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domingo, 14 de junho de 2015

o fazedor de dicionários

          conhecia de cor todas as palavras do dicionário, sabia o seu significado, a intrincada trama que liga uma a outra. era um homem linguisticamente sábio, portanto, ou enciclopédico, se quiserem. continuava, no entanto, sem perceber nada do mundo e das pessoas. via uma mesa, uma cadeira, uma árvore, um animal, uma montanha, uma pessoa e nada percebia. o visto e o lido não coincidiam. alguém dizia mesa, cadeira, árvore, animal, montanha, pessoa, amor, carnívoro, diálogo, obsceno, elucubração, impávido e o escutado do contexto não coincidia com a sua memória, ou a expressão de todo o corpo, modulação vocal incluída, nada significavam.
       inscreveu, então, uma novíssima palavra no dicionário, o seu substantivo e formas adjectivais e adverbiais, uma coisa que percebeu com todas as fibras e células do seu corpo, da sua vida. pela primeira vez o visto, o escutado, o lido e o sentido coincidiam e em si, na sua pessoa. essas palavras definiam-no - qualquer coisa mais que qualquer um possa dizer de si, que uma palavra mais a sua rede o definem.
          escreveu: só, solidão, sozinho, solitário, solitariamente, solitude, s...

sábado, 13 de junho de 2015

de olhos abertos e de olhos fechados

olhando o teu rosto, percorri com um dedo o trilho entre os teus olhos e a tua boca. uma curta distância, rapidamente passada com o desejo, em sôfrega pressa. fechei os olhos, permiti que o mesmo dedo palmilhasse esse espaço. agora, no escuro, a tua face transformou-se em extenso universo, ou deserto imenso. não sei se a meio do caminho, se ainda no início, ou já no fim, o meu dedo morreu-me nas mãos, sedento, cansado, à beira do esgotamento. andou perdido em rotundas, polindo um diamante entronizado em carne. porém, como diz o ditado, rei morto rei posto; tendo falecido, logo outro se levantou: mergulhador de abismos, espeleólogo inato. depois vieram as gemidas vozes e uma luz derramou-se

segunda-feira, 11 de maio de 2015

a decisão (fim)

          Era já tarde na noite. Eu percebia, pelo seu cada vez mais frequente desvario, que a lógica, de que ele era famosíssimo, se encontrava adormecida. Essa governanta fechava já os olhos fatigados pelos longos excursos a que foi submetida, estendia-se no divã à luz de uma lareira, sucumbindo às carícias de Baco e Morfeu. Dividimos a conta, cada um vestiu o seu casaco em silêncio, cada um ao seu ritmo e segundo o seu método, ele abotoando de cima para baixo e eu de baixo para cima. Já ninguém se encontrava no restaurante. As cadeiras sobre as mesas, as luzes como bandeiras a meia-haste davam um ar morno. Ao fundo os empregados comiam o seu jantar também em silêncio. Escutava-se somente o combate dos talheres na porcelana e os murmúrios salivados da gula e da fome. Esse silêncio, à medida de cada passo, assim parecia, ia conquistando um território cada vez mais extenso. A noite estava fria e estrelada. Todavia, enquanto se desenrolou o nosso jantar, a neve tinha atapetado os passeios e as ruas. Nenhum carro, nenhum transeunte, somente nós, o escuro, o vapor de água que das nossas bocas e narizes se evaporava, esse comum som da neve pisada como se ouvíssemos alguém a mastigar pão duro e a decisão que ainda tinha de tomar e que me oprimia o estômago. Despedimo-nos apertando uma vez mais e energicamente as nossas mãos e demos um forte abraço. Fiquei ali parado enquanto ele partia na sua direcção. O aperto no estômago adensava-se e ameaçava estrangular-me a garganta e o coração, na verdade sentia-o já a palpitar descompassadamente, os cavalos em atropelo e chispando as suas ferraduras. A minha casa não estava longe e como ainda nenhum carro pisara a neve até se vitrificar não corria grande perigo voltar de bicicleta, levaria um quarto de hora, vinte minutos conduzindo com cuidado. Tempo suficiente, se agora tinha de retornar, para chegar a uma conclusão, decidir-me sobre o que fazer, não mais adiar a resposta. Se percebi alguma coisa do que ele disse sei que já tenho a decisão comigo, não vou tentar relembrar todo o seu discurso, de qualquer modo de nada me valeu prestar atenção aos pormenores, Deus sempre permaneceu ausente. Cruzei as avenidas, tentei manter uma respiração ritmada de modo a desenlaçar esses três nós no corpo, mas de pouco valeu. Ao passar pela ponte de Waterloo tive de parar e vomitar. Só assim os nós anuviaram o seu aperto. Apanhei alguma neve do chão e lavei a minha boca. Saltei para a bicicleta e continuei a minha marcha procurando descobrir que decisão era essa que no fim de contas já a havia tomado. Cheguei à entrada do prédio, abri a porta e conduzi a bicicleta para o pátio. Ao estacioná-la olhei para o nosso andar. Uma luz mantinha-se acesa, a luz que adornava o nosso leito, o que só podia significar duas coisas: ou estava acordada, ou deixou a luz acesa e dorme já. A minha cobardia desejava a segunda hipótese porque ainda não sabia o que aconteceu, como perdi a noção da realidade. Subi a escadas revolvendo e revolvendo o dia, apertando a chave na minha mão e, à medida que os 66 degraus terminavam, ia sentindo que os nós se desvaneciam enquanto alguma coisa no meu bolso inferior do casaco batia 66 vezes na minha perna. Defronte à porta levei uma mão ao bolso e de lá tirei um pequeno cubo negro e aveludado. A porta e o cubo abriram-se ao mesmo tempo. Ela estava diante mim e chorava, uma mão tapando a boca e os olhos lacrimosos saltando do cubo, onde um anel resplandecia no escuro da escadaria, para os meus perfazendo o mesmo percurso que ela. Ele tinha razão, o meu amigo, eu tinha realmente tomado uma decisão.

(as dúvidas, no entanto, em torno do meu alheamento ainda hoje, agora em que escrevo estas palavras, perduram e tenho medo)

Berlim, Fevereiro-Abril 2015

domingo, 10 de maio de 2015

a decisão (xv)

