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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Atravessando a Água


Lago negro, barco negro, duas pessoas, negras de papel.
Para onde vão as árvores negras que bebem aqui?
As suas sombras devem cobrir Canadá.

Uma pequena luz filtra-se pelas flores aquáticas.
As suas folhas não desejam apressar-nos:
Elas são rotundas e planas e plenas de conselhos negros.

Palavras frias sacodem-se do remo.
O espírito das trevas está em nós, está nos peixes.
Um obstáculo ergue uma pálida mão, de despedida;

Estrelas abrem-se entre lírios.
Não estás cego por estas sereias inexpressivas?
Este é o silêncio de almas aturdidas.

Sylvia Plath in Crossing the water - transitional poems

domingo, 30 de abril de 2017

Sylvia Plath - Uma Vida


Toca-lhe: não vai encolher como um olho,
Este bailio oval, claro como uma lágrima.
Aqui é amanhã, o ano passado –
Distinta lança de palmeira e lilás como flora na vasta
Fechada trama de uma tapeçaria.

Risca o vidro com a tua unha:
Irá sibilar como um carrilhão chinês à mais leve agitação do ar
Embora ninguém aí olhe para cima ou se preocupe em responder.
Os habitantes são leves como cortiça,
Cada um deles permanentemente ocupado.

A seus pés, as ondas do mar curvam-se numa única fileira.
Nunca entrando em mau humor:
Suspendendo a meio do ar,
Rédea-curta, empinando como cavalos de parada.
No alto, as nuvens assentam franjeadas e extravagantes

Como almofadas Vitorianas. Esta família
De rostos enamorados poderão agradar um colecionador:
Soam a verdadeiros, como boa porcelana.

Noutros lados a paisagem é mais sincera.
A luz cai sem pausas, cegando.

Uma mulher arrasta a sua sombra num circulo
Em torno de um pires calvo de hospital.
Faz lembrar a lua, ou uma folha em branco
E parece ter sofrido um espécie de ataque relâmpago privado.
Ela vive em calmamente.

Sem ligações, como um feto numa garrafa,
A casa obsoleta, o mar, aplanado a uma imagem
Ela tem demasiadas dimensões onde entrar.
Mágoa e raiva, exorcizadas,
Deixem-na em paz agora.

O futuro é uma gaivota cinzenta
Palrando na sua voz de gato de partida, de partida.
Idade e terror, como enfermeiras, tomam conta dela,
E um afogado, queixando-se do grande frio,
Rasteja para fora do mar.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

quarta-feira, 8 de março de 2017

Queima das Bruxas





No mercado estão a empilhar paus secos.
Um matagal de sombras é um pobre agasalho. Eu habito
A imagem de cera de mim própria, um corpo de boneca.
A doença começa aqui: sou um alvo para bruxas.
Só o diabo pode comer o diabo para fora.
No mês das folhas rubras eu subo para uma cama de fogo.

É fácil culpar o escuro: a boca de uma porta,
A barriga da cave. Eles explodiram o meu atiçador.
Uma obscura mulher fragmentada tem-me encerrada numa gaiola de papagaio.
Que olhos tão grandes têm os mortos!
Sou íntima com um espírito peludo.
Fumo revoluta da boca deste jarro vazio.

Se eu sou pequena, eu não posso fazer qualquer mal.
Se não andar por aí, nada derrubarei. Assim disse,
Sentada debaixo de tampa de panela, pequena e inerte como um grão de arroz.
Eles estão a erguer as tochas, anel após anel.
Estamos repletas de goma, as minhas pequenas companheiras brancas. Crescemos.
Dói ao início. As línguas vermelhas irão ensinar a verdade.

Mãe de carochas, descerra apenas a tua mão:
Eu voarei pela boca da candeia como uma traça complicada.
Dá-me a minha forma de volta. Estou pronta a construir os dias
Eu copulo com o pó na sombra de uma pedra.
Os meus tornozelos clareiam. A claridade sobe pelas minhas ancas.
Estou perdida, estou perdida, na túnica de toda esta luz.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Besta


No princípio ele era um bisonte,
Rei do disco, o meu animal da sorte.
Era fácil respirar na sua herdade arejada.
O sol punha-se no seu sovaco.
Nada apodreceu. Os pequenos invisíveis
Serviam-no das mãos aos pés.
As irmãs deprimidas transferiram-me para outra escola.
O macaco viveu sob o chapéu de burro.
Continuou a enviar-me beijos.
Eu mal o conhecia.

