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segunda-feira, 11 de julho de 2011

a seguir a em cinco dias évora-fès-évora fiz

se ficaram curiosos com marrocos, se nunca lá foram, não deixem de ir e de procurar passar a vossa experiência para papel, ou outro tipo de media de experiências. decerto que descobrirão, como eu tentei sublinhar exagerando bem algumas das situações, os vossos preconceitos culturais, ou as vossas virtudes "naturais"; mas creio que o mais importante é descobrir o primeiro - o preconceito - percebê-lo e eliminá-lo de vez.
espero que não me tenham levado demasiado a sério. não havia, então, nem há, ainda, qualquer interesse artístico, senão esse de buscar saber se seria capaz de contar, então, e de reconhecer, ainda, o que na memória ficou.

marrocos ou outro país, encontrarão muitas e excelentes sugestões, conselhos, mapas, guias, neste maravilhoso site do meu amigo João Leitão; vão lá espreitar.

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxxiv)

Saímos e passeámos mais um pouco. Passámos pela loja de um marroquino muito velho, de barbas brancas e cego de um olho, onde numa das passagens eu tinha ficado apaixonado por uma meia djellaba castanha. O T. Fès o negócio por mim e ainda trouxe um lenço preto e mais outro todo colorido. Depois andámos ainda mais um pouco para comprar uma mini djellaba para o Gaspar e um cachimbo de água numa loja com ruínas no seu interior e onde o T. por pouco perdia a sua câmara e não teríamos fotografias para ver. Assim que nos aviámos pensámos retornar para o hotel, mas a S. queria comprar mais especiarias (as do Ibrahim ficavam para dividir entre nós) e o T. queria comprar tabaco e carvão para o cachimbo. Eu fui andando porque estava apertado para fazer chichi. Com tudo isto já seriam umas cinco ou seis horas certas e tínhamos que nos despachar. Comecei a fazer a mala e esperei pelos dois. A S. despachou-se rápido e ficámos à espera do T. na sala. Quando chegou fizemos o pagamento do hotel, dissemos adeus e fomos pôr as coisas ao jipe. Perto dele já se encontravam uns miúdos que queriam moedas e demos-lhes bolachas Oreo que tínhamos comprado e pronto, estava feito, fomo-nos embora já com o sol também a despedir-se de Chefchaouen. Enchemos o depósito e o bidão e fizémo-nos à estrada com uma certa pena de não podermos ficar mais e a promessa de voltar.
A viagem de volta foi bem mais rápida, o caminho era conhecido, o trânsito só surgiu realmente às portas de Sebta e não demorámos quase tempo nenhum a tratar da papelada de saída. Fomos directos para o porto, fomos cheirados por um Rex e ficámos à espera para o embarque que apenas era às dez horas da noite. Não houve qualquer problema a estacionar, o Ramón Lull estava quase vazio, lá dentro estavam as camareiras feias e a mulata bonita de rastas, umas quantas pessoas, nós, Los Serranos nas televisões e o Mediterrâneo negro reflectindo os candeeiros. Desta vez sentimos realmente o tempo a passar, a despedida custa sempre. Chegámos a Algeciras e fomo-nos empanturrar com a comida de qualidade ocidental, Burger King e batata frita, já que a coca-cola havia em todo o lado em Marrocos. Despachados e de barriga cheia seguimos a viagem de volta pelo mesmo caminho. Fizemos uma paragem numa bomba para beber café e para o T. trocar com a S.. Com a S. a conduzir eu fiquei como co-piloto, o que resultou na nossa perda numa cidadezita espanhola por quase uma hora, a S. a passar-se comigo a dizer, foda-se pá é sempre a mesma merda contigo, eu não sei porque é que ainda acredito no teu sentido de orientação, nem a merda do mapa sabes ler, só te interessas pelas tuas coisas, e por aí adiante. Por isto tudo, infelizmente, tivemos de acordar o T. para ver se ele se lembrava ou se nos conseguia ajudar. Conseguiu. Todos mais calmos e seguimos com o T. como co-piloto e eu lá atrás e passado uma hora ou hora e meia, ia a S. a conduzir sozinha porque tínhamos adormecido. Quando abri os olhos estávamos estacionados à porta da casa do T. para levarmos o nosso querido Peugeot. Dirigimo-nos para casa a conversar, seriam umas quatro ou cinco da manhã do dia dois de janeiro, dissemos olá à gataria toda, pusemos o pão que nos sobrou de Sefrou no congelador, mandámos as nossas tralhas para o chão e deitámo-nos. E assim se fizeram em cinco dias Évora-Fès-Évora.

domingo, 10 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxxiii)

Foi nesses passeios pela cidade que realmente conhecemos o marroquino mais simpático e porreiro que podíamos encontrar. Chamava-se Ibrahim e vinha das montanhas, casado e com um bebé gordo e sorridente que se passava com o pai. Bastava o pai fazer uma careta ou dizer-lhe qualquer coisa e o miúdo sorria de contentamento. Ibrahim tinha uma pequena loja que era igualmente a sua casa e falava pelos cotovelos. Não foi preciso muito para nos convidar a entrar, ele falava todas as línguas possíveis e se não falasse arranjava meios de falar. Passando por um minúsculo corredor, entrámos numa também minúscula sala, com duas estantes em L que chegavam ao cimo do baixo tecto, uma com especiarias, outra com brincos, anéis, colares, cinzeiros. De frente à estante com especiarias havia um sofá com mantas, onde só cabiam duas pessoas, e um banco que servia de mesa de apoio para o chá de menta que ele pediu logo à esposa para preparar. No chão um tapete estendido e por trás de nós e ao lado, no resto da parede livre, várias mantas penduradas e uma lindíssima de lã rude vermelha e barras amarelas e pretas que, disse-nos ele, inicialmente conseguia cobrir uma família numerosa à noite na tenda e que os irmãos quando partiram, bem como ele, retalharam e dividiram entre eles. Com o T. e a S. sentados no sofá e eu de pé encostado a um espaço da parede ao lado da porta, Ibrahim colocou-se no meio da sala de frente a nós e deu largas ao seu fantástico e irrepetível discurso numa mistura entre francês, espanhol e algum português. Ele nem se importava se nós não lhe comprássemos nada, só a nossa presença era-lhe gratificante e serviria de publicidade lá fora, ele contava com o nosso passa palavra e, como prometido, estou a fazê-lo agora: se forem a Chefchaouen visitem a loja do Ibrahim que não se arrependem. Ele falava e gesticulava, benzia-se e olhava para o tecto, virava-se para nós e chamava-nos de seus irmãos e irmã e dava-nos abraços e beijos na cara, pelo menos eu recebi que me fartei. Ibrahim é o vendedor por excelência, suava, contava-nos a sua história, da inveja que outros tinham dele, de maus olhados que ele julgava que lhe tinham lançado, da sua felicidade com a sua esposa e com o seu lindo e gorducho filho só bochechas que o T. acabou desajeitadamente por pegar ao colo, possivelmente o primeiro bebé no seu colo. Nós riamos com ele, benzíamos com ele, ficávamos amargurados se ele contava as suas dificuldades. Ibrahim tanto desejava que nós comprássemos qualquer coisa a ele como logo a seguir, sabendo-nos portugueses e estudantes, apenas queria que fizéssemos publicidade. Mais umas palavras com beijos à mistura, desejos de boa-sorte na vida, no amor e no dinheiro e não resistimos. Foi logo ali que a S. comprou as suas especiarias, que ele servia como se fossem para os seus mais queridos e amados amigos, e o T. comprou uma manta ou um tapete e conseguiu convencer o Ibrahim a vender a sua manta de família, que ele até não queria mas precisava mais do dinheiro do que da manta. Enquanto servia as especiarias ou vendia as mantas Ibrahim não parava de falar uma única vez. Depois da venda chegou a hora da oferta, a S. deu para a esposa de Ibrahim um creme para as mãos, o T. não sei o que deu, já não me lembro, e eu acho que não dei nada porque não tinha nada para dar. Depois deu à escolha brincos para a S., enquanto que eu apenas aceitei mais um copo do bom chá de menta e o T., porque eu não aceitei nada, não teve coragem de pedir uma coisa que fosse. Despedimo-nos com a certeza que não se perdem as amizades com as distâncias que nos separam.

(cont.)

sábado, 9 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxxii)