          «Escuta, eu sei que não te ajudo em nada. Telefonaste-me porque estás envolvido num sarilho, ou metido numa grande confusão, não sei. Para te dizer a verdade, eu nem sequer prestei muita atenção ao que disseste, nem sei bem qual é o teu problema, se é um caso de vida ou de morte. Quero dizer, eu escutei-te, percebi o teu problema, mas quando me perguntaste o que eu faria se eu fosse tu desencadeaste uma reacção que nem mesmo eu estava à espera. É como se tivesse cá dentro um tumulto de coisas por dizer e tudo saiu em catadupa. Isto foi um tremor de terra mais interior que no manto da terra, uma bomba com uma onda de devastação violentíssima, uma acção em cadeia, um imenso dominó ou castelo de cartas amparado no seu equilíbrio frágil e rapidamente desmoronado pela tua inquirição. A tua pergunta entrou em mim como dois dedos jogando um berlinde contra o muro de dominó, ou juntos em forma de pinça pescando a carta que derrui a construção. Por tudo o que ouviste, se alguma coisa foi dita que te magoou ou te ofendeu, por tudo isso te peço desculpas, peço o teu perdão. Sabes bem que, como teu amigo, apenas quero o teu bem e conhecendo-me como creio ou julgo tu me conheceres, também sabes que, para mim, não faz qualquer sentido ferir-te, magoar-te, ofender-te, porque te considero meu amigo, meu semelhante, porque te respeito e nada ganharia com o contrário, isso seria malvadez.»
          «Sim, sim, eu sei que não o farias e concordo contigo. Eu só queria o teu conselho porque prezo a tua sinceridade e o pragmatismo com que lidas e, para usar um conceito a que recorreste no teu discurso, conduzes a tua vida.»
          «E eu agradeço-te o elogio e o facto de me teres escolhido para teu conselheiro, mas hoje, para este caso, não creio ter sido de grande ajuda. Não fui, de todo, um conselheiro. Penso mesmo que compliquei um pouco mais porque te desviei do caminho que devias ter seguido. Devias ter seguido o teu fio, ou o fio desse problema, desenrolá-lo e ver onde te levava. O que é que eu fiz? Como uma mãe que deseja tecer uma nova camisola para o seu filho peguei na meada, sentei-te à minha frente, ergui-te os braços como se de uma súplica se tratasse – e não deixou de o ser porque me pedias conselho, solicitavas o apelo –, coloquei em cada mão uma parte da meada perfazendo assim uma espécie de elipse, pedi-te, pela minha parte, que te mantivesses quieto e em tensão na tua súplica e assim sustendo a meada no ar e mantendo a sua elipse, este discurso que proferi; pedi-te igualmente que acompanhasses o meu movimento circulatório enquanto a meada se desenrolava e eu, partindo de uma ponta desse fio, produzia um novelo de frases, pensamentos. O teu próprio novelo, esse, foi deixado de lado, de parte, ou, prosseguindo na mesma metáfora, foste tu que me trouxeste a meada para que eu te fizesse o novelo, desenrodilhando a lã, soltando os nós que se criam. Porém, o nó precioso, o mais desejado, esse que mais do que tudo necessitavas denodado, esse, foi escondido, envolvido por voltas e mais voltas do novelo, em torno dele outros nós se deram quando o fio nas suas voltas se abismava em si, se redemoinhava. Eu sei, eu dei o nó à ponta do fio que me estendeste, esse fio já ele enodado e que necessitavas estendido, denodado. E agora, perguntas tu. Agora, pegas numa das pontas, a que se te apresenta à mão ou à vista, dás um nó prendendo o fio a qualquer coisa de modo a que possas estender o novelo e percorrê-lo e possas sempre retornar ao princípio se desejares – como vês, não consegues evitar o nó, o do princípio ou o do fim, se queres percorrer o fio com que o mundo se cose e para denodar um nó dás outro um pouco mais adiante ou mais atrás – e assim dares conta do percurso, tomares atenção a cada nó do fio estendido ou o conjunto de que esse fio é feito, é composto. Como seria bom, não é?, que se pudesse fazer precisamente isso com o fio da nossa vida. Dizer a uma das parcas: “escuta, dá-me o meu fio, permite-me que o isole de todos os entrançados, das redes ou das teias em que está enredado, deixa-me perfilá-lo, passar os dedos como se passa numa mobília velha e empoada, ou no dorso de um gato ou cão estimado, deixa-me sentir a fibra de que ela é composta, essa matéria estranha, dúctil, que me cose e me cose ao mundo e aos outros. Que grande manta de trapos tudo isto é!»

sábado, 9 de maio de 2015

a decisão (xiv)

          «O mais certo, por vezes, é que a tua resposta a um problema, a resolução de um problema é colocar um novo; ele parece resolvido e, de certo modo, até está, mas a sua resolução traz, transporta atrelado a si um novo problema. Um problema que de imediato confrontas é, justamente, a questão moral escondida, oculta em cada decisão. Melhor, em cada decisão há um confronto entre ti, enquanto sujeito moral e ti, enquanto sujeito ético; tu, enquanto sujeito que delineia um conjunto de regras, um código de condução e tu, enquanto sujeito que, a cada vez, através da sua conduta põe em xeque a validade, a certeza indubitável do código de condução, medindo-o, estirando-o, dilatando os seus limites, encontrando falhas, propondo adendas, como se fazem aos códigos civis, constitucionais, etc. Repara, eu nem sequer estou a falar de um código universal, ou legal de um país, falo do teu código pessoal, um que, quer queiras quer não, te constitui, é de certo modo constitucional e não o criaste ex nihilo, ele é uma mescla de diferentes códigos, familiares, fraternos, educacionais, culturais, etc., etc., etc. Por isso o exercício de conduta, porque é o frente a frente, a vanguarda no campo de batalha entre morais e éticas, se reverte e combates em duas frentes: a do problema em si e a da fricção que emerge entre condução e conduta; mas também é por isso que a decisão, de certo modo, já está tomada, porque se ela é uma resposta segundo critérios de condução e sabendo que esses critérios não são teus, na verdade fá-los teus mas não são teus; e só os fazes teus pelo exercício, o qual inevitavelmente introduz adendas, apaga critérios, sublinha outros. A resposta, a decisão está já tomada dentro dos parâmetros do código de condução que sempre vem de um outro que não és tu. Essa resposta está já dada porque não é tua, é a soma ou a suma de critérios e adendas que vêm de outros, outros corpos, outras vozes. A tua mente, a tua cabeça, o teu pensamento, o teu raciocínio, o que julgas ser tu e teu, imperativamente, impreterivelmente, meu caro, não é, não és. Tu és um excerto, um fato de Arlequim, és um tronco ao qual se vão enxertando mais e mais discursos, ideias, julgamentos, pensamentos. Nada de ti é teu e, no entanto, só tu és tu, só em ti está essa conjugação de textos e ideias e julgamentos e pensamentos assim constituída. Só tu poderias dar a resposta que darias ou darás nesse preciso momento, porque entre todas as igualdades e semelhanças a diferença retine o seu tinido, ou seja, só tu, nesse preciso momento, no momento em que o problema te mostra os seus dentes, te rosna ameaçando e forçando o teu retiro ao covil do pensamento, durante o processo de discernimento, de escavação até à audição cristalina do socorro da decisão, isto é, no preciso momento da tua resposta a diferença ressalta entre a semelhança, tu surges, por uns segundos, o teu instante original, quando tu afastas num gesto de desdenho da tua mão incorporal no teu cérebro, desviando toda a ganga do ouro do teu pensamento, tu surges elevando-te da lama – daí não ser tão estranho o facto de o homem, adão, nascer da lama; já reparaste que antes de qualquer acção determinante tu inspiras, tal como deus insuflou o pneuma em adão?
          «Mas já estou a divagar, uma vez mais, a perder o fio à meada. E talvez tu sabes isto, também tu o deves saber, nada do que há e é é puro, é tudo uma mistura. Este fio que perco à meada, da meada, é já ele constituído por um intrincado de fios entrelaçados, enodados, enrolados uns em torno dos outros. Puxando por um toda a maquinaria se põe em funcionamento até ao infinito. E, claro, após tantos copos e tão boa comida regada por quantos mais outros copos qualquer fio se torna o único, o singular fio de Ariana. Não, desculpa, deixa-me corrigir: não interessa o fio, um fio é o fio, todo e qualquer fio é o fio com que se cose o mundo e a vida. Não interessa onde o encontraste, de que camisola ou cós se descoseu, se desprendeu. Quando o puxas, como numa ardilosa armadilha, um gatilho é apertado e de um revólver sai uma bala apontada ao teu coração. Não sei, meu caro, não sei, talvez a decisão seja sempre este encontro do fio a descoser e o apertar do gatilho. E se te rodeiam revólveres fatais, este imaterial que te mudará o mundo e a vida, não o sendo menos, não te matará.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

a decisão (xiii)

