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segunda-feira, 21 de setembro de 2026
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Informação - novo livro de poesia "Pôr uma pedra", com posfácio de Vitor Gonçalves e editado pela Bicho de sete cabeças
este livro pode ser adquirido online pela Clube de Autores
quarta-feira, 9 de julho de 2025
A sair pela Companhia das Ilhas: O silêncio num campo cantado pelo vento
O silêncio num campo cantado pelo vento
Fernando Machado Silva
"(...) conhecemos o pó e a cinza
do teu nome e sonhos
mas não nos conhecemos mais
o cansaço deixa-nos cegos"
Encomendas e venda directa pedidos para: companhiadasilhas.lda@gmail.com
domingo, 19 de janeiro de 2025
Agita as águas, rompe o silêncio (novo livro já à venda)
mais informações aqui
nota da badana:
A poesia em prosa de Fernando Machado Silva consagra-se novamente em duas obras complementares, que confirmam a assinatura perene e simultaneamente fluída do autor. Em sua nova obra "Agita as Águas. Rompe o Silêncio", o autor traz-nos dois livros, duas narrativas que entrelaçam ficção e sentimento. Os sujeitos poéticos apresentam-se com familiaridade entre si e com o leitor, através de um jogo de espelhos vibrante e perturbador. No primeiro livro, "Agita as águas, rompe o silêncio: uma carta perdida de Johannes", acessamos uma paisagem de sentidos perdidos na neblina escaldante de um segredo. O leitor pode ser cúmplice ou denunciante diante de um paradoxo filosófico e ético, em uma narrativa de turbilhão, em que os sentimentos afloram e correm feito um rio revolto. No segundo livro inserido na obra, o poeta-prosador conduz-nos por um novo mistério através do olhar observante e de testemunho do sujeito poético em "A quem devemos este deserto que alastra em cada mão: uma novela vedântica", que vicia-nos na espreita de uma porta entreaberta, cujo interior permanece encoberto pelas falas das personagens Jiva, Atman e Jivatman. Nesta obra única, Fernando traz um sentido político e holístico para a linguagem, indissociável da questão ética, com as hesitações, as dúvidas e as fragilidades humanas, em seu ininterrupto diálogo com o eterno.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2024
terça-feira, 17 de setembro de 2024
quarta-feira, 6 de julho de 2022
Henrique Manuel Bento Fialho - BELEZA ENTRE DESTROÇOS (posfácio a "Às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem")
Ao pensar na mais recente poesia portuguesa ocorrem-me poucas vozes que tenham cativado pelo factor surpresa, sugerindo uma originalidade que não é, de todo, o mais fácil conseguimento no labor de um poeta. Quem leia muita poesia corre o risco da previsibilidade, mas também sabe que uma das vantagens desse risco é a qualquer momento poder ser surpreendido por um verso, por uma linguagem que ouse confrontar a ordem estabelecida mais do que prestar-lhe vassalagem.
Fernando Machado Silva (n. 1979) é uma das vozes que me cativou desde a primeira hora, quando li o seu livro de estreia intitulado “primeira viagem” (Orfeu, 2012). Então assinalei, a propósito dessa leitura iniciática, alguns motivos de interesse vislumbrados no universo daquele livro em concreto: a deslocação da urbe para o campo, a opção pela auto-ironia em detrimento de um pessimismo de pacotilha usado por quem anda com a ruína pendurada ao pescoço, certo confessionalismo que teatralizava imagens recorrentes no tecido exigente dos chamados temas nobres.
O que posteriormente foi ficando mais claro é a forte relação desta poesia com o conceito de viagem, desde logo explícita no título do primeiro livro, mas subsequentemente reforçada na figura do passageiro. Assim é por haver nestes poemas um vínculo indisfarçável entre vida vivida e poesia, tratando-se aqui da vida enquanto viagem cuja característica mais evidente deverá ser a da transitoriedade. À deslocação no espaço corresponde, portanto, uma deslocação no tempo, deslocação esta subsidiada pela memória e materializada, por exemplo, em vários versos onde infância e adolescência surgem como pano de fundo.
