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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

XI

Fui tentando levar a vida que tinha antes de o conhecer. Foram muito difíceis os primeiros meses. Acordava enjoada, vomitava, adormecia por tudo e por nada. Também enojada por aquilo que ele me fez e eu lhe dei de coração aberto. Deixei de sangrar de um momento para o outro. Tinha uma fome de loba. A cerejeira voltou a ter rebentos e foi só nessa altura que percebi que te trazia.
Setembro estava a começar. Nem sabes o desgosto que tive quando te vi nascer. As dores não foram muitas, não comparadas com as que já passei com ossos e coração partidos. Não sei de onde vieste, sabes. É que ele me tinha estragado o sexo com um espeto em brasa, como já te disse. Por isso pergunto-me, de onde é que tu vieste? E aquela outra pequena cerejeira ali fora em frente da outra, de onde é que ela veio? Nasceste de um sexo mutilado, sabes. E queres saber outra coisa? Queres? Eu não te quis. Ias ser podre como o teu pai. Mau como ele. Pior ainda, talvez.
Mas saíste, depois de ter cortado o cordão que nos ligava com os dentes, peguei-te e levei-te lá para fora. Mergulhei-te na tina. Não aguentei os teus gritos. Quase que me furavam o meu único bom ouvido, o que me resta. Nem tinhas aberto os olhos e de novo te entrava água pelos pulmões. Só que de repente ri-me pela segunda vez desde aquele dia, ou desde que me lembro depois da morte do meu pai e mais tarde da minha mãe nunca mais me tinha rido até àquele dia. E veio-me à cabeça outra vez aquela frase, um afogado afogar-me. Arrependi-me no mesmo instante em que abriste os teus olhos. Olhos tão doces não poderiam esconder a maledicência de um monstro como o teu pai. Não traziam as sombras daqueles olhos que foram azuis. E soube naquele momento que o teu coração não era de trevas. Não era, não poderia ser se trazias o meu sangue. Nem deveria ser, jurei-o pela cerejeira de minha mãe e a contragosto da cerejeira tua irmã.
Retirei-te da tina. Tirei a minha camisa e envolvi-te. Perdoa-me, perdoa-me, perdoa-me, mas acho que me compreendes se te escondi esta história até hoje. Conto-ta agora porque vi hoje na cidade uma notícia desconcertante, enquanto passávamos pelo beco onde o livreiro tem a sua loja. Na parede estava colado o jornal com uma notícia vinda lá de Inglaterra. Falavam de uns crimes horrorosos cometidos sobre umas pobres mulheres, que tinham sido estropiadas, esventradas, cortadas, desorganizadas, quero dizer, tirados os órgãos. A polícia não tem qualquer conhecimento sobre quem empreendeu esses crimes, esses actos horrendos. Mas eu sei quem foi. Não tenho quaisquer dúvidas. Começou comigo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

X

Quando acordei estava pendurada no ramo mais alto da cerejeira com a renda de bilros à volta do meu pescoço, sem roupa. Morri num dia de inverno de mil oitocentos e setenta e quatro de nosso senhor. Pelo menos para ele estou morta. Na verdade, não sei como sobrevivi, mas estou aqui para te contar a história.
Do alto da cerejeira eu parecia um pedaço de carne num açougue, enrolada na minha renda, com bocados de pele e carne ao dependuro. Olhando para baixo, era afinal essa a única forma de posicionar a cabeça já que não conseguia de todo levantá-la, via o meu corpo por inteiro. Um pedaço da parte interior da minha coxa direita estava segura apenas por um pequeno fiapo de músculo. Conseguia ver até ao osso. Um dos meus pés estava completamente virado do avesso, para lá daquilo que eu julgava possível numa bailarina. No meu sexo encontrava-se ainda o espeto, acho que era aquilo que me mantinha direita e presa à árvore. Felizmente não me partiu mais nenhum dedo. Nem sei o que faria sem poder voltar a fazer a minha renda e a tricotar. De vez em vez, quando não ouvia nenhuma onda enrolar-se no areal, com a minha restante orelha e ouvido percebia um gotejar, um plic plic que parecia cair do espeto. Sentia um cheiro, vá lá, já consigo cheirar outra vez, que me lembrava as festas da matança do porco. Não posso acreditar, não posso, ele queimou-me o sexo, ele queimou-me o sexo, ele…
De tanto fazer e desfazer a renda sempre com o mesmo fio, este haveria de ceder um dia. E assim foi. Do alto da cerejeira caiu este fruto de Deus que aqui vês. Quando encontrei o chão uma vez mais, o espeto quebrou-se ao meio, parte para fora, parte para dentro. Um dos fios rompeu-se. Sorte tive eu de não ter sido nenhum dos outros que sustinham os pedaços da minha carne, porque não somos mais nada do que isso. Pedaços de carne que a qualquer momento se desprendem de um pedaço maior. Caímos uma vez vindos do céu, do Senhor e uma vez caídos só paramos debaixo do chão. Eu, pelo contrário, tive a oportunidade de cair duas vezes, uma do Senhor através da minha mãe, outra da cerejeira através de Maldoror e a terra ainda há-de esperar mais um pouco.
Já no chão, naquela terra, naquela areia, consegui arrastar-me para casa, para as traseiras da casa onde estava a tina onde nos banhávamos. Deve ter chovido naquela noite, porque a tina estava cheia de água. Deixei-me mergulhar lá para dentro. A água estava fria. Aliviou-me um bocado, mas por pouco não me afogava. Não sei o que me deu, mas comecei a rir-me, um afogado afogar-me. Calmamente, quase docemente fui-me lavando e fui cantando:

“a tinta sua na tina
duas tintas
duas santas nuas
suadas na tina com tinta
santa tinta
santa nua na tina
na quinta
a santa sua
nua de tinta”

Deitada dentro de água empurrei o meu corpo para trás com as mãos apoiadas nos lados e pendi a cabeça para trás. Com cuidado busquei cada uma das minhas pernas e coloquei-as para fora da tina pelos jarretes. Fechei os olhos. Passou uma brisa pela minha cara e umas folhas foram-se colar a uma bochecha. Com a mão que ficou impune, mergulhei na água e nadei até ao sexo. Cerrei os olhos. Não te quero aqui. Eu é que renasci, renasci depois daquele banho. Saí da tina, enrolei-me num lençol que tinha ficado a secar, nem sequer me importava que estivesse tão húmido quanto eu. Eu queria tapar-me. Não queria ver-me. Não queria ver-me mais, nunca mais. Se pudesse, se tivesse forças para tal, cegava-me com aquele espeto. Mas não, eu não lhe daria esse prazer. Não morri. Ainda estou viva Maldoror. Entrei dentro de casa, trepei as escadas, eu era o animal de mim própria. Estendi-me na cama e adormeci.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

