressa, por
exemplo, no “mito de Er” apresentado por Platão na República
e repensado pelos neo-platónicos. A esse respeito e de modo a dar a
entender a diferença com a metempsicose pitagórica, Jean
Derrida sugere o termo plotiniano de metensomatose
(métensomatose), ou seja e à letra “troca de corpo” e
não de alma. Todavia, esta “troca de corpo”, ao contrário da
metempsicose (e da ressurreição) e indo para lá da própria
questão de uma simples passagem através dos corpos (do mais simples
ao mais complexo), conjuga-se com uma ideia de “comunidade
radical do humano e dos outros seres vivos”3
assente no que Plotino nomeia de “própria vida” ou “vida
mesma” (autozôè), que, como alma, se vê intimamente
ligada e separada quer do corpo, quer do Um e do Bem. Não existe,
neste entendimento da alma, qualquer atributo próprio ao humano4,
podendo ela no seu ressurrecto movimento ser tomada por um corpo
qualquer a partir do próprio desejo do corpo em se animar)5.
Afirma Agamben, logo de seguida, que o primeiro problema colocado ao
teólogo que enfrenta o corpo glorioso – diremos mesmo a qualquer
um que busque meditar sobre esta questão – é o da identidade.
Haveria de acordo com esse discurso, o de Tomás de Aquino, uma idade
ideal (cerca de trinta anos) e o corpo se manteria sem defeitos
naturais, num “equilíbrio invariável entre o crescimento e a
decadência”6
e conservadas as suas diferenças particulares e distintas, mesmo as
sexuais. Mas todo esse discurso do equilíbrio e da indiferenciação
se reporta à vida paradisíaca, do Éden reencontrado; outro
problema relativo à identidade se descobre em relação à
materialidade vivida na Terra, porque o ressurrecto redivive um corpo
terráqueo, aquele que terá sido o seu. A questão não fica
totalmente respondida pela pena aquinina7;
certo é que Agamben se apoiará em Orígenes cuja solução parece
mais “elegante e menos confusa”8.
Segundo o filósofo alexandrino o que permanece é um outro corpo,
uma imagem (eidos)9
ou figura desse corpo, uma duração imperturbavelmente idêntica
alheia às mudanças e transformações materiais. Ora, não de todo
imutável pois que no mundo por vir o corpo seria “melhor e mais
glorioso”10.
O que salta à vista, aqui, será um problema que diz respeito à
essência, uma vez que havendo decadência, alteração da
matéria, necessário é que alguma coisa perdure no devir. Cremos
que há, neste recurso a Orígenes e à imagem, uma incorrecção no
uso que Agamben realiza. Embora a imagem se busque como o que perdura
de um corpo, essa duração encontra-se sujeita às melhorias do
Paraíso, não dura, portanto; e assim sendo, como pode a imagem
proporcionar a “semelhança do corpo consigo próprio”, de acordo
com o filósofo italiano, se não afirmarmos que mesmo a
materialidade em toda a sua decadência, ou o corpo material, não
seja já gloriosa? E é ainda forçoso perguntar, que imagem é essa
que é vista e por quem, quem é que olha e determina a imagem a
perdurar? Poderemos alguma vez reconhecer a nossa imagem, será o
nosso eidos o conjunto das nossas qualidades envolvida por uma
forma? Ou será antes um decalque, um somatório de todas as imagens
que os outros projectam, colam ao nosso corpo? Ou todos verão,
então, a mesma imagem? E quando um cego toca no corpo, no rosto,
para vê-lo, toca no corpo, no rosto, na imagem? Cremos mesmo que
exposição agambeneana da imagem em Profanações, no
capítulo O ser especial11,
também ela em parte sustentada na teoria de Orígenes, choca em
certos pontos com a do corpo glorioso, ao qual voltaremos já de
seguida.
A imagem, estando no sujeito, é de natureza insubstancial e traz
consigo duas características: 1) não possui uma realidade contínua
mas decorre antes de uma geração contínua e a cada instante, é
ser de geração, ser de criação e descriação instantânea
(servindo-se Agamben, para ilustrar, da “imagem poética” dos
anjos no Talmude que “cantam os louvores de Deus e, de repente,
mergulham no nada”12);
e 2) não é determinável como quantidade, a imagem não é
“propriamente uma forma ou uma imagem mas, antes, a «espécie de
uma imagem ou de uma forma» (species imaginis et formae) ”13,
ou seja, a imagem não é, nem pode ser, mensurável, mas somente
dita como espécie de, ou modo de ser, “nunca é coisa, mas, sempre
e apenas, uma «espécie de coisa» ”14.
