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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

XII

Despertou terrivelmente abatido, desgastado, pesado. Arrastou-se para a casa de banho, lavou-se. Arrastou-se para o quarto e vestiu-se e partiu sem o seu pequeno-almoço para a cidade. Tinha tomado uma decisão. Entregar-se-ia à polícia hoje mesmo. Faria um relato o mais fidedigno possível dos acontecimentos. Se necessário contaria tudo desde o princípio, começando há seis anos atrás. Não deixaria nada em falta e pediria que o prendessem, não se poderia deixar à solta um assassino.
Chegado à cidade estacionou a bicicleta na Praça do Lagrido, onde era seu costume e partiu para a esquadra da polícia. Subiu a Rua das Lembranças até ao topo, até alcançar o Falso Templo da Deusa. A esquadra era já ali ao pé, apenas cinquenta metros. Só não sabia como fazer o que tinha imposto a si mesmo. Precisava de tempo para pensar, para pôr as suas ideias em ordem, ganhar coragem. O melhor seria tomar um café ali mesmo naquela esplanada do jardim perto da esquadra. E assim fez.
Pediu um café cheio e sentou-se enrolando um cigarro. Tentava parecer o mais calmo possível, o mais anónimo e anódino possível, ninguém diria que ali se sentava um criminoso, um homicida, um assassino de musas. Entre baforadas procurava a melhor maneira de dizer o sucedido. Não seria difícil afirmar a um polícia “olhe, eu matei uma pessoa”, não, isso não apresentava dificuldade nenhuma, nem mesmo relatar todo o procedimento com todos os pormenores, cheiros, tactos, pesos, gestos, olhares, sensações e sentimentos, a disposição do espaço e dos corpos nesse espaço. Mas como provar um crime de homicídio em que faltava um corpo, em que a prova irrefutável, a própria substância que dava forma ao crime, faltava, como que por magia. Aí de certeza que entrariam os processos obscuros de desvendamento da verdade, que tanto se fazem ouvir e ver em histórias e filmes, com interrogatórios infindáveis procurando o deslize do argumento, o choque de mãos e bastões nos moles das carnes sem deixar provas disso. Ele só tinha que pedir que acreditassem na sua palavra aí onde não havia prova de verdade, queremos dizer, na falta do corpo.
Estava Benjamim Machado nesse ínterim quando, umas mesas mais à frente, se senta uma mulher pedindo um café. Benjamim nem prestou muita atenção, tão enrodilhado estava em si e no seu crime, o que não impediu a aproximação dessa mulher por trás e tocar-lhe no ombro no exacto momento em que, tendo já pago a sua conta, Benjamim se encaminhava para a esquadra.
“Desculpe, você não é Benjamim Machado? O escritor e poeta Benjamim Machado?”
Benjamim não sabia o que responder. Seria ele ainda Benjamim Machado, escritor e poeta? Quem era ele agora, perdendo-se nuns olhos grandes e azuis que o olhavam com doçura e numa voz suave e levemente rouca que saía moldada por uns lábios inexplicáveis.
“Desculpe?”
“Perguntei-lhe se era Benjamim Machado?”
“Não, não, está enganada, chamo-me… Fernando… Machado Silva.”
“Oh, desculpe”
“Não faz mal, confundem-me muitas vezes com esse senhor.”
“É que de facto é muito parecido…”
“…”
“Não me está a enganar, pois não? Não está a inventar que é outra pessoa apenas para evitar conversar com alguém que gosta do seu trabalho?”
“Não, não, de todo. É verdade que também escrevo, mas eu e esse tal Benjamim Machado não temos nada em comum e mesmo se fosse esse tal Benjamim Machado não teria tempo suficiente para a enganar e mentir-lhe, quero dizer, você nem me deu tempo de respirar…”
“Desculpe… eu nem costumo fazer isto, chegar ao pé de uma pessoa e começar a despejar perguntas para cima dela.”
“Como já lhe disse, não há problema, esses acidentes acontecem e ninguém tem a culpa.”
“Acidentes?”
“Queria dizer esses… acasos”
“Sim, sim, acasos… bom… desculpe mais uma vez. Bom dia.”
“Bom dia para si também.”
Também a mulher tinha pago e bebido o café. Voltou as costas a Benjamim e dirigiu-se para o museu da cidade ligeiramente consternada com a situação, não era todos os dias que ela abordava alguém desprevenidamente só porque tinha a impressão que conhecia essa pessoa. Ele ficou a vê-la ir-se embora, igualmente confuso e ligeiramente indisposto por ter mentido àquela bela mulher, a única que realmente lhe prestou atenção, a única que sinceramente lhe tocou, lhe falou. Benjamim acompanhou-a com o olhar, segui-lhe os passos. Também ele nunca tinha prestado atenção a uma mulher, o modo como ela se balançava pelas ancas, como um cabelo rasando os ombros se ondeia, como é batido pelo vento fazendo a vez de folhas nas copas das árvores, pelo menos não como desta vez. A meio do caminho a mulher parou por momentos sem se voltar, como se tivesse esquecido qualquer coisa e Benjamim parou com ela, e nesse passo de dança o seu coração emergiu do posto de vigilância e suspeita onde o tinha deixado desde que aquela outra morrera. Espera, não vás hoje trabalhar, hoje não.
Como se tivesse ouvido de longe aquelas palavras de Benjamim Machado, a cabeça da mulher pendeu para o lado e balançou-se em concordo, voltando o seu corpo para o lado, olhando para trás. Benjamim reparando que ela se virara desata a correr em sua direcção parando apenas quando se encontrava a poucos centímetros da mulher. Sem sequer estremecer a mulher sorria.
“Desculpa mais uma vez”, disse Benjamim, “desculpa ter-te mentido há pouco.”
“Eu sei, não faz mal, talvez eu também ter-te-ia mentido se todos os dias me incomodassem com estas perguntas e pedidos. Mas agora não importa, pois não Fernando?”
“Claro que não e ainda bem que me percebes. Escusas portanto de me chamar Fernando, podes tratar-me pelo meu nome.”
“O outro não me interessa. Disseste que te chamavas Fernando e esse é o nome pelo qual te vou chamar.”
“Nesse caso, não te pergunto o teu e chamar-te-ei um nome pequeno de cinco letras.”
“É justo. Faz sentido e não estás longe da verdade.”
“Ainda bem.”
“…”
“Sabes, a tua cara não me é estranha.”
“É justo, faz sentido e não estás longe da verdade.”

