segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Das ameaças no Arco do Cego

Não tenho por hábito vir para aqui queixar das minhas infelicidades - exceptuando nos meus "poemas" - mas ontem sucedeu-me uma coisa que me transtornou para o resto do dia. Fui, como de costume, passear a serra para o Arco do Cego, deixá-la correr. Quando chegámos já lá estava um labrador gigante, mais o seu dono e o seu filho; de imediato o homem prendeu o seu cão e eu deixei a serra solta, sei que ela é do tipo brincalhão e não territorial, só se vira, na verdade, em duas situações, se a atacam - e, mesmo nesse caso, é uma defesa em fuga para o pé de mim - e se o cão é velho, grande e está preso. Aí, claro, intervenho, mas também sei que os cães resolvem os seus problemas, a nossa intervenção deveria surgir somente no caso da situação escalar para a ferocidade, mas basta soltar o cão que a serra começa a brincar. Ora, não foi esse o caso; eu repreendia-a e ela afastava-se, porém o dono mais velho decidiu, primeiro bater o pé - nenhum problema aí - e, depois, chutá-la. Não gostei, aliás, já enfrentei o meu pai por tentar chutar o vila - o cão da cris e já não nosso - e por isso não tive quaisquer problemas de enfrentar o sujeito. Encetámos uma pequena conversa, pediu-me para em claro português - na altura nem sequer fiz caso, é uma expressão comum - lhe explicar se o comportamento da serra era socialmente compreensível - lá vem o discurso antropocêntrico, todos os comportamentos têm de se regir pelo nosso, o de ser humano, como se nós fôssemos exemplo de alguma coisa, tão cheios de morais e éticas - que os cães têm de andar presos (não estava o seu antes solto?). Apresentei o meu caso, expliquei-lhe que se tivesse deixado o seu cão liberto nada teria acontecido - eu conheço a serra; mais tarde, se tivesse ficado, teria visto que eu tinha razão, outros cães apareceram presos e depois libertos que brincaram com a serra -, mas enquanto explicava o seu filho, um tipo da minha idade, tentou pontapear a serra sem ela ter feito rigorosamente nada, simplesmente rondava o espaço porque eu estava naquele espaço. Dirigi-me ao filho e disse-lhe que se ele désse um pontapé ver-se-ia comigo. O tipo não se fez rogado, como o ameacei, contra-ataca, contudo avança para o confronto físico. Não me movi, mantive a minha posição; foi o pai que se intrepôs entre os dois. E o sujeito continuou com as ameaças e é aqui que tudo se transfigura, tudo se estranhou, para eu ter cuidado, que me conhece, sabe quem eu sou. O que é que isto quer dizer, perguntei-me e perguntei-lhe; ele retornou, eu sei quem tu és, andas sempre por aqui, andavas com aquela alemã ali daquela casa, eu sei quem tu és, tem cuidado. Eu sei que já atraí atenções para mim no Arco do Cego, sentado a ler e atento à serra, apanhando o cocó dela, bem como o lixo que ela tenta comer e as pessoas deixam na relva ao acaso; já me vieram perguntar o que fazia sempre ali, porque lia, o que fazia. Até aí, tudo bem, é a curiosidade de malta que passa o tempo a beber cerveja e a fumar charros e eu destoo, embora já lá tenha estado a beber vinho e cerveja, exactamente com a alemã, que afinal é húngara de dupla nacionalidade, mas o tipo não sabia. Contudo, a situação agora é outra. O que é que se passa? Ando a ser controlado? E o que é que ele sabe de mim? O que, de facto, sabe? Já para não falar do paradoxo, tão comum entre todos, de se arrogar conhecer alguém! Mas aquelas palavras ficaram o resto do dia a ecoar, tem cuidado, eu sei quem tu és. De certeza que me conheces, repliquei, sempre que me quiseres bater podes vir, estás à vontade, não preciso de ter cuidado nenhum. Recuso sucumbir ao medo e, todavia, aquelas palavras ficaram e a dúvida, ando a ser controlado? E se sim, porquê?

Bom, se eu desaparecer deste lado virtual, é porque talvez tenha sido espancado. Não há problema, nem há razões de alarme. O problema continua a ser outro, o micro-fascismo latente em qualquer um.

2 comentários:

Rita Moura disse...

Há muitos a querer marcar território e não é a Serra nem o Labrador. Concordo que as ameaças e intimidações do conheço-te, estou-te a controlar, sei quem tu és têm uma natureza fascista. Mas ao ler o que contas revoltou-me principalmente a violência súbita e física desses tipos. E esta podendo também ser fascista é essencialmente machista. É o poder do homem, do dono (na rua, do cão; em casa, da mulher), transversal a classes sociais e a posições políticas. Talvez por ser mulher sinta mais essa violência bruta machista.
Vejo que o Arco do Cego é assim uma espécie de ensaio sobre a cegueira... Abraços.
PS. A Serra só ataca cães velhinhos e presos?! Isso é um bocado chunga...

benjamim machado disse...

eu percebo o que estás a dizer, mas utilizo o fascismo num sentido mais lato característico de qualquer expressão de força/poder de imposição e opressão, que passa por todo o tipo de relações (diferença sexual, étnica, idade, etc.). a questão, infelizmente, é que eu próprio acabei por me expressar no mesmo sentido, impus-me, quando procuro sempre agir de outra forma.

quanto à serra: pode ser que sim, que seja chunga, mas é mais do tipo david contra golias, normalmente eles são o dobro ou triplo do tamanho dela (eheheh).

abraços