quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Rupi Kaur - Leite e mel (uma selecção)


o primeiro rapaz que me beijou
segurou-me os ombros
como o volante da
primeira bicicleta que alguma vez conduziu
eu tinha cinco anos

ele tinha o cheiro de
fome nos seus lábios
o qual apanhou do
seu pai festejando sobre a sua mãe às 4 da manhã

ele foi o primeiro rapaz
a ensinar-me que o meu corpo era
para oferecer àqueles que queriam
que eu sentisse tudo
menos ser inteira

e meu deus
como me senti vazia
como a sua mãe às 4 e 25

*

sessões a meio da semana

o terapista coloca
a boneca à tua frente
tem o mesmo tamanho das raparigas
que os teus tios gostam de tocar

aponta para onde as suas mãos estiveram

tu apontas para o sítio
entre as tuas pernas esse
que te arrancou
como uma confissão

com te sentes

tu arrancas o caroço
da garganta para fora
com os teus dentes
e dizes bem
dormente apenas

*

para pais com filhas

cada vez que
dizes à tua filha
tu esvazias-lhe do seu amor
aos gritos
ensinas-lhe a confundir
raiva por bondade
o que até parece uma boa ideia
até que cresce
confiando em homens que a maltratam
porque se parecem tanto contigo

*

não há maior ilusão no mundo
que a ideia que uma mulher irá
trazer a desonra para casa
se procurar manter o seu coração
e corpo em segurança

*

prendeste
as minhas pernas
ao chão
com os teus pés
e exigiste
que me erguesse

*

tens tristeza
habitando lugares
onde a tristeza não devia morar

*

dizes-me para me acalmar porque
as minhas opiniões me tornam menos bela
mas eu não fui criada com um fogo na minha barriga
para que fosse apagada
não fui feita com uma leveza na minha língua
para que fosse facilmente engolida
fui feita pesada
meio lâmina meio seda
difícil de esquecer e nada fácil
para uma cabeça seguir

*

ele esventra-a
com os seus dedos
como se limpasse
o interior de uma
meloa cantaloupe

*

a arte de ser vazia

esvaziar-me da barriga da minha mãe
foi o meu primeiro acto de desaparecimento
aprender a encolher-me para a família
que gosta das suas filhas invisíveis
foi o segundo
a arte de ser vazia
é simples
acredita quando dizem
tu és nada
repete para ti mesma
como um desejo
eu sou nada
eu sou nada
eu sou nada
tantas vezes
a única razão pela qual sabes
estar ainda viva é pelo
peso no teu peito

*

quando a minha mãe abre a boca
para ter uma conversa ao jantar
o meu pai empurra a palavra silêncio
entre os lábios dela e diz-lhe para
nunca mais falar de boca cheia
é assim que as mulheres da minha família
aprendem a viver com as bocas fechadas

*

os nossos joelhos
abertos
por primos
e tios
e homens
os nossos corpos tocados
por todas as pessoas erradas
que mesmo numa cama plena de segurança
temos medo.


in Rupi Kaur, Milk and Honey, Andrews McMeel Publishing, 2015
selecção de poemas da secção The hurting

2 comentários:

Anónimo disse...

tão bom. obrigado

Fernando Machado Silva disse...

obrigado eu pela visita