domingo, 6 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

XI

Não se pode dizer que dormiu como um bebé. Isso seria mentir, porque Benjamim Machado já não era nenhum bebé. Por isso ele dormiu como um homem que matou alguém, coisa que para mim é muito difícil de explicar já que apenas matei formigas, moscas, entre outros insectos. Mas para o bem da história direi que não dormiu totalmente descansado, embora tenha adormecido de chofre. Teve sonhos, muitos que o fizeram revolver a cama e arrancar os lençóis, outros que o fizeram choramingar, suspirar e soluçar como há muito não lhe acontecia, só que lembrar-se disso tudo é que não.
Abriu os olhos já de manhã sem qualquer recordação da noite e dos dias anteriores. Apenas sabia que tinha feito alguma coisa que não devia, que não era suposto ter feito. E de repente lembrou-se que no meio daquelas arrumações todas se tinha esquecido de um corpo ainda estendido no chão da cozinha. Essa é que era essa, como é que ele iria esconder o corpo e disfarçar o cheiro que voltaria a passear-se pela casa? Teria de esperar pela noite, claro, e até lá andaria com um pano húmido à volta do nariz e da boca e dentro do possível evitar entrar na cozinha. De um salto saiu da cama e aproximou-se da porta que dava para a sala e de olhos fechados snifou o ar. Estranho. Snifou uma vez mais. Muito estranho mesmo. Entrou para dentro da sala e continuou como um cão a cheirar o ar até chegar à cozinha e continuando de olhos fechados… Estranho, muito mas muito estranho mesmo. O ar não estava infecto com morte e podridão mas com sabão azul e branco ou sabão macaco ou lá o que era. Cheirava a higiene, a asséptico, a quem tinha passado um dia inteiro a limpar a casa e isso era apenas o princípio. Na cozinha não havia qualquer corpo, a musa tinha desaparecido, nem o desenho branco do contorno lá se encontrava (até que se lembrou que quem faz isso é a polícia e não o morto para se lembrar da sua posição no caso de se sentir preso de movimentos ou com comichões).
Terá tudo sido um sonho? Será que nunca existiu uma musa? E como ele poderia explicar a quantidade de poemas, contos, romances, ensaios que escreveu? Saiu tudo da sua cabeça? E se ela andasse por aí? Se ela não tivesse sido estrangulada pelas suas próprias mãos? E se o estrangulamento tivesse sido apenas aquele conto que estivera a escrever antes sobre uma cerejeira fora de horas? Nesse caso procurá-la-ia. Mas alguma coisa não estava bem. É que Benjamim Machado continuava com a sensação de ter morto uma pessoa e reparou que a porta da marquise que dava para o pátio estava aberta. Terão os gatos levado o corpo lá para fora e começado a comer? Gatos têm essa força? Saiu. Nada. Apenas turras nas pernas e miadelas de fome. Terá deixado a porta aberta quando andou nas limpezas e depois esquecido de fechá-la? Entraram cá dentro e levaram o corpo. Só pode ser isso. E agora, o que é que eu faço?
Benjamim entrou a correr para dentro de casa com uma nova sensação a revolver-lhe o estômago. Diabos, merda e eu sei lá mais o quê começaram a sair-lhe da boca. Desesperava-se, angustiava-se, revoltava-se e da arrumação já nada mais existia. Estava tudo perdido para ele.
Passou o dia nessa agitação. Revolvia as lembranças dos últimos dias, das suas últimas acções. Tudo foi real, disso não havia dúvidas. Ia para o quarto, deitava-se. Fechava os olhos, esperava alguns minutos, horas, levantava-se, dirigia-se para a cozinha e nada. Perguntava-se, questionava-se e tinha a certeza que tinha morto a mulher, mas ela, onde é que ela estava, onde o seu corpo, onde? E de novo no quarto, entre a agitação dos lençóis e das ideias, adormeceu.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

X

Aquele trecho de qualquer maneira, mais do que o cheiro que não circulava de todo pela casa, despertou-o. Até então não se tinha apercebido da dimensão do seu gesto. Não foi uma escalada de um corpo sobre outro maior, quase inalcançável, mas antes de uma mão, que ele julgava inocente, pelo corpo de uma mulher, igualmente inocente. Era ignóbil. Tinha descido razoavelmente muito, para não dizer que deu uma queda enorme, na escala dos comportamentos humanos. “O que é que eu fiz, o que é que eu fiz?”, não parava de se dizer a si entrando e saindo da cozinha para a sala ou para a marquise.
Como que tomado por um espírito qualquer, e não o da musa, uma vez que jazia morta no chão, um espírito desses antigos e romanos, os tais Lares, Benjamim Machado pegou na sua vassoura e varreu a casa toda, depois pegou na esfregona e num balde e minuciosamente lavou todas as divisões da sua pequena habitação, com um pano desempoeirou prateleiras e nichos de todos os móveis que tinha até que terminou na cozinha e limpou, escovou, esfregou, poliu, lixiviou o que havia para tal. Benjamim Machado estava desvairado, não estava em si, estava fora de si. Tomado de assalto por um vazio, pelo seu próprio vazio, não olhava para nada e executava. Tudo aquilo durou o dia inteiro até que se pudesse respirar livremente naquela casa uma vez mais. Não queria nenhum cheiro nauseante como o que anteriormente sentira quando despertara do seu crime. Estava de rastos e não haviam restos de que alguma coisa sucedera ali, isso satisfazia-o, acabando por adormecer estirado na cama com a mesma roupa de há três dias.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

IX

Benjamim Machado ficou três dias sentado na cadeira olhando para o corpo da mulher estendido no chão da cozinha, despertando apenas quando um odor nauseante lhe revolveu o estômago.
Sobre a mesa, leu de um livro aberto:

Se chegares a um lugar intransponível ou perigoso, pensa que as marcas que deixaste poderiam enganar os que viessem a segui-las. Volta por isso para trás e apaga o resto da tua passagem. Isto diz respeito a todos os que querem deixar neste mundo vestígios da sua passagem. E, mesmo sem querermos, deixamos sempre vestígios. Responde pelos teus vestígios, perante os teus semelhantes.
René Daumal