Ele não se vai livrar de:
Patasresmungonas, lacrimante e pesaroso,
Fido Pequen'alma, o familiar intestino.
Um cesto do lixo é suficiente para ele.
As trevas o seu osso.
Chamem-no por qualquer nome, ele virá à chamada.

Poço de lama, cara de chiqueiro feliz.
Casei-me com um armário de lixo.
Deito-me numa poça de peixe.
Aqui em baixo o céu está sempre a cair.
A pocilga fica à janela.
Os insectos estrelados não me vão salvar este mês.
Tomo conta da casa no esgoto do Tempo
Entre formigas e moluscos,
Duquesa de Nada,
Noiva do Cabelo-de-presas.

Sylvia Plath in Crossing the water - transitional poems

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ménada

Uma vez fui ordinária:
Sentada à beira do feijoeiro
Comendo os dedos da sabedoria.
Os pássaros deram leite.
Quando relampejou escondi-me sob uma pedra plana.

A mãe das bocas não me amava.
O ancião encolheu até ser uma boneca.
Oh sou tão grande para voltar atrás:
Leite de pássaro é penas,
As folhas do feijoeiro são mudas como mãos.

Este mês é feito para pequenos.
Os mortos amadurecem nas videiras.
Uma língua rubra está entre nós.
Mãe, afasta-te do meu celeiro
Estou a tornar-me outra.

Cabeça de cão, devoradora:
Alimenta-me com bagas das trevas.
As pálpebras não se fecham. O tempo
Desencorda-se do enorme umbigo do sol
As suas intermináveis cintilações.

Eu devo engoli-las todas.

Senhora, quem são aqueles outros na cuba da lua –
Bêbados de sono, os seus membros ao acaso?
Nesta luz o sangue é negro.
Diz-me o meu nome.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Casa Escura



Esta é uma casa escura, muito grande.
Fi-la eu própria,
Cela a cela de um canto silencioso,
Mastigando o papel cinzento,
Exsudando as gotas de cola,
Soprando, serpeando os meus ouvidos,
Pensando noutra coisa qualquer.

Tem tantas caves,
Tantas cavidades de enguia!
Sou rotunda como uma coruja,
Vejo pela minha própria luz.
Mais dia menos dia paro cachorros
Ou dou à luz um cavalo. A minha barriga move-se.
Tenho de fazer mais mapas.

Estes túneis medulares!
De espada em punho, como o meu caminho.
O tagarela lambe os arbustos
E as panelas de carne.
Ele vive num velho poço,
Um buraco empedrado. É dele a culpa.
Ele é um tipo gordo.

Cheiros de seixo, quartos de nabo.
Respiram pequenas narinas.
Humildes pequenos amores!
Frívolos, desossados como narizes,
É morno e tolerável
No intestino da raiz.
Eis uma mãe de peluche.


in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

domingo, 7 de agosto de 2016

Quem


O mês da floração terminou. O fruto está plantado,
Comido ou apodrecido. Eu sou só boca.
Outubro o mês do armazenamento.

Esta cabana é bolorenta como o estômago da mamã:
Velhas ferramentas, pegas e presas ferrugentas.
Estou em casa aqui entre cabeças mortas.

Deixem-me sentar num vaso,
As aranhas não darão conta.
O meu coração é um gerânio impedido.

Se ao menos o vento deixasse os meus pulmões em paz.
O pau-para-toda-a-obra cheira as pétalas. Elas florescem de cabeça para baixo.
Chocalham como arbustos de hidrângeas.

Consolam-me cabeças moldadas,
Pregadas ontem às vigas:
Cativos que não hibernam.

