terça-feira, 17 de janeiro de 2023

eleva-se a lua de lobos

eleva-se a lua de lobos
e a demora da sua presença
esbate a sombra do teu rosto

o que nos chega
de uma estrela é o instante
da sua morte

surge ao olho
a coisa sob o jugo
da poalha luminiscente
acede à sua parte
do espectro da memória

peço-te 

            olha-me

e só o que fui
te entra pela câmara obscura

não é falso amar um fantasma
algures         ao me lembrares
             já muito depois do pó
ilumina-se o interior como uma estrela
o céu escuro presente nesse instante

já vai alta a lua
perdeu a sua cor de ouro
aproxima-se a besta do esquecimento

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

cão preto em prado branco

cão preto em prado branco
quem te amacia o dorso
lava as mãos de melancolia

cão preto em prado branco
deita o teu focinho no meu colo
ensina-me a reconhecer a gratidão
e com tua língua mapeada prova-me
que o perdão é ainda possível         com tua garra
assolapa o escuro que assombra
o meu coração         partisses hoje
cão preto em prado branco
e minha última esperança de ser humano
desapareceria no teu suspiro

cão preto em prado branco
tens um conhecimento íntimo
de mim que me escapa         fica aquém
o que possa fazer por ti

cão preto em prado branco
com o seu manto vermelho
chega já o entardecer
o silêncio que nos toma e cobre
como a cinza o rosto         não corras
tão célere atrás do veado e do javali
de te perder o meu medo sai-me da garganta
e o teu nome corta a floresta

cão preto em prado branco
quem te ama tão alegremente só
ama-te para além da espécie

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

é de muito longe que falas

é de muito longe que falas
para o sangue me correr
às mãos         é de muito longe

é de muito longe e de nenhures
um rumor gelado que escuto

tens de percorrer muito o longe
para cortar o escuro e desfazer o nó
chegar onde estou só desde a infância

vem pelo caminho da geada e neve de espelho
sob o passo como sobre o peito
o silêncio de margem a margem

é de muito longe
a solidão         urso acorrentado
que cada estocada põe no alvo
mais que a fala o correr do sangue

é de muito longe e de nenhures
um rumor gelado que escuto

sábado, 24 de dezembro de 2022

Neva

neva

mas esse cheiro vinha de outro frio
de uma grande outra
planície numa casa de pedra e lume
de chão 

eu era outro dentro do mesmo
silêncio de esquina
antes de virar a aurora
e sabia de cor o lugar do retorno

o gume estava longe

era quando havia futuro
e eu era outro junto ao lume
de chão luminoso de outro fogo

neva e é sempre
noite 
e gume afilado
junto ao pulso do que vem

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

ainda que digas que me conheces

ainda que digas que me conheces
fazes por ignorar o nome
dessa planta rasteira a cercar
o coração ao amanhecer
cingindo o dissipar da névoa e do escuro

ainda que digas         uma pedra cinde a boca
das palavras e do mel
até o rosto se voltar para a parede
atrás do mural do lençol

seguro entre as mãos um pouco de luz
aproximo-a de mansinho como um animal
cansado
tu vertes a atenção nos espelhos
de água e vidro

o silêncio responde por nós
à estranheza que se estende sobre a mesa
aos gestos despedidos do familial

terça-feira, 29 de novembro de 2022

o frio conhece os ossos como um dedo

o frio conhece os ossos como um dedo
um espinho         aclarava a neve
as sombras no seu detalhe de filigrana

na mesa
             as amarilidáceas de boca aberta
pasmavam com a beleza de ser
noite dentro de casa

não acendas uma luz         deixa os olhos
estreitarem o hábito no escuro

não digas uma palavra         deixa a cinza
relembrar o fogo esquecido dos lábios

as amarilidáceas poalham ouro na mão
é verão pelos teus dedos

não acendas uma luz

domingo, 27 de novembro de 2022

cobrir de terra os retalhos da vida

cobrir de terra os retalhos da vida
de argila mel e cinza
do que nunca poderá vir a ser

com a brisa de uma pluma
soprada na sua ideia de pássaro

de uma lágrima de peixe surpreso
por água ainda pura

pegar no fio que cerze o véu de arlequim da memória
seguir com um dedo o traço da fenda
até perceber como se rachou a pátine
onde ficou a bússola junto do sul de nenhures
a sombra perdida nas rondas de outro caminho