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

VIII

Bom…uma coisa que não podemos esquecer quanto a Benjamim Machado é a sua capacidade de distracção. Isto não quer dizer que ele estava a pensar a todo o momento, não. Por vezes distraía-se com uma simples folha que deslizava no chão soprada pelo vento, uma formiga que passava arrastando uma migalha, uma asa de mosca, um grãozinho de qualquer coisa; e se ele se distraía com uma coisita de nada, se ele se alheava com uma nica que passasse ao lado ou que de repente lhe brotava na cabeça, imaginem só o ponto em que estava esse seu defeito ou qualidade (porque às vezes é de facto uma qualidade, a distracção) depois de a musa lhe ter concedido o desejo.
É verdade, Benjamim Machado ficou um pouco mais trolaró do que antes era, disso não há dúvida. E é verdade também que, com tanta escrita, com tanta ida e vinda à cidade para comprar papel, canetas, colóquios, entrevistas, eu sei lá mais o quê (coisas que ele tentava evitar o mais possível), ele descurava algumas das coisas principais numa casa. Queremos dizer, esquecia-se por exemplo de arrumar a casa, deixando o lixo e o pó acumular-se pelos cantos das diversas divisões, deixava o frigorífico e a despensa esvaziar-se até restarem algumas migalhas, um ovito, uma maçã, ou mesmo nada de nada.
Pois é, Benjamim Machado também se esqueceu de uma coisa essencial para o gesto fatal que preparou para si. Inspirou e inalou o gás que saía do fogão chegando ao ponto de adormecer, mas não foi o suficiente para se matar porque o gás, o esquentador já o tinha avisado desligando-se uma ou outra vez quando tomava banho, acabou pouco depois de fechar os olhos.
Foi então naquele limbo entre vigília e letargia, entre vida consciente e sonho, naquele espaço entre a realidade que vemos e aquela que construímos de olhos fechados quando dormimos, que alguém entrou na cozinha sem ele dar por isso. Piscando os olhos enublados, abanando a cabeça para desviar a névoa que se formara bem à sua frente, conseguiu entrever uma figura feminina que lhe foi desenlaçando a corda e deixando deslizá-la pelo corpo. Depois puxou de uma cadeira, alinhavou o vestido para que não se amarrotasse e sentou-se em frente de Benjamim Machado.
“Não achas que deverias ter vergonha nessa cara barbada, meu palerma? Para que é que foi isso? Onde é que querias chegar tentando te matar?”
“Só (tosse, tosse), só (tosse, bocejo), só te queria ver, e (tosse) acho que consegui finalmente que (tosse, tosse, tosse), que (tosse, tosse, tosse, tosse, tos…)”
“Que?”
“Que (tosse, tosse, tos…)”
“Que palerma”
“Sim (tosse), não (tosse), que…”
“Viesse e me falasses e me tocasses e me cheirasses e me visses e me dissesses coisas que me fariam apaixonar por ti, que caísse totalmente por ti, que ficasse para sempre ao pé de ti e não te largasse nunca mais, que te fizesse a papinha, a caminha, a barbinha, te cortasse as unhas dos pés e das mãos, te escovasse os dentes e o cabelo, que me risse das tuas piadas sem piada, que chorasse contigo nas tuas parvas tristezas sem razão, que te trouxesse o xarope para a tosse, a aspirina para a dor de cabeça, a pomada para as dores nos músculos e nos ossos, que te lavasse e passasse a roupa a ferro e te vestisse, que te acordasse todos os dias com um sorriso estampado na cara mesmo quando não estou para aí virada, te massajasse o corpo e te passasse bálsamo ou unguento refrescante e relaxante, que seja a tua mamã meu bebé? O bebé não consegue viver sem a mamã? O bebé fez cocó e chichi nas fraldas? O bebé portou-se mal, quer levar tautau?”
“Não é isso”
“Então o quê?”
“Não percebes”
“Mas não percebo o quê? Achas que eu não percebo nada, é? Achas-te muito inteligente agora, é isso? Esqueces-te que fui eu, hã, fui eu que te dei tudo de mão beijada, a ti, que andavas por aí às turras sem saber o que fazer, ai eu não consigo buuu, eu nunca vou conseguir buuu, estão todos contra mim buuu, todos me querem mal buuu. Nunca, mas nunca, ninguém te quis mal e a única coisa que te fiz foi pôr-te a pensar em nada, percebes, o teu mal era pensar demais e era isso que fazia com que tu não escrevesses nada de nada. Ficavas ali às voltas e às voltas das palavras e das frases. Torturava-las, embrulhava-las, fazias labirintos que nem sequer os percorrias e como disse o cego argentino, os labirintos são construídos para serem percorridos não para aprisionarem. Era isso que tu fazias, martirizavas a tua escrita e eu dei-te um empurrãozito. Só isso… percebes… só isso”
“Percebo, percebi à uns meses atrás e percebo-o agora pela boca. A tua, a minha. Eu só te quero aqui. Não precisas de fazer nada. Só quero que fiques aqui e me ouças. Ouve…”, nisto, subitamente, Benjamim Machado calou-se. Daquilo que tantas vezes pensou dizer-lhe, nem uma palavra, nem um sopro conseguiu proferir ou deixar escapar.
Sentados frente a frente, com a mesa a separá-los, ela esperava por ouvir o que Benjamim lhe queria tanto dizer, mas este, boquiaberto, ficava-se pelo olhar. Nos seus olhos, a pouco e pouco, foi-lhe surgindo um rumor, uma leve tremura, uma concentração maior de humidade a que se acrescentava uma outra e outra mais, tanta humidade que acabou por transbordar. Primeiro fazendo pesar as pestanas, depois obrigando-o a fechar as pálpebras uma ou outra vez, e por fim cerrá-las completamente, apenas para perceber que somente fechá-las não impediam as lágrimas de continuar a cair, pelo que teve de recorrer a ambas as mãos sobre a cara para aí as encerrar. As lágrimas foram percorrendo os espaços entre os dedos, acumulando-se por baixo das unhas, nos corredores das impressões, pelas bochechas, pelo queixo barbado. Eram tantas que acabaram por entrar nos olhos em vez de saírem, afogando o seu corpo por dentro, obrigando-o a curvar-se sobre o seu corpo em soluços.
A mulher não sabia o que fazer. Não estava à espera deste acontecimento inesperado. Quando chegou, quando apareceu, vinha apenas preparada para desancar Benjamim Machado. Não aceitava esta espécie de revolta ou traição, esta recusa contra aquilo que oferecera e que Benjamim tanto desejara. O que quereria ele agora? Mas ela própria não suportava ficar ali especada. Impacientava-se. Queria ir-se embora, queria deixá-lo ali na sua própria miséria, miséria que ele mesmo infligira a si depois de tudo o que ela fez, deu de bom grado, porque o amava. Sim, no fundo era isso, apercebeu-se ela, no fundo amava-o mais do que a qualquer outro antes, melhor, pela primeira vez amava. Essa era a razão para aparecer de novo a ele, porque a mais nenhum outro voltara depois de ter concedido o que pediam. O que era oferecido consumia-se por si e não se renovava e ela não reaparecia, enquanto que a Benjamim Machado, enquanto que por Benjamim Machado voltou. Traíra-se a si também.
Levantou-se da cadeira, contornou a mesa da cozinha com o seu longo vestido a roçagar pelo chão, aproximou-se da cadeira onde Benjamim ainda se encontrava a soluçar e foi se encostando lentamente para não o assustar. Benjamim não sabia o que estava a acontecer, já não se lembrava sequer que a mulher ali estava, tão afogado no seu choro. Apenas sentiu uma alteração na temperatura, uma coisa mais quente que o envolvia numa espécie de abraço ao redor do seu corpo curvado e que o inclinava de encontro a uma massa macia, mole, terna, quente, que se erguia e baixava, que o acalmava, que o descansava em silêncio. Começou por escutar uma respiração, que acompanhou com a sua. Com essa perseguição entrou mais para dentro e formaram-se ainda mais dentro dois batimentos de coração. E da atenção que lhe dedicou somente um permaneceu a retumbar, a repercutir ritmicamente assegurando-lhe o sonho da sua solidão.
Não estavam dois corpos naquela cozinha mas apenas um, o dele, e o sonho feliz do corpo dela, a sua presença sonhada, imaginada, desejada. Aquela respiração que escutara atentamente aproximou-se das suas mãos que ainda cobriam o seu rosto. Aquela respiração tornou-se mais quente ao mesmo tempo que as suas mãos abriam e impulsionavam os seus braços em resposta ao abraço que ainda sentia. Aquela respiração ia e vinha mas sempre se aproximando da sua própria. E aquela respiração acabou por se juntar à sua, acrescentando ao gosto salgado das lágrimas um outro, indecifrável.
Enquanto um dos abraços se afirmava, o outro aliviava a pressão e buscava outras partes do corpo. Uma mão solta rastejava subindo uma barriga, umas costelas, um peito, um colo, um pescoço, um rosto, para encontrar o seu pouso definitivo de novo no pescoço. Como se tivesse vida própria, a mão começou a abraçar o que segurava cada vez mais e mais e mais. Só que onde poderíamos esperar alguma resposta, alguma contestação, algum combate, alguma tentativa de libertação, nada. Quanto mais a mão apertava, mais o encontro das bocas e das respirações se intensificava. Até que cessou por completo e Benjamim Machado sentiu uma gota, talvez uma lágrima, que lhe caiu no rosto vindo de um lugar ainda mais acima que os seus olhos e o corpo da mulher escorregou-se-lhe por entre o único braço que a envolvia.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

