sábado, 17 de julho de 2010

animal

Imaginemos o melhor dos momentos que um casal poderia passar, daqueles que normalmente vemos em filmes quando um par apaixonadíssimo se entrega nos braços de cada unidade. E tudo está bem entre os dois, os seus corpos estão à temperatura certa, a pele, os nervos, os músculos na sua perfeita oficina entre tensão e relaxe, os olhos para mergulhar, mãos e dedos para ver mais de perto o território por se descobrir que é o corpo do outro, cabelos para ocultar e desocultar os caminhos misteriosos – olhos, boca, orelhas, sexo. Eles não precisam de estar a fazer nada de especial, podem simplesmente estar sentados a conversar, a ler, a beber um copo, a ver o mar, um filme. O importante agora é imaginarmos, tal como eu disse em relação a eles, que este é um momento como o dos filmes e por excelência dos americanos (isto não é nenhuma crítica, é que eles de facto retratam esses momentos bastantes vezes e sempre de forma muito perfeita para os protagonistas).
E como nos cinemas, se entre o casal (imaginemos um qualquer tipo de casal) tudo está bem, se nós, público, sentimos igualmente esse bem estar que passa de lá para cá, é porque existe à volta do casal todo um perfeito ambiente, uma morna e pacata paisagem campestre, uma lenta e húmida praia, uma fria e dura escarpa de montanha, um terraço frente a um rio, um apartamento mobilado associado a um estilo de vida e pleno de paz, que isola o casal do resto do mundo, qualquer paisagem dá-nos uma ideia de um pequeno mundo em perfeitas condições onde só o amor, a amizade, a calma existem e nós imersos no mesmo ambiente à distância do olhar, qualquer que ela seja.
Imaginando isto tudo, tal como um filme que visionamos, podemos até imaginar que de facto estamos sentados em confortáveis bancos no escuro frente ao ecrã, encontramo-nos sempre num estado de suspensão (pedaço de tempo que nos separa do dia-a-dia e nos liga ao que vemos ou imaginamos, e suspensão condicionada pelo que vemos ou imaginamos esperando que alguma coisa aconteça mudando drasticamente o que está a passar frente aos nossos olhos). Depois, de facto, alguma coisa acontece, exactamente como em todos os filmes, drama, comédia terror, etc. É quando entra o pior animal (tratamos apenas de uma separação entre fauna e flora), que é tão importante quanto insignificante, mas acima de tudo chato, estúpido, irritante, obnóxio, estranho, leviano, nojento, mortificante, comprometedor, enervante, desaustinante, fatigante, imbecil, etc., etc., etc. Acho que já sabes qual é o pior animal, sim, é a mosca. Não há realmente pior animal. Isso não quer dizer que, mesmo sendo o pior, não tenha uma certa utilidade, claro que tem, encontra-se sempre uma. E até dela se podem conceber conceitos que ajudam a pensar determinadas coisas e situações. É o que eu chamo de momentos-mosca ou personagens-mosca (este sendo de outra espécie da Mosca de Cronenberg) e normalmente uma traz de arrasto a outra.
A quebra do momento de suspensão é provocado, quer no filme, quer no nosso dia-a-dia, por personagens-mosca desencadeando toda uma corrente de acções e momentos-mosca. O genericamente conhecido nos filmes de suspense e de terror como o Mau da Fita, é uma personagens-mosca. Vejamos como: tragamos o que foi imaginado anteriormente, tudo está bem com e ao redor dos protagonistas, depois surge a Mosca que fica ali às voltas em várias direcções, provocando variados momentos, aos quais não conseguem fugir e que apanha sempre os protagonistas (que também podemos ser nós). O desconcerto é inevitável, a fuga impossível e todo o incómodo apenas termina com a morte da dita mosca. A Mosca é uma espécie de espiã, anda sempre por perto, rondando-nos, à espera que lhe prestemos atenção. Esse é, aliás, um dos defeitos das moscas. São seres egocêntricos, precisam ansiosamente de atenção, as suas voltas e voltas são em torno de si e só vêm ter connosco para, como já disse, nós lhes prestarmos atenção e esquecer-mo-nos do que estamos a fazer, do livro, do filme, da conversa, do outro, da paisagem. E digo do outro porque basta pousar a mosca sobre a nossa ou a outra pele para que o que se estava a passar mude. A Mosca encolhe-nos ao pormenor do mal-estar físico e psicológico (palavra-mosca que detesto muito, por ser demasiado egocêntrica).
Personagens-mosca há-as em todo o lado, tal como o nome indica, senão seriam cão, gato, periquito, barata como Kafka. As personagens-mosca são aquelas que nos apanham desprevenidos e que falam por todos os lados, tal como o voo ziguezagueante, o tema é aquele que só a eles lhes interessa, chamando a atenção a si, e reduzem-nos ao pormenor do mal-estar físico (e cá vem a mosca uma vez mais) e psicológico, de tédio, nervo, irritação. Mas como não somos aranhas não as podemos matar, como às verdadeiras moscas, e ou fugimos ou tentamos esquivar-nos delas ou esperamos que alguém nos salve. Muitas vezes nós mesmos podemos transformar-nos em personagens-mosca. É quase inevitável. Pensamos que somos uma gazela, uma pantera, um cavalo-marinho e afinal não estamos a ser mais do que uma mosca a incomodar uma pessoa. Outras vezes somos realmente uma gazela, uma pantera, um cavalo-marinho, mas o outro vê-nos como moscas sem termos dito uma única palavra, porque fomos uma vez mosca e depois somos sempre vistos como ela. Parece que a mosca não aprende, é obcecada pelos seus hábitos, e as paredes, os papéis autocolantes e as lâmpadas azuis electrizadas aí estão para o confirmar. Se o mundo é dos insectos (pelo menos em número) a mosca é o Rasputine dos insectos, ou é difícil de matar, ou de ser apanhada. Estão em todo o lado, sempre em reprodução, não se lhes pode fugir. Este é o pior animal, tão horrível que nós mesmos temos partes mosca reproduzidas em nós, levando-nos a fazer coisas-mosca como este presente texto que acabaste de ler. Não foi o mais profundo porque uma mosca me incomodou, infelizmente.

2 comentários:

Anónimo disse...

: ) muito bem.

benjamim machado disse...

obrigado, car@ anónim@