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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

XII

O mar é o ladrão.
De pais e filhos o mar é o ladrão
Alexandre O’Neill

Sei que tudo continuava escuro, mas o silêncio terminara há muito. Sentia-me como quando me deitara na praia depois de tantos mergulhos, correria, enrolanços na areia. Tudo estava a rodopiar no escuro e ouvia ondas de choque e de palavras. Ondas muito diferentes daquelas que estava habituado a escutar deitado na areia da praia. Estas ondas, ao contrário das outras, não pareciam ter a mesma origem, quero dizer, escutando-as com a atenção devida, não pareciam formar-se ao longe e lentamente ganhando força até rebentar de encontro às duras rochas e beira-mar. Eram ondas bruscas, rápidas, incisivas, não rolavam mas antes como que cortavam, batiam em coisas menos duras que as rochas, demoravam segundos, conseguíamos perceber o seu início ouvindo um curto sopro e depois imediatamente encontrando o seu fim num qualquer objecto que eu não sabia o que era. O objecto, no qual as ondas chocavam contra aos poucos e poucos, ia fraquejando, amolecendo, isso dava para perceber com bastante clareza. Não havia aquele rebentar a que estamos habituados a ouvir, redondo, explosivo e suave ao mesmo tempo, esse som que se esfuma em espuma. O rebentar de ondas que ouvia era seco, mas uma secura, uma aridez, que sucessivamente se foi tornando húmida, mole, gotejante, percebia-se até a formação de poças.
Fui abrindo com cuidado os meus olhos, não queria que o meu pai notasse que acordava. Muito a medo tentava abrir uma nesga de dois olhos inchados, doridos e quando consegui entreabrir ligeiramente um, refreando a dor que me abalava e me deixava enjoado, tinha a impressão de que a minha cabeça tomara dimensões desproporcionais para mim, uma forma monstruosa, achatada em cima e prolongando-se para a frente e para trás ao mesmo tempo e mantendo-se nessa forma porque um enorme peso me empurrava o crâneo para dentro e um enorme espeto com duas garras incrustadas nos ossos do meu cérebro, uma de cada lado, me arrepanhava a carne e pele puxando-as cada uma para o seu lado. Tinha a impressão de que me transformara num monstro, num horrível e deformado monstro, castigado por uma dor atroz.
Quando consegui, finalmente, abrir uma pequena nesga de visão, descobri que mar e que ondas rolavam e contra que praia e rochas embatiam. O meu pai era o grande oceâno e minha mãe a terra que o recebia. Essa terra estava, tal como eu, deformada, machucada, destroçada. Quase que não conseguia perceber que aquele corpo inchado, ensopado em sangue, cheio de nódoas negras, cortes, rasgões, era a minha mãe. Diria antes um boneco deitado para o lixo que tivera sido brinquedo de um cão, onde experimentou enquanto jovem os seus futuros ataques e defesas com as suas ferozes e mortíferas patas e dentes, uma boneca de trapos que fora arrastada pelo chão presa a uma carroça por um fio ao longo de um caminho cheio de pedras pontiagudas que lhe abriam buracos de diversas dimensões.
Perguntava-me onde estaria a minha tia, que seria feito dela, estaria morta como seria o nosso destino daqui a alguns momentos? Teria fugido para pedir ajuda aos soldados que faziam as rondas nocturnas na cidade? Como é que, estando em casa connosco, não ouvia os guinchos e gritos da minha pobre mãe? O que é que ela estava a fazer de tão importante que não vinha interromper o meu pai? Por que não surgia ela assim de repente com uma enorme colher de pau e zás com uma violenta pazada punha o meu pai de rastos no chão desmaiado e depois continuava até não haver pai e ser uma outra coisa qualquer que ficava no chão, uma coisa morta, uma hipótese de corpo, uma sugestão de homem? Onde estão quem nos pode ajudar quando precisamos?
Perguntava-me há quantas horas estariamos nós ali? Era ainda noite, isso dava para ver pela janela, mas não saberia dizer que horas seriam pois não vinham quaisquer sons da janela que estava fechada, embora quando fechada se pudessem escutar de vez em quando os sinos da igreja, os cães ladrando de uma ponta a outra da cidade, cantorias bêbedas, portas a serem trancadas, cumprimentos educados de boas-noites, mas desta vez nada se ouvia, nada vinha da rua, abafada que estava pelos sons horrríveis da carne a ser batida.
O quarto encontrava-se semi-iluminado, amarelo-torrado, laranja pôr-de-sol, castanho de folha de outono, negro, mas vivo devido ao tremeluzir de umas quantas velas, três torres, três colunas perfeitas formando o topo de uma construção que apenas descobrimos nas profundezas de grutas em expedições de acaso. As paredes estavam sarapintadas de vermelho negro, manchas arredondadas de diferentes pincéis, umas notavam-se a origem em cabelos longos, outras de mãos quebradas, outras ainda de partes do corpo pouco habituadas à pintura como bochechas, coxas, seios, nucas. Pensei que grande parte daquela obra de arte, que apenas seria reconhecida como tal neste século em que agora vos conto esta história e vocês a lêem, estaria terminada, já que o meu pai se encontrava umas vezes parado outras a andar de um lado para outro como já o vira fazer na praia horas antes. Não parecia nada cansado e esse momento que qualquer um caracterizaria de insano era afinal de uma calma imensa. Posso afirmar que o meu pai estava tão calmo como um padre iniciando a missa, mais ainda, ele era a encarnação da calma. O quarto estava do avesso, uma despensa de móveis, um armazém de mobília atravancada, cama deitada de lado, mesas e cadeiras partidas notando bem o como foram quebradas, apenas a pequena mesa-de-cabeceira permanecia intacta com as suas velas dardejando as sombras. Minha mãe encontrava-se deitada, encolhida sobre si mesma, com um braço protegendo o que restava do seu antes belo rosto, o outro elevando os joelhos para o peito, um corpo informe, ingente, deitada sobre uma poça de sangue, urina e fezes, tal como eu me encontrava sentado em cima de uma poça da mesma natureza de pânico e violência.
O meu pai ergueu um banco, pensei que o atiraria à minha mãe, à minha pobre e infeliz mãe, e pousou-o a meio caminho de nós os dois, elaborando um triângulo familiar, ele no vértice, para ter a visão completa de minha mãe e eu, eu da minha mãe e dele e ela, se conseguisse levantar a cabeça e abrir os olhos, de nós os dois. De certa maneira, não consigo evitar agora um certo olhar irónico sobre o que sucedeu, estávamos de novo juntos, éramos novamente uma família. (Poderá parecer um pouco paradoxal lendo vocês isto quando no início vos disse que quase nada me lembrava dos meus pais e do que lhes aconteceu, correcto? Certo. Mas o que sucede é que agora, enquanto escrevo isto, em 2008, tudo me está a vir aos solavancos à memória, pedaços de uma longa tapeçaria que vou cosendo com muito pouco minúcia, com um certo desgosto, tocado por uma certa infelicidade, embora com o discernimento e distância suficiente – sim, parece-me com uma distância suficiente já que tudo isto se passou no século dezasseis – para, com a memória e com toda a verdade que me é permitida, fazer com que a minha memória adormecida ficcione a minha verdadeira memória, que não deixa de ser monstruosa e mentirosa como a de todos e, lendo vocês isto, fazer com que desperte na vossa, através de uma pressão e marcando, deixando um rasto, a monstruosidade da vossa, quero dizer, despertar-vos a curiosidade e a vontade de vocês mesmos procurarem as vossas memórias e descobrirem que quando lembram ficcionam a vossa própria vida).
Meu pai parecia-me mais calmo do que nunca antes o vira. Talvez tudo já tivesse passado, talvez. Acho que afinal só deixou a minha mãe descansar um pouco, que voltasse a si, que se recompusesse do transtorno que lhe dera, porque assim que deixámos de ouvir a sua respiração lenta e pesada de quem dormia e retornaram os gemidos, o meu pai, dando um safanão nas pernas da minha mãe com um dos seus pés, logo voltou à carga.
“Vá, abre-me esses olhos e deixa-te de mariquices”, disse ele com a maior displicência, “vá, então, pára lá com isso, até parece que alguém te fez mal”.
Minha mãe não lhe conseguia responder de maneira nenhuma, tão mortificada e molestada estava e eu, cheio de medo de que ele me esmurrasse novamente e me cegasse de vez, deixava-me estar quieto e quedo, mas fervilhando de raiva, com ganas de o matar.
“Dizes-me então que este fedelho de seis ou sete anos é meu. Este puto ranhoso que anda por aí ao deus-dará, é meu, dizes tu. Dizes-me também que nunca dormiste com ninguém na tua mísera vida, que sempre seguiste os preceitos da Igreja e os ditos e escritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, que manténs intacta, imaculada, impoluta a tua virgindade. Só que eu chego aqui, sem me deitar nunca contigo, pensando sempre em ti, escrevendo para ti, desejando-te cada dia que passava sempre e sempre mais, desejando-te a ti toda e não, não me deitei com nenhuma mulher depois de me casar contigo; e chego aqui e deparo-me com esta réplica tua, esta infeliz réplica tua, um teu duplo. Tu sabes que ele está marcado por uma maldição, não sabes? Está marcado pelo Diabo em pessoa, tu não vês porque é teu filho, teu e não meu, é teu filho e está marcado pelo diabo e não vês porque a marca está na sua alma. Ele ao menos foi baptizado? Foi? Isso não chega. Aquela água benzida apenas lava o corpo, nunca entra para dentro do corpo, nunca chega a percorrer o seu interior, nunca chega a lavar as marcas negras e diabólicas da sua alma, nunca chega ao segredo do corpo onde a alma está alojada, fica só cá por fora a água. Bebeu-a ao menos? Claro que não, nem o padre a bebe, ninguém nunca bebeu água benta, ninguém está salvo, está a salvo. Só talvez com a morte que ninguém sabe o que é porque também ela está escondida com a alma. Percebes?