VII

Benjamim Machado largou tudo o que estava a fazer, abriu a porta do pátio e dirigiu-se à casa de um dos seus vizinhos, um que, com algumas tábuas e uma rede de nylon verde, construiu uma pequena oficina onde passava as horas da manhã a montar e desmontar o motor do seu carro. Bateu na porta e chamou “Oh da casa” e o Senhor Oh apareceu dando os “bons dias, vizinho”. Benjamim Machado, inventando uns arranjos quaisquer na sua casa, ou explicando o trabalho complicado para levar uns caixotes para o sótão, já que não tinha um escadote e sozinho não conseguiria fazer nada, perguntou se o Sr. Oh tinha uma corda grande.
“Mas claro que sim, vizinho, traga-me quando já não precisar dela.”
“Obrigado Sr. Oh, fico-lhe muito agradecido. Amanhã ou depois trago-lha tal como ma emprestou”.
“Não se incomode vizinho, não se incomode”.
“Bom, obrigado, outra vez, obrigado Sr. Oh.”
“Ora essa, não tem de quê”.
Virou costas e retornou a casa sem muita pressa, porque também não queria dar mostras de que alguma coisa se passava dentro da sua cabeça. Mas também não quis ir demasiadamente nas calmas, porque isso seria muito suspeito. Claro que os vizinhos sabiam que ele era uma pessoa bastante calma, só que demais também não, calma a mais trás água no bico e com uma corda então, huuummm, mais parece calma de carrasco. E ainda por cima sabia que o Sr. Oh tinha ficado empoleirado na porta do seu pátio a pensar se Benjamim lhe teria mentido ou dito a verdade, que isto nos escritores e poetas nunca se sabe, isto é, nunca se sabe se eles estão num ou noutro lado ou no meio, que é o da ficção por assim dizer.
Chegado à porta do seu pátio, corda ao ombro, enquanto empurrava a porta virou a sua cabeça para o lado esquerdo e, confirmando o que afinal já sabia, lá estava o Sr. Oh fingindo que não reparava nele. E digo fingindo porque Benjamim conseguiu ainda captar os ecos da virada repentina da cabeça do Sr. Oh. Ficou parado com a porta semiaberta ainda alguns instantes e, como também já estava à espera, não demorou muito até que o Sr. Oh revirou a cabeça para o seu lado esquerdo e foi apanhado com a boca na botija, como se costuma dizer.
“Oh Sr. Oh” pensou Benjamim sorrindo como que repreendendo o seu vizinho. Este respondeu de modo envergonhado e como um caracol meteu a cabeça para dentro do pátio da sua casa. Empurrando a porta até ao fim, Benjamim foi entrando cada vez mais para dentro da sua própria. Passando a porta da marquise avançou para a cozinha e depositou a corda em cima de uma mesa. De uma gaveta dessa mesa tirou um enorme rolo de fita-cola, daquelas castanhas que costuma selar caixotes e caixas, e igualmente a colocou em cima da mesa, depois serviu os pratos dos gatos com comida e água ambos quase a transbordar e fechou a porta da marquise.
Foi buscar a fita-cola e começou a dar serviço ao enorme rolo, a fazer o que lhe competia. Selou a porta da marquise, selou por cima, por baixo e dos lados a porta da rua, as janelas, toda a maior ou menor frincha onde o ar pudesse entrar ou sair foi hermeticamente fitacolada. Dirigiu-se então para a cozinha, sentou-se numa cadeira, serviu-se de um café e quando ia pegar na chávena, por incrível que pareça, sem sequer lhe ter tocado, a chávena desequilibrou-se em cima do pires e caiu no chão espalhando o café por todo o lado. O estranho é que, tanto a chávena como o prato, nem estavam na beira da mesa e mesmo assim, do nada, a chávena caiu. “Bom, não interessa, já bebi café que chegasse por hoje, se eu beber mais nem consigo adormecer”. Com esta decisão, Benjamim Machado não podia fazer mais nada do que seguir com o plano que lhe tinha ocorrido há momentos.
Pegou na corda e começou enrolá-la à volta do seu corpo e da cadeira onde se encontrava sentado. Parou a meio do processo de autoencordoamento para acender um bico do fogão para de seguida soprar e apagar a chama que se formara, recomeçando de imediato o seu aprisionamento. Servindo-se da boca deu os últimos nós à volta das mãos e apertou bem, tanto mas tanto que por pouco partia um ou dois dentes e ficou outro par a abanar.
Se quisesse poderia desatar os nós facilmente, uma vez que foi ele mesmo que os fez, mas estava decidido a pôr a sua própria vida em risco esperando com isso que a musa aparecesse, porque no fundo ela apareceu num momento de desespero, por assim dizer, quando Benjamim desesperado ultimou o seu desejo de ser escritor para o fundo do seu corpo. Ora, se foi isso que motivou a sua presença face a Benjamim, um outro acto desesperado chamaria por ela uma nova vez e depois podia dizer-lhe tudo o que tinha para dizer, tudo o que sempre quis dizer-lhe, tudo o que sempre sonhou dizer-lhe e, quem sabe, beijá-la e convencê-la a ficar, a permanecer com ele. “Quem sabe…” e os olhos de Benjamim começaram a piscar e a amolecer, a sua cozinha lentamente foi-se cobrindo de azul e um torpor invadindo o seu corpo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

VI

Lembrava-se disto Benjamim Machado naquela manhã de Março no seu pátio em frente à cidade velha enquanto enrolava um cigarro de Amber Leaf.
“Passaram já seis anos desde aquele nosso encontro, minha musa. Seis anos desde que te vi e te perdi. Seis anos já que te escrevo, sem saber se lês o que te endereço. Seis anos sem saber se gostas, se te sentes orgulhosa do meu trabalho, se alcancei as tuas expectativas. Muitas vezes me perguntaram quem tu eras e eu apenas dizia que tu eras a minha musa, a minha inspiração, o meu amor e o teu nome todos e nenhum. Dizia que tu eras Laura, Beatriz, Nora, Paula, Dulcineia, Urânia, uma condenada à morte, June, Margerie, eu sei lá. Em segredo dava-te um nome, um pequeno nome, com cinco letras e dizia-o para mim quando ninguém me ouvia. Ninguém sabia de ti a não ser eu.
Seis anos passaram já e continuo a procurar-te. Faço minhas aquelas palavras que dizem «em todas as ruas te encontro / em todas as ruas te perco / conheço tão bem o teu corpo / sonhei tanto a tua figura / que é de olhos fechados que eu ando / a limitar a tua altura» . Sei que existes mesmo se não te encontro e sei que tens estado sempre aqui do meu lado, como quando te encontrei no Cabana e te sentaste quando mais ninguém se importou comigo. Por causa de ti vivo só disto e sinto-me feliz. Sou feliz por causa de ti. Aquilo que vi no espelho do Cabana há seis anos, quando todos olhavam para mim com admiração e reverência, saiu do reflexo e por onde ando é isso, quero dizer, por onde ando todos me olham com admiração e reverência, quando antes eu apenas era um desconhecido, um anónimo, um Zé-ninguém. Agora, quando olho para um reflexo vejo o inverso, ninguém realmente me liga e infelizmente a tua cara, a única que procuro, não está lá.
Desculpa se não é isto que querias ouvir, porque sei que me ouves, mas preferia ter te dito para teres ficado e não me tivesses concedido o desejo. Amo-te e sinto-me só. Só, percebes. De que é que serve afinal amar-te se estou só, se me sinto só? Quero que me abandones e que voltes para mim. Do teu espírito quero o teu corpo e onde o teu corpo estiver estás tu e eu poderei continuar à mesma, porque não estando tu aqui, e já escrevi o que escrevi, imagina só contigo sempre do meu lado. Imagina, imagina-nos juntos, um ao lado do outro até que um morra e depois o outro , imagina-nos juntos aqui ou em qualquer outro lado, tu e eu, eu e tu, imagina.
Quando é que voltas? Partiste tão cedo, tão cedo a altas horas da noite e nunca mais voltaste. Subiste a rua e desapareceste, por entre todos os corpos, por entre todos os homens e mulheres, talvez por entre as paredes, por entre as pedras da calçada, talvez, talvez, talvez apenas tu me possas dizer…”
Nisto, enquanto Benjamim andava nestas andanças, enquanto ia dizendo e escrevendo os seus temores e desejos, dizendo em voz alta e apontando para ela a sua saudade do que nunca teve nem sequer um contacto, foi repentinamente assaltado por uma ideia. Uma ideia que, de certo modo, o assustou, tão tomado que estava pela força daquela mulher. “Como é que eu nunca pensei nisto, meu Deus, onde é que estava a minha cabeça, Deus meu, que estúpido e distraído, porque é que eu não…já que ela não… e se ela não, eu então…”.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

V

Benjamim Machado sabia o que tinha de fazer, agora tinha a certeza absoluta que lhe tinham concedido o destino que tanto desejava. Levantou-se da cama de um salto e correu para o pátio. Sentou-se na cadeira em frente da mesa de madeira, abriu o caderno, pegou na caneta e deixou as palavras começarem a correr. Em poucas horas tinha preenchido um caderno inteiro e não tinha mais nenhum em casa. Voltou para dentro e procurou em todos os móveis folhas em branco soltas, fotocópias que lhe pudessem servir de rascunho. Formou vários montes de papéis que lhe serviriam para o que desse e viesse, recibos, talões, contas da luz e da água, arrancou folhas em branco dos rostos e contrarostos de livros, papel higiénico, eu sei lá, juntou tudo debaixo do seu braço e saiu de novo para fora. Nos bolsos levou quantas canetas e lápis podia e encontrasse. Sentado na cadeira foi escrevendo e escrevendo e escrevendo, tornando a sua letra cada vez mais minúscula para utilizar todos os espaços disponíveis e visíveis.
Rebentavam-se-lhe cargas de canetas nas mãos e ele não se importava, escrevia com a tinta que lhe esborratava os dedos. Doíam-lhe as mãos, as articulações dos dedos. Cresciam-lhe calos e dos calos outros mais. Parava apenas para abanar as mãos e enrolar cigarros ou acender os que se lhe apagavam nos lábios, pendidos pelo esquecimento, pelo furor, pela inventividade, pela pressa de não deixar nada em claro, para trás. Por fim, o corpo disse-lhe que por hoje já chegava, que eram horas de descansar e comer para recuperar forças, assim como assim as palavras já não lhe fugiriam. A muito custo deu por terminada a sessão e dirigiu-se para a cozinha a fim de preparar qualquer coisa para comer. Arranjou qualquer coisa rápida e simples, uma coisa que compensasse o esforço e o recompusesse, que lhe desse ainda algumas forças para continuar se assim quisesse, se assim determinasse. Mas estava demasiado cansado para continuar. Pensou apenas, enquanto bebia café e fumava um cigarro, que deveria dedicar aquelas folhas com poemas, contos, novelas àquela mulher: à minha musa, apontou ele umas vezes no topo, outras no fim das páginas; e foi dormir.

