quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios do corpo



1) O corpo é material. É denso. É impenetrável. Se o penetramos, separamo-lo, esburacamo-lo, rompemo-lo.

2) O corpo é material. Encontra-se fora. Distinto dos outros corpos. Um corpo começa e acaba contra um outro corpo. Mesmo o vazio é uma espécie muito subtil de corpo.

3) Um corpo não está vazio. É pleno de outros corpos, de bocados, de órgãos, de peças, de tecidos, de rótulas, de anéis, de tubos, de alavancas e de foles. É igualmente pleno de si mesmo: é tudo o que ele é.

4) Um corpo é longo, largo, alto e profundo: tudo isso em grande ou pequena medida. Um corpo é superfície. Ele toca de cada lado noutros corpos. Um corpo é corpulento, mesmo quando é magro.

5) Um corpo é imaterial. É um desenho, um contorno, uma ideia.

6) A alma é a forma de um corpo organizado, diz Aristóteles. Mas o corpo é precisamente aquilo que desenha a forma. Ele é a forma da forma, a forma da alma.

7) A alma espalha-se através do corpo, diz Descartes, ela está completamente espalhada ao longo dele, precisamente nele, insinuada nele, metida, impregnante, tentacular, insuflante, modelante, omnipresente.

8) A alma é material, de toda uma outra matéria, uma matéria que nem tem lugar, nem tamanho, nem peso. Mas ela é material, muito subtilmente. Também ela escapa à vista.


9) O corpo é visível, a alma não é. Percebe-se bem que um paralítico não pode mover a sua perna de bom modo. Não se percebe que um mau homem não possa mover a sua alma de bom modo: mas devemos pensar que é um efeito de uma paralisia da alma. E que é preciso lutar contra ela e fazê-la obedecer. Eis o fundamento da ética, meu caro Nicómaco.


Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).


1 comentário:

BloggerBala disse...

Excelentes textos.
Muito obrigado pela tradução.


Xico