sexta-feira, 26 de julho de 2013

Carlos Alberto Machado





Título - Hipopótamos em Delagoa Bay
Autor - Carlos Alberto Machado
Editora - Abysmo

Depois das guerras políticas e nacionais, das fraticídas e civis, apresenta-se hoje um livro sobre o processo revolucionário, os seus sonhos e erros. Um livro que procura intrometer-se, precisamente, no espaço afiançado pela segunda epígrafe que antecede a ficção. Nela, pode ler-se, pelas mãos de Félix Guattari e Gilles Deleuze: “O livro-máquina de guerra, contra o livro-aparelho de Estado” (p.13); tal como uma revolução, essa suspensão ou acontecimento, para alguns filósofos. Mas o que é, justamente, uma revolução, o que propõe? E não será antes a insurreição, o gesto de suspensão por excelência, o acontecimento em si, escapando à verdade e ao tempo, que se afirma, afinal, como uma irrupção da vida, a nómada máquina de guerra que se opõe ao monólito do aparelho de Estado? Diria que sim, uma vez que o aparelho captura a máquina, apropria-se do território suave estriando-o e da insurreição, do acontecimento intempestivo, se faz o acontecimento crónico a inscrever-se numa História, do gesto passa-se para o processo que destrói, apaga, erradica, escolhe segundo uma linguagem de poder e saber que busca cortar com o passado. Daí, talvez, a recorrência, a repetição da pesada frase de pretérito imperfeito: “Era a Revolução”.
Este é o primeiro romance publicado – pois creio que haja outros na gaveta – de Carlos Alberto Machado (1954), poeta e dramaturgo afirmado na literatura portuguesa, embora escape tantas vezes aos críticos e aos meios publicitários, já que a sua longa produção foi toda criada à margem das grandes casas editoriais. Deve-se a ele e à sua companheira, igualmente, uma das mais novíssimas editoras, a Companhia das Ilhas, sediada na Ilha do Pico, a qual tem apostado nos géneros mais desfavorecidos pelo mercado nacional, tal como a poesia, o teatro, o conto breve; e a preços incrivelmente reduzidos, dando oportunidade, quer a autores já reconhecidos, quer a desconhecidos. Essa é uma das suas aventuras literárias, outra é este romance sobre Moçambique.
Não se pense ser “Hipopótamos em Delagoa Bay” um romance histórico, tendo embora o autor feito a sua investigação in loco, graças a uma “Bolsa Criar Lusofonia”, bem como se socorrido de obras históricas e crónicas várias. Este é um livro-mistura, mostrando exemplarmente de onde vem o autor no campo da literatura e da vida. Saltando tempos, seguimos a genealogia da família Quaresma, entrecruzando-se com vários momentos da História de Moçambique, a revolução de Abril e a luta pela independência e o seu processo revolucionário, mas não é aqui que melhor se entende o que afirmei do autor nem a mistura. A estrutura do romance não segue as regras nem a forma de um romance típico, encontrando o seu fundo experimental no seio desses romances que o tornaram o género do século xx, aventura que poucos ainda prosseguem; mas se, por vezes, o experimentalismo narrativo se revela frio, demasiado racional ou mental, Carlos Alberto Machado introduz o que o distingue, o seu traço, o de um homem que fez vida no teatro. Contra o frio e o mental o autor propõe palavras-afectos, palavras que têm de ser ditas oralmente, forçam-nos mesmo a dizê-las e este é um processo singular: as personagens não precisam de caracterização física nem psicológica pois elas ganham corpo somente pelo afecto do discurso, enredado nele; os seus discursos nem provêm do espaço solitário do pensamento tantas vezes analítico, são palavras que vêm do corpo, com sangue, batidas de coração vindo à boca, não sendo elas menos racionais ou menos solitárias, simplesmente estão vivas. Uma escrita que do papel nos move a boca. E entre estes afectos, as palavras e acontecimentos que fizeram Moçambique e a sua revolução. A palavra-afecto pertence à insurreição e à máquina de guerra nómada, o inverno mental e o processo revolucionário pertence à máquina-aparelho de Estado.

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