domingo, 30 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

IV

Quando Benjamim Machado acordou, pouco ou nada se lembrava pelo que tinha passado. Tinha uma vaga ideia, um tanto nublada, esborratada, de ter jantado no Cabana e de ter bebido bastante e de uma mulher, ou a ideia de uma mulher, já que não se recordava do seu rosto, das suas feições, do seu corpo. Recordava-se de algumas palavras soltas, sem nexo, porque não as conseguia localizar ou colá-las numa única frase. E de ter percorrido, sem razão aparente, muitos bares da cidade e beber, beber. Sítios onde nunca antes tinha entrado, lá esteve ele encostado nalguma parede de copo na mão à procura de uma mulher que não conseguia definir. “Talvez”, disse Benjamim Machado, “talvez devesse apontar no caderno esta noite que passou… mas não, não vale a pena, não te decidiste ontem que tudo tinha acabado para ti? Então se acabou segue a tua vida”.
Era um dia normal para Benjamim Machado, com a sua normal rotina. Preparou o seu pequeno-almoço, deu comida aos gatos esfomeados e sentou-se na cadeira do pátio. Olhou para o caderno e disse-lhe “adeus, até mais não” com o olhar. E assim que se despediu e começou a beber o leite descontraidamente olhando o campo e fechando os olhos para apreciar com os outros seus sentidos aquela manhã quente, desenhou-se na sua cabeça aquela mulher. Partes do seu corpo, o seu cabelo, as suas mãos, as suas orelhas, o seu nariz, a sua boca, os seus olhos surgiam em diferentes ritmos, uns mais precisos, outros esborratados, uns lentamente demorando-se a se definirem, outros em sobressaltos, em quedas livres, rápidos, esboçados. E nesse vaivém de imagens do corpo daquela mulher, a mão direita de Benjamim parecia que ganhava vida, arrastando-se no tampo da mesa, pegando na caneta esferográfica, abrindo o caderno e iniciando uma viagem pelas linhas e folhas. Benjamim não tinha o hábito de olhar para as suas mãos, a não ser que estivesse a escrever, e estranhamente não se apercebeu do que se estava a passar. Numa mão sentia a caneca fria que levava à boca e a outra pensava ele que estava descansadamente pousada na sua coxa e apenas se apercebeu de que alguma coisa estava errada quando ouviu uma folha a ser virada. Pensou primeiro que tinha sido o vento, uma brisa que lhe tivesse aberto o caderno e que dançasse pelas folhas de papel, até que começou, aos poucos e poucos, a tomar consciência de que era a sua mão que dançava, e não o vento nem uma brisa, no papel.
Olhou para a mão e a mão parou. Assim que a sua mão se pôs em cima do caderno, Benjamim Machado começou entredentes a despejar palavras e palavras e por pouco se ia engasgando, porque antes de parar a sua mão tinha tragado um bom bocado de leite. Levou a sua mão à boca para impedir as palavras de saírem, mas ao evitar uma das suas mãos a escrever e ao mesmo tempo a sua boca de falar, foi a vez da sua mão esquerda que segurava a caneca escrever no ar com o leite a ser espalhado por tudo o que era sítio. Benjamim começou a ficar assustado, não percebia o que se estava a passar, estaria ele possuído? Benjamim riscou automaticamente esse argumento da sua cabeça, “no máximo estou ainda a dormir, só isso” dizia ele. E tudo parou.
Os gatos lambiam o leite que lhe escorria pelas pernas abaixo até aos pés. Respirou fundo e entrou dentro de casa. “Não, não estou a dormir, se calhar tenho epilepsia e isto foi o princípio de um ataque, ou então foi da noite passada e é apenas o meu corpo a encontrar uma forma estranha de expulsar algum álcool que ainda resta a percorrer pelas minhas veias”, dizia Benjamim Machado despindo-se e entrando na banheira para tomar um duche. Mas, uma vez debaixo de água morna, deixando-se relaxar sentindo o quente no pescoço e encostando a cabeça ao braço livre que se apoiava na parede, fechou os olhos e de novo lhe vieram pedaços do corpo daquela mulher, como pequenas fotografias, pequenas polaróides e tudo recomeçou. Estando as duas mãos de certo modo ocupadas, uma segurando o chuveiro, a outra na parede, a sua boca começou a trabalhar dizendo palavras atrás de palavras até se aperceber do que se passava. Num sobressalto, a mão que estava na parede tapa a boca abafando a sua voz impedindo qualquer som de ser proferido, mas Benjamim já se tinha esquecido do que se tinha passado no pátio, isto é, ou se pára tudo ou não, e mal se deixou de ouvir a sua voz a mão que segurava o chuveiro começou a escrever com água nas paredes da casa de banho, na cortina de plástico, na janela, nas toalhas que o iriam secar, em todo o lado. “Oh merda, só me faltava mais esta, agora tenho que limpar tudo”.
Tudo quanto Benjamim fizesse acontecia-lhe a mesma coisa. Quando tentou secar a água na casa de banho ele e a esfregona escreveram o secar da água, quando tentou preparar o seu almoço por pouco se ia matando ao impedir a faca de continuar a lascar a mesa da cozinha, ia partindo uns quantos dentes a lavá-los, quando tentou ligar para o seu emprego para dizer que não iria trabalhar, se não se tivesse controlado mesmo muito, tinha gasto todo o seu dinheiro em chamadas internacionais. Não havia nada que fizesse que o não pusesse a escrever. Benjamim Machado estava realmente assustado, tinha medo de sair de casa, o que os outros pensariam daquilo, e se ele não conseguisse evitar, tomá-lo-iam por doido, de certeza, um doido varrido, fechá-lo-iam num hospício e bye bye Benjamim Machado. Fechou-se no quarto todo às escuras e tentou pensar bem naquilo:
“Já percebi que isto não é um sonho, nem é o meu corpo a expulsar o álcool, nem epilepsia. A causa disto só pode ter sido aquela mulher da noite passada, só pode. Ela mais aquelas palavras, «eu sei qual é o teu desejo, la la la la la». Mas ela nem sequer existe, ninguém a tinha visto a não ser eu e eu perguntei às pessoas e ninguém a viu, por isso ela não existe. Tudo não passou de ilusão. Mas se foi ilusão isto não pode ser real e está a ser real. Se foi ela então como pode ter sido ela. Mas faz sentido que tenha sido ela, só pode. Ela não disse que me conhecia, que sabia o que eu queria, não me disse que eu a amaria, e a verdade é que não a consigo tirar da minha cabeça. E se fôr isso… e se ela fôr…claro é óbvio, claro, claro, ela é uma…”.