Já aqui nos deparamos com uma chocante diferença no que concerne a
não permanência, ou a não durabilidade da imagem, uma vez que ela
se cria a cada instante. A imagem não permanece, mas bem acompanha
as transformações corpóreas, a imagem acompanha o corpo, a imagem
decai com o corpo a cada instante. Na fantástica deambulação
etimológica – que sempre, pessoalmente, nos surpreende e ensina,
sendo para nós de um imenso prazer – da rede ligada a species
deparamo-nos com uma tautologia, já que serve para traduzir o eidos
grego. Assim a imagem – que nunca é uma imagem mas sempre e apenas
uma espécie de coisa – é uma imagem, uma imagem de uma imagem de
coisa – não sairemos de um certo platonismo e dessa triangulação
entre a Ideia, a Cópia e o Simulacro. Todavia, dessa repetição,
sobressai o sintagma ser especial que reaproxima a imagem ao
corpo glorioso. O ser especial, como a imagem, é insubstancial, sem
lugar próprio mas dando-se no sujeito; e especial “é o ser cuja
essência coincide com o seu dar-se a ver, com a sua espécie [a sua
imagem]”15,
ou seja, o ser especial, como o corpo glorioso, é aquele que
coincide com a sua visibilidade, com a imagem que se revela a cada
vez. Se a imagem está no sujeito como um “habitus ou um
modo de estar, como a imagem está no espelho”16
– e dever-se-ia adir um modo de ser, tendo em conta essa enorme
característica contemporânea de cada sujeito produzir uma imagem
idêntica à sua “essência”, à sua “subjectividade”, que dê
a ver a sua única, singular, individual pessoa, passível de ser
reconhecida por todos, como se todo o processo de revelação da
imagem se invertesse, não sendo já a sua espécie que se
revela, que vai aflorando e habitando o seu corpo como um fantasma, a
tal que seria glorificada no Paraíso, mas, pelo contrário, uma que
se impõe de fora para “dentro”, dada como a “verdadeira” –
o que o mesmo espelho revela é a não pertença da imagem, da imago,
a nós, abre-se um intervalo reconhecido, pelos poetas medievais e
reafirmado por Agamben, como amor.
A imagem ou a espécie seguirá outro caminho nas mãos do filósofo
italiano, na esteira ainda dos medievais. Espécie significa também
intenção (intentio), uma tensão interna (intus tensio)
que força a imagem a comunicar-se. Há assim na imagem uma força
que a impele a comunicar-se, forçando igualmente cada ser à criação
de imagens. Mas o que quer a imagem, ou o que há na imagem, o que
entra em jogo colidindo entre si de modo a ser uma tensão? Agamben
explica:
Neste sentido, a espécie não é senão a tensão, o
amor com que cada um se deseja a si mesmo, com que deseja perseverar
no próprio ser, comunicar-se a si próprio. Na imagem, ser e
desejar, existência e tentativa coincidem perfeitamente. Amar um
outro ser significa: desejar a sua espécie, isto é, o desejo com
que esse outro deseja perseverar no seu ser. O ser especial é, neste
sentido, o ser comum ou genérico
e isto é algo semelhante à imagem ou ao rosto da humanidade.17
É importante reter aqui o sentido do especial como comum ou
genérico, porque vai ao encontro da problemática da identidade,
desestabilizando-a. O ser especial, como comum ou genérico, diz-se
um ser qualquer (esse que habita nas páginas da Comunidade
que vem18,
o qual é preciso questionar se não fornecerá esclarecimentos
quanto ao devir-imperceptível deleuzo-guattariano) alheio às suas
qualidades, sendo todas, mas com nenhuma se identificando, sem a elas
aderir pessoalmente. A tensão interna aumenta embatendo na tensão
que do exterior se faz. O especial não é pessoal mas pode e deve
fixar-se numa substância para constituir uma identidade,
forçosamente devém pessoa, persona, máscara, por pressões
já não internas, mas bem externas:
O especial deve, pois, ser reduzido ao pessoal e este ao
substancial. A transformação da espécie num princípio de
identidade e classificação é o pecado original da nossa cultura, o
seu dispositivo mais implacável. Personaliza-se qualquer coisa – o
que se refere a uma identidade – na condição de sacrificar a sua
especialidade. Especial é, de facto, um ser, – um rosto, um gesto,
um acontecimento – que, não se assemelhando a algum,
se assemelha a todos
os outros.19
O ser especial é, ou será, pois, uma impessoalidade que de fora se
personaliza, tal qual a promessa messiânica que se inscreve, pelo
desejo dos outros, no recém-nascido. De acordo com Agamben, ele não
é nem comum nem poderá ser objecto de propriedade e, todavia,
fazendo-se pessoa, dá-se como e ao ciúme e à propriedade,
transforma-se em espectáculo (spectaculum) – aqui,
julgamos, sujeito à crítica debordiana. O ser especial, por outro
lado, terá uma expressão ligeiramente diferente se o aproximarmos
do corpo glorioso, em especial dando atenção às quatro
características tratadas por Agamben.