“Não...”, despertava a minha mãe, tentando pôr um bocado de ordem no discurso do meu pai, esforçando-se pela verdade que sentia ser a sua e a minha, “não... percebo... ele... é ... teu... estou... te a... dizer... a... verdade... meu... amor”.
“Não digas essa palavra sua mentirosa... sua mentirosa pecadora. Estarás cega por ventura? Não vês o monstro que ele é e no que te transformaste?”, lá nisso ele tinha razão, eu era um monstro, mas só o soube quando vi todos aqueles que conheci morrerrem aos poucos e poucos e eu a ficar por aqui a vê-los cair e a envelhecer tão lentamente que ainda só tenho vinte e oito anos. O meu pai continuou com a sua distorcida lógica da vida, por isso dou-lhe a palavra.
“Foi-nos sempre dito para acreditarmos no que nos dizem, que pela palavra, quando dita frente a frente, temos uma entrada à alma da outra pessoa, um corpo invisível de verdade que nos toca na alma, que pela voz se chega à verdade. E acredita que me esforço por acreditar nisso, agora. Acredita que estou a tentar acreditar em ti quando me dizes, aqui e agora, como o disseste antes no dia em que cheguei, aqui frente a mim e ao teu filho, porque se nota bem que ele é teu filho, tem os teus traços, ou pelo menos esforço-me por vê-los embora não os veja, que me dizes a verdade. Mas a não ser que sejas a Virgem Maria, o que seria uma blasfémia, e eu José, que o não sou, e aquele fedelho Jesus, que a qualquer momento pode ser Cristo se eu me der ao trabalho de o crucificar, é que poderei acreditar nisso, até lá mentes, mentes com os poucos dentes que ainda tens. Queres que eu tos volte a pôr para mentires melhor? Olha tens aqui um”, e ele pega num dente ensanguentado que estava perdido junto ao seu pé e demora-se a olhá-lo, continuando o seu discurso como se a minha mãe agora fosse aquele dente, “não tens saudades daqueles tempos em que éramos felizes? Quando nos conhecemos, quando nos fomos conhecendo, quando já nos conhecíamos. É uma vergonha isto, isto que nos sucedeu, é obsceno, é obscena esta criança que parece que tem o vento no corpo, sempre de um lado para o outro, sempre a correr sabe-se lá para onde, sem direcção, sem rumo, sem saber o que fazer de si, andando às voltas e às voltas, sem fazer nada de si, vai do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o pátio, do pátio para a rua, da rua para outras que lhe aparecerem à frente sem rumo certo e depois volta e lá está ele de um lado para o outro a correr, e de certeza que quando está parado, por dentro, bem lá dentro, está num corropiu, de um lado para o outro a correr dentro dele. É que eu não sei de onde é que ele vai buscar aquela energia toda, de ti é que não é, nisso ele não sai nada a ti, já reparaste bem, de ti é que não é esparramada como estás aí no chão como se não houvesse trabalho para ser feito, sua preguiçosa”, e nisto atira-lhe com o dente à pouca cara destapada e pisa-lhe as canelas que se quebraram.
“Não... me... batas... mais... peço-te... por favor... não”.
“Então diz-me de quem é este miúdo e não me mintas mais.”, gritou. A minha mãe com grande esforço relatou a história da minha geração, pela parte que lhe tocava. Contou-lhe daquele dia em que no meio da azáfama da taberna tentou ajudar a outra rapariga e se sujou de molho e se foi limpar. Contou-lhe que nesse quarto das traseiras se lembrou dele, das cartas que ele lhe escrevera do alto-mar, do amor que sentia por ele e que então um vento irrompeu da janela e a tomou como um homem toma uma mulher, que ela tentou lutar contra esse vento mas que não conseguiu porque nesse vento vinha voando o cheiro dele, do seu homem, do seu marinheiro, do seu marido e que entretanto tinha desmaiado e foi encontrada pela tia e que ela pode confirmar que tudo o que já lhe contara e que de novo contava era a mais pura e inteira verdade, pois duas vozes podiam confirmar, validar pelo testemunho na primeira pessoa, porque a tia vira que ninguém, mas mesmo ninguém, lá se encontrava no quarto senão ela, pois que todo o quarto estava trancado, a janela tão pouco aberta que ninguém passaria por ela e que a própria tia tivera que arrombar a porta para poder entrar e ver o que se passava. De repente lembrou-se, já que ele não tinha cara de quem crêsse na mais pequena palavra, que poderia confirmar palavra a palavra, frase a frase, sentimento por sentimento tudo o que agora mesmo contara no seu diário.
“Outra vez com o maldito diário. Mas qual diário se já virei o quarto do avesso e ele não aparece? Foi com esse vento que te possuiu? Desapareceu, assim, sem mais nem menos?”
“Não... ele está...ali”, minha mãe tentava tudo por tudo para que ele acreditasse na sua palavra, só que realmente era muito difícil sem o diário para comprovar. Eu próprio já começava a duvidar da palavra da minha mãe.
“Diz-me onde está que eu vou lá buscá-lo”, disse de repente. O meu pai, assim que reparou que afinal eu estava desperto, rapidamente me pôs a dormir novamente com um belo soco enfiado na bochecha direita. (e lá vem a ficção tomar o controlo de tudo, como se ela não estivesse sempre aqui connosco, sempre desde que abrimos os olhos para o mundo).
Meu pai não aguentou muito mais aquele teatro, aquela encenação que lhe prepararam desde que embarcara rumo à Índia. Pensava que toda esta história do filho, do vento, do diário, era uma bela trama que a sua mulher lhe montara para encobrir a traição, bem arrojada, bem montada, bem planeada e imaginativa, mas infelizmente muito pouco crível, apenas incrível, era a palavra certa para descrever tudo isso. A lata dela, meu Deus, os nervos de aço para não se desmanchar durante este tempo todo e ainda por cima manter firmemente a convicção de que não mentia, há que se lhe tirar o chapéu, sim senhor.
Estando farto de tudo, o meu pai pegou na minha mãe e atirou-a com tal força contra um baú virado de lado que não só quebrou definitivamente o pescoço da minha mãe como, o que todos já sabemos desde o capítulo VI, o botão de segurança de uma gaveta oculta aos olhos de todos, fazendo saltá-la revelando-lhe o seu guardado segredo. Vendo aquilo ali mesmo diante dos seus olhos, o meu pai por momentos tremeu. Seria verdade? (claro que sim, já todos sabemos isso). Acocorando-se ao lado do corpo morto da sua mulher e do baú, a sua mão procurou o interior da gaveta e lá dentro encontrou um maço de papel e um grosso volume que ao tacto parecia ser um livro. Sacou os objectos da gaveta e dirigiu-se para a cama junto das velas. Reconheceu imediatamente a sua letra no maço de papel. Eram as suas cartas. Depois mirou o volume. Era um livro, de facto, era um livro. Olhou para a sua mulher. Abriu. Fechou. Olhou para a sua mulher. Foi ver se ela ainda estava viva levando as velas consigo. Não estava. Sentou-se no chão. Abriu o livro. Admirou a letra dela, os redondos, aqueles traços tão semelhantes ao corpo dela, percebia-lhe os movimentos, via a sua mão a rabiscar o papel com uma pena. Com um dedo imitava os supostos movimentos daquela mão que agora jazia morta. Foi saltando as páginas, primeiro dobrando o livro para a direita e soltando-o rapidamente criando uma pequena brisa que lhe movimentou o cabelo e as velas, depois para a esquerda e tudo se repetiu mas com menos ar. Sentiu vindo do livro o cheiro das mãos da sua mulher. Fechou o livro. Voltou a olhar para ela. Abriu ao acaso e levou o livro ao seu nariz. Inspirou. Inspirou mais demoradamente. Inspirou longamente. Fechou o livro e os seus olhos. Tremia. Abriu o livro. Fez contas. Procurou a data que pensava que seria a da geração do seu filho. Encontrou uma, no topo à direita. Não era, mas leu à mesma. Sorriu. Leu a que se seguia. Sorriu melhor. Encontrou outra entrada. Deixou de sorrir. Leu. Era aquele o dia. Era. Era aquele. O dia, a história, os movimentos, a violação pelo ar. Não podia acreditar. Não ainda. Não podia acreditar que ela não lhe mentira. Voltou para a primeira página. Talvez lendo do princípio para o fim, em alguma entrada do diário, descobrisse a presença de outro homem. De certeza que se houvesse ela tê-lo-ia escrito no seu diário. Afinal, é também para esses segredos que os diários servem. Não. Ele era o único homem da vida dela. Olhou então para o seu maço de cartas. Retirou o cordel que as envolvia e folheou-as uma a uma. Havia uma que tinha aquela data. Depois lembrou-se daquele dia em que desmaiara depois de ter escrito aquela carta e do vento que se levantara empurrando a nau para o seu caminho. Pôs a sua carta e a página do diário lado a lado. Leu uma e depois a outra. Saltou de uma para a outra parágrafo a parágrafo. E fez-se luz. Aceitou finalmente o que a mulher lhe dissera. Tinha sido tudo verdade e nada do que contara tinha sido ficção, mentira, embuste, trama, encenação. Antes tivesse sido. Chorou.
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Quando despertei estava sendo embalado pelo mar, sentia as ondas a levantarem e a baixarem um barco, escutava o chocalhar das ondas de encontro à madeira. Fui abrindo os olhos e o meu pai, agarrado à minha mãe, mantendo-a de pé, enrolava à volta dos seus dois corpos, pela cintura, uma longa corda. Segurando a minha mãe pela cintura, baixou-se e pegou numa pesada fateixa. A mão que amparava a cintura subiu pelas costas da minha mãe pegando-lhe a cabeça e beijou-a enquanto a outra mão atirava para a água aquela pequena âncora. Ouvi o som da corda a roçar o bordo do barco e depois estalar. Os meus pais foram puxados para fora do barco virando-o. Devo ter desmaiado, deveria estar ainda a dormir e a sonhar.
O meu corpo enrola-se na areia, ouço o meu pai e não sei o que ele diz, enrolou-me, bateu-me e desmaiei, só porque o meu pai se sentia infeliz.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