IX

No primeiro dia de Inverno, encontrávamo-nos sentados na sala à beira da salamandra falando e olhando um para o outro. E dei de caras, não sei por que razão, com o livro que comprei àquele livreiro no beco ao lado da botica, no dia seguinte à violenta tempestade.
“Quero ler-te uma coisa que comprei no primeiro dia que te levantaste a seguir ao teu aparecimento.”
“Claro que sim, lê. Deixa-me só pôr mais lenha, que esta está quase a morrer. Qual é o nome?”
“Poesias.”
“Não conheço. E o autor?”
“É de um conde. Isidore Ducasse, conde de Lautréamont.”
“…”
“O que foi?”
“Nada, nada. Uma dor de uma ferida que ainda não sarou de todo.”
“Bom, vou começar.”
“Sim, sim.”
Abri o livro com a maior delicadeza possível. Apreciei a textura das folhas, o desenho das letras demoradamente. Ele olhava-me carinhosamente com os seus olhos azuis, sorrindo-me com os seus pés de galinha. Respondi-lhe escondendo a cara por trás do livro. Talvez não o tivesse feito. Quem me dera não o ter feito. Comecei a ler o livro sem tentar dar qualquer expressão ao que dizia, embora estivesse tão bem escrito que me fui deixando embalar pela sua melodia, deixando a minha voz ser guiada pelo que era dito, acentuando aqui e ali algumas palavras, algumas frases. De vez em quando ouvia-o suspirar e o cric cric da madeira da sua cadeira e da que nos dava conforto. Realmente estava a ser um belo serão, até os seus pés se prenderam nos meus fazendo-me cócegas. Dos meus passou para os pés do banco puxando-nos para mais perto de si. Deixei-me ir na brincadeira sem parar nunca a leitura. Os pés dele voltaram para os meus e começaram a subir pelas minhas pernas. Diabo, a leitura não lhe chega, ainda antes do jantar nos entregámos um ao outro… ainda… não pares… n.
Li, de uma ponta a outra, aquele livro magnífico, cheio de aforismos de cortar a respiração e escrito com uma poesia maravilhosa, quase… quase… até me falham as palavras, porque são as palavras que são belas por si e que embelezam as frases. Quando fechei o livro, alguma coisa estava errada. Ele olhava-me com uns olhos, que apesar de ainda belos, não eram os mesmo que eu admirava. Estavam habitados por uma sombra inesperada, uma sombra que lhe passou para o resto do corpo. As suas pernas estavam cruzadas atrás das minhas e encontrávamo-nos tão tão perto que lhe sentia o cheiro. Comecei a temer o pior.
“Que tens, não gostaste?”
“Gostei sim, adorei. É realmente belo. Especialmente aquela frase que diz que a poesia deve ser feita por todos.”
“Sim, também gostei muito disso. Mas há outras coisas muito bonitas aqui…”
“Sim sim”

E para meu espanto declamou toda a primeira parte do livro, sem qualquer hesitação.

“Não sabia que tinhas uma tão grande memória.”
“ «Tão grande memória» …unh… não diria tanto. É menos difícil quando se passou pelo que passei, quando se viveu o que vivi.”
“Pois, passaste uma grande tormenta. O naufrágio e tudo mais.”
“Eu não naufraguei.”
“Desculpa?”

As suas pernas começaram a fechar-se sobre as minhas.

“Onde arranjaste isso?”
“Como te disse, foi no dia que te encontrei de pé junto à cerejeira. Comprei-o a um livreiro num beco.”
“Só havia esse? Que mais lá estava? Não encontraste um outro volume chamado Cantos?”
“Não. Só lá estava este entre outros livros e pessoas.”
“Que te disse o livreiro?”
“Nada de especial.”
As suas mãos vieram ao encontro das minhas, retirando-me o livro, pousando-o no chão, e envolveram-nas. Pressionavam-nas, apertavam-nas, mais e mais e mais.

“O que é que te disse ele?”
“O que é que tens. Estás a começar a assustar-me. Magoas-me?”
“Responde-me de uma vez.”

De repente ouvi um estalo. Quando olhei para baixo, para o meu colo onde adormeceria os nossos filhos e lhes ninaria depois de um pesadelo, um dos meus dedos despontava apontando para o tecto de entre as suas mãos.

“Olha para mim.”
“Não consigo.”

Dois dedos, agora.

“Que mais te disse ele.”
“Pára, pára, pára, pára, pára…”

Parte-se o terceiro sem se dar por ele. Já não conseguimos raciocinar bem e já nem nos apercebemos o que está a ser partido, se ossos se o coração.

“Disse-me que o autor deste livro andava desaparecido há três anos e que antes deste tinha escrito um livro que era o completamente oposto a este. Mais nada.”
“Mais nada?”
“Juro.”

Com o mesmo furor e paixão com que me prendia os cabelos entre as suas mãos quando nos deitávamos e ele me beijava na boca e no pescoço, a minha cabeça foi puxada para trás bruscamente e a minha garganta encontrou os seus dentes. A salamandra já não devia ter combustível, porque de repente a sala ficou fria, à excepção de um finíssimo fio morno que me escorria para os seios.

“Mais nada?”
“…”
“Mais nada?”
“…”
“Mais nada?
“Juro. Mais nada, mais nada, nada, nada, nada…”

Desembaraçou a sua mão dos meus cabelos empurrando a minha cabeça de encontro à cadeira onde antes se sentara. Já não sentia o seu cheiro, melhor dizer qualquer cheiro, apenas um ligeiro sabor a ferro na boca, depois da cadeira embater na minha cara umas quantas vezes. E eu que pensava que não ficaria com a boca enfiada a não ser na velhice como minha mãe. Deixei a minha cabeça descansar um bocado na cadeira. Ou terá sido ele?

“Oposto como?”
“unh…”
“O livro era oposto como?”
“Um livro cheio de ódio, fel, atrocidades, assassinatos, estupros, infanticídios, maldições. Que era sobre uma personagem horrível, quase o próprio anticristo. Que se chamava M…”
“Maldoror”

Virei a cabeça para tentar olhá-lo. Ele encontrava-se ao pé da salamandra com um espeto de mexer na madeira a arder na mão. Abriu a portinhola. Afinal ainda ardia. Introduziu o espeto na salamandra.

“Está a arrefecer, não está?
“Sssim”.
“Estás com frio?”
“Sssim.”
“Queres alguma coisa para te aquecer?”
“Sssim.”