(Haverá, então, um caminho a ser feito por cada um, um trabalho, um
“cuidar de si” até ser “ser especial”, começando, cremos
nós, por um trabalho do Corpo. Um trabalho, não no sentido de
produção de imagem motivada pelas tensões exteriores, como cedendo
às modas de “subjectivação”, mas um outro centrado no Corpo e
que se encontra num entre-dois. O que esse trabalho implica,
através do recurso a um uso diverso do Corpo, é um esbatimento da
profundidade, ou melhor, um desvanecimento das diferenças,
levando-nos a esclarecer a afirmação de que todos os corpos são
corpos gloriosos e não somente os redivivos, os ressurrectos.)
Um corpo glorificado distingue-se pelo seguinte: “impassibilidade,
agilidade, subtileza, claridade”20.
A primeira característica refere-se a um domínio do corpo, a um
reconhecimento das tensões e a um modo de com elas lidar, não se
deixando submeter a influências, às paixões, tornando-se capaz de
gerir, governar-se21.
A subtileza, por outro lado, é essa “espécie de rarefacção
extrema” que torna o corpo “semelhante ao ar e ao vento, e
portanto penetráveis por outros corpos. Ou tão impalpáveis que se
tornarão indiscerníveis de um sopro ou de um espírito”22,
identifica-se com a fluidez, essa capacidade de adaptação às
forças, aos ritmos, aos meios, aos objectos, aos corpos em jogo. O
conceito de fluidez conjuga-se igualmente com o de agilidade
dos corpos gloriosos. O Corpo na sua plena potência, aberto a todas
as potências de que um Corpo é capaz. O próprio Agamben não se
escusa de exemplificar com o bailarino23.
A agilidade como plena potência do Corpo será um dos limites
do corpo. E, por fim, a claridade (claritas) que,
segundo Agamben, entende-se de dois modos: uma “densidade”, uma
refulgência aurífica, uma opacidade desconcertante que atrai o
olhar; e uma “transparência” cristalina, um desvanecimento como
se o olhar atravessasse o corpo, já não o pudesse reconhecer,
vendo-o sem o ver. O que estas características pretendem sublinhar,
na verdade, é uma perdurabilidade de um corpo semelhante ao terreno,
conquanto potenciado. Mas sendo semelhante, mesmo nas suas funções
vitais e fisiológicas, como afinal se processam?
Os redivivos comem e bebem, respiram, suam, mictam, defecam, mantêm
os seus órgãos, coração, estômago, pulmões, intestinos, sexo? E
se já não haverá reprodução, nem necessidade de se alimentar,
porque os teólogos sustêm a sua permanência? Se, por um lado, os
órgãos permanecem no corpo renascido por mera importação orgânica
da imagem terrena, por assim dizer, já os cabelos e as unhas
concernem estritamente à ideia da imagem gloriosa, a qual, como já
vimos, se congela aos trinta anos, pelo que tudo perdurará pela
eternidade inalterado. Os humores mais escatológicos, o suor, a
urina, as fezes, mesmo o leite materno e o esperma, tudo isso se
encontra ausente no renascimento e estranhos à perfeição do corpo.