sábado, 29 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

III

Feito doido Benjamim correu de uma ponta a outra a praça. Não prestava qualquer atenção a quem passeava, afugentava os pombos, punha os cães a ladrar, provocava quedas com encontrões, assustava todas as mulheres e raparigas agarrando-lhes pelo braço fazendo-as rodopiar pelos calcanhares para o enfrentarem, para lhes ver a cara e nem se desculpava pelo seu comportamento. Estava transtornado. Nunca ninguém lhe tinha prestado atenção daquela maneira desprendida, daquela maneira desinteressada, para não falar da estranha conversa que tinham tido. O que é que ela queria dizer com tudo aquilo, como é que ela o poderia conhecer se nunca se tinham visto? Seria ela uma espiã, andaria ela escondida entre as ervas no campo observando-o diariamente, quereria ela passar-se por Mefistófeles, o que era isso de ela lhe conceder um desejo, de muitos já a terem desejado e ela se ter entregue, seria alguma prostituta? Não, não seria uma prostituta, uma mulher da rua, nem essas se dirigiam a Benjamim Machado. E como poderia ela desaparecer assim tão rapidamente, depois de lhe ter dito que ele a amaria como nunca tinha amado ninguém. É preciso ter muita lata.
Benjamim não sabia o que fazer. Estava cansado, transtornado, nervoso, confundido. O seu coração palpitava, corria dentro do seu peito. Os seus olhos percorriam todas as caras, as ruas, as travessas, as esquinas, as sombras. Ela não estava em lado algum. Sentado num degrau do passeio debaixo de um dos arcos Benjamim tentava recuperar o fôlego, acalmar as doidas batidas do seu coração, apagar da sua cabeça aquelas palavras e tentar apresentar o mais nítido que lhe fosse possível a imagem daquela mulher, mas ela estava desfocada, o espelho estava gorduroso, o corpo dela em contraluz. “Espera, espera por mim”, dizia entre dentes para si próprio, “espera, não fujas”, mas ela tinha-lhe escapado, sabia-se lá onde ela poderia estar agora.
Pensou então Benjamim que, como ela também bebeu no restaurante talvez também bebesse noutros lugares. Por isso ele, Benjamim, percorriria todos os bares da cidade, procurá-la-ia na contraluz de todas as mulheres que se encontrassem nos bares da cidade, vê-la-ia em todos os espelhos mal lavados e uma vez vista, definida no frente a frente, tentaria perceber o que ela queria dizer com aquilo.
E assim fez Benjamim Machado. Um a um, foi entrando em todos os bares da cidade. Colocava-se, onde lhe era possível, de frente para as luzes e para os espelhos enquanto bebia qualquer coisa. Ficava a ver os corpos a delinearem-se com uma aura de luz à volta, tentava perceber nos gestos e nos feitios distorcidos dos espelhos aquela mulher, fechava os olhos e por dentro da música procurava ouvir a voz dela. Mas, claro, depois de alguns bares não só todas as mulheres, como todos os homens e ele próprio, eram imprecisos, desfocados, pouco definidos, grosseiros. “Perdi-a, perdi-a para sempre e nunca a tive, nunca a vi, mesmo tendo estado a poucos centímetros dela, nem o seu cheiro lhe apanhei. Perdi-a”.
Cambaleante e cabisbaixo, tentando manter-se direito, apoiando-se uma vez ou outra numa parede, numa coluna, e sempre olhando para o chão, Benjamim dirigiu-se para a Praça do Lagrido. Amanhecia. Desatrelou a sua querida e adorada bicicleta e partiu equilibrando-se sabe-se lá como. Quase não havia carros na estrada. Varriam-se e lavavam-se as ruas, regavam-se os jardins, ia-se acordando, o dia estava cinzento e as folhas despediam-se do orvalho. Não lhe pareceu longa a viagem, mas o Sol conseguiu subir mais rápido do que a chegada de Benjamim a casa. Os gatos já o esperavam para o pequeno-almoço miando quando o viram chegar, correndo pelos telhados vizinhos e das ervas do campo.
Deitou-se na cama mal se despindo e adormeceu perdido nos lençóis.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

