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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - monólogo

7.

Ainda bem que morreste
porque já não conseguia mais
viver contigo e não sabia
como to dizer. É por isso
que tive de partir
o parafuso do pedal e cortar os travões.
Adeus
meu amor morto.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - monólogo

6.

Ele era o meu mundo e caiu, o meu mundo caiu
de borco no chão. Atropelado quando andava
de bicicleta. Todo o meu mundo
partido, espatifado, quebrado,
de cabeça aberta. No chão
as coisas rídiculas, o seu chapéu,
uma flor e uns ovos, coisas
mortas. Ao que é que me agarro,
como é que eu as pego, como
é que as posso trazer comigo,
como é que as faço minhas agora?
Tu ali no chão não és tu, já não
és tu, não te reconheço, não és assim.
Não é assim que te vejo na minha memória,
não foi assim que te vi ainda ontem
e no entanto eram as tuas mãos
com o amarelo entre os dedos
e que me apertavam as minhas mãos,
perdendo-as no cerco das tuas,
que me estrangulavam os seios,
me estalavam as costas,
me puxavam o cabelo no carinho bruto.
Eram as tuas pernas curtas mecânicas
de viagem, as tuas pernas peludas
de encosto quente entrelaçadas nas minhas,
os teus pés pequenos de desequilíbrio e de dança,
a tua barba envelhecendo mais que tu,
a tua boca de lábios roídos de nervoso
que no sorriso revelavam os teus dentes de esquilo,
eram os teus olhos verdes com um girassol
que me viam como só tu me vias,
que nunca foram espelho mas sempre movimento,
acção, tristes, olhos de cão, que me perseguiam.
Todas essas partes estão agora reunidas
nesse corpo morto que vi
no chão, ainda quente.
Estavas tão tranquilo, sorrias.
Ao início pensei que brincasses comigo,
com as pessoas da Praça do Lagrido,
que tudo era fingimento, que representasses
uma piada de muito mau gosto
mas afinal era verdade.
Nunca pensei fazer o que fiz,
nunca pensei que tivesse a coragem
de me deitar junto a ti, como na nossa cama,
como quando nos deitávamos em cadeira.
Ninguém me impediu, ninguém me segurou,
ninguém evitou o ridículo daquele abraço,
o ridículo de agarrar o que já foi, o que já não é,
o cuidado de um vivo no amplexo de um morto.
Partir e ficar. Como é que as pessoas me podiam
dizer que partiras se estavas ali, comigo a pintar-te
a barba de vermelho, os lábios de lágrimas,
se me olhavas (porque vi
ainda os teus olhos a virarem-se
para mim). O teu silêncio
era normal, tão vivo como quando o eras.
A ambulância chegou e levaram-nos.
Estivemos tanto tempo separados
que não te queria agora
longe mim. Acompanhei-te
em todos os passos da tua despedida,
da maca para a marquesa da morgue
senhor do meu reino de amor e morte.
Despiram-te sem pruridos, como se veste
e despe um boneco, sem cuidados, trapos
de ninguém, de um corpo morto. Vejam lá
o que fazem, esse não é um qualquer,
quis gritar aos enfermeiros. Colem-lhe
a cabeça de volta, dêem-lhe uma injecção
de 21 grama de puro ar, insuflem-lhe
um pouco do meu amor, façam-lhe
uma transfusão de vida, de consciência,
qualquer coisa, mas não mo deixem ir
mesmo tendo já ido, sido. Ele
não é um qualquer, não é um. Foi um
pires, um filho bastardo de Maldoror,
o benjamim de si próprio matando-me e encontrando-me,
foi um pequeno monstro de quatro séculos e vinte e oito anos
nascido pela força de uma carta de um marinheiro, como
vim a descobrir quando cheguei a casa
com os teus restos, a roupa, o chapéu, a mala,
com os teus rastos, o teu caderno preto
escrito com essas malditas encenações da nossa morte
e a memória da tua verdadeira morte.
Li tudo, copiei tudo. Dormi com o teu caderno
enrolado entre as minhas coxas. Algumas páginas
estavam ainda em branco. Como te amo
deixei junto às tuas histórias a minha versão.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - monólogo

5.