Já os humores descritos por Galeno, o sangue, a bílis negra e
amarela, uma vez que já na terra se reportavam à perfeição
possível, terão no redivivo o seu lugar. Ora, o que Agamben realça,
através de Tomás de Aquino, é a diferença que se instala na
própria função dos órgãos, a sua pura inoperância, que se
tornará uma função de ostensiva suspensão. Toda a operação dos
órgãos paira na pura ociosidade, na sua completa mostração e
somente nela, mostração da sua potência.
Portanto, corpo glorioso “é um corpo ostensivo, cujas funções
não são executadas, mas mostradas; a glória é, neste sentido,
solidária da ociosidade”24.
Esta ostensão e ociosidade propõem um diferente uso do corpo.
Parece quase uma generalidade considerar-se qualquer trabalho sobre o
corpo isolado de um fim e de um quadro cultural, seja ele religioso,
desportista ou artístico, uma ociosidade, um prazer evitável, um
valor improdutivo, puro dispêndio de energia Porém, a glorificação
do corpo promove um novo uso possível deste, um gesto de suspensão
e aliança:
Um novo uso do corpo só é por isso possível se se
arrancar a função ociosa à sua separação, e só se se lograr
fazer coincidir num único lugar e num único gesto o exercício e a
ociosidade, o corpo económico e o corpo glorioso, a função e a sua
suspensão. A função fisiológica, a ociosidade e o novo uso
insistem no campo de tensão único do corpo e não se deixam separar
dele. Porque a ociosidade não é inerte, mas, no acto, faz aparecer
a mesma potência que nele se manifestou. Na ociosidade, não é a
potência que é desactivada, mas somente os propósitos e as
modalidades nos quais o seu exercício fora inscrito e separado. E é
esta potência que se torna o órgão de um novo uso possível – o
órgão de um corpo cuja organicidade se tornou ociosa e foi
suspensa.25
1Falamos,
especificamente aqui, de Nudez (2010) e de O Aberto
(2011).
22010:
107.
3DERRIDA,
2010: 62. Sublinhamos.
4Ibid.:
61-62. “A possibilidade de uma alma humana passar no corpo de um
ser vivo não humano não se vem adicionar como um atributo
suplementar a uma alma humana cuja ideia já tenha sido afirmada; a
alma surge pelo contrário nessa possibilidade, a partir do que nela
precede e excede a humanidade. Tal como a indeterminação que
precede a escolha de uma vida, no mito, é também a possibilidade
de tornar-se humana, é nela que a humanidade é como que antecipada
e projectada; e é à vez a não-humanidade e a humanidade os ganhos
da metensomatose”. (La
possibilité pour l'âme d'un humain de passer dans le corps d'un
vivant non humain ne vient pas s'ajouter comme un attribut
supplémentaire à une âme humaine dont l'idée aurait déjà été
posée, l'âme se pose au contraire dans cette possibilité, à
partir de ce qui en elle-même précède le choix d'une vie, dans le
mythe, est aussi la possibilité de devenir humain, c'est en elle
que l'humanité est comme anticipé et projetée; et c'est à la
fois la non-humanité et l'humanité qui sont l'enjeu de la
métensomatose.). Traduzimos.
5Ibid.:
25-26. “A alma é infalível pelo que, nela, se assemelha
ao um. É nisso – no
que é imóvel – que o corpo deseja tomar parte no
processo de animação. A vida corporal sob todos os seus aspectos,
dos mais elementares (a vida vegetativa) aos mais complicados (a
percepção ou a memória), é a forma que toma um desejo implicado
no desejo do um pelo qual a alma se ergue. Isso impede de afirmar
que a alma está no corpo sem afirmar primeiro o contrário: é o
corpo que está na alma e a alma não entra nele, mas antes ele
nela” (L’âme est infaillible par ce qui,
en elle, ressemble à l’un. C’est
à cela – à ce qui est immobile – que le corps désire prendre
part dans le procès de l’animation. La vie corporelle sous tous
ses aspects, des plus élémentaires (la vie végétative) aux plus
compliqués (la perception ou la mémoire), est la forme que prend
un désir impliqué dans le désir de l’un par lequel l’âme se
pose elle-même. Ceci empêche d’affirmer que l’âme est dans le
corps sans affirmer d’abord le contraire: c’est le corps qui est
dans l’âme et l’âme n’entre pas en lui, mais surtout lui en
elle). Traduzimos.