Cabeças de couve: púrpura bichento, brilho prateado,
Uma indumentária de orelhas de burro, couro bafiento, mas de âmago verde,
As suas veias brancas como gordura de porco.

Oh a beleza do uso!
As abóboras laranjas não têm olhos.
Estes corredores estão cheios de mulheres que se julgam pássaros.

Esta é uma escola aborrecida.
Sou uma raiz, uma pedra, um vómito de coruja
Sem sonhos de qualquer tipo.

Mãe, tu és a única boca
Da qual eu seria a língua. Mãe da outridade
Come-me. Bocejo de caixote do lixo, sombra de vão de portas.

Eu disse: devo lembrar-me disto, ser pequena.
Havia tão grandes flores,
Púrpura e rubras bocas, completamente amorosas.

Os aros das hastes das amoras fizeram-me chorar.
Agora iluminam-me como uma lâmpada.
Durante semanas lembro nada de nada.


in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Duas irmãs de Perséfone


Duas raparigas há: dentro da casa
Uma senta-se; a outra, fora e sem.
Ao longo do dia um dueto de sombra e luz
Joga-se entre estas.

No seu quarto de lambril
A primeira resolve problemas numa
Máquina matemática.
Secos estalidos marcam o tempo

Enquanto ela calcula cada soma.
Nesta estéril empresa
Um ar de rato astuto corre pelo seu estrabismo,
Um tom de raíz empalidece a sua escassa moldura.

Bronzeada como a terra, a segunda descansa,
Ouvindo estalidos soprando ouro
Como pólen no ar claro. Embalada
Junto a uma cama de papoilas,

Ela vê como as suas sedas rubras fulguram
De pétalas sanguíneas
Abrindo-se à queimadura das lâminas do sol.
Nesse altar verde

Livremente se torna a noiva do sol, a outra
Cresce rapidamente com sementes.
Deitada em relva no seu ofício orgulhoso,
Ela porta um rei. Tornada amarga

E pálida como qualquer limão,
A outra, retorcida virgem até ao fim,
Segue em direcção à tumba com carne ao dependuro,
Verme-matrimoniado, mas não uma mulher.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

domingo, 20 de março de 2016

Ouija



É um deus frio, um deus de sombras,
Sobe até ao copo vindo da sua negra profundidade.
À janela, esses não-nascidos, esses inacabados
Agregam com a débil palidez das traças,
Uma fosforescência invejosa nas suas asas.
Cinábrios, bronzes, cores do sol
No carvão o fogo não os irá consolar completamente.
Imaginem a sua funda fome, funda como as trevas
Pelo calor sanguíneo que os marcaria ou reclamaria.
A boca do copo chupa o calor sanguíneo das ponta dos meus dedos.
O velho deus baba, em resposta, as suas palavras.

O velho deus, também ele, escreve poesia áurea
Em modos baços, vagueando pelos restos,
Franco cronista de cada imunda decadência.
A idade, e anos de prosa, desenrolou
A sua conversa de redemoinho, mitigou o seu excessivo temperamento
Quando palavras, como gafanhotos, martelaram o ar a enegrecer
E deixaram as espigas a chocalhar, limpas até ao tutano.
Céus que uma vez vestiram um azul, de altura divinal
Desfiam sobre nós, descida enevoada,
Engrossando com pó, até a um casamento com a lama.

Ele louva a rainha carunchosa de cabelo de açafrão
Que tem afrodisíacos mais salgados
Que lágrimas de virgens. Essa devassa rainha da morte,
Os seus mensageiros vermiformes estão aos seus ossos.
Todavia ele louva sumos dela, fervente nectarina.
Eu vejo-o, de pele dura e resistente, traduzir
Seixos impiedosos que o arado revira
Como ponderáveis provas do seu amor.
Ele, como um deus, tremendo, soletra
Não sucinto como Gabriel destas cartas
Mas floreadamente, as suas nostalgias amorosas.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Choramingas



Deitada em colchão de lama sob o signo da bruxa
Num aperto de sangue, a virgem faladora-adormecida
Enforca com a sua maldição o homem da lua,
Manel porta-feixe no seu ovo intacto:

Chocado com um barril de tinto para despejar
Ele tudo reina, entretecido pelo umbigo a nenhum gemido,
Mas ao preço de uma pele cerzida
Raparigas de ancas pendulares compram cada perna branca.


in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Metáforas


Eu sou um enigma em nove
Um elefante, lenta casa,
Um melão sobre dois palitos.
Oh fruto rubro, marfim, lascas!
Um pão enchendo-se de mofo.
Novo molde num vaso gordo.
Meio, palco, vaca inchada.
Atestei-me de maçãs verdes,
Não se desce deste comboio.

in Sylvia Plath, Crossing the waters - transitional poems

domingo, 24 de janeiro de 2016

Gralha Negra em Tempo Chuvoso




Naquele rígido ramo ali no alto
Arqueia-se uma encharcada gralha negra
Arranjando e rearranjando as suas penas à chuva.
Eu não espero um milagre
Ou um acidente

Que ateie um fogo nesta visão
Dos meus olhos, nem busco
Mais no volúvel clima algum desígnio,
Mas deixem folhas pontilhadas cair como caem,
Sem cerimónia, ou portento.

Embora, admito, desejo,
Ocasionalmente, uma resposta malcriada
Do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:
Uma certa luz menor pode ainda
Saltar incandescente

Da mesa ou da cadeira da cozinha
Como se um incêndio celestial tomasse
Posse dos objectos mais obtusos de vez em quando –
Assim permitindo um intervalo
De outra maneira inconsequente

Em conferindo liberalidade, honra,
Dir-se-ia até amor. De qualquer modo, falo agora
Circunspecta (pois poderia acontecer
Mesmo nesta paisagem aborrecida, ruinosa);
cética, porém diplomata; ignorante

De qual anjo escolheria fulgurar
Subitamente no meu ombro. Só sei que uma gralha
Ordenando as suas penas negras pode brilhar de tal modo
Que prenda os meus sentidos, alar
As minhas pálpebras, e conceder

Uma breve trégua ao medo
De total neutralidade. Com sorte,
Teimosamente atravessando esta estação
De fadiga, eu irei
Improvisar um qualquer

Contentamento. Milagres ocorrem,
Se te importares em nomear esses espasmódicos
Truques de esplendor milagres. A espera recomeçou,
A longa espera pelo anjo,
Por essa rara, fortuita descida.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

sábado, 2 de janeiro de 2016

Últimas palavras


Eu não quero uma simples caixa, eu quero um sarcófago
Com listras tigradas, e um rosto no topo
Redondo como a lua, para espectar o cimo.
Eu quero olhar para elas quando vierem
Colher os estúpidos minerais, as raízes.
Estou a vê-las agora mesmo – as caras a anos-luz, pálidas.
Agora não são nada, nem sequer bebés ainda.
Imagino-as sem pais ou mães, como os primeiros deuses.
Perguntar-se-ão se fui importante.
Eu deveria cristalizar e preservar os meus dias como se fossem frutos!
O meu espelho está a enevoar-se –
Mais umas quantas expirações e refletirá coisa alguma.
As flores e os rostos embranquecidos como um lençol.

Eu não confio no espírito. Foge como vapor
Nos sonhos, pelos buracos da boca ou do olho. Não o consigo impedir.
Um dia não voltará. As coisas não são assim.
Elas ficam, os seus particulares lustres
Aquecidos por muito manuseamento. Quase ronronam.
Quando as solas dos meus pés arrefecerem,
O olho azul da minha turquesa consolar-me-á.
Deixem-me ter as minhas panelas de cobre, deixem os meus vasos de rouge
Florescer sobre mim como flores noctívagas, com um bom cheiro.
Eles enrolar-me-ão em ligaduras, arrumarão o meu coração
Debaixo dos meus pés num embrulho de bom gosto.
Quase não me reconhecerei. Estará escuro,
E o brilho destas pequenas coisas mais doce que o rosto de Ishtar.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

domingo, 27 de dezembro de 2015

A mulher do guarda do Jardim Zoológico



Posso ficar a noite toda acordada, se for preciso –
Fria como uma enguia, sem pálpebras.
Como um lago morto as trevas envolvem-me,
Azul-escuro, uma ameixa espectacular.
Nenhumas bolhas de ar nascem do meu coração. Não tenho pulmões
E sou feia, a minha barriga uma meia de seda
Onde se decompõem as cabeças e caudas das minhas irmãs.
Vejam, estão a derreter-se como moedas em potentes sucos –