Se os lugares geográficos aludidos indicam deslocação espacial, já os lugares da memória remetem para deslocações no tempo. É desta relação entre espaço e tempo que o poema assoma de um “longo sono”, espécie de lava expelida no decorrer de um processo de escrita eminentemente eruptivo. O próprio título desta colectânea, pedido de empréstimo a Clarice Lispector, parece pretender ironizar tal processo, associando o acto de escrever ao gesto de acordar. Sendo dócil, não deixa também esse gesto de conter em si a violência de um encontro com o “abismo da desordem”, ou seja, o plano da existência.
A poesia de Fernando Machado Silva adopta, então, a índole vigilante de um tempo que é o da vida vivida, consubstanciando-se em conjuntos determinados pelo período a que os poemas correspondem. Não podendo chamar-se-lhe “diarística” sem incorrer no risco de uma extrema simplificação, podemos preferencialmente anotar cuidado e rigor na arrumação dos poemas em conjuntos pautados por temas e pela vibração própria dos versos. E este é, talvez, um dos aspectos mais interessantes a sublinhar, já que em nenhum momento se omite o apelo de uma respiração própria, ligada a práticas ancestrais de meditação como facilmente depreenderá o leitor do conjunto aqui coligido sob o título “para uma aprendizagem”.
Nesta proximidade que mantém à vida, o poema não escapa às armadilhas da linguagem poética. O que o distingue da frugal anotação diarística é o poder das imagens e das metáforas que ampliam o campo semântico, desde logo introduzido no primeiro conjunto com o título oportuno “as horas para um poema”. Podemos ler todo esse conjunto como quem lê uma ars poetica, por nele ficar delimitada a disciplina de um autor que não prescinde do fulgor das trevas, passe o paradoxo, para o exercício da sua arte. A própria distribuição das palavras na página oferece ao texto uma configuração que o liberta de constrangimentos, marcando o ritmo com pausas, silêncios, vazios de que o poema nasce como das trevas nasceu a luz e dos olhos fechados em sono profundo nasce a imagem reveladora de um sonho.
São muitas as referências implícitas e explícitas ao longo do livro, pelo que seria fastidioso enumerá-las num apontamento de leitura que vai mais extenso do que devia. Encontramos pontos de encontro entre essas referências e os poemas, manifestações de afecto, processos de identificação. Mas encontramos também um fascínio pelo oculto, pelo esotérico, pelo mítico e até pelo místico que não são de todo comuns na nossa poesia mais recente. Não deixa de ser curioso, todavia, que tais encontros se dêem a par de uma postura contemplativa que, tendo a natureza por objecto, se nos apresenta mais arreigada à terra do que a matérias do invisível.
Na sequência intitulada “da tristeza e do amor do mar de julho” é perceptível o modo como à sublimação da natureza corresponde um relance crítico acerca do lugar ocupado pelo homem no seio dessa natureza. Por outro lado, no conjunto excelentemente intitulado “trazer a dor à luz” parece despontar uma relação furiosa com o sagrado. De conjunto para conjunto torna-se-nos então possível construir uma narrativa que transcende já as coordenadas do tempo e do espaço, porque ela é a dos dias consumados entre uma experiência de vida e uma ideia de morte. Um título como o do poema “cinzas sobre raízes” dá bem conta deste labor que, no fundo, não mais procura do que sempre foi missão dos poetas procurar: um nome para a beleza que se move entre destroços.
