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domingo, 11 de novembro de 2012

Praça José Fontana a Sº Bento via Praça de Espanha

iamos na rua descendo tantos
anos já sobre sessenta e oito

clamando a sua propriedade furtada
desde antes da sua calcetagem

a raiva por demais silenciada
apertava punhos rostos gargantas

e porém quantos sorrisos em quanta gente
junta como se nada mais houvesse

senão amor a petição da vida a recusa
de se ser reduzido a um número

percorremos a cidade até ao sol
pôr e à noite frente ao palácio a lei

assentou praça na escadaria simbólica
quando o que há são corpos e sua natureza

chovia o que havia à mão de um setembro seco
alguém se imolara diziam ninguém está ileso

da culpa ou da lenta morte oferecida
pelo futuro todos a naufragar na subvida

e a tão pouca distância se enfrentaram os nossos
olhos num jogo entre tristeza e vergonha

domingo, 7 de outubro de 2012

rua de santa apolónia à dos bacalhoeiros

para a a.l.r.

fomos descendo do clube dos caminhos de ferro
viajando por este caminho de pedras brancas

e negras os passos eram o diálogo por nós
tantas vezes silenciado e só agora tomado

política amor e arte que mais há para dois
corpos se entenderem mesmo os livros sagrados

fazem destes três conceitos a mão doadora
da vida e da morte o que nos unia porém

era a amizade estreitando-se nestes dias
num país tão próximo dos últimos círculos

da comédia e bastou um olhar da mais terna
ternura para nos lançar justo ao seu limiar

onde os amigos cada um por sua razão
souberam refrear o salto para mais além

caímos fomos incautos aventureiros mas cedo
larguei tua mão olhei para trás novamente

entregando-me à solidão por não saber hoje
deixar uma paixão crescer as suas frágeis raízes

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Jardim da Estrela

onde antes dos coretos bandas misturavam
tímidos pares já de prescritos futuros hoje

incitam à guerra bandos armados de batuques
ribombando pelos corações adentro vibrando

os corpos entregues ao ócio ou à vigília
meio adormecida às brincadeiras infantis

oitocentista estendo a t-shirt para que teu vestido
permaneça imaculado o tronco marca-se de erva

os trilhos mantém quase o desenho original porém
é uma selva cultural que se levanta no meio da cidade

centenárias árvores plantas arbustos esquadrinhados
com certo rigor pela mão arquitecta de meu bisavô

(poucos canteiros e todavia sinto-me enraizado
e quase livre de laços e origens menos da tua mão)

tirando os charcos os lagos estão secos para encontros
de leituras desenhos devaneios de charros e álcool

e o amor sonolento na passagem das horas cuidado
poderei parecer um cacto o coração é flor de estufa

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Alameda Cardeal Cerejeira


separam-nos a idade a língua a doença
e somos porém estes corpos em apropriação

mútua efectuações da vida plenos de história
trilhos e encruzilhadas do desejo

entre nós encontram-se caminhos fazem-se ligações
confrontamos diferentes lógicas provocamos

breves batalhas entre o comum senso e as sensações
uma dita-nos a distância a outra dá-nos a razão

suficiente para tudo arriscar contra tudo
sabendo-nos sair perdidos e magoados

de que lado queiras jogar toma a minha mão
faça-se a decisão com lisboa por baixo

domingo, 24 de junho de 2012

Cais do Sodré

é uma subida ou seja a entrega
dos corpos à atracção das suas dores

navegamos à superfície da memória
enviando as palavras ao seu mergulho

de escafandro no fundo é sempre
de uma queda que falamos

onde o encontro é tão inevitável
quanto raro. estamos os dois

sentados lado a lado
o frio trouxe-nos esta proximidade

impenetrável. os mundos têm um
nome amargo: solidão

terça-feira, 19 de junho de 2012

Graça


do monte agudo ao da graça
espera-te uma lisboa emudecida

das asas guardas o desejo
és um anjo caído demasiadas vezes

sentas-te no banco onde já tantos
souberam nada aguardar da vida

quando cá chegares do telhado
desta bebedeira ofereço-te o funâmbulo

gato passeando-se ao de lá da vista
um outro cais e a onda nele aportando

o coração a ser partido quando o amor
parte do coração a quem se ofertou

não leves o tempo até à tua morte
pode a morte levar-te antes do tempo

sábado, 26 de maio de 2012

arco do cego


sou eu antes a tua sombra
neste jardim mundo entregue

aos corpos ociosos na flor da idade
circundas tudo reconheces marcas

para logo esqueceres e recomeçar
noutro dia a tarefa paulatina

de criação de limiares e limites
perdes-me encontras-me enquanto

tão invisível fico a quem se deleita
atravessado por alheados olhos neste triste paraíso

roubas os poucos sorrisos restantes
a este rosto admirando o ceibo

a ascendência em verso e rima
do cego poeta dos labirintos

ou descorçoado permanece sentado
enredado na memória que teima em azulá-lo

quando partimos e nenhum anjo nos expulsou
já o sol nos cobre os dorsos e os passos menos lestos

pouco nos querem levar onde ninguém nos espera
embora deixemos sempre uma janela aberta

segunda-feira, 14 de maio de 2012

jardim constantino


desterrados de língua e sexo
estes homens estas mulheres

fazem morada no jardim
que és suyo y de los niños

o tempo suspendido em bancos
de cartas batidas e futuro tinto

a estátua pensante vela-os
como o anjo da memória morta

a limitar uma imensa árvore
de raízes à flor da terra onde à

vez os corpos vertem os seus excessos
como se um segredo os sufocasse

tudo isto te aceita estranho
a ti e à tua sombra canina

porém para entrares
tens de perder a fala

domingo, 29 de abril de 2012

rua heróis de quionga


conheço a língua dos algerozes
o seu murmurejar nos musgos

rumam de boca a boca o nome
pelas negras artérias reticulares

lança um barco de papel recolhe
o afogado não olhes o azul

do seu corpo repara encontras
-te onde a morte te esquece

sexta-feira, 27 de abril de 2012

praça olegário mariano


as mãos tacteiam a geometria
da solidão as linhas da madeira

ainda nenhuma aranha te
atou em seus dois fios sinónimos

cobre-se de pó estrelas mortas
esta via de olhos percorrida

tão pouca casa e nela um dédalo
depões o rosto pela máscara

ariana cede-me o teu fio iça
-me à cesta do navio de espelhos

ou desce-me um pouco mais até ser
do teu horizonte o horizonte

sábado, 14 de abril de 2012

avenida almirante reis

um coração líquido e suas síncopes
em escuta atenta aos breves dilúvios e os pés
pelo rasto de um arco-íris oleoso
os caminhos de nenhures deste alcatrão
(encolhes-te recolhes-te
haverá um abrigo um pouco
mais após o fim)
uma casa de livros e cadela
negra a dor permanente um vírus
passando a quem se te aproxima
(não há espaço
no vazio já ele está pleno
e esse és tu já só
o corpo pele e osso)
a cidade entra-te pelos poros
(oh amigos, não há amigo
nem do que se faz um mundo)
e escorre espessa pelo ralo
(repara nada de importante
um sonho é um sonho é um sonho
é um sonho dizes-te amanhã serei
um estóico começarás um diário
um regime saberás de novo
acolher o Acontecimento
fazer de qualquer trilho
o teu e o certo)
tudo é mistura