domingo, 23 de setembro de 2012

Valério Romão



Autor: Valério Romão
Título: Autismo
Editora: Abysmo


          Não creio que alguma vez venha a conhecer a paternidade. Olho para um jornal ou para a televisão e, sinceramente, não sei como definir o gesto da paternidade, essa vontade de se permanecer no tempo: egoísmo? Ingenuidade? Cega crença de um futuro melhor? – não, decerto, aquele que deixamos para os nossos filhos, mas essoutro que eles conseguirão por fim realizar, pondo fim ao nosso mundo. Porém, reparo nos meus sobrinhos, vejo-os pendendo numa invisível e desvendada balança justiceira, avalio – quem me deu o direito, afinal? – os seus gestos, inúmeras vezes intencionalmente alheios a qualquer moral, escusando-os de imediato quando repreendidos – estavam ou não conscientes das suas acções – e procuro encaminhá-los com algumas palavras a fazê-los pender para o lado que me parece o bom – e, novamente, quem me deu, afinal, o direito? Ter um filho!; que enorme responsabilidade, que importante resposta damos à história, ao tempo, à vida.
          Sobre essa importância, essa responsabilidade, esse atroz peso se trata o primeiro romance de Valério Romão, “Autismo”, volume de abertura de uma trilogia em torno das “Paternidade falhadas”. E antes de falarmos sobre esse romance e do seu autor, queremos felicitar a novíssima editora Abysmo, bem como o trabalho editorial até hoje dado à estampa e aos olhos – cada livro é uma peça única, singular – pelo seu responsável, João Paulo Cotrim.
          Neste primeiro volume a paternidade surge falhada de origem, por assim dizer. Rogério e Marta, um jovem casal, são pais de uma criança autista, Henrique; ou seja, a sua aventura de paternidade encontra-se desde logo ameaçada, bloqueada por um obstáculo que os próprios desconhecem. Creem ter um filho especial, como todos os pais, com certas dificuldades, sim e estranhos comportamentos, deixando-os com uma ligeira má impressão mas nada alarmante; até que descobrem, através de pesquisas e documentários, que o filho possivelmente será autista. Vamos, então, acompanhá-los nesse reconhecimento, nas tentativas de entendimento e tratamento, no ruir da relação provocada pela transferência da atenção e de todo o amor para um só elemento da família, os tormentos pessoais, bem como a extrema angústia deste casal e dos pais de Marta no hospital para onde o filho foi conduzido após um acidente à porta da escola e de quem ninguém os informa da sua condição. Podemos dizer que o livro, na verdade, está dividido em duas partes: o hospital (os capítulos “Urgê cias”) e o antes (o mistério de Henrique) e o depois (o capítulo final, “uma carta ao pai” quase provocando a ilusão de uma mítica maldição, ou moldura trágica em que filho repete a falha do pai, uma vez que o pai de Rogério também falhou na sua paternidade). Estamos, até ao final do livro, em saltos temporais constantes, entrando e saindo do hospital, nas suas angústias, nos seus medos.
          “Autismo”, primeira obra de fôlego em prosa de Valério Romão, é um livro tocante, bem estruturado, nada sentimental, bem pelo contrário, sabendo pesar bem momentos humorísticos, ou quase absurdos, com cenas de uma respiração tensa, numa linguagem clara, contida, com algumas imagens ou metáforas que se repetem (“língua dos dedos”) lembrando, por vezes, António Lobo Antunes nos seus primeiros tempos (“Memória de Elefante, por exemplo), mas em nada seu seguidor. Esperamos os próximos falhanços com certa ansiedade.

2 comentários:

Miguel Pestana disse...

Excelente texto.
Realmente eu tinha outra ideia sobre esta obra, pelo que tinha lido aquando do lançamento.

Dou-lhe os meus parabens pelo seu blogue.

Boas leituras

silenciosquefalam.blogspot.pt

benjamim machado disse...

caro miguel,

eu é que agradeço a visita.

um abraço