Henrique Manuel Bento Fialho
Caldas da Rainha, 21/Outubro/2019
terça-feira, 24 de maio de 2022
Às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem
O meu mais recente livro de poesia, com posfácio de Henrique Manuel Bento Fialho (a quem muito agradeço e pelas sugestões aos poemas), pode já ser adquirido. Basta clicar na imagem ao lado.
domingo, 24 de abril de 2022
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Inefável 17#
Nota do editor Pedro Silva Sena:
https://inefavelsite.wordpress.com/17-2/
"Neste número começamos por evocar Camilo Pessanha, assinalando assim o centenário da primeira edição deClepsydra. Em seguida, damos página, novamente, a um "reincidente" da Inefável (Mark Anthony Pearce), publicando também um édito de Maria Estela Guedes e inéditos de Fernando Machado Silva - o qual assina a tradução de um conjunto de poemas de Galway Kinnell. A fechar, o editor traduz mais um poema-letra de canção de Fabrizio de André («Via del Campo») e conclui com duas sugestões de leitura em meio electrónico."
sexta-feira, 27 de março de 2020
terça-feira, 18 de junho de 2019
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
sábado, 3 de novembro de 2018
Informação - Revista três três número 8, lançamento
"No próximo dia 17 de novembro, sábado, pelas 16h, a revista três três lança o seu oitavo número, sob o tema "Autor". Será no bar Toca da Onça, em Caldas da Rainha. Temos a honra de contar com João Bonifácio Serra a apresentar esta edição.
Contamos com todos!
Um abraço
-- Os Coordenadores editoriais --"
(participo com um poema)
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Informação - "Para um outro dia Lázaro" já disponível
o novo volume de poemas "para um outro dia lázaro", encontra-se já disponível. para adquiri-lo basta clicar aqui ou na imagem aí ao lado e seguir as instruções da enfermaria 6.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
O mal de Quixote - uma leitura em torno de "O homem que matou D.Quixote" de Terry Gilliam
Como muitos outros filmes de Terry Gilliam o realizador explora o fantástico da literatura, misturando-o com a realidade cinematográfica, ela própria uma ficção paralela à realidade exterior da película. Desta vez, a figura que Gilliam recupera é o cavaleiro do séc.xvii D. Quixote de la Mancha, personagem da obra-prima de Miguel de Cervantes. A linha sobre a qual Gilliam assenta a sua «narrativa» é a do jovem criador em luta consigo próprio enquanto busca a excitante extravagância da sua primeira obra, que lhe granjeia a fama. Toby é um jovem realizador considerado, pelo mundo cinematográfico e pela companhia que o rodeia, como um génio, com fama adquirida após ter rodado o seu primeiro filme, um projecto final universitário, intitulado "o Homem qu matou D. Quixote", criado uns dez anos antes da nova produção, justamente aquela que assistimos estar ele a criar enquanto espectadores. A nova criação não é senão uma recriação do romance "D. Quixote".
Dez anos separa as duas criações e, ao longo do filme que assistimos, podemos dar conta o que distancia o criador no seu carácter de um e outro Quixote: de um lado, o jovem realizador, sonhador, inventivo com o pouco que tem, atento aos acasos que o rodeiam, aventureiro; do outro lado, um realizador como que inflamado pela fama, cínico, afectado no seu comportamento, arrogante, desesperançado e vazio de ideias. Outrora rodeado de amigos, ligado pelo amor à arte cinematográfica, agora por aduladores e manipuladores guiados pelo dinheiro. O realizador está, podemos ver, em crise, descrente da sua visão, pressionado pelos investidores, encurralado, mas prossegue, estando já ele corrompido pelo seu caminho cínico. Uma luz surge, porém, que desperta nele a chama dos sonhos da juventude, quando, angustiado no seu vazio e asfixiado pelas pressões, o director da produtora do novo filme, uma recriação de D. Quixote, lhe sugere, por mero acaso, ou escrutínio dos deuses, que assista ao seu primeiro filme, ao seu primeiro Quixote. Oferece-lhe o DVD dessa versão comprando-o a um cigano que, ao longo da película que assistimos, intervém sempre em momentos cruciais - críticos no seu sentido etimológico, de decisão vital, de escolha - exactamente como o dessa reunião com os investidores e a equipa (NOTA: seria interessante questionar o papel desse cigano ao lado de outras personagens similares da obra de Gilliam, tal como o Diabo Tom Waits, o Anjo da Morte em Barão Münchausen, ente outros).