6AGAMBEN,
2010: 108.
7Vd.
ibid.: 108-109.
8Ibid.:
109.
9É
de referir que Agamben se serve deste argumento para apontar como
“[a] fotografia é, neste sentido, uma profecia do corpo
glorioso”, 2006: 37.
10Orígenes
cit. in. ibid.
112006:
75-82.
12Ibid.:
77.
13Ibid.:
78.
14Ibid.
15Ibid.
16Ibid.
17Ibid.:
79-80. Sublinhamos.
18AGAMBEN,
1993.
19AGAMBEN,
2006: 81-82. Sublinhado do autor.
20Id.,
2010: 110.
21Ibid.
“Significa antes que o corpo não estará sujeito a essas paixões
desordenadas que, pelo contrário, o despojariam da sua perfeição.
O corpo glorioso estará, com efeito, submetido em todas as suas
partes ao domínio da alma racional, por sua vez perfeitamente
submetida à vontade divina”.
22Ibid.:
111.
23Ibid.:
112. “Como bailarinos, que se deslocam no espaço sem propósito
nem necessidade, os bem-aventurados movem-se nos céus somente a fim
de exibirem a sua agilidade”.
24AGAMBEN,
2010: 115.
25Ibid.:
118-119.
O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (pt.2)
A
noite revoltada: o mal está no coração do homem.
Comecemos pela micro-estrutura, a qual alimenta, de certa forma, a
macro. Um dos seus signos de corte com o passado com Hollywood
apresenta-se pela introdução de uma certa ironia e humor negro que
provêm da forte influência de uma banda desenhada popular nos anos
50, a Tales from the Crypt da DC comics, de onde Romero
recolheu “muitos dos mesmos ingredientes para os seus jovens
espectadores: gore, cinismo, ironia, wit, relevância”1,
disseminada ao longo do filme e maioritariamente concentrada na
figura do zombie – embora o primeiro sinal de recusa surja ainda
nos primeiros minutos do filme, quando John, o irmão da suposta
heroína Barbara, mimetiza comicamente o Frankenstein de Boris
Karloff, enquanto ridiculariza as crenças religiosas da irmã,
acabando por ser morto por um morto-vivo. Igualmente de relevar a
exploração da lógica do pesadelo, presente na fuga de Barbara do
primeiro zombie – uma fuga do perigo infinita, impossível,
estranha, já que o sujeito corre desenfreadamente, a uma velocidade
estonteante, enquanto o seu opositor no seu andar lento e
desajeitado, francamente incapaz de alguma vez alcançar o fugitivo,
mantém a distância, ou
incrivelmente chega a tocar a quem quer mal – ou os recorrentes
paradoxos temporais e climáticos – ora estamos na Primavera como,
logo a seguir, é Outono, ou, mais flagrantemente, dia na entrevista
em directo na televisão e, pela janela, o breu da noite. Não nos
podemos esquecer dos heróis, tão importantes para o género. Ben é
negro, franco, directo, protector, razoável, forte, tem todas as
qualidades para a sua elevação a herói, porém, nem tem a
possibilidade de criar uma relação amorosa com a protagonista, nem
as suas acções e intenções são completamente “puras”, nem a
sua heroicidade o isenta do fatal fim, o da sua morte, que a todos,
sem excepção, cabe (veremos mais à frente estes dois pontos mais
pormenorizadamente); também à figura feminina passível de se
tornar heroína lhe é cortada cerce a passagem, primeiro é
acometida pela histeria, de seguida uma crescente catatonia, até
que, quando desperta, pronta a vestir o seu papel de heroína tão
esperado pelo espectador, é ironicamente morta pelo seu próprio
irmão. Ora, como antes dissemos, a família e o amor igualmente são
desvirtuados. Não se trata somente da morte de Barbara pelas mãos
do seu morto irmão, mas também a implosão do núcleo Cooper pela
boca do único rebento, Karen, comendo Pai e Mãe, completa inversão
da imagem de Saturno. Se a família implode, se auto-fagia, também o
amor segue a par. O jovem casal de corajosos enamorados, devotos um
ao outro, morre acidentalmente precisamente pelo que os unia, a
(e)terna devoção. Concomitante com estas falências encontra-se
também a criminalização e a fraqueza das forças de poder, do
Estado, do exército, da polícia (não tão cabal em Night of the
Living Dead como nos filmes seguintes;
contudo, neste filme, apoiada pela população, formando um
heteróclito pelotão composto somente de homens brancos, ponto a
que voltaremos mais adiante), ou da ciência, incapaz de
responder ao flagelo nacional – há que sublinhar que mais do que
uma crítica ao mundo, Romero pretende afectar a América. Portanto,
família, amor, devoção, o papel do herói, as forças
normalizadoras, tudo aquilo que competia a Hollywood defender se vê
destruído. E o que, da micro-estrutura do terror e da indústria, é
pervertido, indica, por seu lado, o que da macro-estrutura deve ser
criticado. Assim, antes de abordarmos a desconcertante figura do
zombie, outro elemento da micro-estrutura, o monstro, passemos rápida
e brevemente ao plano geral.
