terça-feira, 28 de agosto de 2012

O livro de pesadelos (cont.)



A LUA DE MAUD


4

Acabaram-se,
pequena, os arremessos
e saltos, as aquáticas
cambalhotas sozinha na unidade
sob a colina, sob
o velho, solitário umbigo
impulsionando
para a lembrança,
o alheio devaneio dobrado nas trevas,
pressionando um joelho ou cotovelo
ao longo da parede escorregadia, esculpindo
o mundo a cada sova – a corrente
de sangue onfálico zunindo ao teu redor.


5

A sua cabeça
entra na chave
a qual principia a sugá-la: ser-se a si mesmo
enclausura-a, condu-la
no tremente
aperto da partida, as lentas,
agonizadas preensões formando
os últimos moldes da sua vida nas trevas.


6

O negro olho
abre-se, a esgotada
pupila com cabelos negros
pára, o chakra
no topo do cérebro lateja um longo momento na luz do mundo,

e a caminho da luz ela derrapa para o exterior de rosto,
este ror
de atordoada carne
coalhada de fajuta celestialidade, brilhando
com o violeta astral
da sobvida. E enquanto eles cortam

a sua ligação às trevas
ela morre
um momento, fica azul como carvão,
os membros tremendo
enquanto as memórias saem apressadamente. Quando

a penduram
pelos pés, ela engole
ar, grita
a sua primeira canção – e fica rosa,
os lentos,
palpitantes, implumes braços
já apertam o vazio.


7

Quando estava frio
na nossa colina e tu choraste
no berço embalado
por entre as trevas, na madeira
cortada até à curva de um sorriso, uma tristeza
mais estranha que a nossa, tudo isso
fluindo do outro mundo,

Eu costumava vir a ti
e sentar-me a teu lado
e cantar para ti. Tu não sabias,
e no entanto lembrar-te-ás,
nas silenciosas zonas
do cérebro, um espectro, descendente
dos antepassados fantasmas, cantando
para ti à noite –
não as canções
de luz ditas enroladas
nos brilhantes cabelos dos anjos,
antes uma bem negra
dissonante florescendo nessa língua.

Pois quando a lua de Maud
brilhou nessas primeiras noites,
e o Arqueiro se deitou
sugando o gelado colostro do cosmos,
no seu berço de estrelas,

Eu rastejei até
às margens dos rios, os seus longos farfalhos
de ser e perecer, até aos pântanos
onde a terra se enlameia
em listras frias, tocando o mundo
com o flébil lampejo
do início,
e aí aprendi a minha única canção.

E nos dias
em que te encontrares órfã,
vazia
de todo o cantante-vento, de luz,
os pedaços de amaldiçoado pão da tua língua,

a ti retornem
uma voz,
espectral, chamando-te
irmã!
de tudo que morre.

E depois
abrirás
este livro, mesmo sendo este o livro de pesadelos.

in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 5-8

2 comentários:

jw disse...

tradução tua?

benjamim machado disse...

olá jeanne,

sim, esta e as outras que surgem na etiqueta "traduções". porquê, está assimtão má?