Ia remexendo o espeto no fogo e colocando mais um pouco de lenha na salamandra. Baixou-se para soprar lá para dentro. Que ridícula a posição em que ele se encontrava, como uma galinha pondo um novo ovo. Deixei-me cair da cadeira e estatelei-me no chão. Ele nem se preocupou, tão orgulhoso e arrogante estava, que nem parecia o meu adorado náufrago, aquele que me trazia flores e frutos, cogumelos e trufas, que me escrevia sonetos e rimas sabe lá Deus onde. Nem sequer me ouviu cair e a arrastar-me atrás de si. Não te deveria ter salvo, não te deveria ter salvo, não te deveria. Lembrei-me de todos aqueles dias, semanas, meses, os rebentos a brotarem, nascerem, a frutificarem, a caírem. E eu que pensava que ele era um anjo, que aquelas marcas de V invertido não eram mais que o lugar de umas asas cortadas. Afinal tudo aquilo era mentira. Mentira, mentira. Tu és mau, mau, mau, mau.

“Tu és mau, mau, mau, mau.”
“Sabes aquela história do escorpião que queria atravessar um rio? Bom, era uma vez um escorpião, sabes o que é um escorpião, não sabes?”
“Sim.”
“Bom, o escorpião depois de ter atravessado durante muitos dias um deserto enorme, dunas e mais dunas de areia escaldante, pedrinhas e pedregulhos, deparou-se enfim com um rio de águas cristalinas e calmas. Ele, que muito tinha andado com as suas pequenas patitas, tic tic tic dunas acima, dunas abaixo, o que não lhe custava por aí além porque a maior parte deles vive no deserto e este era um daqueles escorpiões negros que vivem no deserto, claro, sempre a ser fustigado por aquele sol abrasador do deserto…”
“Os escorpiões não andam durante o dia. Estão escondidos debaixo de pedras por causa do calor e só caçam à noite, estúpido.”
“Cala-te. Sou eu que te estou a contar a história e se eu digo que ele andava durante o dia era porque ele andava durante o dia e à noite dormia. Não. À noite também andava. Andava de dia e de noite, sem parar, duna acima e duna abaixo, por pedrinhas e pedregulhos.”

Aos poucos e poucos, com as minhas patitas, eu ia me aproximando dele arrastando-me no soalho.

“Bom, lá chegou ao rio e como tinha andado muito bebeu um bocado de água, escolheu uma sombra e deixou-se adormecer. No outro dia, de manhã, ele já não sabia muito bem onde estava, espreguiçou as suas patitas e começou a andar e, sem se lembrar que estava ao pé de um rio e sem ver a margem à frente da sua pinça, caiu à água. Esbracejou, esbracejou, ou patitou, patitou, até que conseguiu subir de volta à margem e pôr-se a salvo. «Que fazer agora, eu preciso de continuar caminho e chegar ao outro lado do rio, que fazer, oh, que fazer, coitadinho de mim, oh, oh». Estando ele naquele vai não vai, sem saber o que fazer, apareceu, sabes o quê?”
“Não, não sei.”

Continua, vai, continua a contar a tua história e entretém-te com o lume. Dá-me mais algum tempo, só mais um pouco de tempo, só mais um pouco, estou quase atrás de ti, não pares de contar agora, agora não pares de contar, não pares, não pares.

“Apareceu, tu nem vais acreditar, apareceu uma ovelha, não, uma vaca, assim daquelas malhadas e gordinhas e pestanudas, para beber água. O escorpião, mal viu a vaca, pensou logo que estava salvo, «ah, sagrada vaca», e pediu-lhe ajuda para atravessar o rio. A vaca, que já tinha ouvido falar daqueles bichos de rabo traiçoeiro, desconfiou e negou-lhe a ajuda abanando a cauda, «não, não, não, quando eu menos esperar picas-me e morro», «não, não, não» replicou o escorpião «eu não te pico, juro pela alminha da minha mãe, não posso picar quem me auxilia, oh por favor ajuda-me, sim, sim, sim, eu tenho de atravessar o rio senão sou eu que morro aqui e eu não o posso atravessar porque não sei nadar», e a vaca disse, «mas sempre me disseram para não confiar nos da tua laia, que vocês são maus por natureza», ao que o escorpião respondeu muito ofendido, «não somos nós que somos maus, são as circunstâncias que nos fazem ser maus, sim, sim, sim, as circunstâncias, não sabes que ninguém é mau por natureza?», e a vaca, que começava a apiedar-se do escorpião, disse, «sim, acho que tens razão, mesmo que se faça uma maldade aqui e ali, ninguém a faz por ser essa a sua natureza, vingança, sim, talvez, que se a faça inconscientemente, sim, porque não, mas apesar disso, posso confiar em ti?»; «sim, sim, sim, podes confiar em mim, não, não, não, não te pico nem na mão». Ora, a vaca, já completamente derretida pelo pequenino escorpião, decidiu ajudá-lo e deixou-o trepar para as suas costas. O escorpião, uma vez em cima do dorso, aninhou-se num fofo tufo de pêlo e deixou-se levar pela vaca malhadinha, gorda e pestanuda. O escorpião teve muita sorte em ter encontrado tão prestável vaca e grande como ela era nem a água lhe tocava. E lá foram sem tugir nem mugir, a vaca atravessando o rio fugindo às correntes e ele sempre sempre a dizer de si para si que não a picaria. Só que o rio era mais largo e fundo do que os dois esperavam e o escorpião começou a ficar muito nervoso. «Ainda falta muito, sim, sim, sim?» perguntava-lhe ele e ela, para o acalmar, dizia-lhe «Não, não, não, já falta pouco». Mas o rio parecia que crescia, pelo menos para o escorpião com os seus muito e vários olhos. Podes imaginar a aflição do escorpião, com tantos olhos de certeza que via mais água do que a vaca que só tem dois. Estava cada vez mais nervoso com tanta água e demora. «Ainda falta muito, sim, sim, sim?» perguntava-lhe ele e ela, para o acalmar, dizia-lhe «Não, não, não, já falta pouco». Até que o nosso pequeno amigo não aguentou mais e desferiu na pobre vaquita uma picada que era a súmula de tanto nervosismo, ficando seco de veneno. A vaca voltou o seu focinho para o escorpião e olhando-o com os seus olhos com a vida a definhar-se pestanejando muito as suas longas pestanas diz-lhe «Mas tu tinhas jurado, assim morremos os dois». E morreram os dois.”

Consegui esticar a mão, estava mesmo atrás dele. Ao seu lado estava um outro espeto. Silenciosamente agarrei-o com a fineza que os meus três dedos me permitiam. Soergui-me e enfiei o espeto pela nuca até sentir a maçã-de-adão a estilhaçar e o espeto encontrar a madeira a arder. Morre, morre, morre, morre, morremorremorre.

“Então gostaste da história, é bonita não é? Sabes qual é a moral desta história? Nunca se deve confiar num escorpião”.