XI

Sob a luz de um novo augúrio, para mim, talvez o que pudéssemos chamar de um renascimento, pois que não só crescia uma recente riqueza no país, com os cofres se enchendo de ouro, pedras preciosas, panos drapeados de uma fulgurância estonteante, fluência de novos escritos literários, científicos, filosóficos, entre muitas outras coisas; também à nossa família lhe tinha sido concedida uma segunda chance de felicidade, com as suas bases fortalecidas por laços que antes se encontravam separados, partidos por distâncias líquidas imensas, pelo estranho desconhecimento do meu próprio nascimento e da suposta morte de meu pai que nunca antes tinha conhecido e, como nunca antes o vira nem me falaram dele, era como se nunca tivesse existido.
De facto, nunca antes vira a minha mãe tão agradecida a Deus, tão morada plena de toda a felicidade, de sorrisos grandiosos e brilhantes, iluminando toda a casa, albergaria e tasca. Agora, muito mais do que quando chegara, ela era a luz que alumiava os corações maltratados pelo amor e adormecidos pelo álcool, e ninguém lhe tentava tocar, não porque meu pai se fazia presente dando uma mão aqui e ali, mantendo a calma aos movimentos intempestivos de rufiões e jovens de cabeça perdida por cavalarias e oceânos longínquos, mas porque aquela luz dotava a minha mãe de uma característica somente lida nas hagiografias, aquela luz irradiante sem origem visível que dizem que os santos e seres celestiais sustentam.
Sobre a nossa família podíamos muito bem utilizar, porque se moldava perfeitamente às nossas vidas, o termo tantas vezes usado no mar: íamos de vento em popa, de velas defraldadas zarpando para um futuro sem obstáculos, aberto a todas as ofertas que a boa nova da fortuna nos pudesse trazer.
Eu ia ocupando o meu dia sem grandes alterações, ora no pátio tratando dos animais, ora no mercado junto à minha mãe, da minha tia ou do meu pai, consoante fosse uma ou outra ou outro encarregue de reencher a despensa, varrendo ao fim da noite a sala de jantar junto com todos e com uma vassoura miniatura que me tinham arranjado, brincando com os meus amigos – agora, em vez de batalhas religiosas em que nos transformávamos em guerreiros em defesa da cruz de cristo ou em pagãos de quarto crescente, viamos o nosso corpo a ser curtido pelo sal e sol, subindo e descendo cordas de cânhamo que calavam as nossas mãos, gritando ordens para aqui e para ali, para bombordo e estibordo, proa e popa, ordens que eram repetidas depois em coro, vendo pedras metamorfosearem-se em gigantes, árvores em serpentes marinhas, as raparigas que por acaso passassem em belas sereias de vozes melodiosas embora traiçoeiras, ouro, pratas, rubis, safiras, ágatas, todas as pedras preciosas que nem sabiamos o nome, o que antes eram simples cascalhos – e pedindo a meu pai que me contasse histórias que tivesse vivido, ouvido ou alguém contado, que peixes existiam, como viviam, de que cores eram, se de facto haviam monstros nas profundezas e nos abismo dos mares como apareciam descritos no livro sagrado, tal como esse leviatã que engolira Jonas, ou então, como eram os homens e mulheres de lá do longe, que língua falavam se falassem, que modos e costumes tinham se tivessem, que faziam no seu dia-a-dia se houvesse dia-a-dia, se eram ou não tão diferentes de nós como ouvia os meus amigos dizerem.
O meu pai, pacientemente e quando para aí estava virado, o que era muito raro, ia me contando o que lhe demandava, mas não tudo de uma só vez, somente nas vezes em que era ele quem me deitava na cama. Muito do que eu queria saber, por pura curiosidade, aprendi e apreendi nos seus silêncios, nos seus olhares. Eu não sabia como era o meu pai antes de embarcar, nunca me tinham falado dele como já vos disse e do pouco que conheci pouco me recordo. Fecho os olhos e vejo-o mudo, mudando as coisas da casa, móveis, cadeiras, louça, bebendo copos de vinho tinto, fazendo serviços para a minha tia e minha mãe, ao fim da noite sentado num canto de frente para o lume murmurando umas quantas palavras cofiando a barba. À noite poder-se-ia dizer que era um objecto mais na casa que ele próprio mudava de sítio, transportava sem esforço. Mas no fundo penso que ele se sentia feliz por estar de novo em casa, junto da sua mulher e do seu recém-nascido filho. Éramos felizes, se assim se pode dizer, sem grandes discussões, sem arrufos, ciúmes, tudo o que podia azedar as relações da família.
Ora, certo dia, quando o calor da primavera começava a nos tentar a dar um mergulho no mar, já no final do dia, dirigi-me para a praia sozinho. Os meus amigos tinham assuntos a tratar, assuntos e deveres típicos de crianças para com os seus pais, enquanto eu me encontrava liberto já dessas funções, como tratar dos animais, dar-lhes comida e de beber, escová-los, falar-lhes, arrumar o nosso quarto. Como estava livre, porque despachara tudo logo de manhã até ao meio da tarde, e como fazia realmente muito calor, desci até ao agora Cais do Sodré e fui andando para Alcântara ao longo do rio. Atirei-me para a areia, tirei os meus sapatos e a minha camisa de linho e de calções corri para a água fria, mergulhando nas pequenas ondas que rebentavam. Durante horas mergulhava, saía, rebolava na areia fazendo-me de croquete e voltava para a água. Não havia mais nada na praia que me satisfizesse mais, que me deixasse mais calmo e feliz, do que fazer perdurar aquela sensação de choque térmico quando o corpo gelado pela água encontra a fervura da areia aquecida pelo sol; e depois de muito correr, saltar, mergulhar, rebolar, chapinhar, esbracejar, de repente deixar-nos tombar na areia, fechar os olhos e sermos levados por um remoinho que nos enrola como as ondas, porque sentimos que elas rebentam não atrás de nós mas nos nossos ouvidos, e de tanto rebentar, de tanto rodopiar naquela quietude do nosso corpo, porque nunca deixámos de estar quietos, não sabermos onde estamos e adormecermos com o sal a encarquilhar a nossa pele.
De facto tinha adormecido, pois que quando acordei o sol já se ia despedindo e a maré começava a subir mergulhando os meus pés em espuma. Fui despertando calmamente, sem muitas pressas, sacudindo a areia dos braços, das pernas, do cabelo, do tronco e por fim dos pés, o que sempre foi o mais complicado de se fazer. Fiz o melhor para tirar a areia de dentro dos meus sapatos e da camisa. Vesti a camisa mas deixei-me ficar descalço e decidi calçar-me só quando estivesse em terra firme, no molhe.
Fui nessa altura surpreendido por um estranho homem andando sozinho pela praia. Digo estranho porque não era normal àquela hora as pessoas irem para a praia, mas também porque, embora não o ouvisse, parecia-me que se encontrava fulo da vida, chutando pedras, pedrinhas e conchas, batendo de vez em quando com as mãos nas pernas, abanando a cabeça, parando, virando-se para o mar, virar-lhe costas, rodar sobre si como se mudasse de direcção, dando passos em frente para de novo estacar e rodar sobre si e de novo recomeçar a andar alternando velocidades. Muitas vezes, quando parava e defrontava o mar, parecia que falava com ele, que discutia de forma muito nervosa, não como um monólogo mas como num verdadeiro diálogo, porque eu percebia nos seus movimentos os sinais de pergunta e resposta, de argumentação e contra-argumentação, de acordo e de desacordo, esses gestos tão comuns a todos, o abanar da cabeça concordando ou contradizendo o que o outro disse, os diferentes gestos de ombros, de fastio, de má compreensão do que é dito, de desconhecimento das razões ou respostas que se deveriam dar, ou então esses das mãos que modelam as palavras, que lhes dão mais acento, mais rigor e vigor, que as acalmam, que as arredondam, que tentam conduzir o ouvinte num caminho que esse não viu. Sempre que o homem andava eu seguia-o ao longo do cais, escondendo-me por trás de barcos, cordas, dunas, tentando perceber o que o homem dizia, do que se queixava.
A certa altura já me encontrava bastante perto do homem, embora ele não me visse nem eu lhe pudesse ver o rosto, pois o sol já se tinha posto há já bastante tempo e era noite de lua nova, o que impossibilitava a visão de qualquer um sem a ajuda e o apoio de uma lanterna de azeite ou de uma forte tocha. Contudo, percebia-lhe ainda os movimentos nervosos, sabia-o ainda em discussão consigo e com o mar. Até que a dado momento e estando eu ainda mais perto, uma vez que ali onde nos encontrávamos se fazia uma pequena baía, um quarto de lua que nos afastava somente pela altura das dunas, eu no topo, ele na areia junto à água, reconheci um pequeno bote ao qual ele juntou uma longa corda, que eu não tinha ainda visto e se encontrava a tiracolo. O homem sentou-se lá dentro, desenrolando e enrolando a corda, conversando ainda com o mar e consigo, ou com Deus, não sei, mas muito mais calmo do que anteriormente, como se aquela sequência de acções, de desenrolar e voltar a enrolar, o amansassem da ira, da raiva, do desgosto que o atormentava. Sei, agora, que era desgosto, porque ao relembrar hoje aquela noite, depois de ter conversado longas horas com um velho pescador numa noite de lua nova como aquela, no que foi a albergaria da minha tia, me ditou uma quadra que já ouvira antes, quero dizer, naquela mesma noite pela voz daquele homem que desconhecia. Hoje, repetindo aquelas palavras, sei-as plenas de desgosto e de tristeza, mas naquela voz, naquela noite, pareceram-me antes apenas uma ladainha para o acalmar, como uma pequena canção que se canta quando executamos um trabalho, como cantavam as ceifeiras e os pescadores, pelos campos fora ou trabalhando nas redes. O homem desenrolava e enrolava e desenrolava e ia dizendo:

“Das pedras que o mar rolou e trouxe
À folha de areia sob a prensa do ar,
Uma foi punhal, outra coração,
Num texto tirado fora do olhar”

Aquilo assustou-me, não vos vou mentir. Assustou-me e fugi. Fugi para casa ao encontro da minha mãe, do meu pai e da minha tia. Corri, corri e corri, sem olhar para trás, sem querer saber se o homem me tinha ouvido ou visto a fugir dali.
Chegando a casa abracei a minha mãe sem dizer uma palavra. Ela pensara que eu apenas demonstrava o meu amor por ela num gesto de afecto. Procurei com o olhar o meu pai. Não estava. Procurei-o e não estava em lado algum. Perguntei à minha mãe pelo meu pai. Disse-me que tinha saído para dar uma volta e já voltava para o jantar, que não me alarmasse, mas o melhor seria eu ir comendo porque de certeza que estava muito cansado de ter estado na praia tanto tempo a brincar, a correr, a saltar, a mergulhar. Sim, estava cansado, e aquele pânico que tomara conta de mim deixou-me ainda mais cansado. Comi e fui directo para a cama.
Mais tarde ouvi o bater da porta e os passos do meu pai a subir a escada que dava para os quartos no andar de cima. Ouvia-o a trautear uma música, como se canta quando não se sabe a letra da canção. Para mim era um sinal de que tudo estava bem, que em nossa casa ainda se era feliz, pois não se canta quando se está realmente muito, mas muito, desgostoso e triste. Ele abriu a porta do meu quarto. Na contraluz não lhe conseguia ver o rosto e como estava ainda adormecido, sem saber se ainda sonhava ou já acordava, o seu corpo ali iluminado pelas costas fez-me lembrar o homem que antes tinha visto e rapidamente me sentei na cama. O meu pai entrou e tentou acalmar-me, perguntou-me se eu tinha tido um pesadelo, disse-lhe que sim que tinha sido isso. Então ele disse-me para me deitar de novo e que ele ficaria ali até que eu adormecesse. Fui-me recostando no colchão e fechando os olhos e o meu pai recomeçou a trautear a canção com que subira a escada. Até que, quando estava mesmo a adormecer, do trautear o meu pai passou para a música realmente, com letra e tudo, e mal me apercebi do que dizia ergui-me da cama mas logo tudo ficou escuro e silencioso.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

