Mostrar mensagens com a etiqueta prosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta prosa. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xvi)

30 de Dezembro de 2006



Estendemo-nos na cama e pusemos o despertador e não têm nada a ver com isto e por fim tirei da minha mochila o Paraíso Perdido que tinha recomeçado a ler para o mestrado e li o primeiro canto à S. que adormeceu de imediato. Eu próprio não aguentei muito e também adormeci, só que, passado algum tempo, acordámos com música vindo da rua. É que aquele terraço que se via da nossa janela não era mais do que uma discoteca, mas também não durou muito tempo porque o cansaço era tal que adormecemos outra vez. Mas depois, valendo agora a pena ser acordado, o silêncio que já se fazia na rua foi maravilhosamente cortado. Eu já tinha tido esta experiência em Casablanca e tentei explicá-la muitas vezes à S., mas uma vez mais, não é a mesma coisa ouvir contar e presenciar (mas também se pode contar ou escrever aquilo que se presenciou de tal maneira que aquele que ouve ou lê pode mesmo sentir mais do que aquele que contou ou escreveu, o que não é o meu caso). Lembro-me que às quatro da manhã se acendeu o minarete da mesquita de Casablanca no escuro daquela noite quente de verão, aquela única luz lá em cima e do silêncio vindo sabe-se lá donde aquela voz grave que num vórtice se foi alojar no fundo do ouvido, aquela voz magnética que foi subindo e subindo e puxando por nós até nos agarrar completamente. Como a S. ainda estava mais ou menos desperta disse-lhe apenas de mansinho ouve. E do fundo da noite até aos nossos corações atravessou aquela voz e como já alguém disse, sobre algumas coisas é preciso o nosso silêncio. Shukran e boa-noite.
Ia amanhecendo em Fès, o despertador dizia-nos que eram oito horas e fomos à vez escalar a banheira. A S. ficou a marinar um pouco mais e eu despachava-me o mais rapidamente possível sem fazer muita porcaria. É um bocado parvo isto, não é?, uma pessoa toma banho para tirar a sua porcaria e tenta não emporcar o que está à sua volta. Mas bom, quando saí foi a vez da S. escalar e vestir-se e lá fomos nós cá para fora já com as mochilas às costas. Batemos à porta do T., mas claro que ele estava um bocadito atrasado, por isso, e agora sim, pudemos ver a sala de estar com a sua luz natural. Era uma sala ampla e alcatifada, com uma grande mesa ao centro e sofás a toda a volta. Paredes de madeira com quadros e fotografias de muitas partes de Marrocos. Duas grandes janelas com varandas que davam para um jardim e para as largas boulevards e altos prédios do tempo da ocupação francesa. Era uma manhã fresca e movimentada, um dia de Primavera e não de Inverno. Íamos comendo pedaços do bolo que a amiga da mãe do T. tinha cozinhado, esse feito de frutos secos e coca-cola, e esperávamos dizendo os bons-dias a tudo. Entretanto o T. já se devia ter despachado mas não chegava e eu acendia um cigarro sentado num sofá. Passado, sei lá, um quarto de hora aparece o T. que, aparentemente não nos viu na sala e saiu à nossa procura na rua e como não aparecíamos resolveu ver se estávamos no quarto. Quando nos encontrámos no hall do nosso andar resolvemos o nosso pequeno desencontro e decidimos tomar o pequeno-almoço no Al Khozama.
Agora sim já conhecíamos os caminhos que nos levavam à comida. Chegados ao Al Khozama sentámo-nos na esplanada e após um respeitoso ssalamu ‘lekum mútuo pedimos café, uma tosta de queijo muito semelhante àquela que vos falei na Ceuta espanhola e leite ou sumo. O T. ia lendo o seu guia para delinear o nosso percurso do dia e preparava a sua máquina fotográfica, enquanto a S. e eu íamos olhando à volta vendo as pessoas passar e trocando algumas palavras. Comemos, fumámos e tentei uma nova investida à casa-de-banho minúscula e não muito limpa o que Fès com que as minhas necessidades arrepiassem caminho. Desta feita, averiguámos junto do Sr. Khozama onde é que podíamos comprar um mapa de Fès para perceber melhor o quanto é que tínhamos de andar até à Medina, porque não parecia haver necessidade de transportes públicos. Na tabacaria em frente no outro lado da rua haveriam de certeza mapas e era verdade. Ao jeito tipicamente turístico tirámos uma fotografia todos juntos com o Sr. Khozama prometendo que depois enviaríamos uma cópia, coisa que ainda não fizemos mas haveremos de fazer. Depois de termos pago a conta e de mais um ssalamu ‘lekum ‘lekum ssalamu atravessámos a rua e procurámos o dito mapa e aproveitámos também para comprar tabaco, já que eu tinha apenas umas poucas folhas ambarinas e o T. nada para fumar. Nada mau os dois maços de Marquise por 30 dhirames, enquanto que o T. teve de pagar mais porque levou para além do Marquise um Camel a preço de importação que é quase o mesmo do que em Portugal. A tabacaria não era muito diferente das que ainda se encontram em Évora, por exemplo. Um balcão grande de madeira cheio de jornais, várias estantes com revistas e livros de poesia e romances em francês e árabe, por trás do balcão grandes prateleiras com tabaco e outras bugigangas, com a excepção de não existirem quaisquer revistas pornográficas, se calhar só para clientes habituais. Estávamos quase prontos, só faltava que eu e a S. comprássemos uma máquina fotográfica descartável, para que também nós tivéssemos os nossos momentos kodak. Encontrámos umas ruas mais adiante uma dessas lojas reveladoras e de venda ao público com tudo o que era necessário ao fotógrafo profissional e de fim-de-semana. Agora sim, venha daí a Medina e o souk.

(cont.)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xv)

Uma vez cá fora tínhamos todo um mundo por descobrir e um prato para comer. Já deveriam ser quase umas dez horas e não comíamos a outras tantas, estávamos estafados, com sono, aparvalhados, apalhaçados mas esforçando-nos por ter o ar mais digno e sabedor do que iríamos fazer. Não queríamos dar a entender que aquela era a nossa primeira vez em Fès, queríamos que quem olhasse para nós percebesse pelo nosso ar que sabíamos o que fazíamos. Nós cá hã! Sabemos o que queremos hã! Estão ouvir? Queremos três coisas, papinha, chichi, cama. E de tanto esforço de ar entendido parecíamos umas baratas tontas de um lado para outro, a subir e a descer ruas. Passávamos por pizzarias, casas de sandes, tascas, mini-rolotes de kebabs, cafés, tudo cheio de gente feliz e a comer. Mas nós sabíamos o que fazíamos. Parávamos, olhávamos e seguíamos, parávamos, olhávamos e seguíamos e a fome crescia e os quinhentos metros que nos levava até ao Zagora já os tínhamos corrido. Se nos perguntassem onde queríamos ir, tínhamos resposta na ponta da língua: Zagora; mesmo que não fosse isso. Se nos dissessem que estávamos a ser um bocado parvos, diríamos pelo contrário que nos estávamos a fazer de difíceis. E de tanto andar parámos e discutimos à frente de um restaurante para tentar perceber onde e quando é que afinal íamos comer: vamos a este, vamos àquele, aqueloutro? Ninguém se queria decidir. O T. dava uma de Pilatos e passava a bola para nós, a S., não queria ser ela a decidir e eu calava-me sem comer. Até que muito rabugento, o que é normal em mim quando fico sem comer durante muito tempo, muito acintosamente disse: vamos já a este, é barato e depois logo se vê (ou qualquer coisa assim do género): Al Khozama.
Dissemos boa-noite aos clientes que se encontravam a beber café e chá na esplanada e entrámos, empurrando uma porta de madeira com pequenas janelas, e descemos três degraus para dentro do pequeno restaurante de azulejos de casa de banho e enorme balcão, meio inox meio envidraçado, ostentando a carne e o peixe, sumos, águas e coca-colas. Por cima do balcão estavam expostas várias fotografias dos diferentes pratos disponíveis. Bon soir, on peut dîner? Oui. Para além de nós, havia apenas dois casais sentados em mesas para duas pessoas como num qualquer restaurante. Um par oriental a terminar a refeição e outro europeu ainda à espera para começar. Sentámo-nos a um cantinho da sala que dava para uma janela e para a rua. Agora sim, bendito seja Allah. O dono do restaurante, um tipo bastante simpático e novo, fazia tudo sozinho, atendia, cozinhava, servia e recebia com uma calma incrível. Depois de tentar perceber no que consistia cada prato, decidimo-nos por um kefta (carne picada em bolinhas que mais pareciam salsichas frescas), uma tajine (um guisado de vegetais e carne) e umas costeletas de carneiro. Silêncio absoluto por momentos, a fome, como o gato, comeu-nos a língua, o sono atacava. Fumávamos um cigarro, o T. ia dando uma vista de olhos ao guia turístico e esperávamos a comida enquanto bebíamos coca-cola. Até que de tanto esperar a língua se soltou e recomeçou a palhaçada e os pch cala-te e comemos, satisfeitos com tudo, a simpatia do Sr. Khozama, a comida, a conversa, o café fraquito e os cigarros e mais a palhaçada. E depois o baque total, a dormência dos músculos, os olhos a fecharem-se, o estômago ovalado e morno, a língua entaramelada. Shukran, monsieur, shukran, shukran, bon soir, bessalama, bessalama.
Arrastámo-nos para o hotel, pedimos as chaves, subimos o elevador a dizer baboseiras e combinámos o que iríamos fazer no dia seguinte. Aí por volta das nove encontramo-nos ali na sala e vamos até à Medina, disse o T. e nós, tudo bem até amanhã. Enfim, uma cama, enfim, uma barriga cheia, menos enfim a contínua prisão de ventre que nem o cigarro ajudava.

(cont.)

terça-feira, 21 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xiv)