Ele voltou-se para mim com os olhos mais negros que alguma vez vi. Todos negros, sem branco nenhum. Com uma mão só, arrancou-me a roupa e atirou-a para dentro da salamandra enquanto segurava ainda no espeto que se encontrava ao rubro. Com a sua mão livre desviou-me os cabelos da vista, ondeou-os por trás da orelha e foi deslizando a mão pelo rosto. Introduziu uns quantos dedos na minha boca abrindo-a mais sem me permitir trincá-lo, que era o que mais queria depois de ter imaginado a nossa vida em conjunto e a sua morte pelas minhas próprias mãos. Brincou com os meus lábios, apertando-os. Depois foi passando aquela mão húmida, que segurou tão carinhosamente um rebento de cerejeira, pelos meus seios, a minha barriga, as minhas coxas, até que me segurou a minha perna direita e a afastou da outra. Ia se aproximando de mansinho de joelhos com o braço direito erguido atrás das suas costas segurando o espeto aquecido até ao rubro. Ria-se. Fechei os olhos. Nem quero imaginar…








meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

VIII

Para que as pessoas se compreendam uma às outras, é necessário que caminhem ou se deitem uma ao lado da outra.

Marina Tsvietaieva

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

VII

De um ramo da cerejeira cresceram flores, das flores tivemos frutos, que ficaram maduros e depois, os que não colhemos, caíram. Os momentos que partilhávamos juntos iam passando a horas, de horas a dias, de dias a semanas e de semanas a meses. Estávamos agora a entrar no Outono, a minha estação favorita. Pode não se notar muito para quem mora numa praia, mas o aroma do ar muda completamente. Para lá das costas das dunas há campo e daí chegam-nos os cheiros das folhas caducas e musgos que rebentam nas cascas das mesmas árvores. O que para mim me evidencia a passagem sazonal e isso é que é importante. Posso não ver a mudança das cores nas folhas, nem a sua queda temporária. E não é só o cheiro no ar que muda e me diz “é outono”, mas o próprio mar tornando-se de um azul cinzento muito belo e a força do vento. Mas é tudo mentira. A cerejeira é o meu calendário.
Íamo-nos aproximando aos poucos e poucos. De você passámos a tu. Quem nos visse dir-se-ia que já nos tínhamos casado, porque andávamos sempre juntos. Podíamos não falar muito um com o outro, contudo adivinhávamos os pensamentos de um e do outro, tal como alguns casais o fazem. Ele saía muitas vezes para passear e trazia-me flores e frutos, cogumelos e trufas. Escrevia-me de vez em quando uns sonetos, rimas tiradas sabe lá Deus onde, que muito me tocavam. E ao serão líamos um para o outro muitas das obras que figuravam lá na biblioteca. Ele era um homem extremamente calmo, muito seguro de si, sem transparecer qualquer arrogância ou maldade. Mas uma vez ou outra apanhei-o a mirar-me de alto a baixo, ora para o feitio roliço de minhas ancas, ora para os meus seios redondos que sobressaíam do meu vestido. Ele era um homem, disso não há dúvida. Mas nunca me olhou com aquela lascívia que muitos homens olhavam para minha mãe, que ainda era bastante nova quando perdeu seu marido, quando ambas andávamos pelo mercado da cidade, ou para mim. Não, não havia lascívia, mas apetite, desejo. Também não nego que o mirei uma vez ou outra. Para aqueles olhos azuis de céu, aquelas mãos grandes e nodosas de veias palpitantes, aqueles cabelos negros de corvo, os seus lábios vermelhos e carnudos… e sim, uma vez apanhei-o desprevenido a banhar-se na tina ao pé da cerejeira e vi-o. Acho que ele não me viu. Mas eu sim. Fiquei escondida a vê-lo. Ou então ele sabe fingir muito bem.
Não dormíamos juntos. Eu continuava a dormir no meu quarto, enquanto ele no quarto de meus pais. À noite ouvia-o dizer umas quantas palavras naquela língua que desconheço, outras pressentia-o por trás da minha porta enquanto adormecia com uma maior sensação de segurança. Vivíamos bem. Penso que nos começávamos a amar um ao outro.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

VI

Uma vez chegada a casa fui acometida por um desespero sem nome. Onde estava o meu amor? Para onde teria ido quando ainda estava tão frágil, tão criança ainda? Larguei tudo no chão num pulo do coração, ficando ali aterrada na soleira da porta com as duas mãos escondendo a boca. Devo ter permanecido de pé uns bons minutos sem conseguir entrar para dentro de casa. Só os meus olhos e ouvidos viraram e reviraram cada canto, cada mobília, cada quarto. Nada. Ninguém se encontrava lá dentro, não via nem ouvia nada. Até que, do exterior, nas traseiras da cozinha onde agora se encontrava a cerejeira morta ouvi alguém tossir. Corri ao encalço daquele sopro rouco e lá estava ele a segurar um rebento de flor da cerejeira, de tronco nu, do único ramo que sobrevivera. Ele deveria estar realmente muito doente para nem sequer se aperceber que ainda estávamos no inverno, houvesse ou não rebentos a florir na árvore, e para andar naqueles preparos.
Reparei então que as suas costas estavam cheias de marcas e cicatrizes, dois golpes estranhíssimos nas espáduas quase em V invertido. Como já me encontrava muito perto das suas costas, senti a tentação de estender a mão e tocar-lhe, mas arrependi-me de imediato. Não tinha aquele direito. Nem sequer o conhecia. Mas não deixei de não sucumbir àquelas costas que por muito devem ter passado. A sua respiração estava pesada e irregular. Eu nem me atrevia a pronunciar uma sílaba, não o queria assustar como ele me tinha feito. De repente sussurrou umas palavras: “Não se pode julgar a beleza da vida senão pela da morte” e depositou aquele rebento numa pequena cova que abriu com as suas próprias mãos e a qual tapou com a maior das delicadezas. Lembrei-me de minha querida mãe, depois de ter recebido a notícia da morte de meu pai e irmãos. Acho que pela primeira vez alguma coisa parecida com uma lágrima se abeirou dos meus olhos, mas não seria correcto da minha parte reconhecer aquela humidade como uma lágrima visto não ter termo de comparação e, naquele momento, ninguém me confirmar se de uma lágrima se tratava ou de um reflexo dos olhos para com o vento que se levantara ligeiramente. Soltei um ligeiro gemido. Como se não me tivesse ouvido ergueu-se com a maior calma que lhe possibilitava o corpo cansado. Uma vez de pé, apenas rodou a cabeça, fitando-me de esgueire com o seu azul, apoiando o queixo no seu ombro.
“Peço desculpas se o assustei.”
“De maneira nenhuma. Já a tinha ouvido chegar.”
“Porque não se encontra na cama, ainda está muito enfermo.”
“Precisava de esticar as pernas.”
“Sente-se melhor, portanto.”
“Como se tivesse renascido.”
“Bom, de certa maneira, foi o que lhe aconteceu. Esteve de cama três dias e noites seguidas, com febres altíssimas, quase sem comer.”
“Percebo. Mas já me sinto deveras melhor. Pode-me dizer onde estou? Oiço que não fala a minha língua, ou eu não falo a sua, visto estar na sua terra e na sua casa.”
“Sim. O senhor descobre-se em terras lusas, na terra das laranjas como meu pai me dizia que os pagãos das arábias chamavam este país.”
“E as laranjas, onde estão?”
“Onde a miséria não mora.”
“Compreendo.”
“…”
“…”
“Não quer…”, nem me deu tempo de acabar a frase e de novo me caiu nos braços.
“O senhor não se deveria ter levantado, ainda está muito fraco. Venha, eu ajudo-o a voltar para dentro de casa. Apoie-se em mim”.
E assim fez, envolvendo-me a cintura com o seu braço, como se fosse ele quem me ajudava, o que de seguida corrigi para que mais facilmente voltássemos para dentro. Amparei-lhe a queda na enxerga, para não se magoar, agradecendo-me com muita polidez.
“Vou preparar-lhe um caldo de peixe para recuperar as suas forças e verá que logo logo se põe de pé como um verdadeiro renascido. Em três segundos estará pronto.”
“Agradeço-lhe a sua bondade.”
“Ora, não tem de quê.”
Mal virei as costas, encaminhando-me para a cozinha, fechou os olhos adormecendo. Mas ainda o ouvi, numa língua que desconheço e me estremeceu a espinha.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

