quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Joseph Roth





Título: O Leviatã e A Lenda do Santo Bebedor
Autor: Joseph Roth
Editora: Assírio & Alvim


Já vos tinha falado, aqui e ali, mesmo se de forma encoberta, do meu fascínio pelo acaso. Ora, a descoberta – tratando-se aqui, realmente, de uma descoberta, levantando a enorme toalha de pó que cobre tantos nomes da literatura – deste autor deve-se, talvez, aos vasos comunicantes que unem tantas coisas aparentemente desligadas, dissemelhantes. Foi aí por volta de 2005-06 (não tenho bem a certeza) e andava eu em busca de um tema para a minha tese de mestrado. Ou melhor, o tema já tinha, queria falar do Corpo e um muito particular, os monstros; só não queria, como acabei por fazer – o que, tenho de vos dizer muito sinceramente, me deu uma enorme satisfação – debruçar-me sobre a literatura renascentista. É que os “grandes clássicos”, quer por arrogância de adolescente, quer pela imensidade de tantos outros escritores que me interessam, me metiam medo; e como a grande maioria dos livros que li se centravam entre o século xix-xx, queria à força encontrar autores que tivessem vivido num e/ou noutro século e que falassem de monstros. Foi aí que me deparei com “O Leviatã” e por ter gostado tanto procurar “A lenda do Santo Bebedor”.
Façamos uma breve apresentação. Joseph Roth (1894-1939) mantém-se entre nós, como tantos outros para mim, um completo desconhecido. De origem judaica, nascido na região da Galícia Oriental, no seio do então Império Austro-Húngaro, filho de um pai que nunca chegou a conhecer (nem este acerca da existência do seu filho), escreveu, à semelhança de outro seu concidadão, embora da zona checa, Franz Kafka, em língua alemã. Mas, ao contrário do Sr. K., Joseph Roth era um apaixonado pelo império, pela vida cosmopolita e por uma sensação de ser compatriota de tantos diferentes povos reunidos num só território. A única infelicidade que sentia na pele, durante os seus anos de liceu e universidade, era o facto de ser um judeu oriental. É que existia uma angustiante distinção, dentro da própria “raça”, entre judeus: “Quanto mais ocidental for a origem do judeu, mais judeus há para os quais ele olha com desdém. O judeu de Frankfurt olha com desdém para o judeu de Berlim; o judeu de Berlim olha com desdém para o judeu de Viena; o judeu de Viena olha com desdém para o judeu de Varsóvia. Depois vêm ainda os judeus da longínqua Galícia, que são desdenhados por todos eles, e eu sou de lá, o último de todos os judeus.” (Leviatã, introdução, pp. 7-8).
Contudo, igualmente como o seu conterrâneo K. cedo demonstrou as suas capacidades para a língua e cedo nasceu a sua vontade de escrever. E, como não poderia deixar de ser, também cedo iniciou uma vida de boémia (as escolhas de vida fazem-se sempre demasiado cedo, para o bem e para o mal). Começa a sua carreira escrevendo crónicas para diversos jornais austríacos e alemães, publicando depois poesias e um romance em folhetins. Conquistando reconhecimento, Joseph Roth vai abandonando a carreira para se dedicar a tempo inteiro à sua escrita, bem como a um consumo cada vez mais intenso de álcool para abafar a dor que a doença (esquizofrenia) da sua esposa lhe causava. Com a ascensão do partido nacional-socialista e pressentindo futuros maus ares, decide partir para França, onde acaba por morrer de pneumonia e abuso de álcool. Não teve, como a sua personagem Andreas d’ “A lenda do Santo Bebedor” uma morte suave e bela.
Constituindo-se como duas grandes novelas dos últimos anos de Joseph Roth (a “Lenda” é mesmo a última, terminada poucos dias antes de morrer), vemos aqui a mestria narrativa na sua economia de palavras, a aliança da escrita directa e plenamente comunicativa, de alguém que trabalhou para jornais, com o imaginário fantástico que mergulha nas tradições judaicas da Galícia Oriental. Duas histórias que aparentemente não têm nada em comum, a não ser o tom fantástico que as percorre e a apresentação da queda do homem.
De um lado, “O Leviatã”, que não fala directamente desse monstro mítico e bíblico, aborda a vida de um vendedor de corais numa pobre aldeia. Um homem que nunca viu o mar e que alimenta o sonho de um dia poder vê-lo, esse lugar onde nascem os seus corais que tanto admira. E ao longo dessa narrativa outra se tece, a do encontro entre a técnica artesanal, tradicional, e técnica industrial, moderna. A sua queda começa aí, quando cai na tentação do enriquecimento rápido e do esquecimento da sua origem, o amor ao mar e aos corais. Do outro lado, “A lenda do Santo Bebedor”, dá-nos a história de um homem que procurou recuperar a sua vida num outro país – esse estigma de todos os judeus até à formação do estado de Israel –, tendo caído em desgraça, tornando-se vagabundo e alcoólico, mas um estranho oferece-lhe uma nova hipótese se cumprir uma promessa à Santa Teresa de Lisieux. O percurso será tortuoso, sempre coberto de tentações…
Bom, há uma enorme sensação de conforto pelo modo como somos transportados ao longo das histórias. Há nesses textos um narrador que não esconde o seu prazer de contar, de oferecer histórias. E oferece-nos aquilo que eu sempre procuro, o lado maravilhoso, fantástico da vida. Nem sempre é fácil, ainda por cima nos tempos que correm. Mas a vida é, quer queiram quer não, fantástica, percorrida pelo maravilhoso que os acasos revelam. Tal como o maravilhoso que descubro todos os dias no rosto da minha companheira.

3 comentários:

Rui Cancela disse...

Se ser crítico de livros (graças a deus tenho uma pequena responsabilidade nisso) é um "caminho" o ainda e sempre nos espantarmos com o maravilhoso e o fantástico que a vida é (como se continuássemos crianças) é uma arte maior.

Apenas isso prego! A beleza de cada admiração...no maravilhoso de tua companheira sim, e no maravilhoso de teu rosto e abraço e aperto de mão.

No maravilhoso da maravilha; por detrás de nenhum espelho; onde teus olhos sejam teus, mas o espanto de ambos.
por isso também contigo me maravilho (e não me emociono que eu sou homem e lágrimas medidas que apenas caiem para dentro)

benjamim machado disse...

rui,

nem te darás conta como as tuas palavras vêm no momento certo, quando as minhas dúvidas são cada vez maiores, quando as saudades dessa cidade - a única, realmente - que me viu crescer, entre amigos que me faltam, me ocupam.

o maravilhoso está igualmente aqui, nestes toques à distância, tal como nesta "obrigação" que me passaste, esta, que eu gosto e sempre gostei, de escrever, ocupando um lugar que te pertencia porque mo doaste.

e como chegaram bem as tuas palavras e como de homem só tenho a barba, deixo cair uma lágrima.

madmax disse...

A ideia de que Kafka não é um vitalista é um erro que percorre os kafakianos antes de lerem " Kafka, para uma Literatura menor" do Deleuze.
Kafka é um vitalista ao contrários do que muitos pensam.

Excelente Post.

madmax