terça-feira, 9 de março de 2010

a memória de um crime

nesse ano quase inteiro
vivendo só na companhia
de dois irmãos, enquanto
tua mãe cuidava dos seus
pais moribundos, um
velho perneta diabético e
uma velha devindo criança,
frequentavas as discussões adolescentes
de política de esquerda e amores
falhados. querias-te poeta, lias
muito e escrevias pouco
e mal, como agora, anos passados,
criança de dextra mão.
blusão da tropa, que ainda tens,
boina trocada por chapéu, projecto
de barba – finalmente concretizado –
percorrias a avenida
de roma e o cinema king
tão cheios de intelectuais
que olhavam o miúdo de lado.
talvez por isso também essas
câmeras de segurança não viram
o movimento nervoso da tua mão
e do livro desalarmado
procurando o teu bolso:
nossa senhora das flores

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