terça-feira, 21 de abril de 2015

a decisão (iii)

 Dirigi-me para a direita, segui a rua até ao seu final, passando a piscina pública transpirando a lixívia, a igreja presbiteriana ou russa ortodoxa, sinceramente não sei se uma ou a outra, sei somente que quando há ofício os homens vêm de fato escuro, todos muito semelhantes entre eles e, muitos deles, com chapéus e as mulheres de saias compridas e camisas brancas com folhos e xailes floreados, ou de tons igualmente escuros. Subi a passagem que se dirige para o Hospital público e guinei para o parque que segue o curso do rio, pelo menos assim julgo me ter conduzido longe do prédio, do pátio interior, das escadas que sobem até ao apartamento, da porta limitando-o, dela e desses últimos instantes. Eu já nem sei precisá-los. O que aconteceu está demasiado embrulhado. Sei que falámos, trocámos palavras, discutimos ideias, sei que se acendeu qualquer coisa entre nós, em cada um e, depois, tudo ficou indistinto: veio o descompasso do coração, o tremor das mãos, a secura da língua, o deserto salgando as cordas da garganta, a respiração desenfreada, como se naqueles reduzidos metros do apartamento tivesse corrido a maratona, a ausência do sexo na voz, a variação de silêncio, austero, monástico, aquático, as bombas auriculares estagnadas nos meus ouvidos como se o crânio, um terrível senhorio, tivesse desalojado o cérebro e no seu lugar hospedado o coração, viajando por este corpo acima, tal era o industrioso labor do sangue nos tímpanos. E de vez em quando a sua maviosa voz falando, sobressaindo do silêncio ou tirando a minha cabeça da lama em que chafurdava para de novo ser mergulhada. Começou também nesse momento a desrealização da realidade, o que os olhos viam era uma ilusão, o que percepcionava ou quem percepcionava já não era eu, ou era eu vendo-me a ver e desacreditando da realidade. Não sei se me consigo explicar melhor: era eu que ali estava vendo mas como se tivesse outros olhos por trás dos meus olhos vendo em duplicado, vendo o que eu via sem me ver a ver, sem me vendo. Não era uma experiência de desmaterialização do corpo, eu não tinha saído de mim mesmo e pairava brumosamente em torno de mim vendo-me. O que se passou foi isso que estou a tentar dizer: eu via, eu estava ali e via, mas o que via era estranho, como se eu estivesse a ver o que acontecia de modo diferente ao que estava acostumado a percepcionar. Eu tinha-me tornado estranho a mim mesmo. Alguém estava no meu lugar e esse alguém era eu. Eu via o que eu estava a ver, não com um atraso, mas simultaneamente, em duplicado. Talvez por isso tudo estivesse a ficar confuso, ou ainda esteja ou me explique confusamente.

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