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quinta-feira, 7 de julho de 2011

para o cláudio pereira

na periferia parece não sobrar tempo
por isso corres no sentido inverso do rio
rolando para o mar, pões a máscara
de Ulisses ajustada ao rosto com sombra
de três dias e o teu passo plana já
na planície cardada, onde o xisto
acompanha o mosto de vinho moroso na boca
de amigos planeando ataques à língua
de todos os dias, sentada
em autocarros, comboios, precários
espaços estendendo vasos comunicantes
de amor nenhum e só o corpo basta ao futuro.
e chegarás a casa, por fim, à cama
o gato, a mulher, sabe-se lá onde
os olhos, as mãos atarefadas
no tempo das coisas e as coisas
do tempo ou numa guitarra, que
não é azul como a de stevens, mas
onde a tua voz e dedos dedilhando
arrepiam a pele do mundo
o nosso a cada encontro esperado.

terça-feira, 5 de julho de 2011

a mala da paula coelho




para a paula, claro

A primeira vez que abrimos a mala da Paula por pouco ficámos cegos. Um brilho brotava rutilante, como do fundo de um lago um pedaço de vidro faz-se afogado sol. Tendo desviado as nossas cabeças de tamanha luz, por sorte também não nos decepámos – embora tenhamos ficado com uma dor de cabeça que nem lembra ao diabo pelo choque dado, uma contra a outra –, pois uma andorinha esbaforava por encontrar a boa brisa primaveril sustendo, nas suas delgadas patitas, pelos sobrolhos, um gigante. Este, que sempre viveu encolhido numa lúgubre caverna dos folhos interiores, essas plissagens sombrias, junto ao abismo das moedas esquecidas, tinha, teremos de vos contar, um medo nada icaríaco das alturas.
As suas unhas eram espelhos gelados, níveos campos, onde ganchos, de várias formas e tamanhos, faziam competições de dança de salão. Tomou-se-lhe tal nervoso, antes somente visto quando Tristão teve Isolda despindo-se nos seus sonhos, que da sua florestal cabeça uma tempestade de caspa caiu, vindo de imediato um bando de pinguins abrir um bar que, no mesmo instante, se encheu de lápis e canetas, cada um traçando mapas, escrevendo nomes, números, músicas, memórias, sobre mesas, cujos tampos eram agendas, cadernos de capa preta.
Sentámo-nos, eu e a cris, para recuperar do susto, em duas cadeiras vagas de uma mesa, onde já esperavam uma cigarrilha e um inalador a boca e a voz rouca. Estas chegaram pouco depois e a noite ficou ébria de histórias, contos e risos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

poema de aniversário dos meus irmãos





para o carlos e o rui

nem sempre a infância
nos ensina ou prepara
para a distância, o laço
que a idade enfraquece
o elo tido tão forte
do sangue, brincadeiras
medos partilhados
com os quais crescemos.

à força de economia,
da morte, do nascimento
na família, coube-nos aos três
os mesmos metros quadrados
e camas, mundos, lutas
cruéis, os peidos sem pudor
e o riso longo até o grito
materno nos reduzir ao sono.

já nessa altura cada um
se separava dos outros
por um caminho
que hoje se extraviou,
um a música, outro
a pintura e a mim restou
o silêncio caligráfico
que hoje vos endereço.

guardo para mim tantas ficções
a memória das nossas vidas
em conjunto. mais gestos, jogos
do que diálogos, desses que se encontram
nas tragédias, nos cinemas
entre irmãos, tirando aquela noite
em Sesimbra, andando
de um lado para o outro.

nessa noite a palavra
irmão, no mundo, só
a nós pertencia, reflexo
da quantidade de álcool
ingerido (sempre dei graças
e cri no mote
in vino veritas e
sentados na praia não fomos excepção)

torná-mo-nos adultos aos olhos
uns dos outros. oferecendo-vos cigarros
confessaram-me o orgulho que tinham
de mim, o mais novo dos rapazes,
o benjamim, pela coragem
de arriscar tudo nos sonhos
na espuma dos dias (diria Vian)
funâmbulo de futuros.

na altura e ainda hoje nego
mas agradeço o vosso apreço
sabendo na verdade que são
vocês os corajosos, nos dias que correm,
dando duas crianças a quem não pode.
os silêncios são agora, o mais das vezes,
a nossa morada. nesta distância estou
ao vosso lado. acendo um cigarro e escuto-vos.


domingo, 1 de novembro de 2009

rui cancela

amador por deus
escritor pelas mulheres
crente pelo mundo


errata: onde se lê amador, dever-se-ia ler escritor;
onde se lê escritor, dever-se-ia ler crente;
onde se lê crente, dever-se-ia ler amador.

domingo, 14 de dezembro de 2008

graças de fins de outubro

Dás graças por algumas coisas. Poucas, sim, mas que te são próximas e não se medem essas coisas tão próximas a ti, tão juntas que dás graças por elas se encontrarem perante ti, no teu corpo frente ao espelho. Dás graças por elas e não te tornaste mais ou menos religioso ou místico. São os teus pessoalíssimos bons-dias ou boas-noites. Nem sempre te ris e são graças e ficas reconhecido por isso ou reconheces-te nisso, nelas que aí estão. Não lhes dás nomes porque elas são tu mesmo e nenhum nome lhes serve, a essas coisas, tal como o teu também não porque é de empréstimo, colado a ti, tantos por aí há que partilham o teu nome que chamarem-te pelo nome que te deram quase se deve à sorte por seres tu que lá se encontra no meio de tantos com o teu nome. E contudo dás graças igualmente por ele quando ela o diz e por ela dizê-lo, porque então, dizes a ti mesmo, então as graças foram atendidas na sua voz arranhada pelo fumo como um outro possível e pessoalíssimo bom-dia ou boa-noite.
Não são muitas as graças que dás e na verdade nem sempre as dás tantas vezes como gostarias. Não é de ânimo leve que se agradecem certezas que te são estranhas, que são mudas, não respondem, apenas se mostram, essas coisas agraciadas, quando se mostram, quando nem sequer as esperas. E na verdade nem são coisas mas uma só que se enche delas, que não te oferta nada, que se dá da única forma de ser dela mesma. Não é o que é mas o que vai sendo, em ti e nas grandes e pequenas coisas, nas tuas rugas, por exemplo, os crescentes pêlos brancos na tua barba e dizes, estou vivo, ainda, aqui, seja lá o que isso for, estás, és, ainda e dás graças a ela que nada diz e a ela que diz.