quinta-feira, 24 de maio de 2012

Manuel Fernando Gonçalves - 5 poemas

Abrigo o teu olhar na concha
das noites, na pálpebra inversa,
imensa, da prevista hesitação:
vês daqui a estrela mais secreta,
quando te deslocas, contorno,
a sempre retida oferta.
Vens, respiras, iluminas-te
na única escuridão que permites.
Julgava adivinhar-te num ângulo
preciso da noite, convidas
sempre, em outro lugar, apenas
ofegante.

*

Não serei o único jardineiro
que aqui concentra o universo,
se te comparo a ele quando,
à melhor terra, prometo
o mais atento labor, o mais delicado
gesto de amante, uma secreta dor
se o meu vaso de ouro não explode.
Desço e demoro para um lento olhar.
Cheiro e toco, liberto, sabendo
a prisão de que me rodeio: respiro
a memória, que não sou jardineiro
para expulsões, antes aguardo, guardo
que a pele responda. Darei uma festa,
lá em baixo, no jardim, a alguns
poetas que muito admiro, sem medo
que se percam.

*

H.M.P.

Os frescos amieiros da Gulbenkian
achamos natural que deflagrem,
mas saberemos também morrer?
E a rapariga escura, que fará
do liso, certo peito, das pernas
ágeis e sabedoras, quando restar
de cinzas? Que membros serão ausentes
em estátuas tão regulares, definitivas?
Saberemos ainda falar
quando a voz se perder na massa,
enredado vestígio de anterior
gramática? Perguntaremos quanto
custa: a tamargueira jovem, para o canto
do jardim; um par de ténis, brancos e leves,
com que se caminhe nas cidades;
essa taça de branco seco, frio, invasor,
para comemorar, a meio da tarde, o Sol
que, ao desenhar-te, nos enlevou;
uma cesta de verga, com peixes frescos,
para que o amigo cumpra a promessa
aquele caderno, por favor, de capas azuis
e folhas em evidente agitação?
Quanto custa não ir morrendo à luz,
na margem dos rios, ao longo da estrada?

*

ORDEM (I)

Apressas o tempo
onde ele parece demorar
e, quando chegas, é certo ouvir-te
o retrato dos lugares
uma geografia de acasos:
paisagens certamente com rochas,
bancadas de fruta ao Sol,
um pequeno assalto ao sangue,
porque as memórias vão para onde
vamos, a fala que se expande, se recolhe
nos ângulos da casa, liberta onde não estás,
tensa e rigorosa, se ficaste.

*

(III)

Ouvir-te, em casa, quando dizes:
reconheço esta palavra,
foi nesta rota, a meio, perto
de um campo de açucenas, que me faltaste,
regressar só é possível se o coração recolhe
outro nome. Nesta divisão permanecem,
nítidos, os meus amigos de lá.


in Manuel Fernando Gonçalves, Caos, Lisboa, Frenesi, 1987

2 comentários:

je suis...noir disse...

aquela primeira frase...

é frustrante perceber que o que escrevemos já foi dito antes e bastante melhor:(


(je suis noir)

benjamim machado disse...

sim, mas há que continuar a tentar