segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Rui Nunes




Título: Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?
Editora: Relógio d'Água
colecção: Ficção Portuguesa

Este mês surpreendi-me como há muito não mo fazia. Também é certo que este mês muito me angustiou. Tempo de férias, solarengo, mareado, deixando o sal formar nova pele e encrespar como um banco de argila ou cobra depelando-se. A cabeça, claro acompanhou a liberdade das marés e, em vez de como um rio seguindo o seu rumo – que seria eu a trabalhar, seguindo um trilho e meta delineados até setembro, buscando outro percurso com o princípio do ano lectivo –, fui mergulhando em livros, um atrás de outro, atrás de outro. Assim, fui sendo acometido por contínuas ondas de prazer e angústia, vazando-se as últimas somente quando escrevia um pouco – por descarga de consciência, como se costuma dizer – ou me quedava em plenas horas de ócio e espuma junto da minha companheira.
A decisão da escolha do livro deste mês deve-se essencialmente às questões que me propôs o autor. Já dele aqui falei, escrevi; um dos mais excelentes e pouco lido escritor português, Rui Nunes. E a obra de agora é “Que Sinos Dobram Por Aqueles Que Morrem Como Gado?”.
O autor, como já anteriormente aqui disse, é um estilista deslumbrante. Como assim? Podemos etimologicamente recuperar o conceito de estilo em estilete, pequena faca de fina e aguda lâmina de corte afiado e acutilante. O seu rasgo superficial abre um tremendo abismo no corpo que fere, marca, escarifica a pele do corpo. O corpo aqui é a linguagem e cada palavra, ou frase, o golpe ou incisão do estilete guiado por mão certeira. Mas o estilo é também uma vida, faz uma vida, um modo de existência; e com Rui Nunes descobrimos uma verdadeira “existência de papel” - tão avesso que é a entrevistas, a manifestações públicas. Percebemos o seu estilo imediatamente, na rarefacção da linguagem, na lengalenga dos motivos e temas e, no entanto, nunca nos deixam de tocar com o seu estilete. Cada livro seu surge como uma nova aproximação à vida no seu mais baixo grau, na sua fragilidade, fealdade, estranheza e decadência; e, por essa mesma razão, com a recorrência dos temas, é mais a forma, o ponto de vista tomado pelo lado exterior, do que o conteúdo o que mais imediatamente se transforma ao olho do leitor – veja-se, por exemplo, o seu último livro, “A mão do oleiro”, onde tudo nos diz ser um poema. Há, assim, sempre uma pergunta na ponta dos dedos que seguram os seus livros: como me irás ler? O leitor deve transformar-se na coisa amada, a cada livro, a cada autor e neste, propriamente, a pergunta e o pedido são gritantes.
O romance – romance? – sustenta-se sobre duas narrativas, visualmente claras e distintas, porém as mesmas. Nesta edição de 1995 – ignoro se já se esgotou e se foi reeditado (era bem bom) – as páginas pares são um diário e as ímpares como que a história, os acontecimentos que alimentam os dias e perfazem a escrita diarística. O diário, de uma só voz é, contudo, habitado por outras mais vozes – a mãe e Gil, no 42º dia, já próximo do final – e relata-nos a queda de um corpo pelas mãos de uma gravíssima doença, que corrói lentamente a vista, os pulmões, assemelhando-se a uma velhice precoce consumindo o corpo a uma velocidade alucinante. Do lado da narrativa descobrimos e conhecemos os agentes, as “personagens”, vozes com nomes, nomeadas como Pedro – aquele que escreve ou, porque não, dita o diário – amante em segredo de Gil, que por sua vez vive em união de facto com Áurea e os seus dois filhos, a mãe e outras vozes – assim mesmo escritas e apresentadas, nomeadas – e também uma RK, morando fora do país e que cremos, pela nossa parte, ser a Riki de “O Mensageiro Diferido”, a obra que anteriormente apresentámos. Vamos conhecendo num fluxo de linguagem diálogos desencontrados, monólogos em sintonia, como uma opereta da solidão, desencontros, enganos, amores de conveniência, desejados; e a doença que vai contaminando, por interferência mais do que contágio infeccioso, todas as vozes, ruindo os hábitos, desfazendo os laços, tornando o amor em ódio como se, desse modo, as despedidas, os cortes, a própria vida se tornasse mais fácil de ser vivida. Porque a vida, uma morte habitada, diz-nos “Pedro”, “vivê-la-ei, como os que foram dela personagens e a viram chegar com a morosidade da palavra dita letra a letra, a morte rudimentar da soletração” (p. 132).
Como irás tu, leitor, ler este livro?

2 comentários:

Leonor Um Dia disse...

hmm vou procurar essa sugestão

benjamim machado disse...

se não encontrares diz-me que to empresto.

beijos