          «Quando pedes um conselho, que tipo de resposta estás realmente à espera? Não te parece tudo uma parvoíce, justamente aquilo que não queres fazer ou que te parece como não sendo a resposta certa, a acção adequada? E porquê uma parvoíce? Porque a resposta certa é justamente o que querias ouvir? Ou porque te parece óbvia? Que outra razão senão esta: tu já sabias, tu já estavas decidido, ninguém te indicou o caminho; ou então sim, deram-te a mão e a quatro ou mais mãos, como uma equipa de salvamento, tu e a outra, ou as outras pessoas levantaram pedra a pedra o chão caído até a decisão se fazer ouvir claramente, quase cristalinamente o que para ti já estava tido como certo ─ por vezes é também aquilo que não queres ouvir o que está certo, ou é a decisão correcta, por isso tu acrescentas mais escombros ao molho, ao monte, procuras abafar a voz que murmura lá do fundo ─ mas, pensas tu, se partilhares o caminho que te conduzirá à decisão talvez não seja a que ressoa em ti, talvez venha afirmá-la e assim salvaguardas o teu raciocínio porque, pensas tu ainda, se duas pessoas chegam ao mesmo ponto como podem estar erradas? Se fores só tu a decidir, que provas tens da tua conduta: foi boa, acertada, ou má, errada? E o erro não poderá ainda residir aí, uma espécie de cego conduzindo um cego (que péssimo pensamento, como se eles não encontrassem os seus caminhos certos, acertados e bons!)?
          «Talvez a questão seja somente e mesmo essa: porque pedes conselho? O problema não é que não possas ou não consigas decidir ou decidir-te, porque continuamente, dia a dia, hora a hora, a todo o instante, quer te dês conta ou não, fazes decisões. Porém, algumas situações não se te assemelham como problemáticas, são banais, corriqueiras e qualquer pressuposto moral parece tão ínfimo ou nulo, completamente arredado da situação, que a decisão nem se parece com uma decisão. Tudo se parece mais com uma escolha cujo resultado nem é ou está certo ou errado, simplesmente é, ou seja, nada de ti está implicado, não há nenhum comprometimento, nada realmente do teu mundo muda ou se vê comprometido com essa escolha, por essa escolha, que é, quer queiras quer não, uma decisão. Todavia, essa, essa a que recorres a conselho, a qual fazes o apelo, porque lo fazes? Já pensaste nisso? Já procuraste a sua razão, seriamente? Não? Então deixa-me dizer o que penso e porque creio ser esse o problema de toda a decisão que não se te afigura como uma escolha e, no entanto, antes do apelo já a tens como certa. Esta decisão, que não é uma mera escolha, não o é porque sentes que ela implica muito mais de ti. Se a escolha te é banal porque nada nela implica um gesto moral, a tua vida não sofrerá grandes consequências com a escolha, não há compromisso nem transformação radical, ou seja, uma mudança quase nula, infinitamente pequena – e, todavia, essa escolha infinitamente pequena, banal, corriqueira, sem interesse ou tomada desinteressadamente pode mudar a tua vida –, não afectando quase rigorosamente nada, essa escolha não se pode comparar com o infinitamente grande da decisão que te tira o chão sob os teus pés. O problema da decisão, de uma decisão como esta, pedindo, apelando conselho, ou ajuda, buscando conforto nesta breve incursão no que é, ou do que é problemático, é que, como já avancei, implica vários aspectos que te incomodam, te são um desconforto, senão mesmo um fardo. Antes de mais esse enorme peso sobre os teus ombros, a responsabilidade de se ter uma consciência! Porque julgas que cais quando o chão te escapa sob os teus pés senão porque uma consciência te pesa sobre os teus ombros? Se não pensasses não terias peso! Que fardo, não é? Sempre a pesar, a pensar, a mudar de ponto de vista, ora vendo daqui, ora dali. Pesamos, sopesamos, pensamos, repensamos, andamos às voltas e voltas à procura da melhor resposta possível, a certa, a adequada, desconhecendo se tal coisa existe.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

a decisão (xii)

          «Como te dizia, eu sou esta vida impossível de separar e esta vida movimenta-se entre uma pessoalização ─ torno-a minha e preencho-a com o que se pode chamar uma história; ela é um labirinto, esta história; o seu sentido é inatendido, eu não sei qual é o meu sentido, mas faço-o, o meu sentido, o sentido da minha história ou da minha vida vai sendo feito, com erros e quedas, coisas acertadas e certezas realizadas, sem relações entre acontecimentos; é um labirinto que qualquer um pode percorrer, encontrar a sua entrada e criar a sua saída ─ e uma impessoalização, quando consigo suspender por breves horas todo e qualquer julgamento de valor. Esses são os momentos mais belos e intensos que alguma vez vivi. Há como que uma electricidade que me percorre e todas as minhas sensações são elevadas a uma potência que nunca suspeitei experienciar. Nesses momentos este rosto cadavérico esboça o que se poderia chamar um sorriso, abrem-se umas fendas, a pele estira-se e linhas geográficas, meandros de um rio interior, aprofundam-se e dou conta então do facto que não sou mais nem menos, não valho mais nem menos, que uma pedra, árvore ou um qualquer animal. Perco o meu nome, não sou mais uma identidade, sou uma hora num relógio que não mede o tempo canónico, ou crónico. Não sou do tempo civil mas de outro tempo; mas, lá está, são breves momentos, umas pouquíssimas horas de alguma coisa que acontece a mim e que faz com que esse mim desapareça... e de volta à questão: tudo o que digo, penso, procuro articular neste momento para te dar uma resposta à tua pergunta, para formular o conselho que me pedes, solicitas, só o posso realizar a partir do lugar dessa vida pessoalizada.
          «O que quero dizer é isto: do ponto de vista da neutralidade de uma vida de modo algum poderei pôr-me no teu lugar ou ser tu mesmo na situação que se dará, porque tu és uma expressão irrepetível e singular da Vida; do ponto de vista da vida da pessoalização também não posso nem poderei alguma vez seguir à letra essas duas aberrantes e paradoxais frases. Porquê? Ora, estar no teu lugar e ser tu, como já vimos, dizem a mesma coisa, vão no mesmo sentido, pelo que se assumisse literalmente o compromisso dessas frases, por um lado, apresentava-me perante ti como exemplo a seguir declarando simultaneamente que a tua vida e o teu pensamento nada valem pois são o meu e a minha que deverias imitar como um catecismo, mas, por outro lado, se eu fosse a tua pessoa ─ devo continuar ou para bom entendedor meia palavra basta? ─ ora, se eu fosse a tua pessoa eu carregaria a tua história, seria a tua vida pessoalizada, a tua metáfora, o transporte do teu sentido produzido e a produzir, faria a mesma escolha, a mesma decisão que tu já previamente tomaste a caminho do nosso encontro, porque na verdade ─ e tu bem-lo sabes, escutas a decisão, a sua melopeia ou os seus gritos abafados como um sobrevivente de uma derrocada pedindo socorro; e não será isso, afinal, uma decisão? A escavação de um sobrevivente que clama por ti, para que o salves? A decisão vem quando nos tiram os pés do chão, ou como é a expressão... escapa-nos o chão sob os nossos pés e a decisão parece então como que a separação dos escombros, o isolar da ganga o ouro. Julgas pesar todos os elementos da equação, mas, na verdade, mal te escapa o chão e te preparas para o raciocínio há um elemento repetitivo, uma resposta repetindo-se em surdina e que procuras não escutá-la, mas ela está lá, é o sobrevivente dos escombros: eis a decisão.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

a decisão (xi)

          «Estás a perder-te», disse-lhe uma vez mais. As mesas foram se esvaziando sem darmos muito conta disso. Todo o burburinho que se havia instalado esmorecera, todo esse ruído de fundo que anima as conversas, como se todas elas se encadeassem, cada uma dando o mote a outra para uma imensa e grandiosa sinfonia de ruído incompreensível se foi desvanecendo. Uma vez ou outra sobressai uma palavra bem definida, desenhada, articulada com precisão, batida quase mecanicamente, mas de resto é tudo uma modulação, uma contingente subida e descida de notas ruidosas.
          «Sim, tens razão», disse-me, «perco-me sempre demasiado quando a minha língua encontra o ritmo do pensamento e quanto mais me sincronizo, corporal e incorporalmente, porque estão, como sabes, a maior parte do tempo desalinhados ─ e nada disto tem a ver com chakras, por favor ─ porque nos fizeram assim, nos moldaram assim desde que nascemos e fomos para a escola e depois para o exército, ou um emprego. Todos separam o corporal do incorporal, modelaram-te o corpo para te criar uma alma; e quanto mais se alinham, sincronizados ficam o corporal e o incorporal, neste caso língua e pensamento, tudo entra em ebulição, o pensamento corre, foge, adianta-se, procura fluir como uma torrente de água num campo buscando o melhor caminho possível para seguir a sua direcção; e se a língua não consegue acompanhar... repara, o pé está a bater desalmadamente como se seguisse a batida de uma música de fundo, a perna sobe e desce como se fosse um êmbolo de uma máquina a vapor, os olhos percorrem todos os corredores, os rostos de quem nos rodeia e as peles em torno das unhas vão minguando a cada dentada atenta ao teu discurso, às tuas interrupções. Sim, perco-me e apanho já o fio, porque como um tear a lançadeira volta sempre.»
          Realmente eu já tinha reparado como tamborilavam os seus dedos enquanto proferia esta infindável prédica. Aquelas duas gigantescas e ossudas garras que se alargavam e se encolhiam à medida do seu discurso, duas aranhas valsando no ar suspensas nos seus fios, balançando no dorso do vento, como que tinham uma vida própria, mas também estavam comidas pelo tempo e a tensão. Não roía as unhas, mas as peles em redor delas estavam desgastadas pelo nervosismo de um roedor. Nem sei como se prendiam, por qual truque de magia as unhas permaneciam presas à carne daqueles dedos.