1 de Janeiro de 2007

Como é meu costume, quando não me deito muito tarde como às quartas e quintas-feiras, levantei-me cedo, aí por volta das dez horas da manhã. O pequeno-almoço era servido até às dez e meia e tinha pelo menos mais meia hora para comer nas calmas. Pensei que não faria mal, porque muitas vezes fiz isso, tomar banho depois de comer. Olhei para a S., dei-lhe um beijo de bom-dia e deixei-a dormir descansada. Saí do quarto sem fazer demasiado barulho e fui bater à porta do quarto do T., já que tínhamos combinado tomar o pequeno-almoço todos juntos. Disse-me que já lá ia ter. Desci, cumprimentei o recepcionista e perguntei-lhe se ainda se podia comer. É claro que se podia, eram nove e pouco e não dez como dizia o relógio e de facto, o relógio suspenso por cima do balcão dizia dez e pouco quando me fui embora. Só aí é que percebi que alguma coisa estava errada e perguntei se est il correct l’horloge là; oui bien sûr; Mais, n’avez pas vous une heure plus que les portugais? Non, on a le même temps, seulement au Été vous gagnez une heure. Foi aí que percebi que andámos sempre com uma hora a mais que todos os outros, que tínhamos celebrado a passagem de ano às onze horas entre nós e daí a razão de festejá-la uma outra vez uma hora depois. Bom, sentei-me num sofá depois de me ter servido de pão, manteigas, uns biscoitos e um galão frio, porque o galão aquecido dá-me a volta ao estômago, o chá é a única bebida quente que suporto. Fui comendo descansadinho a ver a Al-jazeera em árabe sem perceber nada a não ser que em questões de manifestações e guerras religiosas e territoriais tudo se mantinha na mesma como a lesma. Servi-me de mais um galão e de um café, até que o T. apareceu já de banho tomado. Contei-lhe a novidade, que tínhamos de atrasar o relógio e mentalmente dei-lhe os parabéns por conseguir durante quatro dias chegar uma hora mais cedo do que o combinado. Acabei o café e fui acordar a S. e tomar banho. A S. já se encontrava no banho, por isso, e também como é meu costume, fumei o cigarro da manhã e esperei.
Abri a janela do nosso quarto, saquei de um Marquise e pus-me a mirar a paisagem. Parecia-me que estava na velha cidade de Lisboa, com as suas casas pequenas e ruas estreitas a subir até ao Castelo de Sº Jorge. Bem à minha frente espraiava-se uma colina dessas pequenas casas brancas e azuis claras que dão o aspecto de Chefchaouen, escadas a correr, telhados desfeitos, terraços com roupa estendida e mulheres a lavar em tanques, gatos ao sol que subia mais e mais por cima das enormes montanhas à minha direita, pátios cheios de tralha onde se fazem as necessidades (lá estava eu a fumar e aparece uma rapariga num desses pátios, baixa as calças de ganga, põe-se de cócoras e avia-se até que levanta a cabeça e olha em frente e repara que eu reparei que eu a tinha apanhado a mijar e a reparar em mim, leva a mão à boca para suster o riso e esconde-se enquanto eu desviava o rosto, isto tudo em segundos não pensem que se trata de alguma taradice minha e estava ali especado a olhar). Comecei a rir-me daquele momento e contei à S. enquanto ela se vestia. Tomei um banho rápido, vesti-me, pus a mochila às costas e descemos os dois ter com o T., mas ele tinha subido e ido à casa de banho, o sortudo. Esperámos lá embaixo e quando ele chegou fomos dar uma volta pela Medina, ver coisas e quem sabe comprar. O T. queria levar para o Gaspar, o filho recém-nascido do E., uma djellaba e para o C. um chichá ou narguilé ou cachimbo de água, como quiserem, enquanto a S. queria levar especiarias para nós e para a família. Subimos, descemos, comprámos mais uma câmara descartável e subimos e descemos uma vez mais, víamos onde poderíamos comprar as coisas, já éramos profissionais na matéria, depois do Abdhul estávamos vacinados, quando queremos comprar compramos, quando não, não, só no regateio é que eu não posso falar porque não tenho mesmo jeito para isso.
Depois de termos feito uma primeira pesquisa, de conhecer bem a Medina, de ter levantado dinheiro, decidimos ir para a praça almoçar. Tínhamos mais ou menos prometido a um miúdo almoçar no seu restaurante da praça na noite anterior, quando andávamos de um lado para o outro na praça à procura de onde jantar, e lá fomos. O miúdo não nos reconheceu à primeira, também não era preciso tanto, e sentámo-nos numa mesa. A esplanada estava quase cheia de turistas a mostrarem as suas recordações uns aos outros, a comerem e a beberem coca-cola e chás e por todo o lado à volta das bebidas vespas a voarem que se colavam aos copos, mergulhavam lá dentro, bebiam o doce nos gargalos e atiravam-se para dentro das garrafas. Como as bebidas não estavam frescas o doce era mais activo e atraía vespas de todo o lado. Era difícil estar ali, mas lá ficámos e fizemos o nosso pedido, três pastillas e três colas e vespas a acompanhar com pão. Calor e sol abrasador que o chapéu-de-sol não conseguia proteger, a praça cheia, comíamos pão, aquilo é que era vida. Veio a comida e comemos, veio o café e bebemos, menos o meu que se acidentou para cima das minhas calças. Pedimos a conta, pagámos e fomos às compras.

(cont.)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxxi)

Andámos mais uma vez de um lado para o outro pela cidade e pela praça. Pelo menos começávamos a ter uma ideia mais clara de Chefchaouen mesmo se fosse de noite escura. Até que num dos últimos cafés da praça havia uma mesa livre e cafeína para servir, melhor dizer cevada. E tivemos imensa sorte porque era exactamente naquele café que se fazia a verdadeira festa. O dono estava completamente fora de si, corria de um lado para o outro, gritava, cantava, chamava pessoas do meio da praça lá para dentro, preparava os cafés, os chás, a comida, batia palmas, pedia emprestada a darbuka a um miúdo que lá estava e zás lá batucava ele, depois corria as mesas e punha as pessoas a bater palmas ao ritmo da música, dançava e dançava, rodopiava e dançava que nem um doido e como estava todo vestido de cabedal, calça e casaco, e com mais uma camisa de algodão, a sua careca, ele era careca, fumegava como uma chaminé e escorria suor por todo rosto. Ele acendia e lançava os foguetes e apanhava as canas, ninguém o parava, fazia de tudo para chamar a atenção dos turistas e eles vinham como nós fomos. Cada vez se sentavam mais pessoas à nossa volta e para fazer inveja, muitos turistas que se sentavam ao pé de nós tinham trazido latas de cerveja e champanhe com eles. Nós estávamos divertidos com tudo aquilo, com aquele cicerone e a música, mas não estávamos propriamente a delirar com a festa. Não sabemos divertir-nos totalmente sem o hábito do álcool, infelizmente. Mas riamos daquilo e com aquilo, que são duas coisas bem diferentes, e sem ofender ninguém. Atrás de nós sentou-se um tipo de outro país e quase não conseguia abrir os olhos de tanta droga fumada, um outro vindo de mota pára à frente do café para falar com os amigos que lá se encontravam sentados e cai para o lado levando mota e tudo chamando a atenção da polícia e do outro lado da rua um miúdo com um lenço na mão que, de cinco em cinco minutos ou menos, levava à cara tapando boca e nariz inalando o que lá estava embebido, talvez gasolina, talvez anti-veneno de peixe-aranha, cola, eu sei lá, só sei que durante as horas que lá estivemos o miúdo não descolou da parede e levava o pano à cara. Tentaram afastá-lo dali, para não incomodar os turistas principalmente, mas o miúdo estava colado à parede e ao lenço. E o dono continuava a festa até chegar a meia-noite. Aí começa a cantar o cumpleaños apagando as luzes e tudo, e todos cantam e batem palmas, e um casal jovem espanhol saca de uma mochila uma garrafa de champanhe e nós a vermos pelo invejoso canto do olho à espera que em tempo de festa se partilhem as posses de cada um. O que fizeram sem lhes pedirmos e ficámos muito agradecidos por aliviar por momentos esse desejo que afinal de tudo é um bocado parvo se pensarmos bem, mas também é bom e eu gosto. Pensávamos que eles estavam a ser muito simpáticos para os turistas já que a passagem de ano para os marroquinos celebrava-se somente a vinte e um de janeiro e ainda por cima, pensávamos também, esperaram pela meia-noite de Portugal. Somos mesmo parvos. Ficámos lá sentados mais uma hora, talvez, e depois partimos para o hotel um pouco desolados de não nos termos divertido como malucos, tal como o dono do café, mas mesmo assim, satisfeitos. Tínhamos nascido, no fim de contas, para mais um ano e já era um de janeiro de 2007.

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxx)

Por isso, o melhor a fazer era jantar e ainda por cima o recepcionista tinha-nos arranjado uma cópia do mapa de Chefchaouen com a indicação do melhor caminho para a praça principal, onde a maior parte dos restaurantes se encontravam. Lá fomos, cheios de excitação para a festividade da passagem de ano. Não havia dúvidas, era dia de festa. As ruas, os cafés, os restaurantes, a praça cheia de gente. Parecia dia de mercado. Pessoas de todas as idades e feitios. Falavam-se muitas línguas, cantavam-se em outras tantas e andava-se e corria-se em outras mais. Percorremos a praça para a frente e para trás e detrás para a frente, decidíamos onde comer olhando para os diferentes preçários e ouvindo as diferentes propostas. Era uma praça mais ou menos do tamanho da Praça do Giraldo, do lado das arcadas ficava o antigo kasbah e do lado dos cafés, sem as ruas que descem, os restaurantes com esplanada e andar com terraço ou varandas, seguidos uns aos outros. Encontrámos um que não estava nada cheio, apenas uns tipos no primeiro andar a fumar kif, e sentámo-nos no terraço com vista para o kasbah e para as montanhas com o seu esplêndido e dispendioso hotel, que apenas se viam se esforçássemos a vista. Fomos servidos com muita calma, mas também não havia pressa. Afinal, era o último dia de dois mil e seis e cada um se despede e aguarda coisas novas no seu próprio tempo, ao seu ritmo, e também porque faltavam ainda algumas horas para o adeus final. E vieram duas coca-colas, um chá de menta, uma tajine (para mim como costume), cuscuz com borrego para a S. e pastilla (uma larga moeda folhada de carne, amêndoas, canela, mel e vegetais) para o T., mais uns pães, azeitonas e especiarias. Fomos comendo com muita calma, entretidos com as coisas do costume (as palhaçadas portanto), ouvindo música que vinha da praça, flautas e darbukas, vozearia e gargalhadas. Depois de jantados deu-me ganas de comer um doce e já andava há algum tempo a espiar um iogurte natural que por vezes via à venda nos mercados. O T. e a S. gozavam comigo porque o iogurte tinha um aspecto horrível, pastoso e fedorento, só que eu tinha desejos, queria experimentar aquilo, quase como se eu estivesse grávido, só de pensar no iogurte me babava e ainda por cima aquele restaurante tinha iogurte, mas, infelizmente para mim e felizmente para os dois, não havia, tinha acabado há pouco disseram. Tudo bem, fuma-se um cigarro e pede-se café. Mas cafés, também não serviam. Pedimos a conta e no entretanto enviávamos mensagens de bom ano com uma hora de avanço. Mas lá, quero dizer aqui, como lá, e quero dizer agora mesmo lá, eram apenas onze horas e não meia-noite e a nossa celebração não fazia sentido e ninguém festejava quando nos nossos relógios apontavam as doze horas, coisa que achámos um pouco estranho, vão-se lá entender os outros.
Saímos do restaurante para tomarmos café, vagueámos pela cidade à procura de lugares vazios e, quem sabe, um bar que talvez vendesse álcool, uma vez que em Casablanca havia supermercados que vendiam, porque não um bar em Chefchaouen que recebe tantos turistas. Pensando isto não nos tínhamos provido de álcool, nem vinho, nem whisky, nem sequer uma garrafita da tradição de champanhe ou espumante, e eu até disse ao T. para comprarmos e levarmos mas não o fizemos. Numa rua encontrámos um bar todo modernaço e europeu, atolado de estrangeiros como nós, passando reggae e dub mas álcool nem vê-lo. Aos poucos e poucos começávamos a parecer-nos com uns alcoólicos sedentos de embriaguez. Mas não, nem cerveja, nem vinho, vodka, martini, rum, licores, gin, whisky, aguardente, só kif e haxixe. Arranjar droga para fumar não havia problema, mas nós queríamos beber, beber, sei lá, nem que fosse um pouco de álcool etílico diluído em sumo de laranja. Nós não somos straightedges e não fumamos. Como já disse, temos vícios e virtudes. Podemos não precisar nem sentir necessidade de erva, haxixe, ácidos, pastilhas, mas somos alcoólicos moderados, a terceira via das festas. Nada havia para nós, purificávamo-nos aos poucos e poucos contra a nossa vontade de bêbados. E como também não tinham café, fomo-nos embora e voltámos para a praça.