Quando iam voltando para o hotel a S., o T. e o marroquino passaram pela loja deste e ele falou com o irmão, um tipo entroncado e este sim, com cara de intrujão e de rufia. Se tivesse sido com este talvez tivéssemos pago mais de mil dhirames. É que o gajo chegou a perguntar ao irmão quanto é que nós lhe tínhamos dado para o arranjo e quando o irmão lhe responde ele vira-se para nós para saber se tinha sido o irmão a propor o preço. A S. disse logo que sim e percebeu pelo abanar da cabeça e pelo olhar que se tivesse sido com ele nós estávamos… Bom, desculpas para aqui e desculpas para ali, apertos de mão e palmadinhas nas costas e zuca lá nos encontrámos todos no Grand Hôtel de Fès. O T. e a S. assinaram o que tinham de assinar, recebemos as chaves dos nossos aguardados quartos e camas e lá fomos. A S. de elevador com algumas coisas, porque nós os três não cabíamos todos juntos com a tralha toda, e o T. e eu de escadas que davam voltas e mais voltas e mais voltas que pareciam nunca mais acabar. Chegados ao andar onde ficaríamos combinámos encontrar dali a um bocadinho para irmos jantar a boa comida marroquina. Depois de ter pousado as minhas tralhas fui dar uma espreitadela à casa de banho para ver se, já passadas vinte e quatro horas desde a nossa partida, a minha prisão de ventre tinha recebido amnistia, mas nada feito. Disseram-nos na recepção que as casas de banho tinham sido restauradas, que tinham sido alvo de um upgrade e que upgrade. Tanto a sanita como a banheira tinham sido levantadas do chão pelo menos um degrau, o que fazia com que quando estivesse sentado ficasse quase de bicos de pés a tocar no chão, enquanto a S. ficava com as perninhas a baloiçar para a frente e para trás. Na banheira o mais difícil era tentar não encharcar o chão de água e as toalhas e o lavatório e a sanita e o Papier Hygiénique Amalou cor-de-rosa e reciclado com o Atlas desenhado e depois disso tudo tentar não partir a cabeça nem escorregar nalgum lado, porque para sair dali só quase faltava sentarmos na borda da banheira e saltarmos.
O quarto até era bom, mas tipicamente europeu. Uma cama de casal de madeira maciça cheia de mantas, duas mesas-de-cabeceira com tampo de fórmica a fingir madeira natural (eu cheguei a procurar nas gavetas um Corão como se encontram nos filmes americanos a Bíblia), o chão revestido de alcatifa azul ou verde escura (já não me lembro bem), um grande armário com almofadas e mais mantas e uma janela pequenina que dava para um terraço de um prédio qualquer com aqueles respiradores dos ares condicionados e alcatroados. Pelas paredes brancas de rudes rugas de cal uns fajutos quadros nada interessantes. Tirámos apenas o necessário para a minha mochila e saímos ao encontro do T., mas, como de costume, estava atrasado e por isso, depois de termos tentado perceber como se trancava a porta do quarto, a S. e eu fomos dar uma vista de olhos à sala de estar partilhada por todos os hóspedes daquele andar. Não deu para ver muita coisa às escuras e sem sabermos onde estava o comutador da luz, mas ainda deu para espreitar por uma janela que dava para um jardim, e também porque logo a seguir ouvimos o T. a bater à nossa porta. Descemos pelo minúsculo elevador de grades, entregámos as chaves e perguntámos ao recepcionista se ele conhecia algum restaurante bom e barato, muito barato já que estávamos com cem euros a menos. Claro que ele conhecia, Le Restaurant Zagora, vous tournez à droite, tournez l’hôtel, montez le boulevard et après cinc cent mètres à votre gauche vous êtes là. Aquilo para nós parecia demasiado longe, isto de subir uma avenida inteira não era bem o que desejávamos. Saímos e logo se veria.

(cont.)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xiii)

Pensávamos quanto custaria o arranjo. Eu disse que não pagaríamos mais de vinte contos, cem euros, porque tinha sido isso que tinha pago a um casal a quem provoquei o encontro acidental entre a minha canela e a porta da traseira de um fiat punto numa das apostas mais estúpidas que alguma vez firmei (quem aguentava mais tempo a fazer o pino numa estreita rua de Évora onde passavam carros, já com alguns copos bebidos). Mas também podia ser mais. Ou menos, porque quando chega a carros é a mesma coisa do que me falarem de informática. Soa-me tudo igualzinho à professora do Charlie Brown. Bom, adiante.
Tivemos sorte. Allah olhava por nós com misericórdia. Surgiu um homem alto, de óculos e bigode com um ar preocupado mas nada violento acompanhado de mais três indivíduos. Chegou perto do carro e começou a avaliar os estragos, depois cumprimentou-nos e recomeçou a avaliação. Enquanto isso, o T. incumbiu a S. de ser a nossa intermediária de negócios e tradutora porque era, e é, a que falava mais fluentemente francês. Muito calmamente, quase docemente, a S. perguntou ao senhor se ele era de facto o dono do carro e, tão amavelmente quanto lhe era possível, se podia ver a sua carta de condução e os documentos do carro. Era um pedido arrojado de uma mulher, fosse ela ocidental ou não, para um homem do Islão. De sobrolho erguido e mostrando uma certa e estranha paciência fingida com laivos de masculina arrogância para com o sexo feminino, o homem tirou do bolso das calças as chaves do carro, abriu-o, meteu a mão no porta-luvas e de lá de dentro tirou os seus documentos e deu a ver à S. Ora, quando nervosa a S. tem umas saídas fantásticas e sem papas na língua e apenas com um reparo toda a masculinidade islâmica foi desarmada. Aquela máscara séria e preocupada de bigode e óculos desmanchou-se em sorrisos e maneirismos envergonhados. Reparando na fotografia da carta de condução e comparando-a com aquela cara ali presente a S. pergunta se aquele é o senhor ao que ele responde que sim, e então ela diz-lhe, em francês claro, nem parece o mesmo, está mais magro assim como se já o conhecesse há anos e não o visse há muitos mais, um pouco à semelhança dos tios e tias e avôs e avós e mães que não nos vêem durante uma duas semanas, um mês no máximo e dizem logo estás mais gordo ou então já te olhaste bem, não deves comer nada não é és só pele e osso. E zás, só com uma frase aquele cubo de gelo transformou-se em geleia ou manteiga derretida. O público delira. 1 zero para Portugal, vamos ver a repetição. Renascença, T. enfia o jipe pela porta lateral, faz a revienga centra para a S. que frente a frente ao guarda-redes marroquino lhe parte os rins com um está mais magro. Quantos conflitos não se poderiam ter resolvido desta maneira.
Depois disso, a S. pergunta se não seria melhor chamar a polícia já que nós tínhamos seguro de viagem, mas o homem não estava para ter chatices, iriam trazer muita papelada e se calhar teríamos todos de ir para a esquadra e ninguém quer isso. Assim sendo teríamos de acordar um preço, o que queria dizer o mesmo que acordar para a vida pois não podíamos ser enganados, o que seria fácil já que estávamos a cair de sono. Enquanto iam chegando mais pessoas, o homem de mão no queixo mirava e remirava o carro danificado e olhando de soslaio para a S. atira para o ar mil dhirames. Golo de Marrocos, 1 igual no resultado. Mil dhirames, responde a S., oui, devolve o homem mão no queixo, mil dhirames T., diz a S. nervosa a rir-se, e isso dá quanto, cem euros? cem euros? cem euros!, diz ao homem que não temos connosco esse dinheiro e que o temos de levantar e pergunta-lhe onde é que há uma máquina de Multibanco. A S. lá perguntou e o homem disse que iria connosco até à máquina.
Nesse momento eu fiquei para trás, voltei para o hotel para guardar as nossas coisas e fumar mais um cigarro com o recepcionista, preencher os papéis de registo com os passaportes de ambos e esperar que voltassem. Eles deram a volta ao hotel com o marroquino e lá foram levantar o dinheiro, só que para azar dos azares o primeiro Multibanco que encontraram deu-lhes problemas. O T. bem tentava e tentava mas dinheiro nem vê-lo, se calhar o carochito do porto de Algeciras estava lá dentro e não queria devolver o dinheiro. De momentos parecia que os papéis se tinham invertido. Se nós somos avisados para ter cuidado nos negócios com os marroquinos, ali mais parecia que seríamos nós a enganá-los e o tipo já estava a ficar aflito. Tão aflito que acabou por tirar o cartão da mão do T. e tentou ele mesmo enfiar na máquina a ver se com ele dava e Fès com tal veemência que até a S. lhe pediu para ter calma. Para sorte de todos, no outro lado da rua havia mais uma caixa de Multibanco. Aí a S. conheceu por experiência própria a aventura de atravessar uma rua em Marrocos. É um óptimo treino de reflexos, de nos mantermos alertas e, acima de tudo, de nos manter vivos porque muitas vezes nem com o sinal vermelho para os carros e verde para os peões os condutores abrandam a velocidade. Os marroquinos atravessaram logo estrada. O T., que já conhecia como aquilo era, não ficou muito atrás, mas a S., ui, demorou um pouco mais. Uma vez do outro lado, a máquina cumprimentou-os e ofereceu-lhes o que queriam e de novo voltaram para o lado de lá da rua com mais uma aventura de travessia para a S.

(cont.)

domingo, 19 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xii)

Ora encontrávamo-nos nestes agradecimentos sem fim, quando, lá fora, vejo a S. a aparecer e o jipe do T. de marcha-atrás a ocupar um espacito entre dois carros. Um jipe pode fazer muita coisa, é verdade, mas, infelizmente, não é capaz de executar o milagre de reduzir o seu tamanho à dimensão daqueles brinquedos antigos chamados micro machines nem mesmo ter aquela capacidade única dos objectos do Sport Billy. No silêncio da recepção conseguia ver a S. dando as indicações ao T., mais para a direita, vai podes vir, vai vai e ela gesticulava vai vai e o T. seguia, vai vai e eu fumava, vai vai, e o recepcionista sorria, vai vai só mais um pouco, vai vai já falta pouco, vai vai não posso crer, vai vai bater. Assim sem mais, tudo em câmara lenta e sem qualquer som, porque dentro do hall do hotel não se ouvia o som que lá fora ia, dá-se o fatal choque de civilizações entre a traseira do grande jipe do T. e a porta de passageiros de um carro marroquino. Lá dentro só tive tempo de experimentar um aceno de atenção que vai bater e um monossílabo ineficaz de cigarro pendente no lábio, a S. batia com a mão no carro para ver se prevenia o choque mas o T. não ouviu nada dentro da sua viatura.
Saí para rua com um sorriso meio parvo esboçado na cara ao encontro dos meus companheiros. A S. ria-se entre o desespero do cansaço sonolento e o nervoso da situação, enquanto o T. ia pensando coisas que não são dignas de serem ditas agora. Ao contrário do que sucederia em Portugal, ali não se juntaram logo mirones da desgraça alheia. À porta do Grand Hôtel de Fès apenas veio bisbilhotar um homem que ajudava a carregar as malas dos hóspedes mais dignos e endinheirados. A S. correndo como podia, com o sono a pesar-lhe nas pernas e nos seus pequenino pés, entrou no hotel para perguntar se alguém sabia de quem era o carro, mas não, ninguém sabia. Então percorreu os cafés ali mesmo à volta com o seu melhor francês na ponta da língua, até que por fim alguém conhecia o dono. Sem mais demoras, o T. desarrumou o jipe e estacionou-o à frente do sinistrado e o tal homem foi chamar o marroquino dono do carro e de uma loja pronto-a-vestir na boulevard das traseiras do hotel.
Só nos faltava esta. Fazíamos as contas às carteiras e à vida pensando no pior. Ainda nos poderia aparecer um tipo passado dos carretos, de mau feitio, violento, eu sei lá. Lembrava-me apenas daquela situação em que o T. e eu nos encontrámos no quarto do responsável do festival de teatro em Casablanca para resolver um inconveniente que se tinha sucedido entre a Sílvia das Fadas (uma das Simone Beauvoir do espectáculo que lá tínhamos levado) e um rapaz que a não deixava em paz apaixonadíssimo por ela, entre outras coisas. Lembrava-me desse director, com o ar mais aporcalhado, mais raposo e de dealer que eu alguma vez tinha visto, todo cheio de manhas e palavrinhas mansas, de camisa às riscas aberta até cintura, acompanhado por um capanga sentado no chão com um facalhão de palmo e meio a cortar kif numa tábua de cozinha. Lembrava-me disso e esperava ver chegar até nós esse director mais o seu capanga, um a discutir o preço do arranjo e a dar largas à sua trapaça e o outro com a tábua e o facalhão em cima do capot do carro à espera do mínimo deslize ou de um ânimo mais exaltado.

