quarta-feira, 24 de junho de 2009

heinrich heine





Há alguns anos atrás, mais ou menos dez, quando eu me encontrava no início dos meus vinte e sonhava com as minhas estonteantes, fabulosas e maravilhosas futuras páginas de literatura, que me colocariam de imediato na história da literatura nacional e mundial – aos vinte estamos no apogeu do romantismo saído da adolescência – deixei escrito numa página qualquer que a melhor forma de se escrever e de se ler era em viagem. Ainda acredito profundamente nisso. Ainda sou romântico. Contudo, infelizmente, todo esse romantismo levou ao surgimento da minha miopia – o que não me impede de continuar a ser um romântico, embora de vistas mais curtas.
E são de tal maneira curtas, as vistas, que só neste parágrafo introdutório indiquei o que iria falar. Trata-se, pois, de um romântico grande viajante. Nascido três anos antes do fim do séc. xviii – brincava ele dizendo que tinha sido o primeiro homem do século xix, para engrandecer a sua aura de escritor – Heinrich Heine é um dos nomes maiores da segunda fase do romantismo alemão, pós Goethe, Schelling, Lessing, os irmãos Schiller, etc. E, por essa mesma razão, vê-se numa encruzilhada que obsta todos os escritores nascidos na geração que segue grandes nomes: que fazer para os livros futuros, como quebrar o molde, passar por cima do pai?
Soube-o fazer – embora tenha começado a sua carreira literária na esteira dos velhos românticos – fazendo cruzar uma tradição, o relato de viagem, com a ficção mais imaginativa, como a de um Lawrence Sterne. Ora, este pequeno livro, que se integra no segundo volume dos quatro intitulados de “Quadros de Viagem”, “não permite uma leitura fácil e imediata” (p.10) segundo a tradutora. Concordo e discordo, se me fôr permitido, mas terei de dar ainda a palavra à tradutora: “A descontinuidade dos tempos, a ambiguidade e a pluralidade dos lugares, o jogo de ficções que se contradizem reciprocamente para confluírem no nó que fecha e impõe coerência à urdidura do narrado, levaram a grande maioria dos leitores contemporâneos a considerar a obra como um emaranhado de invenções desconexas”. Pois bem, ainda hoje poderá ser de difícil leitura e no entanto não há leituras fáceis, no máximo leituras desatentas, desinteressadas, despreocupadas ou leitura nenhuma (o que é mais comum). Para um leitor contemporâneo, de há dois séculos passados e não deste, realmente o texto levantaria problemas – mesmo esquecendo a existência de um “D. Quixote” ou de um Rabelais ou até mesmo de um “Jacques, o Fatalista” anteriores – mas a novidade é e será sempre estranha e essa era e é a grande força deste texto – à sua semelhança refiro o belíssimo livro “Aurélia” de Gérard de Nerval – mas para um contemporâneo de agora, esta mistura de estilos, de tempos e espaços será, porventura, tirando o cuidado da língua, extremamente actual.
É, como muito bem diz a tradutora no seu prefácio, uma viagem interior e, como tal, não há forma correcta de se viajar. Estamos num ponto e saltamos para outro e para outro, sem qualquer continuidade, em errância. A forma de se dizer, de se falar, de se relatar o caminho errante terá de, necessariamente, mudar consoante as novas paisagens emocionais, tal como mudamos a nossa própria quando falamos com as pessoas – estamos continuamente a mudar de tom, de ritmo, de posição física, de gestos, até de tempos verbais. E nós viajamos com ele, com o narrador, através do tempo em que ele narra passando pela infância, a sua juventude e de volta ao início.
E como muitos dos textos devedores do romantismo, há um caso amoroso não correspondido que atravessa a narração. O mote é o que se encontra escrito em epígrafe em alguns dos capítulos: “Ela era amável, e Ele amava-A; Ele, porém, não era amável, e Ela não O amava.” (p. 19, 21 e 85). Como desconheço inteiramente a língua alemã, exceptuando algumas palavras que se repetem nas minhas leituras, não saberei dizer se este “amável” se poderá ler, no original, com estas duas leituras possíveis em português, que referirei, abrindo bastante o campo de interpretação. Por um lado, lendo amável como relacionado com simpatia, toda a narrativa é atravessada por um tom irónico que desmente o narrador, porque este solilóquio, que o não é, é trabalhado com uma enorme educação e num tom simpático para com a auditora, o que nos leva a pensar, afinal, quem não será “amável”; por outro lado, se entendermos “amável” como a capacidade de alguém para dar e receber amor de e a alguém, encontramo-nos no seio de uma confissão de coração aberto apresentando-se, senão antes, agora, de uma amabilidade que risca por completo, ou inverte os termos, da epígrafe (e mais leituras haverão). Não será decerto um erro esta interpretação, pois o narrador pergunta mesmo à auditora “Vous pleurez Madame?” (Chorais Senhora?). Não estará esta pergunta a responder a esta leitura? Porque haveria a senhora de chorar senão por ter sido atingida pelo seu próprio erro de julgamento (porque a epígrafe afinal trata do narrador e da sua auditora), revelando, no fim, que é ela que não é amável?
Bom, não escrevi isto em viagem, mas entre viagens. Já a sua leitura fez com que a distância entre Lisboa e Coimbra se passasse rapidamente. Espero que o leiam igualmente em viagem. Até para o próximo mês.

2 comentários:

Anónimo disse...

a felicidade também não é natural?
beijo
joana

benjamim machado disse...

acho que sim. a sensação de qualquer coisa indefinida pode muito bem ser natural, a definição de qualquer coisa sentida já não o é, é humano, tal como só os humanos constroem a sua vida em busca da felicidade.

é natural sentir qualquer coisa, já não é natural falar sobre elas, não só porque só os humanos o fazem - o que me levanta dúvidas quanto ao ser natural ou não - mas porque ao falares crias simulacros e fantasmas dessa coisa sentida. sentes-te feliz, mas quando dizes a alguém: "sinto-me feliz"; estás a falar sobre uma projecção, o fantasma da tua sensação.

ou talvez não.

beijo