segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

qualquer coisa

pássaros caminham sobre a neve         ao partir
deixam leves marcas na poeira branca
há nesses passos perdidos
a própria vida
dançante        impedido de prosseguir
olho o trilho até o silêncio se instalar
e a carne se queimar pelo gelo
 
de longe na tua núvem de sopro
chegas com a beleza enraízada
no teu estômago      uma semente de sésamo
uma lentilha        qualquer
coisa indefinida como um anjo
preciosa que avança como a luz
de um farol por sobre as vagas
de uma longa noite        sei-me salvo
prometido à remissão
acompanharei até meio esperando
que a mim nos meus últimos passos
não me abandone
ou a ti
 
cairá fatalmente a neve
todas essas marcas cessarão de ser 
sob o seu peso ou o calor
não há razão para a comparação
na relevância das criaturas
mas isto        peço-te        leva a peito
ahimsa paramo dharma
 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Slowdive - no longer making time


Come anyway
Say you're clean, you like it that way
You got a new boy
He keeps it light, you like it that way
Who cares anyway
Oh lord I remember the days
And all those nights
When you wanted so much more
Cathy, don't wait too long
We're no longer making time
Forever we'll be
Together, we breathe
No longer for too run
Come anyway
Come on down in your
Blue eyed way
Comes and it goes
You come around and I don't know why
Just lovers and life
Common ground, Yeah there's no surprise
Just holding your arms
Holding on till the fear, It goes
Cathy, don't wait too long
We're no longer making time
Forever we'll be
Together, we breathe
No longer for too run
Who cares anyway
Oh Lord, I remember those days
And all those nights
Holding on till the fear, it goes

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

paisagem com ninho

muros de tijolo cinzento marcados
pelo combate de duas naturezas
ladeiam as florestas descarnadas
a memória de defuntos

é por aí que eu vou

planícies de neve e gelo e o corvo solitário
debicando a terra revolta                            estaca       por instantes
                                                                             o olhar         que conheço
                                                                                        no vazio        tão próximo
ao pensamento desolado

bate algures uma porta
alguém se exaspera na afasia
eu cumpro a minha promessa
repetida em cada cidade quando sempre
à esquina a dúvida relampeja
eu cumpro a minha promessa

recolho os galhos
rodo a mão à medida do relógio
de olhar cheio de mágoa
e o pensamento no oeste
recolho os restos

aprendi a lição no seu levantar de asas
despeço-me quando há demasiado

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

hold on to your self

escondo a minha dor        avanço
por estes lugares e estendo
a mão ao desconhecido
quem não é estranho a este mundo
tome o próximo sopro
 
a beleza que ainda espreita
cala as coisas escuras que são devidas de
dizer        soterro grato de te ver
quando a manhã me acode
com todo o branco da neve
entrando com a prata da lua
 
as janelas suam as dúvidas
basta uma gota para traçar
o mapa do que não é para aqui chamado

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

vem

tu espantas-te com o pensamento
enrodilhado nas suas trevas
e uma lâmpada alumiada a fogo
 
nem chega a assentar a leveza
da neve        paira um distorcido silêncio
cortina opaca        houvesse um fio
fino fumo que assinalasse ao fundo
uma via        e não o tactear ferido
o derrubar de muros a martelo
de toda a névoa da memória
 
vem abraça-me ainda
à janela        nas ruas os olhares
estão cheios de ruídos
tarda já tanto e é já tempo
para que o inquieto coração bata
é tempo de ser tempo

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

exílio

desviar o rosto depois de tantos
anos fixado na planície de tubérculos
 
em lama fria com a boca
cheia de pedra e madeira
 
acender a vela para confundir
sombra e fantasma
 
como antes entre a roda o olhar
cúmplice
 
dou uso à língua de neve
para dialogar com ninguém
 
viro para o lado do coração
onde o cravo aponta o mar

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

um e depois o outro

irei um dia morrer
depois o silêncio
em torno da minha vida
será tão só
a eloquência do vento
nas copas queimadas
 
irás à frente
com a solidão das papoilas
dirás         nenhum sal
sarará a ferida
os sinos nao terão voz
como num desses domingos mortos
partirás apenas quando eu
a ti te esquecer e o outro
a mim        quebrando
a infinita cadeia da memória

domingo, 20 de dezembro de 2020

turyiaga

tudo se alumia
de si        tudo luz
da mesma fonte
cada singular
corpo é a expressão variada
dos elementos desta tessitura
 
não estás só na diferença em que nasceste
não és único na diferença que produziste
quando me feres violas toda a existência
quando amas é toda a existência que s'embriaga
de teu amor
 
ao terceiro dia a derradeira
semente        cinza de despedida         e tu
permaneces em tudo

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

padarthabhavani

o tempo passa e estás
em casa
em ti
sempre mais
junto e próximo
desse único indelével
impessoal fio
sustendo a trama
de tudo em absoluto
 
só isso preenche cada
dia por inteiro

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

asamsakti

saindo do lodo
cruzando a água
e suas correntes
alcança o Lótus
o ar a luz
intacto
à sua pele nada se apega

tu passas como essa flor
pela vida        estás aqui mas
já não és daqui

cada vez mais dentro
além

domingo, 13 de dezembro de 2020

Dead Can Dance - Advent

 

In the hour of darkness
Our worlds collide
Assailed by madness
That has plagued our lives
At the point of departure
On the eve of despair
Your recourse to reason
Seems to make no sense at all
 
The light of hope
Shines in your eyes
Dementia has gone
Purged from inside
 
Throughout our wand'rings
In a land of lies
We fell from God's grace
Into a sea of storms
In the self-relevation
Celebration of love
These both are virtues
We seem to have left behind
 
