quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ingeborg Bachmann



Autor: Ingeborg Bachmann
Título: Trinta Anos
Editora: Relógio d'Água
Tradução: Leonor Sá


          Nem sempre um grande poeta escreve boa prosa; e nem sempre um grande prosador escreve boa poesia. Quero dizer, o que faz a grandeza num dos géneros nem sempre se revela num outro. Lembro-me, por exemplo, do “Lunário” de Al Berto; um belo livro e do qual gostei muito, mas em nada se compara à sua poesia. Ou então Malcolm Lowry e a enorme diferença que há entre os seus romances e contos – aos quais volto sempre uma e outra vez – e os seus poemas que me parecem ficar aquém em força. A mestria da língua continua lá, é certo, todavia isso não chega para um bom poema ou um bom romance. É como se um autor perdesse uma qualquer faculdade, a ideia não resulta, ou os tempos, os ritmos. Atravessa a fronteira e alguma coisa se esqueceu, se perdeu. E até pode estar tudo muito bem, tudo no seu lugar, a matéria estudada e nada acontece. Mas quando acontece...
          Até ter lido este livro somente conhecia da autora, Ingeborg Bachmann (1926 - 1973), dois livros, um lido e o outro não, um de poesia – uma pequena recolha editado pela Assírio & Alvim, “o Tempo aprazado” – e o romance “Malina”, que permanece à minha espera na estante, ao lado de outros. Escritora austríaca, com uma imensa obra ainda por traduzir – creio que nunca será – estudou filosofia e direito, tendo-se doutorado com uma tese sobre o existencialismo de Heidegger, por quem se desinteressou por completo quando leu Wittgenstein; mas ambos foram determinantes na sua obra e no seu pensamento. Trabalhou na rádio, foi jornalista e a sua escrita percorre a poesia, o romance, ensaio, libreto de ópera e o teatro. De coração partido pelas relações, deprimida com a sua vida, morre vítima de queimaduras três semanas após o seu quarto de hotel se incendiar, acompanhada de uma dura desintoxicação forçada do seu vício de comprimidos.
          “Trinta anos” é um dos seus volumes de contos, fascinando-me ainda mais que a poesia da autora. Sete contos densos, duros, perfeitos se houvesse a perfeição, onde muitos deles mostram bem todo o labor poético que antecedeu o seu crescimento nas letras, uma escrita de maturidade. Sem querer fazer comparações, se Thomas Bernhard (que, aliás, em “Extinção”, retrata a autora, por quem nutria um imenso carinho, segundo os seus biógrafos) nos dá a Áustria e o Austríaco enquanto fruto podre sem remédio, escolhendo casos típicos mesmo se ficcionados, Bachmann dá-nos uma realidade da sociedade austríaca ferida pela guerra, ou então o instante em que a ferida mais profunda se revela e toma conta da vida, momento fulcral conduzindo a um questionamento integral de cada um, dos seus valores, crenças, memórias, sentimentos, etc. Cada personagem parece mergulhado num inferno, passando em revista a sua história e forçada a escolher uma mudança. Não se trata mudar de vida, mas na vida escolher a vida, o que a vida tem e que não foi agarrada, ou ficou soterrada por escolhas, as quais, uma vez analisadas, se mostram falhas de sentido. Porém, parece igualmente dizer-nos a autora, esse instante de inquirição, tortuoso, doloroso, o mais das vezes é somente isso, um instante de uma reavaliação incumprida, nado-morta, nenhuma mudança realmente nos acode.
          Mas quando acontece...

6 comentários:

je suis...noir disse...

Eu cá gosto do "Lunário" tanto como de "O medo": é igualmente poético.Já o li mais que 10 vezes!

( O meu "problema" é gostar! Mas quando acontece...:))

benjamim machado disse...

o "lunário" e o "anjo mudo" são livros muito bons e gostei muito de os ler, mas parecem-me ficar aquém do "medo", da poesia do al berto, portanto, mesmo se se encontre lá a marca do autor. creio que o problema nem está em gostar ou não, mas em perceber, realmente, que nem sempre se consegue criar boas obras nos dois géneros - neste caso poesia e prosa - e conseguir reconhecê-lo e dizê-lo.

Anónimo disse...

E a quem cabe reconhecer?
Acredito que o Al Berto não gostasse do que fazia em nenhum dos géneros...

Assim, penso que será ainda uma questão de gosto (de quem lê)

Je suis...noir (não estava com sessão iniciada! Esqueci-me.)

benjamim machado disse...

porque não o leitor? o leitor que realmente gosta de ler e que, com o tempo, foi conseguindo constituir alguma bagagem crítica e aplicá-la às obras com toda a humildade que carrega? porquê permanecer nessa ilusão de que tudo que um escritor, do qual gostamos, escreve sempre grandes obras, grandes textos e/ou poemas? não, não é só uma questão de gosto mas de estética, ou de aiestésica - para aproximar à etimologia - que implica todo o corpo, as sensações e mais do que "gosto" (que é uma sensação, embora neste caso colocam-na num patamar diferente, esquecendo o desgosto que poucos dizem: normalmente é, gostei muito-pouco-ou nada, então e dizer "desgostei do livro", "foi para mim um desgosto") o livro deveria ser pensado pelo "tacto", o "toque", que para além de um contacto, um respeito, implica também movimento de aproximações e afastamentos, quer exterior quer interior (chamando de interior o que quiserem chamar e mais agrada a si). é por isso que o sistema de valorização dos jornais e revistas é do mais ignóbil que há, decorre exactamente do gosto tal como se premeiam restaurantes, pousadas e etc. - "então gostou?", "sim, a comida estava óptima, 5 estrelas" - como se qualificaria aquilo que nos toca, nos move, comove, nos fere, nos repele, nos magoa? e mesmo no gosto há contacto, toque, por isso há desgosto e degosto...

quanto ao al berto gostar ou não gostar do que fizesse em qualquer um dos géneros, desculpa negrèsse, mas estaria forçado a dizer que o que ele gostava era de escrever e talvez por isso experimentou e por isso continuou até morrer.

Anónimo disse...

Acho que dissemos o mesmo por outras palavras... Eu não "gosto" de todos os géneros de todos os escritores mas como em tudo existem excepções. De resto é apenas a opinião de uma leitora, a minha!

Quanto ao Al Berto: pelo que sei também adorava desenhar e não continuou até morrer. Há aqui uma aparente contradição Ben. (mesmo os textos esteve muitas vezes para os queimar e pediu que tudo fosse destruído depois de morrer...) Pode acontecer que por vezes tenhamos que largar aquilo que gostamos.

moi( outra vez sem sessão iniciada!)

je suis...noir disse...

Ps: Isto começou no Al Berto que para mim é intocável. Já conheço a obra à mil anos e já li "tudo" (até crónicas que chegou a escrever) e tenho "projectos 69" que é um livro pouco conhecido, com pouco mais que algums desenhos...

Mas há outros autores... Mário de sá Carneiro e até Gonçalo M. Tavares mais recentemente. Não digo que "gosto" de toda a prosa ou de toda a poesia, mas que me tenho que me render à evidência tenho. O homem domina os 2 géneros: basta ler "o livro da dança"!