II

Disseram-me um dia Rita põe-te em guarda…
Não, desculpem, estava a brincar.
Agora a sério.
Disseram-me um dia que o que havia de mais belo na noite era o inesperado, o encontro entre estranhos. Vaguear sem saber bem para onde, entrar em ruelas e travessas desconhecidas, ou atravessar as que conhecemos sobre a nova luz da noite, onde os candeeiros, acesos, apagados ou intermitentes, transformam as casas, as caras de amigos, fazem surgir sombras imprevistas. Quantos amores e desamores se fizeram na noite? Quantas viagens magníficas não se iniciaram num momento súbito, e por uma ideia quase idiota, quando a Lua vai lá no alto cobrindo-se e descobrindo-se com as nuvens?
Benjamim não esteve com meias medidas. Quando se deu conta do breu que o envolvia, do frio que a sua fina roupa deixava entrar, levantou-se de imediato mandando aquele torpor do dia para os diabos. “Se não vivi no papel, que viva este meu verdadeiro papel. Tenho que cair em mim e assumir que não sou mais do que um anónimo entre anónimos” pensou, “vou sair, comer fora, beber, falar com os meus pares e para o diabo a poesia e a literatura”. E assim fez. Entrou em casa, vestiu uma roupa mais adequada para o frio, colocou o seu chapéu de pele de coelho preto, certificou-se se tinha dinheiro na sua carteira, pegou na sua bicicleta e pedalou para a cidade.
Parecia outra pessoa, um novo homem, cheio de esperança e alegria nos seus olhos e rosto. Sorria quando a brisa lhe raspava na cara. Por quem passasse cumprimentava com brio, aos idosos tirava-lhes o chapéu, aos adultos baixava a cabeça com reverência, aos mais jovens e aos da sua idade acenava sem qualquer contensão. E os cumprimentados respondiam como se fosse comum, como se Benjamim fosse um amigo e companheiro de longa data que já não viam há muito tempo. Era aquilo que precisava, não uma frase a seguir a outra, não. Precisava daquele calor humano, daquele entendimento sem pedir nada em troca que, tirando raras excepções, apenas entre verdadeiros amigos sucedia. Toma, leva, dou-te, porque sim e eu estou bem assim.
Em poucos minutos assomou a uma das portas daquela cidade velha. De fora era uma imagem estonteante. Pesada e amuralhada cidade de casas brancas que se elevava num mínimo monte imperceptível. Do frio nem vê-lo, com tanta pedalada lá dos arrabaldes para aquilo que se poderia chamar um centro. Toda de granito cinzento-escuro, a cidade iluminava-se com velhos candeeiros amarelos e janelas que deixavam atravessar as luzes dos interiores das casas. Benjamim acelerou o movimento das suas pernas e meteu-se por entre um parque de estacionamento exterior apinhado de carros, rolotes de hambúrgueres e cachorros, cães vadios à procura de restos e limoeiros repletos de frutos cheios e amarelos. Circulou um pouco por entre as viaturas estacionadas e, passando rente às habitações coladas às muralhas, entrou então pela porta que o levaria ao coração da cidade. Àquela hora da noite, dez horas, não havia muito trânsito, por isso pôde abrandar a sua velocidade e lentamente dirigir-se pela Rua das Águas Paradas que cortava, mais ou menos a meio do curso, o largo Jaquim Tonto a guiar onde se encontrava o teatro municipal, com o nome desse renascentista do cancioneiro geral, Garça de Esposende. Nessa praça, que agora é um jardim, não havia vivalma, por isso decidiu não parar aí e seguir caminho. Sentia já um calor por todo o seu corpo e a sua cabeça, debaixo do chapéu, começava a transpirar.
Quando chegou finalmente ao centro da cidade, deixou-se deslizar enquanto procurava o sítio ideal para estacionar a sua adorada bicicleta. Como a praça, o coração daquela cidade, se encontrava repleta de gente, pensou que o melhor seria atrelar a sua querida e adorada bicicleta num gradeamento junto a um Banco, onde os polícias costumavam fazer a sua ronda, isto é, com os seus pés bem fixos aos paralelepípedos cheios de cagadelas de pombo e mirar à volta a paz do dia-a-dia. “Aqui de certeza que não ma roubam, espero eu, embora uma vez já a tenha estacionado nas redes à volta das piscinas públicas, onde há sempre gente, e me tenham roubado o selim, o que foi um bocado chato para dizer a verdade”.
Depois de ter posto a corrente e o cadeado na roda e à volta de um pilar, dirigiu-se em passos lentos ao longo do passeio por onde descem as ruas para fora da cidade. Às escondidas dos olhares, sorrindo, relembrou uma sua ideia. Transformar toda aquela cidade numa espécie de Veneza com a praça como um amplo lago e aquelas ruas à sua esquerda, a Demão Baralho, a da Moela, a do Raio do mundo, como longas quedas d’água ou rápidos até lá ao fundo. Mas isso nunca iria acontecer, por isso nem abrandou o passo e, mais rápido agora, cortou à esquerda, desceu e entrou no restaurante A Cabana, o seu lugar de eleição. Deu as boas noites ao dono e a um dos empregados e sentou-se ao balcão, como era seu costume, lá ao fundo perto da cozinha e da televisão onde costumavam passar os jogos de futebol. Pediu uma meia dose de vitela em molho de tomate, acompanhada de arroz branco e batata frita (que lhe lembrava sempre o sabor das refeições que fazia, quando miúdo, em casa da sua mãe) e uma taça de tinto, que em três golos se esvaziou, tendo, por isso, de pedir outro enquanto esperava.
Foi, porventura, neste restaurante que tudo começou a mudar, a dar uma pequena reviravolta. Uma imperceptível viragem de cento e oitenta graus, que Benjamim Machado não se deu conta senão um dia mais tarde. Enquanto ia dando garfadas na sua refeição e goles no seu copo de vinho, o balcão ia se enchendo de pessoas, de todo desconhecidas dele, e nenhuma se sentava a seu lado. Isso também não o incomodava por aí além, estava de facto habituado ao isolamento e ao silêncio, ao pouco contacto para além dos seus gatos. Ele não era muito conversador, mas a sua inércia nos diálogos, que uma ou outra vez se iniciavam com ele todos os dias nos cafés, nos mercados, nas várias lojas, também nunca lhe pediam um enorme esforço de troca de palavras, bastava-lhe ouvir. Residia aí a virtude de Benjamim Machado. Ele era um muito bom auditor alheio, um confessor das tristezas e dificuldades do dia-a-dia de vendedores e lojistas, dos pais e mães de famílias partidas por dentro, dos homens e mulheres incapazes da entrega pela entrega.
A verdade é que Benjamim Machado tinha saído de sua casa pela primeira vez para procurar exactamente o contrário. Benjamim queria o contacto, as conversas que desviariam do seu pensamento a sua incapacidade finalmente descoberta, de não poder ser o escritor e poeta que sempre desejou vir a ser. O banco que o separava não o incomodou e tinha em seu favor um copo bebido a mais que os restantes. Sem se virar para um interlocutor em particular proferiu em voz alta uma ou outra frase, um isco, a ver se alguém cairia na sua arola. Mas tudo o que conseguiu foi um desdém completo de toda a gente que se encontrava em alta vozearia, nem uma alma o escutou ou, se o ouviu, preferiu deixar para si a resposta que Benjamim tanto queria ver presa na sua rede. Preferia que se tivesse criado aquele inoportuno silêncio, aquele isolamento de palavras seguido de olhares para aquele que provocou o calar das vozes. Mas não, nada disso, ninguém lhe mordeu o isco, ninguém lhe respondeu, ninguém, nem mesmo o empregado atrás do balcão se aproximou numa tentativa de esclarecer se lhe foi pedido mais alguma coisa ou não.
Pensou Benjamim Machado que quem cala consente, que de certeza a sua frase chocou com alguém e que essa pessoa apenas determinou que a um bêbado não se responde, não se dá trela, e o que é certo é que esse silêncio de resposta consentia o levar avante mais copos bebidos e disparatadas frases disparadas para o ar. E das duas escolheu uma hipótese, pediu mais um e outro copo de vinho, pediu que enquanto vissem o seu copo vazio o enchessem e assim foi, sem qualquer necessidade de mais troca de palavras, de contacto.
“Trago vestido o fato do anónimo que nunca quis ser e que me serve na perfeição, ninguém me vê, ninguém me ouve”, pensava Benjamim Machado de cabeça pendida no prato à sua frente. Mas eis que, quando levantou a sua cabeça para o copo que lhe fugia, se lhe depara o seu reflexo no espelho corrido na parede atrás do balcão e de todos os seus outros anónimos companheiros. Tinha-se feito aquele silêncio que ele tanto quis quando antes disse alto a sua frase de isco, mas ele não tinha dito nada agora que causasse esse efeito. Ele sabia que não tinha dito nada, ou teria pensado em voz alta? Naquele momento já não estava certo de nada, mas todas aquelas caras estavam no reflexo viradas para ele e no entanto Benjamim continuava a ouvir muito, muito ao longe, por trás de muitas camadas de panos, as conversas que, sabia, não lhe eram dirigidas. Desviou o seu rosto do reflexo e procurou à sua esquerda a verdade daquele acontecimento. Estava enganado. Tudo corria como antes, o empregado corria de um lado para o outro trazendo e retirando pratos de cima do balcão, casais, amigos, conhecidos e famílias conversavam, brincavam entre si, comiam e bebiam sem repararem em Benjamim Machado. “Mas então o que foi isto? Juntaram-se todos para gozar comigo? Isto é alguma brincadeira? Se é, é de muito mau gosto”. Levou o copo aos lábios e voltou a olhar para o espelho à sua frente. E lá estavam todos, uma vez mais, a olharem para ele. Não era nenhuma brincadeira, eles estavam de facto a olhar para Benjamim Machado, só que não era um olhar inocente nem um olhar que ocultasse uma qualquer acusação. Também não pesava sobre aqueles olhares qualquer desdém, qualquer orgulho, tristeza, pena, não. Era outra coisa que Benjamim Machado nunca tinha sentido de um par de olhos para os seus, uma coisa que ele não conseguia bem perceber porque nunca tinha feito nada para que lhe olhassem daquela maneira. Até que lhe veio à mente que aquilo, aquele olhar, até parecia… até parecia “que me admiram, até parece que me admiram, mais ainda do que muitos pais em relação aos seus filhos, eu… eu vejo… eu vejo que me admiram e ao mesmo tempo como que me invejam, mas eu não passo de um anónimo, um ninguém como eles – Como vocês”, saiu-lhe por fim da sua boca virando-se para os outros. Mas, uma vez mais, nada, ninguém olhava, ninguém parou para o ouvir e riu-se deitando goela abaixo o copo acabado de ser enchido.
Não resistiu àqueles olhares e retornou ao espelho, aos olhos que o admiravam, que já o reverenciavam e cumprimentavam com pequenos acenos de cabeça. Todavia, desta vez, uma coisa mais se acrescentou ao quadro. Uma mulher. No banco ao seu lado encontrava-se sentada uma mulher debruçada sobre o balcão, cotovelo apoiado levantando ao alto um copo de vinho. Mas, ao contrário dos outros, ela variava o seu olhar entre o dele e o dos outros, como Benjamim Machado fazia. “Fantasia por fantasia, ao menos tenho alguém ao meu lado, do meu lado”, disse Benjamim.
“E porque me tomas por fantasia, não estou aqui ao teu lado?”
Benjamim Machado não conteve uma gargalhada, “e finalmente começam a falar comigo”.
“E porque não falaria contigo. Eu não conheço ninguém aqui, nem eu a ti, nem tu a mim. Pensei apenas que seria simpático da minha parte meter conversa contigo já que estavas aqui sozinho, como eu, e toda a gente acompanhada”.
“Se calhar bebi mesmo mais do que a minha parte. Já tenho um reflexo que é capaz de argumentar a sua própria realidade”.
“Continuas ainda a pensar que sou apenas uma fantasia. Bom, como queiras, vou entrar no teu jogo…”.
“Não, desculpa, eu é que vou entrar no teu jogo porque não passas realmente de uma ilusão dos copos que já bebi. Diz-me lá, vá, o que queres de mim?”.
“Eu não quero nada de ti. Isso pergunto-te eu: O que é que tu queres de mim?”.
“O que eu quero de ti, não sei, o que tens para me oferecer?”.
“O que tu quiseres.”.
“O que eu quiser…”.
“Sim, o que tu quiseres”.
“Assim, do nada, sentas-te aqui e dizes-me que me dás o que eu quiser?”
“Para além de bêbado também estás a ficar surdo?”
“Não, não estou surdo, ouvi-te bem. Mas… esquece, eu não quero nada e ninguém me pode ajudar. Vá, chô, vai-te embora, tu e mais todos vocês, vão-se embora todos, vá, chô. E quero a conta se faz favor”.
Benjamim Machado virou-se para o lado, começou a enrolar um cigarro e a beber o seu copo. A mulher não se incomodou com aquela desconsideração. Inclinou-se mais sobre ele, posou o copo sobre o balcão, pôs um braço à volta do banco de Benjamim Machado, apoiando a sua mão nele, e a outra na perna de Benjamim. Muito baixinho foi-lhe segredando ao ouvido e Benjamim Machado fechou os olhos.
“Está bem, eu vou-me embora, mas antes deixa-me que te diga umas coisas. Eu sei o que tu queres, o que sempre quiseste. Também sei que te envergonhas com isso. Sei o que fazes todos os dias. Conheço bem o teu desejo, muitas vezes mo pediram e eu estive do lado de quem mo pediu. Por fim, sei que és só, que vives só. É por essa razão que te vou conceder o desejo, mesmo que não acredites no que te estou a dizer, concedo-to. Tê-lo-ás, meu querido, porque me vais amar como nunca amaste ninguém. Mas como me mandaste embora eu vou e deixo-te este desejo”.
A mulher deu-lhe um beijo na cara. Benjamim Machado estremeceu de surpresa e voltou-se rapidamente, mas já não se encontrava ninguém sentado ao seu lado. Tudo tinha voltado à mesma. Benjamim procurou com o olhar a sala, até que lá ao fundo viu a porta da rua fechar-se e como ninguém entrou só podia ter sido ela a sair. Levantou-se rapidamente, pagou e correu no encalço daquela misteriosa mulher. Quando abriu a porta, lá estava ela no cimo da rua. “Espera, espera por mim” e correu rua acima. A Praça do Lagrido encontrava-se cheia de gente, mas de todas as mulheres que lá se achavam nenhuma era ela.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

