sábado, 20 de junho de 2020

Carta ao filho

leguei-te a dor do mundo
o lamento em cada
olhar de animal
espoliado da sua vida

sempre tivemos o suficiente
mas por mais
lendas e mitos         frutos fogo
                                               asas coladas a cera
move-nos um desejo insaciável
de tocar o impossível         uma sede
de sermos amados         vistos como obras
de arte        únicos         indeléveis
no tempo         para além da morte
duas criações que também a ti deixámos

dói-me esta língua de gritos
choro e silêncio e é o que me resta
de mais delicado
com ela chego a ti antes de nasceres
endereço-te poemas
para que atravesses o imperdoável

sexta-feira, 29 de maio de 2020

para um eloquente silêncio

poema publicado no Jornal Mapa, nº 27, Maio-Julho de 2020

tudo é o mesmo dito de outro modo
e ainda os pés pela boca
em busca de avessos
a revirar os bolso
                                      despi-la
                                                   e nua
escandalize o sentido
de uma noite sem ninguém

dizer         olhos nos olhos        peixe é estrela
e todas as tuas palavras são minhas
como toda a ruína da pequena felicidade
arreda a paixão do rosto

na linha a respiração rouca
aguarda o desaguamento
                                      no mesmo mar
na mesma fenda
                         o tragar de toda a separação

e nada jamais seja preciso dizer
para um eloquente
silêncio

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Heart of Glass (Philip Glass meets Blondie)

tudo se enche de si

poema publicado no Jornal Mapa, nº 27, Maio-Julho de 2020


a tristeza abriu a sua navalha
junto ao meu pescoço e arrepanhando
o barroco dos meus cabelos
encostou o meu rosto à janela

olha como chove sem parar há dois dias
pendendo um pouco mais a desequilibrada
partilha das coisas nesta terra
o magnetismo do mais e do menos foi
a excepção que se impôs como regra
a atracção dos opostos é uma canção
                                                         romântica de embalar
são os iguais que se unem
uns aos outros
o excesso vai-se excedendo
o insuficiente por igual se acresce
a raridade depara-se com o ainda mais raro
em torno         o ódio clama por mais e quando falta
o amor mingua como a uva na parra
o deserto alastra as suas areias
                                               pelas planícies esquecidas de árvores
e a água engole os campos incapazes
de a sorver         tanto que os vermes se desenterram
em pânico para se afogarem
sob a bátega e arroios de lama

há uma lei que aqui se oculta como a beleza
sob a podridão das coisas         tudo
se enche de si justo ao limiar
depois         como uma criança nos seus primeiros
passos transportando um prato cheio de papas
          vira-se o mundo do avesso         ou noutras
palavras para os cinéfilos
                                      quando Uma e Lucy se defrontam no pequeno
jardim nevado nas traseiras do clube
a tensão         como sabes         cresce quando
o silêncio é ri-tmi-ca-men-te cortado
pelo som de madeira a bater em madeira
e água a cair
é esse improvisado balde de bambu
que se enche e se esvazia
                                       uma e outra vez
                                                               a lei que rege esta criação

sim         disse-lhe         mas não sejas tão dramática
guarda a navalha
deixa que te embale a fatalidade
e te mostre que há sol ainda
quando a minha língua abrir a escuridão

terça-feira, 21 de abril de 2020

para habitar este mundo

a luz declina com suavidade
no dorso do vento

(leva-te         como às folhas
das bétulas e faias abraçadas
à sua secura          pela melancolia
das autoestradas nas tardes de verão

como saltando entre duas margens de um ribeiro
vais de sala em sala         perdes-te
entre memória e pensamento         eriges)

o espaço da ficção para habitar
este mundo

segunda-feira, 6 de abril de 2020

estar à superfície

é possível que a memória me evada na corrente
de ar entre dois pensamentos
as noites brancas da cidade incendiaram
demasiadas páginas escritas uma e outra vez
no corpo de uma vida         permite
peço-te         permaneça intacta a paixão do olhar
o teu rosto à luz de cabeceira
onde o poema faz sombra à máquina

quando era criança amedrontava-me
com o mundo invisível sob os pés
o infinito das paredes do quarto engolido pelo escuro
conhecido pelas pontas dos dedos e
os olhos muito abertos para o nada
ou o vazio pesado das respirações
cheias do sono tranquilo dos irmãos
e de uma lonjura tão próxima que arrepilava
o rugido cavernoso do pai enquanto monstro
das trevas absolutas e a solidão de ser
o único desperto para o medo

depois conheci o fundo         exalava
deixava-me imergir até à areia enrugada
e o pulmão arder de azul
e tudo gritar que voltasse por mais
pacifico fosse o encosto no útero do mar

reconheço a lição do corpo
numa estética como um rizoma de nervos
mais pregnante que a razão tatuada
tenho ainda o olhar aberto e o medo
é hoje como um cotão ao canto do quarto
iluminado pelo seio solar da noite
tudo subiu à pele nesse dia dedicado
à intimidade da carne exposta
ao terror da criança

a morte avança como nós pela água adentro
e as tuas mãos relembram-me a fragilidade
de estar à superfície

domingo, 5 de abril de 2020

Dança de Domingo (Sunday Dance) - Here goes Magic: how do i know

começa hoje - vamos lá ver por quanto tempo tenho paciência para continuar - o post semanal Dança de Domingo/Sunday Dance. Basta ouvir e dançar para animar o corpo contra a letargia.