As aracnídeas mandíbulas, as vértebras expostas por um momento
Como as linhas brancas de uma planta de arquitectura.
Deveria mexer, penso que este saco rosa e púrpura
De entranhas daria estalidos como o chocalho de uma criança,
Queixas velhas acotovelando-se umas às outras, tantas perdem dentes.
Mas o que sabes disso
Meu porco anafado, meu querido meduloso, desistente?
Algumas coisas deste mundo são indigestas.

Fizeste-me a corte com os morcegos frugívoros cabeça-de-lobo
Suspensos pelos seus ressequidos ganchos na húmida
Abafada Casa dos Mamíferos Pequenos.
O tatu dormitou na sua caixa de areia
Obsceno e careca como um porco, os ratos brancos
Multiplicados ao infinito como anjos na cabeça de um alfinete
Por puro fastio. Enrodilhada nos lençóis transpirados
Relembro as galinhas sangrentas e os esquartejados coelhos.

Conferiste os quadros dietéticos e levaste-me a brincar
Com a jibóia no Jardim dos Iguais.
Fingi que era a Árvore do Conhecimento.
Entrei na tua bíblia, emadeirei a tua arca
Com o sagrado babuíno na sua peruca e orelhas de cera
E a aranha peluda como um urso comedora de pássaros
Continuamente escalando na sua caixa de vidro como uma mão de oito dedos.
Não consigo tirar da minha cabeça

Como o nosso namoro acendeu as jaulas inflamáveis –
O teu rinoceronte de dois chifres abriu uma boca
Suja como a sola de uma bota e grande como uma pia de hospital
Para o meu cubo de açúcar: o seu hálito pantanoso
Enluvou o meu braço até ao cotovelo.
Os caracóis sopraram beijos como maçãs negras.
Agora de noite açoito macacos corujas ursos carneiros
Por cima das suas cercaduras metálicas. E mesmo assim não adormeço.


in Sylvia Plath, Crossing the Water - transitional poems

domingo, 13 de dezembro de 2015

Sétimo Domingo de Páscoa


Não é isto o que queria dizer:
Arcos de estuque, rochas amontoadas em fila banhando-se ao sol,
Insignificantes olhos ou ovos petrificados,
Adultos encerrados em meias e casacos,
Pálido-adorno, sorvendo o fino
Ar como um remédio.

O espanto do cavalo detido no seu poste
de crómio atravessa-nos; os seus cascos mastigam a brisa.
A tua camisola de linho encrespado
Incha como uma bujarrona. As bordas do chapéu
Deflectem o deslumbramento aquoso; as pessoas inactivas
Como se num hospital.

Consigo cheirar o sal, muito bem.
A nossos pés, o mar de algas-pistácio
Exibe as suas sedas glaucas,
Curvando-se e submetendo-se como um antigo oriental.
Não estás mais feliz do que eu quanto a isto.
Um polícia aponta uma falésia vazia

Verde como uma mesa de bilhar, onde borboletas de couve (1)
Partem em debandada para o mar como fazem as gaivotas,
E nó picnicamos com o odor putrefacto de um pirliteiro.
As ondas pulsam e pulsam como corações.
Naufragados sob rebentos escumosos, deitamo-nos
Enjoados e febris.

