quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Nuno Dempster - Jack

          Sexta-feira à noite, o homem saía sozinho de casa - um homem solitário, pensava Ester -, metia-se no carro, e ela dizia de si para consigo vai jantar, se pelo menos me convidasse, e imaginava-se com ele num restaurante caro, silencioso, de empregados discretos. Às vezes, sentia-o chegar, bater a porta do carro, Apagava a luz e ficava a espreitá-lo da janela. Quase não o conseguia distinguir na claridade mortiça dos lampiões. Se o encontrasse de dia na rua, haveria de o cumprimentar. Afinal eram vizinhos, estava certa d que ele a conhecia de vista. A solidão desse homem atraía-a, tinha vontade de ir ter com ele, perguntar-lhe porque vive só? Posso cuidar da sua roupa, gostaria muito de cuidar da sua roupa. Se tivesse o número de telefone, ligar-lhe-ia: não precisa de alguém para tratar da roupa? Mirava-se ao espelho do guarda-vestidos - era uma mulher esguia, sem defeito - e percorria com as mãos, devagar, os seios, o ventre, a face interna das coxas, a luxúria, eu cuido da roupa, eu cuido da roupa, murmurava, oh, meu Deus, concede-me a roupa dele, faz-me feliz, e desejava-o até a confusão do orgasmo lhe tomar conta da cabeça, para no fim se perguntar seria amor dar-se assim toda? Um desperdício, responderiam muitos. Mas era, claro que era amor, e sentia-se cada vez mais submetida pela paixão.
          Numa das sextas-feiras, por sinal dia treze, lembrava-se bem, essa conjunção dava-lhe azar, viu-o entrar em casaa abraçado a um vulto de mulher. Ficou horas à espera de que ela saísse, mas o cansaço, o desgosto e o sono venceram-na. Na sexta-feira seguinte, passou-se o mesmo, e daí em diante, sem falhar uma sexta-feira, o homem vinha com a mulher para casa. Por quatro vezes, fria de ciúme e raiva, ficou de vigília, à espera de que ela saísse. Sempre gostaria de ver a puta, murmurava, se é mais bonita do que eu. Formulação inútil. A mulher não saía, quer antes, quer depois das nove da manhã. Via-a entrar e não a via sair. De súbito, ocorreu-lhe que poderiam ser várias as mulheres. Se hoje me aparece com ela, telefono à polícia, digo que é um psicopata, que leva mulheres para casa, se serve delas e as mata depois. Sossegou com a perspectiva, afiando o punhal do ciúme no seu próprio gelo.
          E, como se lê em histórias para crianças, se assim pensou, melhor o fez. De repente, nessa noite, chegaram dois carros da polícia, atravessaram-se na rua, isolando a casa do homem. Num ai meteram-lhe a porta dentro, entraram e viram-no. Nu, de pé, hirto de estupor, o membro ainda estava erecto. Por todo o lado, n omeio do fedor e da balbúrdia de garrafas, de sacos vazios, de papéis, de panos sujos, de embalagens de piza e de hambúrgueres, em suma, de quanto e variado lixo se imagine, jaziam bonecas insufláveis, vazias de ar e esfaqueadas no peito. Uma delas, virgem, esperava-o no sofá, de pernas abertas na sua pele de plástico, enquanto o leitor de vídeo passava um hardcore, em que dois negros, com membros de burro, pareciam não conseguir estafar uma branca loira com grandes, firmes e redondos úberes de silicone.


in Nuno Dempster, O Papel de prata, o Reflexo e outros contos pelo meio, Ilha do Pico, Companhia das Ilhas, col. azul cobalto, 2012: 29-30.

3 comentários:

je suis...noir disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno Dempster disse...

Viva. 'Lêm' está errado. É 'lê' como está no conto, início do último parágrafo. Obrigado.

benjamim machado disse...

Obrigado pela atenção, escapou-me por completo. já corrigi. um abraço.