Não falarei da aventura que antecede o visionamento do DVD, um momento cómico entre vários desta comédia «filosófica», mas o que nos é sugerido quando Toby visiona o seu primeiro filme: ele é confrontado com a «inocência criativa», a inocência que é capaz de derrubar as convenções. Ele é tomado pela nostalgia e no dia seguinte da rodagem, num contratempo, vai de visita à aldeia onde foi filmado o seu primeiro projecto, em busca das personagens reais que viveram na sua película, Angélica/Dulcineia (num belo trabalho da actriz portuguesa Joana Ribeiro), Javier/Quixote, apenas para descobrir que a sua estadia dez anos atrás provocou um mal acerbo à pequena aldeia e seus habitantes, perdidos e estagnados no tempo do cenário - não na vida ou na dor que cada um carrega. Angélica, enlevada pelo sonho do cinema e pelas palavras sedutoras de Toby procurou a sua sorte em Madrid e Barcelona para, no fim, sem sorte nesse trilho, acabas nas mãos de um magnata do vodka, um russo caprichoso que a maltrata; Javier, um simples sapateiro, pacífico e oco de violência, que levava Toby ao desespero porque não «encarnava» o D. Quixote, afinal, crê-se ser o próprio, o verdadeiro D. Quixote nascido no ano de 1600 e incapaz de morrer, preso por um feitiço de Malandrino - o momento de encarnar a personagem é-nos oferecido como o instante em que Javier relembra a sua verdadeira vida, ele é D. Quixote, ele não está a representar; aqui temos um momento de reencarnação, ou metempsicose: Javier é a personagem que Quixote representa no século xx e tão bem que se esqueceu ser Quixote, ou tendo nascido no século xx e vivido enquanto Javier, a releitura das suas aventuras, o forçar da sua revivência provoca o desvanecimento da consciência-Javier para revelar a verdadeira essência-Quixote.
A possessão ou encarnação deu-se, aliás, durante a rodagem, vemos isso à medida que Toby relembra o passado. Toby encontra Javier/Quixote encerrado numa carruagem, como se fosse uma atracção de um circo de curiosidades - o «freak» da língua anglo-saxónica - libertando-o por acidente, provocando na sua fuga um incêndio na aldeia. Mais tarde, a Guardia Civil aparece no local das rodagens tendo como prisioneiro o cigano que lhe vendeu o DVD, falsamente acusado de roubo por Toby e a mulher do presidente da produtora, para se ilibarem do adultério que iriam realizar, impedido pela chegada imprevista do marido. Toby é levado prisioneiro como suspeito do incêndio e partilha o jipe com este «espírito aventureiro»; e eis quando a aventura finalmente começa.
D. Quixote intervém e salva o seu escudeiro Sancho Pança/Toby. É também aqui, quando Toby veste as roupas de Sancho Pança trazidas por D. Quixote, que a grande questão deste filme arranca. Toby acede a ser Snacho Pança; um Sancho Pança com os pés fixos na realidade e não na ilusão Quixotesca, mas o continuado confronto entre real/ilusão acaba por ceder e Toby principia a «ver» e a aceitar o modo de existência quixotesco. (NOTA: o confronto real/ilusão-ficção salta igualmente para fora da tela, desta vez entre realidade/ficção, ou realidade não-cinematográfica vs. realidade cinematográfica, quando Toby se encontra na tasca do pai de Angélica. Ambos falam em castelhano, porém de modo a facilitar o diálogo, ou o preguiçoso espectador, Toby arreda com a mão, literalmente, as legendas traduzindo o diálogo, dizendo «nós não precisamos disto para nos entendermos», ambos desencadenado o diálogo em inglês, como se, talvez na verdade, cada um falasse a sua língua e se entendessem, como é já corrente em certos filmes e séries em que as personagens falam e conversam nas suas línguas maternas e diferentes e se entendem, por exemplo, Ocean's Eleven com o chinês acrobata).