(cont.)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxix)

Fotografias aqui e acolá da paisagem com pôr-do-sol, mais conversas com vendedores de kif e aquilo que para mim venceu toda a paisagem até então atravessada e fotografada. Noite escura já, passávamos por uma longa ponte ligando duas montanhas, por baixo o vazio ou quase vazio, percebiam-se muito ao longe umas casas iluminadas mas não sabíamos se por baixo de nós também havia. A temperatura tinha descido, fazia frio, lá em cima via-se a lua e o céu estrelado e ao nosso lado, descendo uma encosta passando por parte da ponte e continuando para onde a vista já não alcançava, um longo manto de nuvem branca, lento, lânguido, sonolento, vogando vagaroso como um sonho de cascata. Levou-nos algum tempo para atravessar, ou então a duração desse manto é apenas o sonho que ainda trago. Tão belo como isso talvez apenas aqueles arcos que se criam no inverno alentejano à volta da lua, fazendo-se um grande olho. Mas também a demora pode ter sido devido ao autocarro que ia à nossa frente, bem como por todos os outros carros que seguiam lentamente atrás.
Passado o autocarro e alguns carros acelerámos para Chefchaouen, acabando por lá chegar pouco depois das sete horas, para aí um quarto para as oito, que afinal eram, como já tinha explicado antes, seis horas, ou um quarto para as sete, porque tínhamos adiantado os nossos relógios para nada. Entramos pela parte de cima da cidade azul, por cima dos cornos, e como o T. se lembrava do caminho não nos perdemos, à parte de termos de fazer uns desvios à custa dos cortes de estrada do ano novo, para haver mais espaço para aqueles que andam do que para aqueles que conduzem, e que eu concordo plenamente. Estacionados diante do hotel, a S. e eu corremos lá para dentro afim de nos fazermos presentes e demandarmos as nossas chaves. Precisávamos igualmente de saber onde poderíamos estacionar o jipe e se havia restaurantes abertos para jantarmos. O hotel tinha um parque privativo de terra batida onde podíamos guardar a viatura. O T. estacionou e eu ou a S., já não me lembro bem, um de nós, portanto, ficou no hotel a preencher a papelada e o outro foi ajudar o T. a desarrumar as mochilas do jipe e a trazê-las para dentro. Assinados todos os papéis, e depois de ter visto um casal de portugueses mal-educados que nem disseram olá nem nada, ao contrário daqueles turistas na fronteira de Sebta, subimos para os nossos quartos.
O hotel era fantástico, parecia grande e pequeno ao mesmo tempo. Nada lá estava fora do sítio, mas muitas coisas estavam a mais. Entrávamos por uma porta de madeira quadriculada de vidros, virávamos à esquerda, abríamos outra porta semelhante e descíamos dois ou três degraus atapetados (devo dizer que por todo o lado haviam tapetes no chão, grandes tapetes, pequenos tapetes, tapetes de corredor como aqueles de marquise, tapetes nas escadas, nos quartos, por todo o lado). Depois dos degraus dávamos de caras com o balcão da recepção e por trás de nós, separado pela parede que se via à entrada quando entrávamos, a grande sala de estar atapetada e ensofasada, longos sofás de encosto de madeira talhada ao comprimento das paredes e de costas uns para os outros, os que se achavam no meio da sala, e por cada três ou quatro lugares dos sofás uma mesa baixa de madeira escura e avermelhada de tampo de vidro. Almofadas por todo o lado, vasos, quadros, fotografias, porcelanas e artesanato. Podiam-se fazer todas as refeições nessa sala se quiséssemos (mas eles não faziam) e o pequeno-almoço estava incluído, podia-se passar um belo tempo de descanso lá sentados a beber chá de menta. Fazendo uma curva de noventa graus à volta da parede onde o balcão estava encrostado, subiam-se umas escadas apertadas (duas pessoas lado a lado com mochilas sentir-se-iam apertadas, ou se calhar não) e, para aí no segundo ou terceiro andar, encontrávamos os nossos quartos, o meu e da S. ligeiramente desviado da saída das escadas e o do T. ao fundo do corredor à esquerda e de frente ao corrimão do andar. Os quartos eram minúsculos, com tapetes claro, duas camas singulares com dossel de ferro e mosquiteira, uma mesa de ferro e tampo de vidro a separar as camas, um enorme armário, com almofadas e mantas, e, subindo um degrau, uma casa-de-banho que tinha quase o mesmo tamanho que o quarto, em formato de diamante de quatro lados (o arquitecto deveria querer aproveitar todo o espaço). Com as nossas coisas espalhadas pelo chão o quarto ficava reduzido ao espaço das camas e o espaço entre mesa, era difícil movimentar-nos e para nos deitarmos tínhamos de andar como caranguejos, isto é, de lado. Acabámos por colocar tudo em cima da cama que iria ficar vazia para termos mais espaço de manobra e tirámos à sorte mentalmente quem iria ficar colado à parede. Era uma cama difícil de se dormir, um de nós ficava tipo osga agarrado à parede e o outro com uma perna de fora apoiada no chão para não cair. A casa-de-banho ainda por cima tinha um respiradouro comunicante com a casa-de-banho do quarto vizinho, logo eu teria de ter muito cuidado e a minha liberdade da prisão de ventre ficou adiada para mais um dia porque, naquele momento os vizinhos ocupavam a deles e eu não queria cá conversas.

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terça-feira, 5 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxviii)

Abrindo bem olhos começámos a ver mais e mais montanhas, cinzentas e verdes montanhas de rochas e árvores altas, pinheiros para ser mais exacto. Isto era o interior do Rif, longas curvas e contracurvas, montanhas a perder de vista, a ocultar-nos a vista, a ocultar-nos da vista o sol lá no alto. Isto era o interior do Rif, o peso da terra alta, das sombras longas, do frio repentino, território gelado e do Inverno banindo a Primavera que nos tinha acolhido durante dias. Isto era o interior do Rif, carros lentos, carros parados ao longo da estrada, terriolas perdidas cortadas de qualquer comunicação com o resto do país. Isto era o interior do Rif, um país à parte de Marrocos, uma zona entre qualquer coisa, entre África e Europa, paisagem alpina, sim, paisagem alpina de pinheiros e neve e gelo e frio. Isto era o interior de um país, um coração gelado, abandonado, pouco amado, um outro deserto. Isto era o Rif, o grande roteiro do kif, pessoas que nos acenam e assinalam que eles têm o que todos os turistas devem querer em Marrocos, carros que literalmente nos perseguem perguntando se queremos comprar erva e haxixe. Um deles, aliás, colou-se a nós durante algum tempo. O T. fazia-lhe sinais para passar à frente, mas ele tentava pôr-se lado a lado com o jipe e iniciar ali mesmo, a meio da condução e da estrada, o tráfico e nós mais preocupados com o tráfego dos carros e com as nossas vidas do que propriamente com uma provisória fuga à realidade. Na verdade a realidade era que aquele gajo brincava com as nossas vidas, a dele e as nossas. Era um risco demasiado grande afastar-nos por completo da vida por, como já disse, uma pequena e provisória fuga. Vendo que um carro se aproximava em sentindo contrário, o tipo acelera e coloca-se à nossa frente, fazendo sinais com os quatro piscas para pararmos. Fazemos isso, paramos na beira da estrada uns metros atrás do marroquino. Então de onde vêm; vimos de Fès; sim mas de onde; de Portugal; não querem ir até minha casa e fumar um pouco de kif, não fica longe daqui é ali naquela parte, e apontava-nos umas casas, pois pá não vai dar, vamos a caminho de Chefchaouen ter com uns amigos, a mentira do costume resulta sempre, e já estamos atrasados; ah os vossos amigos podem esperar um pouco, fumam um ou dois e podem levar para os vossos amigos também, a mentira não resultou logo à primeira, tentamos uma segunda, terceira, quarta vez, as suficientes com toda a cerimónia e educação agradecendo sempre, shukran, shukran mas não vai dar estamos mesmo muito atrasados, e na realidade começávamos a ficar e, porque não dizê-lo, assustados também. Há quem vá às casas das pessoas e fumem, tudo bem, mas nós não somos assim, não fumamos e também não nos sentimos muito à vontade em casas de pessoas que não conhecemos. Talvez sejamos uns medrosos e talvez até estejam a pensar isso mesmo agora mesmo, enquanto que pela minha cabeça não passava nenhum preconceito em relação àquele marroquino nem em relação a vocês que talvez estejam a pensar olhem só os três mariquinhas. A questão é, o que é que isso interessa, se sou ou não, ou se somos ou não, uns medrosos. Podíamos ter ido e ele até podia ser a melhor pessoa do mundo, a mais bondosa, humilde, simpática e hospitaleira. Sempre pensei que a vida necessita de um risco de vez em quando, mas também sempre pensei que não se faz de e se. Talvez isso revele falta de coragem e medo, ou talvez excesso de segurança e falta de confiança, talvez isso tudo e talvez nada disso porque afinal sou apenas uma pessoa que, como todos vocês, tem vícios e virtudes. Mas adiante.
Depois de alguma conversa conseguimos despachar-nos com o número de telefone do tipo e a promessa que lhe telefonávamos um dia destes. E este não foi o único que nos tentou convidar para fumar em sua casa, houve outros, e também não foi o único que nos quis vender kif, houve mais, muitos mais e de todas as idades. Mas era urgente chegar a horas a Chefchaouen já que apenas nos reservariam o quarto até às sete horas da noite, e assim foi porque a S. telefonou para o Hotel Madrid, ainda em Sefrou, avisando que chegaríamos atrasados e pedindo para manter a reserva até às sete horas. Eram, portanto, horas de pisar no acelerador, de nos despacharmos e despedir-nos do interior do Rif. E que despedida. Tivemos ainda a possibilidade de ver o mais profundo desse frio coração de rochas. Ketama devia ser a pior das cidades marroquinas. Esqueçam lá Sefrou, o sangue a escorrer e o cheiro nauseabundo da carne, ossos e lã queimada. De um momento para o outro deixa de haver estrada de alcatrão. O caminho era apenas lama, terra de neve descongelada e lixo e lixo e mais lama. Parecia uma caricatura monstruosa daquela cidade da série que se passa no Alasca. Em dois minutos já a tínhamos atravessado. No fundo da cidade o cruzamento dizia, Al-Hoceima para a direita e para esquerda o nosso destino, Chefchaouen. Não havia tempo a perder. O sol já começava a descer e faltavam ainda, sei lá, uns cem quilómetros de montanhas, de curvas e contracurvas e o fim da floresta escura. Mas tínhamos a nosso favor uma estrada em melhores condições e música para nos acalmar.