O filme não pode ser desligado do seu tempo, os anos 60. As radicais
transformações pela qual a América passava, elas próprias
reflectindo essa batalha de um presente com um passado, o da cultura
alimentada a medo pela Guerra Fria, a invasão comunista e a
radioactividade da Bomba Atómica, são um motor desencadeante da
vontade de realizar Night of the Living Dead. Não basta
referir que, nascido em 1940, Romero atravessou a sua infância e
adolescência mergulhado numa atmosfera de Apocalipse suspenso, mas
bem que o marcou indelevelmente; disso são exemplo a importância
das janelas barricadas e a louca discussão em torno da cave, ambas
símbolo de perigo e da segurança contra a ameaça nuclear. A cave,
particularmente, “com a sua arrumação aprumada de comida, TV e
outras semelhantes facilidades” afirmava e impulsionava os valores
familiares, uma vez que “o abrigo familiar era simultaneamente a
apoteose dos ideais suburbanos de 1950 –
conveniência, funcionalidade, auto-suficiência, proximidade
familiar – e a destilação do pesadelo suburbano: claustrofobia,
falta de privacidade, solidão, isolamento”2.
Todavia, como se pode observar no filme, tornou-se não só motivo de
acesa discussão, de inimizade, de distúrbio no seio da comunidade
humana, como, também, o centro de uma das cenas mais chocantes, até
então, da história do cinema, a destruição do conceito de
família, da célula, do núcleo, por um lado e, por outro,
ironicamente, o refúgio de Ben, aquele que tão fervorosamente
defendia o rés do chão como espaço de luta.
A cultura dos anos 50 é um dos elementos do
“passado bárbaro” revisitado por Romero, igualmente no modo como
o realizador desconstrói a responsabilidade e o dever de reposição
da normalidade das instituições de poder. O governo, o exército e
o grande dispositivo de saber da ciência – outros elementos da
micro-estrutura, bem como espinha dorsal da segurança e da ordem da
cultura desse tempo pré-apocalíptico em suspensão – vêem-se
incapazes de justificar e resolver a causa de terror, incapazes de
identificar o mal, pelo que a sua ineficácia segue, aqui, as linhas
revolucionárias dos anos 60, que reconheciam nessas instituições,
não só os formadores de uma normalidade, os criadores de um medo e
de uma sensação de entorpecimento generalizado, como também os
encobridores e controladores de informação relevante, aqueles que
mascaram a realidade furtando-a ao resto da população, entendidos,
por isso mesmo, como perigosos (pelas suas acções) e a desconfiar.
