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sexta-feira, 30 de março de 2018

As horas para um poema - 3

3 (1:9-1:13)

nesse campo agora aberto o vazio
esvazia-se à medida do corte
das formas nas pontes verticais
unindo céu e a terra

este é um possível mundo
oferece-te a intranquila segurança
de onde tudo pode começar:

a cama uma cadeira uma mesa
uma estante com livros e roupa
uma salamandra ardendo pelo inverno fora
um caderno uma caneta
uma mesa de cabeceira e o candeeiro
fonte luminosa para que tudo entre
pelos olhos          um computador para a distracção
e parte da partilha de uma vida
aqui e ali algumas imagens com a sua magia
e quase tudo cinzelado na tua memória
onde a cada forma vista         sentida         dás
profundidade e assim cresce para lá do real
a sua falsa materialidade e rompendo pela escrita
e é agora a terceira hora e da janela vem a claridade

segunda-feira, 27 de junho de 2011

48b

é o primeiro dia e a chuva
inaugura a casa as janelas
ao convite da predição
instalamos a desordem
(vê lá tu
onde pões os pés)
a vida ensacada
no jogo do acaso
e nós dois sentados
olhos à volta. de nenhures
(surge um grilo
junta o corpo
ao caos. a dádiva
de um ritmo)
para a assinatura do interior.
morada. começo. uma. um. cão
de novo os três.

(versão original aqui)

sábado, 25 de junho de 2011

mais um dia

vejo-te sentada
mãos na mesa
abrindo ruas de
poeira cumulada ao tempo.
vagueias o ócio
(olhos pequenas coisas
duram a eternidade)
compões um tanto haver
listas de adiados desejos
(gavetas estantes recortes
para colagens
cuecas meias camisolas)
talvez por engano
uma vida se misture
(decisões decisões
outro dia qualquer outro dia
quem precisa)
na cama indecisa e desfeita
e um cão rouba-te um sorriso
(tão longo tão curto
nem sequer um dia
qualquer coisa passada
qualquer dia pequena coisa
para a eternidade passando por ti)
e já ele se foi juntar a todas as horas.

na cama os meus braços em redor
as tuas lágrimas salvas
à eternidade e mais um dia.

(versão original aqui)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

entre-dois

aqui o mundo
(pensava e a mão sobre
a calçada rude
movendo restos
partículas pó pedras
rochosas rugas arenosas rosas)
e nele um curtido pé de pescador
à beira-mar a mão lenta no cordame
batendo o tenso ritmo da ondulação
(dedos feito pedras
pé na escuma)
aqui outro mundo tu
sob a bátega doutra água

encoberto pela cortina
espio o calcanhar sussurro:
a mortal flecha de páris
(essa desenhada na carne)
celebra agora a de cupido

(um instante apenas e julguei
ser levado pela água afogado)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

eclipse

é imperativo uma noite para a infância
(escura e selvagem diria
o fundo feminil
de teus olhos)
onde um pirilampo
(anjo de duplo traço a néon)
regressa (da ulissíada
da memória) à morada
e o dedo fluorescendo.

uma noite e a lua num banho
a ouro que sombreia o tranquilo
argênteo mar
(a pele rubra e vibra
quando tua mão
mistura sal e água de
espuma caxemira)
veloz, se esconde e aparece
(tu)
onda abrasiva rolando na cama
feita pérola menstruada.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

insónia ix

falas e sempre resta
um rasto de não-dito
(escuta e a escrita ecos de poço
cadência do sangue
correndo no cavername)
mensura o recontro:
ou sufocas soterrado
de adormecidas palavras
ou escolhes do outro a morte
um silêncio sincero.
(de olhos iluminados
buscas o contorno ileso
porta aberta aos fantasmas)
afogou-te a boca baco
(inseguro pensa pesa
evoca emudece
com o terror do fumo
de tua boca e mãos evola)
o diálogo in media res
apura: o poema
a vida interrompida