(cont.)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxvii)

Até um quarto do caminho a paisagem era incrível. Um longo conjunto de pequenas elevações encavalitando-se umas às outras de cor castanha, amarela pálida e vermelha. Aridez mas não ainda o deserto, semi-deserto de cascalho. Uma vez ou outra alguma vegetação rasteira, finos oued a serpentearem, árvores, pequenos campos de cultivo. Fizemos algumas paragens para fotografar, prosseguirmos uma ideia que já vem longa de mim a saltar (é uma coisa nossa e não vou dizer porquê). Parámos numa zona plana e verde para comermos as nossas sandes e bebermos água, dizer bom-dia ao agricultor desses campos, que afinal não era, era antes um homem do lixo que apanhava os detritos lançados pelos carros. Jogámos à apanhada os três enquanto comíamos, fumámos os nossos cigarros fazendo a vez de sobremesa e café, e fizemo-nos à estrada uma vez mais.
Fomos percorrendo a longa estrada que ligava Fès a Ketama. Em parte, não sei porquê, a paisagem lembrava-me alguns panoramas de Évora. É verdade que os longos horizontes ondulados se assemelham, com certas cores secas, pálidas, áridas, desérticas. Mas enquanto num lado somos rodeados de folhas e plantas silvestres rasteiras e secas, noutro lado, circundam-nos cascalhos, pedrinhas e, sim, algumas plantas e até mesmo árvores que já vos disse. Seguíamos a estrada quase plana mas circulando esses montes secos. E como em certas zonas de Évora, aqui e acolá surgiam lugares, casais, pequenos povoados não de tijolo mas de adobe, argila. Sobre as vertentes dos montes, em árabe, desenhavam-se em pedra e cal os nomes das terriolas. Num desses povoados tínhamos à nossa esquerda, no lado do monte que descia para nós, o nome em letras gigantescas e, do outro lado, à direita, uma outra vertente que dava para um largo e baixo oued de cascalho xistoso, onde mulheres lavavam a roupa, tentando fugir às fotografias do T., e crianças que lavavam a sua própria roupa banhando-se nas águas que corriam.
Terá sido talvez a cidade mais limpa que alguma vez vimos em Marrocos. Uma dessas cidades que crescem ao lado da estrada, dos dois lados, como muitas que se encontram em Portugal. O que diferenciava esta cidade das outras por onde passámos ou estivemos, já que em todas se celebrou o Eid al-Adha, não sabemos. Mas era limpa, escorreita, animada com toda a gente a sorrir e a acenar para o jipe e os seus passageiros portugueses que passavam e nós boquiabertos, espantados com tanta higiene, tanto cuidado na aparência e dizendo adeus, até à próxima, até à vista ensha’llaah. Pensávamos em voz alta, bem se calhar agora é sempre assim, cidades pequenas e limpas, todas arranjadinhas para os turistas já que esta estrada atravessa parte do Rif. Está bem está, aquela foi a única cidade limpa até chegarmos a Chefchaouen. Dali até Ketama a sensação de aventura renascia em cada um de nós, exactamente pouco depois de eu ter despertado outra vez para a viagem, porque à saída daquela cidade caíram-se-me as pálpebras ainda da barriga cheia de sandes e de algum cansaço que restava nos músculos e que o jipe acordou.

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domingo, 3 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxvi)

31 de Dezembro de 2006

Como já tinha dito, Allah protegia-nos como a nenhuns outros. O inverno não existia, apenas primavera de sol e de temperatura amena. Arranjámo-nos e descemos todos juntos, uns de elevador, outros de escadas. Pagámos ao recepcionista, despedimo-nos e lá fomos para a garagem do hotel onde se encontrava o jipe do T., para arrumarmos as nossas coisas e não andarmos carregados no pequeno-almoço do Al Khozama. Pedimos ao segurança, um homem simpático de djellaba que lia o jornal em dia de festa, para guardar o jipe só mais um bocadinho, afinal tínhamos até ao meio-dia para sair definitivamente do hotel. Tomámos o pequeno-almoço e despedimo-nos também do Sr. Khozama (tinha-me enganado, foi neste dia que tirámos a fotografia e não no outro como antes tinha dito) e pedimos informações sobre qual o melhor caminho de volta a Chefchaouen, já que o mapa indicava dois. Tínhamos vindo por um e desejávamos saber qual era o mais rápido e seguro. Ele disse um dos dois e que um deles era muito bonito. Enquanto comíamos fomos surpreendidos pelo que não parecia nada de nada a Fès que conhecíamos. Seriam umas dez horas e à excepção de algumas pessoas que também tomavam o pequeno-almoço ou apenas bebiam café, ou meia dúzia de carros que passavam, na maior parte táxis, as ruas estavam vazias. Quase que não se ouviam buzinas, não se ouviam gritos, conversas, música, nada. Fès-se silêncio em Fès. Nada se fazia em Fès. Era na verdade a surpresa das surpresas. Pagámos e fomo-nos embora de volta para o hotel. Uma última gorjeta ao segurança e lá vamos nós ver Sefrou, a trinta ou quarenta quilómetros para Sul. Só que primeiro era necessário encontrar o caminho para Sul nas indicações de Fès. O que o mapa dizia era uma coisa, outra eram os sinais de trânsito. Demos uma grande volta à volta da Medina e fomos dar a um cemitério. Por baixo tínhamos Fès inteira e por cima colunas de fumo negro. Eram as nuvens negras da imolação dos carneiros empestando o ar com o cheiro nauseante de carne, osso e lã queimada. Nós não sabíamos o que era até descobrirmos a estrada para Sefrou, que atravessava a periferia de Fès e de cinco em cinco metros em cada lado da estrada rapazes, só rapazes dos mais pequenos até aos adolescentes, faziam fogueiras com tijolos e grelhas com cabeças de carneiro chamuscadas e sangue a escorrer para as valetas, literalmente rios e rios de sangue. Sangue nos passeios, nas mãos, nas facas que empunhavam orgulhosamente, sangue a escorrer das cabeças decepadas, dos pescoços saudosos das suas cabeças, sangue na roupa, nas rodas do jipe.
Mais chocante ainda do que esta imagem ao longo da estrada que cortava a periferia, foi o nosso passeio por Sefrou quando lá chegámos. Enquanto procurávamos um sítio para comer, passeávamos numa cidade com lixo espalhado por todo o lado devido à feira de legumes e últimos carneiros. Imaginem a porcaria que resta depois da feira mensal no Rossio de Sº Braz à dimensão de toda Évora, com a agravante das pessoas lançarem sacos de lixo pela janela para a rua (um deles ia-nos atingindo), mais o cheiro da carne e da lã queimada, o sangue a escorrer e, na pequena ribeira que atravessava Sefrou onde desembocavam fossas de esgoto, sangue a ser lançado, jorrado, cuspido, vomitado dessas bocas para dentro da ribeira que rumava rubra para onde não sabemos.
Não havia mais nada para ver e tudo estava fechado ou não serviam nada para comer. Decidimos então comprar pão marroquino, cinco pães espalmados, cinco discos, dois deles cobertos de sementes de sésamo. Como ainda nos sobravam bastantes latas de salsicha e atum (a típica comida de longas viagens de carro), faríamos sandes quando tivéssemos fome. Voltámos para trás, na mesma estrada que dava para Fès e encaminhávamo-nos para Chefchaouen via Ketama através das montanhas do Rif.

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sábado, 2 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxv)

Aquilo era um luxo, mas um luxo um bocado pindérico. Bem melhor o aspecto quase tasca do Al Khozama. Mal entrávamos deparávamos com um grande biombo de madeira escura ladeado por dois vasos com aquelas plantas que parecem mini palmeiras, um bafo quente de ar condicionado misturado com um delicioso cheiro de comida, é verdade, mas escuro e com uma luz meio azulada que dava um aspecto frio. As paredes, cada uma delas, se bem me lembro, tinham a sua cor fazendo secções de ambientes diferentes com quadros, porcelanas, pratos de bronze martelados, etc. Os lugares estavam tomados por marroquinos e turistas finos, a conversar, a comer, a beber vinho e a fumar. Se não nos fizéssemos aparecer acho que ninguém nos viria buscar atrás do biombo, que era assim como que uma mini sala de espera. Por acaso não esperámos muito, veio o dono do restaurante, todo barriga e careca, bonacheirão, levar-nos para uma mesa perto da cozinha para aguardarmos sentados. Minutos depois, levantaram uma mesa e levaram-nos para lá. Uma empregada toda gira conseguiu fazer com que o T. se entaramelasse continuamente a fazer os seus pedidos e a S. e eu só nos ríamos. O T. deu uma de europeu e pediu um bife qualquer coisa, vinho marroquino, que também o há, e água. A S. e eu comemos tajine de qualquer coisa com cuscuz, uma dose gigantesca servida nos pratos típicos, ela bebeu vinho e eu chá de menta. Tivemos outra dose de palhaçada e riso de cansaço e ainda assistimos a uma discussão entre a tal empregada e um empregado à volta da gorjeta, naquele caso, como o restaurante era mais fino, o dono não ficava com as gorjetas mas os empregados que serviam às mesas. Quanto mais mesas mais gorjetas e a razão estava do lado da empregada pelo que percebemos. Ela é que tinha servido uma mesa qualquer, mas infelizmente encontrava-se ocupada no momento de retirar os pratos e receber a conta com outra mesa, o que provocou toda aquela confusão que não precisava de tradutor. Com duas palavras dirigidas à rapariga o bonacheirão do dono recolocou a ordem no seu estabelecimento. Pedimos a conta e esperámos sentados que a rapariga fosse lá receber.
Saímos bem servidos e de barriga cheia. Descemos a Mohammed V com calma e fomos directos para o hotel. Quando chegámos esperava-nos a conta dos quartos. No nosso quarto, meu e da S., fizemos a separação das águas e despedimo-nos. Preparámos as malas porque o dia seguinte iria ser longo, muito longo. Estávamos estafados e era preciso dormir. Caímos à cama e adormecemos em instantes e nem sequer li uma página.

