as amizades que passaram por mútuo consentimento
e as que ficaram presas de silêncio quebradas
quando a voz decide da distância
não me esqueço de me lembrar que um dia te amei
até à flor da pele
quando o acaso dos olhares
se dá na pausa entre pedras
não me esqueço de me lembrar outros amores
aquele que me envenenou
aquele que me cindiu
aquele que foi incapaz
de impedir o alastrar da fenda
não me esqueço de me lembrar os corpos
que me ofereceram o espelho
reflectindo a solidão
enquanto nos misturávamos
não me esqueço de me lembrar que dancei
bêbedo de alegria
consciente da vida que corria dentro de mim
não me esqueço de me lembrar que a morte
interior é imparável e tem muitas formas
e deixa um resto de dor à sua passagem
e abre portas por onde se vai morrendo
não me esqueço de me lembrar
e assim a tristeza este deserto
a arrastar-se sobre a vida
assim do que já não sei
sou eu