terça-feira, 5 de maio de 2015

a decisão (x)

          «Escuta então: se eu fosse a ti, se eu, nesse momento, fosse a tua pessoa agiria não como tu estás a pensar ou pensarias agir, mas, justamente, eu por ti enquanto sendo tu, vestindo uma vez mais a farpela de carne que és tu; ou então, se eu estivesse na tua situação e sem vestir a tua carne, sem ser o teu corpo, sem tomar posse desse teu ecrã, sendo eu ainda, eu como sou, agiria diferentemente porque quero dar-te o exemplo a seguir, mostrar-te o que fazeres, porque tu estás a fazer errado e eu correctamente o que se deve fazer, ou o que se irá fazer, o que se deveria fazer, o que se fará. Dito de outro modo, de uma maneira ou de outra eu subsumo-te, elido-te, faço-te desaparecer momentaneamente da equação ou do acontecimento, da decisão, percebes? Mas agora a questão é outra, ou no seguimento destas duas frases outra questão vem a caminho, é-nos endereçada. Esta questão é a que mais me toca, sendo o que para mim torna estas duas frases, esses dois conselhos absurdos.
          «Não existe para mim qualquer separação entre corpo e alma, espírito, mente, o que lhe queiras chamar. Para mim há vida e esta encontra o seu modo de se expressar em várias dimensões, domínios, formas, organizações. Nós somos somente uma das suas possíveis expressões com duas dimensões misturadas, inseparáveis, a corporal e a incorporal, ou se quiseres a física e a metafísica, mas ambas são o mesmo, são vida, percebes? Eu nem vou entrar em todos os pormenores do argumento, ou porque é que o homem inventou a essência que fede, essa imaterialidade. Digo apenas que uma das razões me parece óbvia. Por um estúpido desejo de perdurar quando tudo à sua volta tem uma duração maior que a sua e o seu corpo é tão frágil, apodrece, decai. O homem é uma decadência ambulatória e desde o momento em que escutou o eco da sua voz no silêncio, quando descobriu, nos corredores do seu corpo e na câmara obscura do seu crânio, que a sua voz também se pode escutar no mutismo, sem qualquer sonorização, sem abrir a boca, de imediato imaginou-se preso, encarcerado a si próprio, ao corpo que ele é. Essa voz que escuto sem abrir a boca só pode ser a minha verdadeira voz e se eu não a posso ver nem tocar, nem cheirar, isto só pode significar uma coisa: eu na verdade sou uma coisa imaterial, como o vento, ou todas as coisas imateriais que por o serem têm uma duração mais longa, acompanham o tempo desde a sua criação justo ao seu fim, enquanto a matéria é finita, morre, desaparece. Se eu sou, na realidade, imaterial, eu não posso desaparecer. Perduro, duro a duração do tempo. Quando este invólucro desaparecer, não mais se sustiver, eu fico liberto. Bom, como sabes, depois dessa descoberta houve toda essa literatura mitológica e religiosa, que desde então procuram, através de vários estratagemas e ilusões bem arquitectados, porque ainda hoje elas existem ─ as literaturas, mitologias, religiões ─, procuram, dizia, dar resposta, fundamentar e tornar real essa ficção. Mas já reparaste que tu pensas porque tu falas e te deram à força uma língua e, pelo menos, uma linguagem e não o contrário, falas porque há pensamento, porque pensas? Não interessa, tens razão, já me estou a desviar do assunto que nos trouxe aqui.
          «Escuta, eu sou esta vida, este corpo, sou material e imaterial e tudo aquilo que nos dota de profundidade, ou que parece abrir em nós um espaço mais interior e simultaneamente exterior a tudo, que ninguém pode tocar ou ver, nem nós próprios, essa experiência radical que já nem sequer é a do toque mas propriamente a experiência limite por excelência porque nunca se pode tocar a vida aí onde ela está. Não podes ver nem tocar a vida que apropriaste, mas vê-la e toca-la em todo o lado menos essa que és tu; e tu nada mais és que uma superfície dobrada uma e outra vez, folhos e plissagens, dobras e desdobras sobre dobras. E tudo aquilo que nos dota de profundidade, dizia eu, é enxertado em nós pelos outros, vem dos outros, não és tu, quando tu só és corpo animado, uma expressão entre muitas da vida ─ já não sei há quanto tempo repito isto, mas ninguém dá ouvidos, ou quer dar, não, ninguém quer escutar porque estão demasiado impregnados por essa ilusão e todos querem ser mais do que isso que são, todos querem perdurar mais do que a vida e o acaso permitem.»

segunda-feira, 4 de maio de 2015

a decisão (ix)

«Se eu fosse a ti, se eu estivesse no teu lugar... há qualquer coisa de absurdo nestes dois conselhos, que dizem, com diferentes palavras, a mesma coisa, partilham o mesmo significado, baseando-se, ou amparando-se nas ideias de mesmidade e da alma. O que nos dizem essas duas frases? Repara: se eu fosse a ti diz-nos, se eu fosse tu, a tua pessoa, ou seja, se eu estivesse no teu lugar, se eu ocupasse o teu corpo. Logo aqui parece haver um equívoco, quando ambas as frases, na sua busca de aconselhamento, procuram o mesmo significado ou intenção – neste caso um processo de aconselhamento. O primeiro, ou a primeira: só posso ser a tua pessoa se ocupar o teu lugar, mas se eu passar a ser a tua pessoa, tu inteiramente, tu serás eu, estarás no meu lugar. Ora, se assim for, não terei de infinitamente trocar de lugar contigo e adiar indefinidamente o conselho? Parece que não, porque o conselho segue mais adiante. O que acontece então? Eu torno-me a tua pessoa, a tua persona, a tua máscara, visto o teu corpo, a tua carne sem proceder a qualquer encarnação, reencarnação. Tudo se passa como se de uma metempsicose pitagórica se tratasse: a minha lama, desculpa, a minha alma salta do meu corpo, esvaziando-o, para ocupar o teu corpo, agindo por ti de modo a dar curso ao meu conselho. Ou seja, tu deixas de existir, porque eu sou tu nesse momento, no teu lugar, ocupando o teu corpo, vestindo a tua carne e quando todos pensam que és tu quem fala, quem age, quem olha, prova, se movimenta, etc., sou eu por ti, eu no teu lugar, no teu corpo, falando com a tua voz e a tua língua batendo no palato, nos dentes, nos lábios, sou tu pegando nas coisas com luvas de carne, ou sentando-me nas tuas traseiras almofadas suculentas, mexendo a musculatura para ir aqui e ali, vendo com as tuas dioptrias, ingerindo, sendo como se o teu corpo fosse um veículo, um carro, um transporte de serviço público.
«Pode ser até que tu nem saltes para o meu corpo, fazendo com que o conselho se adie, seja deferido. Pode ser até que estejas escondido dentro de ti, mas se assim for a segunda frase deixa de fazer sentido, entramos numa pura impossibilidade, se acreditamos que só este mundo existe, com esta matéria, esta física e esta razoabilidade que nos molda o discurso, a língua, o mundo. Como sabes, ou se não sabes passas a saber, costuma-se dizer que duas coisas não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, ou seja, eu não posso ocupar o teu lugar sem que tu deixes de o ocupar, que mo deixes livre e cesses de existir. Porém, a questão é mesmo essa: ao querer aconselhar-te, dando início ao processo com a condicionante se eu estivesse no teu lugar, duas coisas se passam ou podem passar. A primeira assevera o seguinte, no seguimento do que tenho vindo a dizer: para a situação, a qual o meu conselho se dirige, implica que, eu sendo eu mesmo e nunca deixando de o ser, me torne como que a tua negação, ou forço o teu momentâneo desaparecimento para ocupar o teu lugar deixado vago, sendo que sem deixar de ser eu eu serei tu, nessa situação, nesse tempo e nesse lugar em que estarei, porque na verdade és tu quem deve agir estando eu no teu lugar ─ que pesadelo isto seria se assim fosse, não é verdade? A segunda não é tão literal como possamos escutar no que é dito na frase, decorrendo antes do pressuposto de que a minha vida é um exemplo a ser seguido (senão toda pelo menos para essa situação, mas a questão, então, que vem à boca acertadamente é esta: e essa situação não será um microcosmos de uma vida? Ao aconselhar-te não estou a afirmar a excelência da minha vida, do meu pensamento, do meu raciocínio, a adequação das minhas acções e exemplo que terás de seguir, assumir ou imitar?)

