terça-feira, 12 de julho de 2011

a mãe

i
tem um sorriso de prata, a mãe,
nácar de dias, uma vida
não cumprida. pelos corredores
do corpo as dores atentam a sua presença
há tanto instaladas. têm nomes, diz:
este filho este marido será
um sofá a cruzada de palavras
números em grelhas lógicas
gritos silêncios um suor
encharcando os lençóis
uma realidade revirada
estranha tornada incógnita
o seu sorriso outrora um luxo, uma sombra
de hábito patinado agora, o cigarro
entre os dedos, diz, entre o fumo:
em criança perdi os horizontes
por isso pedi na aliança as alturas
ao meu pai, um sexto andar a meio
do campo e da cidade. já se foram
quase todos, isto a vida
a minha, ao parapeito onde flapeiam
roupas ao som de roldanas
ferrugentas ao tempo. a lua alça-se
ilumina-me as pernas fatigadas
e o vermelho intermitente de um painel
sobre o meu rosto traz-me a insónia
tivesse ela forças e o sorriso
no passeio, talvez. conheço-lhe
o rumor do choro quando fala
pareço escutar a morte vestida de tristeza.

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