Mas se a cultura do medo é retratada pela ineficácia e a
irresponsabilidade dos poderes (no sentido de impossibilidade de dar
resposta, bem como, de acordo com a justificação da origem do
aparecimento dos zombies por Romero, o de uma sonda vinda de Vénus
caída na Terra e cuja radiação faz
reviver os mortos, ou seja, o tema de
«uma experiência que deu para o torto» – que, no nosso entender,
retira força à ideia de um acontecimento sem razão própria à
lógica do pesadelo, «o zombie é sem porquê» – ou seja ainda, a
causa é motivada pela transgressão dos poderes institucionais), já
os anos 60 são confrontados pelo modo como os media divulgam
a informação – espécie de peões do governo, bonecos de
ventríloquos por cuja boca passa o que deve ser dito oficialmente –
ou como perseguem a notícia e o pelotão da morte, semelhante, no
filme, às coberturas durante a Guerra do Vietname. Esse é um dos
aspectos fílmicos inseparável do seu tempo, realizado com um
propósito político intencional. Por um lado, o «pelotão da
morte», uma mescla de forças da ordem e população, é todo ele
constituído por homens brancos, o que de imediato nos faz recordar
as associações de linchamento ocasionais3
ou organizadas, tais como o Ku Klux Klan, violentamente retratado na
película com a morte de Ben, o herói negro, tomado ou não por
zombie (embora nos pareça que não) e tratado como tal, repetindo os
gestos reconhecidos dos linchamentos; por outro lado, tal como Hervey
evidencia (e pedimos, desde já, as nossas desculpas pela extensão
da citação que se segue), este pelotão e a sua cobertura
mimetizam, de certo modo, quer as acções dos soldados na frente
asiática, quer as «reacções» dos conservadores na rectaguarda
nacional, os que ficaram para trás:
“É significativo que observemos duas vezes o pelotão,
primeiro no interior do distractivo plano-dentro-do-plano, e depois
off the record. A
primeira sequência considera especificamente a televisão, e mais
especificamente à luz da cobertura televisiva da Guerra do Vietname.
A fórmula insiste na conexão: 'Search and Destroy', ou 'S&D',
foi uma estratégia famosamente cunhada pelo General Westmoreland,
correspondendo a uma inserção de forças terrestres numa área
hostil para a 'limpar' e rapidamente se retirar. Ao longo de 1967,
enquanto Night era
feito, estas operações foram massivamente televisionadas,
geralmente em montagens pré-gravadas como esta, seguindo uma equipa
durante um dia de trabalho. Por vezes os repórteres entrevistavam o
líder do pelotão; outras vezes os próprios líderes narravam: de
um ou de outro modo, normalmente os segmentos reproduziam
acriticamente as linhas de comando de campo. Cenas angustiantes eram
minimizadas, e o padrão focava-se desapaixonadamente no
profissionalismo das tropas e na perícia dos equipamentos, a
logística de 'limpeza' da área. Até as aldeias a arder faziam
parte do trabalho, nenhuma vingança. A linguagem eufemística dos
jornalistas purgava-se de implicações morais; alguma era relaxada o
suficiente para vestir as roupas do pelotão do Night:
'melhor caça hoje' (…).
Mas esta cena
liga-se tanto mais poderosamente com a
guerra em casa. Esses voluntários de espingarda em punho parecem-se
com o estereótipo do conservador retirado, os naturais aliados da
polícia. Com os seus uniformes, carrinhas coléricas, cães de
rastro, espingardas, parolos e a Guarda Nacional à esquina, o
pelotão é o Porco, o braço armado do Establishment.
A cavalaria americana está a chegar, tal como fizeram na
Universidade de Columbia, na Convenção Democrática, Kent State, My
Lai”.4
Assim, Romero procurou tocar criticamente não só uma certa
mentalidade, ou comportamento típico, bastamente enraizado na
cultura americana – talvez mais da América profunda –,
peremptoriamente associado ao racismo, como retratar as acções
macabras, insensíveis dos massacres em tempo de guerra, como também
a encapuzada parcialidade dos media, cujas verdades são
manipuladas pelo próprio Establishment. Pelo que devemos
perguntar, finalmente, na linha do tema do presente face a um passado
bárbaro, quem representa o quê em Night of the Living Dead?
Qual é o verdadeiro mal presente no filme? Parece-nos, neste
dualismo, que o passado deve ser tomado, exactamente, pelo
Establishment, a cultura americana,
o caminho que estava a tomar, a sua normalização e ordem, enquanto
o presente é senão outro que o zombie. Eis que Romero introduz uma
nova inversão, o de um horrífico «mal» destruindo o «bem» da
ordem e que proporcionará a renovação do mundo; porque o mal,
afinal, já está instalado no coração de cada homem e o bem está
tão encoberto quanto a verdade emitida pelos media, o mal
apresenta-se, justamente, na impossibilidade de qualquer comunicação
entre os humanos, na sua impossibilidade de cooperação para um bem
comum minada pelo ego de cada um. O mal encontra-se, também, nessa
malograda solidão intransponível no seio da comunidade, parece
Romero dizer, uma pervertida imagem do célebre poema de John Donne,
No man is an island, enquanto a massa zombie é toda ela um
continente em movimento. Porém, paradoxalmente, o zombie – na
realidade, enquanto morto que volta – é um passado que retorna
fazendo-se presente com o seu retorno, empurrando, consequentemente,
o presente estabelecido para o passado, tornando-o o bloco barbárico
a ser derruído; um passado positivamente futuro lançado para o
presente (as sequelas mostram bem que o fim dos zombies no Night
foi um falso fim), que engolfa, come, enterra o presente tornado mal.
