sexta-feira, 19 de junho de 2015

eu sou a minha mãe e o meu pai

de entre todos os meus irmãos
eu sou a minha mãe e o meu pai
para o bem e para o mal vejo em mim
os dois intercalando a sua presença
não há quem ganhe e nada há para ganhar
em mim só o lento massacre no lançamento das culpas
do que se fez ou se sacrificou para o outro
e eu sou a minha mãe e o meu pai
a carícia e o aperto
a frescura da hortelã e a acidez do álcool
a compreensão e a diatribe
o silêncio do tudo já dito e o grito do que ainda há para dizer
o completo dia de trabalho e a calorosa recepção a quem vem dele
a espera esfomeada à mesa e a horária labuta culinária
a dor de cabeça e o sexo seco
o abraço e o beijo
o cansaço e a impaciência
e o tempo que passa pelo corpo
e as palavras que já não descobrem a forma doce na boca
a surdez e a cegueira
a lenta loucura da memória até tudo ser pedra
e o presente ser só o que é e sempre foi: passagem
eu sou a porta batida na fúria e o arrependimento
sempre um segundo antes do tarde de mais
eu sou o desejo da criança e o egoísmo da independência antes dela
eu sou a realização do amor no seu fulgor sentimental
e sou o amor enquanto só mais uma palavra invalidando o contrato
eu sou a boa-noite o dorme bem o chega para lá o ronco e a insónia
a telenovela tricotando o ódio a paciência solitária tecendo a ingratidão
e olho para ti e pergunto: chegaremos a isso que já sou
conseguirei ultrapassar a genética e a cultura
e ser outro e nós a promessa que a nós fazemos
ou também pelos teus lábios sairá a voz do destino
e serei um menor titã enredado num repetitivo castigo

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