sábado, 4 de abril de 2020

sobretudo o corpo (viii)

VIII

sobretudo o corpo
entre dom e declínio
lugar e árvore
pendendo sob o vento
no socalco
de terra rossa
entregando os ainda
frágeis botões à geada

sopro despedindo-se no tempo

sexta-feira, 3 de abril de 2020

sobretudo o corpo (vii)

VII
o inverno veio com a primavera
neve em lufadas como cinza
dos mortos largada aos ventos

o exílio da doença conhece agora o frio
ajusta o famoso azul sobretudo ao corpo

quinta-feira, 2 de abril de 2020

sobretudo o corpo (vi)

VI
sobretudo o corpo da terra
                              do animal
                              da criança
                              da mulher

(diz-me não estás cansado
no segundo fora do tempo
interrogando o teu reflexo escorrendo
baba de hortelã
                                         de seres criança perene
                                         mijando na cama
                                         e acusando o outro
sobretudo o seu corpo)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

sobretudo o corpo

I
sobretudo o corpo        lembras-te                 o olhar
atrapado pelo desejo e todo o silêncio
de uma conversa com a tempestade

a mesa posta         a vela a dar valor
às sombras nascidas no teu rosto

o intruso veio pelos suaves corredores
interiores do ar leva
a vida para o exílio a dois
com a morte à porta

cada segundo        mulher        é o paraíso
                                                                    roubado à perdição

sobretudo o corpo (v)

sobretudo o corpo e a ignomínia
da imagem        rendido à tua palma
como a fera à ostentação do olhar
para a tortura do belo

terça-feira, 31 de março de 2020

sobretudo o corpo (iv)

IV
sobretudo o corpo e a pertença
aos sentidos o olhar dado aos relevos
da carne e tu         na varanda         preparando
o metal onde a lavanda acentuará
no seu verde esmaecido o dilúvio
do um aroma nas noites de verão

domingo, 29 de março de 2020

sobretudo o corpo (ii)

II
sobretudo o corpo        disseste        os olhos
tremendamente abertos para o fascínio
da vida         um rochedo frente à maré
da ruína que avança no baldio dos dias


nas paredes os rostos do passado caem em favor
de horários na ilusão da passagem das calendas
para que a solidão não morra de tédio      

quarta-feira, 18 de março de 2020

la folie d'óphelie

há um ribeiro nesse prado
onde poderia ter afogado
a minha loucura         bebi-a da taça
de um rapaz visitado pela memória
de um deus                                        eu que fui
guiada pelas lições do servilismo

conheci o meu lugar nessa arena
da política interna         emudeci a voz
na presença das figuras da lei que encontraram
a morte atrás do pano

talvez esse rapaz me quisesse
dar a liberdade
era ainda um homem que ma oferecia
com as suas palavras doces de poeta
que a meio do caminho percorrido juntos
me transformaria de corça em cabra
das suas frustrações         quando a carne cedesse
à gravidade do tempo e do cansaço
após o espaçamento do ossos
para que uma vida o habitasse e atravessasse

tudo tem o seu limite        percebi-o
quando o ribeiro engoliu as margens
à medida que as minhas lágrimas sublinhavam
um MAIS NÃO a esgarçar o véu
                                                     dos meus dias submissos

enraizei o resto da minha vontade
como essas árvores no leito lodoso
a corrente levou a conta desta breve vida
para longe         para longe

quinta-feira, 12 de março de 2020

que palavra passou além da barreira dos teus dentes? (conclusão)

V
conheço bem essas duas estações
na via de uma vida e não mais te quero
fazer sofrer         a minha intenção é somente
encontrar-te a meio caminho
aí erigir uma casa livre de
desejos sonhos tentações         todos esses pretendentes
que sempre nos apartem e nos arredam do rumo
a essa felicidade que se abre no fim do conhecimento

Mulher mais bela que todas as deusas
não digas nada não penses agora não faças perguntas
vem comigo ofereço a minha própria vida em testemunho

Dezembro 2019-Janeiro 2020
escrito com versos, ligeiramente modificados aqui e ali, da Odisseia na tradução de Frederico Lourenço.