sexta-feira, 28 de maio de 2010

seguir e perseguir

"Ele segue, a si mesma, ela se segue. Ela poderia dizer «eu sigo», «eu sigo-me». Ao prosseguir assim com alguma consequência, em três tempos, ela descreveria o desenrolar de uma peça em três actos ou os três movimentos de algum concerto soligístico, um deslocamento que se dá sequência, uma sequência numa palavra.
Se eu sigo esta sequência, e tudo no que me preparo a dizer deveria reconduzir à questão de o que «seguir» ou «prosseguir» quer dizer, e «ser depois», e à questão do que faço quando «eu sigo», e digo «eu sou», se eu sigo esta sequência, aí então transporto-me dos «fins do homem», portanto dos confins do homem, à «passagem das fronteiras» entre o homem e o animal. Ao passar as fronteiras ou os fins do homem, chego ao animal: ao animal em si, ao animal em mim e ao animal em falta de si-mesmo, a esse homem de que Nietzsche diz também na Genealogia da Moral, no começo da Segunda Dissertação, que o homem é um animal prometedor, pelo que pode prometer (das versprechen darf). A natureza ter-se-ia dado como tarefa criar, domesticar, «disciplinar» (heranzüchten) esse animal de promessas.
Há muito tempo, há tanto tempo, então, desde sempre e pelo tempo que resta a vir, nós estaríamos em via de nos entregar à promessa desse animal em falta de si mesmo."

Jacques Derrida, l'animal que donc je suis, Paris, Galilée, 2006: 17-18 (minha tradução).

1 comentário:

Gui disse...

Seguir o caminho! Perseguir rumo ao sol.

bjs