iamos na rua descendo tantos
anos já sobre sessenta e oito
clamando a sua propriedade furtada
desde antes da sua calcetagem
a raiva por demais silenciada
apertava punhos rostos gargantas
e porém quantos sorrisos em quanta gente
junta como se nada mais houvesse
senão amor a petição da vida a recusa
de se ser reduzido a um número
percorremos a cidade até ao sol
pôr e à noite frente ao palácio a lei
assentou praça na escadaria simbólica
quando o que há são corpos e sua natureza
chovia o que havia à mão de um setembro seco
alguém se imolara diziam ninguém está ileso
da culpa ou da lenta morte oferecida
pelo futuro todos a naufragar na subvida
e a tão pouca distância se enfrentaram os nossos
olhos num jogo entre tristeza e vergonha
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domingo, 11 de novembro de 2012
domingo, 7 de outubro de 2012
rua de santa apolónia à dos bacalhoeiros
para a a.l.r.
fomos descendo do clube dos caminhos de ferro
viajando por este caminho de pedras brancas
e negras os passos eram o diálogo por nós
tantas vezes silenciado e só agora tomado
política amor e arte que mais há para dois
corpos se entenderem mesmo os livros sagrados
fazem destes três conceitos a mão doadora
da vida e da morte o que nos unia porém
era a amizade estreitando-se nestes dias
num país tão próximo dos últimos círculos
da comédia e bastou um olhar da mais terna
ternura para nos lançar justo ao seu limiar
onde os amigos cada um por sua razão
souberam refrear o salto para mais além
caímos fomos incautos aventureiros mas cedo
larguei tua mão olhei para trás novamente
entregando-me à solidão por não saber hoje
deixar uma paixão crescer as suas frágeis raízes
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Jardim da Estrela
onde antes dos coretos bandas misturavam
tímidos pares já de prescritos futuros hoje
incitam à guerra bandos armados de batuques
ribombando pelos corações adentro vibrando
os corpos entregues ao ócio ou à vigília
meio adormecida às brincadeiras infantis
oitocentista estendo a t-shirt para que teu vestido
permaneça imaculado o tronco marca-se de erva
os trilhos mantém quase o desenho original porém
é uma selva cultural que se levanta no meio da cidade
centenárias árvores plantas arbustos esquadrinhados
com certo rigor pela mão arquitecta de meu bisavô
(poucos canteiros e todavia sinto-me enraizado
e quase livre de laços e origens menos da tua mão)
tirando os charcos os lagos estão secos para encontros
de leituras desenhos devaneios de charros e álcool
e o amor sonolento na passagem das horas cuidado
poderei parecer um cacto o coração é flor de estufa
tímidos pares já de prescritos futuros hoje
incitam à guerra bandos armados de batuques
ribombando pelos corações adentro vibrando
os corpos entregues ao ócio ou à vigília
meio adormecida às brincadeiras infantis
oitocentista estendo a t-shirt para que teu vestido
permaneça imaculado o tronco marca-se de erva
os trilhos mantém quase o desenho original porém
é uma selva cultural que se levanta no meio da cidade
centenárias árvores plantas arbustos esquadrinhados
com certo rigor pela mão arquitecta de meu bisavô
(poucos canteiros e todavia sinto-me enraizado
e quase livre de laços e origens menos da tua mão)
tirando os charcos os lagos estão secos para encontros
de leituras desenhos devaneios de charros e álcool
e o amor sonolento na passagem das horas cuidado
poderei parecer um cacto o coração é flor de estufa
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Alameda Cardeal Cerejeira
separam-nos a idade a língua a doença
e somos porém estes corpos em apropriação
mútua efectuações da vida plenos de história
trilhos e encruzilhadas do desejo
entre nós encontram-se caminhos fazem-se ligações
confrontamos diferentes lógicas provocamos
breves batalhas entre o comum senso e as sensações
uma dita-nos a distância a outra dá-nos a razão
suficiente para tudo arriscar contra tudo
sabendo-nos sair perdidos e magoados
de que lado queiras jogar toma a minha mão
faça-se a decisão com lisboa por baixo
domingo, 24 de junho de 2012
Cais do Sodré
é uma subida ou seja a entrega
dos corpos à atracção das suas dores
navegamos à superfície da memória
