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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Galway Kinnell - X. Ultimidade (fim)


5

Esse concerto de Bach a que assisti há muito tempo atrás –
a sala lustrada
de madames e senhores que nunca morreriam...
as vozes desvanecem-se,
a sala aquieta-se,
o violinista
põe o seu irreversível rosto sofrido
na palma aberta
da madeira, a música começa:

um chuveiro de resina,
os cabelos dos arcos escutando em todo o seu comprimento
ao lamento,
o lamento sexual
dos becos e os fios de sangue que vivemos
ainda choram,
ainda cantam, do intestino cortado
do gato.


6

Este poema,
se o podemos assim chamar,
ou concerto de um
dividido entre si,
este gesto dirigido à terra
do paraquedista, os vermes
nas suas costas ainda rodopiam em diante
e já roendo
as sedas dos seus amores, que poderiam tê-lo salvo,
esta queda livre de alguém
abrindo os seus braços na atitude
de vôo, à medida que obedece à necessidade e cai...


7

Sancho Fergus! Não chores!

Ou melhor, chora.

No corpo,
na carne azulada, quando é
deposta, vê se consegues descobrir
a única pulga que se está a rir.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 74-75


(este foi o último poema do Livro de Pesadelos)

sexta-feira, 29 de março de 2019

Galway Kinnell - X. Ultimidade (cont.)



3

Andando em direcção à ravina sobre
o rio, eu chamo pela pedra,
e a pedra
chama de volta, a sua voz caçando por entre os seixos
pelos meus ouvidos.

Pára.
À medida que te aproximas de uma ravina
ecoante, pressentes a linha
na qual a voz chamando a pedra
não responde mais,
torna-se pedra, e nada retorna.

Aqui, entre resposta
e nada, estou, nos velhos sapatos
que fluíram sobre arco-íris de óleo de galinha,
cada sapato amparando os ossos
que se enrugam juntos em comunhão
com o passo,
e que abrem
à frente em dedos, todo o pé buscando
dissolver-se no futuro.

O barulho de cascos de alces.
Enquanto a esfera superior
se esvaziava a si mesma? Será verdade
que a terra é tudo o que há, e que a terra não dura?

No rio o mundo flutua segurando-se num cadáver.
Pára.
Pára aqui.
A vida leva-te à morte, não há outra estrada.


4

Este é o décimo poema
e é o último. Está certo
no fim, esse um
e zero
saindo juntos,
caminhando para o fim destas páginas juntos,
uma criatura
partindo lado a lado com o vazio.

Ultimidade
é claridade. É a claridade
reunida de tudo o que veio antes. Perdura.
E quando de facto acaba
não há nada, nada
fica,

na ferrugem de carros velhos,
no buraco aberto no corpo do Arqueiro,
na névoa de rios cheirando a fadiga das pedras,
os mortos deitam-se,
esvaziados, enchidos, no princípio,

e a primeira
voz vem de novo ansiando das suas bocas para fora.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 72-74.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Galway Kinnell - X. Ultimidade


1
As magras cataratas, atalhos
vagando do céu, batem
na ravina, saltam, e arrepiam-se.

Algures atrás de mim
um pequeno fogo permanece aceso à chuva, nas cinzas desoladoras.
Não interessa, agora, para quem foi feito,
mantém as suas chamas,
aquece
quem se atreve a caminhar até à sua radiância,
uma árvore, um animal, as pedras,

porque no mundo moribundo foi acendido.


2
Um urso negro senta-se sozinho
no crepúsculo, balançando a cabeça de um lado
para o outro, dando lentamente voltas e voltas
sobre si, esfregando o círculo
quadrúpede na terra. Ele cheira o suor
na brisa, ele concebe
uma criatura, uma criatura-mortífera
observa do limiar das árvores,
finalmente ele percebe
eu não estou mais aqui, ele próprio
do limiar das árvores observa
um urso negro
levantar-se, a comer algumas flores, afastando-se,
todo o seu pêlo cintilando
à chuva.