(versão original aqui)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

insónia viii

primeiro a pele
(um espanto susto arrepio)
tomando o espaço interior
(mergulha)
dobra-se e ainda o fora se sente como sendo só isso o mundo. não toda a pele somente aí onde tua mão inicia o repouso para o dia longo horas apalavradas os pensamentos tidos e não ditos ou a meio aludidos ou anulados e a decifrar.
(cuidas para ti ou murmuras
um só corpo é maior que o mundo
todo o mundo me cabe no teu olhar devolvido)
e no entanto ido passado a mão já não descansa toca acaricia o cansaço recuou já para outro lado amanhã. a mão pesa sobre o teu corpo sopesa a pele pensa-a rebele a pele e aí onde tocas meu amor tudo dura para lá do dia longo que passou
(já passou)
e adormeces e eu aqui estou insone
(dorme)
enquanto a mão se afunda na pele fundando o amor

(versão original aqui)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

insónia vii

defendo a tua noite
(a boca a língua)
junto trago o mapa
sentimental da longa cordilheira
enquanto inesperada és tolhida
pela onda de calor dormindo.

súbito pela madrugada
o frio e o roubo desta mortalha
e o meu corpo deixado ao orvalho

(sei que no inverno estamos
menos mortos que vivos e no verão
sabe melhor o deserto de nenhum
corpo a cama por se espraiar)

até que a mão encontra a mão
o pé outro pé
(a boca a língua)


(versão original aqui)

terça-feira, 19 de abril de 2011

insónia vi

i

quando há poesia
tu não estás somente
nomes corpos outros.

ao longo do tempo repetindo
a frase de um desconhecido
(a poesia é feita por todos)
e em nenhum mistério mergulhas.
na língua descobres a doença das vigílias.


ii

língua e poesia
e o sentido triste e estéril
do teu mundo
(nada a dizer)
muda a voz tremendo de medo
(o cigarro ardendo apoiado ao pensamento
e a caneta no calo do maior equívoco)
nunca chegarás a desaparecer
nisso que tu escreves.


iii

(escreve-se do lado do silêncio
procuras dizer ao lado
de todas as palavras)
ouro peneirado na errada
margem da página a ganga
prodigalidade de tantos anos


iv

o que foram esses poemas escritos?

(versão original aqui)

sábado, 16 de abril de 2011

insónia v


havendo uma imagem qual
a que me cabe aos teus olhos
(derriscando do rosto os rastos
seremos estrategas da ocupação
de um lar em equilíbrio
precário. a fome ainda
não nos derrota)
quem de fora nos visse
corpos ainda solares ao verde
porém subjugados ao som
das horas o sono canino
o contínuo respigar de pinhas
ao lume da lareira
(habitando a casa só os ápices
de batidas e um sorriso de ascendência
onde nós somos olhos vadiando)
é tanto o dito que o dizer
um quase nada do silêncio
(e repara da boca a felicidade
e o que será esse entre nós
conhecimento fastio o terrível
bem-estar sem surpresas
de nenhuma palavra)
há sempre o medo a rondar
e a podridão sob o reino
(o desassossego vem do filho
e do mundo em torno
ou do ofício mal-amado)
expecta-se a vida fora de nós
a vinda da amizade em visita
(no fundo ninguém está bem)
e quedamo-nos em prazeres com
duvidosos corações mergulhados
em álcool revoltas do baixo-ventre
a vontade de dizer por absoluto
amemo-nos do silêncio para fora.

(versão original aqui)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

insónia iv

escrevo água e letra
a letra a página
em plena secura

(e por que lado o mundo
se inunda)
o teu corpo mergulhado numa clepsidra
(os pulmões – inspira expira
– o fumo o fogo(de Fukushima)
nova rosa de Hiroshima)
de tantas palavras

(há basto mistério estando vivo
enquanto a terra revela os dentes
oh este afogado inferno
inverno de todos os sorrisos)

o lugar comum de partilha
onde a língua sabe e perdura
a morada à sombra do desejo.

aqui nenhum indício
a criança perdeu-se pelo caminho.

(versão original aqui)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

pequena trilogia da noite - revisão

insónia iii


cada noite velas
consumindo
desassossegado fogo.
revolves páginas de horas
e os segundos enraízam-se
(nunca arriscaste tão alto
quanto sonhaste. o cigarro
como uma pequena estrela
arrepiada pela noite
a tua terra abalada)
ao som da torneira
onde a vida gota a gota.