O filme termina, na verdade, com a morte de D.Quixote. Melhor dito, com a morte do homem que encarnava o «espírito», ou a «alma», ou a «consciência-Quixote», Javier. As suas últimas palavras, como uma confissão de um moribundo, afirmam a sua identidade anterior, um simples sapateiro «com um daqueles rostos capazes de vender apólices de seguro». Despede-se do espírito ficcional retornando à sua identidade real. Mas o espirito não se perdeu; Toby, que lentamente veio a ser infectado pelo «mal de Quixote» - expressão que pisca o olho a Vila-Matas - encarna Quixote. Num instante de desespero livre de todos os constrangimentos, o choque do real - a morte de D.Quixote, a afirmação de uma identidad real que ele já não queria aceitar acreditando já, plenamente, na ilusão-Quixote, enfim, o choque numa crença a que se doou todo o seu coração, falamos desse choque atroz - é a sua consciência que por fim cinde, colapsa. Levando o cadáver de Javier jazendo no dorso de Rocinante, Toby desaparece e é Quixote que renasce para cumprir a sua promessa e viver para sempre, acompanhado de Angélica que, por amor, compromete a sua identidade e devém Sacho Pança, dando um novo sentido à frase «este é o início de uma estranha relação».
Este novo filme de Terry Gilliam tem decerto muitas leituras/interpretações. O que o filme me deu a pensar, naquilo que tem de ensaio filosófico-cinematográfico em torno da identidade e da criação de uma obra de arte - questão que me acode, talvez, porque me perturba, me alicia - é a seguinte e resumidamente (os pontos não têm qualquer relação hierárquica):
1 - O nascimento e morte da ficção vem do real.
2 - A vida da ficção vem da força na sua crença, vivendo-a plenamente
3 - Após a iluminação, a efulgência da primeira criação, o criador vive assombrado, ou seja, à sombra dessa criação e incapaz da sobrepôr, perseguido por esse acontecimento.
4 - Seduzido peal efulgência, o criador trabalha com o intuito de produzir um brilho maior e que apague ou desvaneça a sombra que o angustia.
5 - A assombração remete o criador para a repetição. Ele repete diferentemente a primeira efulgência como recuperação e como forma de sobreposição.
6 - Estando assombrado, o criador é incapaz de viver fora da criação, ao ponto de se despedir do real e abraçar completa e plenamente a obra e a ficção (da obra).
7 - Como caindo num Mäelstrom, o criador arrasta tudo consigo, como que dizendo «se me amas vens comigo até ao fim».
Alguma coisa estará a faltar neste pensamento não amadurecido, mas foi isto que Terry Gilliam me deu a pensar. Toby recria, uma vez mais, D.Quixote após o sucesso do passado, porém, nada lhe satisfaz; Javier vive na ficção que o abraçou e ele a ela, num momento de enorme tensão, livrando-se da ficção quando o real, o mais duro real, a morte, choca e destrói a ficcção; pelo desejo de criar uma obra de arte que se sobreponha à sua obra-prima da junventude, Toby vai cedendo à força da obra, da ficção, substituindo o real pela ficção até ser possuído pela ficção; Angélia, que não queria cair, uma vez mais, enamorada de Toby, aos poucos e poucos cede, culminando a cedência mergulhando-se na espiral, no remoinho em que o próprio Toby caiu, encarnando Sancho Pança, para poder acompanhar e tomar conta do «louco» Quixote, tendo sido, assim, por amor, infectada, também ela, pelo «mal de Quixote». Um mal que me parece o próprio Terry Gilliam sofrer, sendo este filme, em certos aspectos, uma repetição diferente de obras anteriores, tal como o Dr.Parnassos, o Barão de Münchausen, Brazil, desta contínua mistura de ficção e real. D. Quixote cumpre a sua promessa de viver para sempre, não só nos pacientes do «mal de Quixote», como a cada vez que alguém lê ou relê as suas aventuras.