cobrir de terra os retalhos da vida
cobrir a terra

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

o que me visita

o que me visita dá-se entre a mão
deixa ao partir o espírito
indomado pelo desapego

estaca atento distante
da deriva desapiedada das aves
nas margens nevadas do rio

olham a manhã clara e esquecida
do retorno das palavras que pedem
para ser ouvidas

terça-feira, 22 de novembro de 2022

tenho uma casa de raízes

tenho uma casa de raízes
perenes na minha infância
essa é a minha pátria
prenhe de desejos que me interpelam
numa língua de enganos

tudo o que não foi me alicia
a memória a sair da suas pastagens
inócuas do entardecer e escreva
para aqueles que me escutem

os mortos

terça-feira, 15 de novembro de 2022

as vidas pelos baluartes de tijolo

as vidas pelos baluartes de tijolo
passam na sua brevidade
onde também aí estou

os que me conheceram saciaram a sua sede
lábios boca e língua lavadas pelo Letes
diz-me ela
                 ninguém te quer a seu lado

quis um dia que me soubessem
faltou-me o segredo         a ilusão da palavra
de tornar magnífico o banal

eu apontava o real de corpo
despido        não me escutaram

sento-me numa cadeira de verga
que ritma o lamento dos meus ossos
escrevo finalmente
para mim

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

dá-me a conhecer o ódio

dá-me a conhecer o ódio
e toda a luz
se apaga com poucas palavras
os olhos enegrecem com a gentileza de uma noite
mal passada
e o pensamento sucumbe ao eco

a sua voz na minha repete a minha voz na sua

vejo de mil maneiras a faca
no pulso
ao longo do braço
a banheira morna
e o soalho banhado
de um outro pôr-do-sol

a sua voz na minha guia-me pelo eco
pelo escuro        nem a paixão
pela floresta embebida
nos dourados de outono
calaram a sua voz
na minha

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

diz a mãe: não cresças tão rápido

diz a mãe: não cresças tão rápido
deixa a tarde aceder à lentidão da eternidade
o desejo formado como um cristal
incólume e perfeito no segredo da terra

não tão célere como o cavalo domado
pelo repentino instinto selvagem de correr
cresce como a noite no ártico
quando o dia se acende no outro pólo

cresce como um puzzle inacabável
um monumento antigo erigido sobre
o seu silêncio         cresce de mansinho
e escuta o rumor do meu amor cantado
para te adormecer

                               como uma onda atravessando cada oceano
cresce apenas quando eu partir
nesse dia irrompe pelo céu
como um feijoeiro mágico e passa
a tua mão pelo meu rosto

passa os dedos incendiados
pelos lábios e o vale do anjo
que selou tudo o que era
anterior à palavra
passa os dedos e deixa
a cinza do gesto purificar o tempo
na aprendizagem da carícia

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

o dedo apontado ao centro de cada coisa
mede a distância do sentido ao coração

esta é a mãe
abrigo de sono fonte clara
onde o corpo aporta e se nutre

este é o pai
riso de aventura
breve insanidade do músculo e queda

as peças dispersas da vida
irmanam-se por invisíveis correntes
a paciência cinge o caos
com a sua morosa doçura

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

cantiga de amigo

não creio que te conheça
os traços esbateram-se com a distância
afeiçoando o rosto à estranheza
do encontro de céu e água
por trás da cinza do nevoeiro
das frias manhãs de outono junto ao Havel

não creio que conheça o meu nome
pela tua boca chamado ao fundo da rua
como desconheço o que nomeia o som
do choque das pedras roladas pelas vagas
se alguma vez o pronunciaste
no tom harmónico muito depois do álcool
ter secado os lábios
não creio que conheça a tua voz

não creio que conheça a tua mão
à ombreira de um abraço
adiando a brevidade da despedida
que será para sempre         não creio
que conheça o músculo cansado da melancolia
a fazer sombra a este poema
ao longo das langorosas autoestradas da Europa central

que nos tenhamos conhecido
coisa rara
irmã da neve em Lisboa
amor declarado de um gato
é uma possibilidade         que um dia se tenha dito 
amigo
seria abrir os mares para que nos encontrássemos

terça-feira, 25 de outubro de 2022

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

calava-me junto às águas e a erva
acendia os teus dedos cegos às carícias
o emaranhar doce no cabelo
ou no pêlo dos animais ciosos dos teus passos

apontava a pedra que abre
o ricto onde o orvalho guarda a sua memória
a árvore descarnada que dança ao canto
do rouxinol
ela embala aquele que dorme
no sossego do inverno branco

cada gesto é a descoberta da raíz
das coisas os nomes que emprestam
o sentido que entra pelas tuas mãos

saber é a aventura tacteante
comigo dentro da tua sombra

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Henrique Manuel Bento Fialho - BELEZA ENTRE DESTROÇOS (posfácio a "Às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem")