E que cintilar! Sancho Fergus,
meu rapazola, tinha uns belos ombros,
quando nasceu a sua cabeça
saiu primeiro, o resto ficou preso. E ele abriu
os seus olhos: a sua cabeça ali sozinha
no quarto, semicerrou os olhos com dor,
ao fim de nove meses mal tinha os olhos descolados
o sangue chapinhando debaixo dele
no chão. E quase
sorriu, pensei, quase perdoou tudo antecipadamente.

Quando todo ele saiu
tomei-o nos meus braços e dobrei-
o e cheirei
a penugem negra e cintilante
da sua cabeça, tal como o espaço vazio
deve-se ter dobrado
perante o planeta nascituro
e cheirou as pastagens e samambaias.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Houghton Mifflin Company, Boston & New York, 1971: 71-72

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - O trilho por entre as pedras (fim)



5

E no entanto, não,
talvez não nada. Talvez
nem sempre nada. Em roupas
tecidas de cuspo azul
de cobras, rastejo: encontro-me vivo
nas espiraladas
arcadas das impressões digitais de todas as coisas,
o esqueleto a gemer,
fios de sangue lamentando o lamento de todas as coisas.


6

As árvores-testemunha saram
as suas cicatrizes no fogo de carne,
a chama
ergue-se dos ossos,
a fome
de se ser novo descola
a minha alma, uma estranha luz azul reluz
em todas as cristas do mundo. Algures
nas lendas dos sacrifícios de sangue
o destinado bezerro
toma a fogueira nos seus braços, e ele
queima-a.


7

Tanto em cima: as últimas estrelas espalhadas
ajoelham-se na forma celeste da idade do Aquário:
um salpico
no topo da cabeça,
na relva deste terra que até as estrelas amam, salpicos das águas sagradas...

Como em baixo: no cemitério
as lanternas acendem-se, uma para cada um de nós,
em todas as janelas
de pedra.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 67-68.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - O trilho por entre as pedras (cont.)


3

Saí de mim,
por entre as pedras do campo,
cada uma enviando a sua frescura-fantasma
às luzes das estrelas, para flutuar
por sobre as árvores, à procura de me unir
aos fogos sobrenaturais ascendendo e morrendo

no espaço – e recuando, sabendo
da tristeza do desejo
para descer
de volta ao brilho de um chão magoado,
as pedras amparando entre pasto e campo
o imenso núcleo de granito,
cintilando, mesmo elas, de antigos pressentimentos de loucura e guerra.


4

Um caminho abre-se
a meus pés. Desço
a passo de mula à luz da noite para a terra,
as pegadas atrás de mim
enchendo-se já de trilhos pré-sacrificiais
de canários, desço
para o aterro irrespirável
de tudo que alguma vez almejei e perdi.

Um velho, uma lamparina
de pedra na sua testa, de cócoras
junto às suas chamas infernais, agita
a sua caçarola
de cabeça de corvo
decepada, fios de luz branca,
cauda aberta de pavão, corpo
vestido de canário, peito de pisco
arrastado pelos enlameados campos de batalha, torcido
botão de flor caput mortuum – tudo
salga com areia
roubada das campânulas de cima de ampulhetas...

Nada.
Sempre nada. Sangue ordinário
a ferver no brilho da lamparina da testa.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 58-59.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Galway Kinnell - IX, O trilho por entre as pedras



1

No trilho sinuoso
a subir, a caminho do alto vale
das quedas-de-água e prados primaveris
submersos e partidos por cascos,
onde as raízes-de-peixe fervem
nos últimos graais de luz sobre a água,
e víboras salpicadas de ânsias de voar
panejam as pedras negras sibilam pês! pês! – terra
de penas
e tinteiros de caveiras cheios de águas negras –

chego a um campo
luzindo de mil peles escamadas
de pontas de flechas, pedras
que estremecem e saltam
para se doarem aos corações partidos
dos vivos,
que de retorno se dão, quebrados, às pedras.