The light of hope
Shines in your eyes
Dementia has gone
Purged from inside
The light of hope
Shines in your eyes
Dementia has gone
Purged from inside
 
Lay bare your heart
Induce the will of love
To restore what little faith
That you may have lost
As morning brings re-birth
A new day will dawn
To ease our troubled minds
Turn away on your side
And dream of days to come...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

sattwapati

cai agora
o teu olhar
com o mesmo
peso nas coisas
a questão de valor
desvanece com o julgamento
a diferença com a dualidade
tudo é o mesmo e és tu
 
queimas as sementes
cortas cerce as raízes
ages sem nada a ganhar
e cada gesto é a lei
de nenhuma ofensa
de pensamento palavra acção

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

vicharana

uma vida como exemplo
só isso        farol iluminando
a penumbra do real e o caminho
o único                                         a percorrer a sós até sair
da boca do crocodilo

domingo, 6 de dezembro de 2020

mumukshutwa

um dia há que ceder
um dia quando do fundo
da cova o próximo gesto for o sopro
sentido como o derradeiro
 
depois        dedica toda a vida
à libertação
derroca o mausoléu das ideias
que te hospedem
no sofrimento deste teatro
 
não mais papéis máscaras
nudez bastante        e basta

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

samadhana

percebe isto        quão difícil é a tua
inerente simplicidade
coberta por todos os véus e vício
na escolha de estar no
em vez de ser o           mundo
 
senta-te        por exemplo        numa floresta
até seres a ausência nela anterior à tua chegada
 
basta        e já vês a escalada do Himalaias
         a liberdade e a entrega e o apoio dos cinco
tesouros lentamente adquiridos
(este o último)
de controlo resistência desapego crença
e é apenas o princípio
da viagem de uma vida
 
tal como a chuva apenas estremece
a pele de um lago        procura manter
a tranquilidade como o destino de um rio

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

shraddha

estas palavras sustiveram o lustre
e os destroços de toda a criação
humana
uma e outra vez novas
se impuseram gladiando a aproximação
ao imo e o silêncio
todas elas derramaram sangue
menos estas e daquele que as profere
abrindo na escuridão as frinchas
para a luz que te devolve a ti         escuta-as
perde-te nelas com a crença da criança
às primeiras palavras de uma mãe

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

titiksha

na boca do crocodilo estás
entre extremos que tu mesmo eriges
 
deixa a acusação
do outro        nas tuas unhas ainda a terra
dos buracos em que caíste e cavaste
para a tua queda       responsabilidade
 
oh horrível pedido         a tudo quanto vem
suporta        resiste cada nada
da imaginação

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

uparati

para o grande sim dizes
não a tudo
 
tanto vem nas asas
e correntes das boas intenções
 
mas para o grande sim a tudo
tens de dizer não

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

dama

tudo vem como sempre vem o mundo
                                                             fragmentos         em incessante catadupa
                                                                                que são o todo e tu caminhas
imperturbado no fio
da lâmina dos sentidos

domingo, 29 de novembro de 2020

shama

tudo é levado
pelas tempestades do coração

senta-te à mesa
com a menina-do-olho
recessa toda a onda

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

shatsampat

despedes-te das coisas
desteces as tramas
sem que o gelo te isole
 
este caminho duro
desbasta a aparência
do mundo e de ti
 
um pouco empobrecido do que era
comum        portas um tesouro
de calor incalculável para a matéria

terça-feira, 24 de novembro de 2020

vairagya

tu és simples e essencial
vê o teu lugar        se ignorância ou ilusão
te parecem rudes        digamos antes        o sono enleva-te
como musgo orvalhado a pedra crua
                                                                                               a contemplação do teu imo
 
carregas demasiado para tão ordinário
batel neste oceano
em cada porto e baixel cruzado ata-te
o cânhamo das relações
a fateixa de um rosto
 
se queres navegar liberto corta cerce
põe-te a nu e passa ao largo
conhece os limiares        decora a lição da aranha
e nesta imensa rede desliza num fio de vida
que a nada te prende e ao outro apenas
o que nele é simples e essencial
                                                    como tu
 
o teu lugar está na distância da realização
de um eutu esbatido

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

viveka

há uma estranha beleza em tudo isto
sempre presente e sempre perto
e no entanto tão tão longe que nunca uma mão
bastando apenas fechar-se sequer segura
 
uma beleza absoluta onde tudo o resto assenta
como o pó nas coisas        uma beleza extática
conhecedora a fundo e ignorada        parede branca
onde cai e doa        a luz
                        uma segunda pele que abisma o olhar
e toma nome e forma
e com a simultaneidade do depois
tem um princípio e um fim
banha-se nas águas do rio
nos grãos de areia das campânulas de vidro
(escolhe a tua metáfora ou veneno
como diziam nos confessionários das noites
loucas e brancas
                           onde quantas vezes se revelava essa estranha
beleza que também perdura nas trevas)
 
quando a ilusão da diferença se dirimir
e a máscara da realidade se esboroar
resta a estranha beleza de tudo isto
isso que o bardo também viu na sua passagem
pelo norte
há uma forma para as coisas não uma forma
para cada coisa mas uma forma una e pura
de todas elas

domingo, 22 de novembro de 2020

subeccha

é sempre aqui um entardecer
 
olhos velados pela meia
luz e tudo aparenta ser
o que não é       um tronco de
uma árvore        por trás de outra        oculta
um homem de secretos intentos
e inexistente        a cada passo
adensa-se a trama da ilusão
dias pautados pelo canto do lamento
desta vida na boca do crocodilo
 
senhor este carrossel não tem saída
e há de haver        com que linha se tece
este mundo        onde assenta a mudança
o que resta
depois do nome e da forma