X

Lembro-me que fazia frio. Um vento húmido, salgado e de agulhas de areia entrava de rompante pela sala de jantar da albergaria. Ficámos ali muito tempo, eu, sentado, o homem, segurando a porta, e a minha mãe, de boca aberta levando o pano de cozinha tão mas tão lentamente à boca. Não sei quanto tempo ficámos ali os três, quadro vivo, pequeno retábulo de família só faltando uma pequena legenda por baixo. Mas alguém tinha de fazer qualquer coisa, dizer qualquer coisa, sei lá, respirar ao menos, o que parecia que não fazíamos de todo. O homem acabou por fim por me dar a mão. Estendia-ma lá do alto da sua altura, uma mão grossa e dura, calejada, carapaça de caranguejo, enquanto com a outra fechava a porta de entrada. Por momentos eu não lhe sabia o que responder, porque se tratava afinal de uma resposta que devia dar, e hesitando entre agarrar aquela mão e de um salto me pôr atrás das saias da minha mãe, os meus olhos corriam desenfreados de pânico, os meus ouvidos entupidos estalavam com o tum-t-tum do meu coração pequenino. E se aquele homem, com aquela conversa toda dos ladrões e assassinos, não fosse ele próprio um ladrão e assassino, que me enrolou e me amansou com toda aquela conversa de me levar lá dentro e isso tudo só para me seguir quando não estivesse à espera. Como é que eu iria fugir daquilo, como poderia eu escapar das garras daquele tritão e salvar a minha mãe, esse era o meu pensamento naquele instante, pois porque quando somos crianças sentimo-nos sempre − e é sentir o que quero dizer e não pensar que somos porque todos os nossos gestos quando em risco, todos os nossos músculos, agem nesse sentido − como os heróis salvadores das nossas mães em perigo, quero dizer e sem querer fazer generalizações, pelo menos eu pensava assim.
Talvez por me saber assustado, tolhido pelo pânico, por aquela sensação de impotência heroína, o homem, que ainda eu não sabia que era o meu pai, acocorou-se e indicava com pequenas tremuras dos olhos e das mãos que me devia agarrar e me erguer, dando pequenos espasmos às mãos e guiando-me com os olhos ao espaço vazio a que me devia agarrar, todos os seus movimentos convidavam-me a levantar apoiando-me nele, tal como eu fazia aos meus amigos nas nossas batalhas ou eles a mim se era eu o caído morto ou ferido sangrando aquele sangue que só nós sentimos e vemos escorrer das nossas feridas.
A medo, a muito medo, a minha mão foi ao encontro da sua, bóia salva-vidas no mar de medo que me afogava, abismo profundo que me impedia de ouvir e ver a minha mãe, que decerto se encontrava atrás de mim, estátua alegórica do espanto, e que nada fazia. Fechei a minha mão na sua, a sua irmã agarrou-se-me ao cotovelo e sem esforço por aí além, uma pena apenas nas suas mãos, soergueu-me fazendo-me saltar do chão num único impulso. Senti sacudirem-me a serradura e a palha das minhas costas e o do meu rabo, nesses movimentos precisos e prontos da atenção maternal. Os meus olhos não se descolavam dos do homem, até que os dele se desviaram para os da minha mãe e de volta para mim. Sorriu ligeiramente.
“Não te sabia aqui.”, disse o homem.
“Não – moro – te sabia – aqui – vivo – senhor.”, dissemos minha mãe e eu não sabendo a quem ele se dirigira. Riu-se agora do coro medroso.
“Cheguei hoje ainda há pouco. Encontrei este rapaz lá em baixo no porto e agora encontro-o aqui, junto a ti... É teu filho?”
“É, é meu filho... é... teu... é também teu filho... é o nosso filho.”
“Unh. Está bem, se o dizes, acredito. Não me mentirias, pois não?”
“Não, claro que não.”
“Há alguma coisa que se coma nesta casa? Não como há um, dois dias. Acabaram-se-nos as provisões que trazíamos da Índia a meio da nossa costa e tenho uma fome de tubarão.”
“Sim, ainda sobrou algumas coisas do jantar. Senta-te aí nessa mesa junto ao lume de chão que eu trago-te já.”
Minha mãe saiu da sala e entrou na cozinha atrás do balcão. O homem sentou-se num banco, deixando cair o seu saco de pele junto aos seus pés e inclinou-se para o fogo, esfregando as mãos. Ainda assustado, fui-me aproximando do marinheiro, encurtando a distância que nos separava com pézinhos de lã.
“O senhor... o senhor é meu pai?”
Sem sequer se voltar para mim, eu que já estava ao seu lado quando lhe perguntei a minha maior dúvida de então, saber quem afinal era o meu pai e me livrar do estigma, desse anátema, da orfandade, embora a minha Tia sempre me dissesse que todos nós éramos filhos de Cristo nosso Senhor e por essa razão não era eu órfão nenhum, o marinheiro diz-me que sim, segundo a minha mãe, sim, ele era meu pai. Com o mesmo impulso que me senti erguido do chão por aquelas mãos que se esfregavam procurando guardar o calor do fogo, me agarrei ao seu pescoço.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

IX

Tenho lá fora um remo.
É o que me resta do mar
mais uma grande vontade
de o afogar.
Alexandre O’Neill

