sábado, 15 de dezembro de 2012

Dormir no deserto de Mojave


Por aqui não há uma morada,
Grãos quentes, simplesmente. É seco, seco.
E o ar perigoso. O meio-dia age estranhamente
Na imaginação, erigindo uma linha
De álamos na meia distância, o único
Objecto para lá da louca, estrada em frente
Pode-se recordar homens e casas por aí.
Um vento fresco deveria habitar essas folhas
E um orvalho recolhido nelas, mais amado que o dinheiro,
Na hora azul anterior à aurora.
Porém eles recuam, intocáveis como o amanhã,
Ou essas cintilantes ficções de água entornada
Que deslizam defronte da própria sede.

Eu penso nos lagartos arejando suas línguas
Na fenda de uma sombra extremamente pequena
E o sapo guardando a gotícula do seu coração.
O deserto é branco como o olho de um cego,
Desconfortável como sal. Cobra e ave
Dormitam por trás de velhas máscaras de fúria.
Nós suamos como cães de lareira ao vento.
O sol depõe as suas cinzas. Onde nos deitamos
Os estalados grilos congregam-se
Nas suas armaduras laminadas e choram.
A lua do dia acende-se como uma mãe arrependida,
E os grilos vêm rastejando até ao nosso cabelo
Para rabecar a curta noite para longe.


in Sylvia Plath - Crossing the water, transitional poems

2 comentários:

Rita Moura disse...

Estou a pensar em "Balloons" e no simbolismo do natal que nos encanta e nos leva a flutuar um pouco à deriva, mas por vezes também nos faz guinchar e rebentar.

benjamim machado disse...

tenho de o reler. é do ariel, não é?