domingo, 3 de maio de 2015

a decisão (viii)

 Como de costume entrou esbaforindo, de rompante, não como se quisesse fazer uma entrada espectacular, impressionante, triunfal, dizendo na sua teatralidade, eis-me, cheguei, os vossos queixos podem cair de estupefacção, eu, esta espécie de salvador irei socorrer as vossas mentes e corações da dormência a que foram remetidos. Não, de todo. A sua entrada era na verdade atabalhoada, desajeitada; por exemplo, o facto da porta principal ter espessas cortinas impedindo o frio do exterior de entrar desnecessariamente dificultou, a bem dizer, os seus movimentos naturais, ele mais parecia um insecto enredado numa teia de aranha. Houve até quem sorrisse com o espalhafato, para além de mim. Quando me viu acenou e num passo apressado juntou-se a mim, estendendo energicamente o braço e a mão para um aperto, enquanto tirava da sua cabeça o chapéu que a protegia. Tirou depois o seu cachecol e o sobretudo, permanecendo com o seu blazer de lã quadriculada – eu não sou muito dado à moda, na verdade sou bem avesso, sabendo, contudo, que é inevitável, no tempo em que vivemos, não sermos de certa maneira rotulados e apanhados num discurso, somos quase forçados a entrar nesse mundo; tenho, porém, um certo sentido estético, sei coordenar e conjugar cores e padrões e assim passar despercebido, mas ele! Há quem se esforce por parecer qualquer coisa que para ele é completamente natural, faz parte do se carácter; ele talvez até demore o seu tempo a escolher, olhando o seu guarda-roupa, o que vestir nesse dia, só que parece, bastas vezes, que a sua decisão é feita no escuro ou de olhos fechados, simplesmente realizada pelo toque, tal é o modo como se apresenta combinando cores e padrões que nada têm a ver, como pôr chocolate numa sardinha assada. Bom, não era pelo seu sentido de moda o que nos aproximava e prezava mais nele, mas bem, como já disse, o seu pragmatismo, a sua fervente inteligência. Assim que se sentou confortavelmente na sua cadeira a rapariga tatuada trouxe o menu e ele pediu um copo de vinho para me fazer companhia. Trocámos as primeiras palavras rapidamente, o “como vais?”, o “o que tens feito?” e demais perguntas e respostas da morna sociabilidade, educação e cortesia; e fazia-mo-lo enquanto deitávamos o olho à carta e mentalmente escolhíamos a nossa refeição. Ele sabia, porém, que este não era um encontro só para pôr a conversa em dia, assuntos mais sérios e prementes nos juntavam nessa noite de inverno.
«O que aconteceu, diz-me lá, consegui perceber no teu tom de voz quando me telefonaste que alguma coisa te preocupava. Espero que não seja nada grave. Alguém morreu?»
«Não, não, que eu saiba não»
«Então?»
«Eu não sei bem o que aconteceu»
«Como assim não sabes o que aconteceu? Tornaste-te um caso de amnésia temporária por acaso?»
«Talvez»
 Ele olhava-me com algum espanto e incredulidade, mas eu não sabia como explicar quando eu próprio desconhecia o que terá sucedido. Quando me perguntou do que me lembrava contei-lhe o que se passou até ao momento em que perdi o sentido da realidade.
«Percebo», disse cruzando os braços, meditabundo, naquela forma peculiar só dele e que nunca tinha reparado alguém fazer antes, não escondendo as mãos por trás dos braços entrecruzados mas ambas apertando-os ou aconchegando-os como se tivesse frio. Fez silêncio, como se pensasse profundamente, assim julgava eu, quando afinal esperava que eu continuasse, «e o que lhe respondeste?»
«O que lhe respondi? O que queres dizer?»
«Mas não te deste conta do que disseste, do que me contaste, não te ouviste, continuas um autómato como te descreveste? Ela fez-te uma pergunta, colocou-te entre a espada e a parede, como se costuma dizer e foi isso, creio eu, que te endoideceu» e repetiu a pergunta.
Alguma coisa se iluminou na minha cabeça e como se tivesse sido projectado no tempo comecei a reviver mentalmente toda a situação, mas sem fuga desta vez. Eu tinha de chegar a uma conclusão, tinha de lhe dar uma resposta, só que eu não conseguia, nesse momento que me precipitou porta fora, nem agora frente ao meu amigo chegar a uma conclusão. Tomado por uma forte angústia e uma cobardia, à falta de melhor substantivo adjectivante que expresse e qualifique a minha falsa incapacidade resolutiva, cometi o segundo erro do dia e perguntei-lhe:
«Se tu fosses eu, se estivesses no meu lugar, o que farias?»
Empalideceu. As olheiras das suas longas horas de estudo e leitura aprofundaram-se ou sobressaíram dando ao rosto um aspecto estranho, diria com intenções homicidas, por isso foi um bocado inesperado o que se seguiu e que tento apontar com a maior justeza e precisão que me é possível, passado já algum tempo desde a nossa conversa.

sábado, 2 de maio de 2015

a decisão (vii)

 Depois de ter encontrado o meu caminho pela cidade, não que estivesse totalmente perdido, mas sendo ainda novo nela o risco de me perder e chegar atrasado ao encontro eram maiores que o contrário, optei por descer por uma das avenidas que enquadram a praça que um dos escritores deste país lhe dedicou e mal me deparasse com o rio saberia não estar longe o ponto de encontro, bastava-me passar por aquela belíssima estátua que encabeçava um extenso tabuleiro sobre as águas, virar à direita e seguir sempre em frente até cortar a Rua do Caçador. Aí, num restaurante de esquina encontrar-me-ia com o meu amigo e poria fim a este inferno, este dilema que me manteve ao longo deste dia frio, terrivelmente frio, relembro hoje, afastado dela. Quando enfim cheguei a luz amarela do seu interior convidava-me a entrar de imediato e não mais permanecer ao relento dessa noite de inverno. Não estava cheio, umas quantas mesas com casais enamorados falando baixo e intimamente, uma família de turistas com o cansaço esboçado no rosto e uns empregados atarefados com nada, ou com a troca de mensagens por telemóvel e os seus comentários com os colegas. Uma rapariga tatuada de imediato se prontificou a levar-me a uma mesa, perguntando-me primeiro se tinha reserva marcada, ao que respondi negativamente. «Tinha sorte», pela segunda vez naquele dia, «hoje», disse-me ela, «era uma noite calma», assim parecia. Conduziu-me até ao fundo do restaurante onde umas mesas singulares se dispunham aos pares em frente a uma espécie de sofá. Agradou-me o lugar escolhido e sugerido por ela, tinha uma boa perspectiva da sala, das suas duas entradas e estava suficientemente resguardado de olhares dos outros convivas, podendo assim, tranquilamente, discutir o assunto ao pormenor sem silenciosos julgamentos de orelhas e olhares. Pouco depois da mesma empregada tatuada me trazer um copo de vinho vi as cortinas da porta de entrada abrirem-se e o meu amigo entrar.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

a decisão (vi)

