segunda-feira, 20 de junho de 2011

a ferida dança?




Se eu soubesse dançar
à medida do tronco do tempo
se a casa tremer
palpita na mesma o coração
ao beijo, ao corpo comparecendo ao corpo
e nem tu imaginas quanto me arde
o nervo nómada, a desmesura de quem parte

sem direcção, corri para onde me levasse
e a vida não era este andar pela terra
ao longo dos séculos e mais séculos de angústia,
de previsibilidade dos dias.

podia propor-te que fugíssemos
e fugir cada um de nós para o ombro do outro
a reclamar amor,
de tanto esbarrar contra as grades.

mas a verdade é que faz parte de amar ser traído
por isso contrabandeamos paixões,
fantasiando o absurdo do dia,
pois tenho-te a ti
para oferecer à minha flor
suspirar todos os dilemas
ruborescendo a carne
petrificado, imóvel, ardente
onde de um lado eu possa sentir

um do outro, como é que explicarias
o teu caminho de regresso.

dedilho os nervos e procuro
ouço sem esmero nem glória a música do teu corpo.
dissolve-se o rastro
língua, lábios, pénis, orifício
com os dedos desastrados para os arames,
um toque ao arrepio das normas
como se fosse o elixir de qualquer coisa podre

desde então somos um só corpo
com o corpo todo a disparar desejos,
braço a braço
disposto a não estar disposto,
esplendorosamente impenetráveis
as geometrias cintilantes
pela coluna acima
morrendo para dentro de um poema.

caberá ao destino saber quem somos nós.
com a suavidade dos lírios
em cada canto da casa
até chegar ao ponto
para lá de todas as coisas definíveis
a raiva contida de todas as bestas amordaçadas.
com que me mundo nos olhos vagos dos ideais

não há direcção alguma neste olhar
volto-me para trás
com o meu sorriso de borboleta
a falar do que não importa
isso mesmo: o amor
que se cola ao perto do peito
à procura de estrelas
como o ouvido bem junto
aos teus nervos.
como se houvesse explicação
da liberdade. para sempre.
que ficou por acontecer.

como pode tão pequeno corpo
arrepiar o caminho dos meus dedos
esses olhos fantasmagóricos
mais íntimo segredo
e dizer-me ao perto a distância do teu corpo

que tudo o mais se esqueça na presença

depois do silêncio,
inscrevi-te o sangue na pele
e sinto frio. assim tão frio
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve
os músculos no interior da carne,
sujos e poluídos e corrompidos
estou-me pela terra em toda a parte
à medida que cresço para dentro de ti
parecendo-te uma coisa tão bela quanto aterradora,
todas as preocupações e todos os desafios
com todos os nossos dias contados
a voz, o corpo e a alma. por amor
todas as horas, a eternidade,
a miséria, o medo, a chama

despedida. basta-me sentir
as elegias inofensivas de uma fé
isolados do mundo, de nós próprios
corpos de água fresca, bem longe desta cidade.
em praias agasalhadas de neblina,
sobre o qual singram marinheiros
onde a alegria de viver é apenas e tão-só
beijar na boca
este mundo que não nos serve para nada,

verás que trago à boca a sede dos limites,
tenho uma flor à tua espera, uma ferida
uma casa com um jardim que pulsa
talvez conseguiremos uma muralha de pétalas
só para cheirar, amor. só para cheirar a morte.

a partir de A dança das feridas de Henrique Manuel Bento Fialho

2 comentários:

Anabela disse...

a ferida dança e o humor do Henrique também :)

benjamim machado disse...

sim, parece-me que sim. e este poema é todo graças a ele, melhor, aos versos caídos ao acaso.