2

Fecho os meus olhos:
nas praias onduladas pelo calor
onde as colinas descem aos mares,
a luminosa
poeira da praia triturada do funeral de conchas,
posso vê-las
a viver sem mim, morrendo
sem mim, as pedras
com a forma
de asa e ovo, partidas
cascas-de-guerra de conchas guerreiras mortas,
cascas de imortalidade de orelhas-de-cão
onde enormes constelações de limo, à lua cheia,
contorcem mais um
manto de invisibilidade num cisco de areal,

e as ágatas caídas
de círculos arranhadas até ao pó
com o clique
de um osso-de-desejo a quebrar-se, globos
que rodopiam para dentro e que nunca mais se abrirão biopsiados de pôres-de-sol,

e essa pedra abolachada
que saltou dez vezes sobre
a água, subitamente começando a correr à medida que se afundava,
e os zeros que deixou,
que se cruzaram
e passaram uns pelos outros, eles próprios
suavizando-se a partir da água...


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 65-66.

sábado, 20 de outubro de 2018

Galway Kinnell - O chamamento através do vale do não saber (fim)


5

Desse tempo numa prisão do Sul,
quando o xerife, enquanto me injuriava
e cuspia, tomou a minha mão na sua, balançou
as espirais a partir das polpas
e as arcadas em tenda num reino tornado tabu, essa subvida
onde os canários do sangue cantam, esmagou
as flores-de-carne
no livro sujo do
registo policial, depois do que me lembro mais
foi a atenção, a quase amorosa
gentileza animal da sua mão na minha.

Melhor que qualquer um de nós, ele conhece
a severidade desse cubículo
no inferno para onde te lançam
com todos os teus desejos não reduzidos, e sem qualquer corpo para os aplacar.

E quando ele próprio flutua dali para fora
num mar que quase começa a se lembrar,
flutua rumo a umas trevas que já conheceu;
quando o gemido do vento
e o arfar dos pulmões se chamam um ao outro por entre as ondas
e o desejo de flutuar
acaba por não interessar nada à medida que ele se afunda,

será assim tão impossível pensar
que ele sonhará de volta com todas as mãos pretas e brancas
que tomou nas suas
tal como a criação
lhe toca uma última vez em todo o seu corpo?


6

Supõe que fiquei
com essa mulher de Waterloo, supõe
que nos encontrámos numa colina chamada de Safa, no nosso próprio país,
que nos deitámos na relva
e olhámos para a cegueira de cada um, e sombras-de-folhas
balanceando sobre os nossos corpos nas derivas do sol,
os nossos rostos
inclinados para o do outro, como galinhas
inclinam as suas faces
quando o calor aflui do ovo aquecido
de volta ao próprio ser, e a lua de prata
suspendeu-se para nós no meio do paraíso –

creio que teria fechado os olhos, e mover-me-ia
daí em diante como o nascituro cego,
os seus rostos
já idos para o paraíso.


7

Nós que vivemos as nossas simples vidas, que pomos
a nossa mão na mão do que quer que amemos
enquanto desaparece,
como nós desaparecemos,
e tropeçamos em direcção ao que virá, apenas porque chega,
uma espécie de destino,

um campo, talvez, de pedras lascadas
espalhadas à luz das estrelas
em que a carne
enfaixa o seu esqueleto uma última vez
antes que os ossos sigam o seu caminho sem nós,

não ouviríamos, mesmo assim,
o chamamento do urso
desde a sua colina – um chamamento, como o nosso, ansiando
por ser respondido – e o urso-da-represa
chamando de volta através das trevas
do vale do não-saber
a única palavra as línguas formam sem intercessão,

sim...sim...?


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 59-61

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Galway Kinnell - O chamamento através do vale do não saber (cont.)

3

E no entanto penso
deve ser a ferida, a própria ferida,
que nos permite saber e amar,
que nos força a alcançar o nosso desajuste
e por uma espécie
de poesia da alma, aperfeiçoar,
por um momento, a completude o Grego bêbado
extrapolou da sua coxa
ou flagelou de um coração esvaziado,

essa concumbência,
mais pura e trágica, estranhos
abraçados num só, um momento, do seu momento na terra


4

Ela que se deita meio
a meu lado – ela e eu uma vez
vimos as abelhas, ainda não sonhadores
mergulhados nos ácidos
da ânsia por qualquer coisa, ainda não queimados a moscas, sugando
o pó-desabrochado
da pereira em flor,
os dois
deitados juntos
debaixo da árvore, na terra, ao lado das nossas roupas vazias,
os nossos corpos abertos para o céu,
e as flores cintilando no céu,
boiaram até ao chão
e as abelhas cintilaram nos botões
e os corpos dos nossos corações
abriram-se
sob o conhecimento
de árvore, na relva do conhecimento
de campas, e entre as flores de flores.