(1) Pieris Rapae, espécie de borboleta totalmente coberta de “pêlos”, na ponta dos quais sempre se encontra uma gotícula de uma substância oleosa, segundo a wikipédia.

in Sylvia Plath, Crossing the Water - transitional poems

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

No Convés



Meia-noite a meio-Atlântico. No convés.
Enrolados em si como num espesso velamento
E mudos como manequins numa loja de roupas,
Alguns passageiros seguem o trilho
Do velho mapa celeste fixado no tecto.
Pequeno e distante, um único barco

Aceso como um bolo de casamento de dois andares
Leva as suas velas lentamente adiante.
Agora não há muito mais para ver.
Ainda ninguém irá mexer ou falar –
Os jogadores de bingo, os jogadores amando
Num quadrado tão grande quanto uma carpete

São conduzidos por cristas e meandros,
Cada um estagnado no seu minuto particular
E encastelado como um rei.
Gotinhas marcam os seus sobretudos, as suas luvas:
Elas voam demasiado depressa para que sintam que molham.
Tudo pode acontecer para onde vão.

A descuidada revivalista senhora
Para quem o bom Senhor provém (Ele deu-
Lhe um livro de bolso, um alfinete de chapéu de pérola
E sete sobretudos de inverno no passado Agosto)
Reza sobre o seu peito para que possa salvar
Os estudantes de arte de Berlim Ocidental.

O astrólogo junto ao seu cotovelo (um Leão)
Escolheu a data da sua viagem pelas estrelas.
Gratifica-se pela ausência de bolos de gelado.
Será rico num ano (e deveria sabê-lo)
Vendendo às mães Galesas e Inglesas
Nativos aos dois e aos seis.

E o joalheiro grisalho da Dinamarca está a talhar
Uma mulher facetada na perfeição para lhe
Servir dos pés às mãos, muda como um diamante.
Balões aluados presos por um fio
Aos pulsos dos seus donos, os leves sonhos flutuam
Para serem libertos à notícia de terra.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

sábado, 21 de novembro de 2015

Espelho




Sou de prata e exacto. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Tal qual é, desenevoado de amor ou desagrado.
Eu não sou cruel, só verídico –
O olho de um pequeno deus, enquadrado.
A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É rosa, com salpicos. Observei-a por tanto tempo
Creio que faz parte do meu coração. Mas tremeluz.
Uma e outra vez rostos e escuridão nos separam.

Agora sou um lago. Uma mulher aproxima-se de mim,
Procurando nos meus recantos pelo que ela realmente é.
Depois volta-se para esses mentirosos, as velas ou a lua.
Vejo as suas costas, e reflito-as fielmente.
Ela recompensa-me com lágrimas e uma agitação das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e volta.
Cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim afogou uma jovem rapariga, e em mim uma velha mulher
Ergue-se para ela dia após dia, como um terrível peixe.


in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dois campistas no País Nublado (Rock Lane, Canadá)



Neste país não há nem medida nem equilíbrio
Para cobrir o domínio de pedras e bosques,
A passagem, digamos, destas nuvens homens-envergonhantes

Nenhum gesto teu ou meu poderia chamar a sua atenção,
Nenhuma palavra fá-lo-ão carregar água ou foguear o graveto
Como ogros locais sob o feitiço de um ser superior.

Ora, uma pessoa cansa-se dos Jardins Públicos: quer-se umas férias
Onde árvores e nuvens e animais não nos ligue;
Longe dos olmos catalogados, as domadas rosas-chá.

Levou-nos três dias conduzindo para o norte até encontrar uma nuvem
Que os educados céus de Boston não podiam possivelmente acomodar.
Aqui na última fronteira do imenso e insolente espírito

Os horizontes estão demasiado longe para serem íntimos como tios;
As cores asseveram-se com uma espécie de vingança.
Cada dia conclui-se com uma ostentação de cinábrio

E a noite chega num único passo de gigante.
É confortável, por uma vez, significar tão pouco.
Estas rochas nada oferecem para adquirir forragens ou pessoas:

Elas estão a conceber a dinastia do frio perfeito.
Daqui a um mês questionar-nos-emos para que servem pratos e garfos.
Inclino-me para ti, dormente como um fóssil. Diz-me se estou aqui.

Os Peregrinos e os Índios talvez nunca aconteceram.
Planetas pulsam no lago como luzentes amibas;
Os pinheiros borram as nossas vozes lá no cimo nos seus leves suspiros.

Em torno da nossa tenda as velhas simplicidades sussurram
morosamente como Letes, tentando entrar.
Acordaremos entorpecidos como água na aurora.

