sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

mensageiro




Título: O Mensageiro Diferido
Autor: Rui Nunes
Editora: Relógio d'Água

Portugal não tem só escritores de best-sellers, nem fabulosos escritores mortos. A escrita portuguesa, ficcional e poética, está muito para lá de Camões, Pessoa e Eça de Queiroz, só para indicar três que tantas vezes são eleitos a maiores desta língua com que agora escrevo. Por sorte, tenho conhecido muitas escritas e escritores/as, alguns pessoalmente, outros não, que me lançam – perdoem-me o termo – esses três para o diabo. Mas isto da literatura em Portugal… (é verdade que não é só em Portugal, mas o que tem o nosso país em especial contra a literatura?)
Ora, eu, por mais que goste de escrever e sonhe com essa “Weltliteratur” de Goethe – quero dizer, com a minha entrada nas páginas da história dessa literatura mundial – sei que nunca lá entrarei, nem a minha escrita chegará aos pés de Camões, Pessoa e Eça. O problema (muito para mim, mas igualmente no geral, penso eu) talvez seja todo um processo de idealização do que é escrever, do que é a literatura, por um lado; e por outro, o processo do suplemento. Comecemos pelo segundo.
Podemos explicar o suplemento sucintamente nestes termos: injecta-se num mercado um produto cuja necessidade não existe até essa introdução, tornando, aos poucos e poucos, quer o produto quer a necessidade como naturais ao homem e ao seu ambiente. Exemplos não faltam e a crítica a esses suplementos tanto ganha contornos conservadores como revolucionários. No meu caso começou por ser a leitura; eu próprio me forcei a ler, nos meus dezasseis anos. Esse foi o meu suplemento. Eu não tinha qualquer necessidade de ler – dissessem-me o que me dissessem, ler, para mim, naquela altura, era a coisa mais aborrecida que existia – e no entanto, por qualquer motivo – e eles são vários para um adolescente – comecei. E agora custa-me ficar, pelo menos um dia, sem ler. Igualmente com a escrita se deu o mesmo processo; e ambas, escrita e leitura, me são agora inteiramente “naturais”.
Mas o suplemento não trabalha sozinho, a par dele conjuga-se a idealização. Este mundo e a nossa finitude não nos são suficientes, o nosso desejo vai para além do que há e do que é. E de modo a suportar o negro peso da realidade constrói-se uma outra para lá desta realidade, um ideal que nunca se chega, sempre inatingível – assim posto parecerá que o próprio ideal é um suplemento. Mas é com esse ideal em mente, seja ele qual fôr, que se vive e se trabalha, é para aquela obra de arte, aquela música, aquele poema, aquela história que se vive, que se come pouco, se dorme pouco, se procura uma técnica, um estilo, o quer que seja que nos mantenha em linha no percurso até ao ideal. E igualmente o ideal tem os seus émulos e partidários e frente a um ideal coloca-se outro, opõe-se outro, destrói-se outro. E se, por um lado, produzimos um ideal como destino único e possível do desejo e de felicidade, por outro lado, esse mesmo ideal se transforma na pura forma negativa e dolorosa do desejo e da felicidade, por nunca lá chegarmos.
E onde esta divagação me leva? Por estranho que pareça, a Rui Nunes e ao seu “Mensageiro”. Este autor é um dos melhores escritores da nossa língua. Desconheço o seu primeiro livro, mas tenho em minha posse quase a sua obra completa e cada livro é um peso-pesado da literatura portuguesa. Rui Nunes é um estilista como poucos existem em Portugal, detentor de uma linguagem escatológica (foi já editado um curto ensaio negativo quanto a esse aspecto na revista “Periférica”) mas de uma beleza poética extenuante – em termos comparativos pessoais, aquilo que há de belo na poesia de Al Berto e não conseguido na sua prosa, consegue-o Rui Nunes na sua prosa mas não nos seus recentes livros de poesia, mesmo embora gostando eu das duas e de ambos – deixando-me terrivelmente em baixo, triste. Outro grande repetidor de temas, tais como a homossexualidade, a velhice, a doença, a morte, a solidão, Rui Nunes força-nos a ver e a pensar a margem das coisas.
Escrito em fragmentos, em blocos de texto – seguindo, de certa forma, a fórmula do “Nouveau Roman” – “O Mensageiro Diferido” é um conjunto de cartas de um português a um amante que, na sua fuga da terra natal, procura responder, pensamos nós, a uma pergunta de Horácio: “Quem da pátria sai a si mesmo escapa?” – questão que retornará como título de um outro seu romance. Em forma de ritornelo, aparecendo de vez em vez, encontramos o mote: “Minha querida Riki, é deste país, sequestrado pela memória, que te conto os muitos etceteras e parêntesis, (…)” (p. 11, 41, 66, 84, 100, por exemplo); é de memória, aí onde igualmente se conjuga o ideal de um país, que Rui Nunes analisa o sonho de um Portugal diferente, um Portugal ideal e não esse “meu país [que] é cada vez mais um projecto nocturno, um problema de insónia, um nome à procura de um ritmo, uma interrogação nas cartas sem resposta dos meus amigos” (p. 13) e do mergulho nesse sonho de um país ideal o narrador traz um outro chamado “Escócia”, terra de magia, de reis, mas talvez ainda mais cruel. Uma resposta possível a Horácio será dizer que qualquer fuga nos conduz a nós, ao que nós somos, o que quer que sejamos e a isso não há fuga possível.
Dou graças por, entre o ideal dos escritores mortos, que desejamos ultrapassar, e os suplementos, cada vez em maior número, de má literatura que enchem os escaparates, encontrar ainda escritores portugueses realmente bons e raramente falados.

3 comentários:

filipe quaresma disse...

mais um autor que me ajudas a descobrir!
bem haja, benjamin

benjamim machado disse...

sempre às ordens. qual é que queres a seguir?

abraços e beijos e a ver se combinamos os copos. tens de vir cá a portimão.

Maria Inês disse...

http://pagaosinocentesdadecadencia.blogspot.com/2008/10/numa-definio-indecisa-e-vaga.html