Não falarei da aventura que antecede o visionamento do DVD, um momento cómico entre vários desta comédia «filosófica», mas o que nos é sugerido quando Toby visiona o seu primeiro filme: ele é confrontado com a «inocência criativa», a inocência que é capaz de derrubar as convenções. Ele é tomado pela nostalgia e no dia seguinte da rodagem, num contratempo, vai de visita à aldeia onde foi filmado o seu primeiro projecto, em busca das personagens reais que viveram na sua película, Angélica/Dulcineia (num belo trabalho da actriz portuguesa Joana Ribeiro), Javier/Quixote, apenas para descobrir que a sua estadia dez anos atrás provocou um mal acerbo à pequena aldeia e seus habitantes, perdidos e estagnados no tempo do cenário - não na vida ou na dor que cada um carrega. Angélica, enlevada pelo sonho do cinema e pelas palavras sedutoras de Toby procurou a sua sorte em Madrid e Barcelona para, no fim, sem sorte nesse trilho, acabas nas mãos de um magnata do vodka, um russo caprichoso que a maltrata; Javier, um simples sapateiro, pacífico e oco de violência, que levava Toby ao desespero porque não «encarnava» o D. Quixote, afinal, crê-se ser o próprio, o verdadeiro D. Quixote nascido no ano de 1600 e incapaz de morrer, preso por um feitiço de Malandrino - o momento de encarnar a personagem é-nos oferecido como o instante em que Javier relembra a sua verdadeira vida, ele é D. Quixote, ele não está a representar; aqui temos um momento de reencarnação, ou metempsicose: Javier é a personagem que Quixote representa no século xx e tão bem que se esqueceu ser Quixote, ou tendo nascido no século xx e vivido enquanto Javier, a releitura das suas aventuras, o forçar da sua revivência provoca o desvanecimento da consciência-Javier para revelar a verdadeira essência-Quixote.
A possessão ou encarnação deu-se, aliás, durante a rodagem, vemos isso à medida que Toby relembra o passado. Toby encontra Javier/Quixote encerrado numa carruagem, como se fosse uma atracção de um circo de curiosidades - o «freak» da língua anglo-saxónica - libertando-o por acidente, provocando na sua fuga um incêndio na aldeia. Mais tarde, a Guardia Civil aparece no local das rodagens tendo como prisioneiro o cigano que lhe vendeu o DVD, falsamente acusado de roubo por Toby e a mulher do presidente da produtora, para se ilibarem do adultério que iriam realizar, impedido pela chegada imprevista do marido. Toby é levado prisioneiro como suspeito do incêndio e partilha o jipe com este «espírito aventureiro»; e eis quando a aventura finalmente começa.
D. Quixote intervém e salva o seu escudeiro Sancho Pança/Toby. É também aqui, quando Toby veste as roupas de Sancho Pança trazidas por D. Quixote, que a grande questão deste filme arranca. Toby acede a ser Snacho Pança; um Sancho Pança com os pés fixos na realidade e não na ilusão Quixotesca, mas o continuado confronto entre real/ilusão acaba por ceder e Toby principia a «ver» e a aceitar o modo de existência quixotesco. (NOTA: o confronto real/ilusão-ficção salta igualmente para fora da tela, desta vez entre realidade/ficção, ou realidade não-cinematográfica vs. realidade cinematográfica, quando Toby se encontra na tasca do pai de Angélica. Ambos falam em castelhano, porém de modo a facilitar o diálogo, ou o preguiçoso espectador, Toby arreda com a mão, literalmente, as legendas traduzindo o diálogo, dizendo «nós não precisamos disto para nos entendermos», ambos desencadenado o diálogo em inglês, como se, talvez na verdade, cada um falasse a sua língua e se entendessem, como é já corrente em certos filmes e séries em que as personagens falam e conversam nas suas línguas maternas e diferentes e se entendem, por exemplo, Ocean's Eleven com o chinês acrobata).