V

No dia seguinte, enquanto ele dormia, parti pela primeira vez para a cidade, coisa que não fazia desde que minha mãe morreu faz hoje dez anos. Precisava de arranjar alguns remédios, não fosse o meu paciente ficar ainda pior do que já esteve. Acordei como minha mãe costumava acordar, quando nenhum galo celebrava a aurora. Mas que carnificina de noite foi aquela que passou. O meu estendal caído no chão, a minha pobre cerejeira rachada a meio por um relâmpago até à raiz, os cântaros com água a rasar pela boca, a horta num estado lastimoso, pássaros caídos aos montões à volta da casa apanhados pelos ventos traiçoeiros, as galinhas sem ovos devido ao susto que tiveram, um verdadeiro caos. Pelos vistos teria de trazer mais do que remédios. E tinha de ser célere, não fosse ele acordar.Segui pela estrada que percorria toda a costa da falésia. Era a mais rápida até à cidade, mas infelizmente a menos segura e depois da noite de ontem teria de ser mansa nas minhas passadas, não fosse um qualquer penhasco apanhar-me desprevenida, ruir e atirar-me ribanceira abaixo. Depois, o que seria do meu adorado náufrago, enfermo e moribundo, sem saber onde está, só numa terra estranha? Sim porque ele era estrangeiro, falava aquele castelhano de lá do atlântico de boca cheia, mais fácil de entender do que o outro, mas também dizia algumas palavras em francês. Dou graças à minha mãe por me ter ensinado a ler e a escrever, bem como a falar as línguas vizinhas pelos livros da biblioteca de meu pai, o que me ajudou a destrinçar aquela verborreia do delírio.
Que estrada mais desgraçada se me deparou na vista. Já não era só a miséria que morava naquelas redondezas, pois trouxe para sua vizinha a própria morte mais a sua foice. Levei a mão ao peito. Deu-me cá um aperto toda essa mortandade penhascos abaixo e na berma. Mas não podia ficar quieta. Deus sabe o que fez. Tinha de seguir caminho até à cidade o quanto antes, pois não tardava a abertura do mercado e minha mãe sempre me disse que a melhor altura é estar lá no momento em que as portas se abrem, porque então temos à nossa escolha os melhores vegetais, o melhor peixe, a melhor carne. E o meu náufrago merece o que de melhor há. Mas Deus não me avisou da visão que então tive na Ponta do Salgueiro, lugar que minha mãe me trazia quando era criança para ver na baía em baixo os pescadores de ostras.
Centenas de corpos de homens, mulheres, crianças, das mais pequenas ainda de mama aos adolescentes de buço, velhos e velhas cobertos de algas, de um azul mortiço, estendidos ao longo do areal entre destroços de uma embarcação, como se estivessem a ser salgados como se faz ao melhor bacalhau. E não eram apenas pessoas que ali estavam a secar, mas peixes de vários tamanhos e feitios dos quais nunca tinha visto, golfinhos, leviatãs, atuns, sargos, carapaus e sardinhas e até seis monstruosos carniceiros tubarões. Quando vi aqueles monstros duvidei da imaginação dos delírios, mas de seguida afugentei tais pensamentos dizendo para mim que, possivelmente, o meu náufrago teria passado por ali quando procurava abrigo e vivalma que o socorresse. Também eu teria pesadelos com tamanha tristeza. Não podia demorar mais tempo. Virei costas e pelo caminho até à cidade rezei uma prece por aquelas almas perdidas e inocentes.
Quando cheguei à cidade soou o primeiro galo e as portas do mercado ainda estavam encerradas, embora já muito alvoroço se ouvia do seu interior. As muitas vozes abafadas queixavam-se da tormenta que tinha sido estes últimos dias, mas principalmente a noite anterior que foi das mais violentas, senão a mais violentíssima, que alguma havia história. Aliás, diziam algumas, muito semelhante em mortandade à onda gigante de mil setecentos e cinquenta e cinco, segundo se recordavam dos ditos de seus idos avós. Logo se abriu a porta e me despachei a aviar o que necessitava, sem mais delongas. De seguida, peguei em mim mesma, mais os víveres, e fui-me a uma botica procurar o que de melhor havia para as maleitas dos oceânos nos pulmões. À saída, na esquina sinistra daquela rua, reparei que muitas pessoas se ajuntavam e guiei-me pela curiosidade. Essa ruela, afinal, era um beco onde um livreiro dependurava as últimas novidades ao lado de romanças e líricas, muitas delas levianas, outras fantasiosas, outras ainda com palavras quase divinas de tanta beleza como as que meu náufrago me murmurou. Nesses cordéis encontrava-se de tudo, realmente, desde livros de cavalaria a relações e notícias de monstros e criminosas, de poemas dos mais belos aos que escaparam à real mesa censória. Mas muito me chamou a atenção umas quantas folhas de um estrangeiro, que ninguém conhecia, dado desaparecido fazia três anos e cujo pequeno libelo se chamava simplesmente Poesias. Como já tinha lido e relido uma centena de vezes as obras que meu pai me deixara e me sobravam umas quantas moedas, decidi-me por levar esse mesmo, pois muito me atraiu o que lá se encontrava em epígrafe: “Substituo a melancolia pela coragem, a dúvida pela certeza, o desespero pela esperança, a maldade pelo bem, as queixas pelo dever, o cepticismo pela fé, os sofismas pela frieza da calma e o orgulho pela modéstia”.
Depois de pago o livro, segui caminho para casa ao encontro do meu adorado náufrago, para lhe preparar uma refeição reconfortante e para o pôr como novo.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

IV

Deus nosso Senhor me ajude que não sei o que fazer. Terá o meu amor chegado finalmente? Bate-nos o amor quando menos esperamos? O que de um delírio pode ser verdade? Não me castigue Senhor se meu coração queima com as palavras de um náufrago!