Não sei se ainda hoje, tão longe já no tempo e tendo visto já tantos barcos rasgando as ondas, poderei explicar a sensação atordoante, a electricidade que percorria no meu corpo e por todos os outros que me rodeavam. Pernas, braços, troncos apertavam-se uns contra os outros, pisavam-se pés incógnitos e não se sentia dor, os peitos eram amarfanhados por explosões de sentimentos, gritos, choros, falta de ar. Chamavam-se nomes de homens, clamava-se a Deus pelas boas graças do regresso a salvo de pais, filhos, avôs, todos os aventureiros das causas de um homem e de uma família que não se conheciam senão pelos seus nomes e números, não sabendo sequer se de facto existiam. As caras e tudo o que as definiam eram paisagens maiores que todos os oceânos, terras de esperança, de amor e alegria, de tristeza e dor pelos que morreram no mar, pelos que retornaram estropiados, doentes, vivos e barbudos, apertavam-se mãos, lançavam-se flores, cantava-se, beijava-se, chorava-se, abraçavam-se desconhecidos.
Nunca vi tanta gente junta, creio que nem mesmo nos dias de aniversário da família real, quando surgiam para serem parabenizados, se aglutinavam tantas pessoas num só sítio como naquele dia da chegada das naus. De início deixei-me levar pela corrente de corpos até ao porto, sem qualquer controlo do meu próprio corpo, sem qualquer vontade, senão uma força de pura curiosidade alheia que aos poucos e poucos foi tomando conta da minha pessoal curiosidade de ver homens que, embora muito mais velhos que eu, nasciam agora para mim, nascido que estava há seis ou sete anos. Não eram homens da mesma terra que eu pisava, mas homens marinhos, aquosos, ondinos, homens de algas e sal, ondas e marés, remoinhos, tempestades secas e violentas, homens de cordas duras e tábuas rangentes, com os ouvidos toldados pelas vozes das sereias que me contavam que existiam para lá da vista quando esta se arredonda − sei-o agora que se arredonda e que não cai em degraus ou em queda livre porque eles estavam aqui para dizer que com a recta se faz a circum-navegação. Por essa razão necessitava de os ver mais de perto, tão perto quanto possível, sentir-lhes o cheiro das suas peles para saber se eram ou não diferentes de mim, se não seriam antes tritões de duras escamas cobertas de limos, ou monstros como aquele que Maldoror encontrou uma vez à beira-mar sentado sobre uma rocha com cada parte do seu corpo substituída por um qualquer animal marinho, cabeça de alforreca, nádegas de caranguejo; seriam os seus hálitos de salsugem ou do comum cheiro nauseante de vinho azedo e pão bolorento? Eu precisava de tocar naqueles farrapos de pano e gente, precisava de me comparar com aqueles homens.
Meti-me assim por dentro do labirinto de pernas na minha própria viagem ou circum-navegação num oceâno de membros, ondas de movimento, imóveis rochas, remoinhos de emoções, reverberações de ânimos em grutas, um projecto de uma impossibilidade maior que o proposto por Magalhães, esse de dar a volta completa aos oceânos e terras. Aqui, muito mais do que em qualquer mar traiçoeiro, se me opunham marés contrárias, puxões de ventos de troncos de carne que me enfunavam os meus trapos e me faziam arrepiar caminho e me perdiam do meu destino. Labirinto móvel, labirinto vivo animado de excesso de emoções, de gritaria, de choros, e eu sem fio de Ariana, correndo, chocando, pulando, minotauro de mim próprio, perseguia o meu desejo de chegar ao fim para alimentar esse desejo, essa incógnita de homens, torná-los reais mais do que a história que se faziam deles pela saudade.
A pouco e pouco o labirinto foi-se desfazendo até que me vi sozinho frente a frente com as naus vazias, velhas ruínas silenciosas que apenas teriam honras de conforto, de carinho e carícias dias mais tarde quando carpinteiros, marceneiros e calafeteiros acabassem as celebrações de retorno dos seus outros filhos pródigos. A estes filhos que ficavam abandonados nas docas ninguém lhes passava a mão pelo dorso, ninguém encostava o ouvido procurando escutar os seus vagidos de tristeza orfã. Por simpatia, ou por me ver igualmente abandonado pelos meus amigos, deixei-me ficar e sentei-me nas tábuas húmidas do porto mirando aqueles colossos balouçantes. O que vai ser de vocês agora, agora que estão sozinhas?, perguntava reparando em cada tábua carcomida pelo sal, pelas algas e pela força da água. Despertava em mim uma vontade de inspeccionar os seus interiores, de vasculhar os seus segredos e sombras, esperançado por descobrir o que fica sempre escondido, mas o meu medo era maior do que aquelas embarcações e tinha fendas por onde a coragem se escapava bem mais fundas e abismais do que aquelas madeiras pisadas tantas vezes ao longo de anos no alto mar.
“Se vieste para morrer não procures mais.”
Assustado por um som diferente do do chocalhar das ondinhas nas tábuas e do da minha voz, por pouco não caía ao mar, não tivesse aquela estranha voz me prendido o ombro com uma mão calosa de tanta ternura.
“Gostarias de lá entrar?”
“...”
“Gostarias de lá entrar, perguntei-te se gostarias de lá entrar. A nau comeu-te a língua miúdo?”
“Na...não senhor, nem nau nem gato mas susto senhor. Nem minha mãe me deixaria entrar e respeito muito a minha mãe para não entrar onde minha mãe não quer que entre, senhor.”
“Fazes bem em respeitar tua mãe, mas não estando ela aqui presente o que te impede de penetrar na nau?”
“Ninguém senhor mas também o senhor, senhor, pois estando aqui o senhor quem me diz que o senhor não me entrega às autoridades depois de entrar, senhor?”
“Fazes bem em desconfiar, embora para um miúdo da tua idade é muito estranho tanta falta de confiança ou falta de saber o que não se sabe. Senão fosse essa vontade de saber não nos teríamos lançado à água. Fazes bem, fazes muito bem. Tivesse eu tido esse teu medo antes...”
“Porquê senhor?”
“Morres.”
“Desculpe senhor?”
“Morres, disse eu, morres se lá entrares, morre qualquer coisa. Eu próprio morri.”
“Mas como senhor se aqui está falando comigo, senhor?”
“Tens razão, estou aqui não estou? Finalmente estou aqui, finalmente estou em casa.” e riu-se e ri-me também eu. Depois passou com a sua mão pelo meu cabelo e partiu para a praia com um saco de pele alçada sobre o ombro. Levantei-me e fiquei-me a ver o homem descendo o molhe e as rochas naquele passo pesado que a areia obriga. Até que o homem se voltou para trás e gritou.
“Se eu fosse a ti não ficava aí muito mais tempo, não tarda com a lua já no alto como está chegam ladrõezecos piores que tu e eles não precisam de entrar nos barcos para matar. Vai para casa miúdo.”
Segui o conselho do marinheiro e não fiquei à espera de os ver chegar. Corri e corri sem olhar para trás, sem mesmo me despedir das naus e do marinheiro e quando cheguei a casa já minha mãe se encontrava à porta pronta para sair em minha busca. Claro que não lhe disse por onde andei, disse-lhe apenas que me ocupei a brincar com os meus amigos lá no alto dos montes nos campos e como a nossa guerra não acabava, porque se atrasou pois ninguém queria fazer de pagão e nos divertíamos tanto que nem reparámos que o sol se tinha posto e a lua iluminava. Minha mãe foi perdendo a preocupação e entre abraços e beijos conduziu-me para a mesa na taberna onde sempre eu comera as minhas refeições. A algazarra, como seria de esperar depois da chegada dos homens do mar, era maior do que as outras vezes, mas minha mãe nem se perguntava porquê, ainda toldada pela preocupação de ter perdido o seu único filho. A festa já ia longa quando comecei a comer, por isso, quando terminei a minha malga de sopa, já minha mãe, tia e ajudante se preocupavam com as limpezas. Foi então que se levantou um vento que fez estremecer a porta até a soltar do trinco. Como as minhas mulheres ainda se ocupavam com as arrumações, saltei do banco para o chão e corri para fechar a porta. Fazia muito escuro lá fora e quando abri a porta para ver se alguém e não o vento a tinha entreaberto, não parecia que alguém habitasse a noite, até que um pé e uma mão se fizeram iluminar pela fraca força das velas. De susto saltei para trás e um homem convidou-se a entrar. Lá dentro minha mãe fez saber que já estávamos encerrados, pois tinha muito bons ouvidos e a porta rangia sempre que empurrada, mas como não ouvira resposta nem de voz nem da porta a ser trancada, toda eléctrica entra de rompante na taberna e dá de caras comigo sentado no chão a olhar para um homem que se encontrava a olhar para mim.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

VIII

Tal como já vos tinha dito, esta história, que ora conto, foi recolhida junto dos idosos da minha terra durante largos anos quando, depois de também eu ter zarpado por esses rios acima, voltei para o enterro da minha tia-avó, quero dizer, para depositar um frondoso ramo de flores na sua campa e, vendo-me só num local a que já não podia chamar casa, me decidi a criar raízes, tentar conhecer melhor quem foram os meus pais. É com grande esforço que vos conto esta mesma história, visto nos encontrarmos agora nos alvores do ano de dois mil e oito e embora tenha vinte e oito anos, já muitos séculos passaram sobre o dia dos tempos da minha vida. Está correcto o que digo, é sobre o dia dos tempos da minha vida, como me gerei e cresci, e não sobre essa metáfora que certas vezes se usa de noite dos tempos. Seria noite se não houvesse qualquer luz sobre esse tempo, ou se falássemos do fim dos tempos. Sou ainda demasiado novo para falar disso e o tempo corre ainda, como por mim flui, desamparado. Poderia contar-vos muitos acontecimentos sobre o mundo, é certo. Contudo largo isso nas mãos devidas, aos historiadores, claro. Não sou um Mouro Velho de Diu como aquele contado por tantos que conheci e li, Castanheda, Andrada, Sousa Coutinho, Diogo do Couto, Simão Machado. Sou somente um velho de seis séculos e no entanto tenho vinte e oito anos e o tempo corre ainda, como por mim flui, desalmado.
Correu então o tempo e no ano de 1498 explodiu a notícia em Lisboa da chegada da armada de D. Vasco da Gama à Índia. Explodiu de facto a boa nova e festas e arraiais fizeram-se por todo o reino. Homens e mulheres, jovens e crianças, saíram à rua para celebrar mais um feito do pequeno país que crescia em riqueza, apenas vista entre todos pelas monumentais construções arquitectónicas e as faustosas roupagens dos nobres quando estes se passeavam entre o povo. Minha tia e mãe, por seu lado, continuavam pobres, trabalhando todos os dias sem descanso, de manhã à noite. E se a condição empobrecida de ambas não diminuía, numa a velhice rasgava-se nas rugas, nos dentes caídos, nas cãs escondidas pelo pano da cabeça; na outra, a minha mãe, arredondava-se a barriga oculta no avental e outros mais panos para que não a denegrissem de pecadora ou monstra. Em verdade, ela própria não conseguia explicar tal feito tão pouco natural, do nada ou da fome que lhe costumava grassar no estômago brotar um ser qualquer que lhe dava as voltas à comida, que lhe revoltava o interior, lhe davam ganas estranhas, que lhe bulia os movimentos, que lhe engrossava a bexiga e ao mesmo tempo a fizesse sentir a mulher mais bela do mundo, pela união secreta que se estendia dela para lá da história, ligando-a à primeira mulher e à profana mãe de Deus.
Como fora a tia a descobri-la naquela desgraça sobre a enxerga, violada pelo ar, acreditando nas palavras da sua nova sobrinha, tentava também ela encobrir o estranho acontecimento de uma barriga bojuda de vida, rezando embora todas as noites a Jesus Cristo que lhe trouxesse luz sobre o enigma, aquele mistério de Maria. Quando entrara na salita contígua à cozinha e ao pátio dos animais, preocupava-se já pela longa demora da mulher minha mãe, o que poderia ela estar a fazer quando tantos clientes ficavam à espera de serem servidos e acima de tudo por ela, a cara bonita da taberna, da albergaria, não aquela ajudante lenta e aparvalhada, mais trapalhona que uma barata doida em lixeira de festa, que três em cada cinco pedidos baralhava porque se intrometia nas conversas dos senhores e das senhoras e se metia em jogos de sedução de mãos por pernas e saias acima. Minha mãe era a pérola lustrosa entre a mobília gordurosa daquela casa, a filha que nunca tinha tido na sua presa vida, a cara e o corpo da sua infância sonhada, a sua preocupação, a sua ocupação de pensamentos enquanto o seu único sobrinho grassava por mares nunca de antes navegados. Do que encontrara não estava ela à espera, o corpo daquela rapariga dado ao mundo e ao sangue, murmurando febrilmente ele esteve aqui, ele esteve aqui, mas ele quem se no quarto somente se encontravam as duas, foi ele, a salamandra, foi ele, o espelho de bronze, ele, a enxerga ensanguentada, ele, a roupa suja de molho de carne e de vinho, aqui foi ele esteve, mas foi ela que abriu a porta trancada, que lhe cobriu o corpo ferido e nu, que lhe abraçou consolando-a do choro no quarto vazio de janelas fechadas, ninguém passaria por aquela finíssima abertura da pequena janela aberta pelo vento, ninguém senão uma brisa, uma mosca, uma formiga, nem sequer o espírito santo se fosse pomba. Consolou-a como a mãe que nunca fora, abraçou a criança que a rapariga minha mãe ainda era, disse que já vinha, que iria fechar a taberna e a albergaria para tratar dela, o que fez de imediato malgrado a clientela resmungona que ao olhar da tia trancou a língua nos últimos goles de vinho e desandou desanimada dali para fora. Mandou a ajudante para a albergaria, para o quarto dela, e seguiu para junto da minha mãe. Amparou-a dali para a albergaria, preparou uma enorme tina com água fervida e banhou-a de todo o sangue seco ao longo das pernas miúdas. De seguida levou-a para a cama e cantou-lhe como sempre quis cantar à criança que nunca tivera: “O mar enrola na areia / ninguém sabe o que ele diz / enrola, bate e desmaia / só porque se sente feliz”.
As rugas singravam pelas faces da minha tia e eu ia crescendo, dizem, naquele quente escuro, num abismo marítimo cheio de sons, barulhos e doces ares. Chocava contra grossas paredes moles, mergulhava e esperneava ao longo de um corredor arredondado, experimentando comungar a minha fome com a dela, a minha mãe, experimentando conjugar as palavras que ouvia com os meus movimentos, agarrar, torcer, espernear, prender, abraçar, sorrir, morder, sugar, podiam muito bem querer dizer nas palavras dela, a minha mãe, onde estás que me faltas, teus braços encordoados, foge-me o coração se aqui não estás, já sei o que é saudade, de noite sinto que estás aqui de meu lado, verás o filho que é teu nosso de amor ausente, sinto os teus lábios junto à minha pele meu amor, minha laranja meu doce de morder todas as horas. Isto escrevia ela todas as noites, sei-o bem, servia eu de escrivaninha noites a fio com o seu caderno sobre a minha cabeça, porque nunca cheguei a dar a volta, ouvindo o rasgar das folhas e o embeber da tinta no sulco que a pena fazia, o murmúrio das suas palavras, uma a uma, ou frases inteiras de um só gesto se lhe soltava a língua das pontas dos dedos, ouvindo o vento das folhas tão semelhante ao correr da água pelas ribeiras e para adormecer cantava-me a canção que a tia a ensinara, ou lhe lembrara.
De vez em vez trovejava, levantavam-se ondas, rugiam as marés, apertavam a gruta e tudo ficava mais salgado e não sei porquê entristecia, macambuziava, não me apetecia torcer a corda que me prendia à bóia, queria que ela parasse, partisse, esquecesse. Escutava-a dizendo porque é que nunca mais me escreveste, estarás morto, afogado, naufragado, que leviatã fez de ti Jonas, que sereia te cantou, em que concha te lapas agarrado a terras que matas, eu não quero saber de sedas, nem de ouro ou canelas, quero que te metas num burro e me entres pelas janelas, quero que abraces o que te espera; e eu só queria que aquilo parasse e tanto quis que lhe vim dizer cara a cara, abraça-me tu a mim que há nove meses estou mergulhado dentro de ti e tenho frio, querias um náufrago tem-lo aqui, aperta-me para que respire.
E assim fez. Ou assim fizeram as duas, e às vezes as três mulheres daquela casa. De manhã acordava nos braços da minha mãe, comia do seu peito e dormia. Mais tarde eram outros os braços, os da minha tia ou os da ajudante, à noite de volta aos da minha mãe. Quando me enrijeceram as pernas, já não conseguia contar quantas mãos me pegavam ao colo, quantas caras estranhas me olhavam, me sorriam, me ensalivavam as bochechas, rai’s partam aquelas pessoas todas que não podem ver uma criança, querem logo todos ser muito gentis para agradar a dona da casa, para ver se ganham um copito mais com tanta mimelice, a besuntarem-se, para além dos beiços sujos de molho de carne e vinho, de uma gordura a que chamam mimo ou carinho e que cai num grande splash no chão assim que a criança e a mãe viram costas. Por essa razão costumava fugir da taberna assim que comecei a correr. Mal me davam o pequeno-almoço escapava a todas as mãos que me queriam agarrar, deslizando pela serradura debaixo das mesas e bancos, saía pelas traseiras, passava os animais e dirigia-me para o molhe lá em baixo no Cais do Sodré e se fizesse sol mergulhava e nadava, se fosse outro o tempo corria cima a baixo ao longo do rio.
Foi num desses dias de fuga, porque quando chovia ficava em casa, que fui surpreendido com muito mais pessoas a correr para o rio do que eu e os meus amigos. Para não sermos atropelados tínhamos de acompanhar o movimento fosse ele para onde fosse. Parámos somente quando alcançámos o rio e frente a nós três gigantescas naus aportavam.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

