terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Corpo Inglorioso. Uma leitura sobre Night of the Living Dead de George Romero e o Zombie (fim)




O Corpo inglorioso
Não nos enganemos, os zombies deverão ser incluídos no pensamento em torno dos renascidos e é de acordo com o que acima foi exposto que deveremos questionar a pertinência da sua figura. Vimos anteriormente, com Agamben, o que se cumpre pensar e dizer sobre os redivivos: não é uma «essência» que retorna ao seio de Deus, antes um corpo elevado à sua máxima potência pela própria razão de uma radical aderência à sua imagem, à sua species, devindo assim um ser especial, um corpo glorioso. Este corpo, que é a sua imagem, compõe-se pelas características da impassibilidade, da agilidade, da subtileza e da claridade, bem como uma inoperância das funções e dos órgãos, uma suspensão ostensiva e ociosa das finalidades que revela, pois, a glória do redivivo. Temos nele, então, nas palavras do filósofo italiano, um arquétipo da natureza humana, um retorno do corpo adâmico não corrompido ao Éden. Ora, os zombies romerianos estranhamento partilham alguns destes elementos, conquanto se coloquem, talvez, no outro extremo do espectro, ou se apresentem como a espelhada imagem pervertida do corpo glorioso; chamemos-lhe, assim, de corpo inglorioso, já que se o primeiro se diz incorrupto, se alia a toda uma tradição teo-filosófica da espiritualidade e do Bem Supremo, na qual a imagem forçosamente refere a «essência», o segundo projecta-se num discurso político-filosófico materialista, totalmente abandonado por Deus, só no mundo desesperançado dos homens, na qual a imagem se prende à decadência do corpo material – quase como se confrontássemos, directamente e de modo tangível, a Leib e o Körper, o corpo vivo e o corpo morto, da fenomenologia.
O corpo inglorioso é, certamente, impassível, despojado de paixões, auto-regulado, auto-governado, conquanto não se guie por uma qualquer alma racional, pois está desprovido desta, cumpre somente as funções da alma vegetativa. Não é, porém, nem subtil, nem ágil; como referimos, é bastamente lento, trôpego, desajeitado. Se em tudo a subtileza e a agilidade indicavam a plena potência do corpo como máximo limite, já os zombies na sua decadência representam o limite mínimo prévio à total imobilidade, a rigidez, a inflexibilidade própria de um corpo, ou de uma máquina se se quiser, há muito tempo inactiva, inoperada, disfuncional. Contudo, parecem igualmente partilhar a claritas, ou talvez melhor uma obscuritas; são simultaneamente densos e transparentes, desconcertam o olhar com a sua fulgência nefanda, como, outrossim, foscam o reconhecimento, porque o corpo humano que se vê já não se pode dizer e reconhecer como tal. E bem como os corpos gloriosos prosseguem com os seus festins, na mais radical gula e ociosidade, embora reconduzidos, no entender de Paffenroth, à personificação dos pecados capitais1. O seu corpo encontra-se, pois então, desglorificado, desgraciado, despotenciado, de acordo com a directriz teológica: um corpo inglorioso; e é-o pela simples razão de que aderiu totalmente à sua imagem na sua forma mais torpe e decadente, a mais baixa potência, tal como eles são entendidos por George Romero enquanto a classe mais pobre dos monstros.
A sua inglória está patente na fixação e aderência à sua imagem. Enquanto o corpo glorioso congela a beleza e perfeição dos trinta anos crísticos, a par das capacidades corpóreas, reconduzidos à inoperância e ao limite da potência, o zombie permanece preso à perene imagem de decadência, de podridão, do estado de decomposição do instante do seu renascimento, do seu retorno, ou da sua morte. Mas eis que, de acordo com o que acima foi exposto, ao que respeita a sua simbolização – símbolo da corrupção da natureza humana, dos gestos baixos, dos pecados, da maldade inerente ao homem, etc. – e à crítica romeriana da sociedade norte-americana, o sentido da sua imagem associa-se ao sentido apresentado pelo corpo glorioso. O zombie será, assim, tal como o redivivo glorioso, um arquétipo; o arquétipo da natureza humana no seu estado mais primitivo e selvagem, um corpo nada afeito à téchné, no seu sentido mais lato, uma existência nada cartesiana e rousseauísta, desprovidos de linguagem, de memória (embora nas sequelas Romero desenvolve cada vez mais uma possível evolução do zombie, conquistando a técnica, um pensamento rudimentar e a linguagem). E é este ponto preciso que nos parece de maior importância, pois o que, na verdade, diferencia o redivivo glorioso do inglorioso afirma-se, justamente, no entre-dois que separa duas posições filosóficas quanto ao homem. De um lado, o teo-filosófico, espiritualista, encontramos a expressão de uma esperança no homem fundada no conceito de «essência», que nos diz não só que há uma essência unida ao divino – repetindo, por exemplo, a idade do divino na terra – que conglomera as boas qualidades do corpo e da alma, como aguarda, pelo seu retorno, a afirmação de um bem inerente ao homem (porém, esta salvação é uma falsa esperança pois só renasce o bem-aventurado, aquele que passa inocentemente no tribunal, enquanto que no caso do zombie, no retorno inglório, não há qualquer selecção, o reino é de todos e para todos); do outro lado, materialista, político-filosófico, caímos num olhar pessimista do homem, sem possibilidade de salvação, que todos são corruptos ou corruptíveis e se essência há é a que se vê no retrato de Dorian Gray, toda ela marcada pelas repetidas quedas de Adão e volta, adere ao corpo renascido. Assim, pode-se adiantar uma hipótese, a qual afere que, colocando lado a lado o corpo glorioso e o corpo inglorioso, sabendo o que os aproxima e o que os separa, Romero solicita uma reavaliação da humanidade oferecendo à vista e ao pensamento o símbolo, ou metáfora, da «essência» do homem se ele permanecer no seu trilho de (auto-)destruição, ou seja, se ele não se transformar eticamente, se o seu ethos, se o seu modo de existência não for revisto de modo radical, não haverá salvação possível, nunca o homem cumprirá a promessa, inscrita no seu corpo, de elevação a corpo glorioso, mas retornará, uma e outra vez, em permanente queda até ao mais baixo grau do seu corpo, deambulando numa terra devastada, ociosamente, com o seu corpo inglorioso.