 Há muito que tinha perdido o hábito de trazer empunhado um relógio e como os telemóveis, hoje, têm como acessório a função que os originou, fazendo tudo ou quase tudo que se possa imaginar, guiava-me por ele, era por ele que sabia as horas. Ora, não o tendo comigo, julgava-o perdido algures na cidade causa da minha fuga precipitada, não sabendo ao certo quanto tempo levaria desde esse telefone público ao restaurante localizado no centro da cidade, decidi não perder mais tempo e dirigi-me de imediato para o encontro. Percorri, por sobre as cabeças e o topo dos prédios algum sinal da antena de televisão, esse panóptico vigiando toda a cidade. Eu sei que há lá um restaurante – não era esse, no entanto, onde se travaria o nosso encontro – mas nada me tira a suspeita de que esse restaurante, esse sim, é uma fachada, um cenário e a antena cumpre, precisamente, a função vigilante e controladora do panóptico de Bentham. Lá dei por ela, iluminada como um farol para os náufragos como eu. Indo até lá pouco me custaria encontrar o caminho para o restaurante no centro da cidade. Só quando passei pela antena me apercebi o quanto tinha pedalado e o estado de alheamento que tomou posse de mim. Tendo o caos assentado praça no território dos afectos e este, como um icebergue vogando nas águas gélidas do Atlântico, abalando a razão da sua tranquilidade, afundando-a nessas mesmas escuras águas, fez-me andar pela cidade como um autómato, movido por uma mecanização instintiva que me levou a essa parte da cidade do Lago Branco. Atravessei um dos montes da metrópole, descendo para a planície do Meio, onde decerto, juntamente com o meu amigo, daria início à caçada a esse monstro que se alapou a mim, me precipitou nesta estúpida fuga. Aterrou-me esta ideia, como igualmente o facto de me ter automatizado, por assim dizer. O que terei feito durante este dia e o que realmente terá acontecido nesses últimos instantes que me conduziram a um estado quase vegetativo, quase comatoso, não tendo, ainda hoje, agora que escrevo estas páginas, qualquer lembrança, senão essa ideia de que a realidade se desrealizou, perdera a sua materialidade, a sua textura, essa que lhe dá dignidade, que a faz ser o que nos envolve enquanto a cosemos? Se alguém ler estas páginas muito acertadamente apontará que uma vez que a cosemos a realidade, então, não tem por si mesma textura, ou materialidade, que a realidade não pertence ao domínio da matéria descobrindo-se no outro lado do espectro, justamente sendo espectral, sendo de outro domínio, o da imaterialidade. Poderei concordar, claro, mas neste caso, então, significa que eu perdi nesses instantes, nesses momentos caóticos levando-me à estúpida e precipitada fuga justo até ao meu despertar, ou seja, após o telefonema, o fio com que coso a realidade, com que doo textura e materialidade e isso é ainda mais aterrador, porque a realidade continuou lá onde sempre esteve nesse silencioso e secreto processo de construção acordado por tudo o que existe, menos por mim. Podia tranquilizar-me, no entanto, pois de novo coloquei os gonzos nos seus eixos, no eixo do mundo e este autómato já ganhava carne e a fome dava-lhe um novo sentido à realidade. Por vezes, digo eu agora, é preciso perder o tino, a razão, o que nos sustenta na segurança que nos faz ignorar, exactamente, esta relação às coisas, às pessoas, a nós, ao mundo até levarmos uma enorme chapada na cara, neste caso uma fome primitiva que arredou de mim qualquer desrazão, qualquer tormento. Claro que se tratava de uma chapada e uma fome de primeiro mundo, ou seja, uma coisa ridícula se pensarmos bem nisso e compararmos essa fome à de outros; mas como estamos quase sempre centrados no nosso pessoalíssimo mundo acreditamos ser essa fome a maior e mais cruel – dou-me conta, também agora, que a influência do meu amigo teve um alcance maior do que o esperado: estas palavras, creio, são mais suas do que minhas, repito, são dele, não minhas.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

a decisão (v)

 Do pouco que me lembro de todo esse tempo, da manhã da minha parva e precipitada fuga pedalando ao longo do rio, passando pelas pontes que o romantizam, cheias de cadeados de amores que talvez hoje já nem existam, mas colocados e alocados à vista, esses aloquetes que prometem um amor que apenas se abrirá com a chave dos amantes, ou então com o alicate que os corta. Pouco me lembro por onde passei. Tenho uma vaga lembrança de ter entrado num espaço fechado e luminoso que me atraiu, como uma vela ou lâmpada atrai as borboletas e demais insectos, cheio de espelhos e luzes brancas. Lembro vagamente ainda de ter falado com alguém que me tratou com delicadeza e educação, que me guiou pelo espaço, lentamente, na minha rectaguarda, parando defronte a cubos de vidro elevados por colunas rectangulares brancas. Depois de ter ficado de olhar retido num cubo por mais tempo do que nos outros, a pessoa conduziu-me a uma longa mesa e de seguida saí. Fiquei parado à porta desse espaço ainda alguns segundos mais, mãos nos bolsos do casaco, punhos cerrados e coração de novo descompassado, com a sensação de que tudo retornava, tudo aquilo que tinha sido desanuviado com a pedalada ao longo do rio e as pontes que o reticulam. Ali parado, olhava a minha bicicleta, uma mão apoiando o rosto sucumbido ao peso do alheamento e do não-saber-o-que-fazer, a outra ainda teimosamente fechada no bolso do casaco. Não sei quanto tempo isso levou ou o que estava a acontecer, sei que acabei por procurar o meu telefone em todos os bolsos repetidas vezes. Tê-lo-ia perdido? Revirei os bolsos: chaves, algumas moedas, lenços de papel usados e secos de tanto uso, sacos de plástico para os cães, as luvas que por alguma razão voltaram a surgir nos bolsos, o B.I. e o meu cartão multibanco, como também uma caixa negra. O mais certo, pensava eu na altura, é tê-lo deixado em casa e, de facto, deixei como vim mais tarde a saber. Despertei, por assim dizer, dessa modorra quando reparei, mesmo diante mim, uma dessas desabitadas e solitárias ilhas outrora sempre concorridas. Dirigi-me a ela, resguardei-me entre as suas duas paredes de vidro estilhaçado – estas ilhas, cada vez mais, são alvo de violência porque o seu uso, hoje em dia, é quase nulo –, peguei no auscultador, inseri umas quantas moedas e marquei um número. Por alguma razão, talvez ainda sujeito ao caos dos últimos instantes, não liguei para ela mas para um amigo que decerto me podia ajudar a perceber o que se passou e o que deveria fazer. Na verdade, foi uma sorte ou um golpe do destino, diria eu se fosse supersticioso, ter o seu número decorado, bem como apanhá-lo em casa e em boa disposição. É que só poderia ser ele quem me podia libertar do apuro, tal como fez em boa hora, só podia ser ele e o seu pragmatismo, a sua lógica cirúrgica, o seu determinismo desapaixonado. Fiz, portanto, a chamada para o meu amigo, marcando um encontro com ele num restaurante porque ele estava com fome e, afinal, era já quase noite e eu nem sequer tinha dado conta, iluminado pelas costas por toda a luz que emanava do espaço. Concedi, porque não, jantar já que jejuava desde manhã, pedalei pela cidade e de certo modo mais desperto agora, por ter travado essa curta conversa com o meu amigo, reparei dolorosamente que estava com uma fome monstra. Marcámos encontro para um restaurante que ambos conhecíamos no centro da cidade.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

a decisão (iv)

 Conduzi pela cidade longamente, o dia passou pelas minhas pernas e o cansaço que se podia esperar de tanta pedalada não se fez notar uma única vez. Posso hoje dizer, agora que escrevo estas linhas para me certificar que a realidade é real, que tudo o que antecedeu o meu encontro com o meu amigo tem a mesma textura, partilha o mesmo tecido, o mesmo véu que faz a realidade ser ela mesma. Não que o nosso encontro não tenha sido igualmente desconcertante, como também não sei se conseguirei apontar, palavra a palavra, todo o seu discurso, todo o seu profundo discurso. Quando reler estas páginas, em especial a prédica que me concedeu em torno do meu problema, da razão de me ter posto na alheta, como se costuma dizer, de ter escapado, fugido daqueles últimos instantes, sei que em nada se comparam à realidade do seu discurso. São as minhas palavras sobre o que ouvi, preciso de me lembrar disso, porque, de facto, muitos filtros se intrometeram já: 1) o que ele pensou, 2) isso que ele pensou mudado para a linguagem em tempo real perante mim, dois momentos separados por micro-segundos e ilusoriamente dados como o mesmo momento; depois, 3) o filtro que cobre ou protege as minhas percepções como a audição, que não é nem se dá como o de outra pessoa qualquer, cada um é uma variação de uma pequeníssima diferença que faz, absolutamente, toda a diferença; sem esquecer 4) o modo como o que é escutado se conecta com a outra pessoa, como uma particular linguagem ou idiolecto se conecta com o idiolecto da outra pessoa, por vezes procedendo por ligação directa, dando a sensação do óbvio, outras vezes rangendo, como se duas máquinas devessem se ligar mas as partes que cumprem essa função estão desajustadas, por não se moldarem, por falta de óleo, eu sei lá e então rangem, saltam, matraqueiam, dando como resultado a incompreensão, os equívocos, os mal-entendidos e 5) como tudo isso foi passado para estas páginas, mediatizado, diferido e deferido no tempo e no espaço. Tudo isso tenho de ter em conta quando reler o seu discurso, sabendo de antemão que o que escrevi, a cópia de todo o seu palrar, é uma versão do que foi dito, a minha versão da sua versão – quererá isto dizer que, por isso mesmo, também isto é ilusório? Continuo mergulhado nessa impalpável realidade? Não, não posso crer nisso, não posso perdurar nestas dúvidas, de mais a mais agora que tudo está esclarecido, que os pontos estão nos is, que acertámos os nossos ritmos.