antes de mais, peço desculpa pelo modo como segue este sétimo capítulo. no formato word tem a formatação que se vê, mas a edição do blog não permite, pelo que tive de transformar o texto em imagem. para o ler melhor (quem o segue), terão de clicar imagem a imagem e ir lendo.






segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

VI

Minha mãe foi-se adaptando à nova e oculta vida. Era a mesma serva e empregada da minha tia-avó, mas sentia-se outra. Era definitivamente outra mulher. Não o sabia explicar porque nada mudou no seu dia-a-dia de ajudante de taberneira, cozinheira, mulher de limpezas, tratadora de animais, tudo o que havia para fazer na albergaria adoptiva. Movia-se com a mesma agilidade de antes, por entre mesas e bancos soltos e corridos. No fim de contas, ainda há pouco tinha chegado à maioridade. Contudo, não se tratava desse acrescento de anos que se devia a diferença.
Era outra mulher porque agora sabia-se de novo ligada a alguém. Quando perdera seus pais descobriu-se só, uma flor colhida e deixada num vaso recordando as suas raízes noutro sítio, e do segredo, do sentimento que não tinha comparação, viu-se novamente árvore entre árvores, com raízes a rebentar pela terra a dentro. Estava intimamente ligada a um homem através dos oceânos.
Sua conquistada tia, ganha por laços invisíveis, notava também uma diferença, mas explicava-a pela habituação ao serviço, à casa, à companhia diária que a permitia sorrir e dizer o que lhe ia na cabeça, ou, como dizíamos nós quando ainda acreditávamos de modo inquestionável, na alma. Por essa razão, por se sentir mais próxima dessa rapariga, aliviou-lhe do número de tarefas contratando uma outra mulher, que não terá qualquer papel nesta história senão o de permitir à minha futura mãe mais tempo para si própria. Também os homens frequentadores da albergaria, os ditos clientes habituais, a viam como outra, aceitando uns a condição de habituação, outros a da idade, vendo-a mais mulher que antes. Só que, se antes quase todos os homens brincavam e atiravam ditos eróticos a uma menina nova na casa, abusando da ignorância e da ingenuidade, agora, aqueles que se atreviam a antigos jogos sedutores, eram obrigados a comer, beber e calar com a prontidão das respostas de minha mãe e palmadas em mãos intrometidas. Uma nova mulher tinha nascido.
Decerto parecer-vos-á estranho o que agora vos direi, mas minha mãe teve uma educação privilegiada para os tempos que viviam, comparável apenas com as filhas dos homens e mulheres da corte, e nem todas. Quando ainda criança, dando os seus primeiros passos, meu desconhecido avô, criado e educado entre membros do clero, aprendeu a arte da leitura e escrita e, ao abrigo dos olhos rurais da minha incógnita avó, que preferia um corpo de cabeça e mãos lapidados para o trabalho doméstico e do campo, passou os seus conhecimentos para a filha. Era de facto um privilégio, embora muito pouco dado a uso desde que minha mãe trabalhava. Contudo, o aparecimento daquela nova mulher, que como já tinha dito não representa qualquer papel relevante nesta história, na albergaria da minha tia, concedeu àquela outra novíssima mulher, minha mãe, tempo para retomar a leitura e escrita.
Como não recebia qualquer carta de meu pai, pensando que ele não faltava à promessa mas antes, ao contrário dela, não ter o tempo desejado para lhe endereçar o seu amor de longínquas partes, decidiu por sua vez ser ela a escrever. Todavia desconhecia para onde enviar as suas epístolas, as suas memórias de amor nunca vividas em partilha. Assim, num dia livre de trabalho que agora tinha a seu dispor, decidiu procurar um bom livro em branco onde pudesse apontar as coisas que queria e necessitava dizer ao seu esposo. Naquele tempo um objecto como um livro em branco valia ouro – à semelhança dos dias que correm. Conhecendo as possíveis dificuldades de o arranjar para si, foi ter com o muito agradecido padre que os casou. Lá lhe explicou o seu desejo, as suas razões, que nada daquilo seria mal visto aos olhos de Deus, retorquindo-lhe que era um outro modo de tecer tapetes na dura espera pelo seu companheiro, qual Penélope afastando os pretendentes enquanto aguarda o retorno de Ulisses. O padre, embora torcendo o nariz com essa comparação e replicando se ela se julgava uma renascida Safo, acabou por lhe arranjar o dito livro em branco, que por acaso até tinha um a mais entre os seus, e pediu-lhe que de uma vez por todas o deixassem em paz e despachassem a história.
De novo em casa, depois de jantar, encaminhou-se para o seu quarto. Sentada num banco improvisado e depositando o livro aberto sobre uma camilha, deu início à sua escrita de amor. Mal sabendo que o seu esposo o mesmo fazia, de dia para dia, também as páginas daquele livro, um volume grande e grosso, se foram preenchendo cada vez mais. Quando terminava fechava o livro e guardava-o dentro de uma gaveta secreta num baú que trouxera com o seu burro. Apagava a vela e adormecia pensando nele, sonhando com o momento da sua chegada para lhe ler o seu coração.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