E o cérebro continuou a florescer
através de todo o corpo, até que os ossos podiam pensar,
e os genitais emanaram onda atrás de onda de desejo sagrado
que até mesmo as células cerebrais mortas
se ergueram e se sentiram fantasias andróginas, quase divinas –
e compreendi
o falo do unicórnio poder-se-ia ter levantado, afinal,
directamente saído do próprio pensamento.


inn Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin, 1971: 58-59.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Galway Kinnell - VIII. O Chamamento através do vale do não saber


1

Na casa vermelha afundando-se
no chão apodrecido, uma lanterna
numa janela, as cinzas ajuntadas deixavam
uma única chama livre,
um sapato de um ferro sonhado pregado à parede,
duas metades incompatíveis deitadas lado a lado nas trevas,
eu posso sentir com a minha mão
o feto despertando-se
com um enorme zurzido de peixe, e assentando-se nas suas trevas.

O seu cabelo brilhando à luz da fogueira,
os seus seios cheios,
a sua barriga inchada,
um pôr-de-sol de fogo
oscilando tudo para um lado, a minha esposa dorme ainda,
feliz,
ao longe, num qualquer
recentemente aberto quarto do mundo.


2

Suor caindo das suas têmporas
Aristófanes fugiu
perante a boca – inventou tudo, pesadelizou tudo
no calor
desse momento que nos esfaqueou desde então:
que cada um de nós
é uma metade despedaçada
de cuja parte perdida procuramos através do tempo
até que morremos, ou desistimos –
ou a encontramos de facto:

tal como eu, num DC-6
das Linhas Aéreas Ozark zumbindo sobre
vilas feitas de encruzilhadas, dirigido
a Waterloo, Iowa, a encontrei de facto,
segurando o seu rosto por algumas horas
nas minhas mãos; e por razões – covardia,
lealdades, tudo isso que vai pelo nome «necessidade» –
a deixei...


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares. Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 57-58

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Galway Kinnell - A CABELEIRA RALA À LUA DA PEQUENA DORMINHOCA (fim)


5

Se num dia acontecer
tu te encontres com alguém que amas
num café num dos fins
da Pont Mirabeau, no bar de zinco
onde o vinho branco fica em copos de abertura para cima,

e se cometeres, como nós o fizemos, o erro
de pensar,
um dia tudo isto será apenas uma memória,

aprende,
enquanto permaneces,
nesse fim da ponte que se arqueia,
do amor, tu pensas, para um duradouro amor,
aprende a chegar mais fundo
até às mágoas
a vir – a tocar
os ossos quase imaginários
sob a face, a ouvir sob o riso
o grito do vento ao longo das pedras negras. Beija
a boca
que te diz, aqui,
aqui é o mundo. Esta boca. Este riso. Estes ossos temporais.

A cadência ainda não dançada do desaparecimento.


6

Na luz a lua
reenvia, vejo-o nos teus olhos

a mão que uma vez acenou
nos olhos do meu pai, um pequeno papagaio
oscilando nas alturas no crepúsculo do seu último olhar:

e o anjo
de todas as coisas mortais larga o fio.


7

Volta agora, para o teu berço.

O último melro ilumina as suas asas douradas: adeus.
Os teus olhos fecham-se dentro da tua cabeça,
em sono. Já
as horas começam a cantar nos teus sonhos.

Cabeleira rala à luz da lua da pequena dorminhoca,
quando voltar
sairemos juntos,
caminharemos juntos por entre
as dez mil coisas,
cada uma rabiscada demasiado tarde com tanta sabedoria, o tributo
de morrer é o amor.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 51-53.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Galway Kinnell - A cabeleira rala à lua da pequena dorminhoca (cont.)



3

Uma vez num restaurante, todos
comendo silenciosamente, tu escalaste
para o meu colo: a todos
os bocados que subiam para
todas as bocas, do topo da tua voz
exclamaste
a tua única palavra, caca! caca! caca!
cada colher cheia
parou, um momento, suspensa, no seu vapor
secando.