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

III

Por três dias e três noites dormiu o homem. Três longos dias e noites em que estive imóvel do seu lado, como fiquei do lado de minha mãe enquanto desfalecia aos poucos e poucos. Não me mantive sempre completamente imóvel, claro, procurei ajudá-lo em tudo que podia. Dava-lhe água, sopa, mudava-lhe os panos frios quando ardia em febres altíssimas, tudo isso durante o seu sono.
A terceira noite foi a pior de todas desde que ele cá chegou. A tempestade tinha reatado todas as suas forças. Parecia que Deus nosso senhor expulsava uma vez mais o seu anjo mais adorado e para sempre seu arqui-inimigo. Fortes ventos vindos do norte sopravam atrozmente, metendo medo ao mais valente soldado e à besta profana mais temerosa. A própria boca do inferno tinha-se aberto ao mundo, soltando todos os lamentos das almas assassinas, criminosas e pecadoras que por lá fizeram sua morada. Troavam brados vindos do céu mais negro que alguma vez tomei conhecimento. As mais poderosas trombetas da revelação de S. João bradavam para lá das nuvens, no altíssimo reino. Torrentes de água tombavam sem a mínima explicação natural. Um novo dilúvio, mais aterrador do que o do tempo de Noé, sem salvação à vista. Não poderia fazer mais nada senão rezar ao Todo-Poderoso e Clemente Deus que nos perdoasse.
Pouco havia a fazer perante tamanha calamidade. O fogo continuamente se apagava, malogradas as minhas tentativas de manter o nosso lar tão afável quão o cuidado de alguém pode ter por outro. E pior que tudo, a febre daquele sujeito, com os mais belos olhos que alguma vez vi em toda a minha vida, conseguia ser mais quente que o calor que meu próprio lar lhe fornecia. Estava desesperada, correndo de um lado para o outro, ora ateando a chama, ora aliviando o seu corpo daquela temperatura mafarrica. Eu própria não sei como também não caí de cama, tal era a minha canseira, o frio e como estava ensopada de suor como o moço moribundo. Terei trocado de roupa umas quantas vezes, mas de nada me servia porque logo a seguir me encharcava em trabalhos de santa.
No meio daquele lavor, o meu querido doente foi acometido de delírios extravagantes. Umas vezes pondo-me a mão sabe Deus que proíbe, o que muito me ruborizou, outras segurando-me a mão, que muito me apertava o coração deixando-me a alma em cânticos ao Senhor e a seu Filho, outras ainda que me chocou deveras com tanta insensatez e imaginação. Eu perguntava-lhe:
“O que me quer dizer?”
E ele – pensava eu que me respondia – murmurava numa voz côncava:
“O céu escurecia, tornando-se de um negro quase tão horrendo como o coração do homem… o vento desfazia as velas. Os trovões estalavam entre os relâmpagos… os abalos entreabriram um veio de água nos flancos do navio… o navio afunda-se lentamente… majestosamente… a sorte nas mãos de Deus… afunda-se lentamente… majestosamente… nenhum homem tem como antepassado um peixe… futuro afogado… eles estão a sofrer mais… estão perdidos… estava obrigado perante mim mesmo a cumprir a minha promessa: a última hora tinha soado para todos, e nenhum podia escapar… se fosse um cavalo ou um cão deixava-o passar… sei muito bem tudo o que faço… de pé em cima do rochedo… rés-do-chão do mar… que legião é aquela de monstros marinhos que vai cortando as ondas rapidamente… majestosamente… tubarões… seis… omeleta sem ovos… o sangue mistura-se com a água, e a água mistura-se com o sangue… uma fêmea esfomeada… pasta de fígado de pato… cozido frio… nata vermelha… espingarda à cara… menos um… mergulho do penhasco… faca… frente a frente homem e fêmea… corpo do objecto amado… sargaço…”
“Chh, tenha calma, beba mais água, está desidratado”, dizia-lhe eu abismada com aquele sonho que lhe saía da boca gretada. “Não fale que se cansa”. E agarrava na sua gélida mão enquanto lhe afagava o rosto húmido e pálido.
De repente o homem vira os seus magníficos olhos para mim e desta vez parecia realmente que me mirava, mergulhando nos meus olhos, para me depositar na minha alma as palavras mais surpreendentes, numa voz já não cava mas doce:
“Encontrei alguém parecido comigo… já não estou só na vida… estou diante do meu primeiro amor!”. Voltou a adormecer, mas a febre já começava a definhar.