(cont.)

sábado, 18 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (xi)

Bom, aquilo foram voltas e mais voltas à procura de hotéis. Enquanto o T. ia conduzindo, eu e a S., já há algum tempo, vínhamos à vez investigando no roteiro que hotéis baratos podíamos ficar. Os primeiros que vimos, entrando lá dentro e tudo, foram uns de quatro ou cinco estrelas. Aquilo era um abuso de luxúria e com um preço por quarto upa upa. Porteiros e recepcionistas todos arranjados que nos olhavam de alto a baixo, como que a perguntarem para os seus botões brilhantes e lustrosos o que é que estes gajos esfarrapados, porcos e malcheirosos querem? Eu mantinha o meu olhar de cãozinho pedinchão e triste a ver o que acontecia, enquanto que a S., com o seu francês mais fluente que o meu, ia sabendo o custo dos quartos e o T. esperava o resultado. Aquilo eram ataques relâmpagos. Em segundos entrávamos, perguntávamos e saíamos. Nem Júlio César conseguiria dizer a sua célebre frase. Ainda fomos a um, um pouco mais barato e menos intransigente, cheio de autocarros de turistas mas nada feito, nem feio, diga-se de passagem, com loja de souvenirs e fonte com repuxo e tudo. Aí, eu e a S. desencontrámo-nos e eu não vou dizer porquê, caso arrumado.
Já ia noite escura quando encontrámos o Grand Hôtel de Fès na Boulevard Chefchaouni. Enquanto o T. esperava, eu procurava lugar para estacionar e a S. foi saber se havia quartos. Assim que recebemos uma resposta positiva, começámos a tirar as mochilas do jipe. A S. foi lá para fora ajudar o T. a estacionar o carro e eu fiquei sozinho a falar com o recepcionista a guardar as nossas coisas. Como não sou uma pessoa muito conversadora eu tinha em vista uns minutos que pareceriam horas. Sem saber o que fazer ia olhando para a decoração do hotel, os residentes que iam saindo para jantar, mas, uma vez tendo visto o que havia para ver, virei-me para o recepcionista e perguntei: je peux fumer? Bien sûr, disse-me ele num tom grave, de quem fumava, para aí desde os seus sete anos, tabaco negro e duro e arrastando os erres no seu típico sotaque marroquino. A lentidão da sua resposta dizia-me uma coisa, se fumássemos haxixe não haveria qualquer problema e ele bem poderia fumar connosco. Sabendo que podia fumar à vontade no hall de entrada, tirei de um dos meus bolsos o meu pacote de Amber Leaf e pousei-o sobre o balcão. Os seus olhos semicerrados foram escancarando de admiração, como se alguém puxasse uns estores lentamente. De outro bolso tirei um filtro e pu-lo na boca e então é que os estores foram totalmente puxados para cima: mais qu’est-ce que c’est ça? Un filtre? Oh vous avez des filtres pour les cigarettes? Oui. Je peux faire un? Mais bien sûr, il n’y a pas de problème. Vous avez du papier? Oui, ils sont dans le paquet du tabac. Smoking, on n’a de ce papier ici, on a du zig zag, vous connaît? Oui je les connais, mais je préfère du papier plus fine. Acendemos os nossos cigarros partilhando o seu isqueiro com grande parcimónia e quase ao mesmo tempo lançámos o fumo dos nossos pulmões para fora, fazendo uma grande nuvem à nossa volta. Ah, c’est du bon tabac. Hum hum. Pardon ma impertinence, mais avez-vous un autre paquet de tabac que vous pouvez me vendre? Pronto, agora é que o gajo me lixou. Eu por acaso até tinha mais um pacote comigo, eu não ia viajar sem estar preparado e não queria gastar dinheiro em tabaco em Marrocos, por isso não me queria livrar do meu querido Amber Leaf. J’avais seulement un autre paquet, disse-lhe timidamente sorrindo com toda a inquietação de quem foi apanhado desprevenido e tentando ganhar tempo para me desenvencilhar daquela situação. Ah, je comprends, pas de problème, pas de problème, respondeu-me ele muito calmamente, com a sua voz cava e gutural, desviando o olhar do meu como se estivesse ofendido, como se eu lhe tivesse dito uma crueldade qualquer que nem agora me vem à cabeça. Pas de problème uma ova, pensava eu para mim, tu estás-me a dizer isso num tom que revela que há mesmo um problema, como se me estivesses a dizer: vocês chegam cá ao nosso pobre país, nós recebemo-vos com toda a hospitalidade possível estendendo-vos os braços, sorrindo e vergando a cabeça comiseradamente, dizendo-vos aqui está um criado ao vosso serviço, un valet aux votre service e tu tens o desplante de trazer aí escondido no teu bolso um pacote de tabaco que não existe aqui no nosso pobre país, assim, abanando-o frente à minha cara como que a fazer pirraça, la la la la la-a olha o que eu tenho e tu não te-ens, para quê hã? E depois ainda me deixas fumar um cigarro para provar o seu sabor, para sentir o seu gosto suave de folhas ambarinas, como se me estivesses a mostrar um bombom para depois mo tirares, para quê hã? La la la la la-a eu vou fumar e tu não va-is. Vais ver, quando menos esperares, vais ver o que te acontece, allah vai castigar-te ai isso é que vai, vaivai. O que fazer, o que fazer perguntava-me sem saber. Por um lado, tenho que ser simpático, por outro, se der o meu querido Amber Leaf ficarei sem tabaco e terei de comprar e usar dinheiro que não queria gastar. E agora, e agora, não me posso ir embora, tenho que guardar as malas até eles chegarem. Acabei por decidir que o melhor seria deixar-me levar pelo que viesse e por isso fui ao bolso da minha canadiana e saquei o meu pacote sobressalente e estendi-o ao recepcionista. Os seus olhos brilharam por um instante e com os mesmos a sorrir olhou-me bem nos meus e pergunta-me: combien est-il, je vous payez? Mais c’est rien, c’est pour vous. Oh merci bien m’sieur, merci bien, Shukran, Shukran.

(cont.)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (x)

Mesmo com mapa, a chegada não seria nada fácil. É que, de facto, uma coisa são as estradas que estão desenhadas no mapa, outra coisa, e esta bem diferente, são as estradas que se percorrem. Alguma coisa deve estar mal. Ou bem que seguimos o mapa, ou então temos que desvendar o que se encontra escrito nas tabuletas que indicam as distâncias das cidades. Acho que se nota bem com isto a influência muçulmana no alentejo. Essa coisa do é já ali é uma treta, nunca é já ali, é ali vezes duas horas de caminho, falta pouco o tanas e a maior parte das tabuletas, de um momento para o outro, estão apenas escritas em árabe, coisa que não facilita nada.
Bom, lá íamos nós a cento e tal à hora, com a polícia a deixar-nos passar à vontade, ao contrário dos carros com matrícula marroquina, depois de sairmos do campo e entrarmos numa avenida longuíssima com rotundas até dizer chega. A partir de um certo ponto, descobrimos, melhor dizer a S. descobriu porque eu e o T. já conhecíamos os dotes da condução autóctone, que já não estávamos longe do nosso destino. Todo aquele movimento caótico só queria dizer uma coisa: Fès estava perto. Muito há semelhança da nossa entrada no barco, no Ramón Lull, aquilo era um ver se te avias. Carros a passarem o sinal vermelho, ultrapassagens pela direita, peões a atravessarem a rua quando os carros vinham a sapar, eu sei lá. A melhor maneira de conduzir é fazer o mesmo que eles e tirar os tomates e pendurá-los no retrovisor a ver se dão sorte e que nada aconteça. Deixando o espírito marroquino tomar posse do seu corpo, o T. seguia em frente sem papas na língua, por assim dizer. O que não estávamos nada à espera no meio daquele trânsito todo era a típica recepção aos estrangeiros. Quando nos encontrávamos parados num sinal vermelho, um tipo de mota começou a meter conversa com o T. já a querer ser o nosso guia dali em diante. Mas o T. Fès ouvidos de mercador e pois, pois, está bem, nós combinámos com uns amigos encontrar-nos ali mais à frente para irmos jantar, ou outra coisa qualquer. Só que o gajo da mota não nos largava, o tipo sabia que estávamos a mentir e vinha atrás de nós. Até que o T., já não me lembro bem, conseguiu despistá-lo, quero dizer enganá-lo, porque ninguém teve um acidente, ou o tipo fartou-se ao fim de cinco minutos e lá nos deixou seguir em paz.

(cont.)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (ix)

Bom, onde é que eu ia? Antes de termos feito a reserva, fomos ver ainda um outro hotel, Hotel Rif ou Kif, já não me lembro bem, mas este não tinha quartos livres e era mais caro. Aliás, quando voltámos atrás para o Madrid, um dos miúdos que falava com o T. disse-lhe, disse-nos o T., que fizemos bem em não ir para o outro, o Rif ou Kif, pois era mais caro e era. Depois de termos feito a reserva partimos uma vez mais, desta feita em direcção a Fès, era importante chegar lá antes que anoitecesse. Descemos Chefchaouen e virámos à esquerda, para descermos ainda mais para sul no território marroquino. Tínhamos acabado de sair e o T. diz-nos que aquele miúdo com quem conversara lhe tinha explicado que Chefchaouen, mais conhecida por Chaouen, queria dizer “olhar os cornos”. Ao lado da cidade, numa das ribanceiras da serra vêem-se duas formas geológicas, duas rugas como dois sobrolhos arqueados ou, como eles dizem, dois cornos de cabra. Para mim foi mais fácil de ver e mostrar à S. e ao T. Para ele, como estava a conduzir, era-lhe mais difícil, enquanto para mim não, porque eu normalmente tenho por hábito abstrair-me facilmente e ver coisas, melhor dizer, dar formas às coisas, exercício de que gosto muito. As nuvens são coisas fáceis de se dar forma, mais interessante são copas de árvores, o raiado de pedras, o escamar das paredes, tanta coisa pode ser outra. Fiz até um desenho dos cornos, mas isso é meu e não mostro a ninguém, assunto arrumado. Começámos a subir mais uma vez e a meio de uma recta, já a uns bons dez ou mais quilómetros de Chaouen, quantos ao certo não vos saberei dizer, a S. e o T. trocaram de lugares porque ele já estava a dar o badagaio e mais valia ele dar o badagaio no lugar do morto do que todos nós darmos o badagaio e, desse modo, eu, enquanto morto, estaria impossibilitado de narrar esta história, o que não aconteceu, quero dizer, o badagaio total. Parcial sim, porque passado alguns minutos também eu badagueei para o lado mais cómodo dos casacos.
Quando despertei, o sonho ainda não tinha terminado. Atravessávamos uma extensa recta ladeada por dois campos a perder de vista de tanto verde que eram. Tapetes fofos de relva de horizonte a horizonte e muito ao fundo o topo do Atlas, branco na ponta. Já não estávamos em Marrocos, mas também não sei onde é que estávamos. Perguntei à S. se estava bem. Sim e tive um momento lindíssimo, espectacular. Vocês os dois estavam a dormir quando entrámos nesta estrada e de repente começou a dar o Agnus Dei do Rufus. Foi mesmo… eu não sei as palavras que ela disse, mas os olhos dela brilhavam e, por isso, sei que eu próprio não posso dizer mais nada. Eu compreendia-a e espero que vocês também me compreendam. Como pôr em palavras uma coisa que nos tira a respiração, que nos atravessa de lado a lado arrastando-nos para fora de nós e ficamos a pairar a poucos centímetros de nós vendo-nos estupefactos com toda a beleza que nos envolve naquele exacto momento? Para mim bastou-me o brilho dos seus olhos azuis. Eu percebi o que ela me dizia e fiquei apenas com a inveja do amoroso que não pode partilhar uma estado de beleza estonteante com o outro. O amor tem destas coisas, quando nos encontramos com o dilema de escolhermos entre acordar o outro, despertá-lo do estado mais sereno alguma vez ao alcance do ser humano enquanto vivo, e mostrar-lhe um momento (neste caso aquela paisagem com o Agnus Dei como banda sonora) que nos põe em êxtase. Sabemos que o outro vai degustar de uma maneira semelhante à nossa, mas que direito temos, mesmo o direito dos amantes amorosos, para retirá-lo do sono mais descansado possível? Fui despertando lentamente, admirando tudo o que nos envolvia. Admirava o grande verde dos campos pelo pequeno verde dos meus olhos, o grande castanho do Atlas e o grande azul do céu a esmaecer com o sol por trás de nós, a despedir-se lentamente. Também o T. foi acordando e minutos depois trocou uma vez mais de posto com a S.. Estava a fazer-se tarde, mas mesmo isso não o impediu de começar a tirar fotografias a agricultores que vinham no sentido contrário ao nosso com burritos e carneiros em carros de mão e grandes fardos de palha, Natural Geographic no seu melhor. Os montes começavam a cruzar cores entre si, castanhos com vermelhos, verdes com amarelos, castanhos com amarelos e verdes e vermelhos, castanhos com outros castanhos, verdes com outros verdes, amarelos, bom, já perceberam a ideia. Os cruzares de cores onde não há civilização muito presente, civilização essa que foi também surgindo com um número crescente de casas e carros a ultrapassarem-nos. Com o T. a velocidade aumentou e a distância a Fès diminuiu, mas não foi suficiente para chegarmos lá ainda com o sol em todo o seu esplendor.


