sexta-feira, 21 de junho de 2013

um pensamento em torno de "servidões"

não me levem a mal, eu gosto bastante de herberto helder e de ler novos poemas seus. corri um pequeno mundo em busca do seu livro banido, procuro acompanhar as novidades e as reescritas, o seu poema contínuo ou o seu ofício cantante, admiro a sua força, o seu carácter, mas estou tristíssimo com todo este acontecimento em torno do seu "servidões". e questiono-me, por que é que herberto helder não faz nada em relação a isso? ele que recusou o prémio pessoa porque não se coadunava com o seu pensamento, a sua poética, a sua noção de poeta enquanto pessoa e o seu não engajamento com a sociedade de espectáculo e agora, simplesmente, se deixa levar pela especulação, a construção de uma "aura" em torno de si, recusando uma segunda ou terceira edição da nova obra. porque é que perante esta situação ele não diz: que se fodam esses gajos que parasitam as minhas palavras! e se dirige, em pessoa, ou por carta, ou pelo modo como se dirige ao editor da assírio & alvim, manuel rosa, dizendo: façamos uma edição que rebente com isto tudo, que se faça um milhão de exemplares, assim, sem mais; as auras e especulações que sejam para quem ganha os prémios - ou, afinal, tudo isto é o seu programa? a recusa a afirmação da sua aura, a aura de um certo tipo de poeta; e permitir esta especulação é afinal o prémio desejado, aquele que recusou? se não lhe interessa os ganhos desta e das edições seguintes, os royalties, porque não doá-los, ou requerer à assírio & alvim (quer dizer, à porto editora), ou à documenta (a nova chancela), que os ganhos financiem edições de outros poetas, velhos, novos, a malta dos novíssimos, os da margem, os do centro da margem (que os há, até a margem tem um centro). porque não se trai? e por que é que perante isto ninguém tem a coragem de o trair e simplesmente digitalizar o seu livro e pôr na net para quem o quiser ler, fotocopiá-lo e passar ao outro, a um que nunca leu, a quem já leu, a quem o quer ler?

que isto tudo vá à merda. eu estou desempregado, ninguém me quer contratar e quando arranjei um pouco de dinheiro, que me faz mais falta para comer, pensei em comprar o "servidões". afinal, dou-me conta que eu é que estou ao seu serviço. pois não quero mais saber, estou triste, desiludido, mas farei silêncio no dia em que partir. isto custa-me, quem me conhece sabe que isto me custa - e quem me conhece sabe que por vezes sou impulsivo e me lamentarei mais tarde -, só que hoje dou a quem quiser as minhas edições, em vez de as vender, tristemente, a quem quiser:

- poesia toda
- photomaton & vox
- os passos em volta
- poema contínuo
- a faca não corta o fogo
- apresentação do rosto

basta escreverem para o meu mail, darem a vossa morada e reencaminho o livro desejado

6 comentários:

je suis...noir disse...

calma...
(não dês nada a ninguém, nem vendas assim nem mais nem menos.
A obra é sempre mais importante que o autor!Lembra-te disso e esquece o resto...)

je suis...noir disse...

e quem é que se poderia "servir" da tua tristeza e revolta para ganhar um livro?! há limites. (espero que vejam este comentário e vejam que é estúpido, ganhar um livro assim)

se te quiseres livrar deles dá a alguém que gostes e que sabes que gosta. dá a uma biblioteca que não os tenha...

Carlos Alberto Machado disse...

Olá, Fernando. Sabes que admiro as tuas posições - e a tua coragem. Mas fica quieto, ok?
Já agora, não há que ter ilusões sobre assírios e portos, são feitos da mesma matéria.
Vou enviar-te o servidões para o difundires na net, devolves-me depois, ok?
Forte abraço,
Carlos

Guido disse...

Boa tarde
Partilho convosco esta desilusão. E reincidente...
Para mais espanto meu o improvável, quase absurdo, aconteceu. Vi o livro a poucos palmos à minha frente numa conhecida livraria de Lisboa mas o próprio livreiro, que sempre pensei fossem os livros o seu principal interesse, o tinha reservado e me lançou com espantosa indeferença o valor de €300.00 pelo exemplar! E preço único limitado!
Queria o livro simplesmente para o "ler"...
Aguardarei que o difundam na net!
Abraço

mp disse...

Boa tarde
Concordo com a sua opinião e acho que há uma falta de coerência da parte dele. O Luiz Pacheco dizia que esta mania de fazer poucos exemplares era uma vaidade dele (valeu-lhe uma discussão pela contrafacção d'O corpo o luxo e a obra).
O pior é ainda a especulação, que gente como provavelmente esse alfarrabista faz, que esgotam edições para de x em x tempos a peso de ouro, venderem mais uma. São eles que têm os 5000 exemplares da edição em casa.
Eu também tenho um exemplar a mais do Servidões, ofereceram-me e já tinha comprado, e evidentemente não o vou vender por 300 euros. Se quiser fazer alguma troca ou troca com acerto por algum dos que tenha, partindo do princípio claro, que se quer desfazer verdadeiramente de algum, não só vender por frustração, responda ao meu comentário. Obrigado e cumprimentos

benjamim machado disse...

obrigado a todos pelos vossos comentários. em breve começarei a acção "o dom e a dor de servir" e espero a participação na partilha (assim, guido, envie-me o seu email e fá-lo-ei chegar a si).

uma última palavra: cara mp, agradeço muito a sua proposta, mas, na verdade, muito me custa, custaria e custará - se alguma vez chegar a esse ponto de ter de me livrar dos meus livros - abrir buracos nesta biblioteca. por isso, ofereça o "servidões" a alguém que goste, isso fará mais sentido.

abraços a todos