domingo, 16 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro

II

Lá estava eu sentada ao pé da salamandra, no velho banco de minha mãe, a trabalhar naquela maldita renda de bilros interminável. Preparava-me para a desmanchar uma vez mais. Lá fora, a chuva tinha aliviado a sua força de encontro à janela. Só o vento mantinha o seu furor de inverno e o algeroz acompanhava-o com o despejar da água do telhado para os cântaros. De vez em quando ouvia um estalar da madeira a queimar-se ou os ramos da nossa cerejeira nas vidraças da cozinha, coisa que me assustava de quando em quando. Parecia que desta vez o chá não teria o efeito que eu tanto desejava. Por essa razão ergui-me do banco, deixando cair a renda do meu colo, e dirigi-me para a cozinha aquecer mais um pouco de água, a fim de beber mais uma malga de tisana de camomila. Dia horrível, este. Quem terá ofendido nosso senhor Jesus Cristo no seu reino de paz. Queiram os anjos proteger esta casa.
Enquanto esperava a fervura na caçarola de cobre, olhava para o mar pelas vidraças sujas de lama e embaciadas pelo calor da cozinha. Ondas violentas vinham dar à costa, castanhas de areia revolta e trazendo destroços de embarcações. Não podia crer que alguém se tinha atrevido a enfrentar tal bravura, mas os pescadores precisam sempre de ganhar o seu pão e neste ano a miséria grassava por todo o lado, até nos tesouros reais e da igreja. Foi nesse momento, quando demandava por esses caminhos da imaginação, que me pareceu ver um vulto, uma sombra negra na duna mais próxima de minha casa. Assustei-me deveras, ficando-me um grito preso na garganta, e larguei a cortina que ficou a dar horas balançando. Só pode ter sido uma sombra, um ser da minha imaginação influenciada por esta tormenta, fiquei a cismar com a mão paralisada sentindo a cortina na ponta dos meus dedos. Ninguém está lá fora. Apenas o mar, as dunas, os cardos, a cerejeira, a horta, algumas madeiras que terei de ir buscar e pôr a secar, uma peça de roupa da minha defunta mãe que ter-me-ei olvidado de apanhar. Nada mais. Ninguém passa por aqui. Nada. Ninguém. Mas não me atrevia a abrir os olhos e voltar a olhar pela janela. Até que, recuperando a respiração do susto, os meus dedos prenderam a cortina e afastaram-na da minha vista. Encostei a minha testa esborrachando o nariz e nada. Ninguém lá estava. Até que uma mão bate na janela, JESUS NOSSO SENHOR, o que me fez de imediato largar a cortina uma vez mais, cambaleando para trás obrigando-me a entornar a caçarola que já fervia apagando o fogo. Corri de volta para a janela e de novo ninguém. Arredei pé da cozinha em direcção à porta de entrada e encostei o ouvido. Só se ouvia o vento e o algeroz. Abri de rompante a pesada porta e caiu-me nos braços, estatelando-se logo de seguida no chão, aquele corpo de homem desconhecido todo vestido de negro, naquela tarde de Março de mil oitocentos e setenta e três.
Rapidamente o virei de costas. Encontrava-se bastante pálido, moribundo, quase morto, todo encharcado. Naquele instante só pensei que me estava a estragar o tapete de entrada, que minha mãe tinha herdado de sua mãe. Tinha de o tirar dali o quanto antes, mas nunca pensei que tal magreza pudesse pesar tanto. Quando o tentava puxar pelas suas vestes, a cabeça esquelética do desconhecido voltou-se vomitando uma aguadilha imunda sobre a sua casaca e sobre o tapete da minha avó. Agora é que está estragado de vez, murmurei rancorosamente. E enquanto amaldiçoava o sujeito por aqueles estragos uns belos olhos azuis fitaram-me, atravessando-me inesperadamente dando-me um baque no meu imaculado coração. Tombei de traseira com o sobressalto daqueles olhos e do meu coração. De gatas aproximei-me daquele fantasma, mas já tinha de novo desmaiado. Respirei fundo, agarrei o tapete e comecei a puxá-lo mais para dentro de casa. Fechei a porta trancando-a e enquanto segurava o trinco com as minhas mãos tremendo, voltei-me para ele. O que fazer agora? Que fazer? Que fazer? Fazer o quê? E agora?
Corri todas as janelas para ver se mais alguém se encontrava na praia. Fechei todos os tapumes, para que a casa se mantivesse quente e acolhedora. Preparei uma enxerga junto da salamandra com o colchão de palha da minha mãe. Reatei o fogo que estava quase apagado e fui buscá-lo à entrada. Dormia ainda, imóvel, sem aparentar qualquer tipo de reacção. Uma alma penada enviada por nosso senhor para testar a minha fé e a minha conduta cristã, pensei, enquanto com todas as minhas forças puxava o tapete com aquele peso morto até junto do colchão. Virei-o e revirei-o para que ficasse de barriga para cima. Não me atrevi a despi-lo, mas também não digo que o mesmo não me passou pela cabeça. Corri escada acima, entrei no meu quarto, nem precisei de acender uma vela porque conheço de cor onde o armário se encontra, e retirei do seu interior um cobertor de pêlo de carneiro, voltando de imediato para a sua beira. Continuava sem se mexer. Depositei por cima do seu corpo encharcado o cobertor e uma vez mais aqueles olhos se descobriram. Desta vez não me assustei tanto como da primeira, nem me quedei no chão. Que belos olhos, dizia para mim.
“…”
“Está acordado?”
“…”
“Sabe onde está?”. Nada disse. Deverá ter sido um espasmo que o fez descerrar os olhos. Voltou a adormecer.
Como a salamandra ateava com bom fogo e calor, encaminhei-me para a cozinha pronta a acender o lume de chão e a preparar uma sopa para os dois. Chutei a renda para o lado.
Enquanto a água fervia, apercebi-me do que realmente tinha feito. Aquela renda tinha-me dado, e dava, tanto trabalho e eu, com um desdém que desconhecia na minha pessoa, arremessei-a para o lado. Porque me obstruía o caminho. A mesma coisa que me prendia a esta casa, a esta modorra de beira-mar, que me ajudou a passar os Invernos frios e insuportáveis, era a mesma que me impediu de chegar ao lume e acendê-lo. Não podia maltratar a minha renda de anos. Peguei nela e calmamente deixei-a por cima do corpo do desconhecido. Ficava uma imagem muito estranha, lembro-me de ter pensado, aquele corpo negro esquelético envolvido por um cobertor de lã de carneiro e uma renda de bilros a cobri-lo todo, até a cara. Tive a impressão de que nenhum mal lhe aconteceria, aqui ele estava protegido, comigo. Só nós dois.

sábado, 15 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Uma cereja em Setembro


“inclino-me de novo para o pano deste século / recomeço a bordar ou a dormir / tanto faz / sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite / a felicidade”
Al berto