(cont.)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (viii)

Subíamos e descíamos parte do Rif, sempre a negar as ofertas. Queríamos chegar a Chefchaouen o quanto antes, para marcarmos dois quartos para nós para o dia trinta e um. Já tínhamos decidido previamente que a passagem de ano seria naquela cidade. Numa descida fizemos uma paragem para comer a última pizza, um pouco de bolo que uma amiga da mãe do T. tinha feito, com coca-cola e frutos secos, como também para fazermos necessidades. Lá em baixo, no fundo daquela ladeira pouco acidentada e muito alentejana, corria um oued quase seco. A terra era basicamente constituída de xisto partido, estilhaçado e alguns plásticos. Era um dia de sol, quente, aliás, tivemos bastante sorte com os dias que apanhámos em Marrocos, à excepção das noites, que eram frias e húmidas. Seguimos caminho, reconfortados, bem dispostos, muito palhacitos, ouvindo música, fumando cigarros e segurando a última réstia de vigília por um fio, um finíssimo fio. A meio do caminho, três mulheres vestidas de cores bem garridas subiam o monte nu, árido. No meio daquele castanho todo, ao longe, lentamente, em passos miúdos, ligeiros, um vermelho, um amarelo, um laranja, um traço azul, outro verde, cruzados, um arco-íris de três mulheres. Era bonito de se ver, realmente bonito. Já numa espécie de planalto avalado, ou um vale bastante amplo, à nossa esquerda surgiu o sinal que anunciava Chefchaouen, a cidade azul, erigida ao longo de uma serra Rifeana. Entrámos na cidade, que pululava de turistas a passear e marroquinos que saíam dos seus trabalhos e ofícios para beberem café, chá de menta e rezarem. Não consegui naquele momento fazer notar à S. toda a magnificência, todo o magnetismo do chamamento, mas conseguimos ver, muito de passagem, uma pequena praça em frente de uma mesquita, um largo grupo de homens de joelhos a rezarem. Entrámos por muitas ruas e uma pequeníssima avenida, perdemo-nos um pouco, mas lá encontrámos o Hotel Madrid, pensão de três estrelas (não íamos para um buraco qualquer, somos gente fina, queira isto dizer o que quiser), custando o quarto entre uns trezentos e uns quatrocentos dhirames. Em Évora encontramos mais barato, mas noites não são noites e estávamos exactamente ali para passarmos um bom tempo e não sermos incomodados por percevejos e bichos afins, como tantas vezes ouvimos. Por sorte, havia ainda dois quartos duplos livres, os únicos para o dia trinta e um. Fizemos a reserva, eu e a S., enquanto o T. guardava o carro, visto não termos visto lugar em vista. Ele, o T., confraternizava com dois miúdos marroquinos. Nomes de futebolistas e de comida é o português mais sabido naquela região: Figo, Bacalau, Cashcaish, Sardinas, etc; a par da pergunta da praxe, fumas? Nós devíamos ser os portugueses mais aborrecidos que alguma vez aqueles dois miúdos conheceram. Bom, e se fossemos? O que é que isso interessa? E se este texto vos estiver a aborrecer? E se vocês se perguntam: porque é que isto é tão aborrecido? A minha resposta é bastante simples, vocês não passaram por esta experiência e por mais que eu tente tornar esta narração de uma viagem interessante nunca será tão entusiasmante como a que nós passámos, faça como fizer, escreva como escrever. Olhem, se quiserem arrumem o livro, ou vão-se embora, e já está. Mas se o fizerem, ficarão sempre com o bichinho da curiosidade. E agora sou eu que vos pergunto: o que é que vocês querem, ficarem sem saber o resto ou lerem isto até ao fim? Então, continuem.

(cont.)

terça-feira, 14 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (vii)

Bom, a verdade é que, depois de deixarmos Sebta e Tetouan para trás, tudo começou a ficar melhor. Agora sim, começavam os campos verdes da cor do limão, mas também acabaram cedo porque iniciámos a subida de uma parte do Rif, com a típica vegetação serrana. Aqui e acolá arbustos, estevas, sobreiros, um pouco alentejana para dizer a verdade, mas não completamente, só um pouco. E, assim do nada, quando nos aproximávamos de uma terriola, a qual não apontei o nome por pura sonolência, começaram a surgir pessoas com carneiros de cara negra, assim como se passeassem o seu cão, de cordel e tudo. Por mim tudo bem, quando eu era mais novo, atrás da minha casa, costumava haver um rapaz que passeava um pato branco de bico laranja por uma trela, por isso não vejo problema algum em levar um carneiro “à rua”. Quanto mais subíamos o monte, mais carneiros. Nós acenávamos e eles também, menos os carneiros. Esses só baliam e tentavam arrepiar caminho contrariando o ar feliz e orgulhoso que cada um daqueles, que vimos, tinha. E isto agora é que foi surpreendente, demos umas curvas para a esquerda e para a direita e puf, no meio da serra, trânsito. Talvez fosse hora de ponta, digo eu agora para fazer com que uma serra se pareça mais moderna. Muitos carros e autocarros e, de cada um dos lados das janelas, mais e mais homens e mulheres, velhos e crianças, uns com roupa tradicional, djellaba, chapéus berberes, burkas, outros não, e carneiros, ora puxados por cordéis, ora por carrinhos, dentro dos carrinhos, daqueles antigos de fruta nos mercados, isto é, uma caixa de metal funda com duas rodas e um guiador em forma de tê (esses carneiros tinham um ar mais descansado, calmos, até nem baliam, mas também não acenavam em resposta).
Surpresa das surpresas, hã, a sorte que tivemos, pensámos, é dia de feira, nem todos têm esta oportunidade, não é? Era um mercado imenso, ao longo de uma colina, cheio como nenhum outro mercado, com currais improvisados. Risos, gritaria, balidos, palha, o ar quase irrespirável com o cheiro de carneiro e caganitas. Ah, o campo. E que corajosos somos nós e fomos nós, não foi? Mal nos vimos rodeados, zuca, trancámos as portas. Não sei como explicar isto. Ouvimos tanto por todo o lado, acreditamos numas coisas e noutras não, olhamos para as pessoas e não podemos crer que nos possam alguma vez fazer mal, dizem-nos sempre para sermos seguros, irmos com segurança, mas também é certo que segurança a mais acaba por ser uma prisão mais aterradora do que a completa falta de segurança. Nós sorriamos e não eram sorrisos falsos, ninguém os forçou, nem eram de nervoso miudinho, somos pessoas de bem (mas isso todos pensam de si mesmos, não é?), talvez tenhamos, ao invés, a confiança em muito baixa estima. E eu sei, digo, nós sabemos, temos a certeza que todos ali no mercado eram igualmente pessoas de bem. Boas pessoas, portanto, pessoas boas. A ameaça, não seríamos nós afinal? Mesmo assim, trancámos a porcaria das portas. Por momentos, fomos pessoas de mal, por momentos, desconfiámos, fomos inseguros, e depois? Sigamos em frente. Seguimos à velocidade normal do tráfico de ovelhas e carneiros. E íamos felizes, ouvindo Ravi Shankar: ding diridádá diguidá diguidádá.
Ultrapassado o mercado e todo o trânsito, continuámos a subir. Curvas e contracurvas, sempre a subir. Agora já se viam menos pessoas e, claro, menos carneiros. A própria vegetação acompanhava a mudança, tornava-se por vezes mais densa, onde havia ribeiros que a refrescavam e alimentavam, os oued, ou então, e agora sim, abria em campos mais amplos, verdes. Durante a subida, o que se via mais eram marroquinos a pedir boleia, com um gesto muito particular. Ao contrário do que se costuma ver e fazer, mão fechada e polegar esticado indicando a direcção para onde se pretende ir, os marroquinos apontam com o indicador uma só vez, por isso nunca sabemos bem - quero dizer, para quem não conhece a sinalética como nós desconhecíamos naquela altura - se realmente estão a apontar para alguma coisa ou nos estão a repreender, tal como se repreende um gato irrequieto e abanamos o dedo, estou-te a avisar, olha que vais apanhar (a voz do corvo daquele programa de viação para crianças é prescindível, claro, se quiserem). Outros, que não a pedir boleia, tentavam vender kiff, igualmente com um gesto muito característico e mais à semelhança do nosso, quando se pergunta à socapa se o outro quer fumar. Mas a maneira como eles fazem é… é diferente. Primeiro, põem a mão no ar como se estivessem a mandar parar um carro, ou a acenar para alguém lá ao longe e, zás, a mão dá uma ligeira volta, isto é, mão esticada marca o ângulo zero, a volta põe-la a quarenta e cinco graus, com uma particularidade, dois dedos, o indicador e o médio, marcam o lugar do charro e o polegar também fica levantado, mão ligeiramente relaxada, mais como se segurasse um charuto.

