terça-feira, 20 de novembro de 2012

Hermann Broch





Título: Os Sonâmbulos
Autor: Hermann Broch
Editora: Edições 70
Tradução: António Ferreira Marques, para o primeiro volume e, para o segundo e terceiro, Jorge Camacho

          Uma vida é complexa, quantas vezes já se ouviu. E o que é uma vida? Há filósofos que passaram a sua vida a tentar responder a esta questão, tanto quanto escritores, músicos; ou seja, não tanto perceber o que é uma vida, nem procurar o seu sentido, mas fazer o sentido de uma vida, não respondiam à questão, colocavam antes questões à própria questão. Não, uma vida não é complexa, a complexidade é exterior a ela, são as malhas que se soltam ou se prendem a outras malhas que nos dão a imagem caótica, o complexo desenho do tapete e “onde quer que um homem vá encontra sempre o seu passado entalhado, visível ou invisível”, como nos diz Esch, a personagem do segundo volume d'”Os Sonâmbulos” (p.111). As linhas de uma vida prendem-se, atam-se a outras linhas, fazem nós e quem sofre, afinal, é “quem fica preso nos laços” (p. 171), diz-nos Bertrand, outra personagem. O nome do autor foi um desses que se foi atando à minha vida sem eu nunca pegar num livro seu, particularmente com a sua obra mais célebre, que me olha lá da estante por trás das minhas costas pedindo-me que a leia, “A morte de Virgílio”. O seu nome é daqueles – dizem tantos outros autores, escritores e pensadores ou críticos – maiores da literatura do séc. XX, ou de sempre, a par de Kafka, Joyce, Woolf, Musil, Gombrowicz, por isso eu tinha de saber porquê.
          Hermann Broch (1886-1951), nascido no seio de uma família judia no ramo da tecelagem, cresceu com o propósito de seguir a carreira predita pelo pai estudando, assim, numa escola técnica para esse desígnio. Porém, após a morte do pai, vende a fábrica, segue estudos universitários em filosofia, psicologia e matemática e persegue o seu desejo literário, já bastante tarde – nunca é tarde, afinal – aos quarenta anos. “Os Sonâmbulos” é a sua primeira experiência. Composto por três volumes, “Pasenow ou o Romantismo”, “Esch ou a Anarquia” e “Huguenau ou o Realismo”, Broch traça um retrato da Alemanha, desde as últimas duas décadas do séc. XIX até aos anos turbulentos de revolta sequentes à primeira guerra mundial, de modo a dar voz à sua crítica quanto à degenerescência dos valores, da Alemanha, sim, mas bem mais de toda a Europa. Cada personagem principal representa um tipo de classe: o primeiro, Pasenow, um militar imbuído num sistema de valores morais férreo atormentado por um complexo de atracção-repulsão em relação ao seu amigo, que abandonou o exército, Bertrand, o liberal burguês em ascensão e um amor dividido entre uma rapariga de cabaré e uma dama – chega a afirmar “só podemos amar um ser pertencente a um mundo diferente” (p. 54); Esch é um pequeno burguês em busca de um equilíbrio entre o seu sentido de dever e as suas inclinações políticas para uma sociedade justa, que o guia cada vez mais a uma inércia e a um mundo de sonhos movido pela desesperança; e por fim, Huguenau, o burguês oportunista, o desertor, que odeia toda a sociedade do antigo Império por que se regiam Pasenow e Esch – embora de classes opostas acabam por se aproximar até a uma quase fraternidade no último volume –, só quer enriquecer às custas da decadência de todos os que o rodeiam. E, de maneira a acompanhar essa queda, Broch adopta em cada volume um estilo singular, sendo o terceiro volume uma obra surpreendente no modo como entrelaça as vidas – há aí uma multiplicidade de personagens impressionante, uma densa malha de vidas – e estilisticamente compõe um texto com ensaios filosóficos, poemas, prosa poética e prosa romanesca.
          É destas primeiras experiências literárias que a nossa actualidade necessita.

3 comentários:

je suis...noir disse...

"mas o que enfim se não entende
é que aquele que se prende a nós
é quem nos prnde a nós"

(a primeira parte fez-me lembrar...)

benjamim machado disse...

desculpa a minha ignorância, mas disse isso?

je suis...noir disse...

tu?! não...

disse-me o texto a mim! (Posso ter a minha interpretação, não posso?)


* "nos prende a nós"