V

Não vos poderei decerto descrever a visão de tão imenso mar ao longo da viagem, nem tão pouco as maravilhas, os sustos e terrores que meu pai e seus companheiros passaram nas naus de D. Vasco da Gama. Disso disse melhor o meu contemporâneo de olho vazado, nesse seu longo poema censurado e dedicado ao rei rapaz. Mas, como sabem, os acontecimentos não foram poucos e escassos de deslumbramento. Névoas e nuvens, torres líquidas no horizonte, povos estranhos que não se levavam pelas bugigangas brilhantes que os meus conterrâneos tinham levado para a troca de ouro e pedras preciosas; animais deslumbrantes, folhas de cores garridas, milagres, doenças, mortes e esse encontro magnífico com o fim de África, com esse morro mortífero e maligno que agora, passado as trevas que o encobriam, conhecendo a sua história, domado o monstro e dobrado o cabo, se chama da boa ventura e esperança.
Falei-vos de monstro e agora lendo-me a tantos séculos de distância rir-se-ão de tamanha estupidez. Não é monstro, mas metáfora de transgressão, metonímia de dois povos, o africano e o português. Sim, agora é-o, mas não outrora. Era vivo o monstro que por lá habitava, vivo e mortal e muito espanto causou aos olhos de meu pai. Não só o seu negro e rochoso corpo entranhado naquele penedo e castigado pelas águas e pela visão da sua amada mergulhando longe do seu alcance, não. Também a sua triste história muito lhe marcou, essa história de traição e engano, de perda e de maldição. Não houve um único homem naquelas embarcações que não tenha pensado nas suas mulheres deixadas nas terras lusas e imaginado, por um instante, eles próprios agarrados a um destino que os deixa apartados dos seus amores sabendo-as livres, mergulhando nuas nas, então, claras e cristalinas águas do Tejo, do Mondego, do Douro. O baque foi completo e total, pelo menos no que toca ao meu pai. Ele, tão apaixonado e casado há tão pouquíssimo tempo, perder o seu amor? Nunca. Não suportaria, ele não tinha a força daquele titã de pedra, mesmo tendo o coração tão mole e de carne como o outro – sim, porque ele percebera que por dentro daquele corpo de pedra fria e dura palpitava o mais amolecido dos corações.
Jurou a si que nenhum mal cairia sobre o seu amor e que nada o afastaria do lado da sua mulher, depois que retornasse. Mas aguentaria ele esta distância que aumentava de dia para dia, sabendo-a, ainda por cima, entregue aos olhares e toques da gentalha que frequentava o estabelecimento da sua tia? Teria a sua jura a força necessária para que o amor não o abandonasse? O tormento que por agora passava era bem maior do que um cabo naufragante, as ondas de sonhos e da imaginação eram bem mais fortes que as que chocavam contra as paredes da embarcação. Era necessário agir.
Lembrou-se então de uma promessa que fez. Escrever, escrever-lhe, escrever a essa jovem mulher, sua esposa, seu futuro, sua terra, sua casa. Escrever, aproximá-la a si, trazê-la para perto, buscá-la para junto de si mais ainda, aninhá-la na sua enxerga naquela camarata a abarrotar de marinheiros solitários e desejosos de corpos quentes e femininos, ali, viva e sem que ninguém soubesse.
Nessa mesma noite, à luz de uma mínima vela e à sombra do seu alquebrado corpo do trabalho diário, pôs mãos à sua obra de pena em punho, uma enorme pena de albatroz colhida nessa manhã e tolhida do seu espírito enamorado.
Todos os dias, à noite, escrevia uma a duas páginas. Depois o número de epístolas foi crescendo de dia para dia. Cresciam igualmente o número de páginas por carta. Em cada tempo morto meu pai pegava na pena e escrevia desalmadamente. Em vez de ficar às vontades do ondear das vagas na embarcação, de cantar e conversar com os seus companheiros, ele e aqueloutro que já referi, que mais tarde veria o seu olho ser vazado em combate, escreviam costas contra costas (esse mesmo poeta numa noite roubou-lhe uma das suas cartas e transformou-a num belo canto, e onde um homem acostava a uma terra encontrando a sua mulher e ambos se entretinham com os fazeres do amor entre comida, bebida e jogos, logo o outro transformou numa graça de uma deusa pagã aos marinheiros portugueses, ah se isto fosse alguma vez dito!).
Em cada porto improvisado meu pai expedia as várias apaixonadas epístolas, que mais cedo chegariam à sua destinatária que ele próprio, ignorando o seu regresso.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

IV

Não há muito que se diga sobre os primeiros meses de estadia da minha mãe na hospedaria da minha tia-avó. Os dias passava-os ela ajudando na cozinha, limpando a casa, servindo à mesa, tratando dos animais, quero dizer, fazendo aquilo que antes fazia a dona da casa ficando agora esta apenas a atender os clientes na taberna dando ares da sua graça cheia de bravata, porque era afinal isso que muitos homens gostavam, serem tratados como as bestas que eram, frios e duros pedaços de carne transbordando de desejos. A minha tia-avó sabia como tratá-los e pô-los na ordem, resolvendo desavenças de punhais com meia dúzia de palavras disparadas à queima-roupa e no picanço à desgarrada – quero dizer, pacíficas lutas de versos, décimas, sonetos, etc. – ela era capaz de dar avanço em cinco lances verbais, ficar por baixo e no fim voltar à tona da maralha levando a clientela ao rubro, muitos deles até ficavam literalmente ruborizados e não era de todo do vinho. Não era, portanto, uma casa para santos, frades e damas, embora muitos por lá passassem ao abrigo dos olhos dos da sua classe.
Decerto que já estarão a pensar onde pára o meu pai. Não muito longe. Rondava às escondidas as traseiras ou a cozinha espiando a futura minha mãe, quando não se encontravam a conversar até quase a aurora despontar sobre os telhados frente ao Tejo. Como era natural, tanta presença prolongada, tanto esforço partilhado, muitos sentimentos vieram à luz do dia ou da vela. Do mero cumprimento casual, veio a perduração dos seus corpos frente a frente ou de um aperto de mão. Daí as mãos procuraram novos territórios físicos, um antebraço, um cotovelo, um braço, um ombro. A desconfiança veio a ser confiança, a simpatia gosto, o encontro vontade, a vontade paixão e por fim um amor que por pouco fazia minha mãe ser despedida – não por ter havido encontro carnal entre os dois, mas porque muitas vezes chegava atrasada ao serviço e minha tia-avó não gostava.
Só que toda esta aventura não podia durar. Certo de que amava a minha futura mãe, meu pai ficou com ganas de desposá-la e para isso necessitava de dinheiro. Ora, a melhor maneira de o conseguir era inscrever-se numa expedição marítima em busca de um novo caminho para as Índias, almirantado pelo então muito pouco conhecido D. Vasco da Gama. Numa noite mais calma de gentalha bêbeda, meu pai confessou seu plano de ventura e tristeza. Ventura, pois, porque se tratava do encontro dos dois que me geraram pelas tramas dos fios dos fados, porque unir-se-iam para sempre aos olhos de Deus, porque caminhariam a par de ora avante. E também tristeza, porque mal descoberto o amor logo se aparte para longe, amor em terras distantes, corações sobre os oceânos.
Casar-se-iam quanto antes, hoje à noite, amanhã depois do canto do galo ou ao sol-pôr, nunca depois de daí a três dias, pois zarparia pelos oceânos. Minha mãe já há muito que ansiava pelo pedido. Não lhe interessava o local, campo florido de primavera ou taberna escura e nauseante, e muito menos a disposição física do pedinte, joelho por terra ou pressa de abrir pernas, desde que pedisse, que se noivasse. Estando ela pois de acordo, meu pai foi-se arranjar com o padre explicando-lhe a urgência, que melhor seria ser visto por Deus, quando morresse, casado e com família respeitando as crenças cristãs do que só entre as carcaças dos pagãos ou entre Leviatãs no fundo das águas. O padre aquiesceu fazendo notar que tanto exagero não era necessário, casá-los-ia para que a história se despachasse.
Ainda mal o galo cantara e já os dois se viam como casados frente ao padre. Fizeram a celebração em medas de feno entre animais, sem grandes galanteios e grinaldas. De alianças ficaram-lhes as palavras dirigidas um ao outro e o testemunho mudo do padre, do burro, das vacas e das galinhas. Minha tia-avó nunca nada soube da partilha de amor. Para engrandecimento da tristeza os seus corpos ficaram-lhes vedados, pois ao primeiro canto do galo entraram de rompante soldados na taberna procurando meu pai. Havia igualmente pressa na partida. Todos os inscritos teriam de estar presentes nas galés ainda antes de o nascer completo do sol, os ventos eram já favoráveis à desancoragem. Correram juntos, meu pai e minha mãe, de coração na boca. Fazia-se já grande corrupio para os lados de Algés. Engalanavam-se as últimas coisas, barris de água, carnes salgadas, bugigangas, armas. No porto ajuntavam-se famílias para a despedida, mulheres chorosas, crianças porcas escorrendo ranho, alcoviteiras, peixeiras, pedintes, carpideiras, vates, velhos, poetas, gente, gentinha e gentalha, todos à uma para ver a espuma no bordo bojudo das naus, para acenar, lançar flores, medalhas, maldições e palavras de boa-ventura. Trocavam-se apertos de mão, beijos salgados de choro e mar, abraços, o adeus português.
Meus pais apenas deram um beijo, nada mais, e um aperto, um encosto dos dois corpos, tão justo, tão a descoberto, que pareciam conhecer o corpo do outro como se tivessem nascido nele. Não havia tempo para mais e de promessa ficou apenas a do meu pai: escrever-te-ei sempre que possa, espera-me – e o mais doce junto a tanto mar – meu amor.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