Sylvia Plath in Crossing the water - transitional poems

sábado, 19 de janeiro de 2013

O cirurgião às duas da manhã




A luz branca é artificial, e higiénica como o paraíso.
Os micróbios não lhe podem sobreviver.
Estão de partida nas suas transparentes vestimentas, desviados
Do bisturi e das mãos de borracha.
O lençol esterilizado é um campo nevado, gelado e pacífico.
O corpo sob ele está nas minhas mãos.
Como de costume não há rosto. Uma massa de branca porcelana
com sete buracos à força do polegar. A alma é outra luz.
Ainda não a vi; não voa para o alto.
Hoje retirou-se como a luz de um navio.

É um jardim com que me tenho de haver – tubérculos e frutos
Destilando as suas sortudas substâncias,
Um tapete de raízes. Os meus assistentes penduram-nos de volta.
Assaltam-me fedores e cores.
Esta é a árvore do pulmão.
As orquídeas são esplêndidas. Elas marcam e enroscam-se como cobras.
O coração é uma campainha, em aflição.
Sou tão pequena
Em comparação com estes órgãos!
Num purpúreo ermo eu serpenteio e corto.

O sangue é um pôr-de-sol. Como eu o admiro.
Mergulhado nele até aos ombros, rubro e chiante.
Todavia invade, não se esgota.
Tão mágico! Uma fonte ardente
Que devo vedar e deixar encher
A intrincada tubagem azul sob este pálido mármore.
Como admiro os Romanos –
Aquedutos, os Banhos de Caracalla, o aquilino nariz!
O corpo é uma coisa romana.
Calou-se com a pétrea pílula do repouso.

É uma estátua que os serventes transportam para longe.
Aperfeiçoei-a.
Sou deixada com um braço ou uma perna,
Um conjunto de dentes, ou pedras
Numa garrafa para chocalhar e levar para casa,
E lenços em fiapos – um salame patológico.
Hoje à noite as partes foram soterradas numa geleira.
Amanhã irão nadar
Em vinagre como relíquias santas.
Amanhã o paciente terá um membro de plástico limpo e lilás.

Por cima de uma cama da ala, uma luz pequena e azul
Anuncia uma nova alma. A cama é azul.
Hoje à noite, para esta pessoa, o azul é uma linda côr.
Os anjos de morfina electrocutá-lo-ão.
Ele flutua uns centímetros acima do telhado,
Cheirando os rascunhos do amanhecer.
Caminho entre os adormecidos em sarcófagos de gaze.
As nocturnas luzes vermelhas são luas lisas. Atordoadas com sangue.
Sou o sol no meu manto branco,
Rostos cinzentos, pelas drogas fechados, seguem-me como flores.


in Sylvia Plath, Crossing the Water - transitional poems

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dormir no deserto de Mojave


Por aqui não há uma morada,
Grãos quentes, simplesmente. É seco, seco.
E o ar perigoso. O meio-dia age estranhamente
Na imaginação, erigindo uma linha
De álamos na meia distância, o único
Objecto para lá da louca, estrada em frente
Pode-se recordar homens e casas por aí.
Um vento fresco deveria habitar essas folhas
E um orvalho recolhido nelas, mais amado que o dinheiro,
Na hora azul anterior à aurora.
Porém eles recuam, intocáveis como o amanhã,
Ou essas cintilantes ficções de água entornada
Que deslizam defronte da própria sede.

Eu penso nos lagartos arejando suas línguas
Na fenda de uma sombra extremamente pequena
E o sapo guardando a gotícula do seu coração.
O deserto é branco como o olho de um cego,
Desconfortável como sal. Cobra e ave
Dormitam por trás de velhas máscaras de fúria.
Nós suamos como cães de lareira ao vento.
O sol depõe as suas cinzas. Onde nos deitamos
Os estalados grilos congregam-se
Nas suas armaduras laminadas e choram.
A lua do dia acende-se como uma mãe arrependida,
E os grilos vêm rastejando até ao nosso cabelo
Para rabecar a curta noite para longe.


in Sylvia Plath - Crossing the water, transitional poems