Sim,
tu abraçaste porque
eu, como tu, mas mais cedo
do que tu, irei
pelo trilho dos alfabetos sumidos,
o sentido de nenhuma estrada
para o outro lado das trevas,
os teus braços
como os sapatos deixados para trás,
como os adjectivos nos discursos hesitantes
de homens velhos,
que um dia souberam os substantivos perdidos.


4

E tu própria,
numa qualquer Terça-feira impossível
do ano Dois Mil e Nove, sairás
por entre as pedras negras
do campo, sob a chuva,

e as pedras a dizer
na sua única palavra, ci-gît, ci-gît, ci-gît,

e as gotas de chuva
batendo-te na fontanela
uma e outra vez, e tu aí de pé
incapaz de as deixar entrar.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflinn, 1971: 50-51

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Galway Kinnel - A CABELEIRA RALA À LUA DA PEQUENA DORMINHOCA


1

Tu gritas, acordando de um pesadelo.

Quando sonambulo
até ao teu quarto, e te pego ao colo,
e ergo-te à luz da lua, tu abraças-me
com força,
como se o abraçar nos pudesse salvar. Eu penso
que tu pensas
eu nunca irei morrer, eu penso que exsudo
para ti a permanência do fumo ou de estrelas,
mesmo quando
os meus braços partidos se saram em torno de ti.


2

Escutei-te a dizer
ao sol, não desças, permaneci
enquanto dizias à flor, não envelheças,
não morras. Pequena Maud,

Eu apagaria a chama da tua chávena de prata,
Eu sugaria a podridão da tua unha,
Eu escovaria a luz moribunda da tua cabeleira rala,
Eu rasparia a ferrugem dos teus ossos de marfim,
Eu ajudaria a morte a escapar-se pelas pequenas costelas do teu corpo,
Eu alquemizaria as cinzas do teu berço de novo em madeira,
Eu nunca deixaria nada de ti desaparecer, nunca,
até que lavadeiras
sintam as roupas adormecer nas suas mãos,
e galinhas arranhem o seu feitiço ao longo das lâminas de machadinhas,
e ratazanas fujam das culturas da peste,
e ferro torça as armas em direcção do verdadeiro norte,
e unto se recuse a deslizar na maquinaria do progresso,
e homens se sintam tão livres na terra como pulgas nos corpos de homens,
e amantes cessem de sussurrar à presença a seu lado no escuro, Oh cadáver-a-ser...

E no entanto é talvez esta a razão por que choras,
este o pesadelo do qual acordas a gritar:
permanecer para sempre
no pré-tremor de uma casa que cai.


in Galway Kinnel, The Book of Nightmares, Boston and New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 49-50

terça-feira, 12 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os mortos erguer-se-ão incorruptíveis (fim)


5
Na vala
cobras rastejam frios trilhos
ao longo da coxa apodrecida, os ossos dos dedos do pé
estremecem no cheiro de borracha queimada,
a barriga
abre-se como uma flor nocturna venenosa,
a língua evaporou-se,
os pêlos
da narina aspergem-se com um pó branco amarelado,
as cinco chamas no fim
de cada mão apagaram-se, um mosquito
beberica uma última refeição deste prato de serenidade.

E a mosca,
o derradeiro pesadelo, desova-se a si mesma.


6
Corri
de pescoço partido corri
amparando a minha cabeça com ambas as mãos corri
pensando as chamas
as chamas poderão queimar o oboé
mas escuta amigo elas não podem tocar nas notas!


7
Alguns ossos
jazem entre o fumo de ossos.

Membranas,
efígies prensadas na relva,
meandros mumificados,
descamações,
colchões flácidos incinerados dão-se ao mundo,
memórias deixadas em espelhos nos tectos de bordéis,
asas de anjos
marcadas nas neves de antanho,

ajoelha-te
na terra queimada
nos contornos de homens e animais:

não deixeis que esta hora passe,
não retireis este último copo de veneno dos nossos lábios.

E um vento suspendendo
o gritos de sexo de todas as nossas noites e dias
move-se por entre as pedras, à caça
de dois esqueletos entrelaçados para soprar neles o seu grito final.

Tenente!
Este cadáver não parará de arder!