Tu eras tudo o que eu tinha
de seguro, um chão por onde caminhar.
O teu colo tinha a paz de um degrau
de uma igreja onde se pudésse sentar
ao fim da tarde vendo o vento
arrastando as folhas pelo chão.
O teu encosto era quente e macio,
um verão das minhas noites frias. E a tua voz
era o meu sono tranquilo quando lias
para mim. Eras uma cadeira e uma botija
de água quente. Nunca percebi
se me amavas ou não, o que eu era
realmente para ti, porque nunca te abrias,
quero dizer, eras sempre tão calado,
sempre tão preso ao teu mundo
silencioso de palavras que escrevias,
às tuas manias de perseguição, à leitura
de sinais que apenas tu interpretavas
segundo a tua conspiração do momento.
Tentavas impingir-me a ideia
de que tudo estava ligado,
de alguma maneira, por fios
invisíveis, que as pessoas construiam
o que viam e sentiam por desejos
que se uniam sem a noção dessa reunião
de vontades, mesmo pessoas
que não se conheciam, nem se cruzassem,
nem se vissem, mortas,
vivas, por morrer, por nascer,
as que gostávamos, as que detestávamos,
as ditas boas e as más, todos e todas
se queriam umas às outras. Se eu
estava ali à tua frente
era porque ambos queriamos
que assim fosse, que todos e todas
assim queriam e, talvez, por essa razão
ninguém é realmente livre,
quer da bondade, quer da maldade do mundo,
todos somos culpados pelos erros, crimes, todas
as coisas más, mas também das boas.
Quando alguma coisa humana acontece,
todos queremos e não queremos ao mesmo tempo.
Mas eu não acredito nisso, desculpa,
agora não posso, não desejo, não quero,
nem tenho vontade de acreditar nisso,
porque te quero, quero-te aqui, tu
e não o mundo, porque o mundo não me serve
se aqui não estiveres, mesmo escrevendo
em silêncio quando te queria na cama
ao meu lado a dormir comigo
ou a ler para mim, nem posso acreditar
que o mundo, as pessoas não te queriam
aqui comigo, agora, aqui do meu lado.
O mundo todo não me cabe
no coração, não me enche
esta casa vazia de ti e o que aqui está comigo
é uma parte tão pequena de ti
que já nem te vejo, já quase não te sinto,
já quase nem estou no mundo.
E agora?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - monólogo

4.

Era verdade, a tua cara
não me era estranha,
conhecia-a tão bem por vê-la
todos os dias junto à minha. À noite
tantas vezes, mesmo no escuro, a via
voltada para mim, enquanto tu
dormias ou eu mesma. Mas quando não
dormia, passava-te a mão pelo rosto,
acariciava-te os lábios, os teus olhos
de pálpebras cerradas. Quantas vezes
esperava pela tua expiração para eu inspirar,
aproximando a minha boca à tua. Sabia-te
os sonhos bons e maus, os teus desejos,
as tuas erecções. Habituava-me
e desabituava-me ao teu ressonar,
pregavas-me sustos quando te engasgavas
e irritavas-me quando eu para aí estava virada.
Mas não nos conhecemos
como tu descreveste. Não foi assim,
não é assim que me lembro. Tu disseste
que te apaixonaste sem nunca me teres
visto. Eu não acredito. Começámos
por nos escrever
recados quando partilhámos
uma mesma casa. Tínhamos
uma amiga em comum e eu
raramente estava lá. Na altura
dormia em casa de um casal
amigo com problemas. Só voltei
quando me fartei de os aturar e só depois
nos vimos pela primeira vez
nessa tal casa, a nossa primeira casa.
Os recados ficaram maiores, o que tinhamos
para avisar ao outro reduziu-se a nós,
ao que queriamos dizer, o que queriamos
partilhar. Iamos aos poucos
e poucos construindo uma nova casa,
uma morada e uma demora, porque aí
o tempo já era outro, era o nosso,
de aventuras e desventuras.
Depois fugiste de mim e eu persegui-te.
Dizias-te indeciso, mas eu estava ali, ali
à tua volta, não havia nada
para procurares, já me tinhas
encontrado. Então para quê fugir?
Assustava-te porventura, não era eu
afinal quem tu querias, por quem te dizias
apaixonado? E acabei por te conquistar,
mesmo a tempo pois já me preparava
para sair de ti. Foi nessa altura que descobri
que tu eras um romântico lamechas
quando, como no tempo dos nossos pais,
me pediste literalmente em namoro
em cima de um telhado ali perto do castelo
frente ao rio tejo, já meio bêbedo,
é verdade, senão nem tinhas tido a coragem
de me pedir em namoro. Entretanto
continuavas a escrever as tuas histórias
e os teus poemas em cadernos pretos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - monólogo

3.