BIBLIOGRAFIA

AGAMBEN, Giorgio
1993 A comunidade que vem, Lisboa, Editorial Presença, col. Hipóteses Actuais.
2006 Profanações, Lisboa, Edições Cotovia, col. Ensaios.
2010 Nudez, Lisboa, Relógio d’Água Editores, col. Filosofia.
2011 O Aberto, Lisboa, Edições 70, col. Biblioteca de filosofia contemporânea.
DERRIDA, Jean
2010 La Naissance du corps, Paris, Galilée, col. La philosophie en effet.
HERVEY, Ben
2008 Night of the Living Dead, New York, Palgrave Macmillan.
PAFFENROTH, Kim
2006 Gospel of the Living Dead. George Romero's Visions of Hell on Earth, Texas, Baylor University Press.
WILLIAMS, Tony
2011 George A. Romero, interviews, Jackson, University Press of Mississippi, (Tony Williams ed.).
ŽIŽEK, Slavoj
1992 Looking Awry. An introduction to Jacques Lacan through Popular Culture,Massachusetts, Massachusetts Institute of Technology, October Books (ed. Joan Copjec, Rosalind Krauss and Annette Michelson).

1PAFFENROTH, 2006: 23, “Zombies are the nadir of gluttony, eating whenever they can and as much as they can, (…). They are overcome with uncontrollable rage (…) zombies are just likely to lapse into complete sloth (…). More than any other movie monster or mythological creature, zombies vividly show the state of damnation, of human life without the divine gift of reason, and without any hope of change or improvement”. Traduzimos e sublinhamos: “Os zombies são o nadir da gula, comendo quando podem e tanto quanto podem, (…). Eles são tomados por uma raiva incontrolável (…) podem facilmente cair na mais completa preguiça (…). Mais do que em qualquer outro filme de monstros ou de criaturas mitológicas, os zombies apresentam vividamente o estado de danação, de uma vida humana sem o dom divino da razão, sem qualquer esperança de mudança ou melhoramento”.

8 comentários:

T disse...

Bem, fantástica esta análise - e acima de tudo bem trabalhada. Não julgo poder adicionar seja o que for mas talvez possa lançar alguns elementos de discussão, talvez interessantes apesar de vindos de um leigo.