(versão original aqui)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

poema de espera com eliot à sombra

houve um tempo(como se ele morresse
para os vivos)onde a vida se pesava
e media numa colher de café. o sorriso
(pequena máscara
expandida ao corpo
começando pelo osso)
era magnânimo audaz traía o tempo. tudo
era sedução um horizonte de possibilidades.
(como o sorriso como sorriso
já longe do mundo redimindo
o furto dos gestos os gastos dos gozos)
na cafetaria herdas uma cadeira vaga
(deixas outra à sombra
do desejo que demora
a sobrevir à ilha que és tu)
frente a tabacarias fartas de jornais
e revistas da actualidade. retalham
as vitrinas a vendedora numa janela
onde se alienou o espaço perpetuamente
assoberbado. eu rasuro a espuma
seca ocupo o tempo ou o mundo
com a técnica e este poema de espera
(onde te encontras
antes e depois e já
nele sem saberes)
doando-nos o futuro.

(versão original aqui)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

terceiro poema - revisão

os poemas já outros
o disseram
(muralha de papel terra
de pó onde os dedos
mergulham)
não te vão salvar muito
menos o mundo. povoas
a vida e sua tessitura feita
de sonhos esboços
(escreve escreve
cifra um mundo)
futuro negado ao tempo
a ti furtado. o dia
descoberto pelas pequenas
(tu por exemplo tu
a cicatriz aluada sob o olho
tu a ruga ao canto
da boca e tu de novo)
coisas e mergulhas nelas fascinado
sabendo da derrotada língua
rangendo na pobreza dos teus poemas
(jazerás na fronteira anónimo
onde nunca teu nome
na muralha de papel terra
etc.)
e entre ti e as coisas
os outros um outro
poema se escreve
(entre ti e as coisas)
escapando mal o tentas dizer.
tornas por fim o teu rosto
para o dela e nenhuma
terceira derrota te assalta.
(recomeça)
tudo é possível de novo.

(versão original aqui)

terça-feira, 5 de abril de 2011

poema sentido

escrever (e será isto poesia) sobre
a justa pele estendida à vida e continuar
sabendo única escrita o espaço que dista
aqui enquanto se faz o toque. dizer
no começo eu sou um homem tão pouco
dizê-lo e ser sendo sem nada
(é por aqui a entrada basta
cravares mais fundo essa adaga
a que chamas amor para dizer ou escrever
no anonimato destes lençóis e etc.)
construir o mundo assim ao fim do dia
em silêncio a técnica pelas janelas
(o som de carros da segunda circular
até aqui ao quarto sexto andar
ou no sul de terra rossa onde
o mar murmura justo à nossa cama)
ou a mão adestrada e apenas
o raspar da caneta no papel e os sons do corpo
(o meu o teu)
deste aqui roendo à volta das unhas de solidão
fazendo planos e promessas e o poema
dizendo tudo com o sentido próprio de nada
dizer com palavras tão pobres
(e alguma coisa
me escapa sempre
me escapou como)
o teu adormecer ao fundo dos quilómetros
ignorando se ficamos se partimos. tudo
caminha. e ainda o mistério o poema
reconhecemos os nossos
rostos por tão longe ligados
a afectos dispersos despendidos
se por fim vêm os teus braços remotos
e esta caneta e mão terminam
o poema pensando no teu corpo
pelo lado menos virtual
com o cão aos pés da cama.

(versão original aqui)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

poema de futuro (revisão)

ela disse
(pelos seus lábios rodava a língua – não estou
certo se estas ou outras palavras perdido
em qualquer reflexo de um empoado espelho e a memória
falha num recesso ou surpreso quedo
e nada disto foi nada terá sido
e amarrado pelo ouvido Ulisses se ilude)
quando ela disse
(sentada na cama e os seus castanhos
olhos de pálpebras fechando o dia
sobre as mãos enovelando-se e
destecendo dedo a dedo a tremura)
será exacto que isso ela
disse – tenho a certeza
juntos vamos ver o fim
do mundo
– e enquanto o disse
(já uma onda de saliva soçobrava
nos lábios e os olhos secos no deserto
dos meus esperando o rosto que me olhasse)
um ligeiro sorriso se lhe aflorou
e eu dei as boas-vindas ao que viesse

(versão original aqui)