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 44-45

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os mortos erguer-se-ão incorruptíveis (cont.)


3
No ecrã da televisão:

Tem um corpo que sua?
Suor que tem odor?
Dentes falsos agarrando-se ao seu pequeno-almoço?
Tem receios?
Uma dor de cabeça tão perpétua que lhe sobreviverá?
Sovacos plenos de pêlos?
Hemorroidas tão grandes que não precisa de uma cadeira para se sentar à mesa?

Poderemos nem todos dormir, mas todos seremos transformados...


4
No Vigésimo Século do meu trespasse na terra,
tendo exterminado um bilião de pagãos,
heréticos, Judeus, Muçulmanos, bruxas, aventureiros místicos,
homens pretos, Asiáticos, e irmãos Cristãos,
cada um deles para o seu próprio bem,

todo um continente de homens vermelhos por viverem numa comunidade antinatural
e ao mesmo tempo tendo relações com a terra,
um bilião de espécies de animais por serem sub-humanas,
e pronto a acometer nas criaturas sanguinárias dos outros planetas,
Eu, homem Cristão, gemo este testamento da minha última vontade.

Eu dou do meu sangue cinquenta partes poliestireno,
vinte e cinco partes benzeno, vinte e cinco partes da boa velha gasolina,
ao último piloto de bombardeiro lá no alto, para que haja um acre
no mundo enfadonho onde possa florir uma flor-do-beijo,
que te beija tão longamente os teus ossos explodem nos seus lábios.

A minha língua vai para o Secretário dos Mortos
para dizer aos cadáveres, “As minhas desculpas, companheiros,
a matança foi uma daquelas coisas
difíceis de pré-visualizar – como a vaca,
digamos, ser atingida por um relâmpago.”

O meu estômago, que digeriu
quatrocentos tratados dando aos Índios
um direito eterno à sua terra, eu dou aos Índios,
também os meus pulmões que passaram quatrocentos anos
sugando em boa-fé por cachimbos da paz.

A minha alma deixo-a à abelha
que a possa picar e morrer, o meu cérebro
à mosca, as suas costas a histérica cor verde do limo,
que o possa sugar e morrer, a minha carne ao publicista,
o anti-prostituta, que por dinheiro abomina a carne humana.

Atribuo a minha espinha tortuosa
ao fazedor de dados, que dela faça dados,
por ter lançado a sorte a quem verá o seu próprio sangue
na frente da camisola e quem será seu irmão,
porque a corrida não é para o veloz mas para o desonesto.

Para o último sobrevivente na terra
eu dou as minhas pestanas usadas pelo medo, use-as nas
longas noites de radiação e silêncio,
para que os seus olhos não se fechem, porque o remorso
é como lágrimas infiltrando-se pelas pálpebras fechadas.

Dou ao vazio a minha mão: o mindinho não mais esgaravata narizes,
a escória prende-se à negra vara do anelar,
um pouco de chama inflama-se na ponta do dedo de vai-te-foder,
o indicador acusa o coração, que desapareceu,
no toco do meu polegar um fogacho pede boleia para o vazio.

No Vigésimo Século do meu pesadelo
na terra, juro pelos meus testículos de crómio
neste testamento
e última vontade
da minha vontade de ferro, o meu medo de amor, a minha comichão por dinheiro, e a minha loucura.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 42-44.

sábado, 9 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os Mortos Erguer-se-ão Incorruptíveis


1
Um pedaço de carne emite
fumo no campo –

carniça,
caput mortuum,
restos,
lucros,
óleos,
incrustações,
miudezas despejadas de caixotes de lixo de hospitais.

Tenente!
Este cadáver não parará de arder!


2
“É você Capitão? Claro,
claro que me lembro – ainda o ouço
a dar-me uma lição no intercomunicador, Mantenha as suas armas ao alto, Burnsie!
e depois a gritar, Pare de disparar, por amor de deus, Burnsie,
esses são amistosos! Mas por amor de deus, Capitão,
eu já tinha começado, rajada
atrás de rajada, pequenos pijamas negros a saltar
e a cair... e lembra-se daquele piloto
que se pisgou para o Norte,
como o desfiz a categute nas suas próprias cordas?
um dos seus olhos tortos, um pedaço
do seu sorriso, vogava por mim
todas as noites logo após o comprimido para dormir...