meu amor morto e o seu caderno preto (uma narrativa) - Benjamim Machado

haven’t had a dream / in a long time / see the luck I’ve had / could make a good man turn bad // but please, please, please / let me, let me, let me / let me get what i want / this time
The Smiths

I

“A primeira frase é sempre difícil de se agarrar”, pensou Benjamim Machado naquela manhã de Março no seu pátio frente à cidade velha. “A primeira frase é sempre difícil de se agarrar, mas para mim já não. O problema é não conseguir terminar e dar por acabada qualquer coisa que comece e não parar de escrever. E mal ponho aquilo que se parece com um ponto final outra coisa começa a surgir noutra folha de papel”.
Ia dizendo isto enquanto enrolava um cigarro de Amber Leaf. Todos os dias, quando acordava, preparava minuciosamente o seu pequeno-almoço: um galão frio de quase meio litro, acompanhado logo de seguida por um café simples e um cigarro. Depois dirigia-se para o pátio a fim de despertar com toda a paisagem e sol. Lá fora, numa tosca mesa de madeira cheia de bolor nos pés, devido ao rigoroso inverno que tinha passado, esperava-o sempre um caderno preto e uma caneta esferográfica. Isto acontecia todos os dias, sem quaisquer alterações: sair da cama, calçar umas pantufas, entrar na cozinha, preparar o pequeno-almoço e passar para o pátio.
Alguns anos atrás, todo este procedimento não passava de uma rotina despreocupada. Tinha à sua frente todo um futuro por vir, sem obrigações, mergulhado na paisagem quase urbana, porque Benjamim Machado morava na periferia de uma cidade antiga rodeada por um campo verde e silvestre onde, por vezes, cavalos e ovelhas pastavam livremente. Muitas vezes, como agora, no intervalo de uma vírgula, Benjamim Machado ficava só a observá-los, o tempo suficiente até que outra frase brotasse na estreita linha, o que era um gesto imediato.
Mas antes deste dia de Março, em que começou a avaliar o seu dia-a-dia, sentava-se à mesa e ficava a olhar com o caderno preto aberto de par em par com a caneta na mão e esperava. Esperava que aquela primeira frase surgisse. Não queria uma palavra pequena que se colasse a outra e depois a outra e daí em diante até construir a frase que precisasse. Porque ele não queria uma frase, não. Não queria. Precisava, esta era a palavra certa. Precisava dela, pensou ele, precisava de uma frase para que aquela rotina não fosse somente uma mania. E esperava, esperava, esperava porque se aquela primeira frase não agarrasse logo à primeira aquele que estivesse a ler, então o melhor seria fechar o livro e não ler mais. Benjamim Machado fez dessa sentença o seu mote. Por isso, a primeira frase tinha de ser mágica, tinha que deslumbrar, criar um vórtice e fazer o leitor cair, mergulhar em queda livre, à volta e à volta nas frases seguintes. Tinha de embriagar, não deixar o livro fugir, escapar-se das mãos.
E o que Benjamim Machado sofria com isso naquela altura. Ficava horas e horas agarrado à caneta, de caderno aberto com as linhas prontas a serem mascarradas de tinta com letra minúscula, pequenina pequenina. E quando não sentia nada, quando nada vinha à cabeça, apagava o cigarro e punha mãos à obra e escrevia. Fosse o que fosse, escrevia. Mas logo logo riscava porque tudo era demasiado fabricado, demasiado preparado, falso, mental, diziam-lhe alguns amigos, demasiado escolhido e angustiava-se, porque nunca iria conseguir ser aquilo que queria ser, um grande escritor, o maior poeta de todos os tempos.
Lembrava-se constantemente, nesses momentos em que nada saía (e nunca nada antes lhe saía), quando leu de facto o seu primeiro livro. O prazer que sentiu foi inimaginável. Uma coisa que ele nunca conseguiu realmente explicar a si mesmo. Mas a partir daí foi lendo e lendo livros atrás de livros, sempre atento aos pequenos prefácios biográficos que acompanhavam os romances e volumes de poesia e lhe davam a conhecer os escritores e poetas vivos e mortos, mas principalmente os mortos, “porque a morte”, pensava Benjamim Machado, “a morte revive as palavras e o poeta. A morte dá a conhecer a história magnífica das pequenas e ordinárias vidas”. Por isso ele queria escrever, fazer com que a sua vida fosse um momento fulgurante que espantasse e fizesse sonhar como os outros o faziam sonhar. “A História”, e Benjamim Machado pensava-a sempre em maiúscula, “terá o meu nome e será outra”. Mas Benjamim Machado sabia que só por isso, não fazer história mas a História ser o seu nome, nunca, mas nunca, conseguiria escrever.
Até que há uns anos atrás, impaciente com tanta espera, desesperado com tanta lentidão imaginativa, lhe aconteceu uma coisa espantosa, uma coisa mágica como só acontecem nos livros fantásticos ou nos filmes. Tinha, como era seu costume, despertado rotineiramente de manhã e ficou, eu sei lá, umas boas horas sentado à mesa de caneta em punho e o caderno por desbravar. Viu os cavalos e as ovelhas pastarem e partirem, viu miúdos e miúdas irem para a escola e saírem em algazarra como se sai sempre depois das aulas quando somos pequenos, viu as borboletas transformarem-se em mosquitos e traças, os pardais em andorinhas e estas em morcegos, enfim, viu o rodar da Terra à volta do Sol e Vénus a brilhar e a Lua a começar a ser iluminada. Durante aquele tempo caneta e mão ficaram suspensas, o cigarro apagou-se-lhe nos lábios, o café arrefeceu. Apercebeu-se que nunca seria o escritor ou poeta que sonhava. O seu destino foi-lhe proscrito, adiado, proibido e pensou “Sou um anónimo”.