Quanto à explicação da origem dos zombies, ela poderá retirar o elemento cru de terror. Geralmente concordo que a explicação da origem do bizarro muitas vezes é melhor ficar oculta do espectador ou leitor (principalmente porque é muito difícil de ser bem executada). Mas visto que os zombies são uma metáfora para a mentalidade da maioria, das massas, a participação do exército/governo pode ser uma mais-valia. O herói encontra-se só, não será salvo pelos que estão em poder pois eles também são seu inimigo. Só lhe resta tentar sobreviver num cenário apocalíptico em que a sobrevivência é tudo menos certa. Daí a importância também do facto de os zombies infectarem a doença nos que são amados pelo herói - uma ideologia, o capitalismo, o culto do não-pensar, da busca do prazer imediato ou da confiança dos que estão no poder são coisas que podem absorver aqueles que amamos, fazendo que eles se tornem parte da massa descerebrada. A luta pela sobrevivência dos mortos-vivos é no fundo a luta pela individualidade, pela sanidade e pela integridade intelectual (acho sempre piada por isso mesmo ao cliché dos zombies, por não terem um "cérebro" funcional tentam eliminar e consumir o cérebro de outros).
Por isso na minha opinião a incompetência do governo é uma mais-valia. Infelizmente já se tornou um lugar-comum neste tipo de filmes e poderia/deveria variar-se um bocado.

Um abraço.

benjamim machado disse...

obrigado T, mas devo pedir-te desculpas por não te ter avisado da minha ida a évora, segunda passada, para apresentar uma versão mais reduzida deste texto conjuntamente com a projecção do filme na harmonia. espero que me desculpes.

agradeço-te o comentário, mas tenho de discordar contigo num aspecto. a luta pela sobrevivência num mundo a ser tomado pelos zombies não pode, de todo, cair na individualidade, mas antes e justamente na anulação do ego, na procura da cooperação (se é que percebi bem, ou estás a falar da sobrevivência dos próprios zombies?) e em que sentido falas de mais-valia no que concerne ao governo? uma mais-valia o gesto de incluí-lo na crítica que o zombie de romero propõe, em vez de abstê-la de uma leitura política?
é certo que o tema da irresponsabilidade do governo e do conhecimento científico está já muito batido, porém nada ainda, na verdade, mudou. o capitalismo (p.ex. a máquina hollywood) sabe sempre aproveitar-se das críticas, inseri-las no seu discurso e repetir o gesto para a sua própria mais-valia, fazendo com que a crítica se torne num cliché e adormeça qualquer revolta. a variação seria, talvez, um filme que um grupo de pessoas visse e que espontaneamente agisse como uma massa de zombies infectando todos os outros, mas desta vez com um "cérebro funcional". o que achas?

abraço

T disse...

Sem problema.

Não concordo que a luta pela individualidade e a luta pelo ego sejam sinónimos. É possível lutar pela individualidade do próprio sem ser necessariamente movido pelo ego. Além do mais, não se trata apenas da sobrevivência do próprio - luta-se pela liberdade de individualidade de todos. Os zombies roubam as pessoas dessa capacidade para se ser um verdadeiro indivíduo. Não se trata da vontade da pessoa de ser única no meio de uma multidão de inconscientes mas sim da vontade de que a individualidade sobreviva e se proprague por todo o mundo.

benjamim machado disse...

olá t, desculpa esta demora na resposta; e, contudo, continuo a não estar de pleno acordo contigo:

se individualidade há é essa expressa, antes de tudo o mais, pelo teu corpo, isolando uma vida de outra vida, uma organização já de si comunitária de corpos. o indivíduo é uma comunidade de corpos. nasces individual (embora com um laço a outro corpo, o cordão umbilical, ou mais raramente, sendo um caso extremo, unido a outro corpo: o siâmes). a individualidade é o teu corpo. a luta, já me parece ser de outra coisa.

a individualidade que creio falares é antes uma construção da força neutra que é a vida, aquilo que fazes ao longo da tua existência ser tua propriedade. formas, formatas, enquanto simultaneamente outras vidas formam e formatam a tua. não se luta pela liberdade da individualidade, mas pela máxima potência dessa "tua" força neutra (abrir-lhe caminhos, explorar as suas capacidades, que depende em tudo dos encontros com outra vidas, estabelecendo relações de força, que tanto a engrandecem - o amor, p.ex. - ou a diminuem - o trabalho, p. ex.). várias são as estruturas, os dispositivos (foucault) que nos subjectivam, que forçam a multiplicidade que somos (a própria consciência é uma multiplicidade e não uma unidade tripartida como o aparelho psíquico freudiano) a se reger por um reinado do uno, expressado por construções como ego, indivíduo, subjectividade (essa essência única), pessoa e mesmo individualidade; é uma formação histórica, política, social decorrendo de uma normalização das forças que compõem a vida. a luta deve ser pela vida e não pela individualidade a qual recairá, o mais das vezes, no egoísmo, no egotismo; melhor, lutando pela tua vida lutas, necessariamente, pela tua individualidade, pelo corpo. aí, sim, posso concordar contigo embora recuse o termo individualidade, luta-se por uma construção desapegada dos processos de normalização. mas parece-me que a questão do zombie está a ser lida por ti de modo diferente; e já te respondo porquê depois de vir com os cães da rua.

