terça-feira, 2 de novembro de 2010

insone




O céu da noite é apenas uma espécie de papel carbono,
Azul negro, com o muitíssimo picado período de estrelas
Deixando entrar a luz, óculo atrás de óculo –
Uma luz de branco-osso, como a morte, por trás de todas as coisas.
Debaixo dos olhos das estrelas e do ricto da lua
Ele sofre a sua almofada deserta, a insónia
Esticando a sua fina, irritante areia em todas as direcções.

Sempre e sempre o velho, filme granular
Expõe constrangimentos – os chuviscosos dias
Da infância e adolescência, peganhentos com sonhos,
Em bancos altos os rostos parentais, alternadamente inflexíveis e lacrimosos,
Um jardim de rosa berço que o fazia chorar.
A sua testa é acidentada como um saco de pedras.
As memórias acotovelam-se umas às outras para um lugar de proa como obsoletas estrelas de cinema.

Ele é imune a comprimidos: vermelhos, roxos, azuis –
Como eles ateiam o tédio da prolongada noite!
Esses planetas açucarados cuja influência lhe conquistaram
Uma vida baptizada em nenhuma vida por um momento,
E o doce, drogado acordar de um bebé esquecido.
Agora os comprimidos estão gastos e imbecis, como deuses clássicos.
As suas cores de popoila-adormecida não lhe fazem bem.

A sua cabeça é um pequeno interior de espelhos cinzentos.
Cada gesto foge imediatamente por um beco
De diminuídas perspectivas, e o seu significado
Escoa como água pelo buraco na ponta mais distante.
Ele vive sem privacidade num quarto sem cobertas,
As glabras ranhuras dos seus olhos completamente abertos enrijecem
Nos incessantes clarões das cintilantes situações.

Toda a noite, no pátio de granito, gatos invisíveis
Estiveram a uivar como mulheres, ou instrumentos estragados.
Ele já consegue sentir a aurora, a sua branca doença,
Rastejando por aí acima pejada de triviais repetições.
A cidade agora é um mapa de joviais pios,
E pessoas por todo o lado, olhos cinzento-mica e vazios,
Correm para o trabalho em filas, como se recentemente lobotomizadas
.

in Crossing the water - transitional poems

2 comentários:

Rodrigo Passos disse...

maravilhoso versos, foi uma ótima degustação!

benjamim machado disse...

agradeço, pela parte que me toca, ou seja, pela tradução.

volta sempre que és bem vindo.

abraço