(cont.)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (vi)

Uns quilómetros mais adiante aguardava-nos o grande teste à nossa paciência: a fronteira. A uma centena de metros das redes que separavam Ceuta de Sebta, ela de si mesma portanto, já uma fila enorme de carros se estendia ao longo da estrada. Logo logo um marroquino nos foi bater à janela, para nos despertar do torpor e daquela visão, perguntando se queríamos auxílio, queria ele dizer, dêem-me uns quantos euros ou dhirames e eu trato da vossa papelada. Recusámos de imediato, mas com cordialidade, quase com paninhos quentes para que ele não se ofendesse, o que ele ficou, ofendido, muito ofendido. Tão ofendido que quase nos gritou que então temos de ir para lá e despacharmos as coisas. Estacionámos o jipe atrás de uns outros carros que já lá estavam parados, pusemos mochilas às costas e lá fomos, de olhos semicerrados de sono, lentos, lentíssimos, quase passada de caracol a tentar, de longe, entender para onde nos deveríamos virar para tratar de tudo e passarmos para cá de Marraquexe e para lá de Ceuta. Eu só conhecia a confusão que era no aeroporto de Casablanca. Aí, os guardas fronteiriços fazem uma separação, nacionais para aqui estrangeiros para ali, e tudo vai correndo pacificamente com mais ou menos perguntas e olhares interrogativos. Mas ali? Vocês têm que estar lá para ver, para presenciar a lufa-lufa que aquilo é, a confusão, a vida, a gritaria, a alegria que nem um mercado em dia santo de feriado se lhe compara. De lá para cá ninguém ou quase ninguém. Agora, de cá para lá, ui. Ia ser um trinta e um. E para onde nos havíamos de virar? As cabinas não diziam nada, nem um sinal, nem uma informação sequer, nada, nada, nada. E nós, feitos papalvos a olhar para as bichas enormes de pessoas de todas as idades, cores, nacionalidades. Uma verdadeira torre de babel. Acho que todas as línguas se falavam ali. Bom, se calhar nem todas. Vá, não estavam lá bosquímanos com o seu estalar da língua. Mas uma grande parte das línguas que se falam no mundo juro que estavam. Tínhamos de pôr mãos à obra. Desse por onde desse havíamos de passar a fronteira. Tentámos delinear um plano, plano esse que era dos mais simples de se pôr em prática. Colocámo-nos numa fila, que não nos parecia muito cheia, a ver o que acontecia. Fazíamos uma espécie de triângulo, o T. à frente, eu de um lado e a S. de outro, cada um a olhar numa direcção a ver se percebíamos o que fazer, como agir. Reparámos assim que era preciso arranjar papéis. Que papéis? Papéis. Toda a gente tinha papéis nas mãos. Nós também tínhamos uns, que nos tinham dado quando comprámos os bilhetes para o barco. Dois cartões, um branco e um amarelo, um para apresentar à entrada com os nossos dados e explicação da nossa visita, e um de saída com a mesma informação. Não eram aqueles os papéis mais importantes que toda a gente tinha na mão. Era um papel verde para dar visto ao transporte que usávamos para a viagem. Temos de saber onde arranjamos aquele papel, dissemos. Tempo para mais uma vista de olhos e, mais importante que tudo, reparar bem o que faziam os marroquinos com carros. A fila não parecia ter nenhuma ordem, o que parece que é normal para o resto do país. Pessoas iam passando à frente e falavam com o guarda no guichet. Ah, então é assim! Enquanto o T. ficava na bicha, eu ou a S., já não me lembro bem, um de nós, acho que foi a S., foi pedir o papel verde, foi, foi a S., e estava tudo feito. Agora era só preencher e esperar a nossa vez. Entretanto fomo-nos apercebendo das maroscas que se sucediam debaixo dos nossos narizes, não digo dos guardas porque eles próprios também estavam metidos nelas. Sujeitos como aquele que nos perguntou se precisávamos de ajuda, uma meia-hora atrás, batiam às portas e entravam livremente nos guichets, pegavam nos carimbos, carimbavam, diziam umas quantas palavras e saíam. Davam os papéis carimbados, vistos e legalizados a quem de direito, a quem eles estavam a prestar serviço, voltavam ao guichet e pagavam ao guarda. O preço estava já tão marcado que até as autoridades davam troco aos outros. Acho até que eles tinham uma tabela com o preçário para cada tipo de nacionalidade. Quem tinha mais, ingleses, americanos, europeus do norte, pagavam mais, nós e os que faziam parte dos PIGS (Portugal, Italy, Greece and Spain), claro que pagavam menos. Entretanto, acabámos por perceber, depois da S., sempre a S., ter conversado com umas velhotas francesas que andavam de um lado para o outro a tentar despachar os seus papéis, que era preciso, antes mesmo de tratar dos papéis do jipe, aviarmos os nossos próprios papéis, senão era como um jipe fantasma que tivesse chegado a Marrocos. Decidimos, o T. decidiu depois de muitos pch cala-te, então, que o melhor seria: 1) o T. ficaria ali naquela fila para o jipe; 2) eu ia ver como estava o jipe e depois voltava para perto da S.; 3) a S. tentaria perceber melhor, através das velhotas qual era o guichet para os nossos passaportes; 4) eu faria um sinal ao T. quando ele tivesse de mostrar a sua cara ao guarda e compará-la com a fotografia, o que; 5) eu nesse momento me poria na bicha para o jipe.
Ora, nessa altura, quando voltava da vistoria ao jipe, telefona-me a Dona R. do IEFP. Agora perguntam-se: o que é que isso interessa? Para vocês pode não significar nada, mas para nós muitíssimo. E agora dizem: mas por que é que nos vais contar isso? Porque assim vocês têm uma perspectiva maior, um olhar mais amplo de toda a situação que, aos poucos e poucos, se ia tornando cada vez mais kafkiana. É que não era só a questão das maroscas que por lá andavam, nem o termos de ir de um guichet para outro e desse para outro sem resultados à vista, nem o falarmos com pessoas que nem sequer percebiam a nossa língua e nós a deles, ou os guardas nos guichets, e eram muitos, não falarem francês ou espanhol mas apenas e somente árabe, ou um português, para aí com uns sessenta e poucos anos, perder o seu passaporte, ou as filas intermináveis que não pareciam andar de todo. Para quem não sabe, nós os três fazemos parte de uma associação cultural e a S. tinha terminado no mês anterior, Novembro portanto, o seu estágio profissional na associação. O seu estágio, na nossa associação, parte de um acordo, de um programa do IEFP, programa esse que é financiado com dinheiros da comunidade europeia o qual tem de ser justificado através de relatórios trimestrais. Ora, nós tínhamos entregue o último relatório, pronto e certíssimo, imaculado e sem falhas, e esperávamos a última tranche para cobrir o resto das contas, que eles só pagavam depois da apresentação desse mesmo relatório. Nós pensávamos que tudo estava bem na frente ocidental, até que a dita D. Rosa nos telefona para nos avisar que faltava uma certidão de não dívida às finanças, que já tínhamos apresentado cópia mas que, parece, para ela nós não a tínhamos fornecido. Diz-nos ela então que se não apresentássemos a dita certidão até ao final daquele dia, não nos pagavam. Bom, eu posso ser a pessoa indicada para receber esse tipo de notícias, porque me mantenho extremamente calmo, mas, por outro lado, não sou mesmo a pessoa indicada para passar palavra, porque me baralho todo, troco toda a informação e, uma coisa que seria facílima de explicar, fica toda deturpada. Calmo, sim, fiquei, pudera, eu estava a dormir em pé, aquilo só me despertou um pouco mais. O pior, claro, era saber como iríamos resolver aquele problema, estando nós fora do país e sabendo que não arredaríamos pé dali. Contei a novidade à S. e ao T.. Caiu-lhes tudo, como se costuma dizer. Ficaram uns segundos paralisados, calados, dominados por mais um dado à nossa admirável aventura. Mas ela está a gozar connosco? Tu não lhe deste isso? Sim, disse eu, dei a porcaria da certidão logo quando fizemos o contrato, mas ela diz que não a tem, e que me disse para a dar há já algum tempo, só que eu não me lembro disso, e não me lembrava mesmo, naquele momento não me lembrava de rigorosamente nada. É que, se a minha cabeça normalmente está em branco, naquele exacto momento, tendo dormido pouco, a minha cabeça era branco sobre branco. Não terás esquecido de lhe dar? Não, acho que não; e disseste-lhe que estávamos fora do país? Esta é outra característica minha, sou o esquecimento em pessoa, a distracção em figura de gente. Não, não disse, disse eu. O que é que fazemos agora? Deixa-me pensar, disse o T., ok, S., telefona ao P. (um amigo nosso) para que ele envie a chave dele ao C. (outro amigo nosso) e eu telefono à S. (bom, não é preciso dizer nada) ao mesmo tempo para que ela vá à minha casa buscar a minha chave da Sede, se um não conseguir consegue outro. Esta é uma característica do T., por mais cansado que esteja consegue sempre pensar em soluções. Ora, o P. não atendia, devia estar a dormir, e quanto à S., já não me lembro bem como resultou. Telefonámos, então, directamente para o C., para que ele tentasse contactar o P. e depois tentar ir à Sede e tentar entrar lá dentro. Como nós partilhamos o espaço com um escritório de arquitectos, um deles é o nosso senhorio, alguém lá deve conseguir abrir a porta, o senhorio tinha ainda uma chave. Senão, havia um espacito contíguo aos dois escritórios, nem que um deles rebentasse a porta de vidro que dá para o hallzito e o C. tirava a certidão, fazia uma cópia e levava-a à Dona R. do IEFP. Ele ia fazer o que podia, o C.
Entretanto, entre telefonemas e ideias, a fila dos passaportes ia avançando, bem como a dos carros. Eu tratei do meu passaporte, chamei o T. e fui tomar o lugar dele na outra bicha. Depois despachámos o jipe, prestando atenção às maroscas que continuavam a suceder e, aos poucos e poucos, a fronteira ia ficando cada vez mais vazia. Com tudo tratado, voltámos para o jipe. À nossa beira estava estacionado uma carrinha de turismo atolada de portugueses. Desejámos boa-viagem e bom ano e partimos em direcção às cancelas que nos separavam finalmente de Sebta. Passámos sem quaisquer problemas, mas íamos todos calados a tentar pensar o que é que podíamos fazer para resolver o nosso qui pro quo. E vindo sabe-se lá donde do sótão do meu cérebro, para espanto meu e dos meus companheiros de viagem, a ideia de que o C. podia ir à nossa casa, minha e da S., buscar as chaves do carro, abrir o carro e tirar de lá as chaves que eu julgava serem da Sede, que não eram, eram da escolinha dos Trimagisto (uma cooperativa nossa amiga), e depois ir na minha bicicleta até à Sede e tudo ficaria resolvido. A S. disse depois que as chaves eram da escolinha, mas que as chaves dela da Sede estavam num casaco lá em casa e que o C. podia entrar e etc. e tudo ficaria resolvido. E assim foi. Agora sim, podíamos ir descansados. Mas, para que tudo fique dito deste assunto, terei de dizer que o C. entregou a cópia, mas esta já tinha passado de validade, o que de seguida Fès com que a Dona R. do IEFP nos voltasse a telefonar. Só que desta vez, ela devia estar muito chateada aquando do primeiro telefonema, só que desta vez, dizia, embora a certidão não fosse válida tínhamos até dia dois de janeiro, três de manhã no máximo, para regularizar a situação. Foi um ufa geral, aí por volta das três, quatro horas da tarde. Allah sorria-nos, sorria-nos para o resto do caminho, com um sol quente e um azul do céu penetrante que nos protegia.
A poucos metros, depois de passar a fronteira, vem de encontro a nós o primeiro choque. De repente, parece-me que o que realmente separa a Europa de África não é um mar quente, nem diversas religiões, línguas, cores, mas uma coisa ainda pior, quero dizer, parece-me muito feio, mas muito feio mesmo, pensarmos nessas coisas como aquilo que nos separa, coisas que provocam e provocaram muitas guerras, mas não é isso que interessa. Aquilo que de facto separa os dois continentes, e que é muito feio, muito feio mesmo, é a maneira como tratamos o lixo, o lixo de cada um. Ao longo da grande avenida, cortada por rotundas atrás de rotundas, como em Évora, Viseu, etc., a longa avenida que passa ao lado da verdadeira Sebta, de Tetouan e que se dirige para Fès, é uma única lixeira. Nós pensávamos, ou eu pensava e de certeza que a S. também, que iríamos ver campos que ladeavam as montanhas altíssimas e o deserto com camelos (aliás, camelos, durante os cinco dias, vimos só três e nessa mesma avenida), campos extensos que isolavam as cidades marroquinas umas das outras. Ao invés, os limites das cidades são lixeiras. Aterros com pássaros a voar no alto, cães escanzelados à cata de comida, crianças a brincar. E havia até naquela um pequeno pântano com juncos, pauís, só faltavam aquelas chamazinhas de gás natural, de metano. Que desilusão à primeira vista, que desilusão. É o que dá criarmos demasiadas expectativas. É bem feito para nós. Toma lá que já levaste. Por isso mesmo, virei-me para a frente e, tenho que vos dizer, foi a coisa mais acertada que fiz. À frente, mais longe ainda do que a linha do horizonte, erguia-se o Rif. Uma cadeia enorme de montanhas e lá em cima neve. Um dia quente, comparado com os que tínhamos passado em Évora, um dia soalheiro e lá à frente, no topo da montanha, neve, a brilhar. Na ladeira, uma camada de nuvens. Era o postal do dia, sim senhor. Gostei. Melhor que sabão macaco, oh, oh, muito melhor. Daquilo, digo-vos sinceramente, não estava à espera, não, não.