abraço

benjamim machado disse...

eu entendo o zombie como um símbolo e uma metáfora daquilo que, se houvesse ressuscitação, o homem pode vir a ser, tal como george romero nos apresentou; ou seja, vendo que o homem falha, quaisquer que sejam as razões, no cumprimento da grande promessa do humanismo, ou da metafísica, ou da ligação ao divino no pensamento religioso (o bem, a liberdade, a felicidade, etc., não cumpre a universalização desses conceitos), o seu retorno não advirá num corpo glorioso mas antes inglorioso, na fixação ou congelamento de uma imagem que reúne todos os erros, as falhas, os "pecados". não são, pois, os zombies que nos roubam do quer que seja, somos nós; e também nada nos diz que o zombie não é uma individualidade, é-o. mas gostaria que me elucidasses quanto ao que entendes como próprio, o quê em ti, com probidade, podes afirmar como sendo próprio a ti: o que corpo? a tua "essência"? a tua subjectividade?

não se rouba a individualidade, rouba-se a vida. e o que é ser-se um verdadeiro indivíduo?

um grande abraço

T disse...

Antes de mais obrigado por te dares ao trabalho de me dar aqui umas explicações. Começo a perceber melhor no que é que estamos a diferir. Falamos no fundo de coisas diferentes.

A definição do próprio é daquelas questões que se mostram impossíveis de responder. Apesar de me considerar um evidencialista é difícil não recorrer a palavras como "alma" ou "essência", nem que de forma poética. A forma mais correcta de responder, se bem que talvez reduntante, é que o Eu é tudo o que não seja o Outro. A minha identidade depende por tanto de onde estão colocados os limites (auto-impostos ou não) da minha realidade. A individualidade será mais fácil de determinar pelo corpo, através da nossa identificação de objectos físicos, mas não é apenas o corpo que determina o nosso conceito de indivíduo. Ou estarei a confundir com "identidade"?

E concordo que não se pode roubar a individualidade de alguém, mas pode-se criar uma cultura em que aquilo que sair mais da norma é castigado (e tal é a natureza humana por várias razões) e se incite a uma forma pré-estabelecida de pensar e de viver ao longo das gerações. Não é uma acção directa como roubar a vida a alguém e penso que todo o género de filmes sobre mortos-vivos poderão ser entendidos como uma metáfora a este fenómeno, tal como poderão ser entendidos como metáforas em relação a outras coisas.

Já agora, o que entenderias por um corpo glorioso? Um corpo que simbolizasse nele todas as virtudes do ser humano? E se sim, que virtudes?

(À parte da nossa discussão, penso que terei visto a Cristina num bar cá em Évora, se não ela alguém muito parecido. Hesitei por dúvida e não lhe falei. Caso tenha sido ela, manda-lhe um abraço que ficou em falta)

benjamim machado disse...

t,

não tenho bem a certeza, mas parece-me que os problemas que estás a levantar acerca da individualidade se aferem antes à identidade. porém, também esta, para além de ser uma mistura, é uma construção levada a cabo por diversos dispositivos de normalização (uma vez mais, a leitura de foucault informa-nos disso). nesse caso falamos de uma luta por uma identidade - que mais de ser única é uma multiplicidade de forças (internas e externas ao corpo) em relação (de poder). não sei, sinceramente, até que ponto o Eu (mais correcto: eus) é tudo o que não seja o Outro; estamos imersos no mesmo Real, contruímos, contudo, mundos diferentes, ou seja, Realidade(s). eu não posso ser tudo o que não seja o Outro pela simples razão de que o Outro me toca e marca a sua marca no meu corpo, na minha identidade transformando-a qualitativamente. um modo de existência - o "ethos" ou o estilo, em foucault, deleuze, nietzsche - ou modo de subjectivação, a sua criação, a sua ascese (prática), o seu "telos", tudo isso nos diz mais sobre a identidade que, propriamente, a "essência".