I

Ele veio dar à costa naquela tarde em que um dos funcionários da cidade me disse para não nos aproximarmos da orla marítima. Eu tinha mantido a minha palavra às autoridades, porque sempre cumpri aquilo que me diziam para fazer. A autoridade e os idosos são sempre para serem respeitados, já dizia a minha defunta mãe, tenha paz a sua alma ao lado dos anjos e todos os santos à direita de Cristo nosso Senhor. Recolhi toda a minha roupa e enxoval que secava ao vento desde o dia passado e prostrei-me à janela bebendo um chá de camomila, que pelo que sei sempre acalma os nervos. Os dias de chuva torrencial deixavam-me nos píncaros do nervosismo, toda aquela electricidade mexia comigo, já desde nova era assim. Sempre tive medo das tempestades, dos relâmpagos e dos trovões. É Deus nosso senhor que está irado connosco e está a punir-nos pela nossa má conduta, mas de que mal me está ele a castigar, pensava eu entre golos sorvidos para não queimar a língua. Lavei a roupa, limpei a casa de toda a sujidade, areei os talheres de prata que estão na nossa família desde os tempos áureos deste país, troquei os lençóis imundos que tresandavam a pecado feminino, mudei os meus panos, banhei-me e pus unguento para purificar-me. Encomendei todas as almas à Santa e virginal Mãe antes de encomendar a minha. Estou limpa Senhor, aqui não vigora o mal, o meu corpo e o meu lar são a Sua Morada. Mas a sua ira caiu na mesma sobre esta terra. A minha horta foi sendo lavada pela Sua mão enquanto o chá me aquecia, protegida por trás da janela.
Quando já mal conseguia ver para além das gotas que escorriam aos milhares pelo vidro, fui sentar-me no banco onde minha mãe se deixava ficar, já completamente cega pela idade, ao lado da salamandra. Tinha-me decidido a terminar a renda de bilros que começara no dia em que minha mãe passara do banco para a enxerga, apoiada pelo meu braço e por aquela cana que eu lhe arranjara à falta de uma bengala. Antes de se deitar no seu leito, eu julgava que seria apenas para aquela tarde, a cana partiu-se e então soube que não mais se levantaria, como sabemos uma coisa que ninguém nos disse, e fechei os olhos. Passei os dias seguintes a começar aquela trama de fios ao seu lado, sem deixar escapar sequer uma lágrima porque esses não eram tempos de lamentações. Não vertas nunca uma lágrima a não ser pelo nosso Senhor Jesus Cristo que morreu por nós, era o que costumava sair daquela boca esfarrapada da minha mãe, já sem dentes, virada para dentro, sem lábios. Ela própria nunca chorou, pelo menos que me lembre. Nem mesmo no dia em que recebeu as notícias da morte dos seus filhos e de seu marido, nas mãos de uma guerra lá longe para além deste oceâno em frente da nossa humilde casa.
Foi no ano de mil oitocentos e cinquenta e três de nosso senhor. A minha querida mãe, de joelhos, arrancava ervas daninhas de entre as cenouras, alfaces e couves que por lá havia na horta atrás de casa. Ela costumava acordar cedo, antes dos galos anunciarem a aurora, e os raios de sol filtravam-se pelas janelas da cozinha caindo em cheio nas caçarolas tisnadas no lume de chão. Depois dirigia-se para a soleira da porta à espera da surpresa de seu marido e de seus adorados filhos. Deixava-se ficar por lá até ao terceiro canto do galo, como as negações de Pedro. Mas ninguém vinha. O meu pai tinha partido, com os seus filhos, logo a seguir à revolta da Maria da Fonte, concebendo-me e largando para outros portos como um verdadeiro marinheiro. Do meu pai tenho apenas um retrato pintado no medalhão que minha mãe trazia ao peito e que segurava com a mão esquerda olhando as dunas. Eu por outro lado sempre gostei de ver a linha do mar. Tinha uns olhos duros, frios, azuis, uma cara afilada que as suíças lhe davam um ar mais austero que o de um mártir. Minha mãe dizia-me que eu era muito parecida com ele, o mesmo olhar azul de inverno e sempre calada como se ocultasse um segredo ou soubesse alguma coisa que mais ninguém saberia. Mas não, nunca guardei nenhum segredo, nem nunca soube nada para além das notícias que descobríamos quando nos deslocávamos à cidade uma vez por mês. Naquele dia de mil oitocentos e cinquenta e três, ao contrário do que era normal, a notícia veio ter connosco. A minha mãe lá estava a tratar da horta e eu encontrava-me sentada na areia ao lado da casa. Acho que brincava com alguma coisa quando a minha atenção foi desviada por um cavaleiro que atravessava a linha da beira-mar a toda a brida. A poucos metros da nossa casa, cavaleiro e cavalo estacaram passo e o homem olhou-me comiserado. Desconhecia a razão daquele olhar, mas desconfiei logo de alguma coisa quando minha mãe largou tudo e acorreu ao lado da casa onde nos encontrávamos, cavaleiro e eu. Num só movimento pegou-me ao colo sem mais delongas, tal como minha mãe pegava numa galinha para ser decapitada. O cavaleiro largou as rédeas do cavalo e levou a mão para o interior da casaca que trajava. Minha mãe apertava-me junto ao peito, colando-me a cara ao medalhão. O cavaleiro, num segundo, transformou-se em mensageiro real e estendia-lhe uma carta lacrada com um brasão em efígie. Nós demos um passo atrás enquanto ele recolhia ligeiramente o braço estendido. Virámos costas ao mensageiro e minha mãe colocou-me de volta no chão. Vai para casa. Parecia que envelhecia em cada palavra dita. Vai para casa. Empurrava-me suavemente as costas. Vai, estou a dizer-te. Eu corri dali para fora, escondendo-me por trás do monte de lenha que ficava logo a seguir à esquina da casa no lado das traseiras.
“Que me quer?”
“Trago-vos notícias de vosso cônjuge.”
“Isso bem vejo. São boas? Quando retorna ele dessa malfadada guerra que não é nossa?”
“Sabeis que vos poderia prender por ofensa para com os desejos reais? Mas não o farei. Aqui tendes missiva de vosso esposo.”
“Dê-ma cá.”
Abre a carta sem conseguir ocultar a ansiedade de saber novas do seu guerreiro. Mas rapidamente tudo lhe cai por terra, tal como o império do sul iria fenecer anos mais tarde a régua e esquadro à luz de um pôr-do-sol cor-de-rosa. Sem perder a calma, sem mesmo verter uma lágrima, aquela mulher redobrou a carta e guardou-a junto aos seus seios. Agradeceu a celeridade com que foi entregue a má-nova e virou costas ao mensageiro sem lhe oferecer a hospitalidade de que era costume. Corri para dentro da cozinha e espreitei pela janela colando a cara de encontro ao vidro. Minha mãe ficou envolvida numa névoa enquanto continuava o seu lavor. Depois dirigiu-se a um barranco perto do galinheiro e voltou à horta. Trazia uma mão fechada. Com a mão livre abriu uma cova e depositou qualquer coisa que não consegui entender o que era. No fim do trabalho voltou para dentro de casa. Não me dirigiu uma única palavra ao longo daquele dia, até ao anoitecer quando me colocou no pescoço o seu medalhão. Naquela noite vi pela primeira vez a cara do meu pai e no dia seguinte minha mãe foi regularmente perdendo a vista até à escuridão total.
Se de meu pai fiquei com os olhos e o silêncio, de minha mãe herdei a postura austera e seca de lágrimas e uma renda que nunca mais acaba. E desde aquele triste mensageiro mais ninguém fez escala à minha porta. Daqui partiram o meu pai, os irmãos e minha mãe, a única pessoa que realmente conheci. Nos seus últimos dias de cama, minha mãe chamava-me de Penélope e nunca cheguei realmente a saber porquê. Até ter encontrado um livro numa estante da nossa sala, quando arejava a casa após a sua largada para o reino do senhor. O livro velho e usado estava assinado com o nome de meu pai, o mesmo do autor. Aliás, os nomes dos meus irmãos constavam da lista de personagens do dito livro de aventuras. Embora também nunca os tenha visto e conhecido nos meus vinte e cinco anos de existência, tinha a lembrança dos seus nomes porque minha mãe nas suas conversas de mercado, onde vendia alguns legumes e comprava outros víveres que necessitávamos, coisa que deixei por completo de fazer, e nas suas orações nocturnas, os dizia cheia de orgulho. Minha mãe chamava-me de Penélope, porque estava sempre ali de seu lado a fazer e a desmanchar a renda naquele quarto escuro, já que estando ela cega nunca me lembrava de alumiá-lo. E acho também porque lhe parecia que eu esperava o retorno de alguém. Mas nunca ninguém veio, não. Nunca ninguém me visitou senão contarmos o acaso deste dia de Março de mil oitocentos e setenta e três de nosso senhor.