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sexta-feira, 1 de julho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxiv)

Metemo-nos no táxi, dissemos a direcção e partimos. Pouco depois de termos começado a nossa marcha fizemos uma paragem para dar boleia a um homem que trazia uma galinha presa pelas asas. A casa dele ficava a caminho e como com a água não se nega boleia num táxi em Marrocos. Fomos os quatro a conversar, dizendo que vínhamos de Portugal, que éramos estudantes e ouvimos falar uma vez mais de Baraka le jour de fête, la grande fête du Maroc, le Eid al-Adha, si vous pouvez vous devez partager la fête avec quelqu’un d’ici, on boivent et mangent ensemble et la fête dure un jour entière. Talvez deva explicar agora o que é esta Baraka, o tal Eid al-Adha. Terão, por certo, conhecimento da história de Abraão e da imolação do carneiro ao invés do seu primogénito. Pois a história de Abraão tem também lugar no Corão. Uma vez por ano e não num dia certo, os árabes recordam Abraão e, como ele, imolam um carneiro e para já chega senão estrago a surpresa.
Íamos então no táxi quando, numa larga avenida e por causa do Eid al-Adha, ficámos parados devido a uma enorme bicha de carros à espera da abertura de um sinal vermelho. Palavra puxa palavra em marroquino e o nosso taxista põe a cabeça de fora pela janela. Como não vinha nenhum carro do outro lado, decidiu começar a festa querendo matar estes dois carneiros estrangeiros que iam no banco de trás. A S. e eu olhámo-nos passando pela cabeça a mesma coisa, este gajo está doido, o gajo não vai fazer isto. E não é que o gajo Fès exactamente o que estávamos a pensar e que todos vocês também estão. O gajo levantou a barraca. Põe o pisca para a esquerda, acelera e lá vamos todos nós os quatro em contra-mão pela avenida a sapar antes que abrisse o sinal vermelho. O tipo da frente agarrava a galinha e eu e a S. como só tínhamos pele e nenhuma galinha demos as mãos às escondidas e ficámos com o sorriso mais parvo e amarelo alguma vez possível. Ai caralho, ai caralho, ai caralho e zás abre-se o sinal, o taxista vê um espacinho entre dois carros, os outros começam a vir e quando um já estava frente a nós a três metros o taxista consegue virar para a direita e seguir viagem. Lá à frente, o homem da galinha e o condutor trocam umas palavras que mesmo sem sabermos árabe percebemos, foi por pouco esta hã? Apeámos os nossos novos companheiros de viagem e continuámos mais dois minutos e parámos do lado do jardim defronte ao hotel. Foi a viagem do dia mais rápida e emocionante apenas por nove dhirames, isto é, noventa cêntimos, e muito mas muito mais barata do que aquela da mini-carrinha.
Quando chegámos ao hotel, encontrámos o ajudante de vendas de tapetes no hall de entrada. Cumprimentámo-lo e ao recepcionista e pedimos a nossa chave. Eu só pensava que se nada me ajudou até agora a prisão de ventre de certeza que esta viagem de táxi me ajudou. Abrimos a porta e corri para a casa-de-banho, mas também a viagem não ajudou. Enquanto eu estava naqueles afazeres, a S. foi ver como estava o T.. Achava-se a juntar o resto do dinheiro que faltava mais uma gorjeta para o ajudante. Combinou-se encontrarmo-nos lá embaixo no hall e assim foi. Depois de um dia tão bonito e emocionante, só faltava comermos decentemente; e por isso lá fomos os três à procura de um novo restaurante para experimentarmos outro além do Al Khozama. Uma vez mais andámos para cima e para baixo, fomos levantar dinheiro porque o dinheiro que havia em caixa foi para pagar o ajudante de vendas, e não nos decidíamos. Até que alguém propôs, já que era a última noite em Fès, darmos um salto ao Zagora. Subimos a Boulevard Mohammed V e num canto escuro debaixo de prédios lá estava o famoso restaurante proposto pelo recepcionista. Entrámos, mas estava cheio de gente e com nenhum lugar vazio, se quiséssemos jantar teríamos de esperar algum tempo, e também não era muito barato. Como a fome apertava, saímos e tentámos procurar outro. Começámos então a descer a Mohammed V discutindo onde iríamos, mas àquela hora da noite já era difícil encontrar restaurantes abertos, se excluirmos o Al Khozama que para nós era o único restaurante em Fès. Enquanto estávamos nisso, aparece-nos à frente um marroquino que queria ser nosso guia e lá começa a conversa do costume, donde é que vêm, o que querem, é a vossa primeira vez e nós, melhor dizer o T., sempre a tentar despachá-lo. Só que este era bem mais chato do que qualquer um que evitáramos. Nós começávamos a andar e o tipo seguia-nos a uns metros de distância, depois atravessava a rua fingindo que não era nada com ele e quando nós parávamos vinha logo ter connosco e nós no chega para lá. A imagem que me veio à cabeça naquele momento e sem querer ofender ninguém, nem mesmo aquele rapaz que agora se encontra a mil e tal quilómetros de distância, era aquele tipo de situações em que uma pessoa vê um cãozinho engraçado e por acaso até lhe dá umas festas por simpatia mas não queremos ficar com o cão para nada porque já temos um, ou temos gatos, ou não temos nada e nem queremos, ou vamos para nossa casa ou para a casa de alguém que também tem um cão, ou gato, ou não tem nem quer nada, e o cão começa a vir atrás de nós a uns metros de distância, e é preciso reparar que os cães fazem exactamente a mesma coisa, fingem que não é nada com eles só faltando assobiar, atravessam ruas, olham para os lados e quando paramos vêm logo ter connosco abanado a cauda. Mas lá conseguimos despedir-nos do rapaz sem lhe bater com um jornal enrolado ou enxotando-o batendo o pé e decidimos voltar atrás e que se lixe o dinheiro é só esta noite e fomos ao Zagora.

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quinta-feira, 30 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxiii)

Abdhul olhou bem para as mantas, depois olhou para mim e de volta para os mantas. Eu ia dando golos no chá porque já ia engolindo em seco há bastante tempo e o sapo nunca mais ia para baixo. Senta-se ao meu lado numa cadeira e pede mais um cigarro. Pega num pedaço de papel e aponta um preço e depois passa-mo para a mão. This is how we Berber do; now you right your price. Ele tinha escrito mil dhirames pelas duas mantas e eu só tinha comigo sessenta euros, portanto eu tinha que baixar o máximo que conseguia. Perguntei ao T. o que era melhor, quanto é que ele pôs, mil, e quanto é que tu tens, sessenta euros, então propõe metade daquilo que tens, ok. Escrevi trinta e disse-lhe que só tinha euros, no problem euros or dhirams, three hundred you say, no, no, i sell you for eight hundred, six hundred, disse eu, no, blankets are very good, pure wool, pure wool, touch it, touch it, see pure wool, seven hundred, six hundred I can only give you six hundred, talk to your friends and try to get more. O gajo não queria mesmo os meus sessenta euros. Falei com o T. e com a S., só que nenhum deles tinha dinheiro para emprestar. A S. não tinha de todo e o T. só tinha o suficiente para comprar as suas coisas. Voltei a atirar os sessenta euros, dizendo que podia arranjar só mais um pouco em moedas. Só que o Abdhul não queria moedas, moedas não lhe serviam de nada, não as conseguia trocar. Notas sim, quaisquer que sejam, marcos, libras, dólares, mas desde que sejam notas. Só que notas, cá do meu lado, não havia para além dos sessenta. Enquanto íamos nestas andanças ele empacotava as duas mantas num grosso e pequeno rolo de papel reciclado cor-de-rosa, fechado com aquela típica fita-cola castanha. Não, desculpa lá Abdhul só tenho mesmo sessenta euros. I can only really give you sixty euros. Alright I will take your sixty euros but you have to give me something more. Aí todos procurámos qualquer coisa para dar ao Abdhul, até que a S. sacou do seu maço de tabaco, ela tinha vindo preparada com três maços, e rematámos o negócio por sessenta euros e um John Player Special preto. Podia ter sido pior. E agora, força T., tu consegues.
O T. não tinha mais coisas do que eu, tinha exactamente o mesmo número de objectos só que de maior valor. O T. queria trazer uma manta enorme, para aí com dois metros e meio de altura e um metro e oitenta de largo, e um tapete de cactus five, logo o preço era mais elevado do que aquele que eu paguei. Como eu estava bastante atordoado com toda a negociata, não prestei muita atenção ao preço que o Abdhul propôs, só sei que o T., depois de muita discussão e cigarros oferecidos, levou o que tinha para levar dando apenas metade do dinheiro acordado, porque o T. não tinha suficiente, e ainda um panfleto turístico dos Açores e mais qualquer outra coisa. Ficou logo ali acordado, já que era preciso ver o dinheiro que faltava e no dia seguinte era Baraka, day of the feast, que o ajudante de vendas iria connosco até ao Grand Hôtel de Fès. Quando saímos era já noite escura, ficámos lá dentro para aí uma hora e meia entretidos a ver tapetes, mantas, a beber chá de menta e a fumar cigarros. You better follow me; I know some shortcuts and the Medina at this time can be very dangerous. As ruas estavam quase vazias, não parecia a mesma Medina. Candeeiros acesos, janelas iluminadas, portas fechadas e nas ruas que tinham sido as mais movimentadas muito lixo pelo chão. Onde antes havia sombras de sol, agora havia a obscuridade da electricidade. Começámos a percorrer a Medina atrás do ajudante, a tentar acompanhá-lo, mas ele andava rápido, queria despachar a situação o quanto antes para poder voltar à loja e ajudar na arrumação. O que antes era um labirinto de paredes, casas, portas, quinquilharia, roupa, pessoas, animais, era agora um enorme tapete percorrido pelos fios apertados e entrançados com o perigo de caír nos buracos. Tanto parecia que subíamos como descíamos, por vezes parecia que andávamos às voltas, tanto nos aproximávamos de grupos de pessoas e do rebuliço que ainda existia, como de seguida apenas se ouviam os nossos passos, só faltava como banda sonora o People are strange dos Doors. Mas acabámos por encontrar a saída, a mesma onde tínhamos apanhado a mini-carrinha táxi, com a praça cheia de gente à espera de autocarros e, claro, táxis. O ajudante, mais rápido que nós, encontrava-se já a tentar parar algum táxi, mas estava a ser difícil, quase ninguém ia para o centro de Fès. Passado algum tempo, ele conseguiu arranjar um, mas como ele receava que fugíssemos sem pagar, decidiu que ele e o T. iam num táxi enquanto a S. e eu iríamos atrás noutro. Ora, se para um árabe foi difícil arranjar um táxi, para dois europeus, melhor dizer, para uma europeia e um banana trapalhão como eu o caso seria mais difícil. Lá partiram e nós ficámos para trás. Entre o nervoso e o assustado, a S. e eu deixámo-nos estar na praça porque julgávamos que o tipo tinha falado com outro taxista para nos levar ao Hotel, mas não, nada disso. Estávamos por nossa conta. Os táxis iam e vinham e nós ali especados a olhar o movimento, até que a S. tomou o assunto nas mãos e também ela, como o T. à entrada de Fès, deixou o seu espírito marroquino entrar no corpo e mal viu um táxi aparecer e largar os seus passageiros, chegou-se à frente de umas mulheres que já lá estavam antes de nós e conseguiu o táxi para nós. Eu só pensava, sim senhor, isto é que é uma mulher.