Talvez esse retorno nada mais proponha
que a suspensão do tempo, que a mudança só poderá ser possível
por essa suspensão, pela completa destruição do tempo presente
introduzindo todo um tempo outro, o do morto-vivo, o da comunidade
rediviva, renascida; um tempo fora do tempo, porque já não é nem
pode ser passado – está aqui, no tempo dos vivos – e que,
contudo, pode ser morto (basta destruir, por qualquer processo, o
cérebro, embora, estranhamente, a decomposição do seu corpo pareça
igualmente suspensa), desaparecer, desvanecer-se; um estranho e
enigmático tempo movido pela gula e o ócio. Por nos parecer ser
essa a proposta romeriana, o surgimento de uma comunidade de
renascidos que suspende o tempo, faremos também nós uma suspensão.
Passaremos a uma análise do zombie via os gloriosos renascidos no
seio de Deus e, de seguida, recuperamos a tempo de terminar o estudo
por uma leitura comparatista desses dois redivivos.
1Vd.
ibid., 2008: 34-37. Traduzimos: “(...) many of the same
ingredients for its young viewers: gore, cynicism, irony, wit,
relevance”. Não traduzimos os termos gore e wit,
uma vez que, por um lado, o primeiro é, de certa forma,
intraduzível e bastamente conhecido do público do terror (há já
um subgénero) e, por outro, wit, (um conceito que surge do
primeiro romantismo, a escola de Jena; e por eles problematizado,
bem como pelos seus “filhos” e filósofos da estética), embora
podendo ser mudado para português como perspicácia, inteligência,
humor, é, bem na verdade, todas essas opções de tradução, pelo
que igualmente intraduzível.
2Ibid.:
70-71. Traduzimos: “With its neatly rowed packaged food, TV and
other reational (sic), the family shelter was both the
apotheosis of 1950s suburban ideals – convenience, functionality,
self-containment, familial closeness – and the distillation of the
suburban nightmare: claustrophobia, lack of privacy, loneliness,
isolation”.
3Vd.
imagem do linchamento do negro Will Brown in ibid.:
115.
4Ibid.:
97 e 109. Traduzimos: “It's significant that we observe the posse
twice, first within the television's distracting
frame-within-a-frame, and later off the record. This first sequence
bears consideration specifically as television, and more
specifically in the light of televised Vietnam War coverage. The
wording insists on the connection: 'Search and Destroy', or 'S&D',
was famously coined for General Westmoreland's Vietnam strategy,
whereby ground forces were inserted to 'clear' a hostile area and
then immediately withdrawn. Through 1967, as Night
was made, these operations were heavily covered on television,
usually in pre-recorded montages like this one, following a team
though a day's work. Sometimes reporters interviewed squad leaders;
sometimes the leaders themselves narrated: either way, the segments
usually reproduced field command's party line uncritically.
Distressing footage was minimised, and the patter focused
dispassionately on the troop's professionalism and the hardware
expertise, the logistics of 'mopping up' the area. Even burning
villages was just part of the job, nothing vindictive. The
reporter's euphemistic language was purged of moral implications;
some was sporty enough to suit the clothes of Night's
posse: 'better hunting today'. (…) But this scene connects just as
powerfully with the war at home. Those rifle-toting volunteers look
like stereotypical backwater conservatives, the police's natural
allies. With their uniforms, paddy wagons, sniffer dogs, rifles,
billies and the National Guard waiting in the wings, the posse is
the Pigs, the Establishment's strong-arm men. The American cavalry
is riding in, like they did at Columbia University, the Democratic
Convention, Kent State, My Lai”.
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