(cont.)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (v)

Numa qualquer avenida, encontrámos um café com empregadas marroquinas, aparentemente aberto há muito pouco tempo, quero dizer, acabado de abrir por aquela manhã. O T. perguntou a uma delas se serviam alguma coisa para comer. Claro qué si, disse ela, entonces son duas tostas de queso y una torrada, tres leches con chocolate y después trés cafés. Pouco faltava para amanhecer e nós os três, quase sem falar, caíamos de sono. Tentávamos pensar o que faríamos a seguir, se esperávamos pelas dez horas, se nos metíamos à estrada até à fronteira e comprávamos um mapa quando o encontrássemos. Quase ninguém nas ruas da Ceuta espanhola, uma tipa notoriamente alcoolizada e aos tropeções a descer uma rua com um copo ainda na mão, vendedores de lotarias, homens do lixo conduzindo aqueles carros com vassouras giratórias e que lavam o chão enquanto varrem, desportistas convictos a correrem num frio de rachar, enquanto nós, pulmões cheios de tabaco da uma viagem de doze ou mais horas, ali sentados, mirando, mirando e a fumar, à espera do fabuloso pequeno-almoço que nos aguardava, feito carinhosamente para estes três forasteiros, turistas estrangeiros, com um aspecto deplorável e pálido mesmo de quem não dormiu nada, feito com comiseração, com hospitalidade, quem sabe mesmo se não com uma certa familiaridade de quem já passou por isso de viajar muitos quilómetros e sabendo que uma pessoa está ali esfaimada, fatigada, com um sorriso mais parvo do que o da Mona Lisa e que quando vê o prato é como se lhe dessem a oitava maravilha do mundo. Alto lá, pára tudo, neste prato ninguém toca. Eu só pensava numa tosta estaladiça, a fumegar, não muito queimada nem muito crua, barrada com manteiga por cima alourando o pão, pelas bordas um queijo que molemente escorregava, se deixava cair com uma lentidão pegajosa e nem dando conta que está a ferver e trincamos aquilo tudo queimando a língua. E aquilo nunca mais vinha. E o cigarro ia-se fumando. E o sol lá muito ao fundo a vir de dentro da água. E os pássaros a começarem a piar e a chilrear. E finalmente chega a miséria das misérias de duas metades de uma baguette seca e desmiolada (é que parecia mesmo que não tinha miolo) e dois triângulozitos da Vache que rie, a bela tosta que me esperava como primeira refeição em África. Com a fome que tinha, que tínhamos, era melhor que nada. Fomos comendo aquilo com muita tranquilidade, com muita calma, bebendo o leite com chocolate quente, a trocarmos umas palavras, o T. a começar a tirar fotografias das variantes de azul que se faziam com o nascer do sol e a dizermos muitas, muitas parvoíces. Realmente, o que tenho mais pena é não ter apontado todas essas parvoíces que dizíamos, à parte de uma frase recorrente desde Évora: pch cala-te! Alguém começava a dizer qualquer coisa que lhe vinha à cabeça, pch cala-te, ou alguém começava uma conversa mais séria e pch cala-te, bastava quase só abrir a boca e pch cala-te e a S. era quase sempre a sacrificada. Era vê-la a começar a ficar furibunda e pch cala-te mas, pch cala-te, ai a pch cala-te, vocês querem pa pch cala-te e por aí adiante.
Depois de termos comido pedimos os cafés, três copos de café, ou cevada com a cor do café e cafeína nem vê-la, como o Mediterrâneo. O dia fazia-se mais claro, o mesmo que dizer mais dia e o azul mais pálido, um pouco cinzento. Enquanto a S. se foi trocar, o T. foi pagar (ele é que tinha todo o nosso dinheiro, porque eu e a S. não temos cartão de crédito por ficarmos na lista negra da CGD e só podermos utilizar a caderneta, impossível de usar no estrangeiro, limitada em terreno nacional a um horário absurdo, que às vezes nem ao fim-de-semana podemos fazer nada, assim a caderneta é uma espécie de prisão de ventre bastante indesejável). Pagámos um dinheirão por um mau serviço, porque a tosta não era tosta, nem a baguette tinha miolo nem o café cafeína. Mas já tínhamos comido qualquer coisa e por isso lá fomos em busca de um mapa. Começámos à procura de papelarias abertas. Fomos até uma bomba de gasolina para encher o depósito de gasóleo mais uma daquelas latas para as viagens (que não me lembro mesmo do nome… ah, bidão, é isso) para não ficarmos apeados, e demos mais uma volta. A verdade é que os mapas em Ceuta são como o Mediterrâneo quando o estamos a atravessar e a caír de sono. E se a S. estava como estava, o que já não era pouco, o leite começou aos berros no seu estômago a pedir para sair dali para fora, possivelmente não queria passar a fronteira. O T. deixou-me a mim e a ela numa praça, dirigimo-nos para trás de um grande restaurante que lá havia e, bom, não saía nada como a mim não me saía pelo outro lado. E ela ia ficando cada vez mais enjoada e pálida, quando não lhe vinham os vómitos e a cara ficava-lhe completamente vermelha com os olhos raiados também quase a saltarem das órbitas, o que para a S. não é assim tão estranho, olhuda como ela é. O melhor é pôr os dedos à boca, aconselhava-lhe eu; não consigo, isso é pior; mas vais sentir-te melhor, o que é verdade e ela própria também o sabia. Voltámos para o miserável café e a S. pediu licença para usar os sanitários. Eu fiquei à espera tentando ler um jornal de dois dias atrás. Quando ela saiu via-se que estava melhor, à parte da situação hormonal feminina. Desandámos dali para fora e fomos ter com o T. No caminho, uma papelaria já começava a abrir as suas grades e portas e perguntámos, a S. perguntou, onde poderíamos arranjar um mapa. A caminho da fronteira encontraríamos uma estação de serviço e lá, de certeza absoluta, teríamos um mapa à nossa espera. E não é que era verdade, o último mapa estava lá à nossa espera e todo o Mediterrâneo do nosso lado esquerdo com as suas ondas de encontro às rochas e ao paredão da marginal. Finalmente vi-te.

(cont.)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (iv)

Podíamos avançar. Cancela levantada. Estacionar ali ao fundo. Divisão de carros. Grandes para aqui, os outros para ali. Tudo muito ordeiro, tudo muito certo. O barco cada vez mais próximo. Avançávamos às mijinhas, em partes. A baleia abriu a sua grande boca metálica, podíamos ver-lhe as mandíbulas. Com o passar do tempo, com a hora de partida já em vista, o caos foi solto no porto de Algeciras. Aquele rio de carros que fluía docemente até à boca da baleia, cada viatura encontrando o seu lugar no enorme estômago, começou a correr demasiado lentamente para o gosto marroquino e, como um leito de água que encontra um obstáculo e se vai acumulando e acumulando até começar a transbordar para os lados fazendo um extenso lago antes de derrubar o que lhe impede o seu livre correr, o atropelo, o salve-se quem puder sem razão aparente, porque ninguém ficaria de fora do leviatã, deu início. Os guardas que indicavam os lugares, que ordenavam o desenrolar da entrada no barco, perderam-se no meio de tantos carros, já não tinham mãos a medir. Ultrapassava-se por todo o lado. Os mais pequenos primeiro e os maiores depois qual quê, aquilo era cada um por si. Onde havia um espaço, uma brecha e lá vinha um meter-se, para ficar mais próximo de casa. Claro que não ficámos a ver sem fazer nada, não. Avançávamos, pois, não iríamos ficar para trás. Mas não é que, quando íamos avançar, numa dada altura há um sacana numa carrinha familiar que se tenta meter à descarada. Foi o fim da picada. O T. salta do jipe e, bem ao jeito do Porto, vai lá pedir contas. Bom, é preciso dizer que o T. é um tipo alto e forte, mete algum respeito, assim com um físico de jogador de rugby, e o tipo da carrinha era um franzino de óculitos enfezadito. O marroquino lá espingardou em espanhol e o T. em português e a S. a dizer deixa lá isso, não vale a pena T., entra para o jipe e eu, um olho aberto outro fechado, entre o dormir e o acordado, ria-me por dentro.
Bom, lá entrámos. Estacionámos, tirámos as nossas mochilas, onde guardávamos as coisas essenciais, como o passaporte, a carteira, etc., e dirigimo-nos para cima à procura de cadeiras para nos sentarmos. Claro que já estava quase tudo cheio, tudo a falar alto, tudo alegre e vivo, sabendo que a qualquer momento deixaríamos a Europa e encontraríamos África, mas lá nos encadeirámos. O T. ao pé de uma janela, separado de nós e eu e a S. mais ou menos ao meio, juntos, mesmo em frente da porta que dava para a primeira classe guardada por três camareiras, uma mulata de rastas e bem engraçada (a S. disse-me o mesmo à vinda) e as outras um pouco a dar para as bruxas. Nas televisões começava a dar um episódio de uma série que também era transmitida em Portugal, Los Serranos. Com alguma dificuldade, depois de ouvir o aviso em espanhol sob o peso gigantesco do sono por todo o corpo: a vossa atenção por favor, muoc muoc muoc, este barco é para não fumadores, iremos avançar a não sei quantos nós, muoc muoc muoc, a temperatura é de muoc muoc muoc, o capitão deseja-lhes uma boa viagem; e de seguida no risível espanglês que, se pensamos que não percebemos o aviso em espanhol porque foi dito com muita rapidez e ainda bem que a seguir é em inglês, é o mesmo que nada, é pior ainda porque nos estamos a rir com os abeque beque beque que ninguém percebe mesmo. Como dizia, com alguma dificuldade, adormecemos, cada um por si e apenas despertámos quando atracámos na Ceuta espanhola. Mediterrâneo ― que eu pensava dar uma olhadela, como faço quando atravesso o Tejo, porque a viagem dura o mesmo que para o Barreiro, exactamente meia hora, o que para mim demorou pouquíssimos segundos ― nem vê-lo. Mas também, sem luzes e escuro como breu, pouco dava para entender como era o Mediterrâneo. Lá nos levantámos, descemos para o estômago, esperámos que uns quantos carros saíssem para podermos entrar e saímos da máquina marítima. Noite ainda, nem nevoeiro nem Sebastião, apenas uma estátua do Infante Dom Henrique apontando para trás, para a Europa, mas essa iria ter de esperar o nosso retorno. Agora só nos faltava encontrar um mapa de Marrocos, para saber que estradas teríamos de apanhar para ir até Fès passando por Chefchaouen. Só que mapa nem vê-lo, como o Mediterrâneo. Tudo fechado. As papelarias abriam apenas às dez horas da manhã, mas até percebermos isso andámos de um lado e para outro em Ceuta por bombas de gasolina, porque se em Portugal encontramos mapas nas bombas de gasolina de certeza que em Espanha também. Entendemos que o melhor era encontrar um café aberto para comermos qualquer coisa e esperar a abertura das papelarias.