“Era só
porque adorava o som
delas, acho que apenas adorava
a sensação de faiscarem nas minhas mãos...”


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 41-42

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Galway Kinnell - No hotel da luz perdida


5
Hematomas violetas surgem
por toda a sua pele, à medida
que punhos invisíveis lhe sovam um última vez; o lamento
do sangue de ónfalos recomeça, o umbigo
inchado explode, o pesadelo
carnal eleva-se de volta para o princípio.

6
Quanto aos ossos a serem lançados
no aceldama atrás da loja de cerâmica, entre
fragmentos e caroços
que apanharam o vórtice e caíram
na lama, ou rastejaram para fora do fogo
alucinados ou explodidos, eles reerguer-se-ão
na pereira, na primavera, para iluminarem
em dois apertos o que sonharam ser um e o outro.

Quanto a estas palavras dispersadas no futuro –
posteridade
é uma inventada tão no seu passado
sequer se ouvem.

7
O que precede foi traçado
em Março, do ano Setenta,
na minha décima sexta milionésima noite de guerra e loucura,
no Hotel da Luz Perdida, debaixo da autoestrada
que ruma para as trevas
da lua, no absoluto encanto
da partida, e pela luz
dos hemisférios unidos dos olhos da aranha.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 37-38.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Galway Kinnell - No Hotel da Luz Perdida



3
Carne
da sua desaterrada carne,
cheia do seu vazio,
pós-amanuence da sua pós-vida,
eu escrevo
por ele neste definhado alfabeto
de vermes, estas suas últimas
palavras, envio por ele
o seu derradeiro postal para a posteridade.


4
“Eu sentei-me junto do fogacho que se iluminava com a gordura derramando-se dos membros borbulhentos da galinha,
Eu desmaiei no esquecimento junto àquela fenda na curva onde os malmequeres nascem,
Eu vi a roda gigante escrevendo os seus zeros enormes e desolados a néon nos céus nocturnos,
Eu pintei as solas dos meus pés de púrpura para esse dia em que a bela cor se mostraria,
Eu titubeei sentenças de morte ao longo de ruas vazias, as calçadas asseguraram-me, assim será.
Escutei os meus próprios choros já bramidos para dentro de garrafas que as ondas naufragam nas praias,
Eu escrevi como outro as minhas próprias preces no corpo-árabe dos pesadelos.

“Se o porteiro bater, queixando-se de novo
acerca do cheiro doce, excrementício de cadáver aberto rastejando
por debaixo da porta, diz-lhe, 'Amigo, Para Viver
tem um primo pobre,
que chega hoje à noite, que pronuncia o nome de família
Parta, ela
muda a cada visita os trapos de carne nos seus ossos.'”


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 36-37

sábado, 14 de abril de 2018

Galway Kinnell - NO HOTEL DA LUZ PERDIDA


1
Na cova
da minha mão esquerda morreu o cheiro bêbado
de autópsias, o meu corpo desabou
para a sua forma, observo, tal como
ele deve ter observado, uma mosca
enleada no adesivo, chorando as suas asas,
completamente concentrado no
tempo, tempo, perdendo o seu norte pior
descendo a escadaria em caracol, as suas asas
chorando por vida enquanto se paralisa
no olhar contemplativo
do abraço do prosencéfalo da aranha, o abstracto arregalar
no qual até mesmo o pesadelo cospe os seus horrores
e morre.

Agora a mosca
cessa de lutar, as suas asas
alvoroçam a música nascendo com o falhanço
de alguém que se prepara para morrer, como o olifante de Rolando, resumando
lá dos Pirinéus, salvou os seus flancos escuros e cheios
para o fim.