terça-feira, 21 de abril de 2015

a decisão (iii)

 Dirigi-me para a direita, segui a rua até ao seu final, passando a piscina pública transpirando a lixívia, a igreja presbiteriana ou russa ortodoxa, sinceramente não sei se uma ou a outra, sei somente que quando há ofício os homens vêm de fato escuro, todos muito semelhantes entre eles e, muitos deles, com chapéus e as mulheres de saias compridas e camisas brancas com folhos e xailes floreados, ou de tons igualmente escuros. Subi a passagem que se dirige para o Hospital público e guinei para o parque que segue o curso do rio, pelo menos assim julgo me ter conduzido longe do prédio, do pátio interior, das escadas que sobem até ao apartamento, da porta limitando-o, dela e desses últimos instantes. Eu já nem sei precisá-los. O que aconteceu está demasiado embrulhado. Sei que falámos, trocámos palavras, discutimos ideias, sei que se acendeu qualquer coisa entre nós, em cada um e, depois, tudo ficou indistinto: veio o descompasso do coração, o tremor das mãos, a secura da língua, o deserto salgando as cordas da garganta, a respiração desenfreada, como se naqueles reduzidos metros do apartamento tivesse corrido a maratona, a ausência do sexo na voz, a variação de silêncio, austero, monástico, aquático, as bombas auriculares estagnadas nos meus ouvidos como se o crânio, um terrível senhorio, tivesse desalojado o cérebro e no seu lugar hospedado o coração, viajando por este corpo acima, tal era o industrioso labor do sangue nos tímpanos. E de vez em quando a sua maviosa voz falando, sobressaindo do silêncio ou tirando a minha cabeça da lama em que chafurdava para de novo ser mergulhada. Começou também nesse momento a desrealização da realidade, o que os olhos viam era uma ilusão, o que percepcionava ou quem percepcionava já não era eu, ou era eu vendo-me a ver e desacreditando da realidade. Não sei se me consigo explicar melhor: era eu que ali estava vendo mas como se tivesse outros olhos por trás dos meus olhos vendo em duplicado, vendo o que eu via sem me ver a ver, sem me vendo. Não era uma experiência de desmaterialização do corpo, eu não tinha saído de mim mesmo e pairava brumosamente em torno de mim vendo-me. O que se passou foi isso que estou a tentar dizer: eu via, eu estava ali e via, mas o que via era estranho, como se eu estivesse a ver o que acontecia de modo diferente ao que estava acostumado a percepcionar. Eu tinha-me tornado estranho a mim mesmo. Alguém estava no meu lugar e esse alguém era eu. Eu via o que eu estava a ver, não com um atraso, mas simultaneamente, em duplicado. Talvez por isso tudo estivesse a ficar confuso, ou ainda esteja ou me explique confusamente.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A decisão (ii)

 Atravessando a porta que dava para o pátio interior, som e imagem cambiavam a sua indistinção, ora um se tornava mais claro, ora outro. Por vezes, o som bramido das alturas trespassava o ar e dava conta que os tais últimos instantes, que me precipitaram porta fora em desorientada fuga, decorriam ainda em aceso lume; outras vezes, era o cenário exterior do mundo que se materializava, me dizia silenciosamente a sua palpabilidade, que os meus olhos permaneciam nas suas órbitas e só a minha experiência da realidade, digamos a minha consciência, se cindia, se dividia, ou para usar uma palavra cara ao meu amigo, se dobrava. O som, as vozes, os gritos já não faziam parte da minha realidade agora, nem o quarto, nem ela. Eu estava ainda encerrado numa sala (embora me encontrasse já a atravessar o corredor da saída do prédio transportando a minha bicicleta, abrisse já a porta para a rua usando não sei que processos circenses de equilíbrio, numa mão a pesada bicicleta do século passado, talvez da década de sessenta ou setenta, uma bicicleta mais velha do que eu, a outra abrindo o trinco e puxando a porta para que ambos saíssemos – fosse outra a disposição de humor e toda essa palhaçada, essa macaqueada que realizei, com os pedais a chutarem as minhas canelas, o guiador enfiando-se no meu estômago num soco de um peso mosca, a porta entravada pela roda dianteira umas duas ou três vezes no tempo certo da comédia e tudo isso me poria a rir de mim mesmo – estacando na rua, reconhecendo o espaço, o cenário que montaram para mim, olhando para um lado e para o outro, para a direita e para a esquerda, ansiando que um dos lados me indicasse o caminho a tomar); e nessa sala assistia a um concerto de religiosos Sufi batendo os seus tambores e ritmando a música com as suas audíveis respirações. Toda essa trupe cantando numa língua para mim completamente desconhecida, a língua do ritmo de uma respiração e da batida de tambores, tudo isso era eu motrido por este caos, à falta de melhor palavra para descrever a confusão que me dominava. Eu sei que os meus pés calcavam já o passeio de pedra, que as mãos geladas pelo frio de inverno amparavam a bicicleta que não se erguia por si própria, já que não tinha descanso, eu via tudo o que me rodeava, os carros estacionados ou matraqueando no basalto, outras tantas bicicletas encadeadas em armações enterradas nos passeios de propósito para os ciclistas, as árvores nuas abanadas pelo vento, que segundo os meteorologistas provinha das estepes siberianas – um vento laminado que entrava por nós a dentro, nos trespassava, nos varava, invadindo este território que procurei fechar com o fecho-éclair e os botões, as luvas de lã com feltro por dentro, o gorro semelhante às luvas, esse vento das estepes um Gengis Khan cavalgando com o seu exército e com a sua cimitarra cerceando o calor que se queria isolado –, pessoas sentadas no café da esquina bebendo bebidas quentes e fumando os seus cigarros, toda a mistura de vapores exalados, a merda dos cães nos canteiros que os donos se “esqueciam” de apanhar (quantas vezes me irritava quando, apanhando a merda que a minha cadela largava, pisava a de outro cão!), o sol esbranquiçado por trás de uma neblina em redoma por todo o céu – não seria isto, precisamente, um sinal de que tudo era um cenário? Eu quase que podia contar quantos segundos separavam a passagem de um carro de um outro, aqueles homens erguendo o cigarro até à boca para a próxima inalação, ou a caneca ou chávena fumegante aos lábios receosos de se queimarem. Uma boa equipa científica que procurasse realizar esta experiência não teria de, em vez de tudo organizar segundo uma mecanização rítmica, os movimentos dos intérpretes e dos objectos, permitir o acesso do acaso? Uma certa liberdade de improvisação dos elementos cénicos? Não seria isso mais próximo da realidade, levando-me a crer que afinal isto era real e não um drama que se dispunha aos meus olhos, uma experiência? Mas que sei eu? Eu não sou assim tão perspicaz, esperto ou inteligente, embora não totalmente estúpido ou burro. Parvoíce, tudo somente parvoíce. Já me tinham dito ser um pouco paranóico; e só hoje posso, agora em que escrevo estas palavras, em que procuro perceber o que se passou e como cheguei à decisão que cheguei, colocar estas questões e procurar entendê-las. Então, naquele momento, realmente, tudo estava confuso.

domingo, 19 de abril de 2015

A decisão (i)

(durante os próximos dias irei pondo à vossa disposição, parágrafo a parágrafo, este conto escrito nas pausas do meu trabalho enquanto lavador de pratos num restaurante em berlim. espero que apreciem e, se assim entenderem, partilhem)