(cont.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (iii)

29 de Dezembro de 2006


No jipe, os três, eu, a S. e o T., com os nossos pensamentos já a meio do Mediterrâneo, preparávamo-nos para fechar os olhos e tentar descansar. A S. no banco de trás, ao comprido, toda atafulhada de roupa e o casaco extra quente do T., ele a desembrulhar uma folha de um material qualquer dourado na frente e prateado no verso, ou vice-versa, última novidade e topo de gama de mantas para o ar livre, que lhe dava um ar de tublerone gigante. Qualquer movimento resfolhava a “manta” ou o raio do que aquilo era e já nos ríamos por tudo e por nada, sem qualquer droga fumada ou inalada (na verdade nenhum de nós se droga, não sentimos necessidade porque realmente não precisamos, conseguimos chegar aos mesmos estados de alucinação, desvario, dormência, sem ingerir nada, é quase a mesma coisa como dizia Henry Miller, “embebedarmo-nos com água pura”, por isso não esperem um relato de viagem beatnik). Enquanto eles se preparavam, eu saí do jipe para fumar um cigarro e começar a anotar esta viagem que tínhamos começado há mais de doze horas. Lá fora, sentado num degrau de um minúsculo passeio, a fumar o cigarro, já conseguia ver Sebta do outro lado, algumas luzes pelo menos, e todo o Mediterrâneo afogando as estrelas que ligam a Europa à África. Foi ali, no outro lado deste mar, que Paul Bowles escreveu os seus romances e contos, foi naquele continente que Rimbaud se matou, se Fès outro Rimbaud, que Almada Negreiros nasceu com aqueles grandes olhos, que Nâzim Hikmet esteve preso e escreveu os seus poemas e peças, que Jean Genet amou e suicidou o seu funâmbulo, o seu Abdullah, que o Malangatana pinta, que o Herberto Helder escreveu, e outros, como o meu pai que apenas nasceu lá e viveu até aos nove anos, lá mais para baixo em Luanda em mil novecentos e quarenta e oito. Acabado o cigarro voltei para o jipe e também eu me enrolei em casacos e me descalcei. Era tempo de fechar os olhos, tentar dormir até às quatro e meia da manhã, tentar descansar. Mas não podíamos descansar por aí além, porque a qualquer momento era preciso colocarmo-nos na fila em frente da cancela de segurança, o que aconteceu por volta das duas horas da manhã.
Assim do nada, um carro arranca vindo sabe-se lá donde, passa em frente de muitos outros que já lá estavam há horas, antes mesmo de nós chegarmos, e coloca-se muito muito perto da cancela. O T., que já se encontrava de sobreaviso, porque sabia que a entrada para o barco era um corre-corre a ver se te avias, um quem chegar chegou, um quem foi ao ar perdeu o lugar, num só gesto desembrulha-se da sua prata, do seu invólucro de chocolate, liga o jipe e arranca em direcção à cancela. Lá ao fundo alguém grita, eh qué estás haciendo? alguém lá do fundo corre em nossa direcção, qué estás haciendo hombre? Um carocho, um moedinhas espanhol abeira-se da nossa janela, da janela do T. e diz-lhe que ele, T., não pode fazer aquilo. Ora, o T. sem meias medidas, dando uso do seu melhor espanhol diz ao carocho que ele já lá estava há mais tempo que aquele outro tio, assim como muitas outras famílias. O carochito pergunta-lhe então se nós fizemos reserva para termos lugar no barco. Nós não sabíamos da necessidade de fazer qualquer reserva. O tipo pede os nossos bilhetes para dar uma olhadela e o T. dá-lhos para as mãos crispadas pelo sol, aquelas mãos amarelas e envelhecidas, com muito sarro e porcaria debaixo das unhas, drogadas. Diz-nos ele, depois de ter verificado que realmente tínhamos bilhete para aquela hora, para o primeiro barco, que é mesmo necessário fazer a reserva porque aquele fim-de-semana, para além de ser o da passagem de ano, coincidia com uma data festiva muçulmana e muitos árabes já tinham marcado viagem para aquele dia. Devolve-nos os bilhetes e nós já pensávamos que não iríamos para lá do Mediterrâneo. Entre palavras e um cigarro cravado pede de volta os bilhetes e diz que vai ver o que se pode fazer, vira costas com os nossos bilhetes e parte em direcção da gare, pelo menos era o que parecia. Mau, pensámos em conjunto olhando-nos em silêncio, já vamos ficar sem bilhetes (pode parecer preconceituoso, mas àquela hora, quase sem dormir, a capacidade de raciocinar claramente em modo de descanso e sem perceber patavina do que é que se está a passar, desconfiamos de tudo). O T. sai do jipe a correr atrás dele, enquanto eu e a S. ficamos lá dentro a ver como dois espectadores surpreendidos por aquele filme de última sessão. Minutos depois aparece o T. com o carocho e os nossos bilhetes, dá-lhe mais um cigarro, troca mais umas palavras e segue para o jipe. Está tudo tratado, diz-nos ele, parece que os negócios já começaram enquanto dormíamos. Aquele gajo que estacionou o carro Fès um acordo qualquer com um marroquino para se pôr à frente, mas agora consegui o lugar da frente, vamos ser os primeiros a passar a cancela. Mas como é que isso aconteceu? pergunta a S.; eh pá, o gajo disse-me que deu vinte euros a um outro gajo e conseguiu-nos a reserva e o lugar da frente, depois pediu-me mais cinco euros para comer e eu dei-lhos; perdemos então vinte e cinco euros? diz a S.; espera, eu vou tentar reaver os vinte euros, aquilo de certeza que foi só tramóia, diz o T. enquanto saía do jipe para o ir procurar, apertar com ele e reaver os vinte euros. Mas, claro, carochito nem vê-lo. Deixa lá, estamos na frente e agora podemos descansar mais um pouco. Assim, sem mais nem menos, já uns quantos carros começaram a estacionar atrás de nós a fazer bicha para partir, se houvesse problemas estávamos completamente presos e não conseguiríamos sair dali. Única direcção: em frente, sempre em frente até ao Ramón Lull. Dormir dormir, só eu consegui entre o barulho de conversas, sirenes e buzinas que começaram por volta das quatro e um quarto, quando apareceu o guarda que iria, depois de apresentados os bilhetes, dar a passagem.

(cont.)

terça-feira, 7 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (ii.)

Como tínhamos bastante tempo ainda, decidimos ir jantar. A última refeição ocidental: duas pizzas familiares com extra queijo, cogumelos, cebola, pepperoni e qualquer outra coisa que agora não me lembro (porque não anotei os condimentos), na Telepizza. Comemos uma e guardámos a outra para o almoço do dia seguinte, o que talvez nos pouparia algum dinheiro. Demos uma volta pela zona dos bares em Algeciras, bebemos um café, um horrível café diga-se de passagem, e por volta da meia-noite voltámos para o porto. Como já sabíamos o caminho e a porta certa, não foi difícil encontrarmos o local exacto de onde partiríamos no Ramón Lull. Novo parque de estacionamento como os que existem debaixo dos viadutos nas grandes cidades, já com alguns carros estacionados, maioritariamente marroquinos. Famílias inteiras com a casa às costas à espera da embarcação, do retorno, mães, pais, filhos, filhas, irmãos e irmãs, bebés de colo, amigos que se encontram e trocam palavras, turistas a dormir em carrinhas e auto-caravanas e frio, muito frio. Tínhamos atravessado parte de Portugal e parte de Espanha, muitos quilómetros num jipe, duas paragens (uma, mais demorada, para comer à hora do almoço, outra, mais rápida, já em Espanha, para se trocarem condutores e para se fazerem as necessidades ao ar livre), ossos e músculos moídos, estávamos cansados e de barriga cheia a lutar contra o sono. E quando estamos cansados e de barriga cheia a lutar contra o sono o frio parece mais frio do que realmente está, ou é.
Para travar os passos largos do sono, para fugir às brumas de Morfeu, pensámos dar uma volta pela gare, simplesmente para ver como ela era e se lá dentro alguma loja estivesse aberta com mapas de Marrocos. Àquela hora tudo estava encerrado, grades a toda a volta das lojas. O melhor em vista seria dar uma olhadela às casas de banho, para que nada desse errado nas longas horas de espera até à nossa partida. Enquanto um ia, dois esperavam à porta. Pessoas dormiam, ora sentadas, ora deitadas, nas cadeiras pouco cómodas das salas de espera, outros liam jornais e revistas, uns quantos, como nós, passeavam ou partilharam da mesma ideia, isto é, mais vale aliviar que aguentar. Eu mal podia esperar pela minha vez. As pessoas que me conhecem sabem muito bem como trabalha o meu intestino, sabem que após cada refeição, conjugada com um cigarro e um café, o melhor é saírem da minha frente porque não respondo por mim. Aliviar-me numa casa-de-banho é um éden que nunca tento descurar, que ninguém me pode tirar. As casas-de-banho são dos meus lugares preferidos, acompanhado por um cigarro e um livro, ou umas palavras cruzadas ou um su doku. Demoro-me o máximo que posso, ali tenho a certeza que ninguém me incomoda. Leio as portas, as paredes, até mesmo o chão se for de mármore raiado e com desenhos bastante interessantes. Para azar dos azares, à S. surgiu-lhe o mal de mulher, o pior para uma mulher quando em viagem. Acho que foi completamente natural, mesmo se infelizmente para ela, se tomarmos em conta que toda ela era excitação com a viagem a Marrocos e as hormonas responderam-lhe, infelizmente para ela (e não vou dizer que não para mim também, embora um pouco de sangue nunca Fès mal a ninguém). Mas um azar nunca vem só, como se diz muitas vezes, e também eu fui apanhado por ele. Não, não me surgiu uma menstruação contra-natura, nem uma diarreia dos tempos bíblicos, aconteceu-me exactamente o que mais me custa, aquilo que eu menos queria que me acontecesse e que já vinha dando sinais desde a manhã em Évora antes de partir, e em Beja e depois no bar em Algeciras (na casa-de-banho das mulheres que entrei por engano, realmente estava demasiado limpa para ser uma casa-de-banho de homens de verdade), equivalente ao período se eu fosse mulher, isto é, uma completa e total obstipação, uma indesejada prisão de ventre, a maior hora de ponta sem qualquer escoamento, sem vazão. Lá estava eu, de cócoras, a tentar parir para um buraco um zero absoluto, um vazio astronómico. Eu agarrava-me ao trinco da porta, respirava, arfava, debatia-me com o vácuo do meu intestino, ficava vermelho, começava a transpirar, quase que os meus olhos saíam das suas órbitas e nada. Nada de nada. Realmente nada, nadinha de todo. Descobria-me, naquele momento, no meu inferno mais que pessoal, era o fim da picada para mim. Eu já me via aos poucos e poucos a começar a inchar e a inchar, o botão das calças a saltar disparado se alguém me tocasse mesmo ao de leve no estômago. Saí dali para fora e eles expectantes perguntaram-me e então? Nada, disse eu muito desgostoso; nada de nada?; nadinha.