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quarta-feira, 29 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxii)

Entretanto, do nosso vendedor já só quase o víamos do peito para cima, e como o dono da loja já tinha aviado o casal com uns quantos tapetes que não queriam veio ter connosco. Vindo directamente de um filme do Kusturica, entra de rompante na nossa divisão um tipo alto e magro, de bigode, cabelo curto preto e ondulado, como quem já teve muitos caracóis e agora já só tem a ideia deles, de fato de treino de polyester azul e duas largas bandas verdes, ténis e meias brancas a verem-se porque as calças apenas lhe iam até pouco abaixo das canelas, fios de ouro ao peito e cachuchos nos dedos e já não me lembro se tinha ou não um ou outro dente de ouro, ou já sou eu a inventar, de qualquer modo se não tinha passa a ter. Fès-se apresentar, ssalamu ‘lekum je suis Abdhul, acho eu que foi isso que ele disse. Aproximou-se de nós, estendeu a mão um a um enquanto dizíamos o nosso nome que de seguida ele repetia. So, you want carpets, hã? We have many carpets, e lá veio a conversa toda de novo mais os cactus five. Depois trocou algumas palavras em árabe com o outro, como a dizer-lhe, estás a ver como se faz, quando é que tu vais aprender? Do you want tea? You want tea don’t you? Bring us some tea. Our tea is very good, very good for your health, yes, yes, you can smoke if you want, you have kif, não, não tínhamos, you can smoke it here inside my store but not outside hã? Give me a cigarette? You have cigarettes? Thank you. Depois foi-nos perguntando de onde vínhamos, o que fazíamos, ah portuguese, no much money, and your theatre artists and students, ah even less money, but no problem, no problem, we make good price for you, you will see, good price, good price. Estávamos literalmente tramados, caímos na teia como mosquinhas, fumávamos relaxados a beber chá de menta, conversávamos recostados entre as almofadas e na trama dos tapetes de lã. O único de nós que estava interessado em tapetes era o T., enquanto que agora, para o Abdhul, todos nós estávamos interessados e quem mandava ali no negócio era ele e a S., mais ninguém. Nunca é o homem o interessado em tapetes, mas a mulher, e mesmo que seja o homem o interessado, chega-se à compra através da sedução do desejo inexistente de tapetes na mulher. O Abdhul tentava a todo o custo interessar a S. nos tapetes ou nos mantas, e a S. ria-se com aquele seu riso meio envergonhado.
Então ele propôs uma coisa para acelerar os termos do negócio. Quando víamos algum tapete ou manta que nos interessasse de alguma forma, diríamos rali (khali), se não quiséssemos diríamos então, ishma. E, claro, sabendo que a S. estava comigo, começou connosco a caça. Com estas duas palavras o cerco, aquela trama que nos ia cobrindo, adensava-se, apertava-se e ia nos deixando cada vez mais desconfortáveis. Por cada ishma ou rali dito a fuga era adiada, cada manta ou tapete posto de parte e menos hipóteses tínhamos de ficar com o nosso pouco dinheiro. A S. passou a bola para mim e como eu sou um panhonhas e a minha espinha se verga nestas situações desconfortáveis, em vez de dizer que apenas acompanhávamos o T. nesta vinda à magnífica magazine lá fui dizendo ishma, ishma, ishma e rali, rali, até que fiquei com duas mantas abertas na minha frente e com a S. a dizer-me com o olhar olha lá a merda que fizeste, para quem não queria gastar dinheiro fizeste boa, agora é contigo e o meu olhar de cãozinho arrependido apenas era visto com simpatia pelo Abdhul. Assim que me despachou, começou o cerco ao T.. E o T., embora mais confiante porque realmente queria comprar tapetes e mantas, também foi dizendo ishma, ishma, ishma e rali, rali, rali até que ficou com o que mais ou menos queria. E agora só faltava o que mais custava, a negociata malandra. Pois é, agora é que iam ser elas.

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terça-feira, 28 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xxi)

Chegados à dita rua, passando pela pequena loja onde um homem chamava a atenção a sua clientela com um gato que se passeava pelas tinas, pratos, chichas (narguilé) e outras bugigangas que vendia, estacámos o passo à porta de uma outra loja, de uma família berbere. Encostados à parede em frente da porta rodeada de tapetes de todos os tamanhos, uns por cima dos outros como pendurados num bengaleiro, mirávamos essas teias apertadas de lã multicolor com o nosso melhor olhar de desdém, de quem não quer nada do que ali se mostrava, tínhamos apenas parado para descansar as pernas, ou para admirarmos um gato que se empoleirava no parapeito de uma janela que, por acaso, ficava por cima da loja, ou então para dar passagem aos carneiros, aos pachorrentos burros, aos rapazes que transportavam carrinhos cheios de botijas de gás. Só que o tipo que estava à porta, não sei como, lembrou-se da nossa cara, ou da do T., quando pela manhã atravessámos aquela mesma rua e fizemos o mesmo ar. E como alguém disse, não conseguimos mergulhar na mesma água duas vezes seguidas, portanto o tipo sabia que não estávamos ali por acaso pela segunda vez. Vous voulez des tapis? On a des bons tapis dans le magazine. Entrez, entrez. No, no, nosotros apenas miramos. Ah son españoles? No, portugueses. Tenemos otros tapetes dentro de la Loja, entren, entren. Miras algún que te gusta, hã? Pronto, fomos completamente pescados, não havia escapatória possível naquele momento. Por acaso o T. até queria levar alguns tapetes para Évora e por essa razão entrámos na loja atrás do vendedor. É preciso dizer que o funcionamento de uma loja como aquela é semelhante à do restaurante que vos expliquei há pouco. Quem manda ali é o dono da loja, enquanto o subalterno, seja ele um desconhecido, ou um amigo, ou, o que é muito mais normal, um familiar de sangue, apenas lá está para atender e fazer a apresentação estudada do estabelecimento e do material para a venda. Ali não era excepção. O tipo que nos convidou para entrar, extremamente solícito e educado, berbere de pele branca, mas muito moderno, calça de ganga, camisola de lã, ténis, blusão do tipo baseball e boné enfiado quase até ocultar os olhos, este tipo que nos aliciou a admirar os tapetes, dizia, era o subalterno. O patrão, esse, atendia uns clientes. Aquilo que julgávamos ser uma loja pequena, passado o corredor da porta, abre-se numa sala grande, com tapetes a toda a volta. Tapetes enrolados fazendo longas prateleiras de lã, como numa antiga biblioteca cheia de rolos manuscritos, tapetes amontoados no chão construindo pirâmides, outros ainda aos montes uns por cima de outros, como fiambre ou queijo fatiado nas charcutarias, e ainda outros gigantescos estendidos cobrindo a quase totalidade da sala, deixando muito pouco chão a descoberto. Nem um único passo se ouvia e as vozes vendedoras eram por vezes quase sussurradas. Como o dono da loja, como já disse, atendia um casal de turistas, o nosso vendedor levou-nos para uma sala contígua a fim de dar largas e pôr em prática o seu discurso. Sentámo-nos num sofá entre almofadas, à nossa frente lá estava ele, bem como nós, rodeados de tapetes a toda a volta nas paredes, menos na abertura que dava para a outra larga divisão. Intercalando espanhol e inglês ele procurou saber quais eram os nossos desejos: You have come to the right place and at the right time, because tomorrow is Baraka, day of the feast, very important day for us. Perguntámos se era por isso que haviam tantos carneiros, yes lambs are for Baraka, day of the feast, tomorrow we cut lamb heads and we all join together, all families eat lamb together, então amanhã está tudo fechado é isso, yes everything close for Baraka, day of the feast, people everywhere comes to Morocco for Baraka and new year’s eve, ah, pois, nós são sabíamos. You come to the right place. Do you want carpets, mantas? Qué querés ver? Tell me. We have many kinds of carpets and in different types of material, in wool, lana, like these, handmade, all handmade, hechos a la mano, very resistant, touch it touch it, we have carpets in silk, seda, very very beautiful, very soft and in many colours, red, yellow, blue, any colour you want, and we also have one type of material that you have never seen, like that one beside you, very new, it’s our last kind of carpet, cactus fibre. Estávamos encantados com tudo aquilo, era um verdadeiro vendedor. O tipo ia e vinha, ia e vinha. E o T. só dizia que não queria comprar apenas ver. Está bem está, se uma pessoa diz que apenas quer ver e ainda por cima se encontra sentado dentro da loja, ver quer dizer comprar. Ver é lá fora, lá dentro compras e calas. Eu e a S. só nos ríamos e o tipo ia e vinha, saía da sala e voltava a entrar cada vez com mais tapetes e mantas. O T., mão no queixo, entrava no jogo, mas o que ele queria era um tapete que tinha visto à entrada, por isso o problema era como dizer que ele, T., estava interessado no tapete exposto à entrada da loja sem lhe dizer directamente, o que eu quero é aquele ali pendurado, fazer com que o tipo trouxesse o desejado sem que o T. mostrasse o seu desejo. Aquilo era engraçado, o T. sem pronunciar uma palavra dizia, vá, tu sabes qual é o tapete que eu quero, tu sabes o que eu desejo, vai lá buscá-lo e fazemos negócio, e o tipo olhava para o T. no meio daqueles tapetes que ele desenrolava e, também sem querer dizer, eu sei qual é o tapete que tu queres, eu vi-te a admirá-lo hoje de manhã e ainda há pouco, eu sei qual é o teu desejo, mas isso é o que te prende aqui dentro e eu vou fazer com que te esqueças dele e pôr-te a desejar o que te trouxer, não fazemos o negócio à tua maneira mas à minha. E o tipo ia e vinha, desenrolava e estendia, dava a tocar e sempre, mas sempre, a querer aliciar-nos a todos, não só ao T., mas a todos e em especial com o the one and only cactus fibre, que ele pronunciava cactus fivre quase omitindo o r. Nos meus ouvidos aquilo soava a uma banda rokcabilly, os cactus five. Cactus five, cactus five, mas que merda é essa? Eu devia estar distraído, como costume, quando o tipo apontou para o tapete em cactus five e aquilo já me começava a parecer absurdo.