Vou lá fora até ao pátio e não estás lá,
nem o sol. Lá fora
apenas os gatos, com quem não posso
ficar, a mesa velha comida pelos fungos
de tanta chuva, a chávena colada quase seca
e o teu caderno preto.
Não sei porquê, mas assim que cheguei
a casa, deixei-o lá. Talvez para me lembrar
melhor de ti. Tu que tantas vezes te sentavas
ali só para não me acordar, só
para me deixares
dormir mais um pouco. Sempre quis tanto
uma árvore de fruto no nosso quintal
à frente de casa, ou no pátio lá atrás.
Uma que rebente com os nossos sentidos, sabes,
dessas que, como disseste, fazem de relógio
da natureza, que se despem e ficam nuas,
que se vão vestindo aos poucos
de pequenos rebentos coloridos
e se infiltram pelos nossos narizes
fazendo-nos espirrar, rebentos esses
que crescem ao sol sem metáforas
como dizia o teu amigo, que podemos colher,
guardar, cheirar, comer. Eu queria
uma árvore de fruto e deste-me
um conto, uma versão distorcida,
uma ficção, uma mentira que escreveste
no teu caderno preto com toda a verdade
que te era possível naquele momento.
Sei que não mentias quando escrevias,
que eras verdadeiro para a história
que escrevias, só que
não me chega ficar apenas
com o teu caderno preto. Não me chega,
não é suficiente
a tua letra, não és tu.
Mas, sabes o que me custa mais?
Mais do que tu teres partido?
É esta casa vazia sem estar, vazia
simplesmente por não estares ali
na cama, na cozinha, na casa-de-banho e
nunca mais lá fora com os gatos.
Custa-me saber que vou estar sozinha
com a certeza de não mais te ver
quando chego do trabalho, que te vou ver
em todas os objectos, no pó
que se arrasta pelos cantos,
sem uma única voz de boas-vindas
nem daquela outra, minúscula, voz
da criança que tanto desejávamos ter.
Essa de quem tu falas aqui e ali, que tive
e que não queria e me recusei a matar,
que seria o nosso benjamim.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - monólogo

2.

Mas colei-a de volta, não podia
ser de outra maneira, não havia
outra hipótese. O quê, deixava-la
ali caída no chão, partida, acrescentada
ao lixo que se foi acumulando, junto
com todas estas tralhas, as que eram
nossas e agora são ou tuas ou minhas?
Fiquei ainda algum tempo
a vê-la quebrada, havendo-a quebrado
de propósito porque a casa
estava demasiado calada, como tu
costumavas sempre estar quando em casa,
esta coisa que terei de largar mais tarde
ou mais cedo e não quero sair.
Telefonaram-te tantas vezes à tua procura,
enviaram-te mensagens combinando encontros,
saídas à noite para copos. Para os teus ouvidos,
o que tinhas de melhor, já que eras sempre
tão calado e só ouvias. Deixei-o morrer
por si, usaram-no até ficar sem bateria,
usaram-te até ficares cheio
das conversas, palavras soltas,
frases, parágrafos inteiros. Nada
disso era a tua memória e no entanto
lembravas-te de quase tudo, quase
como se fizesses uma colecção
pequenos pedaços daqui e dali:
um dedo com o sabugo à mostra,
um cabelo espigado caído no ombro,
uma minúscula aranha preta fazendo a sua teia no cabelo de alguém sentado à tua frente,
um coração de latão de uma pulseira perdido à boca do metro junto a um caixote do lixo,
um sorriso de um bêbedo antes de adormecer babando-se para o seu casaco coçado,
o beijo de alguns namorados,
uma jogada de xadrez,
o espirro de uma velha biata...
e ias apontando tudo no teu caderno, tudo
minuciosamente, mas no fim
apenas sabias falar de livros, tu
tão literário e tão pouco interessante.
Não havias de ficar calado, ninguém
afinal te ouvia a não ser eu e só
quando a isso me prestava. Estavas morto
para me falares quando chegava a casa e tenho
de te dizer que isso por vezes me enfastiava,
que às vezes só me apetecia ficar calada,
estendida no sofá a ver televisão, comendo
o jantar que preparavas com tanto afinco.
Qualquer coisa servia
para começares a soltar a lingua,
o último livro que leste, as ideias
que te tinham ocorrido ao longo do dia,
as brincadeiras dos gatos,
a violência infantil à porta
da nossa casa quando todas aquelas
crianças vinham da escola aos berros,
nas suas motas, comendo os seus doces
e batatas fritas, com os seus beiços
lambuzados de chocolate e sal. À sua passagem
os cães ladravam, os nossos gatos fugiam
assanhados, lançando tudo ao chão, trepavam
a árvore plantada no pátio. A árvore que gostávamos
que fosse de fruto e apenas fazia um chiqueiro
no Inverno, largando todas as suas folhas secas
e entupindo o ralo que tu, de impermeável, limpavas.
A árvore onde tantas vezes te vi à sombra,
quando te sentavas para escrever no teu caderno preto
à mesa velha, cigarro na boca e chávena de café
muitas vezes à minha espera.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa)

1.