III

Não terá sido, porventura, a melhor das recepções para uma moça que chegava dos arrabaldes à grande metrópole do reino. Ainda para mais tão adolescente, habituada somente às vozes de galinhas e bestas de cargas, de pardais e outras aves canoras, das ordens dos seus progenitores, nenhuma delas sem qualquer aviso ou ameaça de morte. Poderão imaginar o terror que se apossou da pobre e inocente criatura. Como ficava calada a voz repetiu a sentença.
“Se vieste para morrer, não procures mais. Aqui ou se mata ou se morre, não me parecendo que faças a primeira, logo…”
“Não…eu…eu vim apenas à procura de trabalho. Meus pais faleceram e fiquei só, à parte a roupa que trago e este burrico não tenho mais nada. Quero trabalho.”
“É como se já estivesses morta.”
“Não, senhor, estou viva, bem vê que sim, que estou, viva.”
“Então vais ter que te despedir do teu corpo e encomendar a tua alma ao Senhor, porque o único trabalho que aqui terás, bonita como és e jovem e rija, será o teu corpo. Se queres continuar viva, deixa-te morrer, assim o teu trabalho não será a tortura que pensas que é, também terás prazer.”
A rapariga não podia crer nos seus ouvidos. Pálida, quase desfalecendo do burro abaixo, congela os seus olhos nos olhos do homem, trespassando-o, procurando congelar a sua língua enquanto aquece um coração de pedra pensando que assim a pouparia. Toda ela estremecia agora, as mãos fraquejando e desenlaçando as voltas das correias, o peito subindo e descendo em ondas arfadas, o lábio inferior tremendo e formando um beicinho de criança, a cabeça caindo sobre o seu peito ocultando lágrimas que lhe nasciam e caíam sobre o dorso do animal, que a olha estranhando a situação com uma folha de alface na boca. Que proposta mais indecente, que modos de receber quem de longe vem. Tivesse ela morrido na vez dos seus pais. Tivesse aquele maldito fogo tomado conta de si como das bruxas nas praças públicas em vez dos seus pais, dos seus queridos e mortos pais. Pensava ela que teria de haver outra forma, não podia ser assim, a sua vida não podia ficar proscrita e oferecida ao Diabo sendo ela tão nova, e mesmo velha e de muitos anos e enrugada também não, nunca faria o que o homem dizia, não, nunca.
“Há outra hipótese”, acaba por dizer o homem, “há outra hipótese se esta não te agrada. Tenho uma tia proprietária de uma albergaria lá para os lados de Santos, não muito longe daqui. Uma das suas ajudantes de cozinha caiu morta com tísica, ou lá o que era, e agora precisa de ajuda…”
“Está a mangar comigo?”
“Não, não. Queria apenas saber que tipo de mulher és e a que é que estás disposta. Agora sei-o. Vem, não te faço mal.”
“Porque haveria de confiar no senhor?”
“E porque não? Se te quisesse fazer mal já o teria feito estando esta praça tão vazia como a cabeça do burro que montas. De certeza que te disseram para não falares nem confiares em ninguém, verdade? Mas também saberás que mentir é pecado. Não há mais ninguém a quem possas recorrer, nesta cidade não conheces qualquer pessoa exceptuando eu mesmo. Forçosamente terás de confiar em mim, acreditar em mim. De qualquer modo, consegui impedir aqueles que te perseguiam de te apanharem e te assaltarem ou pior ainda.”
“Mesmo assim, porque haveria de confiar no senhor?”
Realmente, depois da sua primeira aproximação assustando a pobre rapariga, minha futura mãe, o homem, meu futuro pai, não tinha argumentos para a convencer, não fora sua tia aparecer justamente naquele momento vinda do Mercado da Ribeira sentada numa carroça. Mesmo a calhar, pensou o homem e vocês que me lêem. Mandando parar sua tia, o homem conta, depois de perguntado o que fazia naquelas horas da noite acompanhado de uma jovem rapariga, a história do seu encontro. A tia vendo que minha futura mãe se encontrava tão nervosa e chorosa, procurou acalentá-la e sossegá-la, afirmando que tudo o que o seu sobrinho dissera era a mais pura verdade, conseguindo assim convencer a minha futura mãe a ir com eles para a albergaria que ficava lá para os lados de Santos.
Após ter descarregado as suas mercadorias numa pequena cabana nas traseiras da cozinha da albergaria, e desatrelado os seus cavalos e o burro da carroça guiando-os para uma árvore onde se encontrava um monte de alfafa, a tia ajudou a minha futura mãe a acomodar-se num pequeno quarto depois de convenientemente alimentada. Disse que não havia problema, minha filha, aqui estarás tão bem como se em tua própria casa vivesses com teus pais, minha filha, poderás ficar e ajudar ou partir e procurar trabalho noutro sítio qualquer, minha filha, embora sejas bem-vinda à nossa casa.
Ficou.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro

II

De mim não saberei dizer muita coisa, senão que tive pai e mãe, como todos que conheço, e à parte de me lembrar da voz da minha progenitora sempre que ouço aquela canção, dela nada mais sei. Do meu pai ainda menos, exceptuando também um aspecto mínimo senão mesmo banal, se pensarmos na educação rígida e austera que vigorava no tempo dos nossos antepassados. Por ventura já terão uma ideia em mente e não estarão longe da verdade. Falo daquele olhar duro e impenetrável, que nos incute respeito e silêncio sem se proferir qualquer palavra que acompanhe esse olhar que sobre nós cai.
Por essa razão não vos poderei fazer uma descrição exemplar dos dois, não vos poderei dizer, sem recorrer à imaginação e à memória de traços de outros que cruzaram comigo e a quem prestei alguma atenção, como eles realmente foram, e muito menos fornecer-vos a complexidade dos seus humores, manias, que darão mais profundidade para além da pele. Mesmo esses aspectos roubo-os ou peço emprestados a outros e a outras histórias. Demais a mais, talvez seja melhor assim, para que não vos tire mais tempo do que o necessário, para que ouçam a história que consegui coligir a partir de dados recolhidos quando voltei à terra em que nasci.
Se isto é verdade ou se, por outro lado, apresenta as linhas que faz com que esta narração mais se assemelhe a uma lenda, permitam-me, desde já, que vos enderece as minhas mais sinceras desculpas. Pois se assim for, se, mais que verdade, isto vos soe a história de ficção, culpa não será somente da minha pessoa, mas igualmente por ter cedido à força quase mágica que o tempo exerce sobre a memória dos muitos velhos que entrevistei e que, por pouca lucidez, ou a oportunidade de ter um interlocutor com plena e total disponibilidade de atenção e audição, ou até mesmo porque as suas vidas já muito viram e ouviram e muitos véus se lhes desprenderam revelando alguns mistérios fantásticos, só por racionalismo clínico se não se lhes pode crer. Se vos conto agora, é porque necessito de partilhá-la para que também eu vos seja real.
Decorria o ano de 1494 e Lisboa era ainda uma cidade labiríntica. Os mercados espalhavam-se por todas as zonas baixas ao longo do rio Tejo. Distinguiam-se ainda os traços arquitectónicos dos povos das várias religiões, que viviam em diferentes bairros subindo as colinas, num estado de paz e harmonia de comum acordo, como o que existe entre alguns bandos de malfeitores, rufias e bandidos que, a qualquer momento, se pode desfazer. Mas naquele tempo todos tinham os olhos postos para lá do abismo que se rasga depois do horizonte, pleno de riqueza e de desconhecido, de homens novos escuros como a noite, plantas e animais aos quais ainda não tínhamos palavras para descrever e torná-las, a umas e a outros, menos fantásticos e mais próximas da verdade do grande e santo Livro. Ainda para nós é difícil crer, mesmo depois de vistas e tocadas, sem algum assombro e terror, que aos poucos e poucos se dissipa se confiarmos nas palavras do digníssimo Bispo de Hipona, confiança essa que é da mais impreterível e impugnável obrigação de todos. Contudo, nessa altura de desencobrimento da obra divina, muitas maravilhas ficavam ainda por se compreender, tais como os feitos e acontecimentos marcados pelo sinal desse antigo Anjo, outrora Glória e Luz dos olhos do Senhor e agora horror e raiz pérfida de todo o Mal, de toda a transgressão.
Dizia, portanto, que foi nesse ano e nessa mesma cidade que sucedeu a história que agora relato. Numa noite cristalina e quente de Verão, dos campos que ficam junto à Porta de Benfica, uma jovem mulher, ostentando roupas de serapilheira algo andrajosas, estaca o passo do seu jerico nessa praça do Cais do Sodré, zona já de si mal afamada por dar morada e hospitalidade a meretrizes, maganos do diabo, jovens nobres sedentos da baixa vida e do fácil negócio dos prazeres, dos jogos do mau fado; e homens duros e salgados que partem e vêm, para celebrar o retorno ou despedirem-se do chão seguro e pedirem de empréstimo a memória de um corpo para as noites que virão ou lhes cerre os ouvidos ao canto das sereias. Antes de partir já seus pais a tinham aconselhado que se afastasse e deixasse longe tais antros, mas, como adormecera, o seu burrico foi seguindo caminho, a modos como que enfeitiçado, desacelerando o seu passo somente quando não mais pôde dar passada, porque o rio assim o não lhe permitiu.
Por esse modo, a jovem mulher encontrou-se exactamente onde seus pais não a queriam. Confusa e um pouco assustada, não sabendo onde se encontrava, nem conhecendo ninguém, abafada com todo aquele cheiro de vinho, corpos suados e exsudando odores que a um leviano herege que para lá do rio, se dormisse, acordaria, esse cheiro de sangue e tripas escorrendo por valetas, de folhas de couve podre, de estrume, de serradura ensopada das mais animalescas, embora humanas, necessidades dos fundos das entranhas e da bexiga, toda essa gritaria e vozearia de diferentes tons, diferentes temperaturas de humor e línguas; a jovem mulher por pouco colapsou. Encontrou forças onde julgava não ter e guiou o seu burro por entre uma ou outra rua, até que se apeou numa escura praceta, de onde das sombras se fez ouvir uma grave voz:
“Se veio para morrer, não procure mais”.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - o toque do marinheiro


O mar é belo no Inverno. Solitário escuro selvagem sobe mais alto na areia lambe a falésia que nunca se recusa arredonda-se cava-se abre-se ao seu desejo.
Yvette K. Centeno

E no final, o teu olhar toca nos mesmos traçados de caracteres em que o meu toca agora, e tu lês-me, e eu escrevo-te.
Jean-Luc Nancy

I

“O mar enrola na areia / ninguém sabe o que ele diz / enrola, bate e desmaia / só porque se sente feliz”. Quantas vezes me embalou a minha mãe com esta canção, quantas? Não sei dizer bem ao certo, talvez umas centenas, talvez milhares de vezes, não sei. Lembro-me da sua voz, doce, baixando aos poucos e poucos o volume, até que se condensava nas conchas dos meus ouvidos. Deixava-se lá ficar, enrolando-se e enrolando-se. Toda ela cabia nas conchas dos meus ouvidos. Acho até que ela adormecia lá dentro, enrolando-se e enrolando-se e mergulhando cada vez mais fundo, até já só escutar um zumbido e depois nada. E quando se dava esse nada ficava tudo escuro, até o mar começar a se formar muito ao longe.
Primeiro uma risca azul, que se ia prolongando na minha direcção. Depois avolumava-se, ganhava dimensões, outros tons de azul, transformava-se. Ora se alisava, ora se mexia e remexia. Na realidade ondulava-se, enrolava-se tal como a voz da minha mãe a embalar-me. Quando o seu tamanho era já imenso, quando à minha frente e ao meu redor já tudo era azul a levantar-se e a cair, então, bem à minha frente, a primeira linha parecia recuar por alguns segundos, para, de seguida, se enovelar e avançar numa cadência morna, lenta, mole. Uma outra linha formava-se por cima da outra, agora branca, e as duas iam avançando e crescendo em crescendo.
Eu fico no mesmo lugar em que inicialmente me encontrava, a ver aquela onda a crescer e a aproximar-se, em velocidade, em força, a arrebatar o meu olhar, a acelerar o batimento do meu coração, a reunir todo o azul. Quando já se descobre a poucos metros de mim, sinto uma força a puxar-me para ela vinda de trás de mim, um sopro, um vento, uma sucção. Sou tão pequeno à sua frente, tão, tão pequeno. Diria um pedaço minúsculo dela, dentro dela, ou lá em cima, uma bolha de espuma. E ela vem e vem e vem e quando chega sinto lágrimas a escorrerem dos meus olhos e era sempre já de manhã.
Ainda hoje é assim. Eu, a onda e as lágrimas. Porquê este fascínio? Essa é outra história e por essa razão peço-vos a vossa paciência.