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xx)

Demos a volta às muralhas passando pela praça real. Uma ampla praça com o dobro ou o triplo da Praça do Giraldo, plana, luminosa, com uma enorme porta com guardas, mas esta não era a Bab Bou Jeloud. Mais à frente, numa curva à direita e deparámo-nos com a santa porta repleta de gente e autocarros. Um deles, como o jipe do T., tinha enfiado a porta de um carro para dentro, o que provocou um enorme trânsito que nem a polícia conseguia resolver. Como andávamos às mijinhas acabámos por decidir apear-nos ali mesmo, a uma centena de metros da Bab Bou Jeloud. Descemos a rua onde a mini-carrinha táxi tinha parado e demos de caras com a gigantesca porta de mosaicos azuis, pretos e amarelos. Pessoas iam passando com as suas compras e carneiros. Não conseguíamos perceber até então a razão de tantos carneiros, uns atrás dos outros, e nem sabíamos de onde eles vinham, mas que eles apareciam, apareciam. Pensávamos entre nós que seria normal tantos carneiros juntos, sendo no fim de contas fim-de-semana.
Atravessando a porta a vida pululava como costume, o movimento de pessoas era contínuo, a azáfama era geral. A gritaria, a música, os cheiros, as cores, as luzes e as sombras, voltaram a aparecer, apanhando de rompante todos os nossos sentidos. Já não nos sentíamos tão perdidos, começávamos já a ganhar o sentido de orientação, uns mais do que outros. Eu, pelo menos, continuava tão perdido como quando cheguei. Mas a falta de orientação não me surgiu somente ali em Marrocos, é um mal meu esteja onde estiver. Agora também já sabíamos onde queríamos ir, quero dizer, o T. sabia e nós íamos atrás dele. O destino era, portanto, a longa rua dos tapetes e das roupas, das djellaba, camisas, gorros, sapatos, sandálias e demais vestuários. O sol fazia já a sua descida ao encontro do horizonte. As peles morenas começavam a ficar mais e mais douradas, os bronzes martelados que serviriam de tampos de mesas galantes em casas senhoriais e de turistas endinheirados feriam por vezes os olhos, reflectindo os fiapos de luz dando novas matizes às pequenas e apertadas ruelas, aos panos que drapejavam nas janelas e nas bancas. Como tínhamos subido bastante ao redor das muralhas, era tempo de descer e mergulhar mais e mais no labirinto, o que fizemos de imediato.

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domingo, 26 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xix)

Bom e agora o que fazemos? O T. sugeriu dar mais uma volta pela Medina e ir espreitar as tinturarias de cabedal. Por nós tudo bem e lá fomos. Com voltas e mais voltas, lá acabámos por encontrar as tinturarias. Para quem não sabe, as tinturarias são um conjunto de enormes tonéis cheios de tinta de várias cores onde as peles são mergulhadas e postas depois ao sol. É um pivete insuportável de amoníaco e de peles a serem curtidas ainda com carne a apodrecer agarrada ao cabedal. Os homens trabalham ali debaixo do sol quantas horas forem precisas, de tronco nu e calças arregaçadas em condições horríveis, só que aquilo é um êxito turístico e rende bastante dinheiro. Infelizmente, considerando o que eles nos pediram e considerando o local de onde espiaríamos o trabalho, um terraço por cima do pátio onde tudo aquilo se passava, não vimos nada e mandámo-los à fava. Continuámos a andar e saímos por pura ignorância da Medina.
Onde fomos dar não tinha nada de nada a haver com o local por onde tínhamos andado. De repente parecia-nos, ou parecia-me, que estávamos nos Olivais Sul. Prédios de três a quatro andares, lixo por onde calhasse, um ou outro café, miúdos a jogarem à bola e a andarem de bicicleta. Parámos numa ponte onde por baixo passava uma ribeira seca com canas, na verdade um aterro para o que desse e viesse. Voltámos atrás, reentrámos. Andámos perdidos por ruelas escuras onde nos acagaçámos um bocadinho. Íamos os três descansados da vida numa rua estreita, cabiam apenas duas pessoas lado a lado, e começamos a ouvir um grupo de pessoas atrás de nós. Não havia razões para ter medo, só que para onde nós nos virássemos lá vinham eles atrás, sempre atrás, e nós em silêncio e eles a falarem baixinho e em árabe e nós cada vez mais calados e eles a continuarem atrás de nós e não havia meio de acenderem a porcaria da luz, até que chegámos a uma rua mais ampla e eles ultrapassaram-nos e nós num ufa geral de mariquinhas - valentia ocidental no seu melhor. Uma e outra volta e de novo encontrámos uma saída cheia de táxis e cafés. O T. então lembrou-se de circundarmos a Medina para entrarmos por uma outra porta, a Bab Bou Jeloud ou lá o que era, e assim ficávamos mais perto dos vendedores de tapetes onde ele queria comprar uns. Começámos a caminhada afastando-nos de todo o movimento e de habitações. Andámos e andámos e Bab Bou Jeloud nem vê-la e então andámos mais um pouco. Até que fomos dar a um cruzamento que indicava, através de uma outra pequena ponte, dois caminhos. Um deles, que cortava para a direita, levava-nos de volta ao nosso ponto de partida por uma zona um bocado sombria, o outro caminho era sempre a subir, sem passeio para peões e guiava-nos até meio caminho da porta que queríamos. Enquanto decidíamos por onde iríamos, não sabíamos ainda que os caminhos nos levavam para estes dois sítios, um grupo de rapazes todos dreads aproximaram-se vindos do caminho da esquerda e perguntaram se precisávamos de ajuda. Claro que, como costume, precisávamos e o rapaz que nos interpelou sabia isso, mas dissemos que não. Depois, como é tradição, pergunta-nos se precisamos de um guia e, como também já era tradição nossa, dissemos que não. Ele percebeu que de nós não levaria nada e muito simpaticamente esclareceu-nos do destino dos dois caminhos a seguir à ponte e que ambos eram perigosos, só que nós, todos valentões, fizemos ouvidos de mercador e tentámos a nossa sorte pela esquerda. E obviamente que tivemos de voltar atrás e fomos de novo para aquela porta de onde saímos. Passámos pelo grupo de dreads e o tipo que nos deu informações sorria todo contente com a nossa figura de parvos.
Não sabíamos o que fazer naquele momento, por isso pensámos apanhar um táxi com a ajuda de um miúdo de para aí oito ou dez anos. Esta é uma característica de Marrocos, é de facto preciso ajuda para apanhar um táxi se não sabemos como o fazer. As paragens não servem para nada e normalmente estão cheias de pessoas, mas também não é preciso tirar um curso. É bastante simples até, é quase o mesmo que o jogo das cadeiras, começa música e o táxi chega, andamos à volta das cadeiras, isto é, espera-se que o ou os clientes saiam e quando a música pára sentamo-nos na primeira cadeira à mão, portanto, o primeiro a entrar fica com o lugar e se mais pessoas forem para o mesmo sítio partilha-se o táxi. Quando o táxi parou e as pessoas começaram a sair, a S. perguntou o preço da viagem dali para a Bab Bou Jeloud. Como desconhecíamos o preço normal e a que distância ficava a porta do sítio donde estávamos aceitámos o preço que o taxista disse. Entrámos no táxi, uma carrinha minúscula para quatro pessoas, e lá fomos dar a volta à Medina. Voltámos à vida a que já nos tínhamos habituado.

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sábado, 25 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xviii)

Mais ou menos a meio da viagem chamou-nos a atenção uma antiga casa senhorial, com enormes portas de ferro entrelaçado, um imenso hall repleto de tapetes e almofadas, as paredes cheias de pequenos mosaicos e uma fonte seca de calcário bem no centro. Mal demos o primeiro passo lá para dentro para admirar mais de perto a magnificência daquele palácio e aproveitar um pouco daquele fresco, logo nos surge um gordo e grande marroquino com uma djellabba que não conseguia disfarçar a pança de sultão. Convidou-nos a entrar e disse que aquele edifício era uma das mais importantes e antigas lojas de tapetes de Fès, aliciando a S. para trazer os seus dois Ali Babas e ir ver os bonitos tapetes enquanto partilharíamos todos um chá de menta (té à ment). Aliciamento para aqui e para ali, a S. e o T. sempre a negarem e a dizerem que mais tarde iríamos lá e o homem já começava a ficar zangado. Mas com muitos shukran e sorrisos lá conseguimos desenvencilhar-nos do vendedor e seguir caminho pelo rio de pessoas.
De tanto andar, de tanto rodopio, de tanto ver, começámos a ficar com fome. Entrámos num restaurante, mesmo à porta da secção do talho, o Bouanania, baptizado com o mesmo nome de uma das mesquitas que existem dentro da Medina. Restaurante de dois andares, no rés-do-chão era a entrada e a cozinha, no primeiro andar uma sala fresca e escura, decorada com mesas de madeira e tampos de fórmica a imitar mármore, longos bancos encostados à parede com almofadões e mantas numa mistura de cores do azul ao vermelho, passando pelo amarelo e o verde, e bancos singulares de tampo preto almofadado. O último andar, onde ficámos, era um terraço com vista para a souk, para outros terraços, para a Mesquita Bouanania, antenas parabólicas, gatos atrevidos e parte da muralha com a memória da luta pela independência. Tinha o mesmo tipo de mesas e ao invés de bancos sentávamo-nos em cadeiras de ferro. Pedimos os três a mesma coisa, coca-cola e tajine de carneiro. Trouxeram pão espalmado, um pires com pimentão picante, sal e cominhos e comemos que nem paxás, contentes, satisfeitos, agradados com aquela primeira parte do dia. Descansámos o suficiente para de seguida retornarmos à lufa-lufa da vida da Medina. Mas ainda deu tempo para perceber como funciona um restaurante à antiga de Fès. Ali quem manda é o dono e só o dono. Quem nos serve tem apenas o privilégio de nos servir porque a gorjeta, e é obrigatório deixar gorjeta, vai para o dono mesmo se ele apenas nos traz a conta. Nós nem sabíamos que aquilo era assim, senão fosse o próprio dono do Bouanania à descarada e à frente de outros fregueses a fazer-nos sinais, a apontar para ele e a raspar o indicador no polegar, enquanto arrumava uma ou outra mesa e trazia comida para os ditos fregueses. Enquanto o T. escolhia umas moedas o homem continuava como se não fosse nada com ele e mal o T. estendeu a mão com as moedas o tipo, sem sequer olhar para nós, estende a mão e agradece, pondo as moedas no bolso do avental que trazia à cintura.