(cont.)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

em cinco dias évora-fès-évora fiz (i)

Não esperes, aliás, que eu te vá contar tudo, tintim por tintim. Sentir-me-ia muito pobre, se não calasse qualquer coisa”.

Robert Walser, A Rosa

No fim de contas, nos momentos grandiosos também assomam os pormenores ridículos

Enrique Vila-Matas, Longe de Veracruz


You were right about the end, it didn’t make a difference. Everything I can remember, I remember wrong

The National, Alligator



Para a S. e o T., companheiros de viagem.
Para aqueles a quem convidámos e não puderam vir connosco
E para o Gaspar que nasceu durante a viagem


28 de Dezembro de 2006


Começámos cruzando o campo. Partimos pela planície pouco seca e já esverdecendo. De quando em quando, em cada lado cortado pela estrada, pululam flores brancas, como se a neve tivesse voltado a cair, uma vez mais, exactamente como há um ano, pouco mais ou menos. Despedimo-nos dos gatos: adeus Djamila, adeus Manchu, Mário e Maria Branquelas, Teresa Tigresa e Alfa, têm aqui a comida (quatro quilos despejados em diferentes tigelas e tupperwares) e água que sobeja para os seis. Deixámos a casa para que tomem conta. Dormem todos enroscados nos sofás de cambalhota que estão no pátio, ou no telhado quando o sol bate de chapa, por entre os ramos da única árvore. Por não ser botânico não lhe sei o nome. É a árvore, nada mais. A árvore.
Pelo caminho, perfurando o Alentejo, apenas as oliveiras e os sobreiros se mantém verdes, o resto está seco, partido, quebrado, caído. Viajamos, mas viajamos com destino certo. Temos mapa até Espanha, temos comida e água como os gatos, mochilas, roupa, um Land Rover e os olhos presos em Marrocos. A última vez que lá estive foi em dois mil e quatro, o que mudou? Pergunto-me muitas vezes isso, enquanto olho pela janela ao longo da paisagem. Logo saberei. Talvez nada, talvez um pouco mais que nada.
É necessário fazermos umas paragens, esticar as pernas, desentorpecer os músculos. A primeira foi em Beja, para comermos e levantarmos dinheiro. Levámos pelo menos duas horas a sair de lá, embora nunca tenha olhado realmente para o relógio até passarmos a fronteira ibérica e acertar a hora. Dou uma hora a mais ao relógio, uma hora em poucos segundos, que a volto a ganhar quando chegar a Sebta ou Ceuta como quiserem (mas na verdade andámos sempre com uma hora a mais, não sabíamos que Marrocos tinha o mesmo fuso horário que nós). De Beja seguimos caminho, pela estrada nacional, para a raia alentejana. Primeira terriola do lado de lá, Rosal de la frontera, e a noite começa a cair. Vamos percorrendo parte do sul de Espanha. Atravessamos Aracena, Sevilla, Las Pajanosas e dirigimo-nos para Cádiz e mais tarde Algeciras.
Nesta cidade, a última antes de atravessarmos o Mediterrâneo, encontramos já traços da cultura muçulmana, não muitos, é claro, apenas nomes de lojas, restaurantes, bares. Percorremos a cidade a toda a pressa, porque sabíamos que o último barco para Ceuta partia às dez horas da noite, faltavam mais ou menos vinte minutos para a largada marítima. Um porto enorme, atolado de carros e grandes leviatãs de aço com a barriga cheia de máquinas motorizadas estacionadas. Mal entrámos no parque de estacionamento um marroquino indica-nos um lugar, donde desean ir? Para Ceuta (com o comum sotaque português a tentar falar espanhol), ay un barco a salir ahora, vengan conmigo (pode não ter sido exactamente isto o que ele disse, mas o que interessa?). Lá fomos atrás dele para dentro da gare, em direcção a um posto de vendas de bilhetes tanto para Sebta como para Tânger. Não teríamos os bilhetes com a pressa que desejávamos, uma vez que a sala estava cheia de pessoas que iriam também para Marrocos e apenas dois funcionários, um dos quais contava euros e dhirames, por isso apenas um a atender. Aquilo demorava. Árabe para aqui, árabe para ali, passaportes, notas a serem passadas de mão em mão, um homem que não dá o dinheiro certo, tenta ainda regatear mas nada feito, toma lá dá cá e chega a nossa vez. Três bilhetes de ida e volta para Sebta (Ceuta) mais um jipe, quatrocentos e tal euros e mais ou menos cinco minutos para entrarmos no barco. Vai ser à risca, pensávamos nós entre sorrisos já nervosos pela proximidade da nova terra. Quando tivemos os bilhetes nas nossas mãos corremos dali para fora para o jipe e ala (Allah) que se faz tarde. A saída era para ali quase quase atrás de nós, mas aquele era um porto difícil de se navegar, um tanto quanto labiríntico, que nem os funcionários sabiam que voltas teríamos de dar para a porta de saída. Depois de algumas perguntas e respostas de um espanhol sopinhas de massa, que não percebemos rigorosamente nada e por pouco nos desatámos a rir na sua cara, lá demos com o caminho para Ceuta, ténen de ir para allá; pero para allá es Tánger y nosotros queremos ir para Ceuta; por favor siguen para allá, até que percebemos que os nossos bilhetes indicavam Tânger e não Ceuta. Não podíamos acreditar naquilo, acabámos por perder o último barco da noite, mas talvez houvesse esperança de ainda embarcarmos, podia ser que ele se atrasasse. Voltámos para a agência de viagens e dissemos que se tinham enganado e pedimos para nos trocarem os bilhetes. Ao princípio torceram um pouco o nariz, mas lá os trocaram desculpando-se e fazendo um pequeno desconto (ou os bilhetes para Sebta eram mais baratos do que para Tânger, o que ainda não percebi). Recebemos cento e poucos euros de volta e uma espera até às cinco e meia da manhã para o barco Ramón Lull.

(continua)

apresentação de "Em cinco noites Évora-Fès-Évora fiz"

como um amigo, que já não vejo há muito tempo - conheci-o nos primeiros tempos da universidade - ficou interessado num pequeno diário de viagem que escrevi, depois de ter conversado com a cris, pedindo para o ler, começarei aqui, aos poucos e poucos, a postá-lo.
trata-se da minha segunda viagem a Marrocos, desta vez no banco de um jipe, na companhia da minha companheira de altura - S. - e de um amigo, meu encenador e com quem cresci como actor/performer - T.de F. - com o propósito de celebrar a passagem de ano de 2006-2007. Mais tarde foi apresentado/lido ao vivo numa actividade produzida pelo CEPiA, quando à quarta e quinta-feira desenvolvíamos projectos no Monte Alentejano. à quarta sucediam as narrações orais e de viagens, à quinta o BANG BANG/Tempo de Antena.
tem, decerto, um valor sentimental, mas afasta-se muito do valor literário, com que muitos diários são escritos, visando a edição. tem erros, muitos até. não pretende nada senão contar.

quinta-feira, 31 de março de 2011

arkaneftá (23) - fim

amor, vejo tanta seiva escorrendo dos orifícios e tenho um medo que sobrevoa o futuro.
amor, por vezes desejo a poesia pela mão que vem da lenta loucura, mas então acordo e encosto-me a ti.
amor, um dia tocaram-me nos centros doces e abrasado vi a árvore astral defronte a um lago, com as bagas no escuro, e vi-te, nos espelhos inocentes, a levares-me na tua mão como uma criança e a ser amado.
amor, abrimos as portas por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo - o teu espaço luminoso - e transformamo-nos.
amor, todos os dias de manhã vejo-te alargando os braços, apanhando a claridade, onde pelo ar enflorado por cometas sobre as montanhas e a sua água, abençoarás o dia que iremos ter.
amor, porque eu sou uma abertura, alguém com os dedos na cabeça dando voltas à criança, com as mãos embriagadas, porque a criança atravessa tudo e já toca no centro de si própria, do mais profundo até ao mais leve na obscuridade deste poema e eu sei tudo e esqueço.
amor, com este poema assim escrito, choro e penso, porque Arkaneftá, a que chamo, por enquanto, um espelho em frente de um espelho, é uma imagem num único nó do corpo.
amor, trabalho um nome, o meu nome, com a dor do sangue.
amor, nunca seremos os amantes para serem mortos, nunca fui esta criança, senão neste poema (o poeta será sempre uma criança e a criança um poeta, e os amantes assassinados pelos homens), se morremos é por exemplo.
amor, não peço que o espaço à minha volta se engrandeça, eu morro do que nasci na boca para o potente e o suave do mundo.
amor, poema do começo a árduo sopro.

terça-feira, 29 de março de 2011

arkaneftá (22)

olhando a queimadura quase homogeneizada que resta na minha mão esquerda, penso na doce mas dolorosa mão, ainda com as cicatrizes mapeando-a, que ergueu a fábula e a estrela de água entre varais de sal.
no fundo, fiquei cego nos alvéolos da boca... escondo a cara com uma barba. sempre que escrevo um poema, a voz fica cheia de artérias frias, pois o silêncio nunca existirá no poema. fica retido na mão - essa dádiva infernal fechada na metáfora - fora e dentro até se desistir de escrever.
quis inaugurar o nosso amor com um poema de morte, inaugurando o nome que morro. assinar definitivamente: demoníaco - com todas as letras, trincadas e roubadas aqui e ali: uma frase, uma ferida, uma vida selada. com toda a presunção - eu falo o idioma demoníaco, não há outro que possa habitar no poema (“depois de Auschwitz não há poesia possível”).
os homens têm a temperatura de deus, são loucos meteorológicos, habitantes da morte. a criança falou. ouviram-na? falou de uma personagem dentro de uma laranja com fogo através do campo. ela disse também: a vista fica rodeada pelo ar, aproximam-se os vivos dos mortos, tanto, até se confundirem e terem que ser avisados sobre uma ou outra coisa.

segunda-feira, 28 de março de 2011

arkaneftá (21)

a morte engrandecia as mãos voltaicas dos homens, electrocutando o que anteriormente era belo.
a criança ficou toda perfumada de passar rente às carcaças, por baixo do vento que se soltava dos corpos calcinados. quis soltar um grito, que se prendeu à garganta poluída, que vinha agarrado aos meus dedos infantis como num mistério de baptismo. a criança tornou-se um habitante de um gesto, um nome incógnito, desconhecido, porém sucessivo na História dos homens.
e como fugi enlouquecido, tropeçando, caindo, com um desejo de abrir uma pedra para ver a água estremecendo de átomos e o segredo, a boiar nela, que me explicasse aquela embriaguez.
à volta da mesa, essa que crepitava as palavras das chamas, fotografias com bolhas, fumo dos pulmões à boca - as trevas a chegarem-me aos olhos - naquela luz feroz na alma húmida dos poemas, aquela ciência escrita a sangue - as trevas a chegarem-me aos olhos - no sítio ainda agora no cérebro a arder, as suas caras amargas com saliva e sangue, o estremecimento dos corpos percorrendo-os dos braços em raio de estrela até aos órgãos que caíam das suas barrigas abertas - as trevas a chegarem-me aos olhos enquanto corria para longe, para me esquecer e escrever este poema. as lembranças a voltarem, de nome em nome renomeando o mundo, passando por mim como sopros que inspiro, até cada coisa mergulhar no seu baptismo - pois ao escrever todas as palavras existentes, o poeta rebaptiza-as renovando-as, queimando a língua, iluminando tudo, até à altura de uma pessoa imóvel com uma mão convulsa manobrando a destruição para uma vida máxima.