segunda-feira, 11 de junho de 2018

Galway Kinnell - VI. Os mortos erguer-se-ão incorruptíveis (cont.)


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No ecrã da televisão:

Tem um corpo que sua?
Suor que tem odor?
Dentes falsos agarrando-se ao seu pequeno-almoço?
Tem receios?
Uma dor de cabeça tão perpétua que lhe sobreviverá?
Sovacos plenos de pêlos?
Hemorroidas tão grandes que não precisa de uma cadeira para se sentar à mesa?

Poderemos nem todos dormir, mas todos seremos transformados...


4
No Vigésimo Século do meu trespasse na terra,
tendo exterminado um bilião de pagãos,
heréticos, Judeus, Muçulmanos, bruxas, aventureiros místicos,
homens pretos, Asiáticos, e irmãos Cristãos,
cada um deles para o seu próprio bem,

todo um continente de homens vermelhos por viverem numa comunidade antinatural
e ao mesmo tempo tendo relações com a terra,
um bilião de espécies de animais por serem sub-humanas,
e pronto a acometer nas criaturas sanguinárias dos outros planetas,
Eu, homem Cristão, gemo este testamento da minha última vontade.

Eu dou do meu sangue cinquenta partes poliestireno,
vinte e cinco partes benzeno, vinte e cinco partes da boa velha gasolina,
ao último piloto de bombardeiro lá no alto, para que haja um acre
no mundo enfadonho onde possa florir uma flor-do-beijo,
que te beija tão longamente os teus ossos explodem nos seus lábios.

A minha língua vai para o Secretário dos Mortos
para dizer aos cadáveres, “As minhas desculpas, companheiros,
a matança foi uma daquelas coisas
difíceis de pré-visualizar – como a vaca,
digamos, ser atingida por um relâmpago.”

O meu estômago, que digeriu
quatrocentos tratados dando aos Índios
um direito eterno à sua terra, eu dou aos Índios,
também os meus pulmões que passaram quatrocentos anos
sugando em boa-fé por cachimbos da paz.

A minha alma deixo-a à abelha
que a possa picar e morrer, o meu cérebro
à mosca, as suas costas a histérica cor verde do limo,
que o possa sugar e morrer, a minha carne ao publicista,
o anti-prostituta, que por dinheiro abomina a carne humana.

Atribuo a minha espinha tortuosa
ao fazedor de dados, que dela faça dados,
por ter lançado a sorte a quem verá o seu próprio sangue
na frente da camisola e quem será seu irmão,
porque a corrida não é para o veloz mas para o desonesto.

Para o último sobrevivente na terra
eu dou as minhas pestanas usadas pelo medo, use-as nas
longas noites de radiação e silêncio,
para que os seus olhos não se fechem, porque o remorso
é como lágrimas infiltrando-se pelas pálpebras fechadas.

Dou ao vazio a minha mão: o mindinho não mais esgaravata narizes,
a escória prende-se à negra vara do anelar,
um pouco de chama inflama-se na ponta do dedo de vai-te-foder,
o indicador acusa o coração, que desapareceu,
no toco do meu polegar um fogacho pede boleia para o vazio.

No Vigésimo Século do meu pesadelo
na terra, juro pelos meus testículos de crómio
neste testamento
e última vontade
da minha vontade de ferro, o meu medo de amor, a minha comichão por dinheiro, e a minha loucura.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 42-44.

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