O filme termina, na verdade, com a morte de D.Quixote. Melhor dito, com a morte do homem que encarnava o «espírito», ou a «alma», ou a «consciência-Quixote», Javier. As suas últimas palavras, como uma confissão de um moribundo, afirmam a sua identidade anterior, um simples sapateiro «com um daqueles rostos capazes de vender apólices de seguro». Despede-se do espírito ficcional retornando à sua identidade real. Mas o espirito não se perdeu; Toby, que lentamente veio a ser infectado pelo «mal de Quixote» - expressão que pisca o olho a Vila-Matas - encarna Quixote. Num instante de desespero livre de todos os constrangimentos, o choque do real - a morte de D.Quixote, a afirmação de uma identidad real que ele já não queria aceitar acreditando já, plenamente, na ilusão-Quixote, enfim, o choque numa crença a que se doou todo o seu coração, falamos desse choque atroz - é a sua consciência que por fim cinde, colapsa. Levando o cadáver de Javier jazendo no dorso de Rocinante, Toby desaparece e é Quixote que renasce para cumprir a sua promessa e viver para sempre, acompanhado de Angélica que, por amor, compromete a sua identidade e devém Sacho Pança, dando um novo sentido à frase «este é o início de uma estranha relação».
Este novo filme de Terry Gilliam tem decerto muitas leituras/interpretações. O que o filme me deu a pensar, naquilo que tem de ensaio filosófico-cinematográfico em torno da identidade e da criação de uma obra de arte - questão que me acode, talvez, porque me perturba, me alicia - é a seguinte e resumidamente (os pontos não têm qualquer relação hierárquica):
1 - O nascimento e morte da ficção vem do real.
2 - A vida da ficção vem da força na sua crença, vivendo-a plenamente
3 - Após a iluminação, a efulgência da primeira criação, o criador vive assombrado, ou seja, à sombra dessa criação e incapaz da sobrepôr, perseguido por esse acontecimento.
4 - Seduzido peal efulgência, o criador trabalha com o intuito de produzir um brilho maior e que apague ou desvaneça a sombra que o angustia.
5 - A assombração remete o criador para a repetição. Ele repete diferentemente a primeira efulgência como recuperação e como forma de sobreposição.
6 - Estando assombrado, o criador é incapaz de viver fora da criação, ao ponto de se despedir do real e abraçar completa e plenamente a obra e a ficção (da obra).
7 - Como caindo num Mäelstrom, o criador arrasta tudo consigo, como que dizendo «se me amas vens comigo até ao fim».
Alguma coisa estará a faltar neste pensamento não amadurecido, mas foi isto que Terry Gilliam me deu a pensar. Toby recria, uma vez mais, D.Quixote após o sucesso do passado, porém, nada lhe satisfaz; Javier vive na ficção que o abraçou e ele a ela, num momento de enorme tensão, livrando-se da ficção quando o real, o mais duro real, a morte, choca e destrói a ficcção; pelo desejo de criar uma obra de arte que se sobreponha à sua obra-prima da junventude, Toby vai cedendo à força da obra, da ficção, substituindo o real pela ficção até ser possuído pela ficção; Angélia, que não queria cair, uma vez mais, enamorada de Toby, aos poucos e poucos cede, culminando a cedência mergulhando-se na espiral, no remoinho em que o próprio Toby caiu, encarnando Sancho Pança, para poder acompanhar e tomar conta do «louco» Quixote, tendo sido, assim, por amor, infectada, também ela, pelo «mal de Quixote». Um mal que me parece o próprio Terry Gilliam sofrer, sendo este filme, em certos aspectos, uma repetição diferente de obras anteriores, tal como o Dr.Parnassos, o Barão de Münchausen, Brazil, desta contínua mistura de ficção e real. D. Quixote cumpre a sua promessa de viver para sempre, não só nos pacientes do «mal de Quixote», como a cada vez que alguém lê ou relê as suas aventuras.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Henrique Manuel Bento Fialho sobre Fernando Machado Silva
uma nota interpretativa da minha poesia, segundo o insone e multifacetado Henrique Manuel Bento Fialho, pode ser lida aqui.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
terça-feira, 29 de maio de 2018
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