enviando as palavras ao seu mergulho
de escafandro no fundo é sempre
de uma queda que falamos
onde o encontro é tão inevitável
quanto raro. estamos os dois
sentados lado a lado
o frio trouxe-nos esta proximidade
impenetrável. os mundos têm um
nome amargo: solidão
dos corpos à atracção das suas dores
navegamos à superfície da memória
enviando as palavras ao seu mergulho
de escafandro no fundo é sempre
de uma queda que falamos
onde o encontro é tão inevitável
quanto raro. estamos os dois
sentados lado a lado
o frio trouxe-nos esta proximidade
impenetrável. os mundos têm um
nome amargo: solidão
terça-feira, 19 de junho de 2012
Graça
do monte agudo ao da graça
espera-te uma lisboa emudecida
das asas guardas o desejo
és um anjo caído demasiadas vezes
sentas-te no banco onde já tantos
souberam nada aguardar da vida
quando cá chegares do telhado
desta bebedeira ofereço-te o funâmbulo
gato passeando-se ao de lá da vista
um outro cais e a onda nele aportando
o coração a ser partido quando o amor
parte do coração a quem se ofertou
não leves o tempo até à tua morte
pode a morte levar-te antes do tempo
sábado, 26 de maio de 2012
arco do cego
sou
eu antes a tua sombra
neste
jardim mundo entregue
aos
corpos ociosos na flor da idade
circundas
tudo reconheces marcas
para
logo esqueceres e recomeçar
noutro
dia a tarefa paulatina
de
criação de limiares e limites
perdes-me
encontras-me enquanto
tão
invisível fico a quem se deleita
atravessado
por alheados olhos neste triste paraíso
roubas
os poucos sorrisos restantes
a
este rosto admirando o ceibo
a
ascendência em verso e rima
do
cego poeta dos labirintos
ou
descorçoado permanece sentado
enredado
na memória que teima em azulá-lo
quando
partimos e nenhum anjo nos expulsou
já
o sol nos cobre os dorsos e os passos menos lestos
pouco
nos querem levar onde ninguém nos espera
embora
deixemos sempre uma janela aberta
segunda-feira, 14 de maio de 2012
jardim constantino
desterrados de
língua e sexo
estes homens estas
mulheres
fazem morada no
jardim
que és suyo y de los niños
o tempo suspendido
em bancos
de cartas batidas e
futuro tinto
a estátua pensante
vela-os
como o anjo da
memória morta
a limitar uma
imensa árvore
de raízes à flor
da terra onde à
vez os corpos
vertem os seus excessos
como se um segredo
os sufocasse
tudo isto te aceita
estranho
a ti e à tua
sombra canina
porém para
entrares
tens de perder a
fala
domingo, 29 de abril de 2012
rua heróis de quionga
conheço a língua dos algerozes
o seu murmurejar nos musgos
rumam de boca a boca o nome
pelas negras artérias reticulares
lança um barco de papel recolhe
o afogado não olhes o azul
do seu corpo repara encontras
-te onde a morte te esquece
sexta-feira, 27 de abril de 2012
praça olegário mariano
as mãos tacteiam a geometria
da solidão as linhas da madeira
ainda nenhuma aranha te
atou em seus dois fios sinónimos
atou em seus dois fios sinónimos
cobre-se de pó estrelas mortas
esta via de olhos percorrida
tão pouca casa e nela um dédalo
depões o rosto pela máscara
ariana cede-me o teu fio iça
-me à cesta do navio de espelhos
ou desce-me um
pouco mais até ser
do teu horizonte o
horizonte
sábado, 14 de abril de 2012
avenida almirante reis
um coração líquido e suas síncopes
em escuta atenta aos breves dilúvios e os pés
pelo rasto de um arco-íris oleoso
os caminhos de nenhures deste alcatrão
negra a dor permanente um vírus
passando a quem se te aproxima
em escuta atenta aos breves dilúvios e os pés
pelo rasto de um arco-íris oleoso
os caminhos de nenhures deste alcatrão
(encolhes-te recolhes-te
haverá um abrigo um pouco
mais após o fim)
uma casa de livros e cadelanegra a dor permanente um vírus
passando a quem se te aproxima
(não há espaço
no vazio já ele está pleno
e esse és tu já só
o corpo pele e osso)
a cidade entra-te pelos poros
(oh amigos, não há amigo
nem do que se faz um mundo)
e escorre espessa pelo ralo
(repara nada de importante
um sonho é um sonho é um sonho
é um sonho dizes-te amanhã serei
um estóico começarás um diário
um regime saberás de novo
acolher o Acontecimento
fazer de qualquer trilho
o teu e o certo)
tudo é mistura
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