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domingo, 26 de dezembro de 2010

poema antigo (revisão)

encontrei-te, menina, um sapato
boiando na sarjeta, entre o sufoco
de querer falar e ser ouvida.
nos teus olhos de água gelada
iluminavam-se os relâmpagos
de uma tarde de Dezembro.

depois partimos, cabeça
entre o pescoço e clavícula.
eu, com uma barba de trazer por casa,
e tu, com o sorriso de guarda-chuva,

alçámos velas nas nossas pálpebras,
cobertas as pestanas com lírios,
para adormecer e eclipsar
a lua de vergonha.

domingo, 12 de dezembro de 2010

poema antigo (revisão)

nesse abismo que vai
de mim a ti
a ponte é a pupila
esquiva e felina
que nos despe

pouca diferença há
entre a cadeira de verga
e o entrançar das pernas

diz adeus ao dia
(o medo já não nos segreda
pelos músculos cansados)
a pouca luz já
espreita, fruto maduro. os sonhos
confundem-se com estranhos
bons-dias, conversas
murmuradas, repetidas

sábado, 20 de novembro de 2010

dois poemas antigos (revisão)

a tua respiração ondula
quando a minha mão
passeia pelas tuas costas
curva e estala sob o meu aperto

trocamos o ar
face frente a face
as palavras humedecidas
quentes junto ao sexo
o anel carnudo dos teus lábios de
cereja madura por trincar

serei talvez uma eterna criança até
à morte sob esta barba que tenho de fingir
toda uma arte de esconder a ignorância e a verdura
mas já o outono nos ossos e tarda
o rebento no útero.
os olhos vão pela noite.

amor
um piscar de olhos
estas palavras escritas no ar
reverberando dentro das paredes e
voltando a nós. isto é
um espelho de moscovite

um pouco de carne
nesta cama suada
um cinzeiro de segredos cinza e glossolália

e
nós dois a dormir

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a luz um peixe
dourado nos olhos
passa como uma lâmina
e o frio junta-se à garganta.

outono, espinho de rosa seca
mel acobreado em lábios bruscos

dois dedos passam nos lábios um do outro
batôn, argila ao sol
novo mapa, mercado negro
de beijos, as nuvens cortadas

a chuva preparada para mais tarde
além colinas de cinza e carvão

(partimos para o lado oposto das nuvens)