           Ao pensar na mais recente poesia portuguesa ocorrem-me poucas vozes que tenham cativado pelo factor surpresa, sugerindo uma originalidade que não é, de todo, o mais fácil conseguimento no labor de um poeta. Quem leia muita poesia corre o risco da previsibilidade, mas também sabe que uma das vantagens desse risco é a qualquer momento poder ser surpreendido por um verso, por uma linguagem que ouse confrontar a ordem estabelecida mais do que prestar-lhe vassalagem.

          Fernando Machado Silva (n. 1979) é uma das vozes que me cativou desde a primeira hora, quando li o seu livro de estreia intitulado “primeira viagem” (Orfeu, 2012). Então assinalei, a propósito dessa leitura iniciática, alguns motivos de interesse vislumbrados no universo daquele livro em concreto: a deslocação da urbe para o campo, a opção pela auto-ironia em detrimento de um pessimismo de pacotilha usado por quem anda com a ruína pendurada ao pescoço, certo confessionalismo que teatralizava imagens recorrentes no tecido exigente dos chamados temas nobres.

           O que posteriormente foi ficando mais claro é a forte relação desta poesia com o conceito de viagem, desde logo explícita no título do primeiro livro, mas subsequentemente reforçada na figura do passageiro. Assim é por haver nestes poemas um vínculo indisfarçável entre vida vivida e poesia, tratando-se aqui da vida enquanto viagem cuja característica mais evidente deverá ser a da transitoriedade. À deslocação no espaço corresponde, portanto, uma deslocação no tempo, deslocação esta subsidiada pela memória e materializada, por exemplo, em vários versos onde infância e adolescência surgem como pano de fundo.

         Se os lugares geográficos aludidos indicam deslocação espacial, já os lugares da memória remetem para deslocações no tempo. É desta relação entre espaço e tempo que o poema assoma de um “longo sono”, espécie de lava expelida no decorrer de um processo de escrita eminentemente eruptivo. O próprio título desta colectânea, pedido de empréstimo a Clarice Lispector, parece pretender ironizar tal processo, associando o acto de escrever ao gesto de acordar. Sendo dócil, não deixa também esse gesto de conter em si a violência de um encontro com o “abismo da desordem”, ou seja, o plano da existência.

           A poesia de Fernando Machado Silva adopta, então, a índole vigilante de um tempo que é o da vida vivida, consubstanciando-se em conjuntos determinados pelo período a que os poemas correspondem. Não podendo chamar-se-lhe “diarística” sem incorrer no risco de uma extrema simplificação, podemos preferencialmente anotar cuidado e rigor na arrumação dos poemas em conjuntos pautados por temas e pela vibração própria dos versos. E este é, talvez, um dos aspectos mais interessantes a sublinhar, já que em nenhum momento se omite o apelo de uma respiração própria, ligada a práticas ancestrais de meditação como facilmente depreenderá o leitor do conjunto aqui coligido sob o título “para uma aprendizagem”.

           Nesta proximidade que mantém à vida, o poema não escapa às armadilhas da linguagem poética. O que o distingue da frugal anotação diarística é o poder das imagens e das metáforas que ampliam o campo semântico, desde logo introduzido no primeiro conjunto com o título oportuno “as horas para um poema”. Podemos ler todo esse conjunto como quem lê uma ars poetica, por nele ficar delimitada a disciplina de um autor que não prescinde do fulgor das trevas, passe o paradoxo, para o exercício da sua arte. A própria distribuição das palavras na página oferece ao texto uma configuração que o liberta de constrangimentos, marcando o ritmo com pausas, silêncios, vazios de que o poema nasce como das trevas nasceu a luz e dos olhos fechados em sono profundo nasce a imagem reveladora de um sonho. 