uma cultura que define a norma e o seu fora, bom, que outra cultura há? nascemos numa exactamente assim, a qual desde o século xix, senão antes, se vem intensificando cada vez mais. sinceramente não sei, t, que outra cultura será a ocidental (onde nasci e da qual posso falar).

o que seria um corpo glorioso? o nosso é já um; a disciplina e a norma não nos elidem as forças, bloqueiam-nas, esquadrinham-nas, modelam-nas. forçoso é mobilizar-nos para a constituição de um modo de existência que potencie essas próprias forças. não sei se poderei falar em virtudes; sei que poderá haver um fundo de verdade (e o que será isso?) nas tão defendidas pelas religiões e filosofias embora sujeitas à crítica, ao relativismo. mas - e talvez seja uma forte influência das minhas leituras de adolescência sobre o anarquismo - mais do que uma ética ou moral essencialista e transcendental dever-se-ia lutar por uma ética vitalista ou materialista e imanente sujeita ao acontecimento: tudo começa no encontro entre dois corpos "despidos" ao máximo (e esse é já um trabalho ético de cada um para si) de qualquer conceito moralista, nús de "virtudes" e "pecados"; e os corpos procuram moldar-se um ao outro, carne com carne (metaforicamente e não). nesse encontro e nesse acontecimento (e o que interessa é somente esse instante) os corpos serão gloriosos, alguma coisa "maleficamente boa" surje: amor, amizade, respeito, responsabilidade, numa palavra, anarquia. esse momento, como um corpo se adequou ao outro não se repete noutro corpo; o terceiro corpo que surgiu no encontro não responde ao que vem ao encontro/de encontro. a cada instante, a cada acontecimento o seu encontro de forças, a ética cria-se e se dissipa de imediato para de novo ser criada. assim, o corpo glorioso igualmente está em contínua construção, simbolizar-se-á (e o símbolo significa, antes de mais, reunião de sentidos, encontro estético, de corpos de sentido(s)) se quiseres deste modo - mas eu tenho de pensar muito nisto e isto, talvez, nada mais seja que baboseira.

bela discussão. se tivesse facebook clicava logo no like (eheheh).

abraço

(a cris também manda. ela disse-me que esteve no bar da moeda, foi aí que achas tê-la visto? ou na harmonia?)

T disse...

Sem problema em relação a atrasos, está a valer a pena esperar.

Quanto a eu ter usado como mecanismo de identificação do Eu (e falas bem em referir eus no plural) a oposição em relação a tudo o que é outros, não estou a separar o indivíduo do colectivo. O outro é precisamente fulcral para criar a identidade do próprio, pois sem a presença de um outro(s) não há nada com que o indivíduo se possa constratar e determinar-se a si próprio. Aliás, segundo Winnicott é precisamente pela interacção com o outro e pelos sentimentos que o outro desperta (nomeadamente a agressividade) que se desenvolve a necessidade da diferenciação do self, já que o bebé na sua natureza egocêntrica vive quase que num uno primordial com tudo - todos estão ligados pois todos fazem parte do reino do bebé que é até esse momento de separação, essencialmente, centro e periferia do universo. Após isso, ao longo do crescimento, é em conjunto com os outros que se estabelece e consolida uma identidade.

Na realidade o objectivo do indivíduo é obter uma reconciliação consigo próprio e com as suas identidades e uma reconciliação com o chamado "mundo externo" e os que nele habitam. Procura-se uma gestão equilibrada e prazerosa de todos os indivíduos que constituem o Eu e todos aqueles que constituem o Outro. Procura-se um ponto ideal de satisfação do indivíduo em que este sirva também um propósito para os outros e para a sociedade (aliás, é essencial para o sentimento de felicidade de um indivíduo a noção de que este contribui em algo para o seu mundo e para a sua raça - é essa a natureza humana quando não deturpada por séries perturbações neurológicas ou desenvolvimentais). Eu entendo este género de filme como um cenário radicalista em que pelo poder da metáfora se força a separação do Eu e do Outro para representar uma luta pela identidade do indivíduo, que julgo ser uma das questões essenciais no mundo ocidental se não de todo o ser humano.

(Estive no bar da moeda, lamento não lhe ter falado então)