segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Gustave Flaubert



Título: Bouvard e Pécuchet
Autor: Gustave Flaubert
Editora: Edições Cotovia
Tradutor: Pedro Tamen

          Montaigne disse uma vez qualquer coisa como serem os laços do coração mais fortes que os laços de família; penso que se referia à estreita amizade, ao amor que dedicava a La Boétie. Para esse grande escritor, a amizade ia para além do dito amor incondicional de pais e filhos, além do amor de um casamento, o qual, durante muitos anos, nada mais era que um contracto. A amizade, coisa preciosa e rara, era já uma das condições humanas mais singulares até mesmo na Idade Clássica, entre os gregos, não tivesse Aristóteles proferido aos seus alunos: “Ó amigos, não há o Amigo!”; estando, talvez, naquele artigo definido a tentativa de fechar uma impossibilidade, o da própria amizade no corpo de um ser que nunca poderá participar completamente na utopia e na promessa dessa condição, ou seja, a partilha total, no tempo e no espaço, de uma vida, pois que no limite ele, o Amigo, não morre a nossa morte nem a impede que um dia ela no-los leve. Outro limite será aquele que Mário de Sá-Carneiro procurou quebrar com “A Confissão de Lúcio”, quando o amigo se transfigura em amiga. De qualquer modo, amor, amizade e paixão nunca se afastam uns dos outros, confundem-se, misturam-se e talvez sejam os três a mesma coisa, o mesmo sentimento, mas não nos vamos pôr a caminho de divagações. Salvo uma ideia, que me sugeriu desta obra inacabada de Flaubert (1821-1880).
          Ora, há quem afirme ser este livro o mais perfeito e belo tratado sobre a estupidez ou da idiotice. E talvez seja, não direi que não, quando nos encontramos face a face com um desenrolar constante de discussões disparatadas de ideias, cada um, Bouvard e Pécuchet, tomando posições contrárias, tentando sempre pôr em prática tais ideias, destruindo o que cada um cria como que para encontrar o meio termo, para desistirem também a meio caminho mal surge o lampejo de alguma coisa que não conhecem. E o que fazem eles? Mergulham afincadamente em leituras sobre esse assunto desconhecido, de imediato assumem posições teóricas e o mais cedo possível procuram pôr em prática. Ficam assombrados, estupefactos, afundam-se nesse assombro até serem só isso, ou seja, ficam estúpidos. Eles bem reconhecem, por exemplo, que numa determinada disciplina, tal como a dietética, o que é bom ou mau segundo o ditame de um médico é o reflexo espelhado, invertido portanto, de um outro, o que só pode significar que não há exactidão nesse ramo da ciência, ou em toda ela, logo tudo está errado e lá vão eles corrigir o erro, o mal e dar lições de dietética a eles próprios e a quem apareça. E será um tratado de idiotice, por mais não seja porque, etimologicamente, o idiota era aquele que se isolava da vida pública, o que ambos fizeram quando Bouvard ganha uma choruda herança, abandonando as suas vidas da movimentada Paris.
          Mas não será este livro também um elogio à amizade, reconhecendo que nela há uma quota parte de estupidez e idiotia? A amizade é a possibilidade de se criar um mundo no mundo, um mundo idiota, isolado, privado, opondo-se a todo o mundo exterior, pois esse é todo o erro inexistente no mundo dos amigos; toda uma política, uma ética, uma economia, uma ecologia se produzem nesse mundo, das quais eles são os únicos responsáveis, os adultos e as crianças simultaneamente, estreito laço do coração sem idade, contractos e segredos. Uma coisa preciosa e rara. Ó amigos, não há o Amigo, só Bouvard e Pécuchet, essas duas velhas crianças.

3 comentários:

Rita Moura disse...

Ou como diz o Calvin para o Hobbes: Things are never quite as scary when you've got a best friend.

benjamim machado disse...

ou ainda, como dizia o alan shore ao denny crane, na série boston legal: "let no man tear us under!"

Rita Moura disse...

Tantos amigos, assim até parece fácil (man)tê-los! Se encontrar o livro (e tiver dinheiro) vou lê-lo.