Fiquei durante muito tempo a pensar no que deveria fazer de ti,
o que fazer contigo. Depois de
tantos anos juntos e no fim
não sei o que fazer. Não sei mesmo
o que fazer de ti.
Ando de um lado para o outro nesta casa,
caminho
quilómetros
para a frente e para trás,
de divisão em divisão, atravesso
países, mínimos mundos
separados por portas e não estás aqui.
Nunca pensei que uma tão pequena casa se tornasse tão longa,
larga, escura e eu tão minúscula. Detesto
fazer estas arrumações,
empacotar toda a minha
roupa, livros, discos, escolher
entre todos os papéis que se guardam
aqueles que, afinal, realmente queremos guardar,
aqueles que ainda nos dizem qualquer coisa. Cartas,
por exemplo, bilhetes de viagens, postais, flores secas,
ramos de árvores, guardanapos com mensagens
de quem já não nos lembramos o emissor.
Demoro horas nestas recordações forçadas enquanto te procuro
no meio delas. Aqui em casa
encontrei apenas o teu caderno, o teu caderno preto
onde costumavas escrever o que calhava,
quando te apetecia escrever. Falavas-me sempre
desse teu caderno mas eu nunca o vira, até hoje.
Nem sei o que poderia lá encontrar.
Pensei que
talvez, talvez te encontrasse dentro dele,
como tu me encontraste, me descobriste
na rua. Tantos anos juntos, tantos anos
a partilhar o mesmo espaço, a mesma cama,
as almofadas, a roupa, a sanita, o bidé, os pratos, os copos, os talheres.
Chegou a ser uma pequena vida,
uma pequena vida de pequenas coisas
que a fazem, que nos fazem dizer: esta foi
uma pequena vida, a nossa.
Nunca percebi ao certo os teus hábitos,
as tuas manias, porque davas tanta importância
a coisas tão inúteis, ínfimas, tão
piquínhas, as tuas pequenas coisas
como beber daquela chávena lascada
vertendo o teu café pela falha em cada golo.
Como também nunca percebi a razão
de acordares cedo se não fazias nada
a não ser tomar o pequeno-almoço, fumares
cigarros logo de manhã empestando a casa, abrir
um livro para passeares os olhos, abrir
o teu caderno para passeares as mãos
e não fazias nada. Até hoje
pensava que nada fazias, mas estava enganada.
Enganavas-me com os teus passeios
e os teus olhares e afinal
afinal escrevias, embora não
se visse nada.
Nada no papel, nada no computador.
Não escrevias para fora,
escrevias para dentro, se assim posso dizer.
Conheço agora a tua produção silenciosa e anónima,
as tuas transformações, os teus devaneios,
as tuas idiossincrasias, as tuas repetições
(“repete repete”, como diz um daqueles poetas que tanto gostavas).
Não te sabia o corpo tão escrito, tão gritado.
Eu juro que te escutava, juro que sempre te quis
bem quando te deixava ocupado com os teus
nadas, com os gatos deitados lá no pátio,
sozinho em frente ao computador, dos livros,
do caderno, da louça suja, da comida para se fazer,
da roupa para lavar, na casa por limpar. Juro
que te levava comigo quando ficavas sozinho em casa.
Nos meus tempos livres eras a minha ocupação, o meu
hobby, o meu su doku, as minhas palavras
cruzadas no meu agora coração partido. E agora?
Agora não sei o que fazer de ti e tenho vergonha.
Não sei se te traga para casa, se arrumo
as tuas coisas. Antes dizia, como tu,
as nossas coisas, enquanto hoje
digo as tuas e as minhas coisas
e tenho vergonha
porque me olham, ainda me tocam,
ali dos cantos para onde as empurrei.
Deixaste-me tudo e envergonho-me
de ter feito a sua lista: umas quantas
camisolas de lã, t-shirts, long sleeves
− todas uniformes, sem desenhos e ratadas pelas traças
− calças de ganga e de bombasina e de algodão fino,
cuecas, meias, um par de botas, dois pares de ténis,
livros (muitos), cassetes de música (que já não ouvias)
cd’s, folhas soltas, bugigangas, tralha, canetas, lápis,
uma escova de dentes, uma máquina de cortar cabelo,
um chapéu preto (prenda minha), gatos (dez no total)
e a tua bicicleta, a tua maldita bicicleta, espatifada.
Não me poderias ter deixado o raio de uma fotografia?
Uma só? Bastava uma, com a tua cara barbuda, os teus olhos
verdes, a tua pouca fotogenia, de cigarro na boca,
as tuas mãos sapudas, o teu sorriso de dentes fumados.
Esta lista deixou-me
fatigada. Levei um certo tempo a apontá-la
mas não conseguia dormir. Por isso
decidi manter-me acordada mais um pouco, bebendo
uma chávena de café e lendo
o teu caderno preto. Quando me sentava
no nosso sofá de tantas noites
à espera do sono, parti
a tua chávena de café preferida e procurei
colá-la. Não te queria perder
aos bocados.

NOTA: irei pondo, aos poucos e poucos, esta narrativa escrita em 2008, criada a partir de monólogos e contos. eis, pois, o primeiro monólogo).