 Quando a porta bateu já eu descia as escadas quase desenfreadamente. Sei que a porta bateu, porque bate sempre, sempre se fecha, mas o seu som, o batido, o fecho, deu-se demasiado longe dos meus ouvidos. Eles estavam por demais ocupados, pelo que, embora certo de que o trinco encontrou o fecho e a porta cumpriu o seu propósito de limiar da entrada do apartamento, o seu som foi quase por completo abafado. Nos ouvidos só o coração bombeando, um coração que no peito galopava freneticamente, fazendo com que a respiração se acelerasse, uma estranha tensão se acumulasse na nuca, na base, no gonzo que permite ao crânio algum movimento limitado; e o sangue, assim me parecia, pressionava os nervos dos meus olhos, humedecendo-os, mas não eram lágrimas, digamos antes uma tensão aquosa. Mais ao longe eu percebia gritos que se distanciavam com a descida em corrida. Não sei quem gritava, se seria ela ou outra qualquer pessoa no prédio. Estes gritos tinham entrado naquela dimensão na qual a voz perde o seu sexo – se alguma vez uma voz teve sexo ou género –, tudo se torna indistinto, variações guturais, animalescas, um som estridente, agudo e simultaneamente grave, em que toda a razão está ausente. Claro que só posso falar desses gritos nestes termos visto que me distanciava, correndo escada abaixo, degrau a degrau. E se estivesse no espaço em que os gritos emanavam por certo entenderia um género, distinguiria um raciocínio, uma lógica qualquer pertinente e associada ao motivo dos urros, mas eu já ia longe nas escadas, enquanto o meu cérebro se achava envolto numa densa bruma que me afligia. Tudo em mim corria, os olhos perdidos e gazeados mergulhando para um interior, vendo as escadas sob os meus pés vogarem à medida dos passos, o corrimão e as traves que o sustentavam vistos na perspectiva do movimento, fugindo e, simultaneamente, enquanto me davam o mundo exterior os olhos interiorizavam-se, voltavam-se para a memória dos últimos instantes, esses que me conduziram a esta fuga precipitada, como se eles, os olhos, tivessem ficado para trás, ficado lá no apartamento. Não era uma montagem, nada disto era cinematográfico, tratava-se de uma intimidade que escapa a tal processo. A imagem não se dividia, nem se sobrepunham duas numa transparência pelicular, nada disto era uma fotomontagem. Era, talvez, uma pura dobragem, como diria o meu amigo, eu via o mundo diante mim e ao mesmo tempo os olhos permaneciam no espaço daqueles últimos instantes. O que me afligia e dava um ambiente quase fantasmagórico, alucinante, talvez esquizofrénico é que o mundo, mais do que aqueles últimos instantes, esse, sim, era falso. Talvez tudo não fosse mais que um cenário de cartão e um sistema de roldanas e rodas dentadas com cordas, bielas e manivelas, movido por não sei que maligno demiurgo ou equipa científica e tudo isto uma experiência clínica e eu estou ainda no apartamento, ou no cenário do apartamento e o mundo está a passar diante dos meus olhos com o único intuito de me fazer perder o nexo.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A decisão (um conto ou novela em progresso)

 Tendo o caos assentado praça no território dos afectos e este, como um icebergue vogando nas águas gélidas do Atlântico, abalando a razão da sua tranquilidade, afundando-a nessas mesmas escuras águas, fez-me andar pela cidade como um autómato, movido por uma mecanização instintiva que me levou a essa parte da cidade do Lago Branco. Atravessei um dos montes da metrópole, descendo para a planície do Meio, onde decerto, juntamente com o meu amigo, daria início à caçada a esse monstro que se alapou a mim, me precipitou nesta estúpida fuga. Aterrou-me esta ideia, como igualmente o facto de me ter automatizado, por assim dizer. O que terei feito durante este dia e o que realmente terá acontecido nesses últimos instantes que me conduziram a um estado quase vegetativo, quase comatoso, não tendo, ainda hoje, agora que escrevo estas páginas, qualquer lembrança, senão essa ideia de que a realidade se desrealizou, perdera a sua materialidade, a sua textura, essa que lhe dá dignidade, que a faz ser o que nos envolve enquanto a cosemos? Se alguém ler estas páginas muito acertadamente apontará que uma vez que a cosemos a realidade, então, não tem por si mesma textura, ou materialidade, que a realidade não pertence ao domínio da matéria descobrindo-se no outro lado do espectro, justamente sendo espectral, sendo de outro domínio, o da imaterialidade. Poderei concordar, claro, mas neste caso, então, significa que eu perdi nesses instantes, nesses momentos caóticos levando-me à estúpida e precipitada fuga justo até ao meu despertar, ou seja, após o telefonema, o fio com que coso a realidade, com que doo textura e materialidade e isso é ainda mais aterrador, porque a realidade continuou lá onde sempre esteve nesse silencioso e secreto processo de construção acordado por tudo o que existe, menos por mim. Podia tranquilizar-me, no entanto, pois de novo coloquei os gonzos nos seus eixos, no eixo do mundo e este autómato já ganhava carne e a fome dava-lhe um novo sentido à realidade. Por vezes, digo eu agora, é preciso perder o tino, a razão, o que nos sustenta na segurança que nos faz ignorar, exactamente, esta relação às coisas, às pessoas, a nós, ao mundo até levarmos uma enorme chapada na cara, neste caso uma fome primitiva que arredou de mim qualquer desrazão, qualquer tormento. Claro que se tratava de uma chapada e uma fome de primeiro mundo, ou seja, uma coisa ridícula se pensarmos bem nisso e compararmos essa fome à de outros; mas como estamos quase sempre centrados no nosso pessoalíssimo mundo acreditamos ser essa fome a maior e mais cruel – dou-me conta, também agora, que a influência do meu amigo teve um alcance maior do que o esperado: estas palavras, creio, são mais suas do que minhas, repito, são dele, não minhas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Almost a children story

first chapter

for a long time i have been astray, wondering lost across the land. not only lost but alone too, with open hands holding air. well, those days are over, the hand is filled with hand and the air only circulates in the lungs. loneliness is but a moment when your body is too tired and your eyes too heavy and you must go to sleep, or later in time when you must die - this «must» it is not a moral duty, or at least not towards society only to nature and life.
and what about being lost, you ask. well, that's a condition that it is hard for me to clear off of my feet, as it is difficult to dismiss the amazement feeling i hold and dearly cherish every time i walk and see the world.

what i did? nothing, i didn't do anything. this wasn't a question of doing or not doing something, but rather of happening. something happened and i was blessed and met a lioness. i guess, as me, she was wandering too and maybe i too blessed her. nevertheless, i feel a power pulsing within and all thanks to her. she appeared out of nowhere, a black, blue, brown figure through a green field of grass, head held up high, proud as the queen she is, with steady steps as if she was plowing the land planting seeds. that walk stroke me as an unpredictable wave catching by surprise as you rise up from a deep dive on a beach, and still, every now and then, her walk sets loose something inside of me: a mouse finding its way in desire's maze.

that first day and the sequent ones - the earliest of the early days - we didn't exchange much words. i remember i questioned myself often: how do you speak to wilderness, to a wild thing, in which language must one speak in order to both beings freely understand each other? we found a way in the middle, though both of us weren't secure how to proceed. maybe this is how languages were created at the dawn of ages, by the collision of two lives and two wills bringing closer what lies at the distance around those two beings and the infinite inner landscapes of them, bearing at hand and mouth. what i mean is, we had to invent a language of our own, her being a lioness and i this old furry monkey.

she came from a distant land, a country called Hungar, where hunger lived in every place and in everything thing and being, a land where rivers were thirsty and rocks ate rocks. how she appeared no one can say for sure. some say, and i do believe it's true, she was born out of a tear of the last giant royal eagle. the last  of her new born baby eagles had just died, even before trying how to fly, and filled with huge pain she flew towards the sun. as she drew closer she started to burn feather by feather, but this crystal tear vibrating with immense love and passion for life fell from one of her golden eyes from the sky until it reached an almost dead seed thriving for survival. that seed grew into a plant and that plant blossomed into a flower and when the time came instead of what everybody was expecting, an open and colorful flower, out of it came her, this lioness. she stumbled out of the flower and rolled on the ground, but when she first put one of her paws, the front left one, on the side of the heart, to set motion to her walk, a cloud of dust liftted up from the land where river had thirst and rocks ate rocks, a cloud that gather all the dust of the land, and suddenly the wonder appeared, the earth was brought to life, and as she walked proudly with her head held high, just like i saw her walking on the first time, the green came covering the dirt and the cracked dried mud, the plants and shrubberies grew back to their form, the trees nourished fruits and plants and welcomed back the animals and no longer a river drank a river or a rock ate a rock.