terça-feira, 5 de junho de 2012

Nuno Costa Santos - 5 poemas

Breathe slowly


                                             Um homem
pode não escrever grandes livros
entrar para os Dicionários
ser lido nas escolas.

Um homem pode não conseguir nada disso
                                              mas deve
ao menos
aprender a respirar.

*

Uma crença


Façam completo silêncio,/paralisem os negócios,/garanto que uma flor nasceu.
Carlos Drummond de Andrade, a Flor e a Náusea

Traz a metáfora à frase.

Mesmo no supermercado pode crescer uma flor.
(como direi?)

Uma gerbera
na secção das margarinas.

*

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.

Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

Às vezes é um fósforo
que resplancesce venturosas entradas
no dicionário dos dias.

Às vezes nem isso.

Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.

*

As mães

Têm na sala os retratos daquela felicidade
que deixou de ser,
nos frascos o perfume de vozes antigas.

As mães não precisam de elogios.

Lembram-se daquilo que o mundo esqueceu
por descuido e voracidade.

Guardam o passado
como quem encobre um filho
que saiu de casa para ser outra coisa.

*

Perdoa-me

Perdoa-me esta tristeza
de súbito revelada

(já passa
como passam as nuvens
e as notícias em rodapé)

este ar de passarão triste
estes olhos de boga
este contrato a termo incerto com o pensamento.

Não é nada

sou só eu
de vez em quando.


in Nuno Costa Santos, Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, col. transeatlântico, 2012: 9, 11, 17, 28, 32.

4 comentários:

Sun Iou Miou disse...

Não conhecia a poesia do Nuno Costa Santos. Adorei. Obrigada por partilhares.

benjamim machado disse...

ora, de nada. mas já agora dá uma vista de olhos na editora, "companhia das ilhas"

Sun Iou Miou disse...

Já fui lá espreitar há uns dias (aquando da publicação do teu livro), e fiquei feliz, pela qualidade e, por que não dizê-lo, os preços! Mas tenho de esperar, que remédio!, porque estou sem um tostão (espero, pacientemente, que me paguem o muito que tenho vindo a trabalhar nestes meses passados...).

benjamim machado disse...

mas não podes somente esperar, tens de te fazer anunciar, não vão eles esquecer.