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sexta-feira, 24 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xvii)

Meios escondidos dos olhares locais, abrimos o mapa e vimos o que teríamos de andar. Não era muito, mas era bastante. Tínhamos de percorrer uns dois ou três quilómetros através das boulevards, ribanceira acima e ribanceira abaixo, com plena consciência de que saíamos da cidade e entrávamos numa zona mais rural com pequenas elevações e depressões plantadas de eucaliptos e couves, ajuntamentos de lixo e casas com a arquitectura dos bairros de lata, mas não por muito tempo. À saída da última boulevard ficava um imponente Mcdonald do lado direito e uma estrada sempre a descer ao género da Calçada da Carriche e com os tais campos plantados. Quando chegámos ao fim era preciso cortar tudo para a esquerda e evitar os carros que aceleravam vindos lá de cima, quase como atravessar a Segunda Circular. Como nos aproximávamos da Medina, começaram a surgir mais habitações mas ainda muito rudimentares, daquelas de adobe como se vêem nas fotografias e nos documentários. Por ali acima, à nossa esquerda, principiavam a nascer pequenos bairros que aumentavam o número de casas quanto mais próximos da Medina, já que a Medina tinha sido a antiga cidade e só depois abriu as suas portas para o resto de Fès. Mais à altura do nosso olhar espraiava-se um relvado com crianças a jogar à bola e outros a praticarem capoeira, que assim que nos viram chamavam-nos a atenção mostrando as suas habilidades perguntando se nós não queríamos juntar-nos a eles. Sorrindo dizíamos à la prochaine fois, coisa que não haveria de todo e continuávamos, agora, a subir.
À nossa esquerda começava a surgir um quase imperceptível rumor de gente, sons, vozes, gritos, buzinas, música. Aproximávamo-nos de uma das entradas da Medina já cheia de vida e movimento, carros, motas, táxis, autocarros de turistas e burros de carga e os inesquecíveis carneiros de cara preta. Ali naquela praceta tinha sido declarada a independência de Marrocos e evitávamos ser atropelados e pisar todo o tipo de lixo. Era quase impossível ficar parado a olhar para as pessoas, para as casas de três andares de varandas e telheiros de madeira, as fantásticas janelas com arabescos, os candeeiros. Era preciso entrar no circuito, mergulhar na Medina, infiltrar-nos por onde desse.
Mal passámos a porta um novo mundo foi criado. Andava-se ombro a ombro com as pessoas, com velhos de longas barbas e djellaba, mulheres com crianças às costas e longos lenços negros e medalhas ao pescoço, miúdos a correr com o ranho a escorrer do nariz e grandes sorrisos, adolescentes à cata de estrangeiros para servirem de guias, a venderem kif e haxixe, homens de todas as idades a correrem com um carrinho de mão cheio de botijas de gás ou carneiros, rapazes a puxarem carneiros pelos cornos aos dois e três, burros pachorrentos cheios de vegetais, roupas, trapos. Tudo metido em ruas estreitas com lojas a seguirem umas às outras e bancas a mostrarem o que vendiam. De repente alguém parava para ver uma coisa mas o rio continuava, moldava-se, envolvia. Pessoas subiam, pessoas desciam, cantava-se, gritava-se, chorava-se, sorria-se. De rádios dos interiores das lojas ouviam-se notícias, músicas, flautas, darbukas, as melopeias dos cânticos. Telemóveis ligavam pessoas de uma ponta a outra da Medina, de Marrocos. Pregões de loja a loja, bocas a chamarem a atenção, bocas de conversas, bocas de gozo, bocas de regateio, bocas com dentes e sem eles, dentes em mostruários, ao pescoço, a morderem frutos, pão, chocolates. Jogos de luz e de sombra do sol que já ia alto por entre as ruelas, pelas travessas atoladas de pessoas, de bancas. No caos daquela arquitectura, daquele labirinto onde o Minotauro é que seria comido, tudo estava ordenado por secções. Tínhamos a secção das roupas, sapatos e ténis, as djelabbas para homem, mulher e criança, os tapetes de todos os tamanhos, almofadas de cabedal e lã, os instrumentos de música, as bijutarias, os anéis, os colares, os relógios, os brinquedos, depois a secção dos vegetais, da fruta, das padarias e doçarias, das especiarias, a pimenta, o açafrão, o caril, os cominhos, os orégãos, o gengibre, o pimentão, a canela, uma mistura de cheiros e cores, mais à frente debaixo de grandes toldos toda uma rua à sombra de bancas e bancas de carne, galinhas, carneiros ao infinito, vacas, cabeças cortadas e sem pele de olhos esbugalhados a sorrirem, grandes pedaços de carne a serem retalhadas escolhidas a dedo, bifes e costeletas enroladas em papel pardo e postos em sacos de plástico preto, o paraíso das moscas dos cães e dos gatos que por lá passeavam.

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quinta-feira, 23 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xvi)

30 de Dezembro de 2006



Estendemo-nos na cama e pusemos o despertador e não têm nada a ver com isto e por fim tirei da minha mochila o Paraíso Perdido que tinha recomeçado a ler para o mestrado e li o primeiro canto à S. que adormeceu de imediato. Eu próprio não aguentei muito e também adormeci, só que, passado algum tempo, acordámos com música vindo da rua. É que aquele terraço que se via da nossa janela não era mais do que uma discoteca, mas também não durou muito tempo porque o cansaço era tal que adormecemos outra vez. Mas depois, valendo agora a pena ser acordado, o silêncio que já se fazia na rua foi maravilhosamente cortado. Eu já tinha tido esta experiência em Casablanca e tentei explicá-la muitas vezes à S., mas uma vez mais, não é a mesma coisa ouvir contar e presenciar (mas também se pode contar ou escrever aquilo que se presenciou de tal maneira que aquele que ouve ou lê pode mesmo sentir mais do que aquele que contou ou escreveu, o que não é o meu caso). Lembro-me que às quatro da manhã se acendeu o minarete da mesquita de Casablanca no escuro daquela noite quente de verão, aquela única luz lá em cima e do silêncio vindo sabe-se lá donde aquela voz grave que num vórtice se foi alojar no fundo do ouvido, aquela voz magnética que foi subindo e subindo e puxando por nós até nos agarrar completamente. Como a S. ainda estava mais ou menos desperta disse-lhe apenas de mansinho ouve. E do fundo da noite até aos nossos corações atravessou aquela voz e como já alguém disse, sobre algumas coisas é preciso o nosso silêncio. Shukran e boa-noite.
Ia amanhecendo em Fès, o despertador dizia-nos que eram oito horas e fomos à vez escalar a banheira. A S. ficou a marinar um pouco mais e eu despachava-me o mais rapidamente possível sem fazer muita porcaria. É um bocado parvo isto, não é?, uma pessoa toma banho para tirar a sua porcaria e tenta não emporcar o que está à sua volta. Mas bom, quando saí foi a vez da S. escalar e vestir-se e lá fomos nós cá para fora já com as mochilas às costas. Batemos à porta do T., mas claro que ele estava um bocadito atrasado, por isso, e agora sim, pudemos ver a sala de estar com a sua luz natural. Era uma sala ampla e alcatifada, com uma grande mesa ao centro e sofás a toda a volta. Paredes de madeira com quadros e fotografias de muitas partes de Marrocos. Duas grandes janelas com varandas que davam para um jardim e para as largas boulevards e altos prédios do tempo da ocupação francesa. Era uma manhã fresca e movimentada, um dia de Primavera e não de Inverno. Íamos comendo pedaços do bolo que a amiga da mãe do T. tinha cozinhado, esse feito de frutos secos e coca-cola, e esperávamos dizendo os bons-dias a tudo. Entretanto o T. já se devia ter despachado mas não chegava e eu acendia um cigarro sentado num sofá. Passado, sei lá, um quarto de hora aparece o T. que, aparentemente não nos viu na sala e saiu à nossa procura na rua e como não aparecíamos resolveu ver se estávamos no quarto. Quando nos encontrámos no hall do nosso andar resolvemos o nosso pequeno desencontro e decidimos tomar o pequeno-almoço no Al Khozama.
Agora sim já conhecíamos os caminhos que nos levavam à comida. Chegados ao Al Khozama sentámo-nos na esplanada e após um respeitoso ssalamu ‘lekum mútuo pedimos café, uma tosta de queijo muito semelhante àquela que vos falei na Ceuta espanhola e leite ou sumo. O T. ia lendo o seu guia para delinear o nosso percurso do dia e preparava a sua máquina fotográfica, enquanto a S. e eu íamos olhando à volta vendo as pessoas passar e trocando algumas palavras. Comemos, fumámos e tentei uma nova investida à casa-de-banho minúscula e não muito limpa o que Fès com que as minhas necessidades arrepiassem caminho. Desta feita, averiguámos junto do Sr. Khozama onde é que podíamos comprar um mapa de Fès para perceber melhor o quanto é que tínhamos de andar até à Medina, porque não parecia haver necessidade de transportes públicos. Na tabacaria em frente no outro lado da rua haveriam de certeza mapas e era verdade. Ao jeito tipicamente turístico tirámos uma fotografia todos juntos com o Sr. Khozama prometendo que depois enviaríamos uma cópia, coisa que ainda não fizemos mas haveremos de fazer. Depois de termos pago a conta e de mais um ssalamu ‘lekum ‘lekum ssalamu atravessámos a rua e procurámos o dito mapa e aproveitámos também para comprar tabaco, já que eu tinha apenas umas poucas folhas ambarinas e o T. nada para fumar. Nada mau os dois maços de Marquise por 30 dhirames, enquanto que o T. teve de pagar mais porque levou para além do Marquise um Camel a preço de importação que é quase o mesmo do que em Portugal. A tabacaria não era muito diferente das que ainda se encontram em Évora, por exemplo. Um balcão grande de madeira cheio de jornais, várias estantes com revistas e livros de poesia e romances em francês e árabe, por trás do balcão grandes prateleiras com tabaco e outras bugigangas, com a excepção de não existirem quaisquer revistas pornográficas, se calhar só para clientes habituais. Estávamos quase prontos, só faltava que eu e a S. comprássemos uma máquina fotográfica descartável, para que também nós tivéssemos os nossos momentos kodak. Encontrámos umas ruas mais adiante uma dessas lojas reveladoras e de venda ao público com tudo o que era necessário ao fotógrafo profissional e de fim-de-semana. Agora sim, venha daí a Medina e o souk.

(cont.)