           São muitas as referências implícitas e explícitas ao longo do livro, pelo que seria fastidioso enumerá-las num apontamento de leitura que vai mais extenso do que devia. Encontramos pontos de encontro entre essas referências e os poemas, manifestações de afecto, processos de identificação. Mas encontramos também um fascínio pelo oculto, pelo esotérico, pelo mítico e até pelo místico que não são de todo comuns na nossa poesia mais recente. Não deixa de ser curioso, todavia, que tais encontros se dêem a par de uma postura contemplativa que, tendo a natureza por objecto, se nos apresenta mais arreigada à terra do que a matérias do invisível.

            Na sequência intitulada “da tristeza e do amor do mar de julho” é perceptível o modo como à sublimação da natureza corresponde um relance crítico acerca do lugar ocupado pelo homem no seio dessa natureza. Por outro lado, no conjunto excelentemente intitulado “trazer a dor à luz” parece despontar uma relação furiosa com o sagrado. De conjunto para conjunto torna-se-nos então possível construir uma narrativa que transcende já as coordenadas do tempo e do espaço, porque ela é a dos dias consumados entre uma experiência de vida e uma ideia de morte. Um título como o do poema “cinzas sobre raízes” dá bem conta deste labor que, no fundo, não mais procura do que sempre foi missão dos poetas procurar: um nome para a beleza que se move entre destroços. 

 Henrique Manuel Bento Fialho Caldas da Rainha, 21/Outubro/2019

quinta-feira, 23 de junho de 2022

sei que envelheço pelo olho

sei que envelheço pelo olho
que me estranha e busca
os sinais do que ficou
na memória       acordo
tudo range        cobre-se de cinza
um véu de aparência

deverei um dia conhecer a beleza
da pátina
               no bronze       do granito coberto de rosas
por agora confundem-me
com uma peça de mobília
lascada
            onde se encosta 
a cabeça para se dormir

segunda-feira, 23 de maio de 2022

notas sobre a vida que sai das areias (conclusão)

à medida que chega, que percorre, que se sabe acolhido, que expressa a sua confiança em ti, que perde a sua inocência trocando-a pela linguagem, os desejos, as vontades, os valores, os sentidos, os significados;
à medida que, também isso, encontra o seu deserto e as suas areias, as suas dores, desgostos, desilusões;
à medida que o amor se abre e fere e cicatriza para se abrir de novo;
à medida que toma conhecimento da finitude das coisas, da doença, do impalpável sofrimento;
à medida, enfim, que vive e experimenta a vida,
tiveste tempo suficiente – terá de ser suficiente o espaço que dista a sua chegada à tua presença – para que sejas a forma de uma vida como exemplo. é desleal este combate. isso um dia, também isso, irá entrar no jogo e o mundo depende disso. é desleal. e haverá melhores exemplos. abre-lhe o caminho com a tua, o teu: a vida, o exemplo, o poema.

domingo, 22 de maio de 2022

notas sobre a vida que sai das areias

está nas tuas mãos, nas tuas palmas, na ponta dos teus dedos. isso é mínimo, minério. conhece apenas a sua mais íntima lei: quer permanecer e em si. de nada sabe das variações da luz, do horizonte onde sempre se está e nunca se alcança, do lume e do gelo. sabe somente, com uma dor profunda, da permanência em si. e abrirá os olhos e a boca, os seus sentidos para a inquirição e tu só de uma coisa necessitas: ter um rosto nu que acolha a sua vida.

sábado, 21 de maio de 2022

notas sobre a vida que sai das areias

isso não pediu a sua vinda. vem na espuma do aconte-ser. abrirá caminho à força, rasgando a carne e o pensamento, como só o amor, uma semente, um poema o sabem fazer. poderás pedir justificações. calar-se-á: é-se sempre inocente no trilhar-se um labirinto. ao chegar já tudo aí está e em si sem necessidade da sua presença. isso fará mossa para encontrar o seu caminho, o seu lugar. isso tem a inocência do que é amoral. de nada sabe do teu mundo. isso diz respeito à vida.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

notas sobre a vida que sai das areias

ser-te-á por vezes dolorosa a sua presença. da posição do outro serás remetido à do terceiro incluído entre duas vontades: isso e ela. isso não te pertence e, porém, queres a sua proximidade e atenção. verás tudo de longe, por exemplo, essa longa distância da outra metade da cama. e já te foi dito, apontada a via do abandono e a via do silêncio, mas a exclusão quando tudo acolhes, quando permaneces presente enfrentando os gritos, as injúrias, os gestos de repulsa, disso não te disseram. até que já não sabes, se de hábito, se de lenta inclusão, ser o terceiro adequa-se, como chão por onde trilham.