Mostrar mensagens com a etiqueta poemas (2002-2004) 2011. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poemas (2002-2004) 2011. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

nossa senhora de machede

a lua de insectos fica
junto da árvore de agulhas
(que nome terá)
mas as parcas já não
tecem, sentam-se em cadeiras
cómodas chamando o sono
com as mãos, afugentando
o calor e o suor e
entre conversas encorajam
cigarras, formigas-voadoras,
louva-a-deus, aranhas,
aranhiços e homens
nas suas jornadas de encontro
à parede fresca: uma história
a descamar. depois vão dormir.
talvez o fogo de amanhã
conte outra vida

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

poema antigo (revisão) - wielopole, wielopole

Para Tadeusz Kantor


tropas a marchar, sobre um
fundo a preto e branco e terra batida,
pisam fotografias. mortos a duas dimensões.
as suas mãos, lentamente moviam-se
da poeira para o armário
(lá, guardavam-se as flores
mortuárias. as que se irão dar à noiva judia.

lavam-se as mãos
com essa água
depois de pisadas bem
as flores do enterro).

as portas fecham-se
sempre antes do tempo
da vida da madeira (as suas beiras
carcomidas por dentro
até surgirem pequenos buracos
fungos).

Kantor despediu-se dobrando
a toalha branca da mesa do jantar
de núpcias. todos mortos.
não esquecer. quem
dobra as mortalhas dos palestinianos?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

poema antigo (revisão)

há um corpo deitado
no azul da noite turquesa e
o abdómen explode inspirando-se.
a pele inflamada de transpiração
e luz. luta a respiração, luta
eclodindo ao longo do labirinto
dos músculos experimentando uma fuga
onde a luz toca na pele e a noite cai
nos extremos dos olhos. a voz brota
na garganta presa como um caroço
onde bate, osso contra osso,
intumescida a língua.

molhados os lábios brilham.
reflectem a mordedura tensa
a asa da borboleta nos dentes.

as borboletas dançam
pela noite que fere
as asas e não pela luz que apaga
a noite no corpo.
borboletas azuis num monte de folhas
arejando a terra em febre,
ou na cicatriz do sexo quente,
pousando pendentes de uma folha
que caiu no queixo duro.
a mão afasta uma comichão
é um pássaro alisando as asas
e expulsando as desnecessárias
plumas como pulgas a mais no pêlo.

o musgo embebeda-se passa a seda
cheirando a caril ou argila
entre as unhas. tudo falha
menos tu meu amor
com uma mão no sexo
e dois dedos na boca
pressionando a língua.
as horas passam num vagar
de ópio com o pio de aves nocturnas.
morcegos como pontos negros
alados gritam por borboletas
as folhas ondulam
cobrindo o morto de cansaço
com a pele vergada por ramos.

este é o corpo deitado na noite azul
contando os segundos
até que a larva que lhe cobre a boca
se torne uma borboleta
e lhe mascare o rosto
com nada a dizer
e uma história no corpo
por se decifrar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

poema antigo (revisão)

pensava na mão sobre a calçada rude
remexendo pequenas partículas
restos pó pedras
nos bolsos na mão tornando-
-a mais suave enquanto pensava
nas rugas das pedras rosas num pé
curtido de pescador à beira-
-mar e a mão lenta seguia
os veios e as veias batendo
ao ritmo da ondulação
dos dedos nas pedras e o pé
enchia-se de espuma
tu tomavas banho
perseguia-te pela cortina
observando o calcanhar
acreditando: agora estamos
completamente protegidos
molhado o teu calcanhar

e por momentos julguei ser
completamente levado pela água

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

poema antigo (revisão)

o riso explode num esquálido botão
de rosa de puro vermelho

um riso uma flama
revoluteando no veludo
nado dos lábios rubicundos
que tremem retendo o riso

e os lábios entreabrem-se
inocentemente bruscos
mostrando a língua
com uma réstia de saliva
lembrando o orvalho
o silencioso inverno de um beijo

(a chuva levada
batendo levada
pelo vento levada
na janela
e o que isso interessa)

volta o riso
de uma boca a outra
o ricto do rosto contendo-se
não será antes uma flor
prestes a explodir

oh e a tensão ígnea do músculo
o mordiscar do lábio inferior escravizado
queimando-se de ebriedade
e as mãos sobre a mesa manchada
onde, porque não, outro riso
e o tamborilar de dedos irónicos
tocando-se erguendo-se caindo
para não pensar no lábio
ou no músculo
de plasticidade grotesca

oh e de novo a flor na boca
e quatro olhos espelhando-se
ou pela janela desfocando-se
(a solene chuva ainda)
unindo rugas dos estreitos dos olhos
às meias-luas das bocas
e tu ris e eu rio
e um soluço para a boca do mundo

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

poema antigo (revisão)

se houvesse, pela vila de Monsanto,
talvez o segredo estivesse escondido
numa fruteira ou entre as maçãs do rosto
de uma mulher decapitada de seu
filho e de gritos já azulada

a vida, toda vista até espanha,
um coração, dizias, cansado
aos vinte e três e de barba e de amor
suspenso com palavras surpresas
pelos gritos daquela mãe no cemitério

cada grito um corte
uma blasfémia
contra a morte prematura
de seu filho nas rochas

(imagino que se terá atirado
abruptamente para o vento
que raspa rente às muralhas do castelo
imagino porque, encontrando-nos lá,
também eu saltaria)

entre as rochas e o céu, ambos
tão perto, ela gritava: rouca, aguda
como um animal nocturno
pedia que ele voltasse pelo nevoeiro
por entre os vales
que atravessasse a terra
de baixo para cima
pelos rios pelas árvores
e o seu grito percorria tudo
chegando à surdez do sol encoberto

ela não o ouvia em resposta
o seu grito de rapaz jovem
ela abafava o grito-rapaz no seu
grito-mãe não o (ou-)via

caiu
um sofrimento de águas
e electricidade

(um grito está sempre ligado a outro
sobrepõem-se como um aperto
ombros colados lábios dentes)

a mão dele a passar leve pela face da mãe
(por favor, era só o vento) e o grito
dela a fechar-se onde os olhos continuavam a chorar
e talvez o segredo estivesse escondido numa fronteira