2
Na luz
esquecida pelas pequenas
aranhas de sangue que deturparam
as suas memórias ao longo dos seus ombros
e peito, o quarto
ecoa com os mínimos batuques
de pêlos púbicos arrancando-se
dos seus lugares; na pele despida
os apaixonados piolhos
lutam por se descolarem e fugirem da posição condenada –

e param,
cabeças enterradas
para um último trago da amada-carne.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Houghton Mifflin Company, Boston & New York, 1971: 35-36

sábado, 2 de dezembro de 2017

Galway Kinnell - Cara estranha existindo na memória à beira do Juniata azul (conclusão)


5

Nesta margem – a nossa margem –
da desaparecida água azul, tu deitas-te,
chorando no teu leito, escutando esses
mínimos
temíveis estrondos
de despedidas trespassando os bosques virginais no crepúsculo.

Também eu comi
as refeições do litoral negro. No próprio
colchão do tempo, onde um trapo com a forma de um corpo
está deitado junto a um trapo – sepulturas
para onde são lançados
por aqueles que vieram antes,
amantes,
ou amigos queridos,
ou estranhos,
que aqui amaram,
ou aqui enterraram os seus dentes de pesadelo,
ou afugentaram os seus engates,
o sagrado sino tine a cada hora para morrer contra a cidade de folha de vidro –

deito-me sem dormir, lembrando
o corpo maduro
da galinha, o calor da carne da galinha
assustando as minhas mãos,
todos os seus desejos,
todos os seus cheiros de morte,
florescendo uma vez mais na noite estrelada. E depois a espera –

não longa, concedo, mas por toda a minha vida –
pelo suave, pequeno
baque do seu retorno entre as pedras.

Poderá alguma vez ser verdade –
todos os corpos, um só corpo, uma luz
a união feita das trevas de cada um?


6

Caro Galway,
                     Não tenho a quem recorrer porque Deus é meu inimigo. Ele deu-me a luxúria e o prazer e cortou-me as mãos. O meu cérebro está sufocado com o seu sangue. Perguntei porque hei-de amar este corpo que temo. Ele disse, É tão magnificente que nunca mais pode ser perfilado – meu caixão, querido e brilhante. Nunca te orgulhaste tanto de uma coisa que a quisesses para a tua presa? A sua voz estrangula a minha garganta. Alma de áspides, senhor e captor: ele quer matar-me. Perdoe a minha cegueira.  
A sua, nas trevas,
Virginia

7

Cara estranha
existindo na memória à beira do Juniata azul,
estas cartas
através do tempo creio eu
serão a única coisa que saberemos um do outro.

Tão pouco o que cada um é desfia-se a si mesmo pelo olho
de um espaço vazio.

Esqueça.
O eu não é o pior de tudo.
Que as nossas cicatrizes se apaixonem.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 29-31.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Galway Kinnell - Cara estranha existindo na memória junto ao Juniata azul (cont.)



3

Ao crepúsculo, à beira do Juniata azul –
“uma América rural,” dizia a revista,
“agora desaparecida, mas existindo na memória,
um jardim primordial perdido para sempre...”
(“Estás a ver,” disse à Mamã, “nós só pensamos que estivemos aqui...” –
os caçadores de raízes
vão para as florestas, arrancam
raízes-de-amor das clareiras virginais, dobram
os caules com as alças das pás
levantam-nas, o enorme,
grave, estrondo
final à medida que as raízes se separam do seu lugar.


4

Pegue numa chaleira
de água azul.
Ferva sobre um torcido lume
de cinzas de madeira. Moa a raiz.
Ponha dentro. Deixe macerar. Reaqueça
sobre as cinzas cinzas. Engarrafe.
Rolhe com um polegar
de um morto. Amadureça
por quarenta dias em esterco de cavalo
num lugar selvagem. Beba.
Durma.

E quando acordar –
se acordar – será no ano sótico
feito pelos selvagens crescidos
dos fragmentos todos inacabados
dos anos passados, sobras
e abandonos da mortalidade do tempo
não poderiam triturar para a sua refeição de sangue e riso.

E se houver mais um amor
a ser reconhecido, mais um poema
a ser aberto para a vida,
encontrá-lo-ás aqui
ou em lado algum. A tua mão mover-se-á
por si própria
ao longo da via curva, atraída
pelo terror e a lura medonha
do vácuo:

um rosto materializa-se nas tuas mãos,
na absoluta brancura de páginas
um poema escreve-se a si mesmo: o seu título – o sonho
de todos os poemas e o